O cinema e seu valor formativo

1 – O cinema como meio educativo. 2 – Pais em sintonia com o mundo subjetivo dos filhos. 3 – Contar com as emoções no processo educativo. 4 – As cenas de um filme podem motivar um jovem.

1 – O cinema como meio educativo

     Em nossa época, onde impera a cultura da emoção e da imagem, o cinema é um grande recurso para a educação dos sentimentos. Suas cenas, que muitas vezes tocam os afetos ao abordar aspectos essenciais da vida humana, ajudam a refletir como cada um conduz a própria vida. A afetividade, onde residem sentimentos, emoções e paixões, não deve ser ignorada no processo educativo de adolescentes e jovens. Cabe aos pais e educadores contemplá-la e utilizá-la como porta de entrada para a compreensão da alma juvenil e seu universo atual, valendo-se do cinema como metodologia simples e acessível.

     Os sentimentos estabelecem uma ponte entre o que se conhece intelectualmente e o que a vontade decide executar. Por vezes, não basta concluir que algo deva ser executado para que a vontade queira fazê-lo ou colocar a mão na massa. Para essa realização cumpre papel importante a motivação dos sentimentos. Isso não significa que devemos fazer as coisas apenas quando os sentimentos nos motivam, pois às vezes é necessário agir contra eles. Por exemplo, quando Madre Tereza de Calcutá recolhia da sarjeta um moribundo cheio de pústulas e malcheiroso, talvez seus sentimentos fossem de repelência, mas ela o acolhia e levava-o para tratá-lo em sua casa de caridade. Porém, os sentimentos cumprem um papel muito importante, principalmente na vida dos jovens: imaginemos um rapaz que se emociona ao ver deslizar pelos céus um avião, e decide ser aviador. Tendo as condições físicas e intelectuais para essa profissão, porá os meios para continuar seus estudos no ensino médio, encontrará um trabalho durante o período da tarde para pagar a escola de aviador, que cursará à noite, a fim de tirar o brevê de piloto. O sacrifício desse jovem faz é grande, e haverá dias em que sua vontade será a de não ir à escola de pilotagem. Porém, seu forte sentimento, que se reacende cada vez que se imagina pilotando um avião, o faz superar a má vontade e ir à escola.

     Não seríamos humanos se desprezássemos o papel facilitador dos sentimentos para que o querer da vontade execute algo. Como diz Pablo Blasco, no artigo abaixo citado, “os sentimentos revestem o conhecimento [intelectual, por suposto] com uma roupagem pessoal que facilita o querer – a execução –, porque são bases da motivação. Uma coisa são as ideias e os conceitos, outra é como as ideias me atingem, e qual é o sabor que elas têm para o meu paladar afetivo. É no âmbito afetivo onde o personalismo se impõe como condição eficaz de aprendizado e de assimilação de atitudes”. Um mesmo fato atinge de modo diferente a cada pessoa, e isso é motivado pelos sentimentos.

     Os sentimentos não podem modificar os conceitos matemáticos, mas podem promover atitudes, estimular alguém a estudar essa ciência pela paixão que sente por ela; também podem encorajar condutas éticas não motivadas pela leitura de livros de moral, mas ao ver a cena de um filme em que a personagem não aceita, por exemplo, ser subornada para trair alguém. Nesse sentido, ensina Pablo Blasco, os sentimentos são como o tempero que facilita a ingestão do alimento, conferindo a ele um toque especial e personalíssimo que faz do comer algo que vai muito além da simples nutrição.

2 – Pais em sintonia com o mundo subjetivo dos filhos

     A educação da afetividade requer um toque de arte por parte do educador, que deve entrar em sintonia com o mundo subjetivo do educando, e adaptar-se às necessidades e ao paladar deste, como um tempero que conquiste e estimule a vontade para realizar algo. Nesse sentido o cinema, ao provocar a afetividade, dará um toque especial ou sabor aos conhecimentos e conceitos, tornando mais acessível a sua busca (ou até repelindo-os). As cenas levam à reflexão quando são verdadeiramente questionadoras. Pablo Blasco comenta que no filme “O resgate do soldado Ryan”, com Tom Hanks, vê-se a passagem em que o capitão está morrendo e o soldado Ryan inclina-se sobre ele, e ouve do oficial estas palavras: “James, faça por merecer”. Quarenta anos depois, James Ryan visita o cemitério onde está enterrado o capitão, e acompanhado da esposa, filhos e netos, olha para o túmulo e diz: “Todos os dias penso no que você me disse naquele dia, na ponte. Procurei viver a minha vida do melhor modo possível. Espero que, pelo menos diante dos seus olhos, eu tenha ganhado o que todos vocês fizeram por mim”, e em seguida, dirige o olhar à esposa e indaga: “Diga que a minha vida prestou para algo, que tive uma vida digna”. Esse é o currículo de James Ryan: ter formado uma família, educado seus filhos e levado uma vida honesta e sacrificada. O capitão, que na vida civil era professor, educou Ryan com o exemplo de sua vida e com a frase “faça por merecer”. Quem assiste essa cena é levado a se perguntar se o sentido que está dando à sua vida é magnânimo ou mesquinho.

     Nem tudo se aprende por argumentação e raciocínio lógico, mas também pela percepção dos sentimentos, que alavancam o processo de educar. Afirma Pablo Blasco que nas culturas antigas o meio principal para a educação moral era contar histórias por meio de artes como teatro, literatura e ópera, que possuem o papel de suprir as experiências que nem todos podem vivenciar durante a vida. Ao fornecer essas experiências – “escarmentar em cabeça alheia”, diz o ditado popular –, por meio de cenas, o cinema permite penetrar até o nível moral e pessoal. Ao ter por trás um excelente roteiro, os bons filmes se distanciam infinitamente das epidérmicas e velozes imagens que se consomem diariamente nas redes sociais, e que só trazem a dissipação do espírito e impedem a reflexão sobre si mesmo para agir como um sujeito moral.

     Um bom filme pode oferecer a quem o assiste a experiência fecunda de eleger para suas ações o ato virtuoso. Tanto o cinema como a literatura podem unir imaginação, sentimentos e ideias à realidade de uma experiência como se fosse vivida pessoalmente, que é modo excelente para a compreensão profunda da qualidade do agir virtuoso. “Sem a arte narrativa –e aí se enquadra o cinema– o ser humano teria que contar tão só com suas próprias experiências, o que significa que se veria obrigado a aprender tudo desde o princípio. Sem conhecer a Odisseia, o homem não saberia nada da fidelidade de Penélope; sem Shakespeare ignoraria as dúvidas de Hamlet, o amor de Romeu por Julieta. Sem Dom Quixote, teríamos que descobrir por conta própria a diferença entre ver o mundo como é e vê-lo como deveria ser” (Krzysztof Zanussi, filósofo e cineasta polonês).

     Assistir a um filme bem selecionado deixa de ser apenas um simples passatempo ou divertimento, porque as cenas vitais provocam sentimentos – alegria, entusiasmo, aprovação, rechaço, condenação –, que podem configurar condutas. Pablo Blasco afirma que “a tragédia grega provocava a catarse, entendida em duplo sentido: primeiro, imediato, como a liberação dos sentimentos, como uma limpeza orgânica, como um purgante; o segundo, muito importante, é que mediante a catarse colocam-se no seu lugar todos esses sentimentos acumulados – emoções – que não poucas vezes se armazenam de modo desordenado”.

3 – Contar com as emoções no processo educativo

     As emoções podem ser contempladas no processo educativo. Não basta vê-las passivamente, mas é preciso dar vazão e permitir que as emoções possam cumprir o seu papel no desejo de aprender e de motivar o estudante. Assim, será mais fácil envolver a racionalidade e fundamentar conceitos. O educador que permite, no espaço formativo, o fluir das emoções através da discussão, da partilha de sentimentos, abre caminho para uma verdadeira reconstrução da afetividade. Esse processo requer tato, habilidade; requer evitar precipitações para promover um aprendizado que respeite o ritmo quase fisiológico da emotividade. Não se pode obrigar ninguém a sentir o que não sente. Pode-se simplesmente mostrar. O tempo e a reflexão sobre as emoções se encarregarão de aprimorar o paladar afetivo.

     A educação através da estética não é superficial. Ao atingir as emoções e a sensibilidade, não se deseja ancorar na emotividade os valores e modelos de conduta, mas suscitar uma reflexão sobre esses mesmos valores e atitudes. Ensina Pablo Blasco que se pode conquistar uma habilidade técnica sem nada sentir e sem refletir muito sobre ela. Porém, é mais difícil adquirir valores, progredir nas virtudes e incorporar condutas sem um processo prévio de reflexão. O desencadear da reflexão é facilitado pela estética, pela arte do cinema – “a beleza salvará o mundo”, disse Dostoievski –, que sensibiliza e incentiva para aprendizados racionais de modo personalizado e por meio de cenas que ofertem uma representação do mundo concreta, dinâmica, sensitiva e emotiva. Tais cenas conduzirão à fundamentação racional, buscada com entusiasmo e emoção, e como porta de entrada para que o jovem faça posteriores construções.

     Pablo diz que as respostas racionais representadas pelo “estou de acordo” ou “discordo” serão substituídas por respostas emotivas suscitadas pela imagem: “gosto” ou “não gosto”, onde existe uma aceitação ou rejeição visceral, de impacto, sem participação do racional. Com isto não se pretende, em absoluto, dispensar a necessidade do raciocínio e conceitos para a construção do aprendizado. Apenas afirma-se que dificilmente um jovem aceitará raciocínios lógicos se a emoção não lhe facilita o caminho. Ao passar antes pelas emoções, porque é assim que hoje os jovens estão habituados a proceder, abre-se a porta de entrada para posteriores construções lógicas. Santo Agostinho diz que “Naquilo que se ama, ou não se sente a dificuldade ou se ama a própria dificuldade”. Ou seja, quando se põe o coração – leia-se sentimentos – os trabalhos nunca serão tão penosos, e torna-se mais fácil suportar a carga e manter a alegria durante o esforço.

     Diz Pablo Blasco, que “o cinema pode exprimir o que a racionalidade levaria muito tempo para explicitar e acabaria resultando até enfadonho. Um comentário de uma conhecida professora e mãe de família, a respeito do filme King Kong: – Esse é o homem que toda mulher gostaria de ter ao lado!Mas como um homem?! – exclamo eu – estamos falando de um gorila! E ela continua sorrindo: – Engano seu, meu caro: ele luta por ela, defende-a, se bate, e se deixa ferir… E aprende dela a delicadeza, os modos, a poesia. E quer somente a ela. As outras mulheres que lhe apresentam ele as descarta. Surpreso pelo comentário, lembrei-me do pensamento de um filósofo que diz: Nada imuniza tanto o homem [que pertence] do universo das mulheres, como o amor apaixonado por uma delas. E, em outra ocasião, quando comenta a mulher muda o ambiente e o homem tal como o clima trabalha os vegetais sem fazer aparentemente nada, formando-o à sua imagem e semelhança”.

4 – As cenas de um filme podem motivar um jovem

     A educação pelo cinema arranca desejos profundos do jovem, e motiva-o para grandes sonhos e novos desafios. No filme “O Último Samurai”, durante um congresso, Pablo Blasco teve a experiência, após apresentar as cenas em que homens medievais valentes, e em atitude de serviço (servir parece ser a missão deles), enfrentavam as modernas metralhadoras com coragem e espada. Sim, caiam mortos, mas arrancando do inimigo o reconhecimento, a veneração e até a vitória moral. Diz Pablo que “Esse é o modo de promover novos Samurais, mesmo com tecnologia moderna, entre os jovens soldados que ficam atônitos vendo a valentia daqueles no combate”. Quando acabou a conferência, um jovem veio à frente, segurou o braço do conferencista e disse com os olhos brilhando: “Professor, eu quero ser um Samurai!”.

      A um pai ou educador que pergunta “E se o jovem não concluir o que eu gostaria que ele concluísse?”, cabe afirmar que devem levantar a lebre. “Não adianta – diz Pablo – colocar rolha num vulcão, porque antes ou depois explodirá. O que melhor se pode fazer é promover a reflexão para que o jovem se vá construindo. Algo muito próximo ao que o macaco Rafiki fez com Simba, no filme O Rei Leão, onde Simba, na boa vida, não queria assumir a realidade de que se tornara um leão adulto. O macaco interroga-o e pergunta: – Quem é você? Tal pergunta faz virar ao avesso o confortável Hakuna Matata, em que Simba vivia, para trazê-lo à realidade” E conclui, Pablo: “Não são as respostas as que devem vir prontas, fabricadas, mas sim as perguntas, a modo de provocações que o professor, o pai, ou formador devem continuar, e serenamente dirigir ao seu interlocutor. A ficha tem de cair por si só – para utilizar uma linguagem corrente. E, nesta empreitada de provocar reflexões, o cinema é um prato cheio, uma oportunidade excelente”.

Sugerimos visitar o site https://pablogonzalezblasco.com.br/category/filmes/, onde há comentários de vários filmes que poderão ser assistidos e comentados em família.

Texto de Ari Esteves, adaptado da entrevista do médico e humanista Pablo González Blasco, à Revista “Ser família”, edição 3, 2007.

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