O esforço por melhorar

1 – O esforço por melhorar. 2 – Luta positiva e alegre. 3 – A humildade é a verdade. 4 – Lutar no pequeno dever de cada dia. 5 – Conhecer o próprio temperamento. 6 – Defeitos de caráter. 7 – Começar e recomeçar a lutar.

1 – O esforço por melhorar

     Caminhar continuamente em direção à própria perfeição deve ser aspiração de cada um, apesar da universal experiência da fraqueza humana: falhamos muitas vezes ao não fazer o bem que gostaríamos, nem evitamos os males que gostaríamos de nos esquivar. Quantas vezes nos propomos realizar algo que nos custa um pouco e depois não fazemos: regime para emagrecer, exercícios físicos, não perder tempo nas redes sociais, sair ou chegar o horário… É que no fundo há um querer fraco; nossa vontade não tem toda a força que deveria ter. Por vezes há a resistência dos sentimentos em fazer o que desagrada. A monotonia dos dias iguais também pode esfriar a decisão da vontade para ser melhor, deixando as boas disposições na névoa da indiferença. Por que abandonamos o esforço por melhorar? Todo esforço desagrada e isso se chama preguiça. Ou porque nos deixamos arrastar pelos bens que apreciamos. A pressão social também pode nos levar a agir de forma diferente da que pensamos.

2 – Luta positiva e alegre

        Porém, não há outra alternativa senão a de lutar cada dia contra os aspectos que enfeiam a alma. Estabelecer metas concretas e acessíveis de melhora é o caminho seguro e mais curto para eliminar as imperfeições. Desde os gregos, ascese significa exercício prático utilizado por atletas, artistas e profissionais para conquistar determinada perfeição por meio da disciplina e autocontrole do corpo e do espírito. Ascese não é algo negativo, mas afirmação alegre do bom esportista que sabe não atingir a meta nas primeiras tentativas, e sim pelo constante treino de começar e recomeçar até alcançar a marca desejada. O racional é não abandonar o treino e insistir na luta diária, nem se conformar com os índices já alcançados. Quem estaciona ou faz apenas o indispensável regride, tal como a bexiga de gás que não fica estática no ar: ou sobe ou desce. Avançar sempre é progredir, é vencer a preguiça e prevenir-se contra o comodismo que adormece o desejo de melhorar.

3 – A humildade é a verdade

     Nossos inimigos não estão longe, mas dentro de nós: traços temperamentais que não se dominam e podem acentuar-se com o decorrer dos anos, frouxidões que nos tornam preguiçosos e desleixados. Tudo isso é joio que debilita a alma. Condição indispensável para lutar e melhorar o caráter e o temperamento é o reconhecimento humilde – a humildade é a verdade – dos defeitos pessoais, pois há sempre um rival à espreita: a soberba, que cresce quando não procuramos ver nossas deficiências. Outro inimigo é a imaginação de pensar que a luta por melhorar tem que se dirigir contra obstáculos extraordinários, como dragões que cospem fogo. É manifestação de orgulho acreditar que sairá vitorioso da luta maior quem não trava batalha nas pequenas lutas diárias.

4 – Lutar no pequeno dever de cada dia

     O esforço por cumprir os pequenos deveres é exercício prático que faz crescer em virtudes, e estas eliminam os defeitos. Não se trata de fazer coisas superdifíceis, mas em realizar com mais amor as obrigações diárias: executar com perfeição o trabalho; cumprir os deveres familiares e de amizade; não dispersar o coração em frivolidades na internet, cujo resultado é a superficialidade; não ceder sempre à lei do gosto, que nos torna caprichosos e moles, e servir-se, por exemplo, um pouco mais da comida que gostamos menos e menos da que gostamos mais; pular da cama no horário previsto, sem ceder um minuto a mais à preguiça; dominar os traços temperamentais destoantes; ser agradáveis quando se está sem disposição; etc. A preguiça, a soberba, a sensualidade, o egoísmo são os abrolhos e espinhos que enraízam-se em nossa alma e nos desfiguram, se não os arrancamos.

5 – Conhecer o próprio temperamento

     Pelo temperamento, que é o nosso jeitão de ser recebido por herança genética − e que pode ser melhorado −, escoam inclinações, omissões, manias, tristezas, euforias, obstinações, etc., que devem ser examinadas. Nunca acabaremos de nos conhecer totalmente, porque o temperamento sempre produz rebroto, sendo muitos deles nocivos à personalidade, o que demonstra que não devemos ficar satisfeitos ou “dormir nos louros” com as vitórias conquistadas.

     O temperamento manifesta-se em ações positivas e negativas. As positivas devem ser incentivadas, por exemplo, comover-se diante da miséria material ou moral das pessoas ao redor, enfrentar as tarefas sem adiá-las; as negativas, como a indiferença diante da dor alheia ou o egoísmo de não dedicar tempo aos demais, devem ser combatidas. Uma pessoa impulsiva manifesta em seu temperamento impaciências, reações desproporcionadas, inoportunidades, faltas de carinho e compreensão com os demais: se não lutar para ter autocontrole nunca eliminará essas reações negativas. Quanto aos pessimistas, devem vigiar suas impressões para evitar palavras que azedam o ambiente com visões negativas, comentários céticos ou cínicos. Já o sentimental necessita policiar-se para não se escravizar pela lei do gosto, que o torna inconstante, volúvel, como os próprios estados de ânimos e os sentimentos.

6 – Defeitos de caráter

     Além dos defeitos de temperamento existem os de caráter, que vamos adquirindo ao logo do tempo por influências externas. São hábitos ruins que podem se manifestar no relacionamento com os demais: brutalidades, ironias, descaso, suscetibilidades, espírito crítico, desconfianças, mentiras, etc. Ou no desempenho do trabalho: lentidão, “jeitinho” ou tapeação, começar pelo mais fácil e não pelo mais importante, etc.

     O conhecimento próprio é necessário para descobrir os traços do caráter e as reações temperamentais quem destoam, a fim de estabelecer propósitos de luta para vencê-los. Facilmente somos capazes de ver as falhas dos outros e dificilmente as nossas, e nos justificamos com desculpas do tipo “achei que…”, pensei que…”, é que…”. Reconhecer os defeitos pessoais ao “dar nome aos bois”, e “não dourar a pílula”, põe em evidência o inimigo com o qual devemos lutar. O egoísmo força-nos a não renunciar aos apegos e manias; o comodismo nos instala na mediocridade, que no fundo é a covardia de nos enfrentarmos.

     O “espírito de exame” se consegue mantendo a alma alerta ao longo do dia, e com desejo de conhecer-se para se corrigir. No final de cada dia, antes de ir para a cama, examinar-se durante três minutos, com sinceridade e sem autocomplacência, a fim de detectar as falhas ocorridas, e tirar dois ou três pequenos propósitos que irão contra elas: se fomos impontuais no trabalho, tirar o propósito de chegar no horário; se perdemos tempo nas redes sociais, determinar-se a não fazer isso no dia seguinte. Há muitos outros pequenos propósitos que podemos estabelecer-nos: sorrir, ouvir os demais e falar menos de si, não buscar continuamente o mais confortável para se tornar mais rijo, ter espírito de serviço e ajudar nas tarefas do lar…

7 – Começar e recomeçar a lutar

     Não nascemos prontos e devemos construir-nos a cada dia. Somos obra inacabada e Deus conta com a nossa continua reforma. O que não pode ocorrer é deixar que os anos passem e os defeitos se cristalizem, como o de alguém que é conhecido pelas suas falhas, a ponto de ser apelidado de preguiçoso, ou guloso, ou mal-humorado, pavio curto, melindroso…

     Começar e recomeçar a lutar cada dia nas mesmas coisas, com paciência e perseverança, é ato heroico que deve ser feito em primeiro lugar por amor a Deus, pois assim imprime-se à luta pessoal uma finalidade transcendente e de valor infinito.

Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/