Categoria: VIRTUDES

  • Ensinar a servir

    Ensinar a servir

    1 – Adolescentes precisam de argumentos convincentes. 2 – A idade dos ideais. 3 – Posturas ante a vida. 4 – Motivações dos adolescentes. 5 – Colaborar nas necessidades sociais. 6 – Revelar ao adolescente o sentido do amor humano.

    1 – Adolescentes precisam de argumentos convincentes

         Os pais por vezes estão imersos em grandes correrias familiares, profissionais e sociais e não percebem o quanto o ambiente age de modo negativo sobre os filhos. Ao não lerem, nem estudarem os assuntos atuais e polêmicos, não podem oferecer argumentos convincentes aos filhos. Muitos pais desconhecem o modo atual de dizer as coisas e o tom de voz a ser utilizado, já que não se pode falar de qualquer maneira com um adolescente: uma ordem dada de modo atravessado soa-lhes como provocação; uma resposta fraca e incompleta oferecida a eles, os fará buscar as razões com os amigos, por vezes bastante mal informados. É a idade! Também não se pode impor uma proibição sem oferecer com ela argumentos convincentes. Quando os motivos oferecidos a eles satisfazem a inteligência, já não é preciso temer que o ambiente os afete de modo danoso, porque saberão se impor, inclusive ajudarão os amigos e colegas aos esclarecer-lhes as verdadeiras razões do comportamento humano.

    2 – A idade dos ideais

         O adolescente com sua imaginação faz vasta sondagem sobre o futuro, examina e experimenta mil possibilidades; esquadrinha desejos, debate com os amigos e calibra a autenticidade dos valores que lhe inculcaram os adultos. Este novo período predispõe o adolescente para captar as razões das regras morais, os fundamentos dos valores que os animaram a assumir, incluído o religioso que antes era sustentado pelo emotivo, mas que agora necessita se fundamentar em razões mais profundas.

         A mediocridade é desprezada pelo adolescente, inclusive tem desapreço por si mesmo quando se vê medíocre. Por amar a coerência, manifesta rechaço por meio da gozação àqueles adultos com duas caras ou despersonalizados. Sua preocupação pelo futuro − rumos da pátria, destino do mundo, combate às injustiças, defesa dos mais fracos, desejos de realizar algo grandioso − pode desaparecer se vive imerso em ambiente egoísta e fechado em si mesmo, e tenderá a se refugiar no mundo aburguesado dos adultos que o cercam. Sonha em ser defensor ou libertador, mas se encontra em seu entorno um ambiente frívolo, facilmente abandonará as armas para viver na mediocridade, em mimetismo com um ambiente sem ideal. Se ele não encontra um meio de colaborar para o bem comum, a justiça e a paz, tudo ficará em meras utopias. Só o poder iluminador dos valores vividos em plenitude pela sua família e por ele tornará capaz de mover o adolescente a uma vida de generoso serviço aos demais.

    3 – Posturas ante a vida

         No período mais intelectual que é o da adolescência, o objetivo educativo que se propõe deve apoiar a predisposição natural do jovem por conhecer a essência e o fim de cada ser: sentido da vida humana, família, trabalho, liberdade, profissão… Nesse período o adolescente se vê na necessidade de ter uma postura ante a vida, de adotar sua própria escala de valores ou de aceitar a que propuseram seus pais em períodos anteriores.

         Aos seis anos inicia-se o desenvolvimento do pensamento lógico, a associação de ideias, e as razões que gradualmente vão se tornando mais abstratas até se transformar em pensamento analítico, com enfoque no mais imediato. Com isso, a educação da inteligência avança e se adapta à verdade.

         No período intelectual (15 a 18 anos), o adolescente necessita desenvolver o que se chama pensamento ontológico, que é aquele que investiga a natureza da realidade e da existência. O ontológico, do ponto de vista filosófico, aborda questões relacionadas ao ser. Não é casual que há séculos os jovens nestas idades se propõem sempre as mesmas questões; como não é casual que os primeiros princípios da filosofia devem ser ensinados na época do ensino médio.

    4 – Motivações dos adolescentes

         Com frequência o adolescente cai na tentação de ficar na eficácia externa, e se esquece da alegria que representa trabalhar por convicção, por valores transcendentes (que ultrapassam a si mesmo). Níveis de motivações que podem mover um adolescente:

    1. Motivação extrínseca (exterior): comer, vestir-se, ter muitas coisas materiais, se divertir. Este nível de motivação é primário, egoísta, transitório, e não suficiente para alcançar a verdadeira felicidade, que está no amor (o egoísmo encerra a pessoa na infelicidade, na inveja);

    2. Motivação intrínseca (interior): inclui o desejo de saber mais para apossar-se do mundo da cultura, da ciência ou da arte. Esta motivação é mais perfeita e duradora que a anterior, mas pode levar facilmente ao orgulho, ao envaidecimento diante das qualidades pessoais ao mostrar a sua própria valia e obter reconhecimento, sem perceber que suas habilidades foram dadas gratuitamente por Deus;

    3. Motivação transcendente: ultrapassa a própria pessoa, que quer doar-se aos demais. Esta motivação aperfeiçoa e fortalece a vontade porque a faz vivenciar o verdadeiro amor, que é doar-se àquilo onde vale a pena gastar a vida. Nesta motivação estão os sonhos dos jovens que querem mudar o mundo para melhor. Os motivos transcendentes plenificam com a verdadeira alegria. A felicidade que proporciona o ato virtuoso não se pode comparar jamais com a satisfação puramente sensível do “ter”, e nem sequer pelo prazer que proporciona o “saber fazer” ou o desfrutar do saber. Somente quem trabalha por convicções assentadas no amor, que é o mais alto valor, poderá realizar-se a si mesmo e conquistar a verdadeira felicidade ao dar um fim útil à própria liberdade.

         Uma menina de treze anos que tinha como encargo limpar a cozinha às tardes, comentava desanimada com sua preceptora que detestava fazer isso, e que preferia limpar a casa inteira a ter que limpar a cozinha. Porém, a mãe não cedia e a menina não entendia isso. A preceptora animou a menina a buscar motivos que a ajudassem a decidir-se pela cozinha, ao tentar fazer sua mãe contente, mas sem querer que a mãe cedesse ou trocasse seu encargo. Pediu que a menina refletisse que, além de deixar a mãe feliz, tivesse a certeza de que estaria se preparando para fazer coisas mais difíceis que certamente a vida lhe reservaria, e que oferecesse esse sacrifício por tantas pessoas que sofrem provas difíceis, doenças incuráveis… Tais argumentos foram decisivos e a menina percebeu que estava sendo egoísta e que faltava a ela a virtude da fortaleza para enfrentar situações que não a agradavam.

         Sempre será um motivo persuasivo o imperativo de fortalecer o próprio caráter, de crescer na humildade, de oferecer a Deus sacrifícios por amor aos demais, de participar no bem comum da família e da sociedade em que se vive… São motivos transcendentes que proporcionam grande alegria e ajudam a crescer em liberdade e maturidade.

    5 – Colaborar nas necessidades sociais

          Na vida de infância e na pré-adolescência prevalece fortemente o vivencial e o emotivo. Já os adolescentes para reafirmar sua autonomia e estrear a intimidade recém-descoberta, necessitam de esclarecimentos lógicos, breves, concretos e convincentes, ou seja: sem longos discursos, que detestam. Mover o adolescente para uma vida de serviço generoso será um desafio se na infância e na pré-adolescência isso não se concretizou.

       Os adolescentes são capazes de decidir seu destino, arriscando-se por algo que vale a pena! Animá-los a participar de tarefas que sejam ajuda aos demais, é um grande bem que se pode fazer a eles. As oportunidades que os pais têm para que os filhos sejam fortes e possam enfrentar a vida, está nas ações para o bem do próximo: visitar e prestar ajuda em asilos, orfanatos, comunidades carentes, enfermarias, etc.

         Os adolescentes que despertam para as necessidades sociais dificilmente se deixarão arrastar por frivolidades e caprichos, porque descobriram o valor de sua própria existência e não irão desperdiçá-la em planos mesquinhos. Criar oportunidades para os adolescentes participarem do bem comum se concretiza inicialmente nas pequenas ações frente às necessidades do meio em que vivem. Se fogem disso, ao abandonar seus bons desejos, perceberão um dia que poderiam ter mudado para melhor muitas situações injustas.

         No período da adolescência a inteligência reclama razões práticas aplicadas às realidades concretas e cotidianas que impulsionem a agir. Quantos pais de família se perguntam, angustiados, pelo método adequado para tirar seus filhos de uma vida cômoda, egoísta, a fim de que se abram às necessidades do próximo.

         Certo garoto semanalmente ia com seus amigos a uma ONG para ajudar os idosos lá internados. O ambiente que presenciaram inicialmente era triste. Porém, com o passar do tempo tudo foi se transformando: limparam, consertaram, semearam flores e árvores, pintaram a cozinha, ensinaram alguns idosos a jogar dominó e xadrez, e outros a ler e escrever; ajudaram a escrever cartas ou simplesmente os escutavam e os consolavam. Os garotos logo se deram conta de que a maior transformação ocorrida não foi a do local físico, mas a da alma deles, que se curou da vida frívola em que viviam.

         Quando a personalidade se fundamenta no amor, na preocupação pelos demais; quando se ensina a desprezar o supérfluo e a renunciar a uma vida cômoda, estéril, e a aproveitar melhor o tempo; quando se incentiva a ter motivos transcendentes e a não temer o esforço exigido pelos ideais mais altos, a opção por servir aos demais será uma consequência natural, como também a verdadeira felicidade que isso traz.

    6 – Revelar ao adolescente o sentido do amor humano

         O amor humano, como força que se orienta à vida, se abre ante nossos olhos como um mistério que revela e esconde ao mesmo tempo a profundidade e a riqueza do encontro entre duas pessoas. Pode-se dizer que o amor humano recria a vida por seu próprio dinamismo, em uma chamada superior que reclama a fecundidade e a fidelidade definitiva. Por isso, o verdadeiro amor só pode crescer no calor da família, e se mostra ao adolescente quando a união entre seu pai e sua mãe vai mais além do corporal e alcança o espírito, a alma, revelando toda a profundidade e a dignidade do encontro amoroso. Isso explica que o amor dos pais participa do mistério do amor divino, e flui em uma nova vida na qual se dilatam os corações de seus pais em um amor que se torna cada dia maior, não somente pelo prazer que o fecunda, mas pela vontade de amar e de doar-se a vida inteira.

         A grandeza do fiel amor conjugal ilumina a inteligência dos filhos para a compreensão do sentido verdadeiro da sexualidade humana. Trata-se de uma vocação à qual se orienta a existência e à qual se realiza um projeto definitivo, porque nele se descobre a missão pela qual vale a pena o sacrifício e a entrega, como um pacto formal do amor verdadeiro.

         Muitos jovens estão entediados por viver uma vida sem verdadeiros valores. Agem apenas em busca do prazer e com isso alteram o sentido da sexualidade e do amor, na etapa da vida em que a consciência reclama razões sólidas que permitam encontrar um modo de colocar as qualidades pessoais ao serviço dos demais. Preferem que o instinto rompa qualquer ideal de serviço que os faria verdadeiramente felizes.

         A sexualidade humana começa a ser despertada na adolescência. Mas é preciso ensinar a cada jovem que ela deve ocupar o quinto ou sexto lugar em sua vida, pois antes disso estão outros ideais: o estudo, aprender línguas ou um instrumento musical, direcionar-se para uma profissão, apoiar ONGs que cuidam de pessoas necessitadas, mergulhar nos clássicos da literatura para conhecer as profundezas da alma humana, penetrar no conhecimento da fé em Deus para tornar vida essa vivência e para ter respostas para si e para ajudar os amigos… O namoro não é um mero passatempo, pois quando é utilizado nesse sentido acaba sendo utilizado de má maneira. O namoro é o momento para conhecer melhor a pessoa com quem se pretende montar um projeto familiar. Porém, antes disso, é necessário solidificar a formação humana e espiritual para crescer em maturidade e fortalecer a personalidade.

         Na verdade, não se deveria falar de “educação sexual”, mas de “educação da afetividade”. A falsa “Educação sexual” desumaniza o amor e o substitui pelo comércio genital, pela busca de sensações que desembocam no prazer momentâneo. Pretende-se atar os jovens a uma corrente de sensações físicas, que inclui, além do sexo, o luxo, a velocidade, o conforto, o álcool, os tranquilizantes ou os excitantes, as grifes, as modas, a fim de manter neles um falso sentido de felicidade (artificial e passageiro).

         Na etapa vital da criança (0 a 6 anos) é preciso iniciar com clareza, e de acordo com a incipiente curiosidade infantil, que ainda não tem caráter libidinoso, as conversas sobre o verdadeiro sentido da sexualidade humana. Para isso, sugerimos ler o boletim Filhos: informação sexual, no site staging.ariesteves.com.br/boletins. A criança, desde muito pequena vai necessitando de informações à medida de sua capacidade de compreensão, e os pais não devem ter medo de dar essa necessária informação. Não se trata de falar a uma criança de 4 ou 5 anos do mesmo modo com que se deve falar a um adolescente, como bem explica o boletim acima citado. Quando chegar à adolescência, torna-se necessário oferecer razões mais profundas e definitivas a respeito da sexualidade humana.

    Texto adaptado e completado por Ari Esteves com base na obra “Para Educar Mejor”, de Maria Teresa Aldetre de Ramos, Colección Hacer Familia, Editorial Palabra, Espanha. Imagem de Katrin Bolovtsova.

  • Ensinar a querer

    Ensinar a querer

    1 – A educação integral da pessoa humana. 2 – Fortalecer o caráter. 3 – Desenvolver a sensibilidades dos 6 aos 11 anos. 4 – A dor e sofrimento educam. 5 – Desprender-se do supérfluo. 6 – A importância da família. 7 – Ensinar a viver o amor

    1 – A educação integral da pessoa humana

         A pessoa humana deve ser educada em sua totalidade, e não apenas no aspecto profissional, artístico, científico ou esportivo. Falar da educação do coração é falar da totalidade do homem (inteligência, vontade e afetos). No período de 6 a 11 anos há uma predisposição natural para deixar-se educar o coração, mais que em outras idades, sendo que esse ensinamento é base para o desenvolvimento posterior de capacidades diferentes para a realização de outras tarefas e compreensão de outras realidades: saber viver o sentido do amor, da família, do trabalho e da sexualidade (temas não abordados – ou mal abordados – nas escolas, mas vitais para a verdadeira felicidade da pessoa, e que competem aos pais como primeiros e principais educadores dos filhos). 

         Durante o processo educativo os pais devem ensinar aos filhos a querer, a servir e a pensar (estes dois últimos aspectos serão abordados nos próximos boletins). Ensinar a querer é ensinar a viver com fortaleza e com alegria as inevitáveis contrariedades da vida; é cultivar a finura e a sensibilidade ante a grandeza e a beleza; é deixar o coração se comover ante a dor alheia para que a vontade responda com generosidade, a fim de remediar as necessidades dos demais (ensinar o coração a condoer-se); é fazer notar que o trabalho ou tarefa é um serviço aos demais… A indiferença é hoje uma doença progressiva em nossa sociedade, que se constata na passividade e na apatia frente às dores dos demais: viver fechado no mundo pessoal leva ao egoísmo e este conduz à tristeza e ao embotamento da alma.

         Entre 6 e 11 anos a criança pode viver verdades e valores não como hábitos irrefletidos, mas por meio de sua vontade, quando educada, pois nela reside o querer livre e consciente. É o momento de iniciar a conscientização dos filhos de que não basta pensar no modo como ganharão dinheiro com a profissão que um dia escolherão, mas em ter uma vontade forte para que queiram o bem e não cedam ao mais fácil ou cômodo, nem temam assumir ideais grandes que exijam esforço para serem conquistados.

         Educar o coração e os afetos se consegue com uma vontade forte, que saiba querer. Para ensinar a colocar o coração naquilo que vale a pena, a criança precisa ser orientada, pois sua tendência é ir ao mais fácil e prazenteiro, é sentir-se bem mesmo fazendo o que não é bom (deixar seus brinquedos e roupas desordenadas, não ajudar nas tarefas do lar, comer a qualquer hora, não ter disciplina…).

         Se pode considerar o coração como o princípio não apenas localizado no órgão corporal do lado esquerdo do peito, mas em toda a sensibilidade da pessoa, que se vê afetada integralmente pelas realidades que a circundam. Na educação do coração é primordial compreender o sentido da dor, da contrariedade, do cansaço e da morte, que e o fim de todos.

    2 – Fortalecer o caráter

         Podemos afirmar que o caráter é para o coração o que os músculos são para o corpo. É óbvio que músculos flácidos não resistem a pesos, e se rompem. Assim se passa com o coração quando a vontade e fraca e o caráter é débil: se rompe ante as penas ou dificuldades. Muitas neuroses ou doenças de origem emocional procedem da falta de fortaleza ou debilidade de caráter. Dar ao filho tudo o que pede e evitar dizer um “não” a ele, e poupá-lo das exigências normais da vida é torná-lo débil de caráter, é despersonalizá-lo, é impedir que cresçam em espírito de serviço. Uma parte importante da educação para a dor e para o espírito de serviço apoia-se na virtude da fortaleza.

         Na estrutura da personalidade humana somente é possível educar para o serviço se, depois do autodomínio, sabemos forjar um coração forte, ordenado e que saiba amar. Compreender, perdoar, desculpar e corrigir os filhos a sós e com carinho, não impede a clareza da mensagem e o emprego de energia almofadada quando necessário, pois tais normas marcam definitivamente a etapa dos 6 aos 11 anos.

         O carinho que educa é oferecido sempre num marco de exigência e de serviço ao outro, e tem algo de divino que se manifesta no olhar, no gesto, na atitude festiva (o amor converte a vida em festa); na compreensão das fraquezas e defeitos, mas animando a corrigir-se; em saber prestigiar sem adular; é carinho ofertado a todos, mas que se manifesta como exclusivo para cada um.

    3 – Desenvolver a sensibilidades dos 6 aos 11 anos

         Não basta querer aos filhos: o ambiente de carinho que deve rodeá-los não elimina a exigência e a correção, quando necessárias. Não basta também que sejam instruídos em muitos saberes técnicos ou culturais: é preciso formar seu caráter. Aprender a querer está em pequenos detalhes como ter sempre as mãos limpas para não deixar marcas nos estofados, paredes e portas; é esforçar-se para deixar cada coisa em seu lugar e cuidar de não estragá-las com modos bruscos ou maus tratos; é ter detalhes de cortesia e bons modos com pessoas que não são da família; é jogar ou brincar sabendo sacrificar o resultado para conservar a unidade entre as pessoas; é evitar discussões e tentar compreender a razão dos outros; é ser agradecido, principalmente com Deus pelos dons recebidos…

         A sabedoria popular chama de “dureza de coração” ou “frialdade de sentimentos” a quem não manifesta um coração grande, magnânimo. A atmosfera que o lar deposita no coração da criança tem importância decisiva na formação da consciência dela. Frente a postura de dureza de coração cabe verificar o sentido que os pais dão à dor, pois a insensibilidade vai endurecendo o coração e perde-se o sentido purificador da solidariedade.

    4 – A dor e sofrimento educam

          A dor pode ser transformada em atitude de amor e de serviço. Aprende-se a sofrer, a amar, a servir e, concomitantemente, a ser feliz no lar, e desde o período de 6 a 11 anos, pois nele a criança desenvolve maior ressonância sensível.

         Todos estão de acordo com a definição não científica, mas de grande sentido comum, que com o coração sofremos e nos alegramos. Parece que a afetividade humana se reflete no coração, mais que em outras partes, e de modo diferente em cada pessoa. É fácil observar como duas pessoas são afetadas de maneira distinta diante do mesmo fato; nem sequer se pode dizer que a intensidade de um sofrimento pode ser causada pela privação ou importância de um bem. Em certa escola, um grupo de quatro meninas, entre seis e sete anos, perdeu o pai no período de poucos meses de diferença, sendo que as reações foram desiguais: uma delas se afetou de tal maneira que durante quase seis meses não pôde voltar ao colégio, pois tinha febre e vômitos causados pelo estado emocional; outra voltou a chupar o dedo como costume que há mais de dois anos tinha abandonado; outra aproveitou sua situação para chamar a atenção ao falar continuamente dos detalhes que rodearam o acontecimento; outra se tornou retraída, desajeitada e nervosa, surgindo dermatite em sua pele.

         Os acontecimentos, ainda que semelhantes, são rodeados de circunstâncias diversas que provocam dor cuja intensidade e resultado depende de cada pessoa. A dor é a resposta diante da perda de um bem devido à nossa natureza, mas cada ser humano sofre de maneira diferente. Se ante um pequeno acidente os pais reagem com serenidade, solucionando com naturalidade os problemas, as crianças compreendem que aquilo não tem grande importância. A fortaleza e a serenidade são ingredientes indispensáveis a pais e filhos para aprender a enfrentar e suportar a dor.

         A dor, a contrariedade e o cansaço assumidos na realização dos deveres se identificam com o amor e o espírito de serviço, e estes tornam possível aceitar aqueles, sem se deixar enganar ao substituí-los por compensações absurdas. Quando a dor é rechaçada, adotando-se ante ela uma postura insensível, procurando o analgésico ou deixando-se levar pelo desespero ou pela fuga, se rompe a unidade e a harmonia interior da pessoa, provocando um novo sofrimento. Nos pequenos casos apresentados a seguir nota-se o desejo desordenado de compensação ou fuga.

         Um menino de dez anos, depois de permanecer alguns meses na cama, engessado por todas as partes, o que provocou nele grandes feridas na pele, depois de curado se empenhava para que seus pais satisfizessem seus caprichos mais absurdos: ouvir música a todo volume até à meia noite, e se alguém se queixasse do incômodo o garoto exagerava com o que ele havia passado; exigia de seus pais gastos desproporcionados às suas possibilidades, argumentando que nada se comparava aos sacrifícios que ele havia sofrido; resistia a qualquer exigência, aludindo à injusta situação que viveu, considerando cruéis e culpando a todos os que não sofreram o que ele teve que aguentar, e a todos os que não estivessem dispostos a compensar o que ele havia sugerido.

         Uma menina de sete anos, cujo pai abandonou a família, viu sua mãe que, dedicada a resolver a situação econômica do lar, descuidou de preencher de sentido o sofrimento que causou na filha a fuga paterna. Enquanto isso, a menina encontrou na casa da avó um refúgio gratificante, pois esta, com pena da menina, a satisfazia com mimos e presentes. Com isso, a menina se tornou grosseira e desrespeitosa para com a mãe, e queria estar sempre na casa da avó. A mãe achava que essa reação da filha era consequência “normal” do que havia sofrido, e com falsa compaixão, sem perceber acabou mantendo o ressentimento da filha contra ela. A mãe deveria ensinar a menina a sofrer e a dar sentido à dor provocada pela injustiça que sofreu, e que já não seria possível remediar, pois assim a teria feito crescer em maturidade e misericórdia, que é uma meta alta que deve aspirar o coração humano. Fugir é ocupar-se de qualquer coisa que impeça estar consigo mesmo para não aceitar a dor.

         Existem fugas tão bobas que vão desde comer chocolates a toda hora, comer por comer, buscar uma diversão atrás da outra, ouvir rádio ou ver televisão indiscriminadamente, etc. Aceitar a dor, a contrariedade, o cansaço, a doença, a morte é aceitar a vida. Não há ninguém que possa mudar tais realidades: “da morte ninguém escapa, nem o pobre, nem o rei, nem o Papa”, disse Santa Terezinha. Falsificar a dor é colocar a pessoa a caminho de perder a saúde mental. Em troca, aceitá-la é dar sentido àquilo que é difícil, é transformá-la em amor purificador e redentor, e esse amor engrandece a alma e a salva.

    5 – Desprender-se do supérfluo

         Há sofrimentos não necessários, mas provocados pela frustração de muitos desejos inúteis que se despertam num coração desavisado e que se vê bombardeado de múltiplos estímulos sensíveis: muitos sofrimentos são evitáveis ao educar o coração para se desprender do supérfluo.

         Hoje é necessário ensinar as crianças a manter o coração desprendido de tantos bens supérfluos que são apresentados a todo momento e de forma atraente. A cada cinco minutos a publicidade digital descarrega inúmeras ofertas com o recado de que são “indispensáveis” para a nossa vida. As crianças são vítimas de modismos e grifes, e devem ser alertadas por seus pais sobre esse assédio consumista. Que aprendam a ser criativas ao inventar suas brincadeiras com embalagens e outros objetos simples, por exemplo. A imaginação da criança é mais rica que os produtos comerciais! O botão deve estar dentro das crianças, e não em aparelhos elétricos ou digitais.

    6 – A importância da família

         O homem tem por natureza uma estrutura familiar, e em seu âmbito psíquico-afetivo existe uma necessária ressonância que procede desse recinto vital que é o seu lar. A segurança emocional da pessoa procede principalmente da estabilidade da família. A unidade dos pais se projeta na identidade de cada filho. Pode-se dizer que uma criança tem tudo − mesmo que careça de muitas coisas materiais −, quando em seu lar exista uma unidade familiar fundamentada no carinho entre marido e mulher.

         Sem um lar verdadeiro, o homem se despersonaliza e se perde ao buscar sua identidade entre a massa. Chama a atenção ver como a moda é adotada de maneira mais intensa em jovens com famílias desestruturadas. Adolescentes que provém de famílias unidas, onde reina o carinho, manifestam uma personalidade mais definida e se apegam muito menos às imposições dos modismos e das grifes.

         Filhos que desde pequenos desempenharam tarefas no lar para o bem de toda a família, são impulsionados por motivos de amor porque percebem que servir é mais que um dever: é atitude de amor aos demais. Tal comportamento se manifesta também entre seus amigos da equipe esportiva, nas excursões, no ambiente escolar e de vizinhança, pois seu ânimo e alegria são evidentes e contagiosos.

         No lar se aprende a viver esses valores que dão calor à vida cotidiana e deixam marca na alma infantil. A fé, ilustrada com as narrativas bíblicas, transmite uma imagem luminosa que se imprime na alma da criança. Logo virá a etapa seguinte, onde o estudo dos temas relacionados à fé reforça na razão as convicções que agora se semeiam no coração. A força e o dramatismo da leitura de bons contos transmitem valores que despertam nas crianças desejos de heroísmo, de grandeza, de generosidade, de desprendimento, de magnanimidade, de ternura, de sacrifício…

    7 – Ensinar a viver o amor

         O amor e a dor se unem somente nas fronteiras da misericórdia. Seria absurdo pensar que a educação somente pode ocorrer no marco perfeito da família ideal. É preciso educar de modo a contar com a deterioração mais ou menos grande da saúde das pessoas com o passar do tempo: amar ao fraco é padecer com paciência a sua dor. Diante da deterioração do corpo de quem se ama, se buscam os mil meios para que seja curado, e não se despreza a pessoa pelas feridas que sofre, sejam físicas ou espirituais.

         Todo ser humano, por pior que seja sua conduta moral, terá capacidade de erguer sua vida, se sabe prender-se na mão que vem do alto e das mãos que o amor humano alarga como um ponto entre a miséria e grandeza. Este caminho somente decorre entre o oceano da misericórdia divina e o Céu da esperança. O homem tem que ser completo não apenas momento presente, mas em todas suas possibilidades de transcendência eterna. Não se deve centrar a atenção no pior momento da vida de alguém, como se não houvesse uma história na qual se pudessem destacar coisas boas entesouradas, ou como se não existisse um futuro com mil possibilidades para refazer-se.

         A misericórdia é tecida com fortaleza e paciência, com exigência e suavidade. Amar com um amor misericordioso é compadecer-se das misérias alheias, compreendendo e desculpando, sem se tornar cúmplice ou vítima em atitude doentia. O amor sabe suportar a dor presente e olhar o futuro com esperança e serenidade; o amor nos torna bons, nos impulsiona e eleva, nos purifica e renova.

         Quem na adolescência não aprende a lutar contra o egoísmo, dificilmente aprenderá a servir e a amar, pois a lógica consequência de um coração sensível ante a dor e a necessidade dos demais é o serviço.   Ensinar a viver o amor que se transforma em misericórdia é ensinar a esperar com otimismo; é buscar os remédios possíveis, humanos e sobrenaturais, para resgatar e elevar aquele que caiu.

         Mesmo antes da puberdade o coração deve ser exercitado na compreensão, no perdão e na alegria. Com a puberdade chega um novo período em que a solidariedade humana deve arraigar sobre o terreno bem preparado de um coração magnânimo, forte, e que seja capaz de vencer seu próprio egoísmo. Ninguém é capaz de servir se não foi treinado na fortaleza para resistir com paciência a dor e a contrariedade, encontrando nelas um sentido. Este período deve ser aproveitado para fazer a criança ver as necessidades e carências dos que a rodeiam; carências e necessidades que ela deve procurar remediar, umas vezes por estrita justiça e outras por caridade. A criança deverá encontrar neste período motivos sensíveis que a levem a servir.

         Ao final da etapa de 6 a 12 anos convirá insistir na ideia do dever como um requisito da justiça. No período sensitivo de 0 a 6 anos, os pais transmitiram suas atitudes e o sentido que dão à própria vida. Agora, antes da puberdade, a criança irá descobrir com mais força as vivências paternas, e saberá qual é a atitude que deve adotar ante as exigências de sua própria dignidade, ante a vida humana, ante a dor e a contrariedade, ante trabalho e o cansaço, ante o amor e a sexualidade humana, ante o mal e a injustiça, ante a doença e a morte.

         Se os pais vivem se queixando do trabalho, se realizam mal e às pressas suas tarefas, se buscam fugas ou compensações, se seus juízos são implacáveis para com as demais pessoas, se não sabem compreender e perdoar, se não sabem ver um aspecto positivo em situações mais duras, então não haverá teoria suficiente para educar o coração. Pais sensatos criam oportunidades para que seus filhos aprendam a servir, a fim de que gradualmente estes aumentem a capacidade de esforço e passem a agir aceitando livremente a responsabilidade, reconhecida como um dever de justiça ou de misericórdia. Ao chegar o período da juventude, quando foram bem aproveitadas a inclinação natural à justiça na adolescência, os jovens saberão lutar contra seu próprio egoísmo e realizarão grandes ideias de serviço aos demais.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base no livro “Para Educar Mejor”, de Maria Teresa Aldetre de Ramos, Colección Hacer Familia, Editorial Palabra, Espanha.

  • Educar para a maturidade psicológica

    Educar para a maturidade psicológica

    1. Maturidade psicológica. 2 – Para conhecer-se melhor. 3 – Ajudar as crianças no amadurecimento psicológico. 4 – Motivar a vontade. 5 – Educar a afetividade. 6 – Quem educa deve ter maturidade psicológica.

    1 – Maturidade psicológica

         A maturidade psicológica está, em primeiro lugar, em obter o máximo desenvolvimento das faculdades psíquicas (inteligência, vontade, afetividade, tendências, imaginação, memória, percepção). Em segundo lugar, consiste em obter ordem ou equilíbrio entre todas essas faculdades (harmonia da alma). Essa harmonia se parece com a da orquestra, onde os músicos tocam em sintonia com as ordens do regente. No caso do ser humano, o regente é a mente (inteligência e vontade): a inteligência procura a verdade de cada ação, e a vontade decide executar e controlar as forças sensíveis (a afetividade) para que se movam na mesma direção determinada pela inteligência e querida pela vontade.

         As ações internas são os atos do pensamento, da imaginação, da memória, da percepção e da afetividade que, juntamente com a vontade, constituem as funções psíquicas humanas que se desenvolvem com o uso, e quanto mais desenvolvidas, mais a pessoa se torna dona de si ao deixar-se dirigir pela razão e pela vontade. Em contrapartida, quando são pessoas dirigidas principalmente pela afetividade passam a produzir alterações psicológicas ou conflitos sociais, pois os sentimentos são instáveis e cambiantes.
         As faculdades psíquicas buscam o que as satisfaz (comer, beber, dormir, descansar, desfrutar, amar, sentir, entender). Para haver harmonia a busca deve ser hierárquica, onde as faculdades superiores (inteligência e vontade) controlam as inferiores (sentimentos, emoções, paixões), e os objetos superiores (amar, entender, querer) têm prioridade sobre as inferiores (comer, beber, dormir, sentir, descansar, imaginar, relembrar…). Todas são necessárias, mas as superiores têm uma relação maior com a felicidade, que é o objetivo último de cada homem: não basta a cada pessoa comer, beber, dormir, pois há ideais a concretizar ao serviço dos demais, dentro das capacidades que cada um recebeu de Deus.

         A educação da maturidade psicológica prioriza a educação da razão e da vontade. A educação da razão está em desenvolver o hábito de refletir antes de agir para buscar a verdade em cada ação; e corresponde à vontade a decisão de aderir ou não ao que a inteligência mostrou. O hábito de reflexão oferta mais opções para agir racionalmente, sempre em busca da melhor opção que corresponda ao bem e à verdade: agir racionalmente é a qualidade mais elevada e própria do ser humano (conduzir-se pelos instintos ou paixões até os animais o fazem).

    2 – Para conhecer-se melhor

         É preciso analisar as causas que levam a agir bem ou mal, para ter um conhecimento mais profundo da própria maneira de ser e dos hábitos adquiridos (bons ou maus). Essa reflexão faz a pessoa descobrir a causa de sua felicidade ou infelicidade, a fim de incentivar uns ou colocar os meios necessários para corrigir outros. Agir assim permite tomar decisões acertadas para perseverar no bem ou mudar em vista de se alcançar a excelência pessoal. A consciência moral, graças à formação recebida e o conhecimento das ações acertadas e das que foram corrigidas, e a análise dos sentimentos associados a essas ações, faz a pessoa acumular experiência de vida.

         Como ocorre com todo aprendizado, quanto antes se adquirir o hábito de reflexão, mais firme e permanente será a disposição para decidir bem e agir. Por isso, convém incentivar as crianças desde muito pequenas a refletir, ao perguntar a elas com frequência “Interessante! Por que fez assim?”, para que reflitam no motivo que as levou a agir bem. E quando se comportam mal, ao se deixarem levar pelas tendências ou afetos, é bom animá-las a que da próxima vez, antes de fazer algo, pensem na maneira mais correta de agir, e tentem levar à prática.

         Para estimular o processo reflexivo nas crianças, convém explicar as razões pelas quais devem agir bem. Essas razões devem ser de curto prazo, pois as crianças vivem o presente e o futuro imediato com intensidade. As razões de longo prazo, ou de futuro, também devem ser conhecidas por elas, a fim de que as aprendam para um futuro remoto (por exemplo, não fumar quando crescer, não ver pornografia, saber escolher as amizades…), porque se sentirão felizes e seguras no presente ao saber como contornar um problema que terão que enfrentar, e até para ajudar as pessoas que se iniciam naquilo que elas entendem ser um mal ou anti-valor.

    3 – Ajudar as crianças no amadurecimento psicológico

         Em geral, custa às crianças fazer o que é correto porque o incorreto costuma ser mais fácil: deixar as roupas largadas em qualquer lugar custa menos esforço do que colocá-las em cada gaveta; abrir a geladeira ao sentir fome é mais fácil do que esperar pela hora da refeição; ver desenhos é mais prazeroso que estudar ou ajudar a limpar a casa. Convém animá-las a pensar que agir corretamente poderá ser desagradável no imediato, mas será mais gratificante ao fortalecer, também no imediato, a vontade delas, porque não se deixaram levar por caprichos ou tendências desordenadas, e a médio e longo prazo as farão ganhar para a vida inteira os bons hábitos da ordem e do domínio próprio.

         A imaturidade psicológica, ou a falta de amadurecimento para a idade que possui, torna as crianças dependentes, afetivas de modo desordenado (hipersensíveis), impacientes ou sem capacidade para saber esperar e suportar até as pequenas contrariedades; também as conduz pelo imediatismo dos sentimentos, que as impulsiona apenas a buscar sensações agradáveis e fugir das desagradáveis, mesmo que estas sejam deveres a cumprir.

    4 – Motivar a vontade

         Educar a vontade a fim de que esta tenha força para dominar a afetividade, se consegue ao motivar-se para a realizar aquilo que a razão considerou como um bem, ainda que custoso de fazer. O que dificulta esse aprendizado é a afetividade, que por vezes tem mais força do que a vontade, principalmente na infância e juventude.

         O empenho para ajudar as pessoas a fazer algo que custa esforço chama-se motivar, e isso pode parecer quase impossível durante a infância. Porém, basta pensar nos sacrifícios que as crianças e jovens fazem para se destacar em algum esporte, concurso ou jogos competitivos, para perceber que estão aptas também para assumirem responsabilidades apropriadas à idade que possuem.

         A motivação para a vontade realizar sacrifícios ou esforços com o objetivo conseguir algo, mesmo que seja passageiro e com pouca repercussão no desenvolvimento da maturidade psicológica (decorar a letra de uma música, fazer com paciência uma dobradura, aprender um jogo de mesa), será sempre útil como treinamento para desenvolver a força de vontade, que depois será utilizada para o aperfeiçoamento psicológico na superação de inseguranças (preparar-se para um concurso), certos temores (falar em público), vencer traços negativos do caráter (vergonha, timidez, etc.) e outras emoções que bloqueiam ou paralisam o funcionamento racional e próprio de uma pessoa madura.

         Quanto maior for a força da vontade, maior é a facilidade para agir racional e livremente. Alguém com a vontade débil passa a ser impulsionada pelo motor afetivo (sentimentos, emoções, estados de ânimo), deixando de ser racional e, portanto, torna-se menos livre. As crianças pequenas são psicológica e biologicamente imaturas e funcionam impulsionadas por seus afetos. Por isso, quando um adolescente ou um adulto age a partir de suas vivências afetivas, costuma-se dizer que é infantil ou imaturo.

    5 – Educar a afetividade

         O desenvolvimento da vontade para alcançar o autodomínio supõe vencer as tendências afetivas ao aceitar passar mal a curto prazo e fazer o que custa esforço. Quem age assim sentirá a alegria do dever cumprido, sempre mais profunda e duradoura que a afetiva, que é momentânea e deixa em seguida o sabor amargo da infidelidade e da comodidade, quando não da covardia.

         Já foi dito que a afetividade tende a agir para se sentir bem ou não se sentir mal, de modo imediato. Assim, educar a afetividade consiste em conseguir que ela seja uma aliada da inteligência e da vontade, ao segui-las para realizar o bem, não porque seja o mais agradável de se fazer. Com o tempo, a afetividade quando se une à razão e à vontade, também consegue se sentir bem de modo imediato e mais profundo.

         Influentes psicólogos chamam de neuroticismo ao traço dominante nas pessoas imaturas e propensas a se mover por emoções e sentimentos de caráter negativo, que nelas são mais habituais e intensos que os positivos. Por isso, tais pessoas são reativas aos estímulos do ambiente em que vivem, tal como marionetes emocionais movidas pelos fios comandados por uma mão externa que são as circunstâncias variáveis, tornando-as impulsivas, dependentes, emocionalmente instáveis, ilógicas e pouco senhoras de si mesmas, e necessitadas de uma educação que fortaleça a vontade para controlar e dominar a afetividade, a fim de que possam agir pela razão, pois cabe a esta a ação de julgar sobre o bem e o mal das ações externas e as funções psíquicas ou internas.

         Ultimamente, o mundo esportivo monopoliza a atenção dos meios de comunicação, e alguns educadores passaram a dar mais importância ao desenvolvimento das habilidades físicas dos jovens, e pouca atenção ao desenvolvimento psicológico deles. O que vemos muitas vezes é que bons esportistas logo se perdem porque sua formação psicológica é fraca e se deixam arrastar por algum vício que rapidamente destrói a sua carreira. O esporte é um grande meio para fortalecer a vontade, pois exige grandes e contínuos esforços. Porém, não se deve limitar o esforço da vontade apenas para a realização de desafios físicos, mas também para exercitar a coordenação das ações psicológicas, que é característica da maturidade.

    6 – Quem educa deve ter maturidade psicológica

          A tarefa de coordenar as funções psíquicas pela continua educação da inteligência e o fortalecimento da vontade, deve ser permanente, positiva e alegre. Não se pode desanimar, mas começar e recomeçar a luta diariamente. Na época atual, uma dificuldade adicional para a educação da maturidade psicológica é a escassez de pessoas que saibam formar a personalidade dos jovens. O bom formador deve ser uma pessoa madura para saber ensinar, com exemplos práticos, o caminho da maturidade e de como superar os obstáculos mais frequentes para progredir nessa estrada, pois já o percorreu: diz o refrão “ninguém ensina o que não sabe”, ou seja, ninguém é bom guia em território que não o tenha percorrido muitas vezes. Por outro lado, um bom formador da personalidade deve ter a motivação suficiente para essa tarefa, e estar convencido da importância da formação interior para alcançar uma vida verdadeiramente feliz, de serviço aos demais, e não de egoísmos.

    Texto adaptado por Ari Esteves da obra “Maturidade psicológica e felicidade”, de Fernando Sarráis, Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009. Imagem de Yan Krukau.

  • Maturidade psicológica

    Maturidade psicológica

    1 – Harmonia entre a cabeça e o coração. 2 – Os fenômenos psíquicos podem alterar o funcionamento do corpo. 3 – O desconhecimento da interioridade pessoal. 4 – A importância exagerada do êxito social. 5 – Aperfeiçoar as capacidades superiores. 6 – Para dominar a afetividade. 7 – As crianças e a manifestação dos sentimentos.

    1 – Harmonia entre a cabeça e o coração

         A maturidade psicológica revela-se no comportamento harmonioso entre cabeça (razão e vontade) e coração (afetividade). Esse equilíbrio é hierárquico porque uma das partes (inteligência e vontade) está acima da outra (afetividade) ao ter capacidade para analisar, decidir e executar. Essa superioridade é a que distingue o homem dos demais animais. O fracasso em obter esse equilíbrio hierárquico é a base da imaturidade psicológica.
         No ser humano se integram elementos biológicos, psicológicos e espirituais, que precisam de tempo para alcançar a plenitude. No desenvolvimento fisiológico ou corporal, as forças mais importantes são determinadas pela genética (aspectos primários), enquanto as influências do ambiente são secundárias (aspectos secundários). Porém, no desenvolvimento psicológico o aspecto secundário é o temperamento, de base genética, e o aspecto primário, que são as forças do ambiente e da educação, é que atua fortemente na formação da personalidade.

    2 – Os fenômenos psíquicos podem alterar o funcionamento do corpo

         Cada órgão do corpo humano se integra a um sistema (digestivo, cardiovascular, respiratório…). No plano psicológico, a mente, que se comunica com o corpo por meio do sistema nervoso, é formada por várias faculdades (vontade, inteligência, memória, imaginação, percepção e afetividade) que se inter-relacionam. Os estados psíquicos podem alterar o funcionamento do corpo, e o funcionamento do corpo também pode alterar os estados psíquicos. Os fenômenos psíquicos ativam o sistema nervoso e estes produzem modificações no funcionamento do corpo (sudorese, taquicardia, palidez, enrubescimento, tremor…); e as funções fisiológicas que alteram as substâncias químicas do corpo podem modificar o funcionamento do sistema psíquico (depressão, desânimo…).

         Atualmente, devido ao predomínio de correntes hedonistas e materialistas, há forte influência dos aspectos corporais sobre o psicológico, o que explica a importância que se dá à forma física e às sensações corporais para o bem-estar psicológico (inclusive ao vício das drogas). Supõe-se que a felicidade humana consiste em sentir-se bem fisicamente e experimentar prazer. Ao se considerar o corpo como protagonista principal da felicidade, valoriza-se a beleza externa, a saúde corporal, a plenitude física obtida com o esporte. Porém, a hipertrofia ou aumento de um sistema atrofia outro. A valorização ou agigantamento do corporal fez descuidar o saudável desenvolvimento psicológico, e isso se nota no aumento de pessoas imaturas, propensas a enfermidades mentais e a ter mais conflitos sociais que dificultam a convivência pacífica no âmbito familiar, laboral e social.

    3 – O desconhecimento da interioridade pessoal

         À medida em que cresce o número de indivíduos obcecados pela perfeição corporal, descuida-se o desenvolvimento da interioridade pessoal, e esse desequilíbrio faz aumentar o número dos que carecem de dois elementos importantes da felicidade: 1) a capacidade de entrar em si mesmo (introspecção) para autoconhecer-se e avaliar o equilíbrio e desequilíbrio interiores; 2) a capacidade de dominar as funções psíquicas (percepção, imaginação, memória, pensamento e afetividade), cuja inabilidade leva à busca de estímulos externos para os sentidos, sensações e afetos.
         Há pessoas que sabem definir o quer vestir, comer, como se divertir, que esporte praticar… Porém, não sabem refletir sobre as características psicológicas que possui ou que gostaria de desenvolver, a fim de fomentar uma personalidade rica, sadia. Sabem avaliar a beleza corporal externa, que é facilmente modificável com uma boa roupa, penteado e perfume, mas não têm a mesma clareza sobre em que consiste a beleza interior e o que significa ser uma pessoa de caráter, autêntica (não falsa), com autodomínio, reta (não subornável), entre outras qualidades, pois tais aspectos ao valerem muito mais também exigem maior esforço para se conseguir.

         Nota-se hoje um empenho maior em ensinar conhecimentos úteis para triunfar na vida social, e pouco se faz na transmissão de aprendizados necessários para crescer nos aspectos interiores para ser feliz. Parece não haver consciência de que o êxito social tem relação direta com a maturidade psicológica, e que esta não é mero fruto da passagem do tempo ou da recepção passiva das influências do ambiente, mas é consequência do esforço, da luta pessoal em forjar o próprio caráter. Chegar à maturidade psicológica é tarefa que se inicia nos anos de infância e juventude; e será mais hercúlea e até impossível de se conseguir na idade adulta, tal como ocorre com certos aprendizados que se não forem alcançados na infância tornam-se difíceis ou até impossíveis de se atingir na idade adulta (andar de bicicleta ou patins, aprender matemática…).

    4 – A importância exagerada do êxito social

         A sociedade atual exagera a importância do êxito exterior e subestima a do êxito nas qualidades interiores como caminho para a felicidade. Por falta de profundidade interior, há quem necessite da aprovação externa para ser feliz porque se convenceu de que só o será quando for socialmente reconhecido seja pela fama, poder ou dinheiro. Essa atitude se reflete também na educação das crianças ao se dar especial importância a que tirem boas notas, saibam vários idiomas e tenham professores particulares para reforço escolar. Com isso, se convive pouco com os filhos e não se percebe suas carências caracterológicas e temperamentais para serem corrigidas, mas não deixam de ser animados a escolher determinada profissão porque se pensa que serão felizes se ganharem muito dinheiro. Trata-se de uma visão estreita, já que no futuro eles poderão ter uma gorda conta bancária, mas se não tiverem qualidades interiores (maturidade psicológica), não serão estáveis e profundos nas relações familiares, profissionais e sociais, e essas dificuldades de convivência os tornarão infelizes.

         Os programas educativos atuais não transmitem às criança e aos jovens atitudes positivas frente às situações normais da vida, com o fim de solucionar os problemas e não fugir deles: ou seja, para que saibam superar o medo ao sacrifício por alcançar um ideal, para vencer os estados de timidez e insegurança, para que não sejam egoístas, hipersensíveis e fracos de caráter. Por isso, muitos adolescentes são emocionalmente instáveis, influenciáveis (manipuláveis), dependentes de que façam as coisas por eles, impulsivos, inconstantes, características da imaturidade que atuam sobre o comportamento e desencadeiam modos superficiais de ser: imaturos, acomodados, frívolos…

    5 – Aperfeiçoar as capacidades superiores

         Saber como funcionamos por dentro é necessário, pois temos que conviver conosco a vida inteira. Além disso, para se acertar no modo de tratar os outros (esposa, filhos, amigos, colegas de trabalho) é necessário primeiramente saber como lidar consigo, a fim de limar as arestas e potencializar as qualidades para melhor servir aos demais.

         Cada ação humana livre produz efeito no mundo exterior e deixa marca no mundo interior do agente, formando o caráter: se a ação é boa faz melhorar o mundo e quem a pratica; se é má prejudica a ambos. Obter o máximo aperfeiçoamento das capacidades superiores e harmonizá-las com a afetividade equivale a obter maturidade psicológica pessoal. É importante ter uma educação que mostre, por um lado, o que é bom e o que mal; e por outro, a necessidade de pensar sobre qual é a melhor atitude a adotar e a melhor maneira de agir.

         O pensamento é a função pela qual a inteligência humana chega à verdade, o que faz do homem um ser racional, que é a primeira e essencial qualidade da natureza humana. A vontade deve estar estreitamente unida à inteligência, pois a força da vontade ao querer o bem impulsiona o pensamento para realizar retamente seus julgamentos: a vontade é a capacidade humana que faz o homem ser livre, o que é outra de suas qualidades essenciais.

    6 – Para dominar a afetividade

         A educação da maturidade psicológica também foi chamada de educação da afetividade, porque desenvolve o hábito de controlar os sentimentos, emoções e paixões por meio da vontade. A afetividade descontrolada impede a maturidade psicológica ao afetar a razão e a vontade. Motivada pelos estímulos biológicos e do ambiente, a afetividade move o sujeito a agir de imediato para se sentir fisicamente bem e evitar sentir-se mal, mesmo que seu comportamento não seja racional, e os meios para alcançá-lo sejam julgados pela razão como nocivos à pessoa e rejeitados pela vontade. A pessoa madura é a que conseguiu harmonia entre cabeça e coração, e faz da afetividade a melhor aliada da razão e da vontade ao levá-la na mesma direção destas.

         Educar a afetividade não supõe anular essa é importante faculdade psicológica, pois sem ela a vida perderia seu atrativo, como ocorre com as pessoas deprimidas, nas quais a afetividade está muito encolhida ou é negativa. Tampouco significa diminuir a sua importância ao fomentar uma visão desfavorável sobre ela. A afetividade é um motor potente do homem, e muitas vezes mais pujante que a vontade. O perigo ocorre quando a afetividade e a vontade buscam objetivos distintos, e o conflito entre ambas faz gerar o sentimento de angústia que leva a enfermidades psíquicas. Outro perigo é permitir que a afetividade exerça habitualmente o comando sobre a razão e a vontade, como ocorre nas crianças e nas pessoas imaturas. Quando se consegue que os dois motores do funcionamento humano (razão e afetos) atuem em uníssono, a capacidade de realizar tarefas importantes se multiplica e a situação interna da pessoa é de segurança e alegria, evidenciando-se nisso sua maturidade psicológica.

         A tarefa de harmonizar a cabeça (inteligência e vontade) e o coração (sentimentos, emoções, paixões) é uma obra de arte psicológica que se parece com a de dominar um instrumento musical, pois ambas requerem horas de prática durante toda a vida. No âmbito musical surgem dois elementos: o instrumento e o artista que deve conhecer e dominar sua técnica. No caso do funcionamento psicológico, um dos elementos é a afetividade com sua multiforme variedade de afetos, e o outro é a razão e a vontade, que funcionam unidas e que devem conhecer e dominar a afetividade.

         Para ter domínio afetivo é preciso que cada indivíduo aprenda a entrar em si (introspecção) a fim de analisar se o sentimento, positivo ou negativo, está de acordo com a razão. Essa tarefa requer tempo e prática, como é exigido para se conhecer bem uma pessoa. A razão é encarregada de avaliar a proporção e a adequação do sentimento em relação ao estímulo que o desencadeou, ou a influência que ele exerce sobre as demais funções psíquicas, em especial a memória, imaginação, a percepção de si e do mundo, e a influência desse afeto sobre a fisiologia corporal (conduta externa verbal, gestual e motora).

         Depois de fazer esses julgamentos, e em função do seu resultado, a pessoa, por meio do querer da vontade, atua para dirigir os afetos e conseguir que sejam proporcionais e adequados aos estímulos que os desencadearam, e para permitir ou impedir sua influência sobre as demais funções psíquicas, ou sobre o funcionamento corporal e o da conduta externa. Conseguir controlar a afetividade, tal como qualquer aprendizagem, requer tempo, prática e paciência.

    7 – As crianças e a manifestação dos sentimentos

         Os pais devem ajudar a criança a realizar juízos sobre seus afetos, animando-a a perceber se o que sente está em proporção com a realidade: perder uma partida de futebol não é o fim do mundo, ou se o seu sentimento de medo está adequado ou não (há medos bobos), ou para que não seja indiferente aos sofrimentos dos demais. Com a ajuda dos pais e educadores a criança começa a ter harmonia hierárquica entre razão e coração como sinal de maturidade psicológica proporcional à idade que possui. No próximo boletim abordaremos a educação para a maturidade psicológica.

    Texto adaptado por Ari Esteves da obra “Maturidade psicológica e felicidade”, de Fernando Sarráis, Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009. Imagem de Aguida Medeiros (@aguidamedeiro).

  • Bases para a personalidade da criança

    Bases para a personalidade da criança

    1 – Alicerce da personalidade. 2 – Autoestima. 3 – Força de vontade. 4 – A criança e a tolerância à frustração. 5 – Senso de realidade. 6Altruísmo. 7 – Os pais e o desenvolvimento da consciência moral da criança

    1 – Alicerce da personalidade

         “Personalidade é um modo estável de se relacionar consigo próprio, com os demais e com o mundo”, diz George Kelly, citado por Francisco Insa. Durante a infância o papel dos pais e educadores é ajudar a criança a desenvolver vários aspectos do temperamento e caráter que serão o alicerce da sua personalidade.

         Para se sentir acolhida desde os primeiros meses de vida, a criança precisa perceber que é amada e ter rostos alegres ao seu redor. Neste sentido, a mãe desempenha um papel importante: sua presença conforta e sua ausência, ou descaso, causa medo e insegurança, que poderá levar a criança à indiferença e a ter um caráter distante e frio com os pais.

    2 – Autoestima

         Para ter autoestima a criança necessita ser valorizada, sendo que isso é compatível com a correção de suas atitudes quando necessário. Aceitar o modo de ser da criança não significa que ela possa fazer o que quiser: é preciso corrigir com carinho e respeito seus defeitos de temperamento e caráter.

         A criança não é um adulto em miniatura e seu aprendizado é mais lento. Não se pode ser desqualificá-la com apodos negativos (preguiçosa, burra, bagunceira, mentirosa…), porque ela internalizará tais etiquetas e passará a se conformar com seus fracassos. Essa compreensão evita os estereótipos que humilham a criança. Elogiar mais e criticar menos: pais resmungões criam na criança a sensação de impotência. Surpreenda seu filho ou filha todos os dias ao parabenizá-lo pelo que realizou bem, pois o subconsciente da criança registrará o agrado e incentivará a repetir a ação. A consideração e o apreço fazem a criança sentir que possui qualidades. Acreditem nos filhos: o otimismo dos pais transmite confiança neles, e a simpatia torna atrativa a figura do educador!

    3 – Força de vontade

         Também é importante que a criança desenvolva a força de vontade, que a levará a perseguir com afinco algo que custe esforço realizar: manter um horário diário de estudo, por exemplo. A criança se move inicialmente pelo imediato, sejam caprichos ou impulsos primários, porque deseja a todo custo se sentir fisicamente bem ou deixar de se sentir mal, mesmo que seja necessário fazer coisas menos boas (fugir do esforço de guardar seus brinquedos) ou deixar de fazer coisas boas. Será preciso explicar a ela que a satisfação de um capricho, por exemplo, ficar passivamente vendo desenhos o dia todo, não a tornará tão feliz quanto montar com paciência e esforço um quebra-cabeça ou construir um belo castelo com lego, ou ter ordenado suas roupas e brinquedos, porque qualquer destas ações a levará exclamar com alegria: − Eu que fiz isso!, como quem afirma ter sido capaz de realizar algo que valeu a pena. A criança compreende que a fuga do bem custoso deixa o mau sabor do fracasso, que além de ser fonte de tristeza, cria o vício da preguiça que a tornará molengona.

    4 – A criança e a tolerância à frustração

         A tolerância à frustração também é um aspecto relevante a ser desenvolvido na criança, pois a levará a não desmoronar diante dos pequenos e inevitáveis fracassos que terá que suportar, seja na infância ou na adolescência. Ela aprenderá a ser resiliente ao tentar uma e outra vez melhorar o resultado de uma meta não alcançada, e isso requer que os pais estejam ao seu lado para a consolar e animar afetuosamente a recomeçar, mas sabendo se retirar discretamente e a tempo de que a criança perceba que foi ela mesma quem conseguiu o feito. Um outro aspecto que a criança necessita aprender é receber um “não” a uma pretensão (não lhe compraram a barra de chocolate), sem achar que o mundo desabou sobre a cabeça dela. Trata-se de uma luta que os pais precisam enfrentar ao não temer o show de um berreiro no shopping ou supermercado, pois será o modo de ensinar a criança a ter capacidade de se adaptar positivamente frente a situações adversas.

         Para que a criança desenvolva tolerância à frustração é necessário que tenha frustrações: crescer entre as almofadas e algodões da superproteção materna ou paterna, despersonaliza e a torna frágil frente aos inevitáveis reveses que a vida traz, já na infância e adolescência. A frustração pode começar desde o berço ao não ser atendida naquilo que pode esperar, pois as mães sabem quando um choro é motivado por alguma necessidade física (alimentação, asseio, frio ou calor, doença…) ou por um capricho que pode aguardar, como pegar no colo ou não acender a luz ao atendê-la de madrugada, a fim de que comece a aprender a esperar e que o silêncio da noite é para dormir (se os pais acenderem a luz ela não distinguirá o dia da noite).

         Há pais que passaram por dificuldades na infância e não desejam que seus filhos tenham essas experiências, poupando-os de todos os sofrimentos. É uma boa preocupação desejar que eles não provem certas situações como a separação dos pais, a falta de carinho, violências sofridas… Mas é preciso pensar que muitas dificuldades que os pais passaram, principalmente a carência de bens materiais pela falta de dinheiro, lhes fortaleceu a vontade, fez crescer o espírito de sacrifício, deu-lhes critérios de vida como a consciência de poupança e o sentido de desprendimento e o de não criar falsas necessidades; também os fez compreender que as coisas se adquirem com esforço, sendo necessário saber esperar, etc. Por isso, dar tudo de mão beijada (principalmente dinheiro e excesso de objetos) priva os filhos dos valores que a virtude da pobreza ou desprendimento aporta à construção da personalidade, e torna-os moles e frágeis de caráter.

    5 – Senso de realidade

         Outra característica para se fomentar na criança é o senso de realidade. É normal na infância uma certa dose de pensamento mágico, uma certa confusão entre sonho, desejo e realidade até na resolução dos pequenos problemas. Entre os dois e três anos de idade é característica a aparição do chamado amigo imaginário, sendo preciso respeitar e não ficar incomodado por isso, consciente de que o pensamento mágico tem a função positiva de ajudar a criança a resolver certos medos e conflitos, e a desenvolver a criatividade. Porém, é preciso incentivar a criança, à medida que entra na pré-adolescência, para que vá se apoiando cada vez mais na realidade, principalmente porque os videogames e as telas digitais criam um mundo fictício e, no mundo real, as soluções não vêm ao apertar botões: se quebrou o vaso de flores não há varinha mágica que o conserte, mas a criança terá que gastar um bom tempo fixando as partes com a cola adequada.

    6 – Altruísmo

         À medida que o campo de relacionamento da criança se amplia, é o momento de fomentar nela o altruísmo, que permitirá superar o típico egoísmo infantil (que é diferente do egoísmo de um adulto, pois este tem conotação moral).  A criança se lança instintivamente à maior fatia de bolo e comerá tudo que aguentar, sem pensar que na mesa há outros que também desejam comê-lo. Pouco a pouco, de maneira espontânea ou porque seus pais a fizeram olhar ao redor, saberá sacrificar seu próprio gosto em benefício dos demais. O ambiente familiar tem um papel chave, especialmente quando há vários irmãos, para ajudar a criança a renunciar seu próprio gosto pelo bem dos outros e para a formação de uma hierarquia de valor baseada no amor, que é base para uma rica vida espiritual, social e religiosa.

         O altruísmo também é fomentado ao ter a criança tarefas ou encargos domésticos apropriados à idade que possui, a fim de colaborar com a ordem, beleza do lar e bem-estar de todos. É injusto pensar que a criança é incapaz de ser solidária e não tenha espírito de serviço para contribuir com seu esforço na construção de um lar alegre e feliz. Negar à criança tais atribuições é fomentar nela o espírito de mera hospedagem e a errônea ideia de que tenha apenas direitos e não obrigações, transformando-a em senhor feudal, cujos pais são meros servos. Evidentemente essa não é a via para a construção de uma personalidade rica e sadia.

    7 – Os pais e o desenvolvimento da consciência moral da criança

         Cabe aos pais apoiar o desenvolvimento da consciência moral da criança, à medida que ela começa a ganhar compreensão de si, da responsabilidade por seus atos e das necessidades dos outros (inicia por volta dos seis anos). Essa consciência será auxiliada pelas normas praticadas em casa desde os primeiros anos da vida da criança, onde o exemplo, as orientações e indicações dos pais se internalizaram e passaram a fazer parte da vida da criança como luzes ou faróis que sinalizavam o caminho. Aos seis anos surge o sentido moral e a criança começa a distinguir o bem do mal, não mais em função do que ensinaram seus pais, mas ouvindo a sua própria consciência, ao fazer um juízo crítico tanto do quem vem de fora quanto do que se passa em seu mundo interior. Para a melhor formação da consciência da criança, os pais devem continuar ajudando-a distinguir entre o bem do mal, dando razões esclarecedoras; evidentemente isso também exigirá que os pais melhorem continuamente a própria formação para educar bem.

    Texto de Ari Esteves com base no livro “A formação da afetividade”, de Francisco Insa, Editora Cultor de Livros, 2021, São Paulo, SP. Imagem de Aguida Medeiros (@aguidamedeiro).

  • O papel da afetividade humana

    O papel da afetividade humana

    1 – A função da afetividade humana. 2 – Diferença entre sentimentos, emoções e paixões. 3 – Os afetos não devem comandar as decisões. 4 – A virtude da prudência. 5 – A educação da afetividade. 6 – Querer agir bem por amor.

    1 – A função da afetividade humana

              Há quem tem dificuldade para lidar e nomear seus sentimentos, emoções e paixões, e se surpreende com seus estados de ânimo e reações, a ponto de desejar saber o que lhe acontece e por que se sente desta ou daquela maneira.

              A afetividade surge na pessoa como uma reação em forma de sentimento, emoção ou paixão ao se relacionar com o mundo, consigo mesma ou com os demais. Diante de qualquer acontecimento significativo, todos notamos uma sensação interior que pode ser agradável ou desagradável, e por isso dizemos que tal coisa nos afetou, e nos sentimos confortáveis ou desconfortáveis diante de fatos positivos ou negativos.

              A afetividade tem uma função importante ao informar que algo é agradável ou desagradável, o que leva a pessoa a procurar ou a evitar esse algo. Seria o equivalente à sensação de prazer ou dor física em relação ao corpo. A afetividade reflete a unidade entre o corpo, mente e espírito porque as emoções, sentimentos e paixões provocam com frequência reações psicossomáticas: taquicardia, sudorese, palidez, enrubescimento, desconforto estomacal, dor de cabeça ou nas costas, etc.

    2 – Diferença entre sentimentos, emoções e paixões

              As emoções costumam surgir rapidamente e com grande intensidade, mas duram pouco: a repentina alegria perante uma boa notícia, a indignação automática diante de um insulto, a emoção que um filme ou a leitura de um romance pode causar…

              Os sentimentos são estáveis e menos intensos que as emoções e paixões, e perduram por mais tempo porque não são uma reação pontual, mas um estado duradouro, tal como o amor, a misericórdia, a compaixão ou o ódio, a inveja, os ciúmes (há sentimentos bons e maus).

              As paixões têm características comuns aos dois anteriores: são intensas e duradouras. Sua principal característica é a de arrastar para a ação de modo mais ou menos veemente e irresistível, em função da personalidade do sujeito: um apaixonado pelo futebol passa a semana toda pendente da partida do seu time e não deixa de assisti-la por nada neste mundo. As paixões se derivam de dois apetites: concupiscível e irascível. Se algo é bom ou prazeroso (um bom filme, uma boa refeição ou um plano de passeio, etc.) é desejado pelo apetite concupiscível: se se consegue realizar a ação vem o deleite; mas se algo é mau, o apetite concupiscível inclina a pessoa a fugir dele: se a fuga não for possível (fugir de uma doença) vem a dor, tristeza, angústia ou aborrecimento. Já o apetite irascível (de ira) faz a pessoa se sentir forte e com esperança de vencer um obstáculo que lhe custa, pois julga que poderá ultrapassá-lo: preparar-se com audácia e determinação para enfrentar um concurso ou o vestibular de uma instituição pública: se alcança o objetivo vem o deleite; se não há esperança de conquistá-lo virá o desespero, a raiva ou a vingança.

              A afetividade é algo que se sente ou se padece. Em princípio, o sujeito não é responsável por ter paixões (a menos que se coloque em ocasião de ser provocado). Normalmente é algo que vem de fora e a pessoa até preferiria não a experimentar, mas acaba sofrendo-a ou padecendo-a. Entretanto, mesmo vindo de fora, está ao alcance de cada um esforçar-se por moderar e não dar tanta atenção a essas sensações interiores. Para isso, deverá fomentar reações positivas e contrárias para arrefecer as negativas: alguém que recebe um insulto poderá ficar remoendo e dando voltas e mais voltas a ele na cabeça, de modo a ficar cada vez mais raivoso. Para serenar e não se deixar arrastar pela paixão da ira poderá tentar justificar que o outro reagiu sem pensar e não pretendia ofender, ou porque sofria alguma contrariedade intensa, ou porque todos podem errar e o perdão é uma atitude que se pode oferecer a um ofensor.

    3 – Os afetos não devem comandar as decisões

              Se os afetos e sentimentos se fazem sentir, isso não significa que devam ser os reitores das ações, pois a pessoa tem sempre a última palavra sobre o que deve ou não fazer. Ou seja, não podemos ser escravos dos nossos sentimentos. Mas, se a vontade for débil ou até mesmo enferma, como ocorre com quem padece de algum vício ou compulsão, será mais difícil manter a afetividade sob controle.

              A afetividade opera no curto prazo e tem um papel muito importante na vida ao indicar o que é agradável ou desagradável, o que é causa de prazer ou de temor, e leva a pessoa a agir em consequência. Contudo, a afetividade deve ser analisada de forma crítica, pois ela possui limitações: as emoções, afetos e paixões são muito individualistas e cada uma puxa a sardinha para a sua brasa (a paixão da gula pouco se importa com a diabete ou colesterol do sujeito). No caso do medo, a afetividade leva a fugir pelo caminho mais rápido se algo pode causar um mal ou desconforto. Porém, fugir nem sempre é a melhor atitude, pois há circunstâncias em que está em jogo um bem maior que obriga a enfrentar os temores com valentia e audácia.

              A afetividade é como uma criança pequena que se deixa levar pelo que agrada e foge do que desagrada: come um pacote de doce porque lhe apetece, sem se preocupar se fará mal, mas não come salada. A mãe terá que explicar a ela que alguns alimentos agradam ao paladar, mas não fazem bem à saúde; outros, mesmo sendo desagradáveis são necessários para que ela fique forte e saudável.

              A linguagem dos afetos é a percepção do que é agradável ou desagradável, e não do que é bom ou mau do ponto de vista moral, pois essa análise cabe à inteligência ou consciência prática. A instância superior da consciência, encarregada de analisar a dimensão moral das ações, indicará se a tendência afetiva deve ser seguida, porque está conduzida pela virtude e nos ajudará a fazer melhor o que deve ser feito ou, ao contrário, não deve ser seguida por se apresentar de forma desordenada, por exemplo, porque está motivada pela vingança, gula ou luxúria.

    4 – A virtude da prudência

              A afetividade por ser irracional necessita de um regente de orquestra que ponha ordem em tantas inclinações por vezes contraditórias. Esse papel cabe à virtude da prudência, que orienta cada afeto ou sentimento para ser uma força interior que apoie as ações retas: é melhor professor aquele que põe sentimentos no que faz; um jovem apaixonado por aviões que pretende ser aviador, enfrentará melhor as dificuldades para tirar o brevê, que lhe permitirá pilotar, mesmo que tenha que fazer o ensino médio pela manhã, trabalhar durante a tarde em alguma empresa para obter o dinheiro com o qual pagará o curso de aviador que terá de fazê-lo de noite (sem a força que lhe dá os sentimentos talvez desistisse logo).

              A virtude da prudência precisa de um norte, de uma direção ou meta para onde canalizar as energias dos afetos. Essa meta é a que cada um livremente escolhe dar à sua vida. Os afetos são bons e fazem parte da natureza humana e por isso estão incluídos na satisfação que Deus teve ao lançar seu primeiro olhar à sua Criação recém-terminada: “Contemplou toda a sua obra, e viu que era tudo muito bom” (Gen. 1,31). Não apenas bom, mas muito bom, como que se regozijando pela obra saída de suas mãos. Somente Deus poderia ter feito algo assim. Porém, às vezes, a afetividade leva a pessoa a se equivocar, pois todos carregamos dentro um princípio inato de desordem (pecado original) que pode obscurecer a inteligência e enfraquecer a vontade para que esta ceda diante de um bem parcial e imediato que falsamente se apresenta como um bem absoluto. Como foi mencionado, administrar sentimentos e paixões não é tarefa fácil, pois cada tendência puxa para o seu lado, esgarçando ou dividindo a pessoa. Daí a necessidade de educar a afetividade por meio de virtudes, pois estas tornam agradável a busca do bem, e assim fica mais fácil reconduzir sentimentos desordenados.

    5 – A educação da afetividade

              Cabe a cada um educar a própria afetividade para que a aparição e a intensidade das emoções, sentimentos e paixões estejam de acordo com o que é o correto, razoável e verdadeiro, e ter apreço pelo que é bom e aversão pelo que é mau. O gosto pelo que é agradável não pode arrastar a vontade a procurá-lo desordenadamente, a ponto de a pessoa abandonar suas responsabilidades; nem poderá rechaçar o dever que não é agradável, quando isso for uma desordem.

              Cada pessoa percebe dentro de si uma batalha interior que pode levá-la a não fazer o bem que gostaria, e a ceder ao mal que não queria realizar. A afetividade humana quando desordenada pode inclinar a pessoa a decidir por coisas que não convêm racionalmente: descarregar a ira sobre alguém, comer com gula um doce que não poderia, tomar bebida alcoólica imoderadamente, buscar relações sexuais fora do casamento, roubar para se enriquecer… As virtudes, que são hábitos operativos bons, fortalecem a pessoa para corrigir as tendências desordenadas da afetividade. A formação da afetividade dá à pessoa algo como uma segunda natureza que a faz atrair-se e deleitar-se com o bem, mesmo que seja árduo, ou que tenha que prescindir de planos bons, mas incompatíveis com a orientação que deu à própria vida.

              É necessário educar a razão ou inteligência não apenas com a informação do que é bom ou mau, mas ao mostrar o motivo das ações, o seu porquê. Com isso, a vontade terá forças para resistir as atrações desornadas da afetividade para perseverar na busca do bem. Evita-se, assim, três patologias: o sentimentalismo (agir só em função do que se sente), o voluntarismo (prevalência da vontade sobre a razão e os sentimentos) e o intelectualismo (dar primazia à inteligência, sacrificando a vontade e os afetos). Qualquer dessas patologias indica um domínio excessivo sobre a pessoa.

    6 – Querer agir bem por amor

              O sentido do dever, necessário para dar um norte às ações, não deve ser anulado. Porém, não devemos funcionar apenas pelo sentido do dever a cumprir, pois isso é insuficiente e se torna exaustivo. Devemos agir bem porque queremos, por amor, pois isso é que dá sabor e sentido à vida. Uma afetividade bem formada faz desejar e buscar o que é bom. A pessoa aprende desse modo a escutar a sua afetividade e a segui-la por decisão própria (racionalmente), e sem se deixar arrastar por ela, tal como o guarda de trânsito controla o fluxo de carros em um cruzamento: se ouve uma ambulância, faz parar todos os carros para dar prioridade a ela; se depara com um motorista imprudente, fá-lo parar e não permite que prossiga para não causar acidentes. Outra imagem interessante é a do cavaleiro que com sua inteligência e vontade dirige os impetuosos cavalos − imagem dos sentimentos, emoções e paixões −, dando a eles a direção que convém: cabeça e coração, inteligência e afetos não devem entrar em conflito, mas caminhar em harmonia.

              Vale a pena assistir o desenho “Divertida Mente”, da Disney, 2015, porque mostra como funcionam em nossa cabeça as emoções básicas que tendem a influenciar o comportamento: alegria, tristeza, medo, nojo e raiva. Essas emoções estão em contínuo diálogo entre si, nem sempre de forma pacífica básicas.

    Texto adaptado por Ari Esteves, com base no livro “A formação da afetividade” (capítulo O que é a afetividade) de Francisco Insa, Editora Cultor de Livros, 2021, São Paulo, SP.

  • Ensinar o adolescente a trabalhar bem

    Ensinar o adolescente a trabalhar bem

    1. Os jovens devem formar-se no espírito de trabalho. 2. Transmitir aos filhos o sentido de responsabilidade. 3. Adolescentes infantilizados. 4. Os filhos devem perceber as necessidades dos demais. 5. Tarefas no lar. 6. Fomentar virtudes e ideais grandes nos filhos. 7. Animar os filhos a serem generosos

    Os jovens devem formar-se no espírito de trabalho

          Adolescentes e jovens devem se formar num ambiente de laboriosidade e disciplina. A educação para o trabalho pressupõe a educação para o estudo, a fim de que os filhos exercitem a concentração, a disciplina, a ordem, a constância, o espírito de sacrifício, o sentido de responsabilidade e tantas outras virtudes necessárias para aproveitarem bem o tempo, e se tornarem profissionais de prestígio e prontos para servir com competência aos que necessitarem de seus serviços.

          A virtude do trabalho ou da laboriosidade é básica e deve ser vivida desde as primeiras idades da criança por meio de diferentes rotinas familiares que vão educando os sentimentos e afetos por meio de virtudes ou bons hábitos: momentos de lazer e brincadeiras, realização de encargos apropriados à idade de cada filho; horários de estudo, leituras, refeições, dormir, acordar, entre outros.

    Transmitir aos filhos o sentido de responsabilidade

          Estimular os adolescentes para que percebam os talentos que possuem e não temam o sacrifício que comporta alcançar o ideal que sonham é tarefa dos pais, que devem fomentar neles um grande sentido de responsabilidade e ajudá-los a perceber a obrigação grave que têm de estudar e preparar-se bem para utilizar seus talentos ou qualidades humanas ao serviço dos demais. Com isso, fomentarão nos filhos as virtudes humanas que irão prepará-los para participar ativamente tanto vida familiar e social.

          Todos nos condoemos ao ver tantas energias juvenis desperdiçadas, perdas de tempo em celulares e games, acrescidas da absoluta falta de perspectiva porque os pais não educaram para a laboriosidade, nem para ideais grandes. A juventude sempre está disposta a perseguir altos projetos, mas é preciso abrir horizontes a ela. Toda criança tem pensamentos de aventura, de ação, de triunfo, que devem ser canalizados não para metas egoístas, mas para realizar o bem a tantas pessoas necessitadas, primeiramente por meio da aplicação aos estudos.

    Adolescentes infantilizados

          Se ao iniciar o ensino médio o filho continua a ser irresponsável ao acomodar-se no confortável papel de quem não tem obrigações e nem se esforça para estudar seriamente, e não procura descobrir suas aptidões pessoais a fim de canalizá-las para uma profissão com a qual possa servir melhor, os pais não devem esperar que ele se tornará um jovem responsável e competente de repente, ou que o diploma consertará todos os vícios que desenvolveu. Se o adolescente se abandona aos caprichos, se transforma em terreno inculto onde crescem espinhos e abrolhos.

          Muitos adolescentes de quinze e dezesseis anos, ainda infantilizados e preguiçosos, mal sabem escrever com letra cursiva (utilizam a letra de forma, o que indica um analfabetismo funcional) e ficam travados ao desenvolver uma simples redação de dez linhas sobre a família ou o que fazem no dia a dia. Isso revela que o vício de gastar horas e horas diariamente no celular os cegam para estabelecer metas diárias de leitura e estudo, a fim de se prepararem para os exames do Enem, e malbarateiam o seu tempo jogando-o no ralo. Com a desculpa de que não sabem o curso ou faculdade que pretendem fazer, anestesiam a consciência e permanecem passivos, ociosos, e utilizam a internet para perder tempo em redes sociais, vídeos e jogos, e não buscam nela informações e respostas sobre como descobrir suas aptidões por meio de testes vocacionais ou lives sobre as diferentes profissões, com o objetivo de se planejarem para enfrentar as concorridas escolas públicas.

    Os filhos devem perceber as necessidades dos demais

          Na encíclica “Fratelli tutti” (todos irmãos), o Papa Francisco lembra a passagem evangélica do Bom Samaritano, e diz: “existem simplesmente dois tipos de pessoas: aquelas que cuidam do sofrimento e aquelas que passam ao largo; aquelas que se debruçam sobre o caído e o reconhecem necessitado de ajuda e aquelas que olham distraídas e aceleram o passo. De fato, caem as nossas múltiplas máscaras, os nossos rótulos e os nossos disfarces: é a hora da verdade. Debruçamo-nos para tocar e cuidar das feridas dos outros? Abaixamo-nos para levar às costas o outro? Este é o desafio atual, de que não devemos ter medo” (FT, 70).

          Os filhos devem ter motor próprio e perceber as necessidades dos demais tanto na vida familiar como nos ambientes que participam, como o escolar ou entre os amigos. Não deve ser necessário que a mãe peça ao adolescente que limpe o quintal e recolha a sujeira que o cachorro deixou, nem que mantenha em ordem seus objetos pessoais ou colabore nos demais serviços do lar. Um filho sensível, consciente de suas obrigações, faz tudo isso sem que lhe peçam, pois se sente movido pelo amor, que deve se manifestar primeiramente em obras de serviço aos seus pais e irmãos. Há comportamentos que revelam solidariedade ao dar o próprio tempo aos demais.

          Perceber e agradecer o esforço que na família as pessoas fazem ao utilizar a máquina de lavar, fazer compras, limpar, cuidar de um doente, preparar as refeições, pôr e tirar a mesa… Muitas atividades devem ser gerenciadas para que no lar tudo discorra bem. Se um filho se concentra apenas em assuntos pessoais e não se envolve nessas tarefas, nunca aprenderá a trabalhar bem, pois o trabalho é sempre um serviço aos demais e não uma atividade para ser servido por todos.

    Tarefas no lar

          Diversas mães sugerem serviços domésticos que podem ser atribuídos aos filhos nas diferentes faixas etárias (https://staging.ariesteves.com.br/tarefas-para-criancas/). Isso ajudará a incutir nas crianças o espírito de serviço e de prontidão, tornando-as solidárias e participantes na construção de um lar alegre, limpo, ordenado, onde todos se sentem bem. Sem essas atribuições, cria-se nos filhos um espírito de mera hospedagem e a ideia errada de que são apenas sujeitos de direitos e não de obrigações, e com isso se transformam em senhores feudais e seus pais em meros servos.

    Fomentar virtudes e ideais grandes nos filhos

          A felicidade é um dom do amor, e esse dom exige sair de si para doar-se. Os filhos, desde a adolescência, devem concluir que receberam gratuitamente de Deus as qualidades pessoais que possuem para colocá-las ao serviço dos demais. Com isso, tornam-se capazes de buscar ideais grandes que os faça transcender-se, e não estacionar comodamente numa vida raquítica e cômoda. 

          Manter uma vida frívola é sempre algo perigoso. Advertir os filhos do risco de se conformar com metas estritamente pessoais, egoístas ou fechadas em si mesmas: encerrar-se no próprio eu é algo mesquinho, estreito, que empequenece a alma. O trabalho de formação dos pais deve aproximar os filhos da fé, do encontro com Cristo, a fim de que não trabalhem em vão e com estreita visão humana, tendo como únicos objetivos ficar rico, ter poder, status, pois são ideais que encerram a pessoa no egoísmo, que é fonte de infelicidade, além de que uma esperança humana, puramente humana, carece de fundamento. A pessoa que vive com perspectivas estreitas, que não possui interesse por qualquer coisa que não seja o seu prazer e divertimentos, nunca compreenderá o verdadeiro sentido do amor e da felicidade, e terá as pessoas apenas como degraus para os seus interesses.

    Animar os filhos a serem generosos

          Quem ama não sabe calcular, diz o ditado. A alegria de servir traz a experiência de que um trabalho que parecia incômodo se transforma em gratificante, pois passa a ser desejado como um bem ao próximo. Os pais devem fomentar nos filhos ambições nobres, animando-os a levar uma vida mais generosa, e a ter no coração desejos de servir aos demais com suas qualidades: ser sábios, generosos e audazes sem temer os sacrifícios de realizar o sonho de tornar feliz a vida dos demais. Assim, os filhos se animarão em preparar-se para dar soluções aos problemas que afetam tantas vidas.

         Aproveitar para ler os boletins “A disciplina familiar” e “A rotina na vida das crianças

    Texto de Ari Esteves inspirado no artigo “Educar para a laboriosidade”, de Carlos Roberto Pegoretti Júnior, Diário do Grande ABC, 23-08-2021. Imagem de Leeloo The First.

  • Seu filho e o celular

    Seu filho e o celular

    1 – Crianças viciadas em telas digitais se tornam passivas. 2 – As virtudes asseguram o bom uso dos celulares. 3 – Ensinar a criança a controlar seus impulsos. 4 – Os adolescentes anseiam por autonomia

    1 – Crianças viciadas em telas digitais se tornam passivas

         As novas gerações nasceram em um mundo interconectado, ao qual os seus pais não estavam acostumados, e desde muito cedo têm acesso à Internet, redes sociais, chats, videogames. Crianças e jovens estão expostos a um universo sem fronteiras que oferece benefícios e riscos que não podem ser ignorados, o que torna necessária a proximidade e orientação dos pais, que devem adquirir conhecimentos e alguma prática para formar o seu próprio critério e orientar os filhos.

         As novas tecnologias criaram um ambiente onde se pode passar horas e horas. Pedagogos, psicólogos e orientadores familiares constatam que a criança que passa a depender da superestimulação artificial das telas, se acomoda e não é capaz de se encantar ou admirar-se com nada mais, pois deseja apenas retornar à hiperatividade das telas, onde muitos desenhos tidos como “infantis” mudam de cena a cada oito segundos (7,5 cenas por minuto), o que não acontece no mundo real da criança. O excesso de imagens satura os sentidos e bloqueia o raciocínio e a imaginação, e torna a criança passiva e entediada com o mundo real, porque acha-o chato, lento e sem graça. E quando sai à rua com os pais ela não sabe fixar a atenção em nada ao seu redor porque, acostumada à superestimulação, perdeu a curiosidade e a imaginação se acomodou.

         Cada vez mais os dispositivos tecnológicos estão conectados à internet, atingem amplas audiências e permitem que qualquer pessoa difunda mensagens de forma rápida e praticamente sem custo. Que tipo de mensagens? Eis a questão. Para não colocar os filhos em riscos desnecessários ou criar vícios é preciso avaliar o momento oportuno para que utilizem equipamentos digitais. Dos seis aos vinte e quatro meses a criança não precisa de brinquedos, pois se diverte quando o pai ou a mãe brinca de se esconder e reaparecer atrás da porta, gosta de engatinhar e se encanta com os pequenos objetos que encontra no caminho: o ruído do papel celofane, a formiga que carrega uma folha, a embalagem vazia no chão da cozinha… É assim que ela vivencia as próprias experiências e desenvolve as habilidades motoras e de percepção. Se se pretende dar algum brinquedo à criança nessas idades, é desnecessário que sejam de pilhas e contenham botões, já que estes devem estar dentro da criança e não fora dela: não é a brincadeira que deve funcionar, mas a criança. A realidade simples e viva é a atividade por excelência com a qual a criança aprende movida pela curiosidade, desenvolve sua percepção ao considerar os acontecimentos reais do entrono, entre outros benefícios.

         As crianças necessitam despertar a curiosidade diante das pessoas e objetos que as cercam, buscar respostas para as suas experiências e não obter tudo pronto ao apertar botões de equipamentos eletrônicos, que roubam delas a interação com o mundo ao seu redor. Uma criança não precisa estar conectada à internet; se necessário for, é melhor que siga um plano de acesso por um tempo restrito e em local e horário determinados (à noite, desconectar ou desligar), ao mesmo tempo ensiná-la a se proteger de situações perigosas e falar sempre com os pais se algo estranho ocorrer.

         Muitos educadores afirmam que as crianças não devem ter aparelhos eletrônicos avançados (tabletes, celulares, videogames). E se manuseiam algum equipamento por alguns momentos, por sobriedade e para não criar falsas necessidades, é aconselhável que os aparelhos sejam da família e não delas, e só devem ser utilizados em lugares comuns e com normas e horários, a fim de se habituarem a ter outras atividades mais úteis como estudar, cumprir encargos no lar, descansar no convívio com os familiares (o valor do contato humano não pode ser substituído por telas).

    2 – As virtudes asseguram o bom uso dos celulares

         O problema não está nas tecnologias, mas no modo como cada um as utiliza. A vida virtuosa é o filtro mais infalível que existe. Os pais devem ensinar os filhos a se comportarem virtuosamente no mundo digital, e isso se consegue não somente com regras e filtros, mesmo que estes válidos para proteger as crianças da pornografia, ameaças sexuais e outros malefícios. O mais importante é educá-los por meio de virtudes, a fim de que queiram ter uma vida reta, limpa, ao direcionar suas paixões e evitar com alegria tudo que é inconveniente na esfera digital. As novas tecnologias devem estar presentes nas conversas e regras da casa, que costumam ser poucas e de acordo com a idade dos filhos. Ensinar a viver as virtudes implica que os pais sejam exigentes consigo próprios ao moderar o uso do celular para aproveitar melhor o tempo e fixar a atenção na criança que lhes deseja falar… A coerência dos pais ao viverem pessoalmente o que indicam é o melhor modo de educar, pois os filhos ao serem testemunhas desses esforços irão imitá-los.

         A família é escola de virtudes, e onde as crianças aprendem as primeiras noções acerca do bem e do mal, e os valores sobre os quais podem alicerçar uma vida reta e sã. A meta é que cada filho aprenda a tomar decisões de forma adequada à sua idade, e saiba administrar a sua liberdade porque está movido por hábitos que lhe facilitam o autodomínio, a temperança no comer e beber e a ter horários para brincar, estudar e ajudar nas tarefas da casa. Também deve dominar a curiosidade e não entrar em sites que destroem a vida moral e criam vícios difíceis de arrancar. Deve desgostar de perder tempo com informações que não servem para nada, e aprender a descansar criativamente com leituras, quebra-cabeças, xadrez, dama, lego, vídeos culturais previamente programados… Estabelecer diretrizes e explicar sobre a importância de utilizar melhor o tempo e não gastá-lo em redes sociais, videogames, jogos online, são conselhos que os filhos necessitam para desprenderem-se de ambientes digitais. Os mesmos conselhos que orientam o comportamento dos filhos nos espaços públicos (boas maneiras, recato ou pudor, respeito a si e ao próximo, cuidado com a curiosidade, não permanecer ocioso, etc.), devem ser utilizados nos espaços digitais.

    3 – Ensinar a criança a controlar seus impulsos

         De acordo com a idade de cada filho, torna-se decisivo manter diálogos esclarecedores sobre a educação dos afetos (sentimentos, emoções, paixões), a fim de que controlem seus impulsos e tenham presente que o publicado na internet torna-se acessível a todos em qualquer parte do mundo, e deixa rastro que pode ser acessado por tempo indefinido. O mundo digital é um grande espaço que exige mover-se com bom senso: se os pais dizem à criança que na rua não fale com estranhos, o mesmo deve ser dito quando estão no ambiente digital. Uma comunicação franca na família cria um ambiente de confiança onde as dúvidas e as incertezas dos filhos são rapidamente resolvidas.

         Como um bom guia de montanhas, os pais devem acompanhar os filhos no ambiente digital para que estes não sofram e nem causem danos a outros: consultar com eles a internet e “perder tempo” ao jogar um videogame com os filhos tornam-se oportunidades para conversas mais profundas sobre o uso da rede. Essas experiências devem ser transmitidas a outras famílias.

         A infância é o momento de iniciar a prática das virtudes, e de aprender o bom uso da liberdade. No período de zero a seis anos criam-se hábitos que serão básicos na formação do caráter e domínio do temperamento, e se aprende a viver a virtude da ordem nos aspectos material (guardar brinquedos e roupas próprias) e temporal (ter horários para cada atividade). Tais hábitos, uma vez adquiridos, fortalecem a vontade para vencer a preguiça e o comodismo.

         É conveniente mostrar aos filhos o valor da austeridade quanto ao uso de aplicativos, gadgets (dispositivos portáteis), etc. Ensiná-los a viver o desprendimento não é apenas por motivos econômicos, mas para que não sejam dominados pela compulsão de ter as últimas novidades da indústria eletrônica, nem criar falsas necessidades (tem mais quem precisa de menos). Saber esperar até que os objetos úteis barateiem é parte da virtude da pobreza ou do desprendimento dos bens materiais. 

    4 – Os adolescentes anseiam por autonomia

         Na adolescência os filhos anseiam por um grau maior de autonomia, e os pais devem ir soltando as rédeas aos poucos, porque ainda são incapazes de administrar plenamente a liberdade. Mas isso não significa que tenham de ser privados da independência que lhes corresponde. Trata-se de ensinar-lhes a administrar a liberdade responsavelmente, a fim de serem capazes de visualizar objetivos mais altos ao colocar suas capacidades ao serviço do próximo. Autonomia e respeito às regras da disciplina familiar se conseguem com diálogos esclarecedores sobre os porquês ou razões subjacentes a algumas exigências que poderiam parecer limitantes, mas que na realidade não são proibições, e sim afirmações que ajudam a forjar uma personalidade autêntica que sabe ir contra a corrente de modismos ou campanhas publicitárias que escravizam: o guard rail das estradas não limitam a liberdade do motorista, mas orientam e protegem a sua vida.

         Educar é dotar os filhos de uma sabedoria que lhes permita administrar os sentimentos e afetos por meio da inteligência e vontade bem formadas. Mostrar como a virtude é atrativa e abraça ideais magnânimos: lealdade, respeito aos outros, fidelidade, solidariedade, autodomínio para ter as rédeas das inclinações instintivas, pudor, modéstia, etc.

         A missão dos pais é facilitada quando conhecem as preferências dos filhos, sabem o que lhes entusiasma e se interessam pelos hobbies que praticam. Assim se gera a confiança necessária para que eles compartilhem seus sentimentos. Há jovens que escrevem blogs ou usam as redes sociais para colocar conteúdos, e seus pais não sabem ou nunca leram os seus textos, o que leva os filhos a julgarem que eles não se interessam ou não apreciam o que fazem. Ler com agrado e interesse o que seus filhos escrevem ou postam enriquecerá o diálogo familiar.


    Sugestão de leitura para completar o tema: Boletim Educar na realidade

    Texto adaptado por Ari Esteves com base no artigo “Educar en las nuevas tecnologias”, de Juan Carlos Vásconez, (@jucavas). Imagem de Tima Miroshnichenko.

  • Transmitir a fé aos filhos

    Transmitir a fé aos filhos

    1 – Fé, legado mais importantes para se transmitir aos filhos. 2 – A fé deve ser vivida no dia a dia. 3 – Dificuldade dos jovens para viver a fé. 4 – Sem virtudes os filhos não vivem a fé. 5 – Piedade sem doutrina não basta. 6 – Abrir horizontes ao mostrar a beleza da fé.

    1 – Fé, legado mais importantes para se transmitir aos filhos

       A fé é o legado mais importante que os pais podem transmitir aos filhos, porque uma esperança humana, puramente humana, carece de sentido já que tudo passa com a morte, e nem riquezas e nem as honrarias nos acompanharão ao sepulcro. A Esperança que alegra o coração é a que eleva-se até Deus porque apenas a fé e o Amor a Deus dão significado à existência humana. A transmissão da fé não é uma questão acessória, da qual depende só um pouco mais de felicidade, mas trata-se de algo radical que afeta o resultado de toda a vida, à qual passa a iluminar. 

       Nenhuma comunidade humana está tão bem-dotada como a família para facilitar que a fé enraíze nos corações das crianças, a fim de que elas coloquem seus primeiros afetos em Deus, em Jesus Cristo e em Nossa Senhora, à imitação de seus pais, se estes forem sinceramente piedosos. É na própria família que se forja o caráter, a personalidade, criam-se os bons costumes, e onde se aprende a conviver com Deus

         A família cristã transmite a beleza da fé e do amor a Cristo ao viver em harmonia, ao saber sorrir e esquecer as próprias preocupações para atender aos demais, “a não dar importância a pequenos atritos que o egoísmo poderia converter em montanhas; a depositar um amor grande nos pequenos serviços de que se compõe a convivência diária(É Cristo que passa, n. 23).

         Transmitir a vida de Jesus Cristo aos filhos é o melhor alimento que se pode dar a eles, que desde pequenos têm necessidade de Deus e capacidade de perceber a sua grandeza. As crianças sabem apreciar o valor da oração e do que é sagrado, e percebem a diferença entre o bem e o mal. Fomentar nos filhos a unidade entre o que se crê e o que se vive é a meta a ser conseguida, pois uma mensagem de salvação afeta toda a pessoa, ao enraizar no entendimento e no coração. Para isso, está em jogo a amizade dos filhos com Jesus Cristo, tarefa que merece os melhores esforços dos pais para tornar acessível a doutrina cristã aos filhos.

    2 – A fé deve ser vivida no dia a dia

         Para transmitir a fé é importante que a família tenha vida de piedade, que é de trato simples e filial com Deus: abençoar as refeições, rezar com os filhos pequenos as orações da manhã e da noite, ensinar-lhes a recorrer aos Anjos da Guarda, a ter carinho com Nossa Senhora, a dar importância à participação na Santa Missa, mesmo durante as viagens, ensinar de forma natural a defender e a transmitir a fé e o amor a Jesus. Esses são modos concretos de favorecer a virtude da piedade (trato filial com Deus) nas crianças.

         O “Elemento fundamental e insubstituível da educação para a oração é o exemplo concreto, o testemunho vivo dos pais: só rezando em conjunto com os filhos, o pai e a mãe […] entram na profundidade do coração dos filhos, deixando marcas que os acontecimentos futuros da vida não conseguirão fazer desaparecer”. (Exhort. Apost. Familiaris consortio, n.60).    

         Se os pais pretendem mostrar como a vida de Cristo muda a existência do homem, é lógico que os filhos notem que, em primeiro lugar, tenha mudado a vida de seus próprios pais. Ser bons transmissores da fé em Jesus Cristo implica manifestar com a própria vida a adesão a Ele, e lutar cada dia por ser melhores, pois os filhos, ao verem esse esforço, procurarão imitar os pais.

         A educação da fé não é um mero ensinamento, mas a transmissão de uma mensagem de vida. Ainda que a palavra de Deus seja eficaz em si mesma, é mais convincente quando se vê encarnada na vida dos pais, e isso é importante para as crianças. Os pais têm tudo a seu favor para comunicar a fé aos filhos. Além da palavra, devem ser piedosos, coerentes, e dar testemunho pessoal a todo o momento, com naturalidade, sem procurar dar lições constantemente. As crianças são perspicazes, mesmo que pareçam ingênuas, e percebem como seus pais vivem a fé. É preciso pensar no modo mais pedagógico de transmitir a fé a elas, e preparar-se para ser bons educadores. Porém, o decisivo é o empenho com que os pais colocam em prática em suas vidas os princípios da fé.

    3 – Dificuldade dos jovens para viver a fé

         Muitos jovens afrouxam na fé que receberam ao sofrer algum tipo de prova: a pressão de um ambiente paganizado, amigos que ridicularizam as convicções religiosas, um professor que dá as “lições” numa perspectiva ateia ou que põe Deus entre parêntesis. Há jovens que foram educados na piedade, mas sucumbiram diante de um ambiente para o qual não estavam preparados, porque careciam de profundidade doutrinal e educação nas virtudes. É preciso conhecer os diferentes ambientes que influenciam na educação dos filhos para ajudá-los a superar as dificuldades.

         As crises de fé ganham força quando os filhos deixam de comentar suas dificuldades com os pais. É importante criar um clima de confiança e estar sempre disponíveis a eles, pois, por mais indóceis que pareçam, desejam sempre essa aproximação. Falar com os filhos é o que há de mais grato aos pais, sendo também a via mais direta para estabelecer uma profunda amizade: quando há confiança, eles falam de suas inquietações e sentimentos. Embora haja idades mais difíceis do que outras para conseguir essa proximidade, os pais não devem afrouxar no entusiasmo por “chegarem a ser amigos dos filhos; amigos a quem se confiam as inquietações, a quem se consulta sobre os problemas, de quem se espera uma ajuda eficaz e amável” (Cristo que passa, n. 27).

         Nesse ambiente de amizade que deve ser a família, os filhos devem ouvir falar de Deus de um modo agradável e atrativo. Mas isso requer que os pais encontrem um tempo de qualidade para estar com os filhos, e estes devem perceber que suas coisas interessam aos pais mais do que outras ocupações. Nenhuma circunstância pode levar a omitir ou atrasar esse diálogo: desligar a TV ou o computador quando a menina ou o garoto pretende dizer algo; reduzir a duração do trabalho profissional para chegar cedo em casa, e facilitar a conversa com os filhos; encontrar formas de entretenimento que tornem agradável a vida familiar, etc.

         Os filhos, embora vivam no mesmo lar, possuem interesses e sensibilidades diferentes, e essas variedades ao invés de serem obstáculos, ampliam o horizonte educativo. Conhecer o temperamento e o caráter de cada filho leva a educá-lo de forma personalizada, sem estereótipos. Mesmo sendo o caminho da fé muito pessoal − pois faz referência ao mais íntimo da pessoa (sua relação com Deus) −, o papel da instrução é ajudar a percorrê-lo. Transmitir a fé não é questão de estratégia, mas de facilitar que cada um queira melhorar ao descobrir o desígnio de Deus para a sua vida.

    4 – Sem virtudes os filhos não vivem a fé

         Na transmissão da fé não basta a piedade, mas é relevante a educação nas virtudes para que os filhos não cedam diante do mais fácil, e deixem de seguir a razão iluminada pela fé. Formar nas virtudes requer salientar a importância da exigência pessoal, do empenho no trabalho e estudo, no espírito de serviço aos demais, na temperança, pois esses bens estão acima dos desejos materiais e facilitam a compreensão das realidades do espírito.

         Educar os filhos com pouca exigência, nunca lhes dizer “não” e procurar satisfazer todos os seus desejos, é caminho que lhes fechará as portas para a elevação do espírito. Essa condescendência nasce de um falso carinho, ou do querer livrar-se do esforço de pôr limites aos apetites e ensiná-los a obedecer e a esperar. E como a dinâmica do consumismo é insaciável, cair nesse erro leva os filhos a ter um estilo de vida caprichoso e volúvel, introduzindo-os numa espiral negativa de busca de comodidades, de falta de virtudes humanas e desinteresse pelos outros. Saciar todos os caprichos é colocar sobre a vida espiritual uma carga pesada, incapacitando a pessoa para a doação e o compromisso com Deus e aos demais.

    5 – Piedade sem doutrina não basta

         A transmissão da fé aos filhos é uma tarefa que exige empenho. Quando se busca educar na fé, “não se deve separar a semente da doutrina da semente da piedade” (Forja, n. 918). É preciso unir o conhecimento com a virtude, a inteligência com os afetos. Não bastam algumas práticas de piedade com um mero verniz de doutrina: é necessário que a doutrina se faça vida ao se transformar em determinações no dia a dia, em compromisso que leve amar a Cristo e aos demais.

         Piedade sem doutrina torna os filhos vulneráveis diante do combate intelectual que sofrerão ao longo da vida. Por isso, necessitam de uma formação apologética profunda e ao mesmo tempo prática, e que respeite as peculiaridades próprias de cada idade. Ao tratar de um livro ou de atualidades poderá ser boa ocasião para ilustrar o tema com a doutrina da fé. Ler o Catecismo ou o Compêndio da Doutrina Cristã com as crianças ajudará a que compreendam a importância do estudo da doutrina.

    6 – Abrir horizontes ao mostrar a beleza da fé

         Conseguir que os filhos interiorizem a fé requer aproveitar as diferentes situações para aconselhá-los com razões humanas e sobrenaturais. Abrir horizontes é mostrar aos filhos a beleza da vida cristã e das virtudes, sem limitar-se a dizer o que é proibido ou obrigatório, pois isso daria a falsa imagem de que a fé é uma normativa que limita, e não que liberta o coração de liames que o escravizam e eleva a alma até as verdadeiras alegrias. Na educação da fé deve-se ter muito presente que os Mandamentos de Deus conduzem a pessoa à melhor expressão de si mesma, tal como seguir o manual de instruções do carro o faz render melhor, os Mandamentos são o manual para melhor utilização dessa união de alma e corpo que são os seres humanos.

         Seria um erro associar “motivos sobrenaturais” ao cumprimento de encargos, tarefas ou “obrigações” que sejam custosas para as crianças. Não é bom abusar do recurso de pedir à criança que tome a sopa ou coma salada como um sacrifício a Deus: dependendo de sua vida de piedade e de sua idade pode ser conveniente, mas é melhor procurar outros motivos que a estimule. Isso porque Deus não pode ser o “antagonista”,  mas um Pai que ama cada um de seus filhos acima de todas as coisas, e que Cristo é o bom Mestre, o Amigo que nunca engana.

         Relacionar a fé com razões que os filhos compreendam e valorizam revela que a mensagem cristã é racional e bela: amar a Deus em primeiro lugar coloca ordem nos demais amores, faz dirigir a vida ao esquecimento próprio (ideal que atrai aos jovens), e permite compreender as razões pelas quais se deve viver a castidade, a temperança na comida e uso dos games, a laboriosidade, o desprendimento dos bens, a prudência no uso da internet.

         Educar na fé é pôr os meios para que os filhos convertam sua existência inteira em um ato de adoração a Deus: “a criatura sem o Criador desaparece” (Const. past.Gaudium et spes, n. 36). Na adoração encontra-se o verdadeiro fundamento da maturidade pessoal: se não se adora a Deus, adora-se a sim mesmo por meio de desejos de poder, prazer, riquezas, ciência, beleza…

         Para adorar, as crianças devem descobrir a figura de Jesus Cristo ao serem estimuladas desde pequenas a falar pessoalmente com Ele (isso se chama oração). Aproveitar fatos cotidianos para contar a elas sobre Cristo e seus amigos e penetrar com elas nas cenas do Evangelho. Estimular a piedade nas crianças significa facilitar que elas ponham o coração em Jesus Cristo. Explicar a elas sobre os acontecimentos bons ou maus, e que escutem a voz da própria consciência, na qual o próprio Deus revela sua vontade, e procurar pôr em prática o que ouviu. As crianças adquirem tais hábitos quase por osmose, vendo como seus pais se relacionam com o Senhor, e como O têm presente em seu dia a dia. A fé, mais que a transmissão de um conteúdo, é seguir uma Pessoa que aceitamos sem reservas e a quem nos confiamos.

         Os bons pais desejam que seus filhos alcancem a plenitude humana e espiritual, sendo felizes em todos os aspectos da existência: profissional, cultural, afetivo e espiritual. O melhor serviço que se pode prestar a uma pessoa – a um filho de modo especial – é apoiá-la para que responda plenamente à sua vocação cristã, e descubra o que Deus espera dela. Porque não se trata de uma questão acessória, da qual depende só um pouco mais de felicidade, mas de algo radical que afeta o resultado de toda a vida.

    Sugestão de leitura: “A fé explicada”, de Léo J. Trese, www.quadrante.com.br

    Texto extraído e adaptado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, com base nos artigos "Transmitir la fé", de Alfonso Aguiló, em www.almudi.org. Imagem de Cottonbro Studio.

  • A disciplina familiar

    A disciplina familiar

    1 – Não basta dar alimento e abrigo aos filhos. 2 – A ordem e as rotinas. 3 – Crescer em espírito de serviço. 4 – Para chegar a ser um adolescente organizado. 5 – Importância da cultura familiar. 6 – Programar o encontro com o belo.

    1 – Não basta dar alimento e abrigo aos filhos

         Para uma família educar não basta dar alimento, abrigo, segurança e deixar o tempo passar, como se isso suprisse todas as necessidades da alma humana. Um lar formador disciplina em três aspectos práticos que envolvem todos os membros, inclusive as crianças: ordem, por meio de rotinas; espírito de serviço ou preocupação pelos demais através da realização de encargos ou tarefas no lar; e fomenta o crescimento humano e espiritual ao programar encontros com a verdade e o esteticamente belo.

    2 – A ordem e as rotinas

         A ordem se manifesta nas rotinas familiares a que todos devem respeitar: horário de dormir e de acordar, horário das refeições, horário de iniciar e findar o trabalho profissional; horário de estudar, ler ou descansar… A sabedoria esconde-se atrás das rotinas, que não são algo meramente externo, pragmático, cuja eficiência organizativa visa transformar cada pessoa em robô. A rotina é o caminho para chegar à disciplina interior, para controlar a tendência dos afetos quando estes buscam apenas o prazeroso. A falta de rotina conduz cada um a agir como bem entender: a chegar do trabalho ou da escola na hora que quiser, a fazer as refeições em qualquer local (diante da televisão ou no sofá), a deixar os objetos pessoais em locais diferentes de cada vez, a isolar-se para cuidar apenas dos próprios interesses.

         A virtude da ordem tem quatro pilares: ordem material ao manter organizados os objetos da casa e os de uso pessoal; ordem temporal, que leva a cumprir cada tarefa ou encargo no momento previsto; ordem afetiva ou dos sentimentos ao fazer o que deve ser feito e não o que mais agrada; ordem mental ao priorizar o importante e fomentar a capacidade de se auto-organizar.

    3 – Crescer em espírito de serviço

         Os encargos são aquelas tarefas atribuídas a cada um − inclusive às crianças − a fim de colaborar com o bem-estar de todos na casa. Cada encargo é parte de um trabalho maior a ser alcançado entre todos. Se os filhos não possuírem encargos se habituarão a ter todo tempo unicamente para as coisas pessoais, e se tornarão egoístas, preguiçosos e sem se importar com os demais.

         Tanto as rotinas como os encargos se inserem dentro da virtude da ordem, e trazem imensos benefícios a todos os membros da família, e também às crianças: é fonte de estabilidade e segurança ao dar certeza sobre o que fazer em cada momento, faz crescer o sentido de responsabilidade, promove a disciplina interior ao deixar uma atividade e iniciar outra, controla os afetos que tendem apenas ao prazeroso, facilita a obediência, cria no lar um ambiente sereno onde a televisão e outras mídias se mantém desligadas e só serão utilizadas em horários pré-determinados, permitindo que as pessoas tenham tempo para pensar, ler, dialogar ou concentrar-se em suas tarefas…

         Até aos cinco anos, a criança deve crescer na dimensão material e temporal da ordem, que dará a ela mais estabilidade comportamental, disciplina, atenção e equilíbrio emocional para controlar seus impulsos (ordem afetiva). É evidente que a criança não deve ser um mini executivo com a agenda lotada e olhos pregados no relógio. Mas se não sabe que fazer em cada momento, torna-se confusa e desordenada.

         Para as crianças, as rotinas são criadas com paciência, insistindo durante algum tempo até que as façam sozinhas, e parabenizando-as pelo esforço cada vez que alcançam uma etapa. A rotina de limpar o pó dos livros − ou do espelho, etc. − tem que ser pacientemente explicada, a fim de que a criança não fique confusa e desista ao não se sentir preparada. Não ter pressa ao ensinar é o segredo, já que não se trata de buscar a eficiência material de limpar os livros. A limpeza de uma estante de livros poderá demorar uma semana. O importante é fazer lentamente os movimentos com a mão que tira o pó, depois colocar calmamente o livro na prateleira e retirar o seguinte.

         A criança pequena não distingue a sucessão temporal, mas apenas o momento presente: não tem noção de ter o dia vinte e quatro horas, de ter a semana sete dias e o mês trinta. Por isso, ela não sabe o que vem em seguida: se é hora de pintar, lanchar ou de tomar banho. O mesmo acontece a um adulto colocado em ambiente desconhecido: se desorienta e não sabe o que fazer.

         É preciso mostrar à criança a sequência das atividades ao colocar uma cartela com desenhos coloridos que indiquem o que vem depois. No Colégio Porto Real, Rio de Janeiro, em cada sala de aula há uma pequena cartela com as quinze atividades que as crianças devem desenvolver ao longo do dia. A encarregada da sala vai deslocando a bolinha para a próxima atividade a ser realizada. Sem isso, elas ficam sem saber se devem ir para o lanche, pátio ou sala. Somente por volta dos sete ou oito anos é que saberá se organizar sozinha (ordem mental).

         Não se deve impedir que as crianças desde pequenas tenham encargos, nem substitui-las no que conseguem fazer, mesmo que no início não cumpram com perfeição e exijam paciente e bem-humorado treinamento. Não é suficiente que ela fique metida apenas em suas coisas. A criança executa seu encargo com a alegria de estar praticando um jogo. Ao fazer isso, cresce em autodomínio, independência, preocupação pelos demais e ganha espírito de equipe ou de cooperação, que são hábitos ou virtudes portadoras de felicidade, já que o egoísmo é sempre causa de isolamento e tristeza. A criança a partir de um ano e meio pode jogar na lixeira a fralda suja, colocar seus brinquedos em cada caixa, deixar a roupa na gaveta, dormir e comer no horário.

         Isso não quer dizer que as crianças só devam fazer o quem gostam, pois assim jamais cresceriam em espírito de serviço e força de vontade, e ficariam sempre pendentes dos sentimentos e gostos. Fazer tarefas que não nos agradam faz parte da vida. Porém, ao atribuir uma tarefa à criança, levar em conta o caráter e o temperamento dela: tarefas movimentadas podem corresponder àquela mais inquieta, enquanto à mais calma conferir as que exijam maior atenção e cuidado. A idade é outro fator para distribuir encargos, pois sempre haverá escala de dificuldade entre eles. É interessante fazer a distinção entre idade mental e real, pois algumas crianças estão mais capacitadas que outras para efetuar determinadas tarefas, independentemente da idade real. Não incumbir tarefa que seja fácil nem difícil de executar, pois ambas desestimulariam a criança.

    4 – Para chegar a ser um adolescente organizado

         A criança acostumada a realizar suas tarefas desde pequena, logo se tornará um adolescente organizado e com força de vontade para enfrentar dificuldades. E porque foi estimulada a fazer o que devia, aprendeu a vencer os estados de ânimo: ao arrumar o quarto, roupas e brinquedos, quando não sentia gosto em fazer, fortaleceu sua vontade para enfrentar agora tarefas mais exigentes, como a de ter hábito diário de estudo. Se os pais cedem, os filhos serão arrastados pela preguiça ou comodismo. Permitir que os filhos adiem as tarefas é autorizá-los a que sejam preguiçosos e irresponsáveis. Devem primeiro cumprir o que os pais pedem, e só depois serem autorizados a fazer o que querem:− “Não poderá ir brincar enquanto não recolher os pratos e arrumar a mesa do jantar”. Caso contrário, será desordenado, acomodado e habituado a fazer apenas o que gosta, tal como inundar-se de imagens digitais, que tornam a mente preguiçosa para a leitura de livros, e viverá centrado apenas em si e em suas coisas.

         Há pais que impedem seus filhos de crescerem psicologicamente, pois preferem vê-los como eternas crianças. Tal atitude, egoísta e injusta, não os prepara para uma adolescência virtuosa porque não os fazem crescer em autonomia, mantendo-os sempre necessitados de que façam as coisas por eles. O paternalismo ou a superproteção enfraquece a vontade e o caráter dos filhos, pois os substituem nos esforços que deveriam fazer. As crianças não devem ser vistas apenas como necessitadas de ajuda e portadoras unicamente de direitos, mas possuidoras também de deveres para com os pais, irmãos e demais pessoas que se relacionam com a família. Ao contribuir para com o bem-estar de todos na casa, elas crescem humana e espiritualmente: enxugar banheiro, colocar pratos e talheres na mesa, ordenar seu quarto e objetos pessoais, varrer, ajudar os irmãos, ser educadas com os que não são da família…

    5 – Importância da cultura familiar

         A família é o primeiro âmbito de promoção da cultura e o ambiente mais próximo da pessoa, sendo também o que mais pode ajudar seus integrantes a desenvolver a sensibilidade para a verdade, o bem e o belo. Gustave Thibon dizia que “uma das principais funções da família é criar um ambiente em que a instrução tende a converter-se em cultura e a cultura converter-se em sabedoria no sentido de saborear”.

         É triste comprovar que muitos pais não sabem programar os fins de semana, e desaproveitam esse precioso tempo para enriquecerem culturalmente a si e aos filhos. A falta de interesse e esforço dos pais pela própria formação cultural e humana decepciona os filhos, que logo se lamentarão de não apreciarem a música clássica, de serem indiferentes à pintura, escultura, poesia, teatro e literatura, porque seus pais agiram preguiçosamente nesse campo. Há uma relação muito grande entre pais que cultivam sua sensibilidade estética e filhos que também a cultivam. Se os pais não desejam que as filhas pequenas imitem as danças sensuais que veem na TV e cantem letras ofensivas − mesmo que no momento não compreendam o que dizem −, precisam criar no lar uma atmosfera de cultura ao colocar as crianças frente ao que é estética e moralmente mais belo.

         As tertúlias ou bate-papos familiares durante as refeições ou momentos de lazer, ilustram as crianças sobre a profissão do pai e da mãe, seus gostos artísticos, seus hobbies. Muitas crianças não sabem como é o trabalho do pai e da mãe porque estes dialogam pouco com elas sobre isso (pensam erradamente que elas não compreenderão). As vivências e experiências narradas enriquecerão as crianças, que se sentirão valorizadas pelos pais.  A transmissão do patrimônio cultural da família pode ser feito com fotografias, objetos de decoração que são lembranças de pessoas ou momentos do passado, vídeos e gravações de viagens, tradições e costumes da família.

         Os pais não são os únicos responsáveis pela cultura familiar: filhos mais velhos, tias, tios e avós podem colaborar nessa promoção ao falar de seus estudos, hobbies. Convidar amigos para contar alguma experiência interessante: viagem, esporte, artes, colecionismo.

       Visitar livrarias e feiras de livros com as crianças, inscrevê-las em bibliotecas públicas, ir a exposição de quadros ou esculturas, participar de audições musicais de diferentes gêneros a fim de que possam comparar o que é esteticamente mais belo, levá-las ao teatro infantil, à leitura de poesias e contação de histórias; programar nos fins de semana sessões de vídeos culturais, históricos, geográficos. E incentivar sempre as crianças a relatarem as impressões sobre o que presenciaram.

         Com o espírito elevado pelas boas leituras, a TV, tabletes, celulares e mídias sociais perderão o atrativo, pois se descobriu a maneira mais intensa e rica de aproveitar o tempo. As cinco ou seis horas que muitos adolescentes gastam atualmente com games, vídeos e mídias sociais, e que mal se recordam no dia seguinte do que ficou dessas horas que escoaram sem deixar rastro, tal como água sobre pedra, é um alerta para que os pais incentivem o gosto pelos livros, pois uma boa leitura nunca se esquece e faz ganhar capacidade de expressão, autoconhecimento, criatividade e experiência de vida.

    6 – Programar o encontro com o belo

         A arte, atividade humana criadora de beleza, é regida pelo sentido da estética e não pelo de utilidade, que é próprio da ciência e da técnica. A beleza tem algo de divino e inspira o coração e a mente das crianças. O teatro, a pintura, a escultura, a poesia e a arte narrativa (conto, romance, novela) tornam rico o espírito humano, que passará a produzir do que se alimenta. As crianças precisam ser introduzidas pelos pais no mundo da cultura, a fim de descobrir a beleza estética encontrada nas diversas manifestações artísticas. Helena Lubienska, discípula de Maria Montessori, relata que a Divina Comédia, de Dante Alighieri, foi lida com avidez em sala por meninos de sete a doze anos. Ela se surpreendeu com a atenção que colocavam na narrativa e a facilidade com que decoravam trechos da obra; e por fim, apresentaram uma peça teatral baseada nesse texto.

         O tempo dedicado à leitura de um bom livro oferece muito mais à inteligência e à sensibilidade do que as longas horas deglutindo sucessivos desenhos, jogos eletrônicos e fotos em redes sociais. A cultura das imagens se dirige ao desenvolvimento de sensações e impressões superficiais e passageiras, diminuindo a capacidade reflexiva. A leitura de bons livros leva a raciocinar, a criar as próprias imagens ao remover a imaginação e a memória, a construir ideias sobre a vida e as pessoas, o que leva ao autoconhecimento, além de transmitir critérios que orientam a conduta para o bem.

    Texto de Ari Esteves. Imagem de Ron Lach.