1 – O pudor é um convite à discrição da intimidade. 2 – Não ser porta-voz da intimidade alheia. 3 – A quem confidenciar o que é íntimo? 4 – Educar para o pudor. 5 – O pudor enobrece a pessoa. 6 – Pudor no modo de vestir. 7 – A mulher e o pudor.
1 – O pudor é um convite à discrição da intimidade
O pudor, além de instinto natural manifestado no sentimento que faz a pessoa sentir-se mal diante da exteriorização do que é íntimo, é também um hábito ou virtude moral − portanto radicada na inteligência − de preservar da curiosidade alheia certas partes do corpo, sentimentos, pensamentos. A intimidade é o mais próprio de cada pessoa, e se estende não apenas ao visível, mas também ao mundo interior de cada indivíduo, e que pode ser imprudentemente exteriorizado por meio de palavras ou gestos. Pudor, castidade ou pureza fazem parte de uma virtude maior chamada temperança.
Pudor é convite à discrição, à negativa de mostrar o que deve permanecer oculto, e inspira o modo de vestir e de falar ao manter silêncio ou reserva quando se advinha o risco da curiosidade malsã. A vigilância facilitada pelo pudor modera a sexualidade ao ajudar a pessoa a se desenvolver em clima que assegure a supremacia da razão sobre os instintos e suas possíveis desordens.
Quem oferta a sua intimidade aos meios de comunicação, a fim de convertê-la em assunto público, perde-a e ficará na miséria, ao menos moral. O despudor pode estar relacionado à vaidade, ao exibicionismo ou desejo de chamar a atenção, a ponto de traficar o corpo e a própria intimidade, por julgá-los de pouco valor. Quem é interiormente rico não necessita do aplauso alheio para se afirmar.
A pessoa despudorada tem agravada a sua consciência ao se fazer cumplice dos erros morais provocados em outros. Atitudes excitativas causadas pelo modo de vestir, de se comportar e de falar, dão lugar a pensamentos e práticas imorais realizadas por outros. Ao não aplaudirmos nem darmos audiência a ações que revelam uma pobre compreensão da dignidade humana, ajudaremos aos que comercializam a sua intimidade a que repensem seu comportamento.
2 – Não ser porta-voz da intimidade alheia
Antes de expressar algo íntimo, é preciso pensar se convém fazê-lo, e em que grau a própria imagem, e a de outra pessoa, ficará danificada. A frivolidade de expor a intimidade alheia faz cair na difamação, destrói o próprio caráter e atenta contra a dignidade do outro. O comportamento digno é não lançar ao vento o mórbido que se venha saber, por exemplo, acerca das relações imorais de celebridades ou não; a não comentar, nem para se lamentar, da pobreza moral dos reality show e de outros programas levados ao ar por diferentes mídias; a não repassar imagens sensuais veiculadas nas redes sociais, etc. Com isso, não agravaremos a consciência pessoal ao ser cúmplices das desordens morais provocadas em outras pessoas.
3 – A quem confidenciar o que é íntimo?
Se há necessidade de compartilhar experiências íntimas ou problemas pessoais, a fim de buscar uma ajuda, o destinatário deve ser uma pessoa e não uma multidão. A confidência não deve dirigir-se a qualquer um, mas a quem mereça confiança e seja capaz de penetrar até a raiz do que será comunicado. Determinadas ações humanas, sentimentos com relação a alguém, conflitos familiares, revelações ou desabafos, é território onde se autoriza a penetrar só as pessoas íntimas que podem compreender e aportar um bom conselho, dada a sua sabedoria, prudência, sentido de responsabilidade e discrição. Ambas as partes, tanto a que se abre quanto a que escuta, se beneficiam e crescem interiormente: a que fala se liberta do que a oprime, e a que ouve sente alegria pela prova de confiança, que a fará crescer em sentido de lealdade e de responsabilidade.
4 – Educar para o pudor
O pudor se começa a viver na família. Por ser uma virtude, além de sentimento natural, pode crescer por meio de uma delicada educação. O gosto estético ou a compreensão da beleza é educável e pode melhorar, refinar-se, com a formação da consciência. Educar no pudor as crianças e os adolescentes é despertar neles o respeito a si e aos demais. Dada a inexperiência de vida, é preciso ensinar às crianças sobre o que é íntimo e deve ser cuidado, a fim de que logo reconheçam em si e nos outros.
É preciso explicar às crianças algumas atitudes para que as vivam: bater à porta antes de entrar no dormitório de outro, não contar coisas íntimas da família aos amiguinhos ou a estranhos, desligar a tv ou mudar de canal diante de uma cena inconveniente, não andar pela casa despidos, ensinar a fazer perguntar íntimas em particular, não bisbilhotar aspectos da intimidade de outras pessoas, explicar o motivo para não frequentar lugares onde se despreza o pudor. A criança deve aprender a vestir-se com recato e ser discreta: uma menina que sai à rua com o corpo exposto além do limite razoável, perderá a sensibilidade e continuará a fazê-lo na adolescência e na juventude. É importante que cada membro da família disponha de seu próprio dormitório ou ao menos de um armário. É necessário cuidar das áreas em que cada um se veste e se despe (isso também deve ser vivido no ambiente escolar).
Os pais devem dar exemplo em casa: vestir-se com recato e bom gosto, diante dos filhos não dar mostrar de carinhos próprios da intimidade conjugal, não se permitir filmes que instiguem a sensualidade… Um pai que anda pela casa de tronco nu e calção deve pensar se está respeitando as filhas e os filhos, se os estará educando para o despudor, e se deixará neles uma triste imagem paterna.
5 – O pudor enobrece a pessoa
A prática do pudor é autodomínio, é colocar limite à exposição do corpo e da interioridade. Isso não é puritanismo, mas dignidade e respeito a si e aos demais, e revela a rica corporeidade e espiritualidade de quem se conduz pela razão. O pudor convida a viver diversos aspectos que enobrecem a pessoa:
- Ter paciência e moderação nas relações amorosas, exigindo que se cumpram determinadas condições, tendo em vista um compromisso definitivo entre o homem e a mulher;
- Leva a ocultar os valores sexuais para não os transformar em coisa, nem dar motivo a que os demais vejam a outra pessoa como mero objeto;
- Evitar conversas e informações sobre o comportamento ou sentimentos pessoais e de outros a quem não tem o direito de saber;
- Não falar sobre temas escabrosos, entrevistas ou imagens veiculadas por determinados programas de tv ou por outros meios de comunicação que angariam audiência ao revelar a vida íntima de personalidades públicas (são açougueiros de carne humana);
- Cuidar da linguagem habitual para que não seja vulgar. Pessoas com boa educação se sentem incomodadas diante de falas grosseiras ou que narrem fatos ou anedotas que violentem o pudor.
6 – Pudor no modo de vestir
O pudor não está em conflito com a elegância, antes é exigido por ela, pois inspira uma maneira de viver que permite resistir às imposições da moda e da pressão de ideologias materialistas. Cada um veste-se do modo como lhe agrada, o que faz dessa ação um reflexo da pessoa em sua integridade: corpo, sentimentos, inteligência e vontade.
“Elegante” vem de “eleger”. A pessoa elegante é a que elege bem ao saber que na escolha intervém fatores além da moda e da combinação das cores: o físico da pessoa, o que ele pode provocar e a circunstância de vestir-se para um passeio, trabalho, festa ou esporte. Há pessoas que pela falsa compreensão do que é ser autêntico, não diferenciam as circunstâncias e fazem o ridículo de se vestir inapropriadamente ao não distinguir os momentos: podem ir a um casamento de jeans, ou sair com a namorada de bermuda e camisa de time de futebol, enquanto ela vai elegantemente vestida. Com isso, acabam não respeitando ou não compreendendo a dignidade do outro.
Seguir a moda facilita a vida, mas sem ser escravo dela, ou de suas imposições muitas vezes imorais. Cabe a cada um ir contra a corrente para mudar certos costumes que atentam contra o pudor. Vestir-se para o esporte não anula as exigências do pudor.
7 – A mulher e o pudor
A mulher deve saber valorizar o corpo em unidade com seu espírito. Se a mulher perde o pudor, perde o seu mistério, se coisifica. Existe na mulher algo de misterioso, inexaurível, que ultrapassa a corporeidade e atinge a alma. Dante Alighieri viu a alma no sorriso e nos olhos de Beatriz: “Pois em seus olhos brilhava um rio / tal que pensei com os meus tocar o fundo / da minha glória e do Paraíso”. Os olhos são a janela da alma e refletem a expressão do corpo e da interioridade. O que não é misterioso não é capaz de oferecer um interesse duradouro, mas para consumo imediato. Abdicar o pudor pode sinalizar falta de compreensão sobre o que é o verdadeiro amor.
Desnudar-se além do conveniente em praias, piscinas e festas é um modo de chamar a atenção para a corporeidade, e revela um corpo sem mistério que perde a riqueza que nasce do espírito, que é onde reside a personalidade humana. A sabedoria do pudor ilumina o semblante e revela que a personalidade tem algo que transcende o corporal porque o supera. A razão humana alcança compreender que na pessoa há algo superior à matéria e criado por Deus. Esse algo é a alma espiritual, que ao ser unida à matéria, eleva-a. Um corpo não constitui o ponto final de nossas percepções, e nos remete para algo que está além dele.
Texto adaptado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, com base na obra “O pudor”, de Ada Simoncini, Editora Quadrante, São Paulo.
