1 – Fortalecer vontade. 2 – A vontade débil foge das metas altas. 3 – Raciocínios falsos a que conduzem a vontade débil. 4 – A vontade se fortalece com a verdade.
1 – Fortalecer vontade
É necessária, desde a adolescência, uma formação que dê solidez à vontade para que esta não fique ao sabor de sentimentos contrários. Quem se propõe uma meta que vale a pena, e não teme enfrentar os obstáculos até chegar a ela, enrijece a vontade à medida que realiza os atos para alcançar seu alvo. Uma pessoa não se constrói ao esperar algo da vida, mas em propor-se metas altas e correr atrás delas. Quem culpa as dificuldades externas e reclama da vida, o faz para se eximir da própria responsabilidade.
Os pais temerosos de exigir que os filhos cumpram as próprias obrigações, trabalham pelo enfraquecimento da vontade deles. As tarefas formativas devem ser atraentes não porque sejam divertidas ou prazenteiras, mas porque revelam o modo autêntico e atrativo da realização do bem. Quem se realiza ao fazer o bem é feliz, mais do que aquele que necessita de muitos objetos para ser feliz: tem mais aquele que precisa de menos
2 – A vontade débil foge das metas altas
A vontade se debilita quando só se busca o prazenteiro e o divertido, que vão se fazendo cada vez mais necessários e exigidos como um direito. Se a vida não respeita esse “direito” surgem queixas e lamentações. Há quem deseja atuar bem e se propõe fins mais elevados. Mas, ao perceber que para atingi-los nem tudo é prazeroso, perde o entusiasmo inicial e abandona o projeto julgando-o ilusório ou difícil de chegar. Isso significa que possui uma vontade débil, fraca.
Se “vida feliz” é sinônimo de “vida prazenteira”, então a vontade débil só vai atrás de escopos fáceis de se buscar. Se os objetivos são facilmente substituíveis significa que não possuem grande valor. Toda questão está no valor dado ao pretendido: se é considerado decisivo para a vida, deve-se estar disposto a qualquer esforço para torná-lo realidade. Os pais, para educarem a vontade dos filhos, podem exemplificar com a própria vida ao narrar conquistas que lhes exigiram uma vontade forte, quando seus sentimentos eram contrários.
Papo bom de abordar com cada adolescente, a sós, numa caminhada de sábado à tarde, lógico, saboreando um sorvete, é sobre o valor das metas e o sacrifício em buscá-las, a fim de que enfrente questões como a do estudo para se pôr ao serviço dos demais com competência; a solidariedade e preocupação pelos outros − especialmente pelos que sofrem −, para o afastar do egoísmo de se encerrar nas coisas pessoais, que são sempre causa de tristezas.
3 – Raciocínios falsos a que conduzem a vontade débil
A vontade débil também se deixa levar pela força contrária dos sentimentos e paixões. Por exemplo, todos estamos inclinados à verdade porque ela nos atrai (ninguém gosta de ser enganado, nem pelos próprios sentimentos). Mas também nos atraem outras realidades como, por exemplo, que os demais tenham uma boa imagem de nós, que obtenhamos vantagens econômicas ou de outro tipo. Se o juízo de valor sobre essas tendências estiver assentado nas bases falsas do orgulho, vaidade e cupidez, essas tendências poderão apresentar como valiosa a mentira a fim de conseguir passar uma boa imagem de si ou para obter certos ganhos. E com isso, tanto a inteligência quanto a vontade serão enganadas.
A razão prática é a que dirige o nosso comportamento e pode contribuir para uma vida plena. Se essa razão está influenciada pelas paixões (comodismo, preguiça, entre outras) e não pela inteligência especulativa apoiada na verdade, torna-se difícil acertar no juízo sobre a conveniência de certos comportamentos. As paixões se ordenam com virtudes para que possibilitem a razão julgar corretamente e a vontade decidir sem a pressão contrária de inclinações torcidas.
Aqui está também um tema interessante para conversar com os filhos: o erro não é o melhor caminho, mesmo que pareça prometer um bem maior, mas falso ao oferecer uma “felicidade” apoiada na mentira. A mentira é um erro prático, não teórico, porque quem mente sabe que não deve mentir (juízo de consciência), mas mente porque lhe parece conveniente mentir (juízo de eleição).
4 – A vontade se fortalece com a verdade
A liberdade radica na vontade, mas a causa da liberdade está na razão, dizia Tomás de Aquino. Nossas ações livres são decididas pela vontade, mas esta segue o juízo da razão: elegemos com o querer da vontade aquilo que o juízo da inteligência mostrou ser o melhor. Os atos humanos se distinguem dos atos dos animais porque são voluntários e dirigidos pela inteligência e vontade.
É preciso ensinar aos filhos, calma e pacientemente, que a conduta deles deve ser guiada pela inteligência bem formada, e não pelos instintos e sentimentos (estes, quando bem educados, são um apoio para a vontade arrostar as dificuldades). Recentemente um casal amigo − Matheus e Larissa − falaram aos filhos de três, cinco e sete anos que iriam levá-los para tomar vacina. De pronto as crianças rechaçaram tal plano porque, diziam, iria doer, etc. Então, o casal explicou o que aconteceria se eles ficassem doentes: internação (possivelmente longe dos pais, dependendo da doença), fraquezas, febres, dificuldades para caminhar, remédios e, às vezes, até muitas injeções. Então, os pais perguntaram: − “O que vocês escolhem?”. Claro, com a inteligência esclarecida a vontade pode decidir livre e corretamente. Em uníssono responderam: − “Queremos tomar a vacina!”.
A verdade é sempre o apoio mais sólido para se construir a felicidade humana, porque ao oferecer à razão bases corretas para a apreciação do autêntico valor das coisas, produz juízos acertados. A vontade, apoiada na razão ou juízo prático esclarecido pela verdade, ao decidir livremente pelo bem, conduz à pratica dos atos necessários para chegar ao que se tem em mente. Por sua vez, a prática desses atos formam as virtudes correspondentes e colocam ordem nos afetos e nas inclinações.
Eis um círculo virtuoso: juízos acertados fazem a vontade eleger o melhor e encaminhar aos atos correspondentes; os atos criarão hábitos bons ou virtudes que colocarão ordem nos sentimentos e inclinações pessoais.
Texto produzido por Ari Esteves, com base na obra “Formar personas libres”, de Julio Diegues, Editora Ética e Politica, Roma, 2019.
