Trabalhar bem

1 – O trabalho é educativo. 2 – Condições para o trabalho ser bem realizado. 3 – Trabalho e virtudes. 4 – Ambição profissional. 5 – Ensinar os filhos a trabalharem bem. 6 – Para quem trabalha em casa (home office).

1 – O trabalho é educativo

     O trabalho é a nossa vinculação com o mundo: “O que você faz?” é pergunta que já nos fizeram e que fizemos a outras pessoas. Todos esperam uma resposta para esse enigma, e após elucidado, vem o sorriso e a expressão: “Ah, que bom”. Seja qual for o trabalho, sempre haverá um “Ah, que bom”, como compreensão de que é por meio dele que cada pessoa se autorrealiza, cresce em virtudes e colabora para com o bem-comum. O trabalho, como escola de virtudes, é um meio educativo por excelência. Aprende-se a trabalhar desde criança ao cumprir os pequenos deveres de cada dia na vida familiar, escolar e social. Um erro de muitos pais é realizar as tarefas que cabem aos filhos executá-las, o que torna fraca a vontade destes, que devem ser exigidos em muitos aspectos: levantar e deitar-se na hora, estudar o tempo previsto, cumprir encargos no lar… Mais do que nunca é preciso ajudar as crianças, adolescente e jovens a crescer em energia interior por meio do cumprimento das obrigações que lhes cabem, pois será o exercício para enfrentar as dificuldades e os desafios que a vida lhes trará.

2 – Condições para o trabalho ser bem realizado

     “Faz o que deves e está no que fazes” (livro Caminho, n. 815) é o primeiro passo para um trabalho bem realizado, pois leva a cumprir o dever de cada momento. “Faz o que deves” significa que não se trata apenas de ocupar o tempo ao fazer qualquer tarefa, mas executar o que deve ser feito em cada momento: fugir disso é ser irresponsável e deixar-se levar pela preguiça ou comodismo. A todos convém fazer um rápido exame sobre o que é mais importante realizar em cada momento, para não se deixar levar pelo capricho. “Faz o que deves” exige o exercício da virtude da prudência para avaliar o que deve ser feito, e da virtude da fortaleza para fazê-lo sem atrasos. “Está no que fazes” é a segunda exigência do trabalho bem-feito: trata-se de colocar os cinco sentidos na tarefa que se tem entre mãos, sem permitir as distrações ou fugas da imaginação e da memória.

     Há quem pensa trabalhar bem porque é perfeccionista. Porém, isso é um vício ou defeito de buscar como finalidade a perfeição pela perfeição, a complacência vã naquilo que faz, ou só o resultado externo do trabalho (sua intenção muitas vezes é a vangloria). Este defeito revela que se perdeu a visão de conjunto e o sentido de prudência, que ensina ser “o ótimo inimigo do bom”, pois não se pode dedicar a uma tarefa maior tempo do que o necessário, a fim de não deixar de atender prioridades mais importantes.

3 – Trabalho e virtudes

     Um ato e outro formam um hábito, uma inclinação, uma facilidade, e com isso se ganha a virtude correspondente e se fortalece a vontade. Todos os homens necessitam lutar para adquirir hábitos operativos que facilitem viver de acordo com critérios éticos de conduta. Para alcançar o hábito ou a virtude da laboriosidade é preciso realizar bem as pequenas tarefas de cada dia, e ajudar os filhos a fazê-lo também: fechar uma porta sem bater, guardar os objetos que foram utilizados para realizar determinada tarefa, deixar em ordem as coisas pessoais, cuidar dos pormenores de ordem e pontualidade para começar e terminar as coisas no tempo previsto, planejar as tarefas com antecedência e não deixá-las para o último momento (a afobação costuma ser motivo de marretagens).

     Trabalhar bem não é questão de temperamento, mas de esforço pessoal, de aquisição de virtudes. Qualquer atividade profissional honesta é campo para o exercício de todas as virtudes humanas, que crescem com o desenvolver das tarefas: prudência para avaliar todas as questões envolvidas e iniciar pelo mais importante, ordem para aproveitar bem o tempo, fortaleza para perseverar e concluir o trabalho iniciado, temperança ao vencer o comodismo de fazer paradas inecessárias para curiosear na internet, paciência quando as coisas não saem como planejadas…. A laboriosidade e a diligência são duas virtudes que se unem para trabalhar bem: o laborioso aproveita o tempo, faz o que deve e está naquilo que faz; o diligente, do verbo latino diligo, que significa amar, trabalha com amor, com cuidado.

4 – Ambição profissional

     Ambição é o desejo de conquistar algo, movido mais pela emoção ou coração do que pela razão. Quem não tem ambição deixa de assumir os riscos de uma conquista e acomoda-se na zona de conforto. Há quem julga ser os ambiciosos pessoas gananciosas que buscam objetivos egoístas (geralmente dinheiro, poder…), e podem até pisar nos outros para alcançar o que querem, o que não deixa de ser distorção da reta ambição. Podemos entender o termo ambição como o desejo de dar mais de si, de desenvolver as capacidades inatas para melhor servir aos demais, de conhecer bem o trabalho que lhe cabe realizar. Para dar um exemplo, se um oftalmologista ou um alfaiate não ambicionasse novos conhecimentos, ficariam acomodados no tempo, com técnicas ultrapassadas e sem capacidade para oferecer um bom serviço: quem iria a um oftalmologista que desconhecesse as novas técnicas, e cujos aparelhos fossem ultrapassados? Quem voltaria a um alfaiate que não soubesse as novas tendências ou estilos, e forçasse o cliente a fazer um terno fora de moda? Uma pessoa sem entusiasmo pelo que faz não ambiciona chegar a mais longe e faz o mínimo indispensável: “É preciso adquirir toda a ciência humana que sua capacidade lhe permita adquirir… e tereis retratado o caráter dos apóstolos de hoje, tais como indubitavelmente Deus os quer” (Caminho 857). Há certas coisas que as pessoas nos irão cobrar, e com justiça, porque fazem parte da profissão ou ofício que abraçamos.

     Distinguir o tempo dedicado à informação em noticiários e blogues, daquele dedicado à formação por meio de livros, artigos, vídeos… Quem tem o cuidado de traçar planos de formação para os próximos meses e anos, evitará que o tempo se esvaia em curiosidades que levarão à mediocridade profissional. Para se aperfeiçoar continuamente pode-se dedicar alguns minutos diários, aproveitar os fins de semana e os tempos de transportes públicos ou de salas de espera para estudar os temas relacionados à profissão. O relativismo e a busca pela vida cômoda, que avassalam a sociedade atual, afetam o desejo e a alegria de servir aos demais com as qualidades pessoais: a falta de convicções ocorre porque já não há verdades ou grandes valores a se inspirar.

5 – Ensinar os filhos a trabalharem bem

     Para que os filhos desenvolvam uma personalidade rica e resistam às influências negativas do ambiente, e a tendência natural de perder o tempo em redes sociais, é necessário estimulá-los a esforçar-se diariamente para cumprir as obrigações que lhes cabem. Ao atribuir encargos, e exigir de forma cordial e amável para que os cumpram, os pais fortalecem a vontade dos filhos para abraçar os grandes ideais da vida, que sempre custam esforço.

     Muitos adolescentes e jovens crescem em ambientes permissivos, de pouca exigência, e acomodam-se a ponto de sempre esperar que outros resolvam seus encargos. Toda pessoa necessita esforçar-se seriamente, se deseja construir algo valioso. Desde as primeiras idades da vida vai se configurando o caráter e a capacidade de aprender a esforçar-se. Pais que privam os filhos da oportunidade de se sacrificarem, de renunciar caprichos, para evitar que sofram como eles, pais, sofreram, estão transformando seus rebentos em molengões e fracos de caráter: diz o provérbio que “com churros não se faz alavanca”. Mais do que proteger os filhos para que não sofram, trata-se de sofrer junto com eles, de acompanhá-los e de ajudar a que superem a má vontade diante de uma renúncia a realizar. O melhor período para que os filhos aprendam a se superar vai do zero aos doze anos de idade, por meio do cumprimento de encargos familiares adequados à idade de cada um, de ter horário para estudar e realizar as tarefas escolares, de se sacrificar e ser solidário para ajudar os amigos…

     O exemplo dos pais é importante: os filhos admiram o pai ou a mãe a quem nunca viram reclamar dos sofrimentos que suportou, e passam a imitá-lo. Já um pai ou uma mãe que se queixa dos trabalhos e esforços que faz, cria filhos ansiosos, fracos e inseguros. Por isso, é preciso valorizar as pequenas vitórias de cada filho com um sorriso ou elogio, seja porque soube esperar e não comeu fora de hora, porque aguentou sem reclamar a sede durante um passeio, porque dobrou e guardou as próprias roupas ou colocou os jogos e brinquedos nas caixas e prateleiras correspondentes…

     A vida cotidiana oferece muitas oportunidades para que cada filho se exercite na fortaleza: resistir ao impulso de realizar um capricho, saber suportar uma dor ou enxaqueca sem reclamar, superar o desgosto porque algo saiu não como o esperado, dominar o cansaço com um sorriso, terminar as tarefas da escola e cumprir o tempo de estudo previsto antes de sair para jogar ou brincar, realizar os deveres domésticos que estão ao seu encargo… O filho que desde pequeno aprendeu a fazer as coisas sem se queixar será valente, decidido e sem medos bobos e infundados (medo do escuro e de dormir sozinhos, por exemplo). Ao crescer com personalidade, não se envergonhará por não possuir tênis caros ou a mochila da moda; terá peito para dizer aos amigos que combinou chegar cedo em casa; não receará fracassar em algo porque aprendeu a transformar as derrotas em experiências para sair fortalecido. Não se trata de empurrar os filhos para que sejam temerários ou imprudentes, mas de ajudá-los a se arriscar sem receio de errar ou fazer feio. Os filhos devem ser capazes de empreender ações que levem consigo um esforço prolongado: é melhor ter encargos diários do que reservar um único dia para cumprir muitas tarefas de uma só vez. Só assim serão capazes de comprometer-se com ideais valiosos. Certo pai, que conheci, disse aos seus onze filhos que não poderia pagar uma faculdade particular para cada um, e que teriam de se preparar para entrar em universidades públicas: todos entraram!

6 – Para quem trabalha em casa (home office)

     Para trabalhar bem no ambiente doméstico (home office) é necessário estabelecer um horário para iniciar e terminar as atividades, combinando com o outro cônjuge esses horários em função das refeições: começar cedo para acabar antes, tal como se estivesse na empresa, a fim de ter tempo para se dedicar à família. Vestir-se de acordo faz parte da personalidade e do estilo de um bom profissional: a elegância tem a ver com saber eleger o mais adequado para cada ocasião. Ter organizado o espaço de trabalho com móveis adequados e boa iluminação. Silenciar as notificações das redes sociais, se não forem imprescindíveis para o trabalho, fará render o tempo. Avisar com antecedência a família para fazer mais silêncio, quando for necessário realizar uma chamada de videoconferência, e esforçar-se em aprender a utilizar um novo aplicativo que facilitará a realização das tarefas. Aproveitar as pausas naturais do trabalho para estar com as crianças, e não se esquecer de oferecer a Deus cada tarefa, a fim de transformá-la em oração e oferenda grata a Ele: com isso, uma hora de trabalho se transformará em uma hora de oração!

Produzido por Ari Esteves. Imagem de Katerina Holmes

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