Categoria: EDUCAÇÃO

  • A criança e a mentira

    A criança e a mentira

    1 – O que é a mentira? 2 – A mentira nas crianças pequenas. 3 – A mentira na adolescência. 4 – O clima de confiança incentiva dizer a verdade. 5 – Não dramatizar se seu filho mentiu. 6 – Evitar punições ou castigos diante de uma mentira. 7 – Iniciativas que ajudam abordar o tema da mentira com as crianças

    1 – O que é a mentira?

        Verdade é a adequação entre a mente e a realidade, diz a definição clássica. Portanto, a mentira consiste em pensar uma coisa diferente da realidade, com a intenção de enganar. Parece mais fácil ocultar a verdade do que enfrentar suas consequências. A mentira surge como atrativo para mudar a realidade e buscar benefício próprio. A gravidade da mentira é medida pelas consequências que produz. O poder da mentira faz com que existam mitômanos ou pessoas que mentem compulsivamente para construir um mundo irreal com suas próprias falsidades, o que pode trazer até consequências psicóticas porque faz perder a referência da verdade. Distorcer, aumentar ou diminuir a realidade; dissimular uma situação, não fazer o que se diz, prometer o que não irá cumprir, utilizar-se de ambiguidades para confundir, ocorrem como meios para fugir de responsabilidades, evitar punições, ficar bem com os demais, auferir ganhos, entre outras motivações.

        A veritas é a virtude baseada na tendência de manifestar-se como se é, ou manifestar-se sobre a realidade tal como ela é. Essa virtude faz parte da autenticidade que deve iluminar qualquer pessoa; autenticidade que é contraposta ao artificialismo da mentira, pois reflete coerência própria da luz da verdade, e está ligada à autorrealização humana, que só ocorre quando a ação é moralmente boa. Os pais devem educar as crianças desde pequenas para que sejam autênticas, verazes, pois seus filhos, quando forem adultos, saberão dizer um não bem grande à corrupção e ao ganho fácil e desonesto.

    2 – A mentira nas crianças pequenas

        Assim como os adultos, as crianças podem mentir por diversas razões: não desapontar os pais, conquistar algo que desejam, fugir das responsabilidades, chamar a atenção para impressionar, evitar castigos. Também podem mentir para demonstrar desejos ou algo que as incomodam. Observar se a mentira da criança é intencional ou não. Depois, procure compreender se os motivos que a levaram a distorcer os fatos foram a angústia, frustração ou medo. Isso não significa que você é conivente com a mentira, mas que pretende conversar de maneira franca sobre as consequências da mentira, porque isso é fundamental para o desenvolvimento da personalidade da criança, que precisa aprender desde cedo que a mentira é indesejada, seja qual for o motivo, e para que esse defeito não se torne recorrente. Mesmo que, por vezes, a situação pareça cômica, deixar claro que mentir é errado, que prejudica a quem conta e aos demais, além de abalar a confiança e afetar o relacionamento.

        Até a idade de 5 ou 6 anos, a mentira da criança pode representar uma certa confusão entre realidade e imaginação (ou fantasia), e a imaginação se torna tão viva que a criança chega a falar consigo mesma ou manter diálogos com amigos imaginários: tudo isso faz parte do desenvolvimento do pensamento. Após os 6 anos as fantasias começam a rarear. Aos 7 anos a criança já tem consciência do que é verdade ou mentira, sendo esta, portanto, intencional. Então, precisa ser relembrada que a mentira prejudica os outros e trai a confiança que depositam nela. Entre 7 e 8 anos, a criança vive um período de ostentação e autoafirmação, e ao desejar ser a melhor em casa e na escola pode mentir em algo. A partir dos 10 anos, a mentira surge comumente para fugir de responsabilidades.

    3 – A mentira na adolescência

        Mentiras na adolescência preocupam mais porque nesta idade a consciência e o querer da vontade estão mais desenvolvidos. Mas isso não significa que o adolescente seja um mentiroso compulsivo: apenas vive intensamente e tem dificuldade para lidar com as frustrações, e porque não quer decepcionar. Por vezes, quer guardar algum segredo para preservar a própria intimidade ou conquistar independência: pode não contar que foi à casa de um amigo que os pais não consideram boa amizade, a fim de afirmar sua autonomia.

        Mesmo que compreenda a diferença entre verdade e mentira, isso não é suficiente para impedir que o adolescente não diga alguma inverdade para impressionar. Se ele planeja algo que parece ousado demais, dizer simplesmente um “não” é pouco razoável: reflita com ele sobre as razões que tornam seu plano inconveniente.

    4 – O clima de confiança incentiva dizer a verdade

        O modo como os adultos dizem as coisas podem influenciar a imagem e a estima que a criança tem de si, e isso pode afetar-lhe o caráter e a personalidade de forma positiva ou negativa. Há forte conexão entre o modo como a criança se sente e como se comporta: se a chamam de mentirosa, poderá sentir que não há outro remédio senão seguir por essa via; se é admirada e respeitada, agirá tendo presente esses valores. Fomentar a autoestima do filho torna-o seguro de si, e sem necessidade de mentir para se autoafirmar: ressaltar à criança que as pessoas verazes são mais estimadas.

        Nunca rotule de mentiroso seu filho, porque este não é seu modo habitual de ser. Demonstre confiança nele, que não é um mitômano, e considere a mentira como um incidente passageiro ou gafe que ele deve retificar. Se o filho reconheceu que mentiu, valorize esse fato.

        Os adultos têm um papel importante para educar a criança na verdade e honestidade, ao deixar claro desde muito cedo que falsidades e pequenos furtos nunca serão aceitos. A criança pode mentir porque observa o comportamento dos adultos, que são modelos ou espelhos para elas. Mentiras leves também são um mau exemplo: dizer para a esposa que você não está em casa, a fim de não atender o telefone, é mentira; se você riscou o móvel da casa e pediu para a criança não contar isso à mãe, é outra falsidade. Pais que mentem terão filhos mentirosos.

        A verdade nem sempre é boa de se ouvir, mas não há outro remédio. Esteja preparado para entender o que de fato aconteceu, tendo presente que todos somos capazes de cometer desatinos, se não contarmos com a ajuda de Deus e dos demais, pois assim seremos compreensíveis com os erros dos outros. Entenda por que a criança mentiu: medo, frustração, fantasia, chamar atenção. Depois, acolher a criança com respeito e explicar a ela que não agiu corretamente.

        O clima de confiança faz a criança se sentir confortável e sem medo de contar a verdade. Conversar muito com os filhos e criar momentos lúdicos em família, como brincar com eles, assistir juntos desenhos ou filmes infantis e ler antes de dormir, ajudam a criar um clima de confiança e de empatia que evitam mentiras para impressionar os pais.

        Não minta para as crianças! Para construir uma relação de confiança, os pais devem ser verazes: se não pretendem comprar algo que a criança pede, não diga que “na volta farão isso”, a fim de que ela esqueça o pedido, e sabendo que não comprarão. É melhor informar que a compra não é necessária, e que deverá aprender a esperar por outra ocasião: Natal, aniversário ou outra festa.

        Não invada a intimidade da criança quando ela não se sente à vontade para tratar determinados assuntos. Por vezes, é melhor mostrar-se acolhedor e deixar-se enganar uma ou outra vez a fim de demonstrar confiança para com a criança que, se mentiu, ficará dolorida por ter traído a confiança que os pais depositam nela.

    5 – Não dramatizar se seu filho mentiu

        Se você flagrou seu filho contando uma mentira, tente manter a calma. Embora o adolescente não seja mais uma criança, ainda é um ser humano em formação. Portanto, cuidado com suas reações ao ouvir uma mentira. A criança poderá se sentir insegura e amedrontada se os adultos ficarem nervosos ou agitados, e terá mais dificuldade para assumir a mentira. Não é preciso aceitar as mentiras dos filhos, mas reajam com calma. Se os nervos estiverem à flor da pele, dê um tempo e fale mais tarde ou no dia seguinte que foi errado o comportamento do dia interior, e que se tivesse dito a verdade não precisaria temer nenhuma reação ruim.

        Conversar sobre o motivo que levou a mentir torna-se ocasião para dialogar. Fuja de frases do tipo “você falhou comigo” ou “não vou confiar mais em você”, muito próprias para o teatro de melodramas. Faça a criança ver que se tivesse dito a verdade seria ajudada a consertar o erro.

        Não crie armadilhas para contradizer a criança: ao perceber que ela está mentindo, fale abertamente sobre o assunto. Se os pais sabem que o filho não fez a tarefa da escola, em vez de perguntar se fez a lição, perguntar sobre o motivo de não ter feito. Se a criança de 4 a 5 anos traz da escola um objeto diferente e afirma que ganhou ou achou, confirmar a realidade do fato e, se retirou da carteira escolar de alguém, dizer que aquilo não pertence a ela, e que deve devolver no mesmo lugar. Se tiver dúvida sobre a história da criança, peça para contar de novo horas mais tarde e compare as versões.

        Os pais conhecem bem os filhos e logo percebem se estão mentindo: não finja que não percebeu, mas faça um comentário enaltecendo a imaginação fértil da criança, que perceberá ter inventado a história. Um garoto ao retornar da escola contava fatos irreais que afirmava ter realizado. Os pais, que não queriam chamá-lo de mentiroso, combinaram entre si e com o filho que diariamente, durante o jantar, cada um – pai, mãe e filho – contaria um fato ocorrido durante o dia, e uma história inventada. E assim faziam todas as noites. E quando a criança retornava da escola e contava algo fantasioso, perguntavam se a narrativa fazia parte das inventadas. O garoto pensava em silêncio e respondia que era das inventadas, e assim foi se corrigindo sem nunca receber a pecha de mentiroso.

    6 – Evitar punições ou castigos diante de uma mentira

        Muitas crianças acham que a mentira vale a pena porque pode evitar um castigo ou repreensão. O clima de medo é prejudicial. Caso os pais descubram a verdade, não usem de violência, não gritem, não percam a cabeça. Conversem sobre as consequências da mentira; expliquem que a pessoa mentirosa quebra a confiança que nela se deposita, que magoa as pessoas. Dar à criança a oportunidade de corrigir o erro, de reparar a injustiça que fez, é mais eficiente do que aplicar um castigo, além de contribuir de maneira positiva para o amadurecimento emocional da criança.

        Não seja um fiscal rígido que impossibilite o diálogo com os filhos. Talvez ele tenha mentido para não envergonhar-se ou envergonhar os pais. Quanto mais punitivo forem os pais, maior é a chance da criança ou adolescente mentir para não ser punido, e não aprenderá com os próprios erros. Ao invés de punir, escute-o, compreenda o motivo da mentira e explique com exemplos as consequências das inverdades, que sempre têm pernas curtas. Ressalte os benefícios da sinceridade e os prejuízos da insinceridade na formação do caráter e da personalidade.

    7 – Iniciativas que ajudam abordar o tema da mentira com as crianças

        Assistir com os filhos filmes que revelam como a mentira é destrutiva. Muitos roteiros são construídos a partir de uma inverdade que enreda e afunda os personagens em espiral negativa, sendo que o remédio teria sido dizer a verdade. Livros também ajudam abordar o tema da mentira, e são uma ótima ferramenta para ensinar valores e modelos de conduta de uma forma lúdica. A leitura auxilia na introdução de temas espinhosos quando não se sabe por onde começar. Leiam para as crianças pequenas, e depois conversem sobre como agiu a mentira na história. Se a criança souber ler, proponha uma leitura individual e depois reflita com ela sobre o livro.

        Sugestões de leituras: “A verdade segundo Arthur”, de Tim Hopgood. Arthur resolveu fazer o que sua mãe havia proibido: dar uma volta na bicicleta de seu irmão mais velho, e acabou riscando um carro estacionado na frente da casa. Para fugir da responsabilidade inventou uma série de histórias fantásticas que não convenceu ninguém.

        “Pig, o Travesso”, de Aaron Blabey. Trata-se de uma fábula onde o cachorrinho egoísta,  malcriado e ganancioso conta mentiras e vive culpando Tobias, um cão da raça salsicha, fiel e paciente amigo que não desiste de buscar algo de bom no Pig.

        “Pinóquio”, de Carlo Collodi. É clássica a história do boneco de madeira que queria ser um menino de verdade. Suas mentiras fazem o nariz crescer, o que demonstra o poder deformante da mentira. A história é para crianças de todas as idades.

        “O menino e o lobo”, de Esopo, é fábula onde um menino cuidador de um rebanho de ovelhas, que se divertia ao alarmar os moradores da vila ao mentir que seu rebanho estava sendo atacado por um lobo, a fim de que viessem acudi-lo. Certo dia, porém, o rebanho realmente foi atacado, e o menino gritou por ajuda, mas ninguém veio, pois julgavam que se tratava novamente de uma mentira.

    Texto elaborado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/

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  • Os pais e o rendimento escolar dos filhos

    Os pais e o rendimento escolar dos filhos

    1 – O estudo é o trabalho profissional do estudante. 2 – Algumas características do bom aluno. 3 – O ambiente familiar influi nos estudos dos filhos. 4 – Atitudes recomendadas aos pais. 5 – Relações dos pais com os preceptores dos seus filhos.

    1 – O estudo é o trabalho profissional do estudante

         Sendo o estudo o trabalho profissional que o estudante deve realizar, e porque espera-se que todo profissional faça com perfeição o seu trabalho, não se pode desejar menos do estudante, pois será por meio desta tarefa que ele crescerá em virtudes humanas como fortaleza, constância, autodomínio, sentido de responsabilidade e espírito de solidariedade ao contribuir com seus esforços para o bem de todos. Portanto, os pais devem alentar os filhos a dar verdadeiro valor ao estudo: 1) Ter um motivo transcendente para estudar (ajudar aos demais); 2) Desenvolver as capacidades e virtudes pessoais que o estudo requer; 3) Adotar procedimentos ou métodos que façam render o estudo; 4) Ter bom clima ou ambiente familiar que fomente o estudo.

       Fazer os filhos estudarem não é fácil, pois alguns não têm vontade de fazê-lo porque são inconscientes da importância do estudo, e se deixam vencer pela preguiça e comodidade; outros encontram dificuldades porque não aprenderam como estudar e não possuem um plano ou método de estudo.

    2 – Algumas características do bom aluno

        Pais e educadores devem estimular os adolescentes e jovens não apenas tirar boas notas escolares, mas a crescerem como pessoa ao dar ao estudo um motivo transcendente, que é ajudar aos demais com as próprias qualidades desenvolvidas com esforço. Estudar não consiste em acumular informações ou receber passivamente algo elaborado, pois tal comportamento esconde preguiça mental, ausência de profundidade e desconhecimento dos verdadeiros motivos para estudar. Aprender não se limita a repetir conceitos de modo mecânico, mas em expressar com as próprias palavras o real significado do aprendizado, pois o estudo não deve ser passivo e sem o esforço da reflexão e da crítica pessoal. As disciplinas oferecidas pelos professores são necessárias, mas o aluno deve aprender a trabalhar os conteúdos para elaborar um saber com ideias próprias. Esta postura, que filtra as informações recebidas, desenvolve o raciocínio e facilita o espírito crítico para distinguir a verdade do erro.

        A experiência mostra que o bom aluno não é o que tem boas notas, mas possui péssimo caráter e um temperamento que torna difícil a vida dos pais, professores e colegas: memorizar livros e apostilas bastam para tirar boas notas, mas não para formar uma pessoa íntegra. É verdadeiramente bom aluno aquele que ao interiorizar o aprendizado cresce em virtudes humanas para melhor servir aos demais (motivação transcendente).

    3 – O ambiente familiar influi nos estudos dos filhos

         Qualquer aluno necessita encontrar em sua família um ambiente acolhedor, otimista, harmonioso, disciplinado e que respeita o silencio para o estudo. Para isso, é necessário criar um ambiente propício ao estudo ao manter a televisão desligada; determinar horários fixos para as refeições, bate-papos familiares e momentos de descanso, a fim de não criar ocasiões de distração e indisciplina que prejudica a continuidade dos estudos fora da escola.

         O estudo dos filhos é influenciado positivamente por: 1) Fatores pessoais: capacidade mental que pode ser aumentada pelo esforço, vontade forte para não se deixar levar pelo mais cômodo (responsabilidade), adquirir a virtude ou hábito de estudo, possuir um método de aprendizado; 2) Fatores ambientais: fomentar um clima familiar propício ao estudo e à cultura familiar (ler o boletim Promover a cultura na família), combinar os horários para as atividades de descanso e lazer.

         Nas lições do grande pedagogo espanhol Victor Garcia Hoz, a família é determinante para o comportamento das pessoas, e isso se comprova por meio de pesquisas que revelam como a deterioração da vida familiar e a delinquência juvenil estão fortemente ligadas. O ambiente familiar afeta consideravelmente a pessoa, tanto para o bem quanto para o mal. A falta de afeto, carinho e diálogo repercutem de forma negativa no comportamento dos filhos, e no rendimento escolar destes. Enganam-se os pais que não distinguem entre quantidade e qualidade de tempo que dedicam aos filhos: estar na mesma sala com os filhos, mas com a atenção voltada o tempo todo para a TV, não significa estarem juntos. Os pais devem ser os melhores amigos dos filhos, e isso se consegue com o diálogo e o interessar-se pelas coisas deles.

        A relação paternal-filial quando não é boa faz surgir comportamentos ruins nos filhos. Quando um aluno começa a se apresentar deprimido, incapaz de se concentrar ou fixar a atenção nas aulas; quando se torna revoltado, desanimado, quieto e isolado, é quase certo que há desavenças no ambiente familiar. Os atritos constantes entre os pais ocasiona consideráveis prejuízos à educação dos filhos: afetam sua segurança, causam ansiedade, falta do estímulo para o estudo e o baixo rendimento escolar, trazem problemas psicológicos, complexos e revoltas. Por vezes, o mau comportamento de não estudar pode ser uma arma ou recado do filho: “Não estou satisfeito com as brigas de vocês, que devem se entender melhor para se amarem mais”. Só um clima do diálogo soluciona os diversos problemas do dia a dia de uma família. É importante que os pais detectem o motivo que tornou difícil a convivência no lar: problemas financeiros se contornam com o tempo e iniciativas entre todos; já os problemas de relacionamento exigem a humildade de não permitir atitudes de soberba e orgulho que conduzem à falta de perdão e ao distanciamento que envenenam a vida familiar.

        Os pais devem se esforçar para melhorar a si próprios continuamente, e isso se consegue por meio de propósitos simples e diários, praticados com bom humor e espírito esportivo (começar e recomeçar). O clima familiar depende em grande parte das atitudes dos pais, que possuem o desafio de dar exemplo ao buscar a melhora pessoal e não apenas a de seus filhos: Sêneca afirmou que “longo é o caminho com preceitos, mas breve e eficaz com exemplos”. Portanto, antes de exigirem que os filhos sejam melhores como pessoas ou como alunos, os pais devem dar-lhes exemplo ao procurar melhorar a si próprios, pois o bom educador vive primeiramente aquilo que ensina.

    4 – Atitudes recomendadas aos pais

            Os filhos valorizam muito o esforço e a dedicação dos pais à família. Esse bom exemplo é decisivo para que os filhos sejam melhores. Para formar bem os filhos, os pais devem primeiro formar bem a si próprios ao dedicar um tempo diário à formação pessoal: ler livros, assistir vídeos, participar de cursos e palestras sobre orientação familiar e educação do comportamento dos filhos. Depois, devem ter as seguintes atitudes positivas: 1) Valorizar não apenas as notas escolares dos filhos, mas também as virtudes ou bons hábitos deles; 2) Elogiar o esforço que fazem para melhorar como pessoas; 3) Assumir como pais a responsabilidade de serem os principais responsáveis pela formação dos filhos, e não deixar esse encargo à escola; 4) Estar atentos ao uso que os filhos fazem de celulares, tabletes e internet, dada as influências negativas de certos programas; 5) Interessar-se pelos vídeos e jogos que os filhos assistem, das amizades que possuem, dos ambientes que frequentam; 6) Ter como primeira preocupação a formação integral dos filhos, que inclui não apenas a educação da inteligência, mas a dos afetos e sentimentos para que melhorem como pessoas.

    5 – Relações dos pais com os orientadores dos seus filhos

        Os pais não devem limitar-se a pedir informações sobre as notas escolares do filho, mas também em fornecer dados concretos que venham facilitar o trabalho dos preceptores: como e quanto estuda o filho em casa, se aproveita ou não o tempo, as dificuldades mais frequentes que possui (tempo gasto em telas digitais para se divertir), como se comporta em casa com os pais e irmãos, que ambientes frequenta, quais as preocupações atuais do filho, que dúvidas apresentou aos pais e estes não souberam esclarecer, a que vídeos dedica tempo, se está namorando, se ajuda nos encargos familiares…

        A parceria com a escola será prejudicada se não comparecem às reuniões de formação dos pais, oferecidas pela como ocasião de aproximar conteúdos de orientação familiar para facilitar a missão de educar integralmente os filhos. Dentre os inúmeros afazeres que os pais possuem, devem ter presente que “No Colégio há três coisas importantes: primeiro, os pais; segundo o professorado; terceiro os alunos. Os nossos filhos – não vos ofendais – estão em terceiro lugar. Dessa forma andarão multo bem” (São Josemaria).

    Texto escrito por Ari Esteves com base em artigo impresso “Os pais e o rendimento escolar dos filhos”, de autor desconhecido. Imagem de Leeloo Thefirst

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  • O esforço na vida da criança

    O esforço na vida da criança

    1 – Não há fórmulas mágicas para substituir o esforço. 2 – A necessidade é mãe de todas as invenções. 3 – É ilógico ofertar às crianças o desnecessário

    1 – Não há fórmulas mágicas para substituir o esforço

        Com base no esforço e na exigência pessoal foram gestadas as grandes obras artísticas e científicas. Ao ler a biografia de Michelangelo, Gaudi, Pasteur, Jérôme Lejeune, Thomás Edison, entre muitos outros, se descobre que, com dor e sofrimento, dedicaram milhares de horas de intensos trabalhos às suas criações.

        Saber esforçar-se não vem de bate-pronto, mas de uma educação serena e persistente. É preciso que pais e educadores ensinem às crianças e adolescentes que não há fórmulas mágicas para o aprendizado sério. Para isso, evitar frases do tipo “aprenda divertindo-se”, “Não vai custar nada”, “Vai ser facinho…”. É bom critério educacional revelar às crianças que seus professores, músicos e esportistas que admiram gastaram muitas horas de aprendizado para dominar a matéria, instrumento musical ou técnica esportiva.

        Pais que reclamam da escola porque passa muita lição de casa transmitem aos filhos a mensagem de que não precisam se esforçar. Os filhos em casa devem substituir as horas gastas em mídias sociais por horas de estudo e de leitura de obras literárias, jogos de inteligência (xadrez, quebra-cabeça…), encargos ou tarefas para o bom funcionamento do lar, vídeos selecionados… A família que possui horários fixos para as refeições, dormir e acordar – os pais devem dar exemplo ao cumprir esses horários – criará uma disciplina que favorecerá o aproveitamento do tempo e o consequente crescimento humano e cultural de todos.

    2 – A necessidade é mãe de todas as invenções

        As crianças nascem com um desejo inato de conhecer, investigar e entender o mecanismo das coisas ao seu redor. Se o ambiente que as cerca é favorável ao aprendizado, elas desenvolverão seus talentos e habilidades. Porém, se o estilo de vida familiar oferta tudo à criança ou ao adolescente, antes mesmo de necessitar, satura-o de estímulos artificiais e torna-o passivo e consumista. Então, a criança passa de pequena empreendedora para grande consumidora, pois se afasta do desejo de investigar e de inventar. Um carrinho elétrico já vem pronto, e basta apertar o botão para que funcione; porém, criar um ônibus com a caixinha vazia de leite e transformar tampinhas de pet em rodinhas desse veículo, exigirá que o botão da criatividade esteja dentro da criança, e não fora dela. Já foi dito que “A necessidade é mãe de todas as invenções”. A criança começa a ser criatividade ao se esforçar para ter o que não possui, mas se já possui antes mesmo de necessitar, não fará falta ser criativa.

    3 – É ilógico ofertar às crianças o desnecessário

        É na escassez de recursos onde a inteligência, vontade, imaginação e memória são estimuladas a suprir as carências. Isso de ter o que todo mundo tem é ir a reboque de modismos e deixar o essencial de lado. As estatísticas da moda não devem decidir pelos pais, nem criar hábitos de consumo, se desejam educar bem. Introduzir o celular na vida da criança é fazer o que muitos pais infelizmente fazem, e desatendem com isso valiosos critérios educacionais. A lógica de ofertar à criança o que não é necessário tem que ser quebrada desde a infância, a fim de não formar adolescentes que justificarão todo tipo de necessidades porque querem imitar seus colegas. Um garoto de uma escola da periferia da Capital de São Paulo perguntou ao professor se era correto comprar um tênis de grife, porém falsificado. A necessidade de aparentar certa opulência surgiu nesse adolescente porque não foi educado para outros valores, como desprendimento dos bens materiais, autenticidade para apresentar-se modesta e sobriamente entre seus iguais, não se deixar influenciar pelas falsas necessidades criadas pela propaganda comercial… As crianças precisam de poucas coisas, sendo mais saudável que aprendam também a viver desprendidas daquilo que possuem, a fim de serem mais livres.

        O esforço é educativo e as crianças devem prová-lo desde cedo porque fortalece a vontade, faz descobrir as próprias limitações, torna-as pacientes e constantes, desenvolve nelas as capacidades e talentos naturais para melhor servir aos demais.

    O texto acima foi adaptado por Ari Esteves com base no capítulo “O esforço, a austeridade e a simplicidade”, do livro “Educar na realidade”, de Catherine L’Ecuyer, Editora Fons Sapientiae, 2019. A imagem do menino é de Paola Roxanna Nemek.

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  • Telas digitais X crianças

    Telas digitais X crianças

    1 – As telas produzem mais efeitos negativos do que positivos. 2 – Crianças pequenas aprendem interagindo com pessoas e não com telas. 3 – O excesso de telas torna a mente preguiçosa.

    1 – As telas produzem mais efeitos negativos do que positivos

        Catherine L’Ecuyer cita diversas pesquisas de cientistas e institutos americanos e europeus que revelam os problemas que as telas digitais vêm causando às crianças e adolescentes*. Diz que a Academia Americana de Pediatria recomenda que se evite telas até os 2 anos, por considerar que vários estudos indicam que elas produzem mais efeitos negativos do que positivos. Para crianças acima de 2 anos, a Academia recomenda limitar o tempo de exposição às telas a menos de duas horas por dia, tendo o máximo de cuidados com os conteúdos que assistem. Porém, esses critérios sanitários são colocados como regras mínimas e não de excelência educacional.

    2 – Crianças pequenas aprendem interagindo com pessoas e não com telas

        Para o bom desenvolvimento da personalidade, as crianças precisam, desde seus primeiros anos, de relações interpessoais com seu principal cuidador. O tempo passado no mundo virtual rouba das crianças as experiências humanas que deveriam ter. A tela se converte em obstáculo inclusive para a criação de laços afetivos. A criança que substitui as atividades reais pelas virtuais terá diminuído o seu bom desenvolvimento como pessoa em muitos aspectos: motor, cognitivo, comportamental e de relações com outras pessoas…

        As crianças necessitam vivenciar realidades concretas, e quando pequenas aprendem por meio de interações com humanos, e não com telas: precisam do olhar dos pais e dos professores para calibrarem a realidade. Imaginemos, por exemplo, que em uma sala de educação infantil entra um funcionário para substituir a lâmpada queimada, e ao subir na escada para trocá-la deixa cair a ferramenta e solta um palavrão. As crianças não olharão nem para a ferramenta e nem para o operário, mas para a professora. Se a professora não der importância, elas também não darão; se a professora franzir a testa, indicando que aquilo não se deve dizer, elas chegarão à mesma conclusão; se a mestra rir, elas farão o mesmo. E à noite, irão contar aos pais o episódio ocorrido na sala de aula, e adotarão as mesmas reações da professora, que neste caso foi a intermediária entre a criança e a realidade, dando sentido à aprendizagem. Uma tela não pode substituir o papel do cuidador, porque não faz a calibragem viva, real, da informação à criança. O déficit de realidade ou de aprendizagem ao vivo vem trazendo diminuição até no vocabulário dos bebês e no desenvolvimento motor e cognitivo destes. Há forte relação entre o acesso às telas durante os três primeiros anos da criança e os problemas de atenção aos sete anos.

    3 – O excesso de telas torna a mente preguiçosa

        Um estudo realizado ao longo de dez anos, estabeleceu relação entre o consumo de televisão por crianças de 29 e de 53 meses, com redução da motivação para aprender na escola, diminuição nos resultados de matemática, aumento das vítimas de assédio escolar e da massa corporal em crianças de até 10 anos. Outro estudo estabeleceu a relação entre o consumo de televisão por crianças de 5 anos com problemas de atenção e concentração aos 11 anos. Esses estudos indicam que os efeitos da televisão prejudicam não apenas crianças abaixo de 2 anos, mas perduram no tempo. As telas não vêm contribuindo para o bom desenvolvimento das crianças pequenas, pois as afasta do aprendizado vivencial que as realidades oferecem.

    *O texto acima foi adaptado por Ari Esteves com base no capítulo “Telas na primeira infância”, do livro “Educar na realidade”, de Catherine L’Ecuyer, editora Fons Sapientiae, 2019. Nessa obra, a autora indica dezenas de links e menciona vários artigos com as experiências científicas que lastreiam suas afirmações. O Autor do primeiro desenho (Crianças versus telas digitais) é David Plat.

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  • Criança necessita de limites

    Criança necessita de limites

    1 – A criança troféu se torna tirânica. 2 – Como conseguir que a criança obedeça? 3 – A criança deve aprender a conviver com a frustração. 4 – Não dar tudo o que a criança pede.

    1 – A criança troféu se torna tirânica

        Quando se deixa de considerar a criança como um presente, e se passa a considerá-la um troféu para ser exibido, logo ela se torna tirânica, ensina a educadora Catherine L’Ecuyer*. A criança troféu parece tão perfeita que não precisa ser corrigida para que continue sendo fofa, exibida e caprichosa. E para que ela não dê shows em público, seus pais, que possuem pouca autoridade, cedem a tudo.

        Cada vez é mais comum ver nas ruas crianças que pedem aos gritos, pois nunca lhes foi dito um “não” gordo e rotundo. Por conhecer bem as regras para manipular os pais, essas crianças se tornam mal-agradecidas, batem, gritam, quebram tudo, exigem determinadas roupas, só comem o que gostam, engolem saquinhos de guloseimas em segundos, abrem a geladeira quando querem, respondem mal aos adultos e não os olham nos olhos, e quando o fazem é com viés desafiador.

        Como consertar tudo isso? Pode-se começar por substituir os produtos de luxo por outros mais simples que incentivem a criatividade, menos celulares e mais tempo com a família, horas a menos de videogames e mais bicicleta ou brincadeiras com outras crianças, substituir as recompensas materiais pelo carinho, transformar as horas de televisão em passeios pelas praças arborizadas ou parques, trocar o barulho dos aparelhos pelo silêncio e a observação. Mas, acima de tudo, saber dizer “não” ao que se considera inconveniente à criança.

    2 – Como conseguir que a criança obedeça?

        Sim, é preciso respeitar a liberdade da criança, mas dentro de certos limites. Como conseguir que uma criança não tire o boné que foi colocado para protegê-la do sol? Colocando-o de novo. E se tirá-lo outra vez? Coloque-o novamente até que não o tire mais. Porém, se a criança já tiver idade para intuir as consequências de suas ações, dizer para ela: – Que pena, querido, não podemos ir ao parque porque você não quer usar o boné e faz muito sol. Como não queremos que você se queime, deixaremos para ir ao parque outro dia, se não fizer sol. Como conseguir que uma criança de três anos coma salada? Colocando salada na refeição dela. E se não come? Coloque-a nas seguintes refeições até que coma.

    – Filha, comece a limpar a sujeira que você fez! Havia dito que se tornasse a fazer isso, ficaria sem ver desenhos por dois dias.

        Antes de dois anos, aproximadamente, a criança ainda não tem capacidade de obedecer, sendo necessário tirar do alcance dela objetos perigosos e chamar a atenção cada vez que os toque. Ter presente que bebê não zomba, e afirmar ao contrário é fomentar a desconfiança entre ele e seus pais, o que intensificará a desatenção e fará surgir nele a necessidade de chamar a atenção. Os bebês quando choram ou se queixam, pedem a atenção dos pais para resolver suas necessidades básicas e afetivas. É necessário ajudá-los a regular seus hábitos de sono e de comida, por exemplo, mas sem que isso prejudique a necessidade que eles têm de serem cuidados, e sem cair no condutismo, que reduziria a relação com eles a meros sujeitos passivos programáveis por estímulos externos (prêmios e castigos), condicionando, assim, a forma deles agirem.

        A partir de dois anos, aproximadamente, a criança tem o vínculo de confiança consolidado com seus pais, quando estes atenderam suas naturais necessidades. A partir desse momento, a criança começa a ter capacidade de obedecer, sendo a ocasião de fazê-la compreender as consequências naturais de suas ações (como a de não querer utilizar o boné para brincar no sol). Assim, a criança começa entender uma das leis principais do mundo em que vive: somos livres para fazer o que queremos, mas não livres das consequências naturais que nossos atos provocam.

    3 – A criança deve aprender a conviver com a frustração

        O mundo não age necessariamente como queremos. A birra da criança de dois anos, por exemplo, nada mais é que uma consequência da frustração que causa a ela saborear a realidade de que “se o mundo não age como eu quero, então me aborreço para que seja como eu quero”. Se os pais cedem, reforçam a falsa esperança da criança de que o mundo transigirá sempre que ela quiser. Porém, ao não ceder os pais deixam claro que as ações têm consequências naturais, e que as pessoas não se comportam de acordo com os desejos da criança, ajudando-a, assim, a descobrir o que é a realidade. Quanto antes as crianças compreenderem isso, menos birras lançarão sobre seus pais.

        O mundo tem suas leis: o sol queima e, se não nos protegermos dele, nos queimamos, mesmo que não queiramos tal desconforto. Cada família vai encontrando seu jeito mais eficiente de funcionar, e pode valer-se das leis da natureza ou do comportamento correto: se para ir ao parque em dia ensolarado, a mãe diz que é para usar o boné, e a criança não o faz, simplesmente não se vai ao parque. Não é necessário guerrear nem chantagear ao oferecer prêmios de consolo. A consequência natural é não ir ao parque, a fim de que a criança entenda e assuma as consequências de seus atos. Se os pais fizerem isso sem dramatizar, mas com bom humor e de comum acordo, a criança os verá seguros e não irá manipulá-los com birras. Os pais possuem pouco tempo, mas devem saber que controlar a birra requer paciência, porque educar é um processo lento.

    4 – Não dar tudo o que a criança pede

        Na criança se encontra as sementes do conhecimento, o que a predispõe para pesquisar, comparar, saborear e manipular para conhece; Aristóteles dizia que elas também estão predispostas para adquirir virtudes. Mas, se estão saturadas de objetos de consumo, logo perdem a curiosidade e a capacidade de esforçar-se para chegar à excelência. O consumismo satura os sentidos e as potências da alma, e faz desaparecer o interesse por aprender e ser criativo; e quando a isso se soma a ausência de limites, é sufocada também a predisposição para as virtudes e a capacidade de se esforçar.

        Aristóteles, na Ética a Nicômaco, diz que a educação certa consiste em saber alegrar-se e sofrer pelas coisas que valem a pena, e que devemos ser educados para isso desde a infância. A invenção ou descoberta, que é a forma mais elevada de conhecer, surge de maneira natural nas crianças, porque elas possuem a tendência natural para a verdade, bondade e beleza. Mas essas capacidades não brotam no caos, no barulho contínuo, na saturação dos sentidos com imagens e na falta de limites e na indisciplina.  

        O que é bom demanda esforço. Miguel Cervantes dizia que “o caminho da virtude é muito estreito e o caminho do vício, amplo e espaçoso”. A criança mimada, paparicada, a quem não se coloca limites, terá a vontade fraca por lhe faltar as asas do esforço e da sobriedade. Ao contrário, a criança que conhece seus limites, será verdadeiramente livre, rica (tem mais quem precisa de menos) e imensamente feliz. Maria Montessori dizia que deixar a criança que ainda não desenvolveu sua vontade fazer o que quiser, é atraiçoar seu sentido da liberdade. Podemos entender essas palavras da genial educadora no sentido de que a criança a quem não se impõe limites, desenvolverá maus hábitos e se tornará escrava deles, já que a liberdade pressupõe o desenvolvimento das virtudes da temperança e do autocontrole, conseguidas mediante o esforço e o desenvolvimento de bons hábitos.

    *Texto adaptado por Ari Esteves, com base no capítulo “Ter tudo? Estabelecer e fazer respeitar os limites”, de Catherine L’Ecuyer, em seu livro “Educar na realidade”, Editora Fons Sapientiae, 3ª edição, São Paulo, 2016. Desenho de Michel Pereira (Instagram @michelvp.oficial); imagem de Anastasia Shuraeva

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  • Educar hoje é diferente

    Educar hoje é diferente

    1 – Despertar a curiosidade e a imaginação da criança 2 – Oferecer à criança materiais simples para que inventem suas brincadeiras 3 – Os pais devem educar com sentido profissional

    1 – Despertar a curiosidade e a imaginação da criança

        “As crianças de hoje, sobretudo as mais novas, não são como as crianças de gerações anteriores: elas são hiperativas, dispersas, têm dificuldades para estabelecer vínculos, demonstrar afeto e aceitar a autoridade, quer de pais, professores ou cuidadores. Falta-lhes despertar a curiosidade (el assombro), a imaginação e a motivação intrínseca, que as mobilizem para a descoberta do novo em busca de respostas às próprias indagações, até porque quase tudo lhes é dado pronto para evitar questionamentos e poupá-las de dissabores”, diz Maria Elizabeth Bianconcini de Almeida (PUC/SP)”, na introdução do livro Educar na curiosidade, de Catherine L´Ecuyer.

        A educação familiar e a escolar são desafiadas hoje a repensar o modelo mecanicista da nossa época, que marca ritos padronizados a que todas as crianças são submetidas por meio de métodos iguais impostos a elas, sem avalizar as condições e as necessidades de aprendizagem de cada uma. Cada vez mais as crianças deixam de aprender por descoberta e aprendizagem, que aguçam a imaginação e a inteligência. Ao dar a elas brinquedos ou aparelhos em que basta apertar o botão para ter tudo pronto, deixa-se de oferecer circunstâncias minimamente estruturadas para que elas possam ser criativas, conheçam os limites pessoais e aprendam a ter paciência ao não ter tudo o que querem atrás de um botão (importa que o botão esteja dentro de criança, e não fora dela).

        Outro erro educativo atual é a chamada hipereducação, que procura antecipar as etapas de desenvolvimento cognitivo, social e afetivo das crianças, a fim de criar “supercrianças” ou “Baby Einstein”. Com isso, o que fazem é retirar as crianças do entorno familiar, do contato prolongado com os pais, que são os únicos e mais eficientes educadores do temperamento, caráter e educação dos sentimentos dos filhos. A criança necessita estar em sintonia com o seu entorno, e não se prender a telas digitais horas a fio. Os pais devem fomentar jogos de inteligência (lego, xadrez, quebra-cabeça), colecionismo, entre outros; devem ensinar a criança a participar nas tarefas ou encargos para o bom andamento do lar, a ter horário para brincar, fazer as refeições, banhar-se, pois a disciplina familiar ajudará no desenvolvimento do autocontrole ao não se deixar levar apenas pelos caprichos de cada momento.

    2 – Oferecer à criança materiais simples para que inventem suas brincadeiras

        Ao receber materiais simples, a criança não viciada em telas digitais passa a desenvolver seus próprios brinquedos e diverte-se e aprende as normas de convivência ao brincar com outras crianças. O silêncio e a reflexão da criança ao ter nas mãos objetos simples – talvez embalagens vazias –, com os quais pensa no modo de interagir com eles, passa a desenvolver naturalmente suas capacidades motoras e cognitivas. Ao contrário, ao clicar botões de telas digitais, a quantidade de informações e de imagens que passam diante dos olhos da criança (há desenhos que mudam oito vezes de cena por minuto) impedem que que o cérebro as assimile e coordene, sendo o resultado o mesmo que a água sobre pedra, que não deixa rastro. Ao perguntar a um adolescente se recorda o que viu nas quatro horas que passou no celular dois dias atrás, não saberá responder. Ao contrário, se ele leu um conto, fábula ou aventura certamente recordará o conteúdo da narrativa e terá aprendido novas palavras, formas de expressão e colheu experiência para a sua própria vida, pois a leitura calma e serena das boas obras literárias penetra na alma.

    3 – Os pais devem educar com sentido profissional

        Os pais devem educar seus filhos com sentido profissional, e não como amadores. A pedagogia familiar é hoje uma ciência rica em conteúdo para a educação comportamental de crianças e adolescentes, pois baseia-se na experiência que aporta o método do caso. Para isso, sugerimos a leitura de obras mencionadas, por exemplo, em https://staging.ariesteves.com.br/livros/ e nos boletins à disposição nesse site, como também em lives de João Malheiros (jebmalheiros) e Samia Marsili, no Youtube, a fim de assumirem com eficiência a tarefa mais importante de suas vidas e o melhor negócio que possuem: a família.

    Texto produzido por Ari Esteves, com base no livro “Educar na curiosidade”, de Catherine L’Ecuyer, Editora Fons Sapientiae, São Paulo, 2016. Imagem de Andrea Piacquadio.

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  • Fazer da curiosidade uma aliada

    Fazer da curiosidade uma aliada

    1 – Há muitos modos de olhar para o mesmo fato. 2 – O olhar da curiosidade vã. 3 – Pensar bem antes de clicar o play. 4 – Frutos da temperança.

    1 – Há muitos modos de olhar para o mesmo fato

        Há muitas maneiras de olhar para o que nos rodeia. O fotógrafo e o pintor têm um olhar estético para a mesa ornada com muitos pratos, e tentará captar a beleza que a arte culinária orna a necessidade primária de alimentar-se. Já o glutão tem para a mesma mesa um olhar possessivo e empastado. As diferentes formas de apreciar a realidade manifestam como uma pessoa se relaciona com o mundo. Há quem passa diante de um jardim com os olhos grudados nas imagens do celular, e não percebe a beleza que ali reina entre plantas, flores, arbustos, pássaros, e mal sabe nomear ou identificar cada um desses seres.

        Ver a realidade de uma maneira nova exige desprender-se de si para não ver as coisas apenas do ponto de vista da utilidade que elas têm para o proveito próprio. O olhar contemplativo longe está de ser egoísta ou possessivo porque, transfigurado pela virtude da temperança, admira o brilho divino que cada realidade possui em si mesma.

    2 – O olhar da curiosidade vã

        O olhar do intemperado considera as pessoas e as realidades do ponto de vista do benefício que estas podem trazer para si, do favor que podem prestar, sendo incapaz de ver o que o outro necessita, o que poderá fazer por ele ou apenas para admirar o que é belo sem desejar apropriar-se dele. Manipular a realidade com desejos egoístas traz cegueira ao espírito. A falta de temperança destrói o ser humano porque o torna insensível para o verdadeiro conhecimento das pessoas e das realidades, o que conduz a erros de conduta. O olhar não enriquecido pela virtude da temperança impregna a pessoa de interesses egoístas, possessivos, tal como o de um animal que se fixa na sua presa. Esse olhar que divaga de imagem em imagem nas telas digitais é predador porque busca apenas satisfazer a paixão pela curiosidade superficial, e revela um modo de ver tudo pelo prisma do próprio interesse, e não sabe apreciar o que cada realidade transmite porque se prende rigidamente a um único ângulo, tal como o do glutão diante de uma mesa artisticamente preparada ou do olhar do animal para com sua presa, pois só desejam a satisfazer o estômago.

        O olhar intemperado se comporta como a borboleta que pula de flor em flor, sem fixar-se em nada, e se detém o tempo mínimo indispensável para satisfazer a ânsia de uma curiosidade insaciável. Tomás de Aquino chamou esse olhar de curiositas, vício oposto à virtude da studiositas, que consiste em dar a justa medida ao desejo de conhecer, e remove os obstáculos que impedem ver com profundidade e com o esforço de concentração que todo processo de aprendizagem e de admiração trazem consigo. O olhar da curiositas  faz o papel de coletor de lixo das redes sociais e internet que varre para dentro da razão milhares de imagens e informações desencontradas, impossíveis de serem correlacionadas ou integradas, afetando a aprendizagem e tornando cega a inteligência: “O olho é a luz do corpo. Se teu olho é são, todo o teu corpo será iluminado” (Mt 6,22). A falta de conteúdos significativos impede a pessoa de oferecer seus dons para o bem dos demais, pois se tornou frívola, superficial e incapaz de habitar em si mesma.

    3 – Pensar bem antes de clicar o play

        É necessário desenvolver um sereno processo de discernimento para dedicar tempo e fazer crescer as potencialidades ou dotes pessoais, com o fim de aplicá-los à solução das necessidades que carecem tantas pessoas ao redor. Fugir do imediatismo da vã curiosidade: antes de clicar o play de um vídeo, ou navegar sem rumo na internet, pensar para onde isso conduzirá, e saber prescindir do que faz mal à própria alma, tendo a convicção de que esse discernimento não diminuirá a liberdade pessoal, mas livrará o coração de ser escravo de banalidades.

        O olhar desprendido do temperado capacita-o para descobrir a beleza que se oculta nas coisas simples, faz aprofundar na verdade das coisas, pois o mundo revela e fala de Quem o criou. O olhar temperado faz descobrir maravilhas insuspeitadas porque a moderação liberta e purifica o coração, e facilita uma relação serena com as pessoas e as coisas (o egoísta e o invejoso são infelizes porque nada os saciam). O primeiro efeito da temperança é a “tranquilidade de espírito”, fruto da ordem interior da pessoa. O olhar desprendido e limpo repara nos verdadeiros tesouros da vida e da convivência, e neles encontra um autêntico repouso.

    4 – Frutos da temperança

        A temperança leva a não olhar desnecessariamente o celular durante o trabalho ou na convivência com as pessoas. Essa renúncia que parece de pouco valor é decisiva para concentrar os cinco sentidos naquilo que deve ser feito: dizer “não” ao que dispersa a mente é dizer “sim” ao que realmente importa. Tal esforço desenvolve a interioridade e contribui para despojar-se do que é superficial e da perda de tempo: “A vida recupera então os matizes que a intemperança descolore. Ficamos em condições de nos preocuparmos com os outros, de compartilhar com todos as coisas pessoais, de nos dedicarmos a tarefas grandes”, diz Escrivá de Balaguer.

    Texto produzido por Ari Esteves.

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  • Emotividade:  o apático e o amorfo

    Emotividade: o apático e o amorfo

    1 – Temperamento apático. 2 – Temperamento amorfo

    1 – Temperamento apático

        O apático é não emotivo, não ativo e secundário. Seu ânimo é constante, tem sentido de honra e certa dignidade na maneira de ser. É sincero, honesto, discreto e digno de confiança. Aprecia a solidão. Pode ser um bom conselheiro, quando maduro. É tranquilo, pacífico e normalmente não importuna ninguém.

        Defeitos do apático: é insensível, pois carece do estímulo da emotividade, e sua atividade é baixa, sendo seu traço dominante a tranquilidade acompanhada de frieza e vazio interior. Costuma ter inércia mental para pensar, agir e falar (tem longos períodos de silêncio). Sem força psicológica, seus pensamentos tendem a ser banais, negativos e presos ao passado. Preso às rotinas, tem horror à novidade e se deixa vencer pela preguiça. Costuma ser independente, diverte-se pouco e não costuma interessar-se por si mesmo, nem pelos amigos. Tende a ser egoísta, de mau gênio, irritadiço, pessimista e sensual. Possui, junto com o amorfo, poucas aptidões. Sua inteligência não abstrai e nem extrai o essencial; o pensamento é incoerente, pobre de ideia e de relações lógicas. Sua infância é sem vigor, e quando estudante, não se interessa pelas atividades escolares, sendo que a falta de esforço o faz ter resultados baixos. Alguns apáticos encerram-se demasiadamente em si mesmos e chegam a ser melancólicos, taciturnos e invejosos.

        Modo de tratar o apático: ter afeto, paciência, constância e firmeza com ele, a fim de ajudá-lo a sair de si e voltar-se aos demais. Como seu basal é a tranquilidade, desenvolver nele a emotividade e a atividade para ganhar gosto pela ação e sair da inércia. Tirá-lo da rotina e do automatismo, fazendo-o ter um comportamento autônomo e deliberado. Dar um sentido de missão para sua vida, que costuma ser triste e vazia, ao utilizar com ele métodos ativos e procedimentos estimulantes, carregados de valores ou modelos de conduta. Integrá-lo a um meio social compreensível, vivificante, de trabalhos em equipe, e fomentar nele as virtudes da sociabilidade, generosidade e espírito de serviço. Elevar suas aspirações e ensiná-lo a superar suas debilidades e sentir satisfação pelos êxitos alcançados. Fazê-lo perceber a satisfação que dá o cumprimento do dever. Animá-lo a descobrir a Deus nos demais e a ter sentimentos de compaixão pelos que sofrem.

        Quando estudante, rodeá-lo de um ambiente familiar disciplinado, caloroso e que o estimule ao trabalho e estudo; propor-lhe metas com dificuldades progressivas e verificar se cumpriu os trabalhos escolares, pois sendo inativo poderá deixar de fazê-los. Um companheiro da mesma idade poderá incentivá-lo a cumprir as metas a que se propõe. Um rosto alegre é o melhor jeito de ganhá-lo, pois o levará a ter confiança e simpatia pelo educador, pois deseja ser orientado. Não costuma doer-se de suas faltas, tornando-se necessário ajudá-lo a conscientizar-se da importância de viver a caridade com todos.

    2 – Temperamento amorfo

        O amorfo é não-emotivo, não ativo e primário. É obediente, calmo, objetivo, tranquilo e tolerante. Em geral, seus juízos são equilibrados. Aceita com gosto a convivência e as brincadeiras que lhe fazem, e não faz dano a ninguém. Costuma ser equilibrado e adaptável a qualquer meio.

        Defeitos do amorfo: aparenta ser dócil, mas trata-se mais de passividade. Acomoda-se facilmente e não aprecia planos para o futuro, nem resultados a longo prazo, além de não almejar grandes ideais. Passivo, irresponsável e sem espírito de serviço, é visivelmente preguiçoso, desordenado e deixa as coisas para acabá-las apressadamente e à última hora. É frio, pouco cuidadoso com seu asseio, impontual e inclinado aos prazeres sensuais. Predisposto ao desalento e à melancolia, seu caráter é sombrio. Pode ganhar o vício dos jogos de azar, e cede facilmente ao ambiente e ao que é fácil de fazer. Carece de fervor religioso. Não é mau, mas sim egoísta, e não sente necessidade de ser amado nem de amar e servir aos demais. Pouco generoso, não se interessa pelos amigos. Oportunista, aproveita-se dos demais para fugir das responsabilidades. Costuma ser comilão e com grande atração pela cama. O amorfo paranervoso é o mais preguiçoso dos amorfos, sendo necessário ajudá-lo mais a abandonar esse vício. Os para sanguíneos não aceitam a pecha de preguiçoso, pois cumprem os trabalhos que lhes são exigidos – e não mais do que isso – por uma autoridade competente (se abandonados a si mesmo pouco fariam).

        Modos de tratar o amorfo: como ele aceita os conselhos e necessita de uma clara e firme autoridade, o educador deve ter caráter e virtude para alcançar-lhe o coração, e falar de modo concreto e claro, indo ao fundamental para não confundi-lo. Sem gosto pela ação, o amorfo terá mais êxito em trabalhos que exijam paciência e pouca imaginação. Propor-lhe metas fáceis, não tudo de uma vez, e ir alentando-o pouco a pouco, e fazendo-o perceber que seu êxito se dará por meio de pequenos passos que modifiquem suas disposições inatas à inatividade, à negligência e à tendência de atrasar as coisas. Ao gostar de esportes coletivos – mas não de ginástica –, e a fim de que ganhe gosto pelo esforço continuado, animá-lo a melhorar a performance da prática que aprecia. Como se deixa influenciar pelo ambiente (família, escola, amigos), é importante que este lhe ofereça exemplo de energia, pontualidade, entusiasmo e ação. Deve lutar contra a falta de exatidão verbal, contra a tendência a debochar, de pedir emprestado e de pouca pontualidade aos compromissos. Sugerir-lhe fazer cada dia algo pelos amigos, e a colaborar para o bem de pessoas necessitadas. Não deixá-lo isolado: para alcançar metas de trabalho poderá fazer parte de alguma equipe, pois saberá cumprir sua meta, já que tem receio de críticas ou reprovações. Inadaptado, é preciso adquirir o hábito de se interessar e esforçar-se por algo. Fazê-lo ganhar hábitos de limpeza e ordem; disciplinar seu sono e refeições.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base no livro “Guía práctica de caracterologia”, de José Gay Bochaca, Ediciones Internacionales Univertarias, Madri. Sugestão de leitura: “Conheça o seu filho”, de Anna Maria Costa, Editora Quadrante, São Paulo. Imagem de Pixabay.

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  • Emotividade: o sanguíneo e o fleumático

    Emotividade: o sanguíneo e o fleumático

    1 – Temperamento sanguíneo. 2 – Temperamento fleumático

    1 – Temperamento sanguíneo

        O sanguíneo é não-emotivo, ativo e primário. Tranquilo, prático e oportunista, procura fins ou resultados imediatos. É mais reflexivo do que impulsivo. Deseja a harmonia e reconcilia-se com facilidade. É perseverante, sincero e leal. Não gosta do isolamento. É expansivo e amante do esporte. Desprendido, não se importa com o que dizem dele, nem interfere na vida dos demais. Extrovertido, é o mais otimista dos caracteres (otimismo sem entusiasmo), e julga que as coisas se consertam com o tempo. Independente em seus juízos, tem réplica para tudo, e se interessa pelo que é atual, concreto. Versátil, diplomático, cortês e com presença de espírito. É permeável às influências coletivas.

        Defeitos do sanguíneo: tende a ser egoísta, duro, oportunista e com pouca compaixão. Cético e crítico sarcástico, diverte-se ao provocar os emotivos e os tímidos. Ainda que tranquilo, em algumas ocasiões pode ter atitudes de violência e irritação. Muito trabalhador, mas com tendência a não acabar bem as tarefas devido à ânsia de mudar de atividade. Interessa-se por tudo, sendo seduzido pelas novidades. Entregue aos seus interesses, é alheio às necessidades dos demais. Tem vontade fraca e cede diante das dificuldades. Fraco de vida moral, pode cometer indelicadezas e mentir facilmente. Integra-se bem ao ambiente familiar. Há sanguíneos que se aproximam dos coléricos, dada à sua primariedade, espírito empreendedor e veemência (estes apreciam crônicas esportivas, novelas e aventuras). Aqueles que se parecem com os amorfos têm menos atividades, mas são ávidos leitores de notícias políticas.

        Modo de tratar o sanguíneo: criar-lhe um ambiente afetuoso para que se dedique aos demais com amor, e para viver a benevolência ao ajudar no que pode. Sendo frio, ensiná-lo a se emocionar, a desenvolver a emoção intelectual e a moderar a primariedade. Sua tendência à indiferença pode ser corrigida por uma educação que o faça perceber as necessidades dos demais, e a ter compaixão pelos que sofrem. Suscitar nele uma verdadeira sensibilidade para transformar sua bondade externa, mais voltada aos seus interesses, para uma bondade interna, profunda e generosa. Na adolescência, ajudá-lo a perceber a doçura da mãe e os sacrifícios do pai, sendo que a missão da mãe é decisiva para conduzi-lo à simpatia com os demais, a não ignorar a dor alheia e a ter encargos familiares para se desprender de si. Corrigi-lo com certa severidade e fazê-lo perceber que pode causar danos ao faltar a caridade com os demais. Alguns sanguíneos podem deixar-se dominar pelos sentidos e prazeres, sendo necessário estar atento para ensiná-los a viver a virtude da temperança ou autodomínio. Vaidoso, ambicioso, deve mudar seus valores por outros mais nobres. Organizar o seu trabalho ou estudo, ensiná-lo a ter espírito de equipe e dar a ele tarefas que o tirem do isolamento. Fazê-lo ver que uma das causas dos seus fracassos é a inconstância, e ajudá-lo a perseverar no esforço continuado. Buscar motivos intelectuais, mais do que práticos. Orientar sua curiosidade, que tenta suprir a pobreza interior, para algo que valha a pena.

    2 – Temperamento fleumático

        O fleumático é não-emotivo, ativo e secundário. Trabalha com constância, sendo decidido, pontual, sempre ocupado, veraz e digno de confiança. Costuma ser pouco expansivo. De humor constante, é natural, simples de trato, não vaidoso e nem ambicioso. Tem interesses intelectuais. Reflexivo, chega a grandes resultados, ainda que lentamente. É tradicionalista, tranquilo, objetivo, silencioso e discreto. Ajuda a quem lhe pede um favor, mas não costuma adiantar-se ou fazer mais do que o solicitado. Aprecia as conversas sérias, mas sendo pouco falador prefere ouvir. Não teme o esforço ao buscar interesses próprios. Tem vontade de fazer bem as coisas e gosta de limpeza. Quando estudante, costuma ser hábil no raciocínio; ordenado nos cadernos, livros e mesa de trabalho e não causa problemas aos professores. Sua vida familiar discorre sem efusões, e ama os pais mais por sentido de dever do que por sentimentos de gratidão. Não é inovador, mas facilmente adaptável.

        Defeitos do fleumático: por manifestar poucos sentimentos e emoções não tem grandes expansões ou arranques, tende à frialdade e pode chegar a ter orgulho de sua frieza. Prefere jogos solitários. É calculador, metódico e pouco compreensível. Pouco compreensível, é por vezes é irônico, severo, insensível e altaneiro com os demais. Tende à solidão, a fugir da convivência, e a desdenhar o carinho familiar e dos amigos. Pode ter manias de ordem.  

        Modos de tratar o fleumático: apesar de não se deixar guiar facilmente, o fleumático necessita de orientação para resolver questões concretas. O fleumático não se fixa muito nos modos ou figura do tutor, mas sim em suas ideias e métodos. É necessário tratá-lo com sentido de humor, pois isso lhe cai bem, dado o tipo de caráter que possui. Ter presente que a maturidade psicológica exige integrar de modo harmonioso os sentimentos e afetos para colocar não apenas a cabeça, mas também o coração naquilo que faz e na relação com os demais. A afetividade humana requer aprendizagem para evitar extremos: o de quem nega o valor dos afetos e os silencia tal como se não existissem, e age friamente só pela razão; ou o de quem converte o impulso afetivo na única instância de decisão e de ação. Esses dois casos revelam fragilidades que desembocam ou na rigidez e inflexibilidade ou na desorientação de quem muda continuamente de rumo, porque se deixa levar unicamente pela percepção imediata dos sentimentos. Por isso, o fleumático – e o amorfo – deve criar sentimentos para compreender os demais e ter uma inteligência não alheia aos sentimentos; precisa ser compreensivo com os defeitos alheios, não teoricamente, mas com detalhes concretos fundados no amor, na doação de si. Para não se isolar deve procurar atividades coletivas, participar das conversas, melhorar a sua relação com os demais…

        Para o fleumático ser mais sensível e vencer a indiferença e a frieza, deve ganhar virtudes como a sociabilidade, generosidade, misericórdia, espírito de serviço, benevolência. Despertar sua emotividade sem utilizar tentativas violentas ou forçadas. A vida de fé e a luta espiritual, além da boa literatura, oferecem a ele exemplos concretos de doação de si. Desenvolver o olhar estético para contemplar a beleza da natureza, que a princípio pouco lhe afeta, ajudará a despertar seus sentimentos e a ter mais sensibilidade para o que o cerca. Fomentar a que tenha dor pelos erros cometidos e saiba pedir perdão, e não ser indiferente ao desgosto que poderá ter causado. Precisa ser prevenido para não se deixar levar por automatismos, que o tornam meticuloso e cheio de manias.

        No próximo boletim analisaremos os dois últimos temperamentos: amorfo e apático.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base no livro “Guía práctica de caracterologia”, de José Gay Bochaca, Ediciones Internacionales Univertarias, Madri. Sugestão de leitura: “Conheça o seu filho”, de Anna Maria Costa, Editora Quadrante, São Paulo. Imagem de Pixabay.

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  • Emotividade: o colérico e o apaixonado

    Emotividade: o colérico e o apaixonado

    1 – Temperamento colérico. 2 – Temperamento apaixonado

    1 – Temperamento colérico

        O colérico é emotivo, ativo e primário (seus sentimentos o fazem reagir de modo imediato ao fato que os provocou). Costuma ser trabalhador, serviçal e sociável. Esquece logo as ofensas. Tende a ser alegre, otimista e muito entusiasta. Bem-humorado, sabe brincar com as pessoas, sendo por vezes grosseiro. É simpático, e sem complexos. Decidido, prático, inventivo e fácil de palavra, é capaz de concentrar-se intensamente para afrontar alguma urgência. Generoso, entrega-se de imediato à ação, cumpre eficazmente as ordens. Empreendedor e audaz, sempre busca impressões novas. Costuma ser capacitado para os negócios. Bom camarada, adianta-se às necessidades dos companheiros e logo influencia o seu grupo, criando um ambiente amigável onde participa com gosto nos trabalhos em equipe. Está disposto tanto para o melhor como para o pior: prestar um serviço com total entrega, principalmente se colaborou para a decisão, ou armar um alvoroço. Costuma ser caritativo com os enfermos.

        Defeitos dos coléricos: a impulsividade pode torná-los violentos, pois alteram-se facilmente de ânimo, com momentos de afetos ou de bruscas violências. Impacientes, costumam agir sem pensar muito, tendem à improvisação, à superficialidade e à precipitação, apesar de se acharem seguro em seus juízos. Gostam de viver intensamente e se inclinam a satisfazer os prazeres da gula e outros. Ambiciosos, amantes da popularidade, das aparências, são aventureiros e buscam atividades que lhe proporcionam satisfação, mesmo que não sejam as melhores. Imediatistas, querem saber de tudo, sonham com tudo, sem decidir-se por nada. Desejam vagamente, mas nada escolhem. O círculo familiar lhes parece estreito, e desejam mais liberdade, independência. Preferem estar na rua e realizar alguma atividade, e não no lugar de trabalho ou em casa. A rapidez intelectual deles está ligada à instabilidade emotiva e aos seus arrebatamentos. Cambiantes, distraem-se com facilidade. Caso venham a mentir, não o fazem para enganar, mas para colorir a conversação. Não sabem sintetizar. Sem refletir, comprometem-se facilmente, e depois não cumprem todas as promessas. Sensíveis ao que lhe dizem, custa-lhes ser humilde e tendem mais a falar do que a fazer, e com isso podem chegar a ser falsos. Não respeitam muito o silêncio em ambientes onde é exigido, e lhes custa seguir regulamentos ou regras. Quando crianças, colecionam de tudo, costumam ser agitados, turbulentos, instáveis; a puberdade é sofrida, e ofendem com o excesso de rebeldias e insubordinações frequentes.

        Modos de tratar os coléricos: ajudá-los a conter seus entusiasmos, a dominar a primariedade e a ter objetivos de ordem superior que os entusiasmem alcançar. Ensiná-los a refletir sobre o motivo ou finalidade da ação que irão realizar. Devem saber que, sendo a atividade improvisada e dispersiva a dominante deles, devem para fomentar as virtudes contrárias: prudência, constância, temperança. Educá-los não no abstrato, mas no concreto, no modo de fazer as coisas. Incentivá-los em seus êxitos anima-os a perseverar naquilo que começou. Sendo sinceros e predispostos à ação, necessitam de orientação humana e espiritual. Não são críticos, e ficam felizes quando relatam seus problemas e confiam nas orientações que lhe são dadas. Deixam-se levar pelas boas ideias, mesmo que não sejam deles. Não educá-los com autoritarismos ou palavras violentas, ou que lhes imponham temores, pois perderão as energias da qual estão dotados, e que devem ser bem aproveitadas. Precisam ter domínio de si, e se darem conta de que a extroversão leva-os à dispersão. Praticar esportes os ajudam a dar vasão ao seu ímpeto de atuar. É preciso fazê-los compreender que as regras de convivências são necessárias e importantes. Integrá-los no ambiente escolar evita a insubordinação. Se adolescentes, ajudá-los a organizar o estudo e os encargos para o bom andamento do lar. Começam bem as coisas, mas precisam renovar o ânimo para conclui-las. Estar atento aos amigos, pois são influenciados por eles: os bons amigos os ajudam a não interessarem-se apenas pelo que gostam.

    2 – Temperamento apaixonado

        O apaixonado é emotivo, ativo e secundário (seus sentimentos o fazem reagir não de forma imediata, mas posteriormente ao fato que os provocou). Costuma possuir boas qualidades: constância, capacidade de decidir e de chefiar, rapidez na ação. É organizador, enérgico, constante e supera os obstáculos para alcançar suas metas. Capaz de grandes ideais, é dominado pela obra que deseja levar a cabo. Aproveita bem o tempo e nunca está ocioso. Não costuma ser preguiçoso, nem se entregar aos prazeres dos sentidos. Tem profundo sentido religioso.

        Defeitos dos apaixonados: costumam ser independentes, impulsivos e podem chegar a ser violentos. Suscetíveis, isolam-se. Quando se propõem a servir seus interesses, podem ser orgulhosos e ambiciosos. Radicais, autoritários, muitas vezes são irreconciliáveis. Sombrios, custa-lhes trabalhar em equipe, e preferem agir sozinhos. Algumas vezes caem na crítica aos demais. São contrários a esportes e excursões, que sentem como perdas de tempo. Alguns são introvertidos, com tendência a viver sob a influência do passado.

        Há dois tipos de apaixonados: reflexivo e acentuado, com fundos comuns: violência, ação decidida, sentido prático, visão ampla, independência, capacidade de observação, boa memória, ausência de vaidade. Porém, há diferenças entre eles:

        1) Apaixonado reflexivo: não costuma ser muito emotivo. Não é severo ou sombrio, nem ensimesmado. De caráter conciliador, tolerante, sua paciência é média. Com impulsividade pouco acentuada, sabe dominar-se. Aberto às novidades, interessa-se pelas coisas, pessoas e acontecimentos. Aprecia a leitura de livros de científicos. Demonstra ternura e fortes sentimentos familiares. É perseverante naquilo que se propõe a realizar. Se acredita que sua causa é justa, age de modo obstinado. Quando estudante, entrega-se às tarefas escolares e a jogos complicados e inteligentes, sendo o aluno que menos problemas apresenta aos pais e professores; e alcança boa maturidade entre os 13 e 14 anos.

        2) Apaixonado acentuado: é severo, sombrio, ensimesmado, isolado, muito impulsivo e impaciente. Sendo suscetível e crítico, chega a ser intolerante, dominador e encerrado em suas ideias. Quando estudante, poderá apresentar problemas educativos difíceis. Na adolescência pensará longamente sobre as injustiças que acredita ter sido vítima, sendo necessário criar ao entorno dele um ambiente aberto, acolhedor e otimista. Habituá-lo a conhecer os limites a que deve sujeitar-se, e não permitir que faça o que não é correto. Proporcionar-lhe um ambiente agradável, utilizando uma autoridade afetuosa. Há dois tipos de apaixonados acentuados: 1) Melancólico, que é meditativo, rancoroso, suscetível, exato, constante e apaixonado pela leitura séria. 2) Impetuoso, com forte emotividade e intensa atividade, tem aparência de colérico. Pode chegar a ser antipático. Se pouco dotado de inteligência, não aceitará seus fracassos e procurará compensar isso com excessivos trabalhos ou impondo sua autoridade aos demais.

        Modos de tratar os apaixonados: necessitam de um guia e esperam muito dele, e as conversas devem ser profundas. Como são bons observadores, fixarão em todos os detalhes do seu tutor, que deverá ser competente, amigo, compreensivo e inspirar-lhes confiança. Sendo muito exigentes, poderão manifestar diretamente seu juízo sobre o tutor. Por serem muito emotivos, o tutor não deve dizer-lhes palavras humilhantes ou ásperas, nem utilizar sarcasmos e ironias, pois desalentarão e irão feri-los profundamente. Devem, os apaixonados, mostrarem-se como são, sem esconder o que não fizeram bem, pois o tutor precisa conhecer suas inclinações egocêntricas ou altruístas, sociais ou intelectuais. Aos apaixonados reflexivos, ajudá-los com bons argumentos a que ganhem gosto pelas artes (literatura, música, cultura, poesia, pintura…), e que passem a agir sob os ditames da razão e não dos sentimentos; e que adotem valores ou modelos de conduta baseados na generosidade e na sociabilidade (por exemplo, trabalhar em equipe), pois a tendência deles é isolar-se. Já os apaixonados acentuados necessitam de uma sólida direção, mas nunca incompreensiva ou brutal, mas fazendo-os perceber que são compreendidos e que se quer ajudá-los: falar-lhes amigavelmente ao coração para persuadi-los, e deixá-los refletir e falar sobre suas objeções, sem nunca empregar com eles a burla; acostumá-los a meditar sobre seus atos, utilizando argumentos razoáveis, e mostrar-lhes claramente os problemas para que se habituem a raciocinar profundamente. Ao pensar que o esporte e excursões são perdas de tempo, é preciso ajudá-los a compreender que descansar é um modo de voltar ao trabalho com forças renovadas.

        No próximo boletim analisaremos os temperamentos sanguíneo e fleumático.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base no livro “Guía práctica de caracterologia”, de José Gay Bochaca, Ediciones Internacionales Univertarias, Madri. Sugestão de leitura: “Conheça o seu filho”, de Anna Maria Costa, Editora Quadrante, São Paulo. Imagem de Pixabay.

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