1 – Não ficar só nos argumentos das histórias 2 – A literatura como modelo de valores 3 – Ler para as crianças os tradicionais contos infantis
1 – Não ficar só nos argumentos das histórias
As obras de qualidade nos permitem sair do plano da vida cotidiana e imergir na trama de outras vidas. Mas para isso é preciso penetrar no tema mais profundo de cada obra, e não ficar apenas no argumento ou desenrolar da história, que é o mais óbvio e superficial. Penetrar no tema é discernir o caráter benéfico ou nefasto de certas atitudes. Em Pinóquio, por exemplo, o tema é o poder deformante da mentira, tanto para a alma como para o corpo.
Para descobrir essa trama é necessário ler a obra por dentro, como se fôssemos o próprio autor durante sua criação: é a chamada leitura genética, criativa. Quem leu MacBeth, de Shakespeare, perceberá a trágica ambição de um nobre escocês que assassina o rei para ocupar o lugar dele, o que o levou à destruição de si mesmo, porque sua consciência passou a acusá-lo a todo instante, fazendo-o perder a paz do espírito. O tema é a entrega desse nobre à ambição de poder, que o fez mergulhar vertiginosamente em sua ambição, a ponto de cometer um homicídio. Meditando no tema da obra MacBeth, concluímos que todos podemos nos ver caindo não em um homicídio, mas na paixão do orgulho, da vaidade, da cupidez ou ânsia pelo dinheiro ao preço da corrupção, no desejo de poder ou status social por egoísmo e não para servir aos demais… Essa obra faz notar ao que se reduz aquele que se entrega a uma paixão desregrada, onde qualquer meio é utilizado para se alcançar o fim desejado.
No livro “O Pequeno príncipe”, de Saint Exupéry, o pequeno nobre insiste para que o piloto lhe faça o desenho de um cordeiro. O que queria o menino: um desenho ou travar amizade com o piloto? Quem leu “Pinóquio”, de Carlo Collodi, riu com o nariz do moleque que crescia ao mentir, mas poderá ter ficado apenas no argumento da história, sem, contudo, penetrar no tema da obra, que trata do poder deformante da mentira, que desfigura não só o rosto, mas também a alma.
2 – A literatura como modelo de valores
Ter modelos é algo muito humano, mas a questão está em acertar e não errar na escolha. Um modo de ensinar valores ou modelos de conduta aos filhos são as narrativas (romances, novelas, contos, biografias, bons filmes), pois têm influência enorme na vida humana. Basta ler a “Odisseia”, de Homero, para ver a fidelidade entre Ulisses e Penélope; ou entre Romeu e Julieta, de Shakespeare. Contar histórias é melhor que discursos teóricos, seja para configuração moral da vida de uma pessoa ou de um povo.
Os pais devem viver e ensinar os valores que acreditam. Valores são modelos de conduta que adotamos para orientar a nossa vida. Educar em boa parte é transmitir os valores que se acreditam e que filhos devem assumir por vontade própria, sem necessidade de vigilâncias. A pergunta sobre os valores ou modelos que escolhemos tem sentido porque direcionamos a nossa vida por eles. Há quem age por valores de utilidade primária (comer, beber, se divertir); outros pela beleza física, fama, poder, dinheiro, pátria, cultura, destreza técnica, família, religião etc. Examinar os valores que regem a própria vida e os que se querem para os filhos é necessário para não construir sobre bases falsas e origem de fracassos.
Aprecia-se não valores teóricos, mas imitáveis e assumidos por pessoas que se quer como modelos. Mesmo em tempos de crise de valores encontramos pessoas que personificam um ideal de excelência humana na própria família e nas relações profissionais ou sociais. Essas pessoas são modelos porque a história delas está assentada em fatos edificantes: um casal que completa 30, 40 ou 50 anos de casamento é um valor de fidelidade e de verdadeiro amor que deve ser imitado e ensinado; o amigo que não aceita subornos ou pais que levam adiante e com sacrifícios um lar com vários filhos são exemplos de valores.
3 – Ler para as crianças os tradicionais contos infantis
As crianças gostam imensamente de ouvir histórias. Pais, irmãos mais velhos, avós, podem ler para elas, enriquecendo, assim, a inteligência, a memória e a imaginação delas com conteúdos mais ricos do que os games ou horas consumidas passivamente diante de telas digitais, que apresentam imagens prontas e não forçam a imaginação para criá-las. A iniciativa de ler para as crianças pode ser estendida também aos pirralhos da vizinhança ou de uma comunidade pobre, a fim de que desde cedo elas passem a interessar-se pela leitura, o que as fará não se viciarem em celulares ou telas digitais.
Os tradicionais contos infantis ajudam a materializar o significado do bem e do mal nos personagens das histórias, o que facilita às crianças a compreensão de certos comportamentos, mais do que mil discursos teóricos.
Sugestão de contos que farão as crianças aguardarem ansiosamente o horário da leitura: O Patinho feio, A lebre e a tartaruga, Pinóquio, A galinha dos ovos de ouro, A princesa e a ervilha, Alice no país das maravilhas, A pequena Sereia, Rapunzel, O gato das botas, A Bela adormecida, Branca de Neve e os sete anões, Chapeuzinho vermelho, Cinderela, O pássaro que enganou o gato, Os três porquinhos, Ali babá e os 40 ladrões, O pequeno Polegar… Ver outras sugestões de contos ou livros para crianças, adolescentes e jovens: clique aqui
Na escolha dos contos, optar pelas histórias tradicionais e não por aquelas que foram descaracterizadas ao serem recontadas com a finalidade de introduzir nas crianças a preocupação antecipada pelos dramas ecológicos, de meio ambiente, entre outros. As crianças merecem viajar pelo mundo das fadas, reis, rainhas, duendes e bruxas… Mais adiante, quando crescerem, elas terão tempo para conhecer as dores e mazelas humanas. O que não se pode é roubar delas a infância feliz e despreocupada, antecipando temas para os quais ainda não estão preparadas para vivenciar.
Texto produzido por Ari Esteves com base na obra “Como formarse em ética a traves de la literatura”, de Alfonso López Quintás, Ediciones Rialp, Madrid, 1994; e pelo boletim “A escolha de valores ou modelos de conduta” em https://staging.ariesteves.com.br/2020/09/a-escolha-de-valores-e-modelos/. Imagem de Dziana Hasanbekava.
