O silêncio para pensar

1 – O ativismo impede o enriquecimento interior 2 – O culto ao corpo esvazia a alma
3 – Conhecer-se para interpretar-se

1 – O ativismo impede o enriquecimento interior

    O homem moderno foge do silêncio, tão necessário para enriquecer o próprio mundo interior. O atual ativismo valoriza apenas a produtividade, a capacidade de gerir várias coisas ao mesmo tempo. Além disso, a televisão, o rádio no carro, as redes sociais, vídeos e noticiários roubam o pouco tempo para pensar e conhecer-se para melhor servir aos demais, pois é aqui onde reside o verdadeiro amor.

    É possível transformar o trabalho e a diversão em fuga de si mesmo, e esse desencontro leva à despersonalização. Consumir, comprar, passear, esporte em excesso e muitas notícias desencontradas preenchem o tempo e impedem o pensamento e a experiência que enriquece a alma. Não basta somar um aglomerado de vivências confusas colhidas em curiosear redes sociais e noticiários. Para ter uma leitura verdadeira de si e da realidade é necessário frear o alvoroço que torna os fatos inconexos, fragmentários e ininteligíveis. Sem o silêncio reflexivo, o centro do homem não se situa dentro de dele, mas fora, na agitação, e acaba-se tendo como opinião própria a dos noticiários, e as necessidades pessoais serão as determinadas pelos anúncios publicitários. Quem não é protagonista de sua própria vida será conduzido por outros: a euforia, as paixões descontroladas, depressões e tristezas serão os inquilinos dessa pensão sem dono.

    O silêncio enriquecedor é um convite à reflexão que faz ter presente o caráter instrumental e limitado das coisas. Quem busca a felicidade em objetos ou em mil atividades é porque renunciou encontrá-la dentro de si e, assim, não será feliz porque a felicidade é um bem espiritual, interior, e não se alcança na correria de quem imita o coelho atrás da cenoura amarrada em uma vareta a dois palmos de seus olhos. Os objetos podem fazer feliz por um momento, mas logo se percebe que são insuficientes, pois há no homem um anseio mais profundo de felicidade que não está no exterior dele.

2 – O culto ao corpo esvazia a alma

    Os armários se diferenciam pelo que guardam dentro: objetos de valor ou tranqueiras. Assim também os homens não se esgotam nos aspectos físicos exteriores, e são identificados pelo seu mundo interior (sua alma ou almário): sábio ou ignorante, culto ou inculto, cheio de luzes ou de sombras, coerente ou ilógico, verdadeiro ou equivocado, profundo ou frívolo…

    A preocupação de muitas e de muitos é com o bonito ou feio, e isso os faz gastar tempo excessivo no culto exterior do corpo: a foto que irá publicar nas redes sociais, malhação em academias, medicina estética e alimentação sofisticada, muito esporte, roupas esportivas caras e extravagantes… É preciso cuidar do corpo, da aparência, mas dedicar mais tempo a isso do que à inteligência, à vontade (que nos diferenciam dos animais) e à educação dos afetos (sentimentos, emoções e paixões), empobrece o mundo interior, que sendo mais complexo e rico necessita de mais tempo para ser instruído a fim de oferecer muito mais do que os aspectos corporais exteriores.

3 – Conhecer-se para interpretar-se

    A capacidade de refletir faz a pessoa tomar distância de si para ver-se como objeto de estudo: “Quem sou e qual o sentido da minha vida?” são perguntas não para se problematizar, mas para evitar viver uma vida desde fora, anódina. O princípio socrático “Conhece-te a ti mesmo”, convida à reflexão dos motivos que nos levam a agir. Esse conhecimento, que é uma apreensão de si, nos leva a saber se estamos no caminho da verdade e do bem, que é a senda para a felicidade. Todo conhecimento é uma conquista, e entender-se a si mesmo permite diagnosticar as possibilidades e limites próprios para estabelecer metas reais, além de corrigir os desvios de conduta. O homem não é feliz se não tiver algo a conquistar, se não possuir um projeto de vida ao serviço dos demais, e para o qual se sente com forças de realizar. Desejar a solidão não é fugir das pessoas ou rechaçá-las, mas encontrá-las de um modo mais profundo e enriquecedor.

    Há em cada pessoa fatores intelectuais, volitivos, afetivos e temperamentais que devem estar integrados e unificados para não se fragmentarem e conflitarem-se. Para isso, é preciso ilustrar-se não apenas com o conhecimento profissional, pois as profissões atuais são excessivamente especializadas e muito pouco integradoras, e só permitem apreciações parciais vida. O rechaço de uma interpretação integradora da pessoa leva ao desprestígio da religião, filosofia e arte diante das ciências experimentais.

    Todo autoconhecimento se dirige à posse de si mesmo. Mas o homem não pode resolver-se sem se conhecer, e sem a ajuda de Deus e do conselho prudente. Para conhecer-se é necessário ser humilde e sincero ao valorar as qualidades pessoais, e saber a ciência certa para determinada tarefa. Conhecer-se para dirigir-se, dominar-se. Ser homem é ser uno, é saber integrar inteligência, vontade e afetos em uma unidade de alma e, para isso, ajuda imprescindível é a leitura das grandes obras literárias, biografias; livros de antropologia e de religião…

Texto adaptado por Ari Esteves com base nos ensinamentos de Ricardo Yepes e Javier Aranguren, no livro “Fundamentos de Antropologia – Um ideal da excelência humana”, editado pelo Instituto Raimundo Lúlio, São Paulo. Imagem de Cottonbro Studio.