A alegria de servir

1 – A alegria de servir. 2 – As virtudes estão para melhor servir. 3 – Um ambiente relacional facilita a aquisição das virtudes. 4 – Não somos autossuficientes. 5 – Necessitamos da ajuda de outros. 6 – O bom exemplo estimula aos demais. 7 – As crianças se alegram ao servir

1 – A alegria de servir

      Todos estamos chamados a servir, seja como pai, mãe, irmão, amigo, profissional. Não há possibilidade de amar sem recusar-se ao egoísmo de viver só para si, que é causa de muitas tristezas. Manter-se no encerramento pessoal, isolar-se, é terreno de infelicidades. Não compartilhar, não ter pessoas ao redor a quem olhar com afeto, e a quem se dedicar, empequenece a alma. Em outras palavras, só nos encontramos de verdade ao doar-nos. A noção de pessoa é inconciliável com qualquer tentativa de coisificação, de ver os demais como objeto. A alegria de ser para os outros é manifestada no dia a dia em atos concretos de entrega, de serviço, de compreensão, de partilha, seja em casa, na vida social ou com amigos do trabalho.

2 – As virtudes estão para melhor servir

      Virtude vem de virtus (força), porque empodera, dá domínio sobre si. Mas, o objetivo não é buscar uma perfeição individual, já que o caminho da felicidade nunca é isolado, narcisista. Não existem pessoas virtuosas fechadas em si, nem à margem dos demais, pois só haveria aparência de virtude, casca, já que o egoísmo não é pasto para virtudes. Adquire-se uma virtude não para se mirar diante de um espelho e apreciar os próprios músculos, mas porque existe uma ordem de perfeição em cada ser, e quanto à criatura racional essa perfeição, essa harmonia individual, está no amor, em servir por amor, primeiramente a Deus, e depois aos demais, começando pelos mais próximos.   Entrelaçadas, as virtudes embelezam ao arrancar as imperfeições que enfeiam a alma, e facilitam a liberdade de sair de si para doar-se, que é onde reside o verdadeiro amor. A vida só é verdadeira e encontra sentido no serviço aos demais.

3 – Um ambiente relacional facilita a aquisição das virtudes

    Nossas disposições interiores são educadas ou modeladas em contato com os outros. Quando os pais aconselham o filho a ter boas maneiras e agradecer os favores recebidos, iluminam a razão da criança com princípios firmes que se transformam em bons hábitos, e ensinam a realizar um ato bom para o outro. Educar à criança desde a primeira idade para que seja ordenada ao deixar as coisas em seu lugar, e não em qualquer canto, fortalece-a para vencer a preguiça e a comodidade, e a faz compreender que é um bem para as demais pessoas do lar. A motivação não estará em buscar somente uma harmonia ou uma perfeição individual, mas também um bem para os demais.

    Todas as virtudes têm um caráter relacional e crescem em comunhão com os outros, inclusive as que parecem mais individuais: a fortaleza, por exemplo, também leva em direção ao outro porque é preciso ser forte para doar-se, para perseverar no trabalho começado, que é um serviço aos demais; a temperança facilita o autodomínio para não se servir das pessoas; manter em ordem os objetos facilita a vida de todos, e não só a daquele que é ordenado.

4 – Não somos autossuficientes

      Há livros de autoajuda que oferecem como receita de felicidade ter uma vida independente, como se necessitar dos outros fosse frustrante e trava para o desenvolvimento pessoal. Dependemos radicalmente dos demais desde que nascemos. Podemos afirmar que a nossa existência se desdobra em direção ao outro. Não somos autossuficientes – nem os países o são –, pois precisamos do conhecimento do médico, do cozinheiro, da costureira, do mecânico, do motorista, do fabricante de utensílios… Necessitar dos demais não limita a liberdade, mas aumenta-a ao tornar a pessoa mais livres para servir com seus talentos pessoais, que é o melhor que se pode oferecer como dom de si. Isso é causa de alegria e dá sentido à vida pessoal.

5 – Necessitamos da ajuda de outros

      A nossa existência é conviver, é ser com os que nos rodeiam. Somente há vida onde há comunhão (até as instituições para sobreviver dependem da comunhão de seus membros). Os vínculos criados com os outros dão força para o crescimento pessoal. A imagem da pessoa independente e autossuficiente é enganosa, miragem, além de ser uma ingratidão, porque ninguém vive isoladamente: recebemos tantos cuidados, experiências e benefícios daqueles que nos precederam, como continuamos a receber dos contemporâneos e dos que ainda virão. Somos melhores quando há ajuda mútua: a partir de e com os outros.

      Cada pessoa tem um caminho próprio, mas é um elo de uma corrente. Na ordem da Criação, os dons de cada ser formam um conjunto harmônico, ordenado, para o bem do conjunto. Em nosso caminhar, todos temos uma vocação, uma função a desempenhar. A vida de cada pessoa é um tecido de encontro, de relacionamentos (ser com os outros): aprende-se a falar, a ler, a escrever, a ter uma profissão, etc., com a ajuda de outras pessoas. Sentir o apoio das pessoas e dar apoio a elas é fonte de alegria e de estímulo para seguir adiante: acompanhar e ser acompanhados. É mais fácil ser e crescer rodeados de pessoas em quem confiamos e que confiam em nós. A falta do apoio dos demais faz decrescer, e quando se cai não há quem estenda a mão.

6 – O bom exemplo estimula aos demais

      O bom exemplo das pessoas ao redor é estímulo para crescer em virtudes, seja na vida familiar, social ou profissional; e o mau exemplo enfraquece a aspiração para ser melhor. Um lar sóbrio, comedido, onde se vive a virtude da pobreza e do desprendimento, educa para a temperança todos os seus membros. Quando uma mãe cuida dos detalhes de ordem e limpeza da casa, e exige a colaboração dos demais em tais tarefas, ensina aos filhos o valor do cuidado com as pequenas coisas, e isso tem transcendência na ordem interior deles. O mesmo acontece entre amigos, colegas de trabalho e em qualquer comunidade humana: criar ao redor de si um ambiente virtuoso ajuda a que todos cresçam espiritualmente e caminhem ao encontro da própria perfeição. Pelo princípio da unidade da pessoa, ao melhorar em um aspecto, melhora-se em todos os demais.

7 – As crianças se alegram ao servir

      As crianças pequenas têm um desejo natural de servir, de agradar aos pais. Ao atribuir a elas tarefas que sejam capazes de realizar, as fará executar com alegria e em plano de brincadeira (brincar é o trabalho da criança). Basta mostrar ao pequeno de um ano e meio o cesto de lixo onde depositar a frauda suja, que ele repetirá essa ação alegremente todos os dias. Os brinquedos devem ser guardados em caixas separadas, e não amontoados numa só. Se os pais fixam na lateral de cada caixa a imagem do que nela deve ser guardado (uma para cada tipo de brinquedo: bolinhas, bonecas, lego, carrinhos, soldadinhos, etc.), ajudarão a criança a ganhar hábitos de ordem. Tarefas como colocar os pratos na mesa, recolher e lavar os talheres, varrer a casa, enxugar o banheiro, tirar o pó dos móveis, também são encargos que as crianças podem desempenhar, dependendo da idade, a fim de que aprendam desde pequenas a servir e colaborar com a ordem da casa e o bem estar de todos.

Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, com base nos ensinamentos de José Manuel Antuña, Oviedo, Espanha (página Facebook).