Castidade: virtude do coração que sabe amar

1 – A castidade é uma afirmação do amor. 2 – As virtudes educam os afetos. 3 – A inclinação dos afetos deve harmonizar-se ao bem integral da pessoa. 4 – Meios para viver a castidade.

1 – A castidade é uma afirmação do amor

    “Eu quis amar, mas tive medo. E quis salvar o meu coração”, diz a canção de Tom Jobim. Muitos têm medo de amar verdadeiramente, porque amar exige entregar-se à pessoa amada com um coração que não busca outras compensações.

    Uma das virtudes do coração que sabe amar é a castidade ou pureza de coração. Diante de tantas situações que pervertem o coração, compreende-se com clareza cada vez maior que essa virtude é uma afirmação do amor, que ao negar-se ou dizer não a atitudes ou atos que lhe são contrários, afirma o amor verdadeiro, que é indiviso.

    A pessoa casta é capaz de se conectar afetivamente e desfrutar de tudo o que é belo, nobre, genuinamente alegre. O seu olhar não é egoísta, dirigido a tomar posse do outro, mas contemplativo e agradecido ao não permitir que a relação que o une a cada pessoa ou coisa seja despersonalizada pelo mero desejo de possuir. Quem não é casto tem um olhar baixo, incapaz de desfrutar das pequenas coisas da vida e das relações de pura amizade e fragmenta seu coração, deixando-o sem rumo e embrutecido para tudo que é nobre e delicado, que lhe parecerá insípido porque necessita de emoções fortes para reagir ou experimentar algo agradável.

    Quem vive a castidade como afirmação do amor não precisa de um esforço extraordinário da vontade para rejeitar um impulso sexual desordenado, como o de buscar sites pornográficos ou imagens sensuais, pois seu mundo interior é tecido de realidades valiosas e de relações verdadeiras que o fazem opor-se a este impulso. Durante o período de namoro, a pessoa casta sabe que este é um tempo que deve durar no máximo dois anos ou dois anos e meio, o suficiente para conhecer a personalidade da outra pessoa, seu caráter, virtudes e defeitos, a fim de avaliar se estará apta para viver um projeto de vida comum e para sempre, aberto aos filhos para intensificar a confiança e o amor mútuo do casal. Antecipar os atos próprios da vida conjugal durante o namoro é desvalorizar o que se tem de mais íntimo, além de adulterar e despersonalizar a relação de amor.

    A virtude não é uma espécie de suplemento de força para a vontade resistir e respeitar as normas morais; não é a capacidade de ignorar a afetividade ao opor-se sistematicamente ao que sente como desordenado. Evidentemente tem presente que na formação da virtude é necessário alguma vez dizer não à inclinação afetiva, mas sabe que o objetivo da castidade não é esse não, mas um sim ou afirmação à realização do amor pleno.

2 – As virtudes educam os afetos

    Mais do que a capacidade de opor-se a uma inclinação desordenada, a virtude constitui a formação ou educação da própria inclinação para que a pessoa desfrute do bem verdadeiro ao permitir que cresça nela uma conaturalidade afetiva ou espécie de cumplicidade para com o bem, sempre querido pela vontade e desejado pelos sentimentos. É precisamente neste sentido que a temperança ordena a tendência natural ao prazer. Se o prazer fosse mau, ordená-lo significaria anulá-lo. O prazer é bom e a natureza humana tende a ele. Porém, pode não ser bom em todos os casos, sendo necessário ordenar a inclinação ao prazer para convertê-lo em aliado do bem. Quem não consegue essa ordenação dentro de si terá um inimigo que poderá destruí-lo da mesma forma que a água, sendo boa para matar a sede, pode provocar enchentes incontroláveis e destruidoras.

3 – A inclinação dos afetos deve harmonizar-se ao bem integral da pessoa

    Ordenar a tendência ao prazer não é fazer desaparecer essa inclinação, ignorá-la ou reprimi-la, mas integrá-la ao bem ao dar unidade aos desejos de modo que se harmonizem progressivamente com o bem integral da pessoa: corpo, alma e espírito. As tendências humanas são atraídas pelo prazer que causam; são modos de perceber o bem e de apresentá-lo como algo conveniente e que satisfaz. No entanto, isso pode não ocorrer: um doce pode atrair por ser agradável ao paladar, mas não será conveniente comê-lo se a pessoa for diabética. Cada tendência tem o seu único ponto de vista, e avalia a realidade apenas por essa perspectiva. Já a razão ou inteligência é a única faculdade que pode integrar todos os pontos de vista: no caso do doce, a inteligência não ficará apenas no que é agradável ao paladar, mas terá a saúde corporal como um bem maior e o julgará inconveniente para o diabético.

    Ao se permitir que uma tendência se imponha à razão, esta fica confundida e a afetividade passará a dirigir a pessoa. Daí a importância da virtude da temperança, que orienta as tendências para que sejam apoio e não obstáculos ao juízo da razão. A gula, por exemplo, revela que não se compreendeu o significado da necessidade de comer, que não se assimilou que o prazer de comer deve contribuir para o bem integral da pessoa, e não para a sua destruição porque essa tendência passou a buscar apenas o seu bem, e não o de toda a pessoa. O mesmo ocorre com o prazer sensual, que não pode ser um fim buscado em si e fora do contexto do amor verdadeiro, que é dentro do matrimônio, a fim de não perverter essa inclinação, que deve estar integrada ao conjunto da pessoa – corpo, alma e espírito –, ao reafirmar o amor entre os que se amam verdadeiramente e para sempre. A relação sexual humana não é puramente física, mas afeta o espírito.

    Quando Jesus Cristo diz “Felizes os limpos de coração porque verão a Deus” (Mt 5, 8), indica que os que têm o coração obcecado por paixões não conseguem ver além da sua obsessão. A virtude entendida como a criação de um mundo interior belo e equilibrado, faz desfrutar com a realização do bem. A castidade não deve ser vista como um negar-se aos atos desordenados que atraem aos instintos, mas como a criação de um mundo interior pleno de realidades valiosas, sobrenaturais e humanas, como é o amor, seja a Deus, à pessoa com quem se tem o coração comprometido, e às demais pessoas que esperam o nosso amor verdadeiro. Essa virtude cresce não só quando é necessário vencer uma inclinação torcida da sexualidade, mas quando se reafirma o amor.

4 – Meios para viver a castidade

    O coração que sabe amar conjuga harmoniosamente todas as virtudes, vibra com coisas valiosas e não com coisas insubstanciais, e sabe dar a vida por algo maior do que ele, e não se deixa dominar pelo efêmero e superficial. Quem ama deve crescer em diferentes virtudes para que seus desejos, interesses e aspirações sejam capazes de perceber o verdadeiro valor das coisas.

    Como criar um mundo interior limpo, casto? Em primeiro lugar ao evitar tudo o que possa perturbar o coração, como guardar a vista e a imaginação para que não turvem a alma; ao colocar freios à curiosidade; ao evitar o ócio e o navegar sem objetivo nas redes sociais: quem se deixa levar por qualquer vento aportará em lugar que não deveria ter chegado.

    Convém também crescer em fortaleza, porque essa virtude faz manter o rumo em meio às ondas das inclinações torcidas. A constância − virtude anexa à fortaleza − no trabalho e no cumprimento dos deveres diários fortalece o coração. A sinceridade conosco próprios e com Deus sobre o que nos acontece por dentro oxigena o coração e o impede de se intoxicar com afetos desordenados.

    Um meio indispensável para não deixar o coração viciar-se na impureza ou na busca do prazer sensual é pedir ajuda a Deus, pois necessitamos contar com a força dEle, já que somos fracos. As boas amizades ou relações humanas nobres e o aproveitamento do tempo cumprem também o papel de ajudar a viver a castidade, enquanto o isolar-se ou fechar-se em si é fonte de quedas. A solidariedade ou a dedicação e ajuda aos demais mantém o coração saudável, pois retira-o do egoísmo.

    Os interesses culturais de valor, especialmente a boa literatura, cinema, música, etc., aumentam a sensibilidade estética, e a beleza anda de mãos dadas com o bem e a verdade. Quem habitua-se unicamente a ver filmes violentos e de alta intensidade, leituras insubstanciais e planos de lazer cada vez mais exagerados, afeiçoa-se em viver apenas de emoções fortes, e necessita de um esforço cada vez maior para dominar suas emoções na esfera sexual e, caso o consiga, terá esse domínio como repressão ou negação, e não como um bem a ser buscado. É muito mais rico e eficaz criar um clima interior limpo, luminoso e afirmativo, porque o coração humano foi feito para desfrutar da beleza de Deus, já nesta vida e depois por toda a eternidade, e das coisas boas que Ele criou e pôs à disposição dos homens aqui nesta terra.

Texto adaptado e acrescentado por Ari Esteves, com base no artigo “Muito humanos, muito divinos (n.13): com todo o coração”, de Julio Diéguez, em www.opusdei.org/pt-br/. Imagem de Hasel Photos.