A vida como tarefa a realizar

1 – Ser feliz é anseio de toda pessoa. 2 – Perda do sentido da vida. 3 – Ter um ideal é motor para as ações. 4 – Para gestar um ideal de serviço ao próximo. 5 – Cada um é ator de sua própria história

1 – Ser feliz é anseio de toda pessoa

    Ser feliz é o anseio de toda pessoa. O que torna uma vida feliz? A felicidade não é um bem solitário, mas tem em vista o bem de outras pessoas. Yepes, em seu livro Fundamentos de Antropologia, diz que a vida humana não se constrói solitariamente: se não há um alguém, um destinatário a quem oferecer os esforços, a vida fica aborrecida, sem sentido. O esforço pessoal deve ser um dom ou benefício aos demais. Quem não tem alguém para compartilhar, sente-se só. Entregar-se aos demais é o modo mais intenso de amar, e ajuda a encarar com mais fortaleza as dificuldades, já que o bem almejado não é somente para si, mas tem um beneficiário. A felicidade está em saber amar, em tornar feliz a pessoa amada: ser feliz é destinar-se à pessoa amada. Se ficar truncada a capacidade de amar, a vida humana perde sentido. O engano da vida fácil ou a falta de capacidade para o sacrifício torna ausente qualquer motivação e faz perder o sentido da existência pessoal: se não há um projeto de serviço aos demais não se pode ser feliz, pois a trilha do egoísmo conduz à tristeza.

    “O que se necessita para conseguir a felicidade não é uma vida cômoda, mas um coração apaixonado”, disse Escrivá de Balaguer. O que preenche o coração humano não são coisas, mas o amor às pessoas, sendo a primeira delas Deus e, por Ele, as demais, iniciando pelas mais próximas. O grau de felicidade de alguém está na sua capacidade de amar: trabalhar na enfermaria de um hospital, montar redes de internet para facilitar a vida dos demais, administrar uma empresa, estudar medicina ou preparar aulas são tarefas em benefício dos demais, e os esforços não teriam sentido se não houvesse a quem dedicá-los. Por isso, se diz que o mais profundo e elevado do homem está em seu interior, e que a felicidade afeta a pessoa em seu espírito, sem confundir-se com sentimentos que passam, nem com o prazer pontual que acaba ou com a posse de objetos que se estragam ou se tornam obsoletos. Há pessoas que não encontram sentido na vida e se enganam enchendo-a de prazeres que rapidamente necessitam ser substituídos.

2 – Perda do sentido da vida

    Há uma forte crise de projetos vitais, e muitos não sabem por onde seguir por falta convicções ou verdades e valores a que se inspirar. Quem não encontra razão para viver não se lança e fica desmotivado, e o coração se empequenece por falta de ideais, ou porque os projetos são exíguos e não vale a pena se arriscar por eles, ou porque se teme o esforço de de realizar algo que vale a pena. A falta de um projeto de serviço aos demais, o engano da vida fácil, torna insípida a existência. Há pessoas que por falta de um projeto se enganam e passam a trabalhar e a viver apenas para usufruir de pequenos prazeres pontuais: academia, passeios, vídeos, comidas, muito esporte, baladas, novo aparelho eletrônico, viagens… Com isso, transformam em finalidades de sua existência o que deveria ser apenas um meio para descansar e retornar ao projeto maior com ânimo renovado. Outros, ainda, trabalham apenas para si e sua família, e fecham os olhos às necessidades materiais, espirituais, culturais e profissionais que carecem tantas pessoas ao seu redor. É preciso motivar com palavras, exemplo e ações propositivas aqueles que se tornaram indiferentes aos que sofrem.

3 – Ter um ideal é motor para as ações

    Qual é a missão que me cabe, sem a qual a minha história perde sentido? É conhecida a história de um homem que perguntou a vários operários sobre o que faziam: um deles disse que carregava tijolos, outro que levantava uma parede e o terceiro afirmou que construía uma catedral que atravessaria os séculos e onde as pessoas poderiam encontrar a Deus. Essa ideia finalística é importante: não dou apenas aulas de física, ou faço a limpeza do prédio, cozinho ou opero computadores: com a minha atividade facilito a vida das pessoas para que estas possam, por sua vez, colaborar com sua atuação para tornar melhor a vida das pessoas deste nosso mundo. A minha motivação, o meu esforço, as minhas qualidades são um dom, um benefício para os colocar ao serviço dos demais.

    Quando um ideal se apodera de alguém, vem a ser o motor de suas ações, pois a ele se voltam a inteligência, a vontade e os sentimentos. Para isso, é necessária a experiência do silêncio e da reflexão, que criam o ambiente adequado para amadurecer o pensamento e desenvolver um projeto para o qual vale a pena gastar-se. Quem é profundo e não fica apenas nas impressões superficiais das mil imagens e notícias das telas digitais, quem penetra no fundo das questões sabe por onde orientar sua vida. É preciso ter a capacidade de acolher a verdade até ficar fecundado por ela, gerando, assim, ações que podem transformar o mundo. Todos os grandes projetos ou realizações em prol da humanidade, seja no plano moral, artístico e científico, foram gestados na vida espiritual e na solidão de grandes homens: Pasteur, Dante, Cervantes, Jérôme Legeune, Dostoievski, Shakespeare, Ampére, Thomas Edison…

4 – Para gestar um ideal de serviço ao próximo

    A palavra maturidade significa estar no ponto, sazonado, e por extensão faz referência à plenitude do ser. Costuma-se distinguir três campos fundamentais da maturidade: maturidade intelectual, que não estaciona nas curiosidades superficiais, mas aprofunda-se nas questões importantes por meio da leitura e da reflexão, a fim de atuar de modo correto sobre a realidade; maturidade sentimental para canalizar a própria sensibilidade e fazê-la reagir positivamente diante das necessidades que se apresentam, sem abater-se pelas dificuldades que o empreendimento exigirá; e maturidade social, que leva a ver a sociedade não como oportunidades de network, mas como possibilidade de ajudar ou aliviar as necessidades dos que sofrem.

    Não faltarão dificuldades para se colocar em prática um projeto pessoal de serviço aos demais: a escassez de tempo, a tendência humana de ter uma vida egoísta e centrada em si, medo ao sacrifício para colocar em prática um projeto… A fé em Deus, o espírito de sacrifício e a maturidade pessoal são elementos necessários para seguir adiante e não se deixar abater pelas dificuldades ou pessimismos. Buscar conselho possibilita não errar o caminho e dá segurança ao agir, pois sozinho é mais fácil naufragar diante de momentos difíceis. Estudar, ler, ouvir para melhor compreensão da realidade que se pretende melhorar; depois, unir amigos para essa causa, dando a eles oportunidades de colaborar e preocupar-se pelos outros, ajudando-os a fugir da vida egoísta a que tantos se enclausuram.

5 – Cada um é ator de sua própria história

    Um ideal valoriza os talentos, as habilidades e as tendências inatas. Carlyle disse que “o viver é uma conjugação ininterrupta do verbo fazer”. Por isso, cada um deve examinar suas possibilidades, gostos e tendências para aproveitá-las na busca de um afazer que torne melhor a vida das pessoas e o mundo que o cerca.

    Cada pessoa é o ator principal de sua história, sem dublê ou intérprete. Todos recebemos gratuitamente capacidades e competências que devemos agradecer a Deus e tirar partido delas para servir aos demais. O Papa Francisco ao falar aos jovens – todos podem ser jovens de espírito! − disse: “Peço-lhes que sejam construtores do futuro, que se metam no trabalho por um mundo melhor. Queridos jovens, por favor, não balconeen a vida, metam-se nela como fez Jesus” (discurso a jovens em 27-07-2013). Balconear é observar os acontecimentos de longe, comodamente, sendo que o equivalente no Brasil seria “assistir o jogo da arquibancada e não entrar em campo”.

    O boletim A escolha de princípios ajudará a buscar um ideal pelo qual vale a pena dedicar a vida.

Texto produzido por Ari Esteves, inspirado nos ensinamentos de Ricardo Yepes e Javier Aranguren Echevarria, no livro “Fundamentos de Antropologia – Um ideal de excelência humana”, editado pela Livraria e Instituto Raimundo Lúlio, São Paulo. Imagem de Fauxels.