Categoria: EDUCAÇÃO

  • Ensinar o adolescente a trabalhar bem

    Ensinar o adolescente a trabalhar bem

    1. Os jovens devem formar-se no espírito de trabalho. 2. Transmitir aos filhos o sentido de responsabilidade. 3. Adolescentes infantilizados. 4. Os filhos devem perceber as necessidades dos demais. 5. Tarefas no lar. 6. Fomentar virtudes e ideais grandes nos filhos. 7. Animar os filhos a serem generosos

    Os jovens devem formar-se no espírito de trabalho

          Adolescentes e jovens devem se formar num ambiente de laboriosidade e disciplina. A educação para o trabalho pressupõe a educação para o estudo, a fim de que os filhos exercitem a concentração, a disciplina, a ordem, a constância, o espírito de sacrifício, o sentido de responsabilidade e tantas outras virtudes necessárias para aproveitarem bem o tempo, e se tornarem profissionais de prestígio e prontos para servir com competência aos que necessitarem de seus serviços.

          A virtude do trabalho ou da laboriosidade é básica e deve ser vivida desde as primeiras idades da criança por meio de diferentes rotinas familiares que vão educando os sentimentos e afetos por meio de virtudes ou bons hábitos: momentos de lazer e brincadeiras, realização de encargos apropriados à idade de cada filho; horários de estudo, leituras, refeições, dormir, acordar, entre outros.

    Transmitir aos filhos o sentido de responsabilidade

          Estimular os adolescentes para que percebam os talentos que possuem e não temam o sacrifício que comporta alcançar o ideal que sonham é tarefa dos pais, que devem fomentar neles um grande sentido de responsabilidade e ajudá-los a perceber a obrigação grave que têm de estudar e preparar-se bem para utilizar seus talentos ou qualidades humanas ao serviço dos demais. Com isso, fomentarão nos filhos as virtudes humanas que irão prepará-los para participar ativamente tanto vida familiar e social.

          Todos nos condoemos ao ver tantas energias juvenis desperdiçadas, perdas de tempo em celulares e games, acrescidas da absoluta falta de perspectiva porque os pais não educaram para a laboriosidade, nem para ideais grandes. A juventude sempre está disposta a perseguir altos projetos, mas é preciso abrir horizontes a ela. Toda criança tem pensamentos de aventura, de ação, de triunfo, que devem ser canalizados não para metas egoístas, mas para realizar o bem a tantas pessoas necessitadas, primeiramente por meio da aplicação aos estudos.

    Adolescentes infantilizados

          Se ao iniciar o ensino médio o filho continua a ser irresponsável ao acomodar-se no confortável papel de quem não tem obrigações e nem se esforça para estudar seriamente, e não procura descobrir suas aptidões pessoais a fim de canalizá-las para uma profissão com a qual possa servir melhor, os pais não devem esperar que ele se tornará um jovem responsável e competente de repente, ou que o diploma consertará todos os vícios que desenvolveu. Se o adolescente se abandona aos caprichos, se transforma em terreno inculto onde crescem espinhos e abrolhos.

          Muitos adolescentes de quinze e dezesseis anos, ainda infantilizados e preguiçosos, mal sabem escrever com letra cursiva (utilizam a letra de forma, o que indica um analfabetismo funcional) e ficam travados ao desenvolver uma simples redação de dez linhas sobre a família ou o que fazem no dia a dia. Isso revela que o vício de gastar horas e horas diariamente no celular os cegam para estabelecer metas diárias de leitura e estudo, a fim de se prepararem para os exames do Enem, e malbarateiam o seu tempo jogando-o no ralo. Com a desculpa de que não sabem o curso ou faculdade que pretendem fazer, anestesiam a consciência e permanecem passivos, ociosos, e utilizam a internet para perder tempo em redes sociais, vídeos e jogos, e não buscam nela informações e respostas sobre como descobrir suas aptidões por meio de testes vocacionais ou lives sobre as diferentes profissões, com o objetivo de se planejarem para enfrentar as concorridas escolas públicas.

    Os filhos devem perceber as necessidades dos demais

          Na encíclica “Fratelli tutti” (todos irmãos), o Papa Francisco lembra a passagem evangélica do Bom Samaritano, e diz: “existem simplesmente dois tipos de pessoas: aquelas que cuidam do sofrimento e aquelas que passam ao largo; aquelas que se debruçam sobre o caído e o reconhecem necessitado de ajuda e aquelas que olham distraídas e aceleram o passo. De fato, caem as nossas múltiplas máscaras, os nossos rótulos e os nossos disfarces: é a hora da verdade. Debruçamo-nos para tocar e cuidar das feridas dos outros? Abaixamo-nos para levar às costas o outro? Este é o desafio atual, de que não devemos ter medo” (FT, 70).

          Os filhos devem ter motor próprio e perceber as necessidades dos demais tanto na vida familiar como nos ambientes que participam, como o escolar ou entre os amigos. Não deve ser necessário que a mãe peça ao adolescente que limpe o quintal e recolha a sujeira que o cachorro deixou, nem que mantenha em ordem seus objetos pessoais ou colabore nos demais serviços do lar. Um filho sensível, consciente de suas obrigações, faz tudo isso sem que lhe peçam, pois se sente movido pelo amor, que deve se manifestar primeiramente em obras de serviço aos seus pais e irmãos. Há comportamentos que revelam solidariedade ao dar o próprio tempo aos demais.

          Perceber e agradecer o esforço que na família as pessoas fazem ao utilizar a máquina de lavar, fazer compras, limpar, cuidar de um doente, preparar as refeições, pôr e tirar a mesa… Muitas atividades devem ser gerenciadas para que no lar tudo discorra bem. Se um filho se concentra apenas em assuntos pessoais e não se envolve nessas tarefas, nunca aprenderá a trabalhar bem, pois o trabalho é sempre um serviço aos demais e não uma atividade para ser servido por todos.

    Tarefas no lar

          Diversas mães sugerem serviços domésticos que podem ser atribuídos aos filhos nas diferentes faixas etárias (https://staging.ariesteves.com.br/tarefas-para-criancas/). Isso ajudará a incutir nas crianças o espírito de serviço e de prontidão, tornando-as solidárias e participantes na construção de um lar alegre, limpo, ordenado, onde todos se sentem bem. Sem essas atribuições, cria-se nos filhos um espírito de mera hospedagem e a ideia errada de que são apenas sujeitos de direitos e não de obrigações, e com isso se transformam em senhores feudais e seus pais em meros servos.

    Fomentar virtudes e ideais grandes nos filhos

          A felicidade é um dom do amor, e esse dom exige sair de si para doar-se. Os filhos, desde a adolescência, devem concluir que receberam gratuitamente de Deus as qualidades pessoais que possuem para colocá-las ao serviço dos demais. Com isso, tornam-se capazes de buscar ideais grandes que os faça transcender-se, e não estacionar comodamente numa vida raquítica e cômoda. 

          Manter uma vida frívola é sempre algo perigoso. Advertir os filhos do risco de se conformar com metas estritamente pessoais, egoístas ou fechadas em si mesmas: encerrar-se no próprio eu é algo mesquinho, estreito, que empequenece a alma. O trabalho de formação dos pais deve aproximar os filhos da fé, do encontro com Cristo, a fim de que não trabalhem em vão e com estreita visão humana, tendo como únicos objetivos ficar rico, ter poder, status, pois são ideais que encerram a pessoa no egoísmo, que é fonte de infelicidade, além de que uma esperança humana, puramente humana, carece de fundamento. A pessoa que vive com perspectivas estreitas, que não possui interesse por qualquer coisa que não seja o seu prazer e divertimentos, nunca compreenderá o verdadeiro sentido do amor e da felicidade, e terá as pessoas apenas como degraus para os seus interesses.

    Animar os filhos a serem generosos

          Quem ama não sabe calcular, diz o ditado. A alegria de servir traz a experiência de que um trabalho que parecia incômodo se transforma em gratificante, pois passa a ser desejado como um bem ao próximo. Os pais devem fomentar nos filhos ambições nobres, animando-os a levar uma vida mais generosa, e a ter no coração desejos de servir aos demais com suas qualidades: ser sábios, generosos e audazes sem temer os sacrifícios de realizar o sonho de tornar feliz a vida dos demais. Assim, os filhos se animarão em preparar-se para dar soluções aos problemas que afetam tantas vidas.

         Aproveitar para ler os boletins “A disciplina familiar” e “A rotina na vida das crianças

    Texto de Ari Esteves inspirado no artigo “Educar para a laboriosidade”, de Carlos Roberto Pegoretti Júnior, Diário do Grande ABC, 23-08-2021. Imagem de Leeloo The First.

  • Seu filho e o celular

    Seu filho e o celular

    1 – Crianças viciadas em telas digitais se tornam passivas. 2 – As virtudes asseguram o bom uso dos celulares. 3 – Ensinar a criança a controlar seus impulsos. 4 – Os adolescentes anseiam por autonomia

    1 – Crianças viciadas em telas digitais se tornam passivas

         As novas gerações nasceram em um mundo interconectado, ao qual os seus pais não estavam acostumados, e desde muito cedo têm acesso à Internet, redes sociais, chats, videogames. Crianças e jovens estão expostos a um universo sem fronteiras que oferece benefícios e riscos que não podem ser ignorados, o que torna necessária a proximidade e orientação dos pais, que devem adquirir conhecimentos e alguma prática para formar o seu próprio critério e orientar os filhos.

         As novas tecnologias criaram um ambiente onde se pode passar horas e horas. Pedagogos, psicólogos e orientadores familiares constatam que a criança que passa a depender da superestimulação artificial das telas, se acomoda e não é capaz de se encantar ou admirar-se com nada mais, pois deseja apenas retornar à hiperatividade das telas, onde muitos desenhos tidos como “infantis” mudam de cena a cada oito segundos (7,5 cenas por minuto), o que não acontece no mundo real da criança. O excesso de imagens satura os sentidos e bloqueia o raciocínio e a imaginação, e torna a criança passiva e entediada com o mundo real, porque acha-o chato, lento e sem graça. E quando sai à rua com os pais ela não sabe fixar a atenção em nada ao seu redor porque, acostumada à superestimulação, perdeu a curiosidade e a imaginação se acomodou.

         Cada vez mais os dispositivos tecnológicos estão conectados à internet, atingem amplas audiências e permitem que qualquer pessoa difunda mensagens de forma rápida e praticamente sem custo. Que tipo de mensagens? Eis a questão. Para não colocar os filhos em riscos desnecessários ou criar vícios é preciso avaliar o momento oportuno para que utilizem equipamentos digitais. Dos seis aos vinte e quatro meses a criança não precisa de brinquedos, pois se diverte quando o pai ou a mãe brinca de se esconder e reaparecer atrás da porta, gosta de engatinhar e se encanta com os pequenos objetos que encontra no caminho: o ruído do papel celofane, a formiga que carrega uma folha, a embalagem vazia no chão da cozinha… É assim que ela vivencia as próprias experiências e desenvolve as habilidades motoras e de percepção. Se se pretende dar algum brinquedo à criança nessas idades, é desnecessário que sejam de pilhas e contenham botões, já que estes devem estar dentro da criança e não fora dela: não é a brincadeira que deve funcionar, mas a criança. A realidade simples e viva é a atividade por excelência com a qual a criança aprende movida pela curiosidade, desenvolve sua percepção ao considerar os acontecimentos reais do entrono, entre outros benefícios.

         As crianças necessitam despertar a curiosidade diante das pessoas e objetos que as cercam, buscar respostas para as suas experiências e não obter tudo pronto ao apertar botões de equipamentos eletrônicos, que roubam delas a interação com o mundo ao seu redor. Uma criança não precisa estar conectada à internet; se necessário for, é melhor que siga um plano de acesso por um tempo restrito e em local e horário determinados (à noite, desconectar ou desligar), ao mesmo tempo ensiná-la a se proteger de situações perigosas e falar sempre com os pais se algo estranho ocorrer.

         Muitos educadores afirmam que as crianças não devem ter aparelhos eletrônicos avançados (tabletes, celulares, videogames). E se manuseiam algum equipamento por alguns momentos, por sobriedade e para não criar falsas necessidades, é aconselhável que os aparelhos sejam da família e não delas, e só devem ser utilizados em lugares comuns e com normas e horários, a fim de se habituarem a ter outras atividades mais úteis como estudar, cumprir encargos no lar, descansar no convívio com os familiares (o valor do contato humano não pode ser substituído por telas).

    2 – As virtudes asseguram o bom uso dos celulares

         O problema não está nas tecnologias, mas no modo como cada um as utiliza. A vida virtuosa é o filtro mais infalível que existe. Os pais devem ensinar os filhos a se comportarem virtuosamente no mundo digital, e isso se consegue não somente com regras e filtros, mesmo que estes válidos para proteger as crianças da pornografia, ameaças sexuais e outros malefícios. O mais importante é educá-los por meio de virtudes, a fim de que queiram ter uma vida reta, limpa, ao direcionar suas paixões e evitar com alegria tudo que é inconveniente na esfera digital. As novas tecnologias devem estar presentes nas conversas e regras da casa, que costumam ser poucas e de acordo com a idade dos filhos. Ensinar a viver as virtudes implica que os pais sejam exigentes consigo próprios ao moderar o uso do celular para aproveitar melhor o tempo e fixar a atenção na criança que lhes deseja falar… A coerência dos pais ao viverem pessoalmente o que indicam é o melhor modo de educar, pois os filhos ao serem testemunhas desses esforços irão imitá-los.

         A família é escola de virtudes, e onde as crianças aprendem as primeiras noções acerca do bem e do mal, e os valores sobre os quais podem alicerçar uma vida reta e sã. A meta é que cada filho aprenda a tomar decisões de forma adequada à sua idade, e saiba administrar a sua liberdade porque está movido por hábitos que lhe facilitam o autodomínio, a temperança no comer e beber e a ter horários para brincar, estudar e ajudar nas tarefas da casa. Também deve dominar a curiosidade e não entrar em sites que destroem a vida moral e criam vícios difíceis de arrancar. Deve desgostar de perder tempo com informações que não servem para nada, e aprender a descansar criativamente com leituras, quebra-cabeças, xadrez, dama, lego, vídeos culturais previamente programados… Estabelecer diretrizes e explicar sobre a importância de utilizar melhor o tempo e não gastá-lo em redes sociais, videogames, jogos online, são conselhos que os filhos necessitam para desprenderem-se de ambientes digitais. Os mesmos conselhos que orientam o comportamento dos filhos nos espaços públicos (boas maneiras, recato ou pudor, respeito a si e ao próximo, cuidado com a curiosidade, não permanecer ocioso, etc.), devem ser utilizados nos espaços digitais.

    3 – Ensinar a criança a controlar seus impulsos

         De acordo com a idade de cada filho, torna-se decisivo manter diálogos esclarecedores sobre a educação dos afetos (sentimentos, emoções, paixões), a fim de que controlem seus impulsos e tenham presente que o publicado na internet torna-se acessível a todos em qualquer parte do mundo, e deixa rastro que pode ser acessado por tempo indefinido. O mundo digital é um grande espaço que exige mover-se com bom senso: se os pais dizem à criança que na rua não fale com estranhos, o mesmo deve ser dito quando estão no ambiente digital. Uma comunicação franca na família cria um ambiente de confiança onde as dúvidas e as incertezas dos filhos são rapidamente resolvidas.

         Como um bom guia de montanhas, os pais devem acompanhar os filhos no ambiente digital para que estes não sofram e nem causem danos a outros: consultar com eles a internet e “perder tempo” ao jogar um videogame com os filhos tornam-se oportunidades para conversas mais profundas sobre o uso da rede. Essas experiências devem ser transmitidas a outras famílias.

         A infância é o momento de iniciar a prática das virtudes, e de aprender o bom uso da liberdade. No período de zero a seis anos criam-se hábitos que serão básicos na formação do caráter e domínio do temperamento, e se aprende a viver a virtude da ordem nos aspectos material (guardar brinquedos e roupas próprias) e temporal (ter horários para cada atividade). Tais hábitos, uma vez adquiridos, fortalecem a vontade para vencer a preguiça e o comodismo.

         É conveniente mostrar aos filhos o valor da austeridade quanto ao uso de aplicativos, gadgets (dispositivos portáteis), etc. Ensiná-los a viver o desprendimento não é apenas por motivos econômicos, mas para que não sejam dominados pela compulsão de ter as últimas novidades da indústria eletrônica, nem criar falsas necessidades (tem mais quem precisa de menos). Saber esperar até que os objetos úteis barateiem é parte da virtude da pobreza ou do desprendimento dos bens materiais. 

    4 – Os adolescentes anseiam por autonomia

         Na adolescência os filhos anseiam por um grau maior de autonomia, e os pais devem ir soltando as rédeas aos poucos, porque ainda são incapazes de administrar plenamente a liberdade. Mas isso não significa que tenham de ser privados da independência que lhes corresponde. Trata-se de ensinar-lhes a administrar a liberdade responsavelmente, a fim de serem capazes de visualizar objetivos mais altos ao colocar suas capacidades ao serviço do próximo. Autonomia e respeito às regras da disciplina familiar se conseguem com diálogos esclarecedores sobre os porquês ou razões subjacentes a algumas exigências que poderiam parecer limitantes, mas que na realidade não são proibições, e sim afirmações que ajudam a forjar uma personalidade autêntica que sabe ir contra a corrente de modismos ou campanhas publicitárias que escravizam: o guard rail das estradas não limitam a liberdade do motorista, mas orientam e protegem a sua vida.

         Educar é dotar os filhos de uma sabedoria que lhes permita administrar os sentimentos e afetos por meio da inteligência e vontade bem formadas. Mostrar como a virtude é atrativa e abraça ideais magnânimos: lealdade, respeito aos outros, fidelidade, solidariedade, autodomínio para ter as rédeas das inclinações instintivas, pudor, modéstia, etc.

         A missão dos pais é facilitada quando conhecem as preferências dos filhos, sabem o que lhes entusiasma e se interessam pelos hobbies que praticam. Assim se gera a confiança necessária para que eles compartilhem seus sentimentos. Há jovens que escrevem blogs ou usam as redes sociais para colocar conteúdos, e seus pais não sabem ou nunca leram os seus textos, o que leva os filhos a julgarem que eles não se interessam ou não apreciam o que fazem. Ler com agrado e interesse o que seus filhos escrevem ou postam enriquecerá o diálogo familiar.


    Sugestão de leitura para completar o tema: Boletim Educar na realidade

    Texto adaptado por Ari Esteves com base no artigo “Educar en las nuevas tecnologias”, de Juan Carlos Vásconez, (@jucavas). Imagem de Tima Miroshnichenko.

  • Transmitir a fé aos filhos

    Transmitir a fé aos filhos

    1 – Fé, legado mais importantes para se transmitir aos filhos. 2 – A fé deve ser vivida no dia a dia. 3 – Dificuldade dos jovens para viver a fé. 4 – Sem virtudes os filhos não vivem a fé. 5 – Piedade sem doutrina não basta. 6 – Abrir horizontes ao mostrar a beleza da fé.

    1 – Fé, legado mais importantes para se transmitir aos filhos

       A fé é o legado mais importante que os pais podem transmitir aos filhos, porque uma esperança humana, puramente humana, carece de sentido já que tudo passa com a morte, e nem riquezas e nem as honrarias nos acompanharão ao sepulcro. A Esperança que alegra o coração é a que eleva-se até Deus porque apenas a fé e o Amor a Deus dão significado à existência humana. A transmissão da fé não é uma questão acessória, da qual depende só um pouco mais de felicidade, mas trata-se de algo radical que afeta o resultado de toda a vida, à qual passa a iluminar. 

       Nenhuma comunidade humana está tão bem-dotada como a família para facilitar que a fé enraíze nos corações das crianças, a fim de que elas coloquem seus primeiros afetos em Deus, em Jesus Cristo e em Nossa Senhora, à imitação de seus pais, se estes forem sinceramente piedosos. É na própria família que se forja o caráter, a personalidade, criam-se os bons costumes, e onde se aprende a conviver com Deus

         A família cristã transmite a beleza da fé e do amor a Cristo ao viver em harmonia, ao saber sorrir e esquecer as próprias preocupações para atender aos demais, “a não dar importância a pequenos atritos que o egoísmo poderia converter em montanhas; a depositar um amor grande nos pequenos serviços de que se compõe a convivência diária(É Cristo que passa, n. 23).

         Transmitir a vida de Jesus Cristo aos filhos é o melhor alimento que se pode dar a eles, que desde pequenos têm necessidade de Deus e capacidade de perceber a sua grandeza. As crianças sabem apreciar o valor da oração e do que é sagrado, e percebem a diferença entre o bem e o mal. Fomentar nos filhos a unidade entre o que se crê e o que se vive é a meta a ser conseguida, pois uma mensagem de salvação afeta toda a pessoa, ao enraizar no entendimento e no coração. Para isso, está em jogo a amizade dos filhos com Jesus Cristo, tarefa que merece os melhores esforços dos pais para tornar acessível a doutrina cristã aos filhos.

    2 – A fé deve ser vivida no dia a dia

         Para transmitir a fé é importante que a família tenha vida de piedade, que é de trato simples e filial com Deus: abençoar as refeições, rezar com os filhos pequenos as orações da manhã e da noite, ensinar-lhes a recorrer aos Anjos da Guarda, a ter carinho com Nossa Senhora, a dar importância à participação na Santa Missa, mesmo durante as viagens, ensinar de forma natural a defender e a transmitir a fé e o amor a Jesus. Esses são modos concretos de favorecer a virtude da piedade (trato filial com Deus) nas crianças.

         O “Elemento fundamental e insubstituível da educação para a oração é o exemplo concreto, o testemunho vivo dos pais: só rezando em conjunto com os filhos, o pai e a mãe […] entram na profundidade do coração dos filhos, deixando marcas que os acontecimentos futuros da vida não conseguirão fazer desaparecer”. (Exhort. Apost. Familiaris consortio, n.60).    

         Se os pais pretendem mostrar como a vida de Cristo muda a existência do homem, é lógico que os filhos notem que, em primeiro lugar, tenha mudado a vida de seus próprios pais. Ser bons transmissores da fé em Jesus Cristo implica manifestar com a própria vida a adesão a Ele, e lutar cada dia por ser melhores, pois os filhos, ao verem esse esforço, procurarão imitar os pais.

         A educação da fé não é um mero ensinamento, mas a transmissão de uma mensagem de vida. Ainda que a palavra de Deus seja eficaz em si mesma, é mais convincente quando se vê encarnada na vida dos pais, e isso é importante para as crianças. Os pais têm tudo a seu favor para comunicar a fé aos filhos. Além da palavra, devem ser piedosos, coerentes, e dar testemunho pessoal a todo o momento, com naturalidade, sem procurar dar lições constantemente. As crianças são perspicazes, mesmo que pareçam ingênuas, e percebem como seus pais vivem a fé. É preciso pensar no modo mais pedagógico de transmitir a fé a elas, e preparar-se para ser bons educadores. Porém, o decisivo é o empenho com que os pais colocam em prática em suas vidas os princípios da fé.

    3 – Dificuldade dos jovens para viver a fé

         Muitos jovens afrouxam na fé que receberam ao sofrer algum tipo de prova: a pressão de um ambiente paganizado, amigos que ridicularizam as convicções religiosas, um professor que dá as “lições” numa perspectiva ateia ou que põe Deus entre parêntesis. Há jovens que foram educados na piedade, mas sucumbiram diante de um ambiente para o qual não estavam preparados, porque careciam de profundidade doutrinal e educação nas virtudes. É preciso conhecer os diferentes ambientes que influenciam na educação dos filhos para ajudá-los a superar as dificuldades.

         As crises de fé ganham força quando os filhos deixam de comentar suas dificuldades com os pais. É importante criar um clima de confiança e estar sempre disponíveis a eles, pois, por mais indóceis que pareçam, desejam sempre essa aproximação. Falar com os filhos é o que há de mais grato aos pais, sendo também a via mais direta para estabelecer uma profunda amizade: quando há confiança, eles falam de suas inquietações e sentimentos. Embora haja idades mais difíceis do que outras para conseguir essa proximidade, os pais não devem afrouxar no entusiasmo por “chegarem a ser amigos dos filhos; amigos a quem se confiam as inquietações, a quem se consulta sobre os problemas, de quem se espera uma ajuda eficaz e amável” (Cristo que passa, n. 27).

         Nesse ambiente de amizade que deve ser a família, os filhos devem ouvir falar de Deus de um modo agradável e atrativo. Mas isso requer que os pais encontrem um tempo de qualidade para estar com os filhos, e estes devem perceber que suas coisas interessam aos pais mais do que outras ocupações. Nenhuma circunstância pode levar a omitir ou atrasar esse diálogo: desligar a TV ou o computador quando a menina ou o garoto pretende dizer algo; reduzir a duração do trabalho profissional para chegar cedo em casa, e facilitar a conversa com os filhos; encontrar formas de entretenimento que tornem agradável a vida familiar, etc.

         Os filhos, embora vivam no mesmo lar, possuem interesses e sensibilidades diferentes, e essas variedades ao invés de serem obstáculos, ampliam o horizonte educativo. Conhecer o temperamento e o caráter de cada filho leva a educá-lo de forma personalizada, sem estereótipos. Mesmo sendo o caminho da fé muito pessoal − pois faz referência ao mais íntimo da pessoa (sua relação com Deus) −, o papel da instrução é ajudar a percorrê-lo. Transmitir a fé não é questão de estratégia, mas de facilitar que cada um queira melhorar ao descobrir o desígnio de Deus para a sua vida.

    4 – Sem virtudes os filhos não vivem a fé

         Na transmissão da fé não basta a piedade, mas é relevante a educação nas virtudes para que os filhos não cedam diante do mais fácil, e deixem de seguir a razão iluminada pela fé. Formar nas virtudes requer salientar a importância da exigência pessoal, do empenho no trabalho e estudo, no espírito de serviço aos demais, na temperança, pois esses bens estão acima dos desejos materiais e facilitam a compreensão das realidades do espírito.

         Educar os filhos com pouca exigência, nunca lhes dizer “não” e procurar satisfazer todos os seus desejos, é caminho que lhes fechará as portas para a elevação do espírito. Essa condescendência nasce de um falso carinho, ou do querer livrar-se do esforço de pôr limites aos apetites e ensiná-los a obedecer e a esperar. E como a dinâmica do consumismo é insaciável, cair nesse erro leva os filhos a ter um estilo de vida caprichoso e volúvel, introduzindo-os numa espiral negativa de busca de comodidades, de falta de virtudes humanas e desinteresse pelos outros. Saciar todos os caprichos é colocar sobre a vida espiritual uma carga pesada, incapacitando a pessoa para a doação e o compromisso com Deus e aos demais.

    5 – Piedade sem doutrina não basta

         A transmissão da fé aos filhos é uma tarefa que exige empenho. Quando se busca educar na fé, “não se deve separar a semente da doutrina da semente da piedade” (Forja, n. 918). É preciso unir o conhecimento com a virtude, a inteligência com os afetos. Não bastam algumas práticas de piedade com um mero verniz de doutrina: é necessário que a doutrina se faça vida ao se transformar em determinações no dia a dia, em compromisso que leve amar a Cristo e aos demais.

         Piedade sem doutrina torna os filhos vulneráveis diante do combate intelectual que sofrerão ao longo da vida. Por isso, necessitam de uma formação apologética profunda e ao mesmo tempo prática, e que respeite as peculiaridades próprias de cada idade. Ao tratar de um livro ou de atualidades poderá ser boa ocasião para ilustrar o tema com a doutrina da fé. Ler o Catecismo ou o Compêndio da Doutrina Cristã com as crianças ajudará a que compreendam a importância do estudo da doutrina.

    6 – Abrir horizontes ao mostrar a beleza da fé

         Conseguir que os filhos interiorizem a fé requer aproveitar as diferentes situações para aconselhá-los com razões humanas e sobrenaturais. Abrir horizontes é mostrar aos filhos a beleza da vida cristã e das virtudes, sem limitar-se a dizer o que é proibido ou obrigatório, pois isso daria a falsa imagem de que a fé é uma normativa que limita, e não que liberta o coração de liames que o escravizam e eleva a alma até as verdadeiras alegrias. Na educação da fé deve-se ter muito presente que os Mandamentos de Deus conduzem a pessoa à melhor expressão de si mesma, tal como seguir o manual de instruções do carro o faz render melhor, os Mandamentos são o manual para melhor utilização dessa união de alma e corpo que são os seres humanos.

         Seria um erro associar “motivos sobrenaturais” ao cumprimento de encargos, tarefas ou “obrigações” que sejam custosas para as crianças. Não é bom abusar do recurso de pedir à criança que tome a sopa ou coma salada como um sacrifício a Deus: dependendo de sua vida de piedade e de sua idade pode ser conveniente, mas é melhor procurar outros motivos que a estimule. Isso porque Deus não pode ser o “antagonista”,  mas um Pai que ama cada um de seus filhos acima de todas as coisas, e que Cristo é o bom Mestre, o Amigo que nunca engana.

         Relacionar a fé com razões que os filhos compreendam e valorizam revela que a mensagem cristã é racional e bela: amar a Deus em primeiro lugar coloca ordem nos demais amores, faz dirigir a vida ao esquecimento próprio (ideal que atrai aos jovens), e permite compreender as razões pelas quais se deve viver a castidade, a temperança na comida e uso dos games, a laboriosidade, o desprendimento dos bens, a prudência no uso da internet.

         Educar na fé é pôr os meios para que os filhos convertam sua existência inteira em um ato de adoração a Deus: “a criatura sem o Criador desaparece” (Const. past.Gaudium et spes, n. 36). Na adoração encontra-se o verdadeiro fundamento da maturidade pessoal: se não se adora a Deus, adora-se a sim mesmo por meio de desejos de poder, prazer, riquezas, ciência, beleza…

         Para adorar, as crianças devem descobrir a figura de Jesus Cristo ao serem estimuladas desde pequenas a falar pessoalmente com Ele (isso se chama oração). Aproveitar fatos cotidianos para contar a elas sobre Cristo e seus amigos e penetrar com elas nas cenas do Evangelho. Estimular a piedade nas crianças significa facilitar que elas ponham o coração em Jesus Cristo. Explicar a elas sobre os acontecimentos bons ou maus, e que escutem a voz da própria consciência, na qual o próprio Deus revela sua vontade, e procurar pôr em prática o que ouviu. As crianças adquirem tais hábitos quase por osmose, vendo como seus pais se relacionam com o Senhor, e como O têm presente em seu dia a dia. A fé, mais que a transmissão de um conteúdo, é seguir uma Pessoa que aceitamos sem reservas e a quem nos confiamos.

         Os bons pais desejam que seus filhos alcancem a plenitude humana e espiritual, sendo felizes em todos os aspectos da existência: profissional, cultural, afetivo e espiritual. O melhor serviço que se pode prestar a uma pessoa – a um filho de modo especial – é apoiá-la para que responda plenamente à sua vocação cristã, e descubra o que Deus espera dela. Porque não se trata de uma questão acessória, da qual depende só um pouco mais de felicidade, mas de algo radical que afeta o resultado de toda a vida.

    Sugestão de leitura: “A fé explicada”, de Léo J. Trese, www.quadrante.com.br

    Texto extraído e adaptado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, com base nos artigos "Transmitir la fé", de Alfonso Aguiló, em www.almudi.org. Imagem de Cottonbro Studio.

  • A disciplina familiar

    A disciplina familiar

    1 – Não basta dar alimento e abrigo aos filhos. 2 – A ordem e as rotinas. 3 – Crescer em espírito de serviço. 4 – Para chegar a ser um adolescente organizado. 5 – Importância da cultura familiar. 6 – Programar o encontro com o belo.

    1 – Não basta dar alimento e abrigo aos filhos

         Para uma família educar não basta dar alimento, abrigo, segurança e deixar o tempo passar, como se isso suprisse todas as necessidades da alma humana. Um lar formador disciplina em três aspectos práticos que envolvem todos os membros, inclusive as crianças: ordem, por meio de rotinas; espírito de serviço ou preocupação pelos demais através da realização de encargos ou tarefas no lar; e fomenta o crescimento humano e espiritual ao programar encontros com a verdade e o esteticamente belo.

    2 – A ordem e as rotinas

         A ordem se manifesta nas rotinas familiares a que todos devem respeitar: horário de dormir e de acordar, horário das refeições, horário de iniciar e findar o trabalho profissional; horário de estudar, ler ou descansar… A sabedoria esconde-se atrás das rotinas, que não são algo meramente externo, pragmático, cuja eficiência organizativa visa transformar cada pessoa em robô. A rotina é o caminho para chegar à disciplina interior, para controlar a tendência dos afetos quando estes buscam apenas o prazeroso. A falta de rotina conduz cada um a agir como bem entender: a chegar do trabalho ou da escola na hora que quiser, a fazer as refeições em qualquer local (diante da televisão ou no sofá), a deixar os objetos pessoais em locais diferentes de cada vez, a isolar-se para cuidar apenas dos próprios interesses.

         A virtude da ordem tem quatro pilares: ordem material ao manter organizados os objetos da casa e os de uso pessoal; ordem temporal, que leva a cumprir cada tarefa ou encargo no momento previsto; ordem afetiva ou dos sentimentos ao fazer o que deve ser feito e não o que mais agrada; ordem mental ao priorizar o importante e fomentar a capacidade de se auto-organizar.

    3 – Crescer em espírito de serviço

         Os encargos são aquelas tarefas atribuídas a cada um − inclusive às crianças − a fim de colaborar com o bem-estar de todos na casa. Cada encargo é parte de um trabalho maior a ser alcançado entre todos. Se os filhos não possuírem encargos se habituarão a ter todo tempo unicamente para as coisas pessoais, e se tornarão egoístas, preguiçosos e sem se importar com os demais.

         Tanto as rotinas como os encargos se inserem dentro da virtude da ordem, e trazem imensos benefícios a todos os membros da família, e também às crianças: é fonte de estabilidade e segurança ao dar certeza sobre o que fazer em cada momento, faz crescer o sentido de responsabilidade, promove a disciplina interior ao deixar uma atividade e iniciar outra, controla os afetos que tendem apenas ao prazeroso, facilita a obediência, cria no lar um ambiente sereno onde a televisão e outras mídias se mantém desligadas e só serão utilizadas em horários pré-determinados, permitindo que as pessoas tenham tempo para pensar, ler, dialogar ou concentrar-se em suas tarefas…

         Até aos cinco anos, a criança deve crescer na dimensão material e temporal da ordem, que dará a ela mais estabilidade comportamental, disciplina, atenção e equilíbrio emocional para controlar seus impulsos (ordem afetiva). É evidente que a criança não deve ser um mini executivo com a agenda lotada e olhos pregados no relógio. Mas se não sabe que fazer em cada momento, torna-se confusa e desordenada.

         Para as crianças, as rotinas são criadas com paciência, insistindo durante algum tempo até que as façam sozinhas, e parabenizando-as pelo esforço cada vez que alcançam uma etapa. A rotina de limpar o pó dos livros − ou do espelho, etc. − tem que ser pacientemente explicada, a fim de que a criança não fique confusa e desista ao não se sentir preparada. Não ter pressa ao ensinar é o segredo, já que não se trata de buscar a eficiência material de limpar os livros. A limpeza de uma estante de livros poderá demorar uma semana. O importante é fazer lentamente os movimentos com a mão que tira o pó, depois colocar calmamente o livro na prateleira e retirar o seguinte.

         A criança pequena não distingue a sucessão temporal, mas apenas o momento presente: não tem noção de ter o dia vinte e quatro horas, de ter a semana sete dias e o mês trinta. Por isso, ela não sabe o que vem em seguida: se é hora de pintar, lanchar ou de tomar banho. O mesmo acontece a um adulto colocado em ambiente desconhecido: se desorienta e não sabe o que fazer.

         É preciso mostrar à criança a sequência das atividades ao colocar uma cartela com desenhos coloridos que indiquem o que vem depois. No Colégio Porto Real, Rio de Janeiro, em cada sala de aula há uma pequena cartela com as quinze atividades que as crianças devem desenvolver ao longo do dia. A encarregada da sala vai deslocando a bolinha para a próxima atividade a ser realizada. Sem isso, elas ficam sem saber se devem ir para o lanche, pátio ou sala. Somente por volta dos sete ou oito anos é que saberá se organizar sozinha (ordem mental).

         Não se deve impedir que as crianças desde pequenas tenham encargos, nem substitui-las no que conseguem fazer, mesmo que no início não cumpram com perfeição e exijam paciente e bem-humorado treinamento. Não é suficiente que ela fique metida apenas em suas coisas. A criança executa seu encargo com a alegria de estar praticando um jogo. Ao fazer isso, cresce em autodomínio, independência, preocupação pelos demais e ganha espírito de equipe ou de cooperação, que são hábitos ou virtudes portadoras de felicidade, já que o egoísmo é sempre causa de isolamento e tristeza. A criança a partir de um ano e meio pode jogar na lixeira a fralda suja, colocar seus brinquedos em cada caixa, deixar a roupa na gaveta, dormir e comer no horário.

         Isso não quer dizer que as crianças só devam fazer o quem gostam, pois assim jamais cresceriam em espírito de serviço e força de vontade, e ficariam sempre pendentes dos sentimentos e gostos. Fazer tarefas que não nos agradam faz parte da vida. Porém, ao atribuir uma tarefa à criança, levar em conta o caráter e o temperamento dela: tarefas movimentadas podem corresponder àquela mais inquieta, enquanto à mais calma conferir as que exijam maior atenção e cuidado. A idade é outro fator para distribuir encargos, pois sempre haverá escala de dificuldade entre eles. É interessante fazer a distinção entre idade mental e real, pois algumas crianças estão mais capacitadas que outras para efetuar determinadas tarefas, independentemente da idade real. Não incumbir tarefa que seja fácil nem difícil de executar, pois ambas desestimulariam a criança.

    4 – Para chegar a ser um adolescente organizado

         A criança acostumada a realizar suas tarefas desde pequena, logo se tornará um adolescente organizado e com força de vontade para enfrentar dificuldades. E porque foi estimulada a fazer o que devia, aprendeu a vencer os estados de ânimo: ao arrumar o quarto, roupas e brinquedos, quando não sentia gosto em fazer, fortaleceu sua vontade para enfrentar agora tarefas mais exigentes, como a de ter hábito diário de estudo. Se os pais cedem, os filhos serão arrastados pela preguiça ou comodismo. Permitir que os filhos adiem as tarefas é autorizá-los a que sejam preguiçosos e irresponsáveis. Devem primeiro cumprir o que os pais pedem, e só depois serem autorizados a fazer o que querem:− “Não poderá ir brincar enquanto não recolher os pratos e arrumar a mesa do jantar”. Caso contrário, será desordenado, acomodado e habituado a fazer apenas o que gosta, tal como inundar-se de imagens digitais, que tornam a mente preguiçosa para a leitura de livros, e viverá centrado apenas em si e em suas coisas.

         Há pais que impedem seus filhos de crescerem psicologicamente, pois preferem vê-los como eternas crianças. Tal atitude, egoísta e injusta, não os prepara para uma adolescência virtuosa porque não os fazem crescer em autonomia, mantendo-os sempre necessitados de que façam as coisas por eles. O paternalismo ou a superproteção enfraquece a vontade e o caráter dos filhos, pois os substituem nos esforços que deveriam fazer. As crianças não devem ser vistas apenas como necessitadas de ajuda e portadoras unicamente de direitos, mas possuidoras também de deveres para com os pais, irmãos e demais pessoas que se relacionam com a família. Ao contribuir para com o bem-estar de todos na casa, elas crescem humana e espiritualmente: enxugar banheiro, colocar pratos e talheres na mesa, ordenar seu quarto e objetos pessoais, varrer, ajudar os irmãos, ser educadas com os que não são da família…

    5 – Importância da cultura familiar

         A família é o primeiro âmbito de promoção da cultura e o ambiente mais próximo da pessoa, sendo também o que mais pode ajudar seus integrantes a desenvolver a sensibilidade para a verdade, o bem e o belo. Gustave Thibon dizia que “uma das principais funções da família é criar um ambiente em que a instrução tende a converter-se em cultura e a cultura converter-se em sabedoria no sentido de saborear”.

         É triste comprovar que muitos pais não sabem programar os fins de semana, e desaproveitam esse precioso tempo para enriquecerem culturalmente a si e aos filhos. A falta de interesse e esforço dos pais pela própria formação cultural e humana decepciona os filhos, que logo se lamentarão de não apreciarem a música clássica, de serem indiferentes à pintura, escultura, poesia, teatro e literatura, porque seus pais agiram preguiçosamente nesse campo. Há uma relação muito grande entre pais que cultivam sua sensibilidade estética e filhos que também a cultivam. Se os pais não desejam que as filhas pequenas imitem as danças sensuais que veem na TV e cantem letras ofensivas − mesmo que no momento não compreendam o que dizem −, precisam criar no lar uma atmosfera de cultura ao colocar as crianças frente ao que é estética e moralmente mais belo.

         As tertúlias ou bate-papos familiares durante as refeições ou momentos de lazer, ilustram as crianças sobre a profissão do pai e da mãe, seus gostos artísticos, seus hobbies. Muitas crianças não sabem como é o trabalho do pai e da mãe porque estes dialogam pouco com elas sobre isso (pensam erradamente que elas não compreenderão). As vivências e experiências narradas enriquecerão as crianças, que se sentirão valorizadas pelos pais.  A transmissão do patrimônio cultural da família pode ser feito com fotografias, objetos de decoração que são lembranças de pessoas ou momentos do passado, vídeos e gravações de viagens, tradições e costumes da família.

         Os pais não são os únicos responsáveis pela cultura familiar: filhos mais velhos, tias, tios e avós podem colaborar nessa promoção ao falar de seus estudos, hobbies. Convidar amigos para contar alguma experiência interessante: viagem, esporte, artes, colecionismo.

       Visitar livrarias e feiras de livros com as crianças, inscrevê-las em bibliotecas públicas, ir a exposição de quadros ou esculturas, participar de audições musicais de diferentes gêneros a fim de que possam comparar o que é esteticamente mais belo, levá-las ao teatro infantil, à leitura de poesias e contação de histórias; programar nos fins de semana sessões de vídeos culturais, históricos, geográficos. E incentivar sempre as crianças a relatarem as impressões sobre o que presenciaram.

         Com o espírito elevado pelas boas leituras, a TV, tabletes, celulares e mídias sociais perderão o atrativo, pois se descobriu a maneira mais intensa e rica de aproveitar o tempo. As cinco ou seis horas que muitos adolescentes gastam atualmente com games, vídeos e mídias sociais, e que mal se recordam no dia seguinte do que ficou dessas horas que escoaram sem deixar rastro, tal como água sobre pedra, é um alerta para que os pais incentivem o gosto pelos livros, pois uma boa leitura nunca se esquece e faz ganhar capacidade de expressão, autoconhecimento, criatividade e experiência de vida.

    6 – Programar o encontro com o belo

         A arte, atividade humana criadora de beleza, é regida pelo sentido da estética e não pelo de utilidade, que é próprio da ciência e da técnica. A beleza tem algo de divino e inspira o coração e a mente das crianças. O teatro, a pintura, a escultura, a poesia e a arte narrativa (conto, romance, novela) tornam rico o espírito humano, que passará a produzir do que se alimenta. As crianças precisam ser introduzidas pelos pais no mundo da cultura, a fim de descobrir a beleza estética encontrada nas diversas manifestações artísticas. Helena Lubienska, discípula de Maria Montessori, relata que a Divina Comédia, de Dante Alighieri, foi lida com avidez em sala por meninos de sete a doze anos. Ela se surpreendeu com a atenção que colocavam na narrativa e a facilidade com que decoravam trechos da obra; e por fim, apresentaram uma peça teatral baseada nesse texto.

         O tempo dedicado à leitura de um bom livro oferece muito mais à inteligência e à sensibilidade do que as longas horas deglutindo sucessivos desenhos, jogos eletrônicos e fotos em redes sociais. A cultura das imagens se dirige ao desenvolvimento de sensações e impressões superficiais e passageiras, diminuindo a capacidade reflexiva. A leitura de bons livros leva a raciocinar, a criar as próprias imagens ao remover a imaginação e a memória, a construir ideias sobre a vida e as pessoas, o que leva ao autoconhecimento, além de transmitir critérios que orientam a conduta para o bem.

    Texto de Ari Esteves. Imagem de Ron Lach.

  • Como falar com seu filho adolescente

    Como falar com seu filho adolescente

    1 – Alguns adolescentes se recusam a dialogar. 2 – Saber escutar e ter sensibilidade. 3 – Eles questionam tudo. 4 – Dar respostas que esclareçam. 5 – Pais, descanse com a família e não isoladamente. 6 – Dicas práticas ao interagirem com o filho

    1 – Alguns adolescentes se recusam a dialogar

         Há pais que veem a adolescência de seu filho como uma época complicada: resiste à autoridade, não consulta sobre questões que têm consequências reais (escola, amigos, festas, relação com pessoas de outro sexo…), tem dificuldades para controlar suas emoções e decide de modo impulsivo… Porém, o que mais reclamam os pais é que o filho, antes comunicativo, passou a ser silencioso, expressando-se por monossílabos e frases entrecortadas. O motivo desse mutismo pode ter muitas causas, sendo a que mais se justificam os adolescentes para agir assim é que ao desejar falar com seus pais, estes já começam com sermões, não prestam atenção no que eles dizem e os tratam como crianças.

         A conversa com o adolescente perde força se os pais falam incessantemente, fazem afirmações dogmáticas, não deixam falar, dão respostas que revelam não estar escutando, se contradizem, fazem generalizações sem sentido, utilizam um tom de voz e trejeitos julgadores e incriminatórios, traem a confiança dele ao expor uma confidência que fez.

         Pais interessados em saber o que ocorre na vida de seu filho − isso é justo e razoável − não devem utilizar perguntas diretas, que podem não ser tão eficazes quanto apenas se sentar e prosear descontraidamente, sem segundas intenções. Embora o filho seja um livro aberto com os amigos, pode ficar em silêncio quando a amizade com os pais está fria porque estes agem de modo pouco natural. Ele se abrirá com os pais quando não se sentir coagido a compartilhar sua intimidade. O adolescente é muito sensível ao modo como é tratado pelos pais: um tom de voz paternalista ou autoritário, mesmo sem intenção, lança por terra qualquer tentativa de manter uma conversa tranquila e fluida, pois ele aprecia ser tratado como um adulto, e não como criança.

    2 – Saber escutar e ter sensibilidade

         Saber escutar exige o sacrifício de não começar de imediato a contradizer, discutir, julgar. Primeiro deixe seu filho falar sem interrompê-lo. Nunca o desqualifique e nem grite. Pense que haverá tempo para deixar as coisas mais claras e acertar os ponteiros.

         Tratar de assuntos que costumam terminar em discussões exige maior sensibilidade dos pais. Ao perceber que o filho está de mal humor, evitem abordar um tema cujo diálogo será estrepitoso, pois não chegarão a conclusão alguma e facilmente escaparão palavras que depois ambos se arrependerão. Se por vezes os filhos são rudes e os pais, ressentidos, respondem com a mesma moeda, estão apenas reagindo e não agindo. A falta de controle dos adolescentes exige que os pais saibam dominar a si próprios: lembrem-se que os adultos são os pais, e que o filho ainda não tem pleno governo sobre suas emoções, e não pensa com lógica ao estar nervoso. Contem até dez, respirem fundo antes de responder, e digam-lhe serenamente que deve respeitar a autoridade dos pais, e que a conversa ficará para outro momento. No dia seguinte, quando o filho estiver contente e de bom humor, será o momento de abordar aquele tema conflitivo para estabelecer as normas familiares: horário de estudo, saídas para festas, diminuir o uso de celulares e redes sociais, ajudar nos encargos familiares, dormir no horário, ou outro. Ele obedecerá mais facilmente diante de bons argumentos ditos de forma respeitosa.

         Os diálogos com os adolescentes não podem se restringir a ordens, a tratar de questões polêmicas como as oportunidades de saídas, uso de celulares, notas escolares. Os pais devem dar o primeiro passo para iniciar uma conversação grata. E o motivo pode ser um tema que interesse ao filho: o jogo de futebol que participou, o game preferido, as músicas que gosta, o ídolo que admira, o instrumento musical que tenta aprender… Esses temas concretos ajudarão a se aprofundar com naturalidade em outros mais abstratos, como os ideais que pretende alcançar − sua vocação profissional −, tendo por base suas qualidades ou habilidades pessoais. O objeto final de uma conversa com um adolescente não são fatos concretos, mas ideias.

         A conversação diária normalmente gira em torno de temas simples e de pouca importância: computador, televisão, esporte, festas… Falar de tudo um pouco já é alguma coisa, pois o diálogo fomenta a amizade entre pais e filhos. Porém, deixar de abordar temas mais profundos indica que o clima familiar é carente de objetivos ou valores mais altos. Então, é preciso provocar tais temas.

         Deem poucos conselhos – só os mais importantes – para não os aborrecer com muitas indicações, e indispô-los a não ouvi-los quando realmente necessitarem de uma orientação importante. Evitem criticar diretamente um amigo dele, mas abordem o tema do que é a verdadeira amizade utilizando uma boa história literária, e deixe-o concluir sozinho.

         Os pais precisam compreender o idioma do filho, e isso não significa que têm que utilizar o mesmo vocabulário, mas entender o que ele diz. Mais do que dar sermões ou aconselhar desde uma cátedra e em tom professoral, é preciso ouvir. Há pais que parecem estar em outro planeta e não sintonizam com seu filho, e assim desperdiçam momentos chaves para conhecer seu caráter e temperamento, suas preferências estéticas e culturais (músicas, livros, filmes, pinturas), os temas científicos que aprecia… Aproveitem os instantes juntos no carro e coloquem muita atenção ao que ele diz, pois comentários descontraídos revelam o que há no coração e abrem horizontes educativos.

         Os pais não podem ouvir apenas o que lhes interessa. Ainda que estejam cansados e o que filho diz não seja de grande importância, é preciso escutá-lo porque o tema tem relevância para ele, e porque essa é maneira de ir conhecendo o que ele pensa ou valoriza. Assim, o filho perceberá que os pais se interessam por tudo o que diz respeito a ele, e não apenas que tire boas notas, seja ordenado e obediente. Reparem que ele está aberto ao futuro e se sente cheio de possibilidades, mesmo que não saiba explicar como isso se efetivará. Valorizem seus sentimentos e não tentem minimizar suas decepções ao tirar importância daquilo que ele julga ser significativo, pois demonstraria desdém pelo que ele sente ou valoriza: perder uma partida de futebol, ter uma decepção com o melhor amigo, um fracasso escolar, um fora que recebeu da turma… Que ele perceba que vocês compreendem seus sentimentos, mas digam-lhe que precisa saber perdoar ou que será capaz de superar suas deficiências escolares porque é determinado e forte… Estejam atentos, pois um comentário inesperado sobre algo que ocorreu durante o dia é a maneira que ele tem de se comunicar. Ouçam e permanecerem abertos e interessados.

    3 – Eles questionam tudo

         O adolescente julga as pessoas, inclusive seus pais, questiona tudo e por vezes interioriza seus sentimentos e os mantém só para si. Não é de se admirar que às vezes age como se fosse o centro do universo. Mas não se enganem: ele tem dificuldade de conhecer a si mesmo – autocrítica –, de desenvolver pensamentos abstratos e diagnosticar acertadamente o mundo que o rodeia. É preciso ajudá-lo a desenvolver a capacidade de raciocinar e pensar soluções, aproveitando as notícias, narrativas literárias, o tema de um filme. Trata-se de ir do fato concreto ao pensamento abstrato, sempre dentro de uma conversa serena que o leve a concluir por si. Ponham casos hipotéticos em que parece que o fim justifica os meios: alguém que “cola” para tirar boas notas; ou que para ser o melhor na profissão não ensina um colega para que este não o ultrapasse nela, e deixe-o falar.

         Considerem seu filho digno de confiança, pois demonstra que vocês acreditam na eficácia dele. Encontrem maneiras de mostrar que vocês confiam nele, pedindo favores e dando-lhe privilégios: ler para o irmão menor, cuidar de certas gestões familiares, ir ao banco, pagar contas… Façam-no saber que vocês têm fé nele, pois isso aumentará sua autoestima. Tratem-no como adulto ao participar dos projetos familiares e valorizem a opinião dele ao perguntar o ponto de vista que tem sobre determinado assunto, e de que forma enfrentaria tal situação. Saber que os pais confiam nele dará grande força moral. Levem-no a sério. Os pais tendem a elogiar os filhos mais novos, mas os adolescentes também precisam de alento para se sentirem considerados. Para o bom relacionamento com ele, sejam positivos e motivadores.

    4 – Dar respostas que esclareçam

         Embora os pais definam as regras, devem estar preparados para explicá-las: ouvir a razão esclarecedora de que festas em vésperas de aulas não serão permitidas, tornará mais fácil aceitar a determinação. Pela falta de experiência, os adolescentes necessitam conhecer a razão pela qual uma ação é boa ou má: não basta dizer “porque não pode”. Saibam também que eles percebem as incoerências dos pais quando exigem que respeitem os mais velhos, mas eles não se sentem respeitados em suas opiniões; ou se em casa dizem que devem ser solidários, e depois são dissuadidos a não “perderem” tempo em ajudar um amigo fraco nas disciplinas escolares, ou porque não o deixam participar de alguma ONG que atende pessoas necessitadas, e porque percebem que os pais não são solidários, já que não dão esmolas nem ajudam famílias carentes. 

    5 – Pais, descansem com a família e não isoladamente

              Faça seu filho conhecer os valores que a família herdou de seus antepassados, pois está ávido por conhecer a história de seus pais, avós, tios: seus juízos e convicções, seus erros e acertos, lutas e esperanças. Isso é mais importante que qualquer bem material, e ajudará na formação da personalidade dele. Narrar as atitudes de parentes que demonstraram retidão de caráter, honestidade, fé, fidelidade, incorruptibilidade, entre tantos outros valores, o encherá de um bom orgulho – emulação – que o levará a dar continuidade a essa tradição familiar.

         Muitos adolescentes afirmam que os pais ao chegarem do trabalho descansam de modo isolado. É preciso descansar em família e não cada em seu canto. Para isso, fomentar momentos de desconcentração onde todos estejam juntos, seja em torno da mesa durante uma refeição ou na sala de estar para bater um bom papo sobre os acontecimentos do dia, e não para tratar das notas escolares. Consigam que ao menos numa das refeições diárias estejam todos, pois ali se pode de conviver com naturalidade e ouvir os filhos falarem dos jogos que participaram, darem notícias de amigos, planos de descanso que gostariam de fazer com a família, etc. As crianças que se habituam a conversar com os pais sobre os acontecimentos triviais, também se abrirão quando surgirem assuntos mais difíceis. Importante: impeçam nesses momentos de intimidade familiar, a intromissão de celulares, redes sociais, televisão…

         Tendo por base um clima de confiança, busquem um momento na semana para estar a sós com cada filho, sem que isso pareça algo postiço ou fabricado propositadamente. Para que as conversas íntimas surjam naturalmente, coloquem-se no lugar dele e façam uma lista de temas que possam interessá-lo. Peçam a opinião dele sobre assuntos sérios e prestem atenção na resposta para que perceba que os pais confiam nele. Respeitem a intimidade dele; não tentem tirar confidências à base de interrogatórios. Não o force abrir o coração, talvez como se abra com um amigo íntimo, e conquistem vocês a posição desse amigo à base de carinho e confiança, e tratando-o como adulto, respeitando suas opiniões, valorizando seus pontos de vista. Não imponham nada, nem deem opiniões determinantes, cortantes: é melhor que a discreta ajuda de vocês o faça tirar conclusões.

         Falar não é a única maneira de se comunicar. Façam coisas juntos: consertos materiais na casa, colocar em ordem a garagem, limpar o quintal, cuidar do jardim, pintar paredes… O importante é que o adolescente saiba que pode estar perto do pai ou da mãe e compartilhar experiências positivas, sem ter que ouvir cobranças, perguntas intrusivas ou chamadas de atenção.

         O jantar de sábado deve ser aguardado com alegria por ser gostoso! Um plano divertido para se estar junto com o pai é combinar com o filho ou filha que o jantar de cada sábado será feito por ambos, e que a mãe descansará e terá uma surpresa: um sábado será cachorro-quente com seus acessórios, outro será de pizzas, outro de hamburguês e demais itens, outro de frios e diferentes pães, outro de queijos e vinho, etc. Ao pensar juntos, pai e filho ou filha, a amizade dos dois se fortalecerá.

    6 – Dicas práticas ao interagirem com o filho

    • Reservem um tempo durante o dia ou ao anoitecer para ouvir seu filho (ou filha) falar sobre suas atividades, seus gostos. Tenham certeza de que ele ou ela perceberá se vocês escutam com interesse.
    • Lembrem-se de falar com seu filho (dialogar) e não falar para o seu filho (monologar).
    • Façam-lhe perguntas que não sejam respondidas apenas com “sim” ou “não”, a fim de favorecer a conversação.
    • Aproveitem os momentos juntos no carro para falar e ouvir seu filho (o noticiário do rádio não é o mais importante).
    • Estejam nas celebrações escolares ou esportivas em que ele participa; pratiquem um jogo com ele; façam-no saber que vocês estão sempre disponíveis para ele.
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    Texto de Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, com base no artigo “Cómo hablar con un adolescente”, Revista Hacer Familia – octubre 1999; artigo “Consejos para comunicarse con su adolescente”, de Rachel Ehmke, do Child Mind Institute; e artigo “La comunicación y su hijo de 13 a 18 anõs”, de www.kidshealth.org. Imagem de Kindel Media.

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  • Filhos que não gostam de ler

    Filhos que não gostam de ler

    1 – A falta de incentivo familiar para a leitura. 2 – As crianças gostam de ouvir histórias. 3 – Vantagens da leitura. 4 – As telas empobrecem a mente. 5 – Promover uma rica cultura familiar

    1 – A falta de incentivo familiar para a leitura

       Quando um adolescente afirma que não gosta de ler, não se pode atribuir a culpa à escola, mas à falta de incentivo familiar. Logicamente a liberdade pessoal sempre estará presente nas decisões pessoais, e mesmo sendo os pais bons leitores, poderá um filho não apreciar a leitura. Porém, constata-se na maioria dos casos que a falta de estímulo pelos livros vem do desinteresse dos pais, que não leem e não souberam promover a leitura.

         Causa pesar constatar que muitos pais e mães mal percebem que desaproveitaram a ocasião de ler para os filhos, quando estes eram pequenos, pois teria sido um modo magnífico de criar neles o interesse pelos livros, e não pelas preguiçosas telas digitais.

         Ao serem privados de descobrir o prazer de fixar a atenção na narração de histórias lidas ou ouvidas, ao chegar à adolescência encharcados de imagens, os filhos logo se entediam com os textos e se tornam arredios a eles, pois se acostumaram com o pouco esforço mental que as telas exigem. Com isso, não descobrem que a leitura é em si mesma um universo, que os livros falam conosco como bons amigos, que alimentam criativamente a imaginação ao torná-la mais rica que as telas digitais, e que fomentam a capacidade de concentração e o gosto pelo estudo.

    2 – As crianças gostam de ouvir histórias

         Faz parte da natureza humana ouvir histórias e penetrar em mundos desconhecidos. Os tradicionais contos infantis arrebatam as crianças, que pedem incansavelmente para que releiam suas histórias preferidas, e aguardam ansiosamente a hora em que os pais ou um irmão façam isso para elas. Quando fisgadas, sonham um dia ler por conta própria, pois percebem que é a chave para viajarem com a imaginação. Para a criança, a leitura é um jogo entre ela, a mãe ou pai e o conto, sendo o adulto a voz das histórias e a mão que a conduz para dentro da narrativa. Os pais devem ser pacientes e repetir esse jogo dia após dia, reservando um tempo exclusivo para isso. Grandes escritores relatam que desde pequenos foram insaciáveis “devoradores” de livros. É através dos personagens dos contos que as crianças começam a compreender que existe o bem e o mal; que devem amar o bem e odiar o mal.

         Para afastar o feitiço das telas digitais deve-se aumentar a satisfação de ler. Para isso, é necessário encontrar um tipo de leitura que agrade, e de acordo com a idade dos filhos: contos, dramas, romances, suspense, aventuras, comédias, fantasias, biográficas, livros históricos, entre tantos outros gêneros e estilos. A emoção da leitura tem a ver com o texto e o contexto, e com o modo do escritor se relacionar com o leitor, seja pelo seu modo de dizer ou pelas metáforas e imagens que utiliza.

    3 – Vantagens da leitura

         Deveria ser desnecessário listar os benefícios infinitos da leitura, que é uma forma profunda de conhecimento, mas torna-se necessário mencionar alguns para que não passem despercebidos pelos pais. A literatura além de iluminar a inteligência ao dar a ela riqueza léxica e capacidade de argumentar e expressar pensamentos e sentimentos de forma rica, é também um laboratório que ensina coisas insubstituíveis para a vida: a maneira de compreender a si e as pessoas, os valores que valem a pena conquistar, o significado do amor verdadeiro, a experiência alheia que se pode colher, permite distinguir muitos valores, como o da amizade verdadeira da falsa (para isso basta ler Pinóquio, de Carlos Collodi).

         A leitura promove um grande acontecimento na vida da criança: a faz descobrir o que cada coisa é, que nome e significado possui, e isso a permite ganhar conceitos para se expressar. Ao se aproximar da palavra, a criança percebe nela há um mistério que provoca sentimentos.

         A leitura é íntima, e mantém um diálogo interior ao buscar na alma os conceitos das palavras para manejá-los por meio da memória, imaginação e inteligência, o que permite a reflexão, que é outro mecanismo linguístico da inteligência para analisar situações e sentimentos, e isso só é possível mediante a palavra.

         Porém, o vício de permanecer frente as telas digitais vendo discorrer diante dos olhos excessivas imagens, que mal podem ser processadas, impede o senso crítico e a capacidade de tirar consequências. A literatura vai além do conhecimento. Hannah Arendt estabelece uma distinção entre conhecimento e pensamento: conhecimento é fácil, diz ela, sendo o que aprendemos com a técnica, a ciência e o método. Já o pensamento é a capacidade da pessoa refletir sobre si (cair em si), pois se o homem perde a capacidade de pensar acaba sem distinguir entre o bem e o mal.

    4 – As telas empobrecem a mente

         Hoje, os audiovisuais podem ser considerados os adversários principais da leitura, pois fascinam a criança: são agradáveis e não exigem esforço mental para se postar passivamente diante de uma tela e assistir a uma enxurrada de imagens prontas.
         Quando os pais ofertam ao filho um celular ou tablete, a fim de que fique em casa e fujam dos perigos da rua, mal percebem que tal atitude cômoda gera na criança vícios, atitudes de preguiça ou comodidade, tornando-a passiva e indiferente às pessoas e às realidades que a cercam. E ao retornar ao mundo real sente-se entediada dele.
         Se por um lado o excesso de imagens faz adormecer a inteligência, por outro instiga as paixões e leva o adolescente a não se questionar se é certo ou errado moralmente − tarefa essa da inteligência ou consciência prática − ver cenas pornográficas, debilitando, com isso, sua vontade para decidir de modo contrário. A inteligência necessita de valores para pensar bem, e estes são facilmente aprendidos na leitura e releitura de bons livros.

    5 – Promover uma rica cultura familiar

         É tarefa dos pais promover um sadio ambiente cultural na família, a fim de ampliar a sensibilidade de todos para as diferentes formas de beleza. Uma criança que desde sua casa ouve os “pancadões” com músicas e letras de péssimo gosto, que chega da rua aos seus ouvidos nos fins de semana, não saberá da existência de gêneros musicais mais ricos se os pais não os apresentar a ela, seja por vídeos ou participando ao vivo de boas apresentações.
         Não é preciso ter poder aquisitivo para fomentar um excelente ambiente cultural na família, mas possuir sensibilidade, bom gosto e capacidade de avaliar o que é bom a fim de programar vídeos, leituras, visitas a museus e exposições (cerâmica, pintura, artesanatos, escultura), apresentações musicais de diferentes gêneros em polos culturais gratuitos da cidade… Os grandes museus da Europa possuem sites, sendo possível viajar dentro deles, e no YouTube basta localizar shows musicais de alto nível estético, seja do gênero popular ou clássico para crianças.

         Sempre é tempo de recomeçar, caso os pais tenham perdido o tempo oportuno de promover a leitura em família. Para isso, devem explicar aos filhos sobre a importância desse hábito, e que pretendem corrigir-se e se tornar bons leitores. Depois, informar que deixarão de ficar grudados na tv e outras telas para aproveitar esses espaços com bons livros. Entusiasmar os filhos para organizarem juntos uma biblioteca familiar, informando-se com amigos de critério e bom gosto sobre as excelentes obras literárias. Introduzir nos passeios familiares visitas a livrarias, sebos, feiras de livros, locais de contação de histórias ou de leitura de poesias; e programar vídeos com esses conteúdos. Veja a lista de livros de literatura infanto-juvenil para sugerir ao seu filho: staging.ariesteves.com.br/livros

    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/.

  • A construção do eu

    A construção do eu

    1 – Conhecer-se para se construir. 2 – O risco de fugir de si. 3 – Ser ou ter, eis a questão. 4 – Verdades perenes. 5 – Elementos para construir o eu. 6 – A função das virtudes.

    1 – Conhecer-se para se construir

         Quem sou diante dos meus próprios olhos? A necessidade de identidade é profunda no homem, e só quem se conhece poderá chegar à melhor expressão de si mesmo. O “eu” de cada pessoa não se confunde com seus braços, pernas, inteligência ou vontade, porque trata-se de sua dimensão espiritual, a consciência de si, o centro de suas decisões e onde residem o amor e o querer. O “eu” deve ter senhorio sobre as demais potências (inteligência, vontade e afetividade), e isso se alcança por meio de uma contínua formação que alimente a inteligência com a verdade, potencie as qualidades e elimine os defeitos e imperfeições que todos os filhos de Eva possuem.

         Ser inconformistas consigo e não conviver com os erros como quem cultiva bactérias dentro de si: “Não digas: Eu sou assim… são coisas do meu caráter. São coisas da tua falta de caráter…” (Caminho, no 4). Quem diz “é que sou assim”, também poderia dizer “eu me fiz assim”. João Paulo II, na Carta aos Artistas (04-05-1999), diz: “A cada homem se lhe confia a tarefa de ser artífice da própria vida; em certo sentido, deve fazer dela uma obra de arte, uma obra mestra”.

    2 – O risco de fugir de si

         O perigo que assedia o homem moderno é o de mexer-se muito e andar na superfície de si: lê biografias, sabe da vida de artistas e esportistas, mas pouco entende de si. O excesso de imagens consumidas diariamente lhe dá a ilusão de que conhece tudo, porém, ao não saber processar tantas informações desencontradas, seu conhecimento é periférico e só tem a espessura das telas que, ao ser desligadas, também o apaga porque tudo resumiu-se em curiosidades. Foge de refletir sobre si mesmo, e por isso almoça vendo telas, no carro liga o som porque teme o silêncio, em casa se lança afoito ao controle da TV a fim de ouvir todos os noticiários do dia. Nos fins de semana curte baladas, festas, toneladas de vídeos. E assim, o barulho em torno de sua vida é ensurdecedor e impede a reflexão e a fala, mas isso não importa porque tem pouco para dizer. No domingo à tarde, ao se ver obrigado a frear seu frenesi e encontrar-se consigo, sente tédio. Viver esse tipo de vida só é possível ao narcotizar a consciência e chamar a preguiça de “necessidade de descansar”; a covardia de “não ser intolerante”. Mas isso tem um preço, porque ao desconhecer a verdade sobre as realidades que o cercam produz desconcerto e conflitos pessoais que o conduzirão a terapias.

         Um autor, se não me falha a memória é Lopes Quintás, refere-se a certa mãe que responde à filha que lhe foi pedir conselhos porque estava com um problema no casamento: − Você quis se casar, agora aguente!, e se pergunta esse autor: Agiu bem essa mãe? Foi profunda a sua resposta? Aguentar é o termo correto? Bem, podemos imaginar que a mãe talvez passasse muitas horas consumindo informações e curiosidades, mas não soube ter presente os valores que estavam em jogo, a fim de ajudar a filha a ser fiel e a levar adiante o lar, mesmo ao sacrificar algo. Poderia ter ajudado a filha a reconquistar o marido e a seguir adiante na grande tarefa de cumprir com sua palavra diante de Deus, e de educar os filhos que o casal possuía.

    3 – Ser ou ter, eis a questão

         Num plano mais superficial a necessidade de ser que cada um sente, se confunde com a de ter, de se identificar com os objetos que possui: moto, carro, aparência física para chamar a atenção… E quando se envelhece ou as coisas perdem atualidade, instala-se o desconcerto e o vazio interior.

         Quem identifica o seu ser com os seus talentos ou habilidades esportivas, intelectuais, profissionais ou artísticas, também confunde o ter com o ser, pois ao perder essas capacidades pela velhice, doença ou acidente, vem a crise e a falta sentido da vida. É bom sentir-se capaz de realizar algo para servir aos demais. Porém, ninguém vale pelo que sabe ou não fazer, mas porque é uma pessoa cuja alma foi criada por Deus.

         Deixar-se levar pelos vícios é mais fácil − e enganoso − , porque prometem muito com pouco esforço, mas ao final dão pouco, embotam a alma e são causas de tristezas. Quem carece de virtudes não será capaz de empreender projetos de envergadura, nem se lançará a realizar grandes ideais. Uma vontade fraca, pouco exercitada, permite que a pessoa seja facilmente arrastada por sentimentos e paixões desordenadas.

    4 – Verdades perenes

         Quem se nega a descobrir verdades sobre si e acerca de tantos outros temas como família, namoro, casamento, filhos, trabalho como meio e não fim, sexualidade, tentará se dirigir a um ponto de luz onde pensa residir a felicidade, mas quanto mais corre, mais se distanciará dela, e perceberá que se encontra sobre um iceberg à deriva no oceano.

         Em qualquer época sempre existiu para o homem verdades perenes que não dependem da opinião: honra, lealdade, fidelidade, não atraiçoar… É fácil aceitar que existam verdades no campo das ciências exatas (química, física, matemática), porque elas não dependem da opinião humana. Porém, existem princípios e verdades que devem nortear a vida do homem, ao aceitá-las livremente: fazer o bem e evitar o mal, não roubar, trabalhar bem, não mentir, ser honesto, entre tantas outras. Se uma sociedade se tornar relativista correrá o perigo de ficar sem bases firmes, e não saberá distinguir entre o bem e o mal. Com isso, ao não saber defender as verdades, as pessoas não se corrigem e em nome da espontaneidade passam a agir como gostam e não como devem, derivando disso muitas injustiças contra o próprio homem. No fundo, tornam-se perenemente presentes as palavras de Pilatos: “O que é a verdade?”.

    5 – Elementos para construir o eu

         É necessário melhorar o temperamento, o caráter e os sentimentos, pois afetam o nosso modo de ser, compreender e agir. Muitos concentram o seu esforço apenas em aprimorar a instrução profissional, que é só um aspecto da educação humana, e desatendem a sua formação integral: quem estaciona no conhecimento técnico tem uma visão pobre de si, da família, da pessoa humana, da cultura, do bem comum, da religião…

         O caráter, que influi na postura que temos diante da vida, se forja e se modifica pela influência dos conhecimentos auferidos na família, trabalho, escola, rua, amigos, meios de comunicação, livros… Tais conhecimentos ofertam conceitos, preconceitos e modo de ver e compreender a realidade. Já o temperamento é genético e faz parte do jeitão de ser de cada um: tímido, extrovertido, ansioso, distraído, colérico… Ao homem lhe é dada a capacidade de atuar sobre o seu temperamento, caráter  e afetividade, a fim de melhorá-los.

         É tão comum taxar alguém por algum defeito que possui: distraído, pavio curto, paradão, inseguro, mentiroso… O pior é constatar que os anos passam e a pessoa não muda porque não luta, o que afetará seu modo de trabalhar, de reagir diante dos acontecimentos e nas relações com os demais. Não podemos admitir os defeitos em nossa vida como quem admite um fato inexorável, imodificável, pois seria como criar micróbios dentro de si. O impulsivo por temperamento deve lutar para ser paciente, o preguiçoso necessita fazer atos de fortaleza ao não protelar o cumprimento dos deveres, o melancólico pode utilizar sua sensibilidade para fazer amigos e ajudar aos demais, o colérico pode utilizar sua audácia para levar adiante projetos em prol dos mais necessitados, o sanguíneo pode utilizar sua habilidade de comunicação para difundir verdades sobre a família, casamento, bem-comum, vida humana…

         O animal não necessita pensar porque suas tendências instintivas – comer, beber, dormir, acasalar – fazem-no atuar bem e orientam suas ações para a conservação da espécie, e não mais do que isso. Já no homem os instintos são falhos, inseguros, e não garantem a sobrevivência da pessoa nem a da espécie, porque sua capacidade reitora é a inteligência, que supre e corrige as pulsões instintivas quando estas se desordenam.

         As pulsões instintivas humanas dão energia, mas podem anarquizar-se. Todos sentimos dentro de nós uma desordem inata que bagunçou a orientação dos instintos humanos (a Igreja Católica chama isso de consequências ou relíquias do pecado original). No ser humano cada instinto busca a própria satisfação, sem importar-se com o corpo como um todo: a gula pode induzir o diabético a comer doce, a entupir o cardíaco de alimentos saturados de colesterol, a encharcar alguém de álcool; o instinto de procriação desorbitado levará o libidinoso a buscar o prazer venéreo e adquirir vícios e adições como o da pornografia pela internet, entre outros.

         Ou seja, cada instinto humano se não for orientado pela inteligência e vontade bem formadas, buscará apenas sua satisfação, e desatenderá ao que é melhor para a pessoa. Abandonar-se à lei dos instintos leva o homem ao fracasso rotundo. O ser humano não busca o fim da espécie, como acontece com os animais, mas um fim pessoal, porque pelo livre-arbítrio deverá escolher entre ser médico, sapateiro, chefe de cozinha, mecânico, engenheiro…; como também poderá decidir ser ladrão, estelionatário, traficante, etc.

    6 – A função das virtudes

         Aristóteles dizia que a virtude torna boa a obra e seu agente. Isso porque são hábitos bons, conscientes, que penetram na alma e suas potências (inteligência, vontade e afetividade), e estabilizam a personalidade ao eliminar o que destoa, e dão facilidade para buscar o bem. As virtudes, uma vez radicadas na alma, ajudam a decidir bem porque fortalecem a vontade e tornam mais fácil a execução do que é correto. Todos temos tendências naturais desordenadas, e devemos descobri-las e lutar para reformá-las por meio das virtudes: o irascível deve exercitar-se no autodomínio, o preguiçoso necessita impor-se um horário para iniciar e concluir suas tarefas, cabe ao dubitativo não protelar suas decisões e ao tímido expor-se mais.

         Ganham-se virtudes pela repetição de atos bons, tal como se ganham vícios pela repetição de atos maus. Para que arraigue um hábito operativo bom não basta uma ação isolada, mas muitos atos para que se estabilize o comportamento. E quando ganhamos um hábito bom, pelo princípio da unidade do ser humano, é a pessoa toda que melhora. A fortaleza, por exemplo, se conquista com pequenos atos como iniciar o estudo na hora, colocar as coisas no lugar ao finalizar um trabalho, não desviar-se do dever de cada momento, chegar pontualmente aos compromissos, não protelar o início de uma tarefa…

         Cada pessoa necessita tomar as rédeas de sua vida, sendo protagonista dela: non ducor duco (não ser conduzidos, mas conduzir). A luta por melhorar o temperamento e o caráter dá maturidade, autodomínio, força moral e desenvolve muitas virtudes. Um exame de consciência diário de três minutos ao final do dia, identifica se a conduta pessoal está dominada pelos sentimentos − isso se chama sentimentalismo −, ou se as ações temperamentais e de caráter são destoantes. Os defeitos não devem cristalizar-se em pré-disposições ou tendências, pois conduzirão a tomar decisões erradas. Sempre seremos convidados a escolher, e a reiteração de escolhas erradas gera maus hábitos ou vícios: a opção pela desordem e ociosidade leva à preguiça; a tristeza diante do bem alheio conduz à inveja, etc. Portanto, o melhor e o que mais felicidade traz é conduzir-se sempre pela verdade e o bem, por meio de uma luta interior alegre e esportiva.

         A cada dia os esportistas começam e recomeçam a fim de melhorar seus índices. Qualquer atleta que sobe ao pódio fracassou muitas vezes, mas não se rendeu, nem desanimou. Não jogar a toalha, nem desistir de melhorar o próprio “eu”. Ao contrário, insistir muitas vezes até alcançar a meta: listar as carências e defeitos pessoais e estabelecer uma luta alegre e esportiva, com atos contrários a cada falha: o desordenado deve esforçar-se para colocar cada coisa no seu lugar; o preguiçoso necessita estabelecer horário para iniciar e concluir as tarefas, e evitar fugir atrás de outras coisas; o egoísta precisa se pôr à disposição das pessoas para servi-las; o sensual deve precaver-se para não se colocar em situações que instiguem a sua sensualidade… Só para quem abandona a luta a derrota é certa.

    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/.

  • Tempo de educar

    Tempo de educar

    1. Na educação do comportamento, um ano representa muito. 2 – Evitar maus hábitos de 1 a 6 anos. 3 – O hábito da ordem para crianças de até cinco anos. 4 – As três dimensões educativas. 5 – A importância de atribuir tarefas às crianças. 6 – Animar a criança a cumprir seus encargos.

    1. Na educação do comportamento, um ano representa muito

         Costumamos dizer que ”o ano voou”, que “o Natal chega cada vez mais rápido”, “que já estamos às portas de uma outra Copa do Mundo!”. Agora, em termos de educação, pensemos no que representam um, dois ou três anos na vida de uma criança de 1 a 6 anos! Se foram bem-aproveitados, os pais terão poucos problemas com a chegada da pré-adolescência (7 a 12 anos) e da adolescência dos filhos (13 a 18 anos). Pais que fomentam hábitos de ordem material e temporal ao filho de 1 a 6 anos, evitarão que este seja um pré ou adolescente com vícios difíceis de desarraigar

         Muitos pais olham para seus filhos com ternura e graça, e não conseguem imaginá-los como adolescentes, desejando que permaneçam eternamente crianças. Mas é necessário fazer esse exercício para atuar com eficiência e não dormir em louros, pois o tempo escoa como água entre os dedos. Se a criança entre 1 e 6 anos habituou-se a organizar seus brinquedos e roupas, se aprendeu a ser agradecida e solidárias com os demais, se cumpre as pequenas tarefas que lhe foram atribuídas, se foi incentivada em suas qualidades e corrigida em seus pequenos defeitos, já na pré-adolescência será notório o resultado da boa educação recebida desde o nascimento.

    2 – Evitar maus hábitos de 1 a 6 anos

    A criança que não estiver sendo educada desde um ano de idade na ordem material, que é a primeira a ser desenvolvida, chegará aos 6 ou 7 anos enfraquecida nas dimensões psicológica e espiritual, pois as paixões e sentimentos, que asseguram a passagem entre a vida sensível e a vida do espírito, se estiverem impregnadas pelos maus hábitos conduzirão a criança à preguiça, à fuga dos deveres, ao egoísmo, à intemperança e desobediência, afetando, assim, sua dimensão espiritual, que é a consciência do eu aos 7 anos, e onde residem o sentido de responsabilidade e o amor materializado no serviço aos demais. Desajustada nas três dimensões de sua educação (física, psicológica e espiritual) − que não se encaixarão −, ela passará a ter atitudes erradas devido à grande influência dos hábitos ruins sobre a seus sentimentos e afetos. As crises impróprias da pré-adolescência e adolescência, manifestadas em desobediências, egoísmos, intemperanças, preguiças, medo de assumir responsabilidades (estudar, por exemplo), ocorrem muitas vezes pela falta de educação nas três dimensões mencionadas, desde as primeiras idades.

    3 – O hábito da ordem para crianças de até cinco anos

         A criança que ganhou hábitos de ordem material desde o nascimento, a partir dos 7 anos passará a ter também ordem na cabeça e saberá organizar e distribuir seu tempo para atender as tarefas familiares, escolares e sociais.

         Até cinco anos de idade a educação corporal é vivida intensamente através da ordem material e da ordem temporal. Esses dois âmbitos facilitarão a ordem dos afetos (autodomínio e controle dos sentimentos, emoções e paixões).

         Ordem material: guardar brinquedos e roupas, sendo que para os brinquedos os pais devem providenciar caixas com desenhos que indiquem o tipo de peças que deverá ser depositada em cada uma, sem misturar com outras, e mostrar onde cada caixa ficará. Quanto às roupas, o armário ou gaveta deve estar à altura da criança. Há várias tarefas materiais que a criança poderá fazer nas primeiras idades (leia o boletim “Construir a autonomia da criança”). Assim, com bons hábitos adquiridos, mesmo na casa dos avós a criança desejará saber onde deixar suas coisas, e na escola não largará o seu material em qualquer lugar.

         Ordem temporal: permite a criança desenvolver rotinas ao ter horário de acordar, mamar, brincar, banhar-se e dormir. Com as rotinas, que não devem ser interrompidas nos fins de semana, a criança se sentirá segura; e a falta delas a tornará inconstante e hiperativa ao largar uma coisa e começar outra desordenadamente, e terá dificuldades para se concentrar. Cada hábito tem um “o que fazer” e um “quando fazer”, sem protelar (leia o boletim “A rotina na vida das crianças”).

         Ordem afetiva: a criança deve ser ensinada a moderar sua impulsividade quando perder a partida de um jogo, a preocupar-se pelos outros e a doar seu tempo; a respeitar e ser gentil com os pais, avós, tios, vizinhos, professores e amigos da família; a não mexer em tudo e nem fazer só o que deseja, seja na igreja (– Silêncio, aqui mora Deus!) ou em outro lugar (cabeleireiro, consultório médico, lojas). Ao viver tais aspectos, a criança estará ordenando seus afetos (sentimentos, emoções e paixões).

         Ordem mental: desde as primeiras idades a criança necessita aprender que no modo de agir existe um certo e um errado, um bem e um mal, um pode ou não pode, sempre com uma explicação adaptada à sua capacidade de compreensão, e sem gritarias e autoritarismos. Mesmo que até 5 anos de idade não compreenda mais profundamente os motivos, perceberá que há um bem que sempre deve vencer, seja nas atitudes dela, nos desenhos, filmes, contos lidos para elas e no exemplo dos pais.

    4 – As três dimensões educativas

         Educar significa ajudar a crescer, a desenvolver as capacidades para empregá-las bem. “O cérebro não é um vaso por encher, mas uma lâmpada por acender”, disse Plutarco. A criança pequena é uma entusiasta de todas as coisas, mas necessita das luzes proporcionadas pela educação, a fim de ir se enriquecendo humana e espiritualmente à medida que cresce.  

         A educação deve atingir o corpo, a alma e o espírito. Essa ordem primeira (corporal) fortalecerá a educação da segunda ordem, a da alma ou mental (inteligência e vontade), que ocorrerá a partir dos 6 ou 7 anos, quando, então, a criança passará também para a terceira ordem, que é a espiritual e onde reside a consciência do eu (− Eu não sou as minhas pernas ou braços; o meu “eu” é quem comanda as minhas pernas e braços, perceberá um dia a criança). O amor, o sentido de responsabilidade e o querer livre (– Quero ajudar a minha a mãe a manter a casa em ordem!) fazem parte da dimensão espiritual da pessoa humana.

         As crises da pré-adolescência e adolescência, manifestadas em desobediências, egoísmos, intemperanças, preguiças, medo de assumir responsabilidades (estudar, por exemplo), ocorrem muitas vezes pela falta de educação nas três dimensões mencionadas, desde as primeiras idades. Ver boletim “Como falar com seu filho adolescente

    5 – A importância de atribuir tarefas às crianças

         Os encargos, que podem ser muito variados, são aquelas tarefas atribuídas a cada membro da família que, por sua consciência de grupo, são aceitas livremente e como contribuição ao bem-estar geral. O encargo é parte de um trabalho maior que deve ser alcançado em conjunto com demais, e que dependerá dos costumes de cada lar, da idade e do caráter de cada membro da família, e da capacidade de cada um.

         As crianças crescem em solidariedade e preocupação pelos demais quando ganham espírito de equipe ou de cooperação, e realizam não apenas tarefas para si mesmas, mas de interesse de todos. Não é suficiente que a criança gaste tempo só para si ao ficar metida apenas em suas coisas. Os pequenos serviços prestados aos demais familiares fomentará nela o desprendimento próprio e a generosidade de ajudar, que são virtudes portadoras de felicidade, já que o egoísmo é sempre causa de isolamento e tristeza.

         No âmbito familiar, o mais conveniente – e a meta a ser atingida – é que a ajuda prestada por cada membro seja ditada pelo amor e sentido de responsabilidade, e não porque será cobrada pela execução da tarefa.

         Não se deve impedir nem substituir a criança pequena de cumprir qualquer encargo que tenha capacidade de fazê-lo, mesmo que no começo não o faça com perfeição e exija paciente e bem-humorado treinamento. Ao realizar uma tarefa, a criança a executará com a alegria de estar praticando um jogo. E ao se sentir apta para a incumbência a ela delegada, ganhará autodomínio, independência, generosidade, espírito de serviço, preocupação pelos demais…

         Ao atribuir uma tarefa à criança, levar em conta o caráter e o temperamento dela: as tarefas mais movimentadas deverão corresponder à criança irrequieta, enquanto à mais calma conferir tarefas que exijam maior atenção e cuidado. A idade é outro fator para distribuir um encargo, pois sempre haverá uma escala de dificuldade nas diferentes tarefas. Não se pode outorgar tarefa que seja fácil demais para a criança executar, nem difícil demais, pois ambas a desestimulariam. É interessante fazer a distinção entre idade mental e real, pois algumas crianças estão mais capacitadas que outras para efetuar determinadas tarefas, independentemente da idade.

    6 – Animar a criança a cumprir seus encargos

         A criança sente que o mundo está cheio de curiosidades que rapidamente serão trocadas por outras. Se não há nada que a motive, logo ficará cansada ou entediada, seja com os brinquedos que usou, e que depois já não os quer recolher, ou outras pequenas tarefas que realize. Como ajudá-la a colaborar? O elogio dos pais pode incentivá-la, mas é melhor que vá aprendendo a fazer as coisas não por obrigação, mas por querer ajudar, a fim de ir desenvolvendo o sentido de responsabilidade.

         Se a criança não se dispõe a fazer uma tarefa que seja capaz de cumprir, isso entra no terreno da educação por meio do encargo. Deve-se estimulá-la a fazer o que consegue realizar para aprender a vencer os estados de ânimo. Ao estudar, mesmo que não sinta ânimo para isso, fortalecerá a vontade e ganhará o hábito do estudo. Se ceder, logo será arrastada pela preguiça ou comodismo.

         Para a criança se convencer da importância de cumprir um encargo familiar, dependerá do modo como será solicitado. Não se pode pretender que ela se disponha a fazer algo por conta própria se a autoridade dos pais for violenta, porque assim, na melhor das hipóteses, obedecerá por medo e não por desejar ser solidária e contribuir para o bem de todos.

         Para um encargo ser educativo, é preciso explicar à criança que sua execução será uma contribuição para a casa, que necessita da cooperação de todos. Por isso, as tarefas devem ser comunicadas de forma positiva, onde gesto e palavra formam um todo. A proposição suave, seguida de palavras positivas, é mais eficaz: será melhor pedir para “deixar o quarto arrumado pela manhã”, pois transmite voto de confiança de que será feito, do que dizer para “não deixar o quarto sujo e desordenado pela manhã”, porque se afirma que a criança é suja e bagunceira.

         Quando um encargo foi assimilado e transformado em hábito, poderá ser acrescentado outro. É possível que a própria criança indique a tarefa que seja mais conveniente para ela, o que aprimora seu espírito de iniciativa. Logicamente ao avançar em idade será necessário atribuir outras incumbências.

         Como motivar o cumprimento de uma atribuição? Um outro caminho pode ser o Conselho de Família, onde pais e filhos têm voz e voto, apresentam propostas, e se distribuem os encargos, inclusive para os pais. Nessas reuniões um dos filhos pode atuar como secretário e anotará as tarefas que a família deverá cumprir, e as que correspondem a cada membro.

         Quando o Conselho se reunir para verificar o cumprimento das tarefas, os pais devem estar atentos para que essas reuniões não se convertam em acusações. Há temperamentos que não reagem bem ao ver que suas deficiências são criticadas pelos demais. Para isso, algumas semanas antes da reunião mensal, se os pais percebem que algum resultado não foi bom, talvez seja melhor conversar individualmente com o filho que descumpriu com seu dever, até que ele se corrija, a fim de não receber críticas no dia da reunião, que se restringirá à troca de experiências, relato de dificuldades, alteração de algum aspecto do encargo, atribuição de outras tarefas, etc.

         Há famílias que adotam um sistema divertido de “multas” se o encargo não foi cumprido: são deduzidas das mesadas algum valor que será depositado num cofrinho. Com o dinheiro arrecadado compra-se um bolo ou doces e o levam a um orfanato ou asilo. Estar atento para que o Conselho, em tal caso, não caia em camaradagens entre pais e filhos que possam conduzir a uma perda de respeito, nem torne ingrata uma ação de amor como a de levar algum agrado a quem está carente de carinho. É interessante que os filhos poupem algum dinheiro para fazer esse ato de caridade, sem necessidade de “multas”.

         O sistema de Conselho Familiar para determinados lares pode não ser o mais adequado. Trata-se, então, de encontrar o modelo mais conveniente para um tipo de reunião periódica de avaliação, mais ou menos informal, seja com entrevistas pessoais com cada membro da família, ou unindo diferentes técnicas. O que interessa é que os encargos ganhem vida e importância, e todos se ocupem do bem-comum.

    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, com base em artigos da revista “Nuestro Tiempo”, no 180, Universidade de Navarra Pamplona (Espanha): “Actividades en el hogar”, pgs. 722-734; “Los consejos de família”, pgs. 718-721, “La obediência en el niño”, pgs. 722-734; e o boletim “Ser ou ter: a educação da personalidade”, postado no site staging.ariesteves.com.br/.

  • O futuro não depende das crianças, mas dos pais

    O futuro não depende das crianças, mas dos pais

    1 – Educa-se no dia a dia. 2 – O valor das coisas pequenas. 3 – Falsos critérios de avaliação. 4 – A importância da vida familiar. 5 – Pais que educam

    1- Educa-se no dia a dia

         O futuro não depende das crianças, mas dos pais que hoje educam seus filhos. A ocupação habitual dos pais é em grande parte o trabalho pedagógico que realizam por meio dos acontecimentos triviais da vida familiar, e escassamente interessantes para as telas midiáticas. É no minúsculo afazer quotidiano, obscuro, sem brilho, que agora estão sendo forjados com boa têmpera as mulheres e homens que amanhã atuarão na vida social.

    2 –O valor das coisas pequenas

         A eficaz atuação educativa dos pais não depende da magnitude de ações deslumbrantes, aparatosas, mas de pequenas atitudes que ocultam a sua grandeza, como a de exigir disciplina desde o berço (uma criança de peito sabe como manipular os pais); quando dizem “não” à criança que protesta, mas que no seu íntimo sabe que seus pais agem corretamente…

    3 – Falsos critérios de avaliação

         É comum avaliar as ações humanas por critérios errôneos: crê-se mais importante valorizar um trabalho ostentoso, que desperte admiração, do que aplaudir uma ação que parece irrelevante como a de ensinar a criança a ser solidária ao pôr e retirar os talheres da mesa e ajudar o irmão ou amigo com dificuldade em alguma disciplina escolar, a ser ordenada e guardar seus brinquedos e material esportivo, a amar a verdade, a não mentir nem tirar uns trocados da carteira do pai para comprar guloseimas… Porém, são esses os pequenos fios da tessitura de um caráter íntegro que não desviará para si o dinheiro público, nem aceitará subornos.  

    4 – A importância da vida familiar

         A vida familiar preenche a existência de muitos homens e mulheres que têm a tarefa profissional como meio e não como fim, pois acreditam que seu melhor “negócio” é a família. São pais que dedicam algum tempo diário para estudar temas de orientação familiar e educação dos filhos, nem que sejam 10 minutos, a fim de aplicar com paciência e constância esses conhecimentos nas corriqueiras oportunidades educativas oferecidas na vida em família.

         Ao orientar suas vidas pelos valores que acreditam, esses pais ensinam com o exemplo e a palavra, e seus filhos ganham um porte que reflete autodomínio, honestidade, força de vontade, confiança em si mesmos, compreensão, respeito pelos demais, otimismo, competência profissional, solidariedade para compartilhar seu tempo e suas coisas com os que mais necessitam.

    5 – Pais que educam

         As catástrofes espirituais, como corromper-se e corromper, não ocorrem de repente, mas pela omissão continuada das constantes, carinhosas e firmes orientações que os filhos devem receber desde a infância.

          “Quem é fiel no pouco também o é no muito”. Os pais que educam realizam um projeto divino ao corrigir os pequenos desvios de rota que impedem de chegar ao porto de destino. A fidelidade naqueles pontos que, apesar de parecerem insignificantes ocultam a sua grandeza, é o segredo da boa educação.

          Podemos ter certeza de que os notáveis homens da história – Pasteur, Jérôme Legeune, e tantos outros – só chegaram às suas valiosas conquistas porque souberam realizar continuamente tarefas pequenas e obscuras. Assim procedem os pais que realizam algo grandioso na vida de seus filhos.

    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Desenho de Cristiano Chaui.

  • Autodomínio e ordem: bases para outras virtudes

    Autodomínio e ordem: bases para outras virtudes

    1 – A virtude da ordem. 2 – Educar as crianças na virtude da ordem. 3 – A educação da ordem nas diferentes idades. 4 – Virtudes relacionadas com a ordem. 5 – Educação da inteligência, vontade e afetos. 6 – Adolescentes consumistas.

    1 – A virtude da ordem

         São muitas as virtudes para se educar, mas pelo princípio de harmonia da pessoa, quando se melhora em uma delas é a pessoa toda que se aperfeiçoa. E isso acontece também com a virtude da ordem, que é o modo como o homem dispõe com lógica e harmonia as realidades que integram o mundo em que vive.

         A ordem leva a organizar o dia para que os deveres familiares, profissionais e sociais sejam atendidos, e isso dá a paz do dever cumprido: “Quando tiveres ordem, multiplicar-se-á o teu tempo e, portanto, poderás dar mais glória a Deus, trabalhando mais a seu serviço”, diz o livro Caminho.

         A ordem tem a sua raiz no espírito, sendo fruto de uma reflexão que, partindo da consideração das finalidades, avalia os meios à disposição para considerar quais os mais adequados. Daí que a ordem é mais que a mera ordenação das coisas materiais, ou evitar precipitações, mas expressão da harmonia do espírito, e pressupõe uma adequada hierarquia nas aspirações, valores e desejos, e estar orientada ao amor e serviço do próximo.

          A virtude da ordem está na base do autodomínio ou domínio de si, temperança, sobriedade, austeridade, equilíbrio pessoal, fortaleza, serenidade, sentido de economia e poupança, conhecimento próprio, humildade, simplicidade, veracidade, sobriedade, ordem material. As virtudes não são estáticas e devem crescer cada vez mais com o passar dos anos. Quem desde criança aprendeu a viver a ordem material, chegou mais facilmente à ordem do espírito.

    2 – Educar as crianças na virtude da ordem

         Quando a criança é educada na virtude da ordem desde pequena (um ano e oito meses!), sua harmonia, seu espírito de serviço e de cooperação também serão precoces, e o desenvolvimentos de muitas outras qualidades serão enormemente facilitados. Não há ordem quando as crianças dormem à última hora da noite, misturam os brinquedos numa mesma caixa, guardam de qualquer modo o material escolar (lápis sem afiar, por exemplo), colocam a roupa suja no armário junto com as limpas, deixam a mochila em qualquer canto e não têm horários para as diferentes atividades diárias…

         A ordem exige ter um pequeno horário para organizar o dia e facilitar a criação de hábitos: banhar-se, brincar, almoçar, estudar, lanchar, fazer encargos, orar, jantar, dormir. Muitos pais elaboram com a criança um horário e o colocam em lugar visível para que possa ser consultado por ela. Interessa que a criança assuma suas responsabilidades e não fique à espera de que alguém diga o que fazer, feito mera e passiva executora de ordens.

         Exigir da criança, desde o primeiro dia de aula, que tenha um horário de estudo para não se habituar a fazê-lo nas vésperas das provas. Ao estudar desde o início das aulas, mesmo que sejam 15 minutos diários (ou 1/2 hora aos 12 anos), ganhará a virtude da constância e os resultados escolares serão excelentes. Além de ensinar a ser ordenadas, as crianças precisam de que os pais e os adultos da casa sejam modelos a imitar. Com a mesma facilidade para imitar a ordem, imitarão a desordem se notam maus exemplos dos que largam as coisas em qualquer canto. Convidar as crianças para ajudar a ordenar a casa: os livros da biblioteca, o quarto de ferramentas, os armários da cozinha, preparar uma mala para viagem ou excursão… Ensiná-las a manusear livros, álbum de fotografias, ferramentas, modo de atender o telefone, limpar uma vidraça e copos, enxugar o banheiro… Entre 9 ou 10 anos é um bom momento para ensinar os filhos a utilizar uma agenda e anotar as tarefas escolares, encargos, aniversários, compromissos etc. No princípio se pode lembrá-los de anotar na agenda e consultar pela manhã e noite, mas o ideal é que façam isso por conta própria, sem necessidade de avisá-los.

         Ajudar as crianças a terem ordem no espírito e se libertarem do individualismo e egocentrismo ao doar ou emprestar brinquedos, visitar um parente idoso, no final da aula apagar a lousa para os que venham depois… A partir dos 6 anos podem “Colocar-se no lugar do outro” a fim de compreender seus sentimentos e dificuldades. O sentido de amizade e de companheirismo cresce, como também o de justiça e generosidade: ajudar os irmãos e companheiros em suas dificuldades escolares; assumir mais tarefas familiares, cooperar na vida social ao ajudar conseguir brinquedos para um orfanato…

         Cadeias de eventos são ações repetidas por encadeamento lógico, que exigem pouco esforço para serem praticadas ou recordadas, e ajudam a criança a ter rotinas: ao retornar da escola, saudar os pais, pendurar uniforme, colocar a cochila no lugar, lavar as mãos, ir à cozinha e sentar-se para fazer a refeição. Cadeias de eventos também são práticas para os hábitos de higiene, seja na hora de se levantar ou dormir: ir ao banheiro, lavar-se, escovar os dentes, vestir-se; à noite, preparar o material escolar para o dia seguinte. Guardar os brinquedos ao terminar a atividade; deixar de brincar quando a mãe chama para as refeições…

    3 – A educação da ordem nas diferentes idades

         De acordo com a idade de cada filho, exigir determinadas tarefas: ao terminar o dia, deixar a sala ou quarto ordenado; apagar as luzes quando não são necessárias (virtude da pobreza); deixar as roupas penduradas para que não amarrotem; colocar no cesto a roupa suja para lavar (crianças com 1 ano e meio levam suas fraldas sujas até o lixo); A partir dos 6 anos, cuidar dos livros, cadernos e o material escolar (manter apontados os lápis); lavar os tênis e material esportivos depois de ter usado; fechar com cuidados as gavetas e as portas dos armários; deixar cada coisa no seu lugar ao terminar uma tarefa; começar a utilizar agenda para os compromissos familiares, escolares, sociais; respeitar os horários de estudo e de encargos familiares; ter hábitos de higiene.

         Para evitar que os pré-adolescentes e os adolescentes fiquem sem saber o que fazer no fim de semana e percam tempo, no início da semana ajudá-los a planejar o que farão no sábado e domingo: esporte, visitar um amigo, consertar algo que se quebrou na casa, limpar o quintal, programar um vídeo cultural, convidar amigos para almoçar em casa, visitar um museu…

    1 a 3 anos de idade

         A educação da ordem começa com a própria vida da criança, que necessita de ordem e estabilidade no ambiente familiar. Desde que são bebês se pode regularizar os horários de comida, as horas de sono, os passeios, brincadeiras, etc. O período sensitivo da ordem tem sua máxima intensidade entre 1 e 3 anos, porque se aprende rapidamente qual é o lugar de cada coisa.

         É fácil fazer a criança se acostumar a ter seus brinquedos e roupas no mesmo lugar, e ela manterá essa ordem com a satisfação de um jogo a mais. Todas as crianças têm nessas idades o instinto-guia da ordem, e reforçar essa tendência natural ajudará a que adquiram a hábitos de serem organizadas. Esse instinto se nota por várias atitudes: gostar de dormir na mesma cama, sentar-se na mesma cadeira, utilizar o mesmo prato e copo. Ao brincar de esconde-esconde, a criança tem um sentido diferente dos adultos: esconder-se para ela não consiste em desaparecer (ela sente isso como uma desordem), mas estabelecer um lugar onde possa ser encontrada pelos pais, e sentirá alegria ao ser achada ali. Se a mãe se esconder em local diferente do anterior, ela ficará desconcertada. O mesmo ocorrerá ao colocar seus brinquedos em locais diferentes, pois ela não sentirá alegria ao encontrá-los fora do lugar habitual. Se a criança vive em ambiente ordenado, e se é ajudada nesse aspecto, ganhará tal hábito para toda a sua vida.

    3 a 6 anos de idade

         Não cabe falar em valores morais para crianças nessas idades, mas em hábitos bons que se converterão em valores ou virtudes quando elas atingirem o uso da razão, por volta dos 6 ou 7 anos. Mas para isso, devem ter adquirido antes hábitos de ordem. Nos primeiros anos a aprendizagem se realiza por imitação e repetição, sendo que o exemplo dos pais é fundamental. É muito importante ganhar a batalha da ordem antes da entrada da adolescência, para facilitar que sejam ordenadas nessa nova etapa.

         Pôr limites às atividades da criança para que compreenda que seu desejo não é absoluto. Assim, aprenderá a ter autocontrole e vencerá caprichos e formará o caráter. Deve encerrar a brincadeira para respeitar os horários da casa, obedecer e aceitar as regras dos jogos que participa, compartilhar seus brinquedos, dizer a verdade, resolver sozinha seus pequenos impasses.

         Até os 6 anos necessita viver a ordem material ao se acostumar a colocar cada coisa no seu lugar e manter tudo limpo. Deve ser claro o lugar de cada objeto, e para isso pode-se dispor de uma caixa, gaveta ou estante de pouca altura. Incentivar que coloque as roupas no cabide e as pendure num armário ao seu alcance (dar motivos para não deixar as roupas fora de lugar: sujam, amarrotam, fica difícil de encontrá-las…).

         Quem se habituou a viver no caos entre 1 e 5 anos terá dificuldades para ser ordenado. Mas se de 1 a 5 anos habituou-se a organizar os brinquedos e roupas, a partir dos 7 anos terá mais facilidade de passar da ordem material para a ordem na cabeça: organizar e distribuir o tempo nos dias da semana para atender as tarefas familiares, escolares, sociais; saberá prever o necessário para um passeio ou excursão; irá planejar-se para cumprir um encargo ou fazer uma visita cultural no fim de semana.

    6 a 12 anos

         É a maturidade da infância; educação primária. Esta é a idade de ouro da educação das virtudes e dos valores. É um período ótimo para educar certos hábitos intelectuais e de conduta que irão influenciar a vida futura. Se os pais educarem com eficiência entre os 6 e 12 anos, ver-se-ão livres da maior parte dos problemas que surgem nos anos críticos da adolescência (13 aos 18 anos).

         A maior parte dos sentimentos se desenvolve antes dos 8 anos, sendo necessário ajudar a criança a identificá-los, julgá-los e corrigi-los. Por exemplo, invejas, antipatias, insolidariedade, indiferença ante a dor dos demais, preguiça etc., são sentimentos que podem surgir, mas que devem ser retificados. É importante que a criança, com a ajuda dos pais, identifique e corrija tais sentimentos até superá-los.

         Com uso da razão, as crianças não precisam imitar o conceito de ordem dos pais, mas devem desenvolver a sua ordem de acordo com critérios próprios: por tamanho, cor, altura… Peçam que expliquem o sistema de ordenar que adotaram para que notem a importância disso, e racionalizem sobre o lugar mais adequado para cada coisa.

         A partir dos 7 anos compreenderão os motivos dos bons hábitos que adquiriram desde a infância. Para haver virtudes é preciso atuar com consciência e liberdade: − Eu sei o que é ser ordenado e quero isso para mim! É o momento de propor desafios que suponham para eles um pequeno esforço, apoiando-se no sentimento natural de agradar, de ser úteis e se sentir valorizados. Não resolvam tudo para eles: que busquem as respostas às suas curiosidades sobre a rotação da terra, onde fica determinado país, que significa tal palavra, o que são as abelhas operárias… Aliás, aproveitar o interesse por determinados temas e dar livros ou baixar pequenos artigos da internet sobre o assunto, ajudará a que criem hábitos de leitura.

    13 a 18 anos

         Chegou o momento da educação secundária ou ensino médio. Estão agora na plena adolescência, e ocorre uma transição da personalidade com a maturidade afetiva e intelectual. Os hábitos adquiridos anteriormente serão importantes para a formação comportamental destes anos. Os jovens nessas idades buscam um sentido da vida: para que viver? São radicais − oito ou oitenta, como se diz − e inimigos dos meios termos: querem para valer ou não querem. Junto com esse radicalismo, se sentem insatisfeitos quando são incoerentes com os princípios e valores que assumiram. E típico dessas idades a atitude crítica, porque desejam pensar por conta própria e conquistar a sua liberdade. Tudo põe em tela de juízo: aceitarão ou não as ideias alheias, ainda que eles mesmos não estejam seguro do que pensam ou querem.

         Objetivos: conseguir que raciocinem moralmente (certo ou errado, bom ou mau, e não pelos sentimentos), para analisarem com critério os acontecimentos, pessoas ou situações em que estão implicados. Decidir com responsabilidade e por conta própria, cumprir com a palavra dada, perseguir projetos magnânimos de serviço aos demais, são ideais que os pais devem fomentar. Que não tenham medo de se manifestar como são e de lutar contra seus defeitos, nem de reconhecer suas qualidades para terem autoestima e colocá-las ao serviço dos demais. Fomentar a participação social e o afã por influenciar positivamente na sociedade, com espírito de serviço: podem ajudar ONGs a distribuir alimentos, dar aulas para crianças carentes, etc…

    4 – Virtudes relacionadas com a ordem

         Sinceridade: é a ordem interior de dizer e amar verdade, e que faz sentir-se mal com a desordem da mentira. Os filhos entram no período sensitivo dessa virtude a partir dos 3 anos, e vivem isso mais intensamente a partir dos 7 anos. Ajudá-los a formar critério sobre a importância da verdade, pois a mentira deforma o caráter (leiam o Pinóquio, que se via deformado cada vez que mentia). A educação da sinceridade ajudará a que os filhos sejam mais exigentes ao escolher seus amigos, pois a mentira é incômoda e incompatível com a confiança que deve reinar entre amigos.

         Sobriedade: visa ordenar as tendências instintivas para que os bens materiais não ultrapassem seus limites. A sobriedade tem importância grande, pois somos constantemente instigados a ter mais coisas que as necessárias: bastam 5 minutos diante da TV para se ver tentado a comprar algo. Os filhos devem aprender a viver sobriamente, sem lastros de muitas camisas de esporte, vários tênis e chinelos, brinquedos: tem mais quem precisa de menos!

    5 – Educação da inteligência, vontade e afetos

         Ajudar a criança a pensar por conta própria ao fazer perguntas, a fim de que ganhem critérios de conduta e não fiquem passivas e no aguardo de que digam como agir. Em clima de diálogo, os pais devem oferecer pontos de apoio para que ela encontre por si mesma o melhor modo de proceder: − O que você irá fazer agora? (que a criança pense ou vá ao quadro dos horários e diga). Ao vestir a camisa do avesso: − Acha que está bem a camisa assim? Se no meio da semana o garoto combinou com um amigo da escola que iria ao aniversário dele no sábado, e ao chegar esse dia decide ir jogar futebol com os colegas do condomínio, é importante que os pais deem elementos para que compreenda a importância de cumprir com a palavra dada, a fim de ser leal ao amigo a quem se comprometera.

         Uma vontade bem-disposta, motivada, é chave da educação. Não basta que a inteligência indique o que fazer, mas é necessário ter força de vontade para agir de acordo com o decidido. A vontade se fortalece pelo esforço de fazer o que se deve em cada momento. E isso não se consegue com um ato isolado porque para ganhar uma virtude se exige a repetição de atos de modo livre e consciente, estejam ou não os pais presentes. Até os cinco ou seis anos a criança ainda não tem a razão desenvolvida para agir conscientemente, mas fará as coisas por carinho e para agradar os pais, ou pelo gosto de fazer, tal como num jogo e, assim, ganhará o hábito de ser ordenada, que se transformará em virtude quando compreender as razões e agir por vontade própria, a partir dos sete anos.

         Junto com o cultivo da inteligência e da vontade, é necessário ordenar a afetividade para que esta apoie o que foi decidido, mesmo que isso custe sacrifício ou renúncia. Os afetos ou sentimentos são irracionais e não devem ser os reitores da conduta. Mas se estão ordenados pela inteligência, aportam energia para cumprir o dever: faz melhor quem coloca sentimentos naquilo que faz. Mas se os sentimentos são contrários ao dever, então deve-se contrariá-los.

    6 – Adolescentes consumistas

         Assim, crianças hiperprotegidas, a quem seus pais não negam nada e consentem hábitos consumistas e caprichosos, terminam por ser pessoas egocêntricas, escravas de sensações momentâneas, sem recurso para manter a atenção em algo durante muito tempo; são incapazes de comprometer-se, de ajudar, de servir, de amar, de abraçar ideais que custam sacrifícios (por exemplo, entrar numa universidade pública).

         Há pais que não compreendem por que seus filhos são uns molengões, e não percebem que os criaram para serem assim:  permitiram que tivessem televisão no quarto, compraram tudo de marcas caras e da moda, deram demasiadas coisas a eles (computador, celular, equipamentos de música, todo tipo de jogos, roupas esportivas), tudo ganho sem esforço. É fácil explicar o motivo pelo qual seus filhos têm tão pouca vontade e sejam tão influenciados e pouco donos de si mesmos, e mal suportam uma dor de cabeça ou alguma incomodidade. Filhos sempre com dinheiro para comprar as guloseimas e sanduiches que quiseram, que passaram muitas horas diante da TV e ficaram passivos, sem imaginação criadora e sem outras ambições de que ficar frente as telas, e por isso deformaram a consciência para a compreensão da sexualidade, namoro, família, casamento, servir com a profissão…

         É importante analisar como a família vive a temperança, que se dá por meio da ordem e cuidado com as coisas pessoais, não acumular objetos, dar pouco dinheiro para aprender a administrá-lo e a poupar; em ajudar cada filho a refletir o motivo de seus gastos, se compadecerem pelas pessoas necessitadas. Ter paciência e bom humor ao educar. Insistir uma e outra vez. Não jogar a toalha de lado e abandonar o ringue. Às vezes parece que as crianças nunca farão como os pais ensinam. Porém, de um momento para outro, e como num passe de mágica (não foi por mágica, mas fruto da paciência e insistência carinhosa), irão notar que elas começam a agir de acordo com a educação recebida. Com calma, paciência e bom humor se vence a batalha da formação.

         Não se trata de negar sistematicamente tudo o que os filhos desejam, mas trata-se de ajudá-los a distinguir o que é necessário e o que é supérfluo; a criar os próprios brinquedos com embalagens; a não se deixar aliciar por modismos ou marcas… Comprar tudo que agrada pode parecer uma manifestação de liberdade e poder, mas quando se cai na conta, vê-se dominado, escravizado pela tendência de possuir (certa jovem tinha 300 pares de sapatos porque não controlava seu impulso de adquiri-los quando os achava “bonitinhos”).

         As crianças se converteram em importantes consumidores. Um estudo francês diz que 43% das compras familiares são provocadas pela influência das crianças. Por outra parte, a pressão social cria famílias permissivas, com pais que não se atrevem a exigir dos filhos, porque se assentam em bases sentimentais, e para evitar tensões e enfrentamentos com os filhos renunciam educar em valores morais objetivos.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base na da obra “Virtudes Humanas”, de José Antonio Alcázar e Fernando Corominas, Coleción Hacer Família, Ediciones Palabra, Madri, España; e José Luis Illanes, em texto publicado no site https://www.collationes.org