Crianças de 4 e 5 anos e a educação familiar

1 – Crianças de 4 e 5 anos e a educação familiar. 2 – Teimosias de filhos não se cura com teimosias de pais. 3 – Pais que mandam muito erram. 4 – Como acabar com chiliques e birras. 5 – A criança precisa aprender a defender-se. 6 – Medos, angústias, obsessões infantis, ciúmes. 7 – Dar responsabilidades é fomentar a autonomia da criança.

1 – Crianças de 4 e 5 anos e a educação familiar

     Com quatro anos de idade, é notório o resultado da boa ou má educação que a criança recebeu desde o seu nascimento. Agora, novos aprendizados podem ser propostos, sendo necessário também corrigir traços negativos do caráter adquiridos nos primeiros anos: não cumprimentar, brigar com os irmãos ou amiguinhos, teimosias, usar o choro como chantagem, ciúmes, não emprestar, deixar jogados os brinquedos, falta de hábitos de higiene…

     Crianças nessas idades encontram-se numa etapa maravilhosa e muito importante de sua educação, pois começam a estabelecer as bases da personalidade: a comunicação alcança notável avanço (gostam de falar e de dialogar); vivenciam as primeiras ideias que ocuparão os melhores lugares em sua inteligência; mostram-se receptivas a tudo; começam a ganhar hábitos de autonomia; têm desejos de ajudar os pais. É unânime a opinião de que sair com crianças de quatro e cinco anos é uma beleza, pois já não é necessário carregar um arsenal de coisas: papinhas, água, fraldas, talco, pomadas, bonecos… Aceitam qualquer plano com os pais, com quem preferem conviver, mais que a outras pessoas.

     Diante dessas novas realidades é necessário saber educar com amor, exemplo e paciência, que são os pilares básicos da educação, e apoiar-se nos pontos fortes da criança para que ela supere com ânimo e valentia os defeitos da idade. Ter presente que a violência contra a criança leva ao medo, à angústia e à obediência calculada, além de torná-la agressiva com os irmãos e outras crianças. Por medo, poderá ocultar a verdade sobre os fatos e perder a simplicidade. É preciso demonstrar amor e atuar com paciência ao ver na pequena travessura não um problema, mas ótima ocasião para ajudá-la a melhorar. É importante que pai e mãe atuem em concordância, tendo um Plano de Ação bem pensado para aplicar com paciência, porque o que vale a pena não se consegue de um dia para o outro.

2 – Teimosias de filhos não se cura com teimosias de pais

     Uma criança de quatro ou cinco anos gosta de impor seus desejos: se pede à menina para sair com a calça azul, ela dirá que quer ir com o vestido vermelho. É muito difícil enfrentar a criança teimosa, e contrariá-la continuamente não ajudará a mudar seu caráter. O que fazer? A teimosia da criança não se vence com a teimosia da mãe. É preciso atuar com inteligência ao realizar os objetivos por meio de pequenas aproximações. Se o filho teimar cinco vezes ao dia, contrarie-o uma ou duas vezes, e faça-o obedecer naquilo que é importante. Desta maneira, e pacientemente, chegará a conseguir que ceda no importante e aprenda a obedecer.

3 – Pais que mandam muito erram

     A personalidade da criança de quatro e cinco anos está em formação. Seu autoconceito necessita adquirir a segurança de pensar e realizar algo por conta própria. Contrariar todas as suas iniciativas a fará sentir-se confusa e apática: – Tudo o quero sempre está errado! Os pais devem diferenciar entre o que é importante que a criança cumpra, ainda que ela não queira (não dizer palavrões, ser ordenada e guardar suas roupas e brinquedos, não brigar ou chutar, ser agradecida, cumprimentar as pessoas…), e aquilo que não é importante, a fim de evitar discussões bobas. Por vezes, o autêntico problema de não obedecer está em que os pais mandam muito, e a criança quer provar sua força ao atuar com independência. Deixe uma margem de criatividade para ela; não digam sempre a última palavra em tudo, a fim de que a criança conclua sobre o que é razoável: se vestiu os sapatos com os pés trocados e pergunta se estão corretos, sorria e não diga nada, mas apenas pergunte: – O que você acha? Assim, ela terá que pensar e expressar uma opinião.

     Aos três ou quatro anos surge o que se costuma chamar a “idade do não”. É um momento incômodo para os pais, mas está dentro do processo evolutivo normal da criança, com a floração mais acentuada da vontade infantil. Nesse período é importante fundamentar bem os motivos para que a criança obedeça, a fim de que perceba o quanto é razoável fazer o que pedem. A desobediência nessas idades não provoca mais danos morais que a irritação de seus pais. O hábito de obedecer será facilitado pela atuação ordenada de seus responsáveis, e não pela imprevisível e inconstante atitude de exigir algo alguns dias e em outros não. Se, por exemplo, indicarem à criança que pendure no cabide o uniforme escolar ao chegar em casa, não devem desistir até que isso passe a ser um hábito (os pais não devem pendurar para não perderem autoridade).

     Os pais têm o direito de ser obedecidos, mas devem elogiar os esforços da criança, que terá mais alegria em obedecer. Há pais que correm o risco de se contentarem apenas com a aparência de obediência, porque não sabem explicar e não se dão conta de que o mero cumprimento de uma ordem não desenvolve a virtude da obediência, que é racional e traz a alegria de se atuar dentro da verdade.

4 – Como acabar com chiliques e birras

     A criança de quatro anos está vermelha de tanto berrar, e a mãe, à beira de um ataque de nervos, agarra o pirralho e lhe aplica um corretivo. A resposta não se faz esperar: o pequeno bate na mãe. Não se solucionam birras com histerismos maternos. Diante de um ataque de raiva de um filho, deixe-o berrar por um tempo. A seguir, aproxime-se dele e tente dialogar para acalmá-lo; se o consegue, acabou a raiva; se ele continua chorando, não grite e nem brigue para não excitar ainda mais a sua agressividade. Volte a deixá-lo sozinho, a fim de pare por si a birra. Quando, esgotado, se acalmar, abrace-o de modo que note o quanto é querido. Empregue todo o tempo que for necessário para falar com o ele sobre quanto você o ama, pois é o que mais tranquiliza a criança. Uma vez serenado, não deixe de dizer ao filho, com ternura, que fez muito mal com aquela demonstração de raiva, mas que você o perdoa, e pede para que não volte mais a fazer aquilo. O que não convém, quando a criança se tranquilizou, é repreendê-la com modos bruscos por ter se portado mal, pois a birra da mãe dará início a nova sessão de raiva da criança. Será por meio do diálogo tranquilo que a criança se conscientizará de que não agiu bem. Passe um tempinho abraçada ao filho, fazendo-o perceber o quanto é amado, pois isso terá mais efeito do que atuar com gritarias.

5 – A criança precisa aprender a defender-se

     A criança de quatro anos, como consequência de uma maior abertura aos demais e do afã por afirmar-se, tende a impor-se e, com isso, pode criar atritos com os irmãos e seus primeiros companheiros. Não dê muita importância a essas querelas. O fundamental é que, ao final da discussão, o pequeno faça as pazes com seu “adversário” e saiba, por seus pais, que não está certo brigar. Acostume-o a se defender sem violências. Deixe, com uma discreta vigilância, que ele mesmo resolva os próprios problemas. Não se lancem apavorados para salvar a criança da confusão em que se meteu, a fim de não acostumá-la a que os pais solucionem suas encrencas, o que a faria perder a capacidade de resolver as situações pelas quais toda criança terá que passar. Os atritos irão polir as arestas do temperamento dela, e a fará comportar-se com mais prudência para não desagradar aos demais. Protegê-la não é colocá-la em redoma de vidro para que nada sofra, e anular sua capacidade de reação ante a vida. Ao contrário, significa torná-la forte e segura de si para que desde pequena se acostume a resolver seus problemas.

6 – Medos, angústias, obsessões infantis, ciúmes

     Certa mãe constatou que até três anos de idade seu filho nunca teve medos, mas a partir dos quatro começou a tê-lo: medo de morrer ou de que irão deixá-lo só. O medo faz parte do processo de maturidade normal da criança, que ao crescer e desenvolver a imaginação, tem mais consciência do que é a escuridão e as consequências de ficar só. Se até esse momento o filho dormia tranquilo, agora necessitará de uma fraca luz acesa ou de que a mãe o acaricie e converse com ele no próprio quarto da criança. O mau seria não superar o medo, convertendo-o em obsessão ou fixação angustiosa. Trate-o com amor e paciência, diga que vai ajudá-lo a perder o medo. Se, por exemplo, a escuridão o assusta, brinque de entrar com ele em locais escuros e fique ali por um tempo. Na escuridão, conte histórias de personagens valentes que de pequenos tinham medo do escuro, mas venceram suas paúras. Isso o ajudará a ter cada vez mais confiança em si e nos pais. Um último conselho: não use os medos da criança como ameaças contra ela.

     A criança ciumenta sofre muito ao se sentir deslocada, destronada. Ela necessita sentir-se querida e se isso não acontece, chama a atenção de mil maneiras, seja com caprichos injustificados ou com agressões para com o seu “rival”. Ignorar o problema não conduz a nada, nem lembrar à criança quinhentas vezes que ela é ciumenta, pois isso consolidará o sentimento, tornando-o frequente. É preciso ter com a criança mais demonstrações de carinho: uma carícia sorridente é mais eloquente que engenhosos discursos. Se os ciúmes se dirigem contra o irmão menor, dá bom resultado pedir a colaboração do filho ciumento nas tarefas de higiene e de vestir o pequeno, e outras serviços que tenham a ver com o bebê, pois o que sofre ciúmes sabe que conquistará mais o coração da mãe com a ajuda que prestada a ela, e isso o deixará muito contente, além de perceber como é desvalido seu irmãozinho.

     Procure não fazer diferenças entre os irmãos. Se há alguma razão forte para trazer algum presente apenas para um deles, explique que faz isso porque ele está doente e sofre ao não poder brincar. No que se refere às demonstrações de carinho, todos seus filhos têm direito ao mesmo: se abraçou um, faça o mesmo com o outro. Mas nem sempre tudo é paritário entre os irmãos: a criança pequena tem que aprender a aceitar sem ciúmes que, por sua idade, não poderá fazer todos os planos de seus irmãos maiores: ir acampar, jogar futebol em outro local mais distante, ir a uma festa, deslocar-se sozinho pela rua, etc. O pequeno tem que aprender a controlar o “eu também quero ir”, e aceitar que não poderá haver igualdade em todas as situações.

     Rir e chorar ao mesmo tempo não é fato que deva causar preocupação. Esse desequilíbrio afetivo é uma fase característica dos quatro anos (aos seis anos já não ocorrerá mudanças bruscas de humor). Controle-se ao perceber que o filho brincava alegremente e de repente passou a berrar porque a irmã pegou seu lápis (para a criança seu lápis não é uma bobagem: é o seu lápis!). Tenha paciência e trate de acalmá-la, pois tal como em segundos passou da felicidade à tristeza, também o fará em sentido contrário.

7 – Dar responsabilidades é fomentar a autonomia da criança

     Aos quatro ou cinco anos, a criança aprecia assumir responsabilidades porque quer agradar aos pais e ser útil ao imitá-los nos serviços que prestam a todos no lar. É importante pedir-lhes ajuda em pequenas tarefas que possam desempenhar bem, para que desfrutem em servir. Não desperdiçar essa tendência natural de querer ajudar; estimule o sentido de responsabilidade da criança, que terá alegria em responder pelo compromisso a quem a incumbiu, sejam os pais ou um irmão mais velho. Ter responsabilidade aos quatro anos estimula o espírito de serviço e a preocupação pelos demais. Esse hábito se transformará na virtude de desprendimento e eliminará o egoísmo de pensar só em si e nas coisas pessoais, tão comum, infelizmente, em adolescentes que não foram educados com eficiência. Os pais devem agradecer os serviços que as crianças prestaram, mas sem premiá-los com objetos materiais. A satisfação do dever cumprido deve ser suficiente, o que não quer dizer que de vez em quando todos comemorem com sorvetes o esforço das crianças.

     Há pais que não querem se atrasar para sair e substituem a criança em tudo o que ela deve fazer: acordam, banham e vestem a criança; depois passam manteiga no pão, etc. A pontualidade é muito importante, mas não a ponto de converter a criança num bibelô inerte. Não se trata simplesmente de que a criança coloque o sapato sozinha, mas que desenvolva a autonomia e a responsabilidade. Se trata de ajudar a amadurecer. Limitar a autonomia ou a aprendizagem é limitar sua capacidade de se desenvolver, que é mais importante do que chegar no horário seja onde for. Tranquilizem suas pressas e aprendam a ter paciência, pois a criança não é um pequeno adulto que deve agir com a velocidade dos pais. Se querem chegar no horário, iniciem antes o processo de se aprontar. Não se importem em dar o último retoque no vestido ou no penteado da criança. O importante é que ela adquira o hábito de fazer as coisas por si. Elogiem seus êxitos para aumentar a autoestima e a segurança no agir.

     A criança de quatro ou cinco anos começa a estabelecer claramente os limites entre o “seu” e o “meu”, e não quer que troquem seus objetos por outros: sabe o que é dos irmãos e o que pertence aos pais. É bom que que ela estabeleça essas diferenças, pois isso desenvolve a individualidade, o sentido do valor das coisas e o respeito pela propriedade dos outros: saberá não abrir as gavetas dos pais e dos irmãos sem pedir licença (o mesmo devem fazer os pais com as coisas dela). Também deve ser estimulada a emprestar ou dar com alegria, explicando que doar constitui uma mostra de carinho e de generosidade, e que muitas pessoas carecem até do essencial para viver. Assim, desenvolverão o hábito de atuar em favor dos demais.

     O período de quatro e cinco anos de idade é rico em aprendizagem, que se tornará permanente. A fim de ajudar os pais, continuaremos em outros boletins a abordar mais aspectos acerca da tarefa educativa nessas idades.

Texto adaptado por Ari Esteves, com base no livro “Tus hijos de 4 e 5 años”, de Manoli Manso e Blanca Jordán de Urríes, Colección Hacer Familia, Spanish Edition, Madrid.