A temperança dá senhorio à conduta

     1 – A virtude da temperança. 2 – Os sentidos externos são a porta da alma. 3 – As crianças devem ser ensinadas a viver a temperança. 4 – Hábitos que conduzem à temperança. 5 – Ser temperado no uso das tecnologias. 6 – A disciplina ajuda a viver a temperança.

1 – A virtude da temperança

     Colocar rédeas à sensibilidade (sentimentos, emoções, paixões), ser condutor das próprias ações e senhor de si, são atitudes de quem possui a virtude da temperança. Esse hábito desenvolve aos que o possuem um querer forte que freia os impulsos desordenados das paixões, quando estes buscam o mais fácil e prazenteiro, que depois de satisfeitos deixam um ressaibo de tristeza e derrota. A temperança desperta a capacidade crítica ao facilitar à inteligência a manutenção do foco e o não cegar-se diante das inclinações sensitivas destoantes.

     Pode parecer que a temperança tenha aspecto negativo, limitador das inclinações naturais. Porém, na realidade, é uma virtude positiva, pois ao evitar as desordens dos excessos e caprichos, faz o espírito ascender a patamares elevados, tornando-o mais operativo, forte e dinâmico. A pessoa temperada tem um recato natural que é sempre atraente, porque nota-se em sua conduta o império da inteligência: é modesta, sóbria, comedida, paciente, compreensiva, forte, atenta, responsável… Ao não dar excessivo valor às coisas que poderiam desviar os afetos e arrastar a inteligência com eles, a temperança faz perceber os matizes que a intemperança encobre, e com isso passa-se a saborear bens mais altos, como o estudo, o trabalho, a família, a religião, a arte, os livros…

     Hoje, muitos perderam o sentido de suas vidas por serem incapazes de se esforçar e gastar-se por algo que vale a pena. Os intemperados perdem demasiado tempo e energia em curiosidades que tornam o corpo e a mente desmotivados para empreender metas mais exigentes. Nas banalidades, onde muitos se revolvem e se empobrecem espiritual e intelectualmente, a pessoa temperada vê um peso morto.

     Nosso cérebro é finito e não podemos fazer várias coisas ao mesmo tempo, a menos que alguma dessas ações esteja automatizada. Quem tem a prática de conduzir um automóvel pode pensar em outro assunto enquanto dirige. Mas enquanto a ação de dirigir não está automatizada, não consegue pensar em outras coisas a não ser nos comandos do carro. O hábito moral da temperança dá como que uma segunda natureza, pois com a prática dos bons atos a inteligência ganha o hábito de pensar bem e a vontade de aderir a esse bem com espontaneidade.

2 – Os sentidos externos são a porta da alma

     Os sentidos externos (olhos, visão, paladar, tato) são os porteiros do nosso mundo interior. Não podemos permitir que esses zeladores transformem as nossas potências interiores (inteligência, vontade e afetividade) em loja de bricabraque ao franquear a entrada de frivolidades que as desviam de realizar suas capacidades. Se a imaginação e a memória se alimentarem com demasiada música, passatempos, excesso de informação, memes, vídeos, imagens, mídias sociais, custará esforço contrariar os próprios sentimentos e instintos para atender os encargos familiares, trabalhos, vida espiritual, estudo, etc. Isso não significa que os momentos de distração e descanso devam ser descartados. Ao contrário, é importante ter horários para atividades menos exigentes, a fim de renovar as forças e retornar às responsabilidades com maior vigor.

3 – As crianças devem ser ensinadas a viver a temperança

     Desde a idade de zero anos é possível ajudar as crianças a ganharem hábitos de temperança ao favorecer que vivam a ordem material e temporal em diferentes aspectos: dormir e acordar (perceber que o silêncio e o escuro da noite é para dormir e não brincar); com um ano e oito meses podem levar a fralda suja para a lixeira, guardar os brinquedos, colocar as roupas na gaveta. Mais adiante deve habituar-se a não invadir a geladeira para comer fora de hora, a realizar pequenas tarefas no lar, etc. Para não transformar os adolescentes em senhoritos ou imperadores, devem andar curtos de dinheiro e evitar caprichos inúteis. Se são jovens, podem ser impulsionados a trabalhar algumas horas por dia, pelo menos em época de férias, a fim de custear seus gastos pessoais e ajudar nas despesas da casa.

4 – Hábitos que conduzem à temperança

     Sendo virtude ou qualidade que se estabiliza na alma por meio da repetição de atos bons, a temperança é um hábito que se desenvolve pelo exercício de pequenas e constantes ações que fortalecem e protegem a pessoa do desejo desordenado pelos bens primários ou ligados ao instinto, como a comida, bebida, sexualidade…; defende da inclinação desorbitada da sensibilidade que leva à preguiça e à fuga dos deveres, ao gosto exagerado pelo esporte ou música; salvaguarda a inteligência da busca desequilibrada de um bem intelectual que conduz à desatenção de outras obrigações, dada a dedicação exagerada ao trabalho, estudo, leituras ou curiosidades nas mídias sociais.

     Outras pequenas ações que repetidas no dia a dia conduzem a hábitos de temperança são as seguintes: não deixar para amanhã o que deve ser feito hoje, na rua não varrer com os olhos a tudo que passa, fugir de reclamar de pequenas incomodidades (frio, calor, uma dor de cabeça), nem se entristecer porque algo contrariou um gosto; evitar curiosear notícias fora do horário previsto e deixar de criar falsas necessidades. Nas refeições, fazer o pequeno sacrifício de privar-se de algo, mesmo que seja de uma colherada a menos do que se gosta mais; prescindir do carro e ir a pé ou via transporte púbico (exceto em épocas de pandemia); de vez em quando subir pelas escadas e não pelo elevador, evitar caprichos quando se tem dinheiro no bolso, descansar o tempo exato, ser pontual aos compromissos…

5 – Ser temperado no uso das tecnologias

     Os aparelhos eletrônicos, as redes sociais e outros aplicativos devem ser usados com temperança, não porque sejam maus, mas porque exigem contínuo aperfeiçoamento ético para serem utilizados, o que evidentemente levará a servir-se deles com moderação ou virtuosamente. É grande o perigo de abusar desses avanços e correr o risco de perder tempo com cliques insubstanciais que só servem para dissipar a alma em mil futilidades e descentrar a cabeça dos assuntos mais importantes, ou até cair na imoralidade. Como foi dito, não se trata de deixar de utilizar esses meios, mas de vigiar para manuseá-los com sobriedade e nas reais necessidades.

     Quando as tecnologias penetram desmedidamente na vida familiar, essa perde a unidade, o calor e a estabilidade, porque as pessoas deixam de se tratar, de conviver entre si para fixar-se em telas ou em pessoas ausentes (a ordem da caridade exige que amemos os que estão mais próximos).

6 – A disciplina ajuda a viver a temperança

     Já se disse que disciplina é a higiene da vontade. Ser disciplinado depende em primeiro lugar da inteligência para organizar o tempo com base em prioridades, e não pelo que é mais agradável de fazer.
     A intemperança é indisciplinada e leva a realizar coisas diferentes a cada dia, sempre mais fácil do que sujeitar-se a um plano diário de trabalho. As horas de estudo ou de prática de qualquer atividade são cansativas, esgotantes, mas necessárias para tornar-se um expert. A disciplina é o segredo das pessoas bem-sucedidas, sejam esportistas, escritores, artistas, cientistas ou profissionais de diferentes áreas. Os anos de insistência e autocontrole as levaram a renunciar a tantas comodidades para chegar ao alto índice de desempenho em suas atividades habituais.

     A verdadeira espontaneidade se obtém com a disciplina, com a repetição de atos que vão automatizando a conduta e dando liberdade de agir como verdadeiramente se deseja. Quem nunca treinou com raquete de tênis não terá a liberdade de fazer as jogadas que imagina.

     Só quem é disciplinado e distribui de forma organizada a cada dia da semana as diferentes tarefas, consegue ser verdadeiramente espontâneo e fazer as coisas como deseja que saiam. A espontaneidade do intemperado é falsa porque leva-o a mudar de foco quando algo se torna cansativo.


Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/