1 – Eu não sou os bens que possuo. 2 – É realmente necessário trocar de aparelho? 3 – Na família se aprende a viver a sobriedade. 4 – Como agir diante das carências? 5 – Doar o próprio tempo aos demais.
1 – Eu não sou os bens que possuo
Vivemos imersos numa sociedade à deriva, sem bases seguras, que vê como condição necessária da felicidade a posse de bens materiais ao identificar o “ser” com o “ter”. Os bens materiais têm valor relativo, instrumental, e não devem ocupar o primeiro lugar na vida das pessoas para não se converterem em obstáculos. A verdadeira identidade de alguém não está nas coisas que possui, mas no seu caráter e nos valores morais com os quais constrói a sua vida. Os objetos não são maus, se convertidos em instrumentos ao serviço do bem e para o amor ao próximo; porém, pervertem quando erigidos à categoria de ídolos que exigem prostrar-se diante deles e reverenciá-los como seres absolutos.
O desprendimento está ligado à virtude da sobriedade ou temperança, que põe harmonia e ordem nos desejos. As pessoas sóbrias, além de caminharem com soltura pela vida e perseguirem bens mais elevados, são as mais preparadas para suportar as carências e superar as inevitáveis frustrações que a existência traz. O desprendimento dos objetos não deve ser buscado por motivos econômicos, de poupança, mas por se tratar de um valor espiritual: não se apegar às coisas e ter equilíbrio e sobriedade no uso delas.
O importante não é a materialidade de ter isso ou aquilo, ou de carecer de algo, mas de se conduzir com soltura sabendo que os bens são apenas meios e não fins, e que há ideais mais elevados do que uma gorda conta bancária. Há pessoas com poucos bens, mas apegadas ao que possuem; há outros com muitas posses colocadas ao serviço dos demais, pois estão desapegados delas.
A pessoa desprendida foge do supérfluo e adota um estilo de vida sóbrio e temperado que livra o coração das falsas necessidades, que são como laços que atam ou lastros que pesam, escravizam e não deixam a alma aspirar a formas mais ricas de viver do que andar atrás das novidades oferecidas pela mídia (tem mais quem precisa de menos)
É preciso manter vigilância sobre as necessidades criadas, pois quem se descuida ata-se por milhares de minúsculos fios que suprimem a leveza da liberdade. O consumismo desenfreado busca unicamente o bem-estar material que satisfaz as necessidades primárias. Comprar e possuir pode dar a impressão de liberdade e de poder, mas logo se percebe que o impulso imoderado de adquirir coisas escraviza o coração: “onde está o teu tesouro aí está o teu coração”, diz a Escritura Sagrada. Certa jovem tinha 300 pares de sapatos porque não controlava o impulso de comprar o par que a atraída na vitrine. O desprendimento é antídoto ao consumismo, à desordem da concupiscência dos olhos.
2 – É realmente necessário trocar de aparelho?
A indústria eletrônica inova seus produtos a cada mês e cria falsas necessidades ao incentivar a aquisição de aparelhos sofisticados e caros. Antes de trocar o equipamento antigo, perguntar-se sinceramente se é necessária a nova compra, e isso não por motivos econômicos, mas ascéticos, de senhorio diante das coisas que nos cercam.
Ao ler a grande obra de Balzac, Eugênia Grandet, vê-se que o chefe da família era um avaro que só amava a riqueza, e submeteu os seus aos ditames da pobreza e miserabilidade pela ganância que o dominava. Vale à pena ler essa maravilhosa obra, pois diz o ditado que “é melhor escarmentar-se em cabeça alheia”.
É triste a história de Judas que, impelido pela sua cupidez, tirava o que era depositado na bolsa comum, e chegou a vender Cristo por 30 moedas de prata. A ganância vem criando muitos corruptos que não se importam prejudicar aqueles de quem retiram. A pessoa que põe a sua segurança nas coisas que possui fica tíbio e propenso a atender unicamente aos seus egoísmos e interesses, e perde de vista a necessidade dos demais, porque “não se pode amar a dois senhores: se odiará um e se afeiçoará ao outro”.
3 – Na família se aprende a viver a sobriedade
Para transmitir o espírito de desprendimento no lar, os pais devem começar por si mesmos, dando exemplo de sobriedade ao não criar falsas necessidades, evitar gastos supérfluos ou por capricho, abrir mão dos últimos modelos eletrônicos enquanto não baratearem, dar seu tempo à família e programar passeios e visitas culturais para o descanso de todos, fugir de exclusivismos (minha cadeira, minha poltrona, meu lazer), não perder tempo em celulares e mídias sociais, desapegar-se de si e levar com garbo e paciência os achaques e doenças, viver a sobriedade na bebida e comida, deixar o carro na garagem alguma vez e utilizar transportes públicos…
O consumismo infantil é realidade atual, pois as crianças se converteram em importantes clientes. Certa pesquisa francesa revelou que 43% das compras familiares são provocadas pela influência das crianças. Com isso, os pais são obrigados a trabalhar mais horas para proporcionar os bens que os filhos desejam e, assim, além de transformá-los em pequenos consumidores, deixam-nos sem o que mais necessitam: a presença dos pais ao seu lado. Certo pai viajava muito pela empresa e tinha por hábito comprar uma camisa de futebol do time mais popular da cidade para onde ia a trabalho, e com isso o filho acumulou mais de 30 camisas de esporte.
Educar os filhos na sobriedade é tarefa do casal, que implementará no lar diversões sóbrias e de baixo custo, exigirá o cuidado com as roupas e objetos para que possam servir ao irmão mais novo, ensinará a não deixar luzes acesas desnecessariamente e a fechar a torneira enquanto escovam os dentes, manterá os filhos com pouco dinheiro e ensinará a refletir sobre os gastos que fazem, não os vestirá à última moda ou com grifes e materiais esportivos caros, ajudará a compreender o esforço que se faz para ter as coisas necessárias…
A imaginação das crianças é poderosa, e as leva a transformar embalagens de produtos domésticos em infinidades de brinquedos: carros, aviões, ônibus com caixa de leite, coleções de potes e latinhas, dragões com o embalagem de ovos, recortes de heróis grudados em garrafas plásticas, jogos com tampas de refrigerantes… Os brinquedos sofisticados e caros suprimem a imaginação e a capacidade de criar, porque o botão não está dentro da criança, mas nos objetos que ganham.
O excesso de conforto amolece o caráter dos filhos, que ao crescer se tornam molengões. Quem não viu adolescentes que viveram cercados de facilidades, e agora exigem que os pais os levem a todo canto, porque são incapazes de utilizar transportes públicos. Tornam-se pirulões que não sabem o quanto a vida é dura, e viverão grudados nos pais até os 30 anos, pois terão medo de assumir responsabilidades. Certo taxista relatou que atendeu ao chamado de uma senhora para levar o filho dela à escola, e ouviu a seguinte indagação: − Seu carro tem ar-condicionado? Ao saber que estava para ser consertado, disse: − O meu filho só anda em carro com ar-condicionado.
4 – Como agir diante das carências?
Não se trata de instalar no lar a pobreza franciscana, que quebraria o ambiente grato da vida familiar: imaginemos uma casa sem um mínimo de conforto e não decorada de modo simples e com bom gosto para descansar após um dia de trabalho! Como alguém poderia renovar suas forças para recomeçar a faina do dia seguinte? A penúria e a escassez causada pela imprevidência geram mal-estar e desunião.
Diante de privações ou dificuldades econômicas deve-se procurar remediar a situação e colocar todos os meios o quanto antes, e confiar na providência de Deus. Se por vezes faltar o necessário, não se entristecer, mas oferecer a Deus a possibilidade de seguir os passos de Jesus Cristo, que prescindiu até do necessário, e não apenas do supérfluo. Os cônjuges não devem se lamentar diante das carências, a fim de evitar tensões no lar, mas reforçar o apoio e a compreensão mútua, pois as dificuldades se superam juntos e são uma escola para os filhos, que um dia reconhecerão a fortaleza e o espírito de sacrifício de seus pais, que souberam passar por períodos difíceis com alegria e bom humor.
5 – Doar o próprio tempo aos demais
Viver desprendido não significa ser indiferente diante da carência material ou espiritual de tantas pessoas. Uma boa ocasião para ter o espírito desprendido das coisas é ser generoso com instituições que trabalham para o bem dos outros, não dando só o que sobra, mas poupando para doar. O dever de caridade não é obrigação apenas dos que possuem bens, mas de todos, pois há quem não necessita de objetos materiais, mas de amor, companhia, atenção. Desprender-se do tempo pessoal para realizar obras de amor: visitar parentes idosos ou doentes, ir a asilos e levar uns doces para fazer companhia aos anciões.
É educativo ir com os filhos a comunidades pobres, orfanatos ou hospitais infantis e incentivá-los a doar às crianças que ali vivem, os brinquedos em perfeito estado que não utilizam mais, pois assim aprenderão a ser solidários e a condoerem-se pela pobreza de tantas crianças.
Textos elaborado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/
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