1 – Não acomodar-se: fomos criados para muito mais. 2 – A vida animal é condicionada pelo instinto, mas a humana não. 3 – O homem busca um fim pessoal e não o da espécie humana. 4 – O homem rompe o determinismo instintivo. 5 – Nascemos para pensar e amar. 6 – Suprimos os instintos pela aprendizagem. 7 – Não se deixar dominar pelos instintos.
1 – Não acomodar-se: fomos criados para muito mais
Descobrir a verdade sobre o homem causa admiração, e isso não pode ser feito com olhar único, mas pela contemplação sossegada do seu modo de ser e atuar. A vida humana é futurística: orienta-se para o futuro como antecipação de si mesma. Não nos acostumamos com a realidade presente, que sempre parece insuficiente e estática, e almejamos alcançar outra situação ou modo de ser, pois somos seres perfectíveis. A imaginação é projetiva e lança-se para algo que ainda não existe, mas com possibilidade de vir a ser.
2 – A vida animal é condicionada pelo instinto, mas a humana não
A vida dos animais está condicionada pelo instinto, que é a tendência do organismo biológico até seus objetivos mais básicos (comer, beber, abrigar-se, procriar), originando o automatismo da conduta: se o animal sentir fome irá inexoravelmente atrás de comida. O estímulo-reposta dos animais, seja para saciar a fome, buscar segurança ou procriar, é ocasionado pela intervenção da sensibilidade, que desencadeia neles uma conduta imodificável e automática com o fim de preservar a espécie.
A vida de cada animal já está resolvida e ele não precisa decidir sobre o que fará durante sua existência, pois não busca um fim individual. Sua natureza o fará repetir o que fizeram seus iguais, porque visa somente perpetuar a espécie: o joão-de-barro construirá sua casinha como todos os seus paisanos; os peixes emigrarão por rotas marítimas determinadas pelo instinto; as feras caçarão como sempre fizeram seus ancestrais…
3 – O homem busca um fim pessoal e não o da espécie humana
A vida humana não é automática e tem que ser resolvida caso a caso. Não basta ao homem nascer, crescer, reproduzir-se e morrer para alcançar sua realização pessoal. Somos mais complicados que um pássaro ou uma beterraba. Ao possuir inteligência e vontade livre, a criatura humana está acima da ditadura ou determinismo dos instintos e rompe o circuito estímulo-resposta dos animais, a fim de buscar um fim pessoal, e não o da espécie humana. Ser dono de si é ser pessoa, e não apenas um indivíduo da espécie, como os animais em geral.
4 – O homem rompe o determinismo instintivo
O êxito da vida humana não está resolvido ou assegurado pelo instinto, já que até para comer o homem decide sobre o que deve ou não ingerir, quando fará sua refeição ou se jejuará, contrariando sua pulsão instintiva (o uso de pratos e talheres mostra o quanto racionalizamos o instinto de comer).
Ao avaliar suas aptidões e possibilidades, cada pessoa determinará para si o modo de viver e de servir, seja como motorista, mecânico, médico, chefe de cozinha, artesão, desenhista, engenheiro. Mas, sendo livre poderá transformar sua liberdade em libertinagem e escolher ser ladrão, estelionatário, vigarista, vagabundo, mentiroso… O homem é o único animal capaz de fazer fracassar a sua vida voluntariamente ou conduzi-la para melhor.
Portanto, a finalidade da vida humana é encontrada pela via racional, sendo que os instintos não conduzem a isso, além de que não basta ao homem perseguir apenas suas funções vegetativas (comer, beber, abrigar-se, crescer, etc.). A conduta humana é principiada e dirigida pelo conhecimento intelectual. Ao ser livre e dono de seus fins, o homem busca uma finalidade para a vida e elege os meios que o levarão a conquistá-la.
5 – Nascemos para pensar e amar
O homem só pode ser compreendido pela sua condição racional, e a faculdade de pensar é tão radical nele que até a sua biologia é condicionada pela via intelectiva: tem aparelho fonético apto para transmitir seus pensamentos pela palavra; anda ereto e tem as mãos livres para seguir as determinações da inteligência e criar instrumentos, produzir arte, manifestar sentimentos por sinais; seu rosto e seu olhar são expressivos e refletem o estado de sua alma; etc.
E porque é racional, o ser humano ama. O amor não é um sentimento adocicado, mas exige renúncia e sacrifício. O verdadeiro amor é holocausto e depende do querer da vontade, e não da inconstância dos sentimentos.
Se a resposta humana não pode ser conduzida pelo automatismo dos instintos − o que nem sempre ocorre, infelizmente −, mas dirigida pela razão, isso implica na necessidade de aprender a ser, tornando a infância humana mais prolongada que a de qualquer outro animal para receber educação.
6 – Suprimos os instintos pela aprendizagem
Para aprender a viver o homem precisa raciocinar, e isso torna a aprendizagem mais decisiva que o instinto. E porque possui inteligência e vontade para agir livremente, sua natureza não o dotou de inclinações instintivas plenamente seguras, mas que devem ser analisadas, corrigidas ou substituídas pela aprendizagem: se no inverno muitas aves são obrigadas a partir para lugares quentes, o homem não precisa emigrar nem hibernar como certos animais e árvores, pois veste roupas apropriadas, fabrica aquecedores e mantas para enfrentar o frio. Ou seja, na biológica humana os instintos são supridos pela aprendizagem.
7 – Não se deixar dominar pelos instintos
Ao não se comportar segundo a razão, o ser humano corre o risco de tornar desmesurados seus instintos, coisa que não ocorre com os animais. Há homens iracundos, tristes, covardes, invejosos, suscetíveis, que são defeitos da afetividade; ou dominados pela pulsão de comer, beber ou procriar (esta é desviada de seus fins para obter apenas o prazer em diversas formas).
Ao deixar de ser racional, o homem torna-se pior que os animais. A força de seus instintos, quando desgovernados, tem poder destruidor para si e aos demais. Rimos ao ver um bêbado aos tropeções e a repetir asneiras, mas trata-se de situação dramática a da pessoa que perde o controle de si diante de uma garrafa de bebida alcóolica. Isso se pode dizer de outros descontroles instintivos, como a busca do prazer erótico pelo vício da pornografia, o medo de engordar (anorexia), a gula, etc. No fundo, mais que desvios da afetividade, são desvios da liberdade. Se o homem não controla seu instintos e afetos mediante a razão, auxiliada pelas virtudes humanas, não os controlará de nenhum outro modo.
Texto produzido por Ari Esteves com base nas obras “Fundamentos de antropologia – Um ideal de excelência humana”, de Ricardo Yepes Stork e Javier Aranguren Echevarría, São Paulo, Instituto Brasileiro de Filosofia Raimundo Lúlio, 2005; e “Mapa do mundo pessoal”, de Julián Marías, Campinas, SP, Editora Auster, 2021.
