Quando o mundo nos fala

1 – Há muitas maneiras de olhar para uma mesma realidade. 2 – Pensar bem antes de clicar o play de uma imagem. 3 – O olhar egoísta torna a alma insensível. 4 – A temperança faz contemplar o mundo com um novo olhar

1 – Há muitas maneiras de olhar para uma mesma realidade

    Há diversas maneiras de olhar para a mesma realidade: um fotógrafo ou pintor olhará para uma mesa repleta de alimentos de modo diferente do olhar ansioso do glutão. Em nosso dia a dia, olhamos para um outdoor da cidade de modo diferente daquele que contemplamos um nascer ou pôr de sol. As diferentes formas de olhar não ocorrem apenas pelas circunstâncias do momento, mas têm a ver com o modo de nos relacionarmos com o mundo.

    Olhar para a realidade de uma maneira nova é não se fixar em um aspecto ou na utilidade do que temos diante dos olhos. Chama-se olhar contemplativo aquele que não procura apropriar-se de modo egoísta daquilo que vê, mas que se mantém em prudente distância para descobrir o algo divino que ali se esconde.

    A virtude da temperança modera o desejo de açambarcar as realidades para usufruir delas de modo possessivo. A palavra latina temperare significa “misturar as coisas em sua dose certa”. A pessoa temperada não se deixa absorver pelo imediato, mas vai além, pois sua atitude aberta, atenta e silenciosa a predispõe para ir ao núcleo das coisas, e aprender do mundo que a rodeia.

2 – Pensar bem antes de clicar o play de uma imagem

    Ser temperado no desejo de conhecer permite o olhar contemplativo que atinge o núcleo das realidades que permeiam o mundo. O olhar intemperado e de insaciável curiosidade que borboleteia de uma coisa para outra, tal como quem procura imagens nas redes sociais, se detém apenas no periférico do mundo, pois só deseja buscar o prazer da percepção sensível ou o gosto fugaz do consumo de novas informações: é a “concupiscência dos olhos”, de que fala João em seu Evangelho. Tomás de Aquino diferencia a curiosidade da estudiosidade, sendo que esta última encontra a dose justa (temperada) do desejo de conhecer, removendo os obstáculos que impedem chegar à raiz ou profundidade dos elementos contemplados, sem se importar com o esforço e fadiga que o processo de aprendizagem acarreta.

    Muitos cedem à curiosidade porque preferem ficar na periferia de sua existência ou das coisas que observa. É conhecida por todos a frase de Cristo de que o olho é a luz do corpo, o que permite dizer que o olhar contemplativo ilumina a mente e o coração, o que fez Ele observar que os lírios do campo se vestiam melhor do que o Rei Salomão! O olhar fugaz cega cada vez mais para ver com profundidade a si próprio. Navegar à toa pelas redes sociais e internet traz experiências insensatas que confundem a mente e o coração, impedindo a pessoa de habitar em si mesma. O mundo da distração impede o esforço de ir à interioridade pessoal, onde se encontra Aquele que pode saciar a sede de cada pessoa. Agostinho, Bispo de Hipona, no Século IV, expressou esta experiência assim: “Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas. Estavas comigo, mas eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem”.

    O olhar que penetra até o núcleo das realidades é sereno e detém-se sem pressa na contemplação das realidades, e antes de clicar o play de uma imagem, indaga-se se isso é verdadeiramente relevante. O sábio prescinde do que faz mal à alma, e do que impede o desenvolvimento do pensamento, e assim livra-se de muitas escravidões.

3 – O olhar egoísta torna a alma insensível

    O olhar possessivo da pessoa intemperada filtra tudo pelo interesse imediato e egoísta, e só tem um ponto de mira, sendo que tudo o mais se torna opaco como a visão de um animal que procura apenas saciar seu apetite. Quem age assim vê o mundo pelo benefício imediato que pode receber dele.

    A intemperança é destruidora e torna a pessoa insensível para perceber as nuances dos acontecimentos e das pessoas que a cercam, o que torna suas decisões arriscadas pela falta de um autêntico conhecimento da realidade: o guloso, preso pelos prazeres do paladar, não percebe a criatividade e beleza de uma mesa artisticamente bem-posta; e ao não desfrutar do estético, pouco poderá ter uma conversa enriquecedora com alguém.

    O olhar interesseiro não percebe as necessidades dos demais, e influi negativamente nas relações com os outros, pois tende a considerar as pessoas do ponto de vista do benefício que podem trazer ou do favor que poderá obter. A cegueira do espírito que faz não perceber a singularidade e a riqueza da personalidade do outro, provém de uma consciência distorcida pela intemperança, que conduz o coração a buscar torcidos interesses: quem manipula o próximo não é capaz de amar verdadeiramente.

4 – A temperança faz contemplar o mundo com um novo olhar

    A temperança faz contemplar o mundo com um novo olhar, que descobre maravilhas insuspeitadas. A moderação purifica o coração e cria uma relação serena que desenvolve a sincera atitude de não se deixar arrastar pela utilidade e benefício que as pessoas ou realidades podem oferecer. O primeiro efeito da temperança é trazer tranquilidade à alma, fruto de uma ordem interior. O olhar desprendido e limpo percebe os verdadeiros tesouros, faz crescer a sensibilidade para notar os detalhes preciosos e diversos que as realidades e as pessoas possuem, tal como o olhar não utilitário, mas contemplativo dos artistas e poetas.

    A temperança concentra as forças em projetos e ideais que valem à pena. Não olhar desnecessariamente para o celular, nem curiosear na internet durante o trabalho ou estudo, pode parecer coisa de pouco valor, mas trata-se de pequenas renúncias decisivas para concentrar as potências interiores naquilo que vale a pena: quem diz “não” àquilo que dispersa a mente, diz “sim” ao que realmente importa. Este esforço desenvolve a interioridade e contribui para fugir do superficial e perdas de tempo, e a “A vida recupera então os matizes que a intemperança descolore. Ficamos em condições de nos preocuparmos com os outros, de compartilhar com todos as coisas pessoais, de nos dedicarmos a tarefas grandes”, dizia Josemaria Escrivá (Amigos de Deus, n. 84).

    O olhar desprendido, sereno e transparente faz descobrir a beleza de tudo o que existe. A temperança faz desfrutar mais das realidades espirituais e das sensíveis ou materiais. Livrar-se da busca ansiosa do prazer e da autoafirmação, permite descobrir a beleza até nas coisas mais delicadas e discretas como a de uma pequenina flor que desabrocha entre as pregas do cimento de uma via, ou da simplicidade das pombas que sempre cedem passagens aos homens que seguem pela calçada. “Alguém disse, não sem razão, que somente o que tem um coração limpo é capaz de rir de verdade. Não é menos certo que somente pode perceber a beleza do mundo aquele que o contempla com um olhar limpo” (Pieper, As virtudes fundamentais, Cultor de Livros, São Paulo). A pessoa temperada aprofunda mais na verdade das coisas, pois o mundo lhe fala de Deus. Quem embarcar nesta aventura poderá repetir aquela exclamação de São Josemaria: “Meu Deus! Encontro graça e beleza em tudo o que vejo” (Forja n.415).

Texto extraído, adaptado e completado por Ari Esteves com base no artigo “Y entonces, el mundo te habla”, de Maria Schoerghuber, em www.opusdei.org.es. Imagem de MIkhalL Nllov).