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  • Maturidade psicológica

    Maturidade psicológica

    1 – Harmonia entre a cabeça e o coração. 2 – Os fenômenos psíquicos podem alterar o funcionamento do corpo. 3 – O desconhecimento da interioridade pessoal. 4 – A importância exagerada do êxito social. 5 – Aperfeiçoar as capacidades superiores. 6 – Para dominar a afetividade. 7 – As crianças e a manifestação dos sentimentos.

    1 – Harmonia entre a cabeça e o coração

         A maturidade psicológica revela-se no comportamento harmonioso entre cabeça (razão e vontade) e coração (afetividade). Esse equilíbrio é hierárquico porque uma das partes (inteligência e vontade) está acima da outra (afetividade) ao ter capacidade para analisar, decidir e executar. Essa superioridade é a que distingue o homem dos demais animais. O fracasso em obter esse equilíbrio hierárquico é a base da imaturidade psicológica.
         No ser humano se integram elementos biológicos, psicológicos e espirituais, que precisam de tempo para alcançar a plenitude. No desenvolvimento fisiológico ou corporal, as forças mais importantes são determinadas pela genética (aspectos primários), enquanto as influências do ambiente são secundárias (aspectos secundários). Porém, no desenvolvimento psicológico o aspecto secundário é o temperamento, de base genética, e o aspecto primário, que são as forças do ambiente e da educação, é que atua fortemente na formação da personalidade.

    2 – Os fenômenos psíquicos podem alterar o funcionamento do corpo

         Cada órgão do corpo humano se integra a um sistema (digestivo, cardiovascular, respiratório…). No plano psicológico, a mente, que se comunica com o corpo por meio do sistema nervoso, é formada por várias faculdades (vontade, inteligência, memória, imaginação, percepção e afetividade) que se inter-relacionam. Os estados psíquicos podem alterar o funcionamento do corpo, e o funcionamento do corpo também pode alterar os estados psíquicos. Os fenômenos psíquicos ativam o sistema nervoso e estes produzem modificações no funcionamento do corpo (sudorese, taquicardia, palidez, enrubescimento, tremor…); e as funções fisiológicas que alteram as substâncias químicas do corpo podem modificar o funcionamento do sistema psíquico (depressão, desânimo…).

         Atualmente, devido ao predomínio de correntes hedonistas e materialistas, há forte influência dos aspectos corporais sobre o psicológico, o que explica a importância que se dá à forma física e às sensações corporais para o bem-estar psicológico (inclusive ao vício das drogas). Supõe-se que a felicidade humana consiste em sentir-se bem fisicamente e experimentar prazer. Ao se considerar o corpo como protagonista principal da felicidade, valoriza-se a beleza externa, a saúde corporal, a plenitude física obtida com o esporte. Porém, a hipertrofia ou aumento de um sistema atrofia outro. A valorização ou agigantamento do corporal fez descuidar o saudável desenvolvimento psicológico, e isso se nota no aumento de pessoas imaturas, propensas a enfermidades mentais e a ter mais conflitos sociais que dificultam a convivência pacífica no âmbito familiar, laboral e social.

    3 – O desconhecimento da interioridade pessoal

         À medida em que cresce o número de indivíduos obcecados pela perfeição corporal, descuida-se o desenvolvimento da interioridade pessoal, e esse desequilíbrio faz aumentar o número dos que carecem de dois elementos importantes da felicidade: 1) a capacidade de entrar em si mesmo (introspecção) para autoconhecer-se e avaliar o equilíbrio e desequilíbrio interiores; 2) a capacidade de dominar as funções psíquicas (percepção, imaginação, memória, pensamento e afetividade), cuja inabilidade leva à busca de estímulos externos para os sentidos, sensações e afetos.
         Há pessoas que sabem definir o quer vestir, comer, como se divertir, que esporte praticar… Porém, não sabem refletir sobre as características psicológicas que possui ou que gostaria de desenvolver, a fim de fomentar uma personalidade rica, sadia. Sabem avaliar a beleza corporal externa, que é facilmente modificável com uma boa roupa, penteado e perfume, mas não têm a mesma clareza sobre em que consiste a beleza interior e o que significa ser uma pessoa de caráter, autêntica (não falsa), com autodomínio, reta (não subornável), entre outras qualidades, pois tais aspectos ao valerem muito mais também exigem maior esforço para se conseguir.

         Nota-se hoje um empenho maior em ensinar conhecimentos úteis para triunfar na vida social, e pouco se faz na transmissão de aprendizados necessários para crescer nos aspectos interiores para ser feliz. Parece não haver consciência de que o êxito social tem relação direta com a maturidade psicológica, e que esta não é mero fruto da passagem do tempo ou da recepção passiva das influências do ambiente, mas é consequência do esforço, da luta pessoal em forjar o próprio caráter. Chegar à maturidade psicológica é tarefa que se inicia nos anos de infância e juventude; e será mais hercúlea e até impossível de se conseguir na idade adulta, tal como ocorre com certos aprendizados que se não forem alcançados na infância tornam-se difíceis ou até impossíveis de se atingir na idade adulta (andar de bicicleta ou patins, aprender matemática…).

    4 – A importância exagerada do êxito social

         A sociedade atual exagera a importância do êxito exterior e subestima a do êxito nas qualidades interiores como caminho para a felicidade. Por falta de profundidade interior, há quem necessite da aprovação externa para ser feliz porque se convenceu de que só o será quando for socialmente reconhecido seja pela fama, poder ou dinheiro. Essa atitude se reflete também na educação das crianças ao se dar especial importância a que tirem boas notas, saibam vários idiomas e tenham professores particulares para reforço escolar. Com isso, se convive pouco com os filhos e não se percebe suas carências caracterológicas e temperamentais para serem corrigidas, mas não deixam de ser animados a escolher determinada profissão porque se pensa que serão felizes se ganharem muito dinheiro. Trata-se de uma visão estreita, já que no futuro eles poderão ter uma gorda conta bancária, mas se não tiverem qualidades interiores (maturidade psicológica), não serão estáveis e profundos nas relações familiares, profissionais e sociais, e essas dificuldades de convivência os tornarão infelizes.

         Os programas educativos atuais não transmitem às criança e aos jovens atitudes positivas frente às situações normais da vida, com o fim de solucionar os problemas e não fugir deles: ou seja, para que saibam superar o medo ao sacrifício por alcançar um ideal, para vencer os estados de timidez e insegurança, para que não sejam egoístas, hipersensíveis e fracos de caráter. Por isso, muitos adolescentes são emocionalmente instáveis, influenciáveis (manipuláveis), dependentes de que façam as coisas por eles, impulsivos, inconstantes, características da imaturidade que atuam sobre o comportamento e desencadeiam modos superficiais de ser: imaturos, acomodados, frívolos…

    5 – Aperfeiçoar as capacidades superiores

         Saber como funcionamos por dentro é necessário, pois temos que conviver conosco a vida inteira. Além disso, para se acertar no modo de tratar os outros (esposa, filhos, amigos, colegas de trabalho) é necessário primeiramente saber como lidar consigo, a fim de limar as arestas e potencializar as qualidades para melhor servir aos demais.

         Cada ação humana livre produz efeito no mundo exterior e deixa marca no mundo interior do agente, formando o caráter: se a ação é boa faz melhorar o mundo e quem a pratica; se é má prejudica a ambos. Obter o máximo aperfeiçoamento das capacidades superiores e harmonizá-las com a afetividade equivale a obter maturidade psicológica pessoal. É importante ter uma educação que mostre, por um lado, o que é bom e o que mal; e por outro, a necessidade de pensar sobre qual é a melhor atitude a adotar e a melhor maneira de agir.

         O pensamento é a função pela qual a inteligência humana chega à verdade, o que faz do homem um ser racional, que é a primeira e essencial qualidade da natureza humana. A vontade deve estar estreitamente unida à inteligência, pois a força da vontade ao querer o bem impulsiona o pensamento para realizar retamente seus julgamentos: a vontade é a capacidade humana que faz o homem ser livre, o que é outra de suas qualidades essenciais.

    6 – Para dominar a afetividade

         A educação da maturidade psicológica também foi chamada de educação da afetividade, porque desenvolve o hábito de controlar os sentimentos, emoções e paixões por meio da vontade. A afetividade descontrolada impede a maturidade psicológica ao afetar a razão e a vontade. Motivada pelos estímulos biológicos e do ambiente, a afetividade move o sujeito a agir de imediato para se sentir fisicamente bem e evitar sentir-se mal, mesmo que seu comportamento não seja racional, e os meios para alcançá-lo sejam julgados pela razão como nocivos à pessoa e rejeitados pela vontade. A pessoa madura é a que conseguiu harmonia entre cabeça e coração, e faz da afetividade a melhor aliada da razão e da vontade ao levá-la na mesma direção destas.

         Educar a afetividade não supõe anular essa é importante faculdade psicológica, pois sem ela a vida perderia seu atrativo, como ocorre com as pessoas deprimidas, nas quais a afetividade está muito encolhida ou é negativa. Tampouco significa diminuir a sua importância ao fomentar uma visão desfavorável sobre ela. A afetividade é um motor potente do homem, e muitas vezes mais pujante que a vontade. O perigo ocorre quando a afetividade e a vontade buscam objetivos distintos, e o conflito entre ambas faz gerar o sentimento de angústia que leva a enfermidades psíquicas. Outro perigo é permitir que a afetividade exerça habitualmente o comando sobre a razão e a vontade, como ocorre nas crianças e nas pessoas imaturas. Quando se consegue que os dois motores do funcionamento humano (razão e afetos) atuem em uníssono, a capacidade de realizar tarefas importantes se multiplica e a situação interna da pessoa é de segurança e alegria, evidenciando-se nisso sua maturidade psicológica.

         A tarefa de harmonizar a cabeça (inteligência e vontade) e o coração (sentimentos, emoções, paixões) é uma obra de arte psicológica que se parece com a de dominar um instrumento musical, pois ambas requerem horas de prática durante toda a vida. No âmbito musical surgem dois elementos: o instrumento e o artista que deve conhecer e dominar sua técnica. No caso do funcionamento psicológico, um dos elementos é a afetividade com sua multiforme variedade de afetos, e o outro é a razão e a vontade, que funcionam unidas e que devem conhecer e dominar a afetividade.

         Para ter domínio afetivo é preciso que cada indivíduo aprenda a entrar em si (introspecção) a fim de analisar se o sentimento, positivo ou negativo, está de acordo com a razão. Essa tarefa requer tempo e prática, como é exigido para se conhecer bem uma pessoa. A razão é encarregada de avaliar a proporção e a adequação do sentimento em relação ao estímulo que o desencadeou, ou a influência que ele exerce sobre as demais funções psíquicas, em especial a memória, imaginação, a percepção de si e do mundo, e a influência desse afeto sobre a fisiologia corporal (conduta externa verbal, gestual e motora).

         Depois de fazer esses julgamentos, e em função do seu resultado, a pessoa, por meio do querer da vontade, atua para dirigir os afetos e conseguir que sejam proporcionais e adequados aos estímulos que os desencadearam, e para permitir ou impedir sua influência sobre as demais funções psíquicas, ou sobre o funcionamento corporal e o da conduta externa. Conseguir controlar a afetividade, tal como qualquer aprendizagem, requer tempo, prática e paciência.

    7 – As crianças e a manifestação dos sentimentos

         Os pais devem ajudar a criança a realizar juízos sobre seus afetos, animando-a a perceber se o que sente está em proporção com a realidade: perder uma partida de futebol não é o fim do mundo, ou se o seu sentimento de medo está adequado ou não (há medos bobos), ou para que não seja indiferente aos sofrimentos dos demais. Com a ajuda dos pais e educadores a criança começa a ter harmonia hierárquica entre razão e coração como sinal de maturidade psicológica proporcional à idade que possui. No próximo boletim abordaremos a educação para a maturidade psicológica.

    Texto adaptado por Ari Esteves da obra “Maturidade psicológica e felicidade”, de Fernando Sarráis, Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009. Imagem de Aguida Medeiros (@aguidamedeiro).

  • Bases para a personalidade da criança

    Bases para a personalidade da criança

    1 – Alicerce da personalidade. 2 – Autoestima. 3 – Força de vontade. 4 – A criança e a tolerância à frustração. 5 – Senso de realidade. 6Altruísmo. 7 – Os pais e o desenvolvimento da consciência moral da criança

    1 – Alicerce da personalidade

         “Personalidade é um modo estável de se relacionar consigo próprio, com os demais e com o mundo”, diz George Kelly, citado por Francisco Insa. Durante a infância o papel dos pais e educadores é ajudar a criança a desenvolver vários aspectos do temperamento e caráter que serão o alicerce da sua personalidade.

         Para se sentir acolhida desde os primeiros meses de vida, a criança precisa perceber que é amada e ter rostos alegres ao seu redor. Neste sentido, a mãe desempenha um papel importante: sua presença conforta e sua ausência, ou descaso, causa medo e insegurança, que poderá levar a criança à indiferença e a ter um caráter distante e frio com os pais.

    2 – Autoestima

         Para ter autoestima a criança necessita ser valorizada, sendo que isso é compatível com a correção de suas atitudes quando necessário. Aceitar o modo de ser da criança não significa que ela possa fazer o que quiser: é preciso corrigir com carinho e respeito seus defeitos de temperamento e caráter.

         A criança não é um adulto em miniatura e seu aprendizado é mais lento. Não se pode ser desqualificá-la com apodos negativos (preguiçosa, burra, bagunceira, mentirosa…), porque ela internalizará tais etiquetas e passará a se conformar com seus fracassos. Essa compreensão evita os estereótipos que humilham a criança. Elogiar mais e criticar menos: pais resmungões criam na criança a sensação de impotência. Surpreenda seu filho ou filha todos os dias ao parabenizá-lo pelo que realizou bem, pois o subconsciente da criança registrará o agrado e incentivará a repetir a ação. A consideração e o apreço fazem a criança sentir que possui qualidades. Acreditem nos filhos: o otimismo dos pais transmite confiança neles, e a simpatia torna atrativa a figura do educador!

    3 – Força de vontade

         Também é importante que a criança desenvolva a força de vontade, que a levará a perseguir com afinco algo que custe esforço realizar: manter um horário diário de estudo, por exemplo. A criança se move inicialmente pelo imediato, sejam caprichos ou impulsos primários, porque deseja a todo custo se sentir fisicamente bem ou deixar de se sentir mal, mesmo que seja necessário fazer coisas menos boas (fugir do esforço de guardar seus brinquedos) ou deixar de fazer coisas boas. Será preciso explicar a ela que a satisfação de um capricho, por exemplo, ficar passivamente vendo desenhos o dia todo, não a tornará tão feliz quanto montar com paciência e esforço um quebra-cabeça ou construir um belo castelo com lego, ou ter ordenado suas roupas e brinquedos, porque qualquer destas ações a levará exclamar com alegria: − Eu que fiz isso!, como quem afirma ter sido capaz de realizar algo que valeu a pena. A criança compreende que a fuga do bem custoso deixa o mau sabor do fracasso, que além de ser fonte de tristeza, cria o vício da preguiça que a tornará molengona.

    4 – A criança e a tolerância à frustração

         A tolerância à frustração também é um aspecto relevante a ser desenvolvido na criança, pois a levará a não desmoronar diante dos pequenos e inevitáveis fracassos que terá que suportar, seja na infância ou na adolescência. Ela aprenderá a ser resiliente ao tentar uma e outra vez melhorar o resultado de uma meta não alcançada, e isso requer que os pais estejam ao seu lado para a consolar e animar afetuosamente a recomeçar, mas sabendo se retirar discretamente e a tempo de que a criança perceba que foi ela mesma quem conseguiu o feito. Um outro aspecto que a criança necessita aprender é receber um “não” a uma pretensão (não lhe compraram a barra de chocolate), sem achar que o mundo desabou sobre a cabeça dela. Trata-se de uma luta que os pais precisam enfrentar ao não temer o show de um berreiro no shopping ou supermercado, pois será o modo de ensinar a criança a ter capacidade de se adaptar positivamente frente a situações adversas.

         Para que a criança desenvolva tolerância à frustração é necessário que tenha frustrações: crescer entre as almofadas e algodões da superproteção materna ou paterna, despersonaliza e a torna frágil frente aos inevitáveis reveses que a vida traz, já na infância e adolescência. A frustração pode começar desde o berço ao não ser atendida naquilo que pode esperar, pois as mães sabem quando um choro é motivado por alguma necessidade física (alimentação, asseio, frio ou calor, doença…) ou por um capricho que pode aguardar, como pegar no colo ou não acender a luz ao atendê-la de madrugada, a fim de que comece a aprender a esperar e que o silêncio da noite é para dormir (se os pais acenderem a luz ela não distinguirá o dia da noite).

         Há pais que passaram por dificuldades na infância e não desejam que seus filhos tenham essas experiências, poupando-os de todos os sofrimentos. É uma boa preocupação desejar que eles não provem certas situações como a separação dos pais, a falta de carinho, violências sofridas… Mas é preciso pensar que muitas dificuldades que os pais passaram, principalmente a carência de bens materiais pela falta de dinheiro, lhes fortaleceu a vontade, fez crescer o espírito de sacrifício, deu-lhes critérios de vida como a consciência de poupança e o sentido de desprendimento e o de não criar falsas necessidades; também os fez compreender que as coisas se adquirem com esforço, sendo necessário saber esperar, etc. Por isso, dar tudo de mão beijada (principalmente dinheiro e excesso de objetos) priva os filhos dos valores que a virtude da pobreza ou desprendimento aporta à construção da personalidade, e torna-os moles e frágeis de caráter.

    5 – Senso de realidade

         Outra característica para se fomentar na criança é o senso de realidade. É normal na infância uma certa dose de pensamento mágico, uma certa confusão entre sonho, desejo e realidade até na resolução dos pequenos problemas. Entre os dois e três anos de idade é característica a aparição do chamado amigo imaginário, sendo preciso respeitar e não ficar incomodado por isso, consciente de que o pensamento mágico tem a função positiva de ajudar a criança a resolver certos medos e conflitos, e a desenvolver a criatividade. Porém, é preciso incentivar a criança, à medida que entra na pré-adolescência, para que vá se apoiando cada vez mais na realidade, principalmente porque os videogames e as telas digitais criam um mundo fictício e, no mundo real, as soluções não vêm ao apertar botões: se quebrou o vaso de flores não há varinha mágica que o conserte, mas a criança terá que gastar um bom tempo fixando as partes com a cola adequada.

    6 – Altruísmo

         À medida que o campo de relacionamento da criança se amplia, é o momento de fomentar nela o altruísmo, que permitirá superar o típico egoísmo infantil (que é diferente do egoísmo de um adulto, pois este tem conotação moral).  A criança se lança instintivamente à maior fatia de bolo e comerá tudo que aguentar, sem pensar que na mesa há outros que também desejam comê-lo. Pouco a pouco, de maneira espontânea ou porque seus pais a fizeram olhar ao redor, saberá sacrificar seu próprio gosto em benefício dos demais. O ambiente familiar tem um papel chave, especialmente quando há vários irmãos, para ajudar a criança a renunciar seu próprio gosto pelo bem dos outros e para a formação de uma hierarquia de valor baseada no amor, que é base para uma rica vida espiritual, social e religiosa.

         O altruísmo também é fomentado ao ter a criança tarefas ou encargos domésticos apropriados à idade que possui, a fim de colaborar com a ordem, beleza do lar e bem-estar de todos. É injusto pensar que a criança é incapaz de ser solidária e não tenha espírito de serviço para contribuir com seu esforço na construção de um lar alegre e feliz. Negar à criança tais atribuições é fomentar nela o espírito de mera hospedagem e a errônea ideia de que tenha apenas direitos e não obrigações, transformando-a em senhor feudal, cujos pais são meros servos. Evidentemente essa não é a via para a construção de uma personalidade rica e sadia.

    7 – Os pais e o desenvolvimento da consciência moral da criança

         Cabe aos pais apoiar o desenvolvimento da consciência moral da criança, à medida que ela começa a ganhar compreensão de si, da responsabilidade por seus atos e das necessidades dos outros (inicia por volta dos seis anos). Essa consciência será auxiliada pelas normas praticadas em casa desde os primeiros anos da vida da criança, onde o exemplo, as orientações e indicações dos pais se internalizaram e passaram a fazer parte da vida da criança como luzes ou faróis que sinalizavam o caminho. Aos seis anos surge o sentido moral e a criança começa a distinguir o bem do mal, não mais em função do que ensinaram seus pais, mas ouvindo a sua própria consciência, ao fazer um juízo crítico tanto do quem vem de fora quanto do que se passa em seu mundo interior. Para a melhor formação da consciência da criança, os pais devem continuar ajudando-a distinguir entre o bem do mal, dando razões esclarecedoras; evidentemente isso também exigirá que os pais melhorem continuamente a própria formação para educar bem.

    Texto de Ari Esteves com base no livro “A formação da afetividade”, de Francisco Insa, Editora Cultor de Livros, 2021, São Paulo, SP. Imagem de Aguida Medeiros (@aguidamedeiro).

  • O papel da afetividade humana

    O papel da afetividade humana

    1 – A função da afetividade humana. 2 – Diferença entre sentimentos, emoções e paixões. 3 – Os afetos não devem comandar as decisões. 4 – A virtude da prudência. 5 – A educação da afetividade. 6 – Querer agir bem por amor.

    1 – A função da afetividade humana

              Há quem tem dificuldade para lidar e nomear seus sentimentos, emoções e paixões, e se surpreende com seus estados de ânimo e reações, a ponto de desejar saber o que lhe acontece e por que se sente desta ou daquela maneira.

              A afetividade surge na pessoa como uma reação em forma de sentimento, emoção ou paixão ao se relacionar com o mundo, consigo mesma ou com os demais. Diante de qualquer acontecimento significativo, todos notamos uma sensação interior que pode ser agradável ou desagradável, e por isso dizemos que tal coisa nos afetou, e nos sentimos confortáveis ou desconfortáveis diante de fatos positivos ou negativos.

              A afetividade tem uma função importante ao informar que algo é agradável ou desagradável, o que leva a pessoa a procurar ou a evitar esse algo. Seria o equivalente à sensação de prazer ou dor física em relação ao corpo. A afetividade reflete a unidade entre o corpo, mente e espírito porque as emoções, sentimentos e paixões provocam com frequência reações psicossomáticas: taquicardia, sudorese, palidez, enrubescimento, desconforto estomacal, dor de cabeça ou nas costas, etc.

    2 – Diferença entre sentimentos, emoções e paixões

              As emoções costumam surgir rapidamente e com grande intensidade, mas duram pouco: a repentina alegria perante uma boa notícia, a indignação automática diante de um insulto, a emoção que um filme ou a leitura de um romance pode causar…

              Os sentimentos são estáveis e menos intensos que as emoções e paixões, e perduram por mais tempo porque não são uma reação pontual, mas um estado duradouro, tal como o amor, a misericórdia, a compaixão ou o ódio, a inveja, os ciúmes (há sentimentos bons e maus).

              As paixões têm características comuns aos dois anteriores: são intensas e duradouras. Sua principal característica é a de arrastar para a ação de modo mais ou menos veemente e irresistível, em função da personalidade do sujeito: um apaixonado pelo futebol passa a semana toda pendente da partida do seu time e não deixa de assisti-la por nada neste mundo. As paixões se derivam de dois apetites: concupiscível e irascível. Se algo é bom ou prazeroso (um bom filme, uma boa refeição ou um plano de passeio, etc.) é desejado pelo apetite concupiscível: se se consegue realizar a ação vem o deleite; mas se algo é mau, o apetite concupiscível inclina a pessoa a fugir dele: se a fuga não for possível (fugir de uma doença) vem a dor, tristeza, angústia ou aborrecimento. Já o apetite irascível (de ira) faz a pessoa se sentir forte e com esperança de vencer um obstáculo que lhe custa, pois julga que poderá ultrapassá-lo: preparar-se com audácia e determinação para enfrentar um concurso ou o vestibular de uma instituição pública: se alcança o objetivo vem o deleite; se não há esperança de conquistá-lo virá o desespero, a raiva ou a vingança.

              A afetividade é algo que se sente ou se padece. Em princípio, o sujeito não é responsável por ter paixões (a menos que se coloque em ocasião de ser provocado). Normalmente é algo que vem de fora e a pessoa até preferiria não a experimentar, mas acaba sofrendo-a ou padecendo-a. Entretanto, mesmo vindo de fora, está ao alcance de cada um esforçar-se por moderar e não dar tanta atenção a essas sensações interiores. Para isso, deverá fomentar reações positivas e contrárias para arrefecer as negativas: alguém que recebe um insulto poderá ficar remoendo e dando voltas e mais voltas a ele na cabeça, de modo a ficar cada vez mais raivoso. Para serenar e não se deixar arrastar pela paixão da ira poderá tentar justificar que o outro reagiu sem pensar e não pretendia ofender, ou porque sofria alguma contrariedade intensa, ou porque todos podem errar e o perdão é uma atitude que se pode oferecer a um ofensor.

    3 – Os afetos não devem comandar as decisões

              Se os afetos e sentimentos se fazem sentir, isso não significa que devam ser os reitores das ações, pois a pessoa tem sempre a última palavra sobre o que deve ou não fazer. Ou seja, não podemos ser escravos dos nossos sentimentos. Mas, se a vontade for débil ou até mesmo enferma, como ocorre com quem padece de algum vício ou compulsão, será mais difícil manter a afetividade sob controle.

              A afetividade opera no curto prazo e tem um papel muito importante na vida ao indicar o que é agradável ou desagradável, o que é causa de prazer ou de temor, e leva a pessoa a agir em consequência. Contudo, a afetividade deve ser analisada de forma crítica, pois ela possui limitações: as emoções, afetos e paixões são muito individualistas e cada uma puxa a sardinha para a sua brasa (a paixão da gula pouco se importa com a diabete ou colesterol do sujeito). No caso do medo, a afetividade leva a fugir pelo caminho mais rápido se algo pode causar um mal ou desconforto. Porém, fugir nem sempre é a melhor atitude, pois há circunstâncias em que está em jogo um bem maior que obriga a enfrentar os temores com valentia e audácia.

              A afetividade é como uma criança pequena que se deixa levar pelo que agrada e foge do que desagrada: come um pacote de doce porque lhe apetece, sem se preocupar se fará mal, mas não come salada. A mãe terá que explicar a ela que alguns alimentos agradam ao paladar, mas não fazem bem à saúde; outros, mesmo sendo desagradáveis são necessários para que ela fique forte e saudável.

              A linguagem dos afetos é a percepção do que é agradável ou desagradável, e não do que é bom ou mau do ponto de vista moral, pois essa análise cabe à inteligência ou consciência prática. A instância superior da consciência, encarregada de analisar a dimensão moral das ações, indicará se a tendência afetiva deve ser seguida, porque está conduzida pela virtude e nos ajudará a fazer melhor o que deve ser feito ou, ao contrário, não deve ser seguida por se apresentar de forma desordenada, por exemplo, porque está motivada pela vingança, gula ou luxúria.

    4 – A virtude da prudência

              A afetividade por ser irracional necessita de um regente de orquestra que ponha ordem em tantas inclinações por vezes contraditórias. Esse papel cabe à virtude da prudência, que orienta cada afeto ou sentimento para ser uma força interior que apoie as ações retas: é melhor professor aquele que põe sentimentos no que faz; um jovem apaixonado por aviões que pretende ser aviador, enfrentará melhor as dificuldades para tirar o brevê, que lhe permitirá pilotar, mesmo que tenha que fazer o ensino médio pela manhã, trabalhar durante a tarde em alguma empresa para obter o dinheiro com o qual pagará o curso de aviador que terá de fazê-lo de noite (sem a força que lhe dá os sentimentos talvez desistisse logo).

              A virtude da prudência precisa de um norte, de uma direção ou meta para onde canalizar as energias dos afetos. Essa meta é a que cada um livremente escolhe dar à sua vida. Os afetos são bons e fazem parte da natureza humana e por isso estão incluídos na satisfação que Deus teve ao lançar seu primeiro olhar à sua Criação recém-terminada: “Contemplou toda a sua obra, e viu que era tudo muito bom” (Gen. 1,31). Não apenas bom, mas muito bom, como que se regozijando pela obra saída de suas mãos. Somente Deus poderia ter feito algo assim. Porém, às vezes, a afetividade leva a pessoa a se equivocar, pois todos carregamos dentro um princípio inato de desordem (pecado original) que pode obscurecer a inteligência e enfraquecer a vontade para que esta ceda diante de um bem parcial e imediato que falsamente se apresenta como um bem absoluto. Como foi mencionado, administrar sentimentos e paixões não é tarefa fácil, pois cada tendência puxa para o seu lado, esgarçando ou dividindo a pessoa. Daí a necessidade de educar a afetividade por meio de virtudes, pois estas tornam agradável a busca do bem, e assim fica mais fácil reconduzir sentimentos desordenados.

    5 – A educação da afetividade

              Cabe a cada um educar a própria afetividade para que a aparição e a intensidade das emoções, sentimentos e paixões estejam de acordo com o que é o correto, razoável e verdadeiro, e ter apreço pelo que é bom e aversão pelo que é mau. O gosto pelo que é agradável não pode arrastar a vontade a procurá-lo desordenadamente, a ponto de a pessoa abandonar suas responsabilidades; nem poderá rechaçar o dever que não é agradável, quando isso for uma desordem.

              Cada pessoa percebe dentro de si uma batalha interior que pode levá-la a não fazer o bem que gostaria, e a ceder ao mal que não queria realizar. A afetividade humana quando desordenada pode inclinar a pessoa a decidir por coisas que não convêm racionalmente: descarregar a ira sobre alguém, comer com gula um doce que não poderia, tomar bebida alcoólica imoderadamente, buscar relações sexuais fora do casamento, roubar para se enriquecer… As virtudes, que são hábitos operativos bons, fortalecem a pessoa para corrigir as tendências desordenadas da afetividade. A formação da afetividade dá à pessoa algo como uma segunda natureza que a faz atrair-se e deleitar-se com o bem, mesmo que seja árduo, ou que tenha que prescindir de planos bons, mas incompatíveis com a orientação que deu à própria vida.

              É necessário educar a razão ou inteligência não apenas com a informação do que é bom ou mau, mas ao mostrar o motivo das ações, o seu porquê. Com isso, a vontade terá forças para resistir as atrações desornadas da afetividade para perseverar na busca do bem. Evita-se, assim, três patologias: o sentimentalismo (agir só em função do que se sente), o voluntarismo (prevalência da vontade sobre a razão e os sentimentos) e o intelectualismo (dar primazia à inteligência, sacrificando a vontade e os afetos). Qualquer dessas patologias indica um domínio excessivo sobre a pessoa.

    6 – Querer agir bem por amor

              O sentido do dever, necessário para dar um norte às ações, não deve ser anulado. Porém, não devemos funcionar apenas pelo sentido do dever a cumprir, pois isso é insuficiente e se torna exaustivo. Devemos agir bem porque queremos, por amor, pois isso é que dá sabor e sentido à vida. Uma afetividade bem formada faz desejar e buscar o que é bom. A pessoa aprende desse modo a escutar a sua afetividade e a segui-la por decisão própria (racionalmente), e sem se deixar arrastar por ela, tal como o guarda de trânsito controla o fluxo de carros em um cruzamento: se ouve uma ambulância, faz parar todos os carros para dar prioridade a ela; se depara com um motorista imprudente, fá-lo parar e não permite que prossiga para não causar acidentes. Outra imagem interessante é a do cavaleiro que com sua inteligência e vontade dirige os impetuosos cavalos − imagem dos sentimentos, emoções e paixões −, dando a eles a direção que convém: cabeça e coração, inteligência e afetos não devem entrar em conflito, mas caminhar em harmonia.

              Vale a pena assistir o desenho “Divertida Mente”, da Disney, 2015, porque mostra como funcionam em nossa cabeça as emoções básicas que tendem a influenciar o comportamento: alegria, tristeza, medo, nojo e raiva. Essas emoções estão em contínuo diálogo entre si, nem sempre de forma pacífica básicas.

    Texto adaptado por Ari Esteves, com base no livro “A formação da afetividade” (capítulo O que é a afetividade) de Francisco Insa, Editora Cultor de Livros, 2021, São Paulo, SP.

  • Ensinar o adolescente a trabalhar bem

    Ensinar o adolescente a trabalhar bem

    1. Os jovens devem formar-se no espírito de trabalho. 2. Transmitir aos filhos o sentido de responsabilidade. 3. Adolescentes infantilizados. 4. Os filhos devem perceber as necessidades dos demais. 5. Tarefas no lar. 6. Fomentar virtudes e ideais grandes nos filhos. 7. Animar os filhos a serem generosos

    Os jovens devem formar-se no espírito de trabalho

          Adolescentes e jovens devem se formar num ambiente de laboriosidade e disciplina. A educação para o trabalho pressupõe a educação para o estudo, a fim de que os filhos exercitem a concentração, a disciplina, a ordem, a constância, o espírito de sacrifício, o sentido de responsabilidade e tantas outras virtudes necessárias para aproveitarem bem o tempo, e se tornarem profissionais de prestígio e prontos para servir com competência aos que necessitarem de seus serviços.

          A virtude do trabalho ou da laboriosidade é básica e deve ser vivida desde as primeiras idades da criança por meio de diferentes rotinas familiares que vão educando os sentimentos e afetos por meio de virtudes ou bons hábitos: momentos de lazer e brincadeiras, realização de encargos apropriados à idade de cada filho; horários de estudo, leituras, refeições, dormir, acordar, entre outros.

    Transmitir aos filhos o sentido de responsabilidade

          Estimular os adolescentes para que percebam os talentos que possuem e não temam o sacrifício que comporta alcançar o ideal que sonham é tarefa dos pais, que devem fomentar neles um grande sentido de responsabilidade e ajudá-los a perceber a obrigação grave que têm de estudar e preparar-se bem para utilizar seus talentos ou qualidades humanas ao serviço dos demais. Com isso, fomentarão nos filhos as virtudes humanas que irão prepará-los para participar ativamente tanto vida familiar e social.

          Todos nos condoemos ao ver tantas energias juvenis desperdiçadas, perdas de tempo em celulares e games, acrescidas da absoluta falta de perspectiva porque os pais não educaram para a laboriosidade, nem para ideais grandes. A juventude sempre está disposta a perseguir altos projetos, mas é preciso abrir horizontes a ela. Toda criança tem pensamentos de aventura, de ação, de triunfo, que devem ser canalizados não para metas egoístas, mas para realizar o bem a tantas pessoas necessitadas, primeiramente por meio da aplicação aos estudos.

    Adolescentes infantilizados

          Se ao iniciar o ensino médio o filho continua a ser irresponsável ao acomodar-se no confortável papel de quem não tem obrigações e nem se esforça para estudar seriamente, e não procura descobrir suas aptidões pessoais a fim de canalizá-las para uma profissão com a qual possa servir melhor, os pais não devem esperar que ele se tornará um jovem responsável e competente de repente, ou que o diploma consertará todos os vícios que desenvolveu. Se o adolescente se abandona aos caprichos, se transforma em terreno inculto onde crescem espinhos e abrolhos.

          Muitos adolescentes de quinze e dezesseis anos, ainda infantilizados e preguiçosos, mal sabem escrever com letra cursiva (utilizam a letra de forma, o que indica um analfabetismo funcional) e ficam travados ao desenvolver uma simples redação de dez linhas sobre a família ou o que fazem no dia a dia. Isso revela que o vício de gastar horas e horas diariamente no celular os cegam para estabelecer metas diárias de leitura e estudo, a fim de se prepararem para os exames do Enem, e malbarateiam o seu tempo jogando-o no ralo. Com a desculpa de que não sabem o curso ou faculdade que pretendem fazer, anestesiam a consciência e permanecem passivos, ociosos, e utilizam a internet para perder tempo em redes sociais, vídeos e jogos, e não buscam nela informações e respostas sobre como descobrir suas aptidões por meio de testes vocacionais ou lives sobre as diferentes profissões, com o objetivo de se planejarem para enfrentar as concorridas escolas públicas.

    Os filhos devem perceber as necessidades dos demais

          Na encíclica “Fratelli tutti” (todos irmãos), o Papa Francisco lembra a passagem evangélica do Bom Samaritano, e diz: “existem simplesmente dois tipos de pessoas: aquelas que cuidam do sofrimento e aquelas que passam ao largo; aquelas que se debruçam sobre o caído e o reconhecem necessitado de ajuda e aquelas que olham distraídas e aceleram o passo. De fato, caem as nossas múltiplas máscaras, os nossos rótulos e os nossos disfarces: é a hora da verdade. Debruçamo-nos para tocar e cuidar das feridas dos outros? Abaixamo-nos para levar às costas o outro? Este é o desafio atual, de que não devemos ter medo” (FT, 70).

          Os filhos devem ter motor próprio e perceber as necessidades dos demais tanto na vida familiar como nos ambientes que participam, como o escolar ou entre os amigos. Não deve ser necessário que a mãe peça ao adolescente que limpe o quintal e recolha a sujeira que o cachorro deixou, nem que mantenha em ordem seus objetos pessoais ou colabore nos demais serviços do lar. Um filho sensível, consciente de suas obrigações, faz tudo isso sem que lhe peçam, pois se sente movido pelo amor, que deve se manifestar primeiramente em obras de serviço aos seus pais e irmãos. Há comportamentos que revelam solidariedade ao dar o próprio tempo aos demais.

          Perceber e agradecer o esforço que na família as pessoas fazem ao utilizar a máquina de lavar, fazer compras, limpar, cuidar de um doente, preparar as refeições, pôr e tirar a mesa… Muitas atividades devem ser gerenciadas para que no lar tudo discorra bem. Se um filho se concentra apenas em assuntos pessoais e não se envolve nessas tarefas, nunca aprenderá a trabalhar bem, pois o trabalho é sempre um serviço aos demais e não uma atividade para ser servido por todos.

    Tarefas no lar

          Diversas mães sugerem serviços domésticos que podem ser atribuídos aos filhos nas diferentes faixas etárias (https://staging.ariesteves.com.br/tarefas-para-criancas/). Isso ajudará a incutir nas crianças o espírito de serviço e de prontidão, tornando-as solidárias e participantes na construção de um lar alegre, limpo, ordenado, onde todos se sentem bem. Sem essas atribuições, cria-se nos filhos um espírito de mera hospedagem e a ideia errada de que são apenas sujeitos de direitos e não de obrigações, e com isso se transformam em senhores feudais e seus pais em meros servos.

    Fomentar virtudes e ideais grandes nos filhos

          A felicidade é um dom do amor, e esse dom exige sair de si para doar-se. Os filhos, desde a adolescência, devem concluir que receberam gratuitamente de Deus as qualidades pessoais que possuem para colocá-las ao serviço dos demais. Com isso, tornam-se capazes de buscar ideais grandes que os faça transcender-se, e não estacionar comodamente numa vida raquítica e cômoda. 

          Manter uma vida frívola é sempre algo perigoso. Advertir os filhos do risco de se conformar com metas estritamente pessoais, egoístas ou fechadas em si mesmas: encerrar-se no próprio eu é algo mesquinho, estreito, que empequenece a alma. O trabalho de formação dos pais deve aproximar os filhos da fé, do encontro com Cristo, a fim de que não trabalhem em vão e com estreita visão humana, tendo como únicos objetivos ficar rico, ter poder, status, pois são ideais que encerram a pessoa no egoísmo, que é fonte de infelicidade, além de que uma esperança humana, puramente humana, carece de fundamento. A pessoa que vive com perspectivas estreitas, que não possui interesse por qualquer coisa que não seja o seu prazer e divertimentos, nunca compreenderá o verdadeiro sentido do amor e da felicidade, e terá as pessoas apenas como degraus para os seus interesses.

    Animar os filhos a serem generosos

          Quem ama não sabe calcular, diz o ditado. A alegria de servir traz a experiência de que um trabalho que parecia incômodo se transforma em gratificante, pois passa a ser desejado como um bem ao próximo. Os pais devem fomentar nos filhos ambições nobres, animando-os a levar uma vida mais generosa, e a ter no coração desejos de servir aos demais com suas qualidades: ser sábios, generosos e audazes sem temer os sacrifícios de realizar o sonho de tornar feliz a vida dos demais. Assim, os filhos se animarão em preparar-se para dar soluções aos problemas que afetam tantas vidas.

         Aproveitar para ler os boletins “A disciplina familiar” e “A rotina na vida das crianças

    Texto de Ari Esteves inspirado no artigo “Educar para a laboriosidade”, de Carlos Roberto Pegoretti Júnior, Diário do Grande ABC, 23-08-2021. Imagem de Leeloo The First.

  • Seu filho e o celular

    Seu filho e o celular

    1 – Crianças viciadas em telas digitais se tornam passivas. 2 – As virtudes asseguram o bom uso dos celulares. 3 – Ensinar a criança a controlar seus impulsos. 4 – Os adolescentes anseiam por autonomia

    1 – Crianças viciadas em telas digitais se tornam passivas

         As novas gerações nasceram em um mundo interconectado, ao qual os seus pais não estavam acostumados, e desde muito cedo têm acesso à Internet, redes sociais, chats, videogames. Crianças e jovens estão expostos a um universo sem fronteiras que oferece benefícios e riscos que não podem ser ignorados, o que torna necessária a proximidade e orientação dos pais, que devem adquirir conhecimentos e alguma prática para formar o seu próprio critério e orientar os filhos.

         As novas tecnologias criaram um ambiente onde se pode passar horas e horas. Pedagogos, psicólogos e orientadores familiares constatam que a criança que passa a depender da superestimulação artificial das telas, se acomoda e não é capaz de se encantar ou admirar-se com nada mais, pois deseja apenas retornar à hiperatividade das telas, onde muitos desenhos tidos como “infantis” mudam de cena a cada oito segundos (7,5 cenas por minuto), o que não acontece no mundo real da criança. O excesso de imagens satura os sentidos e bloqueia o raciocínio e a imaginação, e torna a criança passiva e entediada com o mundo real, porque acha-o chato, lento e sem graça. E quando sai à rua com os pais ela não sabe fixar a atenção em nada ao seu redor porque, acostumada à superestimulação, perdeu a curiosidade e a imaginação se acomodou.

         Cada vez mais os dispositivos tecnológicos estão conectados à internet, atingem amplas audiências e permitem que qualquer pessoa difunda mensagens de forma rápida e praticamente sem custo. Que tipo de mensagens? Eis a questão. Para não colocar os filhos em riscos desnecessários ou criar vícios é preciso avaliar o momento oportuno para que utilizem equipamentos digitais. Dos seis aos vinte e quatro meses a criança não precisa de brinquedos, pois se diverte quando o pai ou a mãe brinca de se esconder e reaparecer atrás da porta, gosta de engatinhar e se encanta com os pequenos objetos que encontra no caminho: o ruído do papel celofane, a formiga que carrega uma folha, a embalagem vazia no chão da cozinha… É assim que ela vivencia as próprias experiências e desenvolve as habilidades motoras e de percepção. Se se pretende dar algum brinquedo à criança nessas idades, é desnecessário que sejam de pilhas e contenham botões, já que estes devem estar dentro da criança e não fora dela: não é a brincadeira que deve funcionar, mas a criança. A realidade simples e viva é a atividade por excelência com a qual a criança aprende movida pela curiosidade, desenvolve sua percepção ao considerar os acontecimentos reais do entrono, entre outros benefícios.

         As crianças necessitam despertar a curiosidade diante das pessoas e objetos que as cercam, buscar respostas para as suas experiências e não obter tudo pronto ao apertar botões de equipamentos eletrônicos, que roubam delas a interação com o mundo ao seu redor. Uma criança não precisa estar conectada à internet; se necessário for, é melhor que siga um plano de acesso por um tempo restrito e em local e horário determinados (à noite, desconectar ou desligar), ao mesmo tempo ensiná-la a se proteger de situações perigosas e falar sempre com os pais se algo estranho ocorrer.

         Muitos educadores afirmam que as crianças não devem ter aparelhos eletrônicos avançados (tabletes, celulares, videogames). E se manuseiam algum equipamento por alguns momentos, por sobriedade e para não criar falsas necessidades, é aconselhável que os aparelhos sejam da família e não delas, e só devem ser utilizados em lugares comuns e com normas e horários, a fim de se habituarem a ter outras atividades mais úteis como estudar, cumprir encargos no lar, descansar no convívio com os familiares (o valor do contato humano não pode ser substituído por telas).

    2 – As virtudes asseguram o bom uso dos celulares

         O problema não está nas tecnologias, mas no modo como cada um as utiliza. A vida virtuosa é o filtro mais infalível que existe. Os pais devem ensinar os filhos a se comportarem virtuosamente no mundo digital, e isso se consegue não somente com regras e filtros, mesmo que estes válidos para proteger as crianças da pornografia, ameaças sexuais e outros malefícios. O mais importante é educá-los por meio de virtudes, a fim de que queiram ter uma vida reta, limpa, ao direcionar suas paixões e evitar com alegria tudo que é inconveniente na esfera digital. As novas tecnologias devem estar presentes nas conversas e regras da casa, que costumam ser poucas e de acordo com a idade dos filhos. Ensinar a viver as virtudes implica que os pais sejam exigentes consigo próprios ao moderar o uso do celular para aproveitar melhor o tempo e fixar a atenção na criança que lhes deseja falar… A coerência dos pais ao viverem pessoalmente o que indicam é o melhor modo de educar, pois os filhos ao serem testemunhas desses esforços irão imitá-los.

         A família é escola de virtudes, e onde as crianças aprendem as primeiras noções acerca do bem e do mal, e os valores sobre os quais podem alicerçar uma vida reta e sã. A meta é que cada filho aprenda a tomar decisões de forma adequada à sua idade, e saiba administrar a sua liberdade porque está movido por hábitos que lhe facilitam o autodomínio, a temperança no comer e beber e a ter horários para brincar, estudar e ajudar nas tarefas da casa. Também deve dominar a curiosidade e não entrar em sites que destroem a vida moral e criam vícios difíceis de arrancar. Deve desgostar de perder tempo com informações que não servem para nada, e aprender a descansar criativamente com leituras, quebra-cabeças, xadrez, dama, lego, vídeos culturais previamente programados… Estabelecer diretrizes e explicar sobre a importância de utilizar melhor o tempo e não gastá-lo em redes sociais, videogames, jogos online, são conselhos que os filhos necessitam para desprenderem-se de ambientes digitais. Os mesmos conselhos que orientam o comportamento dos filhos nos espaços públicos (boas maneiras, recato ou pudor, respeito a si e ao próximo, cuidado com a curiosidade, não permanecer ocioso, etc.), devem ser utilizados nos espaços digitais.

    3 – Ensinar a criança a controlar seus impulsos

         De acordo com a idade de cada filho, torna-se decisivo manter diálogos esclarecedores sobre a educação dos afetos (sentimentos, emoções, paixões), a fim de que controlem seus impulsos e tenham presente que o publicado na internet torna-se acessível a todos em qualquer parte do mundo, e deixa rastro que pode ser acessado por tempo indefinido. O mundo digital é um grande espaço que exige mover-se com bom senso: se os pais dizem à criança que na rua não fale com estranhos, o mesmo deve ser dito quando estão no ambiente digital. Uma comunicação franca na família cria um ambiente de confiança onde as dúvidas e as incertezas dos filhos são rapidamente resolvidas.

         Como um bom guia de montanhas, os pais devem acompanhar os filhos no ambiente digital para que estes não sofram e nem causem danos a outros: consultar com eles a internet e “perder tempo” ao jogar um videogame com os filhos tornam-se oportunidades para conversas mais profundas sobre o uso da rede. Essas experiências devem ser transmitidas a outras famílias.

         A infância é o momento de iniciar a prática das virtudes, e de aprender o bom uso da liberdade. No período de zero a seis anos criam-se hábitos que serão básicos na formação do caráter e domínio do temperamento, e se aprende a viver a virtude da ordem nos aspectos material (guardar brinquedos e roupas próprias) e temporal (ter horários para cada atividade). Tais hábitos, uma vez adquiridos, fortalecem a vontade para vencer a preguiça e o comodismo.

         É conveniente mostrar aos filhos o valor da austeridade quanto ao uso de aplicativos, gadgets (dispositivos portáteis), etc. Ensiná-los a viver o desprendimento não é apenas por motivos econômicos, mas para que não sejam dominados pela compulsão de ter as últimas novidades da indústria eletrônica, nem criar falsas necessidades (tem mais quem precisa de menos). Saber esperar até que os objetos úteis barateiem é parte da virtude da pobreza ou do desprendimento dos bens materiais. 

    4 – Os adolescentes anseiam por autonomia

         Na adolescência os filhos anseiam por um grau maior de autonomia, e os pais devem ir soltando as rédeas aos poucos, porque ainda são incapazes de administrar plenamente a liberdade. Mas isso não significa que tenham de ser privados da independência que lhes corresponde. Trata-se de ensinar-lhes a administrar a liberdade responsavelmente, a fim de serem capazes de visualizar objetivos mais altos ao colocar suas capacidades ao serviço do próximo. Autonomia e respeito às regras da disciplina familiar se conseguem com diálogos esclarecedores sobre os porquês ou razões subjacentes a algumas exigências que poderiam parecer limitantes, mas que na realidade não são proibições, e sim afirmações que ajudam a forjar uma personalidade autêntica que sabe ir contra a corrente de modismos ou campanhas publicitárias que escravizam: o guard rail das estradas não limitam a liberdade do motorista, mas orientam e protegem a sua vida.

         Educar é dotar os filhos de uma sabedoria que lhes permita administrar os sentimentos e afetos por meio da inteligência e vontade bem formadas. Mostrar como a virtude é atrativa e abraça ideais magnânimos: lealdade, respeito aos outros, fidelidade, solidariedade, autodomínio para ter as rédeas das inclinações instintivas, pudor, modéstia, etc.

         A missão dos pais é facilitada quando conhecem as preferências dos filhos, sabem o que lhes entusiasma e se interessam pelos hobbies que praticam. Assim se gera a confiança necessária para que eles compartilhem seus sentimentos. Há jovens que escrevem blogs ou usam as redes sociais para colocar conteúdos, e seus pais não sabem ou nunca leram os seus textos, o que leva os filhos a julgarem que eles não se interessam ou não apreciam o que fazem. Ler com agrado e interesse o que seus filhos escrevem ou postam enriquecerá o diálogo familiar.


    Sugestão de leitura para completar o tema: Boletim Educar na realidade

    Texto adaptado por Ari Esteves com base no artigo “Educar en las nuevas tecnologias”, de Juan Carlos Vásconez, (@jucavas). Imagem de Tima Miroshnichenko.

  • Transmitir a fé aos filhos

    Transmitir a fé aos filhos

    1 – Fé, legado mais importantes para se transmitir aos filhos. 2 – A fé deve ser vivida no dia a dia. 3 – Dificuldade dos jovens para viver a fé. 4 – Sem virtudes os filhos não vivem a fé. 5 – Piedade sem doutrina não basta. 6 – Abrir horizontes ao mostrar a beleza da fé.

    1 – Fé, legado mais importantes para se transmitir aos filhos

       A fé é o legado mais importante que os pais podem transmitir aos filhos, porque uma esperança humana, puramente humana, carece de sentido já que tudo passa com a morte, e nem riquezas e nem as honrarias nos acompanharão ao sepulcro. A Esperança que alegra o coração é a que eleva-se até Deus porque apenas a fé e o Amor a Deus dão significado à existência humana. A transmissão da fé não é uma questão acessória, da qual depende só um pouco mais de felicidade, mas trata-se de algo radical que afeta o resultado de toda a vida, à qual passa a iluminar. 

       Nenhuma comunidade humana está tão bem-dotada como a família para facilitar que a fé enraíze nos corações das crianças, a fim de que elas coloquem seus primeiros afetos em Deus, em Jesus Cristo e em Nossa Senhora, à imitação de seus pais, se estes forem sinceramente piedosos. É na própria família que se forja o caráter, a personalidade, criam-se os bons costumes, e onde se aprende a conviver com Deus

         A família cristã transmite a beleza da fé e do amor a Cristo ao viver em harmonia, ao saber sorrir e esquecer as próprias preocupações para atender aos demais, “a não dar importância a pequenos atritos que o egoísmo poderia converter em montanhas; a depositar um amor grande nos pequenos serviços de que se compõe a convivência diária(É Cristo que passa, n. 23).

         Transmitir a vida de Jesus Cristo aos filhos é o melhor alimento que se pode dar a eles, que desde pequenos têm necessidade de Deus e capacidade de perceber a sua grandeza. As crianças sabem apreciar o valor da oração e do que é sagrado, e percebem a diferença entre o bem e o mal. Fomentar nos filhos a unidade entre o que se crê e o que se vive é a meta a ser conseguida, pois uma mensagem de salvação afeta toda a pessoa, ao enraizar no entendimento e no coração. Para isso, está em jogo a amizade dos filhos com Jesus Cristo, tarefa que merece os melhores esforços dos pais para tornar acessível a doutrina cristã aos filhos.

    2 – A fé deve ser vivida no dia a dia

         Para transmitir a fé é importante que a família tenha vida de piedade, que é de trato simples e filial com Deus: abençoar as refeições, rezar com os filhos pequenos as orações da manhã e da noite, ensinar-lhes a recorrer aos Anjos da Guarda, a ter carinho com Nossa Senhora, a dar importância à participação na Santa Missa, mesmo durante as viagens, ensinar de forma natural a defender e a transmitir a fé e o amor a Jesus. Esses são modos concretos de favorecer a virtude da piedade (trato filial com Deus) nas crianças.

         O “Elemento fundamental e insubstituível da educação para a oração é o exemplo concreto, o testemunho vivo dos pais: só rezando em conjunto com os filhos, o pai e a mãe […] entram na profundidade do coração dos filhos, deixando marcas que os acontecimentos futuros da vida não conseguirão fazer desaparecer”. (Exhort. Apost. Familiaris consortio, n.60).    

         Se os pais pretendem mostrar como a vida de Cristo muda a existência do homem, é lógico que os filhos notem que, em primeiro lugar, tenha mudado a vida de seus próprios pais. Ser bons transmissores da fé em Jesus Cristo implica manifestar com a própria vida a adesão a Ele, e lutar cada dia por ser melhores, pois os filhos, ao verem esse esforço, procurarão imitar os pais.

         A educação da fé não é um mero ensinamento, mas a transmissão de uma mensagem de vida. Ainda que a palavra de Deus seja eficaz em si mesma, é mais convincente quando se vê encarnada na vida dos pais, e isso é importante para as crianças. Os pais têm tudo a seu favor para comunicar a fé aos filhos. Além da palavra, devem ser piedosos, coerentes, e dar testemunho pessoal a todo o momento, com naturalidade, sem procurar dar lições constantemente. As crianças são perspicazes, mesmo que pareçam ingênuas, e percebem como seus pais vivem a fé. É preciso pensar no modo mais pedagógico de transmitir a fé a elas, e preparar-se para ser bons educadores. Porém, o decisivo é o empenho com que os pais colocam em prática em suas vidas os princípios da fé.

    3 – Dificuldade dos jovens para viver a fé

         Muitos jovens afrouxam na fé que receberam ao sofrer algum tipo de prova: a pressão de um ambiente paganizado, amigos que ridicularizam as convicções religiosas, um professor que dá as “lições” numa perspectiva ateia ou que põe Deus entre parêntesis. Há jovens que foram educados na piedade, mas sucumbiram diante de um ambiente para o qual não estavam preparados, porque careciam de profundidade doutrinal e educação nas virtudes. É preciso conhecer os diferentes ambientes que influenciam na educação dos filhos para ajudá-los a superar as dificuldades.

         As crises de fé ganham força quando os filhos deixam de comentar suas dificuldades com os pais. É importante criar um clima de confiança e estar sempre disponíveis a eles, pois, por mais indóceis que pareçam, desejam sempre essa aproximação. Falar com os filhos é o que há de mais grato aos pais, sendo também a via mais direta para estabelecer uma profunda amizade: quando há confiança, eles falam de suas inquietações e sentimentos. Embora haja idades mais difíceis do que outras para conseguir essa proximidade, os pais não devem afrouxar no entusiasmo por “chegarem a ser amigos dos filhos; amigos a quem se confiam as inquietações, a quem se consulta sobre os problemas, de quem se espera uma ajuda eficaz e amável” (Cristo que passa, n. 27).

         Nesse ambiente de amizade que deve ser a família, os filhos devem ouvir falar de Deus de um modo agradável e atrativo. Mas isso requer que os pais encontrem um tempo de qualidade para estar com os filhos, e estes devem perceber que suas coisas interessam aos pais mais do que outras ocupações. Nenhuma circunstância pode levar a omitir ou atrasar esse diálogo: desligar a TV ou o computador quando a menina ou o garoto pretende dizer algo; reduzir a duração do trabalho profissional para chegar cedo em casa, e facilitar a conversa com os filhos; encontrar formas de entretenimento que tornem agradável a vida familiar, etc.

         Os filhos, embora vivam no mesmo lar, possuem interesses e sensibilidades diferentes, e essas variedades ao invés de serem obstáculos, ampliam o horizonte educativo. Conhecer o temperamento e o caráter de cada filho leva a educá-lo de forma personalizada, sem estereótipos. Mesmo sendo o caminho da fé muito pessoal − pois faz referência ao mais íntimo da pessoa (sua relação com Deus) −, o papel da instrução é ajudar a percorrê-lo. Transmitir a fé não é questão de estratégia, mas de facilitar que cada um queira melhorar ao descobrir o desígnio de Deus para a sua vida.

    4 – Sem virtudes os filhos não vivem a fé

         Na transmissão da fé não basta a piedade, mas é relevante a educação nas virtudes para que os filhos não cedam diante do mais fácil, e deixem de seguir a razão iluminada pela fé. Formar nas virtudes requer salientar a importância da exigência pessoal, do empenho no trabalho e estudo, no espírito de serviço aos demais, na temperança, pois esses bens estão acima dos desejos materiais e facilitam a compreensão das realidades do espírito.

         Educar os filhos com pouca exigência, nunca lhes dizer “não” e procurar satisfazer todos os seus desejos, é caminho que lhes fechará as portas para a elevação do espírito. Essa condescendência nasce de um falso carinho, ou do querer livrar-se do esforço de pôr limites aos apetites e ensiná-los a obedecer e a esperar. E como a dinâmica do consumismo é insaciável, cair nesse erro leva os filhos a ter um estilo de vida caprichoso e volúvel, introduzindo-os numa espiral negativa de busca de comodidades, de falta de virtudes humanas e desinteresse pelos outros. Saciar todos os caprichos é colocar sobre a vida espiritual uma carga pesada, incapacitando a pessoa para a doação e o compromisso com Deus e aos demais.

    5 – Piedade sem doutrina não basta

         A transmissão da fé aos filhos é uma tarefa que exige empenho. Quando se busca educar na fé, “não se deve separar a semente da doutrina da semente da piedade” (Forja, n. 918). É preciso unir o conhecimento com a virtude, a inteligência com os afetos. Não bastam algumas práticas de piedade com um mero verniz de doutrina: é necessário que a doutrina se faça vida ao se transformar em determinações no dia a dia, em compromisso que leve amar a Cristo e aos demais.

         Piedade sem doutrina torna os filhos vulneráveis diante do combate intelectual que sofrerão ao longo da vida. Por isso, necessitam de uma formação apologética profunda e ao mesmo tempo prática, e que respeite as peculiaridades próprias de cada idade. Ao tratar de um livro ou de atualidades poderá ser boa ocasião para ilustrar o tema com a doutrina da fé. Ler o Catecismo ou o Compêndio da Doutrina Cristã com as crianças ajudará a que compreendam a importância do estudo da doutrina.

    6 – Abrir horizontes ao mostrar a beleza da fé

         Conseguir que os filhos interiorizem a fé requer aproveitar as diferentes situações para aconselhá-los com razões humanas e sobrenaturais. Abrir horizontes é mostrar aos filhos a beleza da vida cristã e das virtudes, sem limitar-se a dizer o que é proibido ou obrigatório, pois isso daria a falsa imagem de que a fé é uma normativa que limita, e não que liberta o coração de liames que o escravizam e eleva a alma até as verdadeiras alegrias. Na educação da fé deve-se ter muito presente que os Mandamentos de Deus conduzem a pessoa à melhor expressão de si mesma, tal como seguir o manual de instruções do carro o faz render melhor, os Mandamentos são o manual para melhor utilização dessa união de alma e corpo que são os seres humanos.

         Seria um erro associar “motivos sobrenaturais” ao cumprimento de encargos, tarefas ou “obrigações” que sejam custosas para as crianças. Não é bom abusar do recurso de pedir à criança que tome a sopa ou coma salada como um sacrifício a Deus: dependendo de sua vida de piedade e de sua idade pode ser conveniente, mas é melhor procurar outros motivos que a estimule. Isso porque Deus não pode ser o “antagonista”,  mas um Pai que ama cada um de seus filhos acima de todas as coisas, e que Cristo é o bom Mestre, o Amigo que nunca engana.

         Relacionar a fé com razões que os filhos compreendam e valorizam revela que a mensagem cristã é racional e bela: amar a Deus em primeiro lugar coloca ordem nos demais amores, faz dirigir a vida ao esquecimento próprio (ideal que atrai aos jovens), e permite compreender as razões pelas quais se deve viver a castidade, a temperança na comida e uso dos games, a laboriosidade, o desprendimento dos bens, a prudência no uso da internet.

         Educar na fé é pôr os meios para que os filhos convertam sua existência inteira em um ato de adoração a Deus: “a criatura sem o Criador desaparece” (Const. past.Gaudium et spes, n. 36). Na adoração encontra-se o verdadeiro fundamento da maturidade pessoal: se não se adora a Deus, adora-se a sim mesmo por meio de desejos de poder, prazer, riquezas, ciência, beleza…

         Para adorar, as crianças devem descobrir a figura de Jesus Cristo ao serem estimuladas desde pequenas a falar pessoalmente com Ele (isso se chama oração). Aproveitar fatos cotidianos para contar a elas sobre Cristo e seus amigos e penetrar com elas nas cenas do Evangelho. Estimular a piedade nas crianças significa facilitar que elas ponham o coração em Jesus Cristo. Explicar a elas sobre os acontecimentos bons ou maus, e que escutem a voz da própria consciência, na qual o próprio Deus revela sua vontade, e procurar pôr em prática o que ouviu. As crianças adquirem tais hábitos quase por osmose, vendo como seus pais se relacionam com o Senhor, e como O têm presente em seu dia a dia. A fé, mais que a transmissão de um conteúdo, é seguir uma Pessoa que aceitamos sem reservas e a quem nos confiamos.

         Os bons pais desejam que seus filhos alcancem a plenitude humana e espiritual, sendo felizes em todos os aspectos da existência: profissional, cultural, afetivo e espiritual. O melhor serviço que se pode prestar a uma pessoa – a um filho de modo especial – é apoiá-la para que responda plenamente à sua vocação cristã, e descubra o que Deus espera dela. Porque não se trata de uma questão acessória, da qual depende só um pouco mais de felicidade, mas de algo radical que afeta o resultado de toda a vida.

    Sugestão de leitura: “A fé explicada”, de Léo J. Trese, www.quadrante.com.br

    Texto extraído e adaptado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, com base nos artigos "Transmitir la fé", de Alfonso Aguiló, em www.almudi.org. Imagem de Cottonbro Studio.

  • A disciplina familiar

    A disciplina familiar

    1 – Não basta dar alimento e abrigo aos filhos. 2 – A ordem e as rotinas. 3 – Crescer em espírito de serviço. 4 – Para chegar a ser um adolescente organizado. 5 – Importância da cultura familiar. 6 – Programar o encontro com o belo.

    1 – Não basta dar alimento e abrigo aos filhos

         Para uma família educar não basta dar alimento, abrigo, segurança e deixar o tempo passar, como se isso suprisse todas as necessidades da alma humana. Um lar formador disciplina em três aspectos práticos que envolvem todos os membros, inclusive as crianças: ordem, por meio de rotinas; espírito de serviço ou preocupação pelos demais através da realização de encargos ou tarefas no lar; e fomenta o crescimento humano e espiritual ao programar encontros com a verdade e o esteticamente belo.

    2 – A ordem e as rotinas

         A ordem se manifesta nas rotinas familiares a que todos devem respeitar: horário de dormir e de acordar, horário das refeições, horário de iniciar e findar o trabalho profissional; horário de estudar, ler ou descansar… A sabedoria esconde-se atrás das rotinas, que não são algo meramente externo, pragmático, cuja eficiência organizativa visa transformar cada pessoa em robô. A rotina é o caminho para chegar à disciplina interior, para controlar a tendência dos afetos quando estes buscam apenas o prazeroso. A falta de rotina conduz cada um a agir como bem entender: a chegar do trabalho ou da escola na hora que quiser, a fazer as refeições em qualquer local (diante da televisão ou no sofá), a deixar os objetos pessoais em locais diferentes de cada vez, a isolar-se para cuidar apenas dos próprios interesses.

         A virtude da ordem tem quatro pilares: ordem material ao manter organizados os objetos da casa e os de uso pessoal; ordem temporal, que leva a cumprir cada tarefa ou encargo no momento previsto; ordem afetiva ou dos sentimentos ao fazer o que deve ser feito e não o que mais agrada; ordem mental ao priorizar o importante e fomentar a capacidade de se auto-organizar.

    3 – Crescer em espírito de serviço

         Os encargos são aquelas tarefas atribuídas a cada um − inclusive às crianças − a fim de colaborar com o bem-estar de todos na casa. Cada encargo é parte de um trabalho maior a ser alcançado entre todos. Se os filhos não possuírem encargos se habituarão a ter todo tempo unicamente para as coisas pessoais, e se tornarão egoístas, preguiçosos e sem se importar com os demais.

         Tanto as rotinas como os encargos se inserem dentro da virtude da ordem, e trazem imensos benefícios a todos os membros da família, e também às crianças: é fonte de estabilidade e segurança ao dar certeza sobre o que fazer em cada momento, faz crescer o sentido de responsabilidade, promove a disciplina interior ao deixar uma atividade e iniciar outra, controla os afetos que tendem apenas ao prazeroso, facilita a obediência, cria no lar um ambiente sereno onde a televisão e outras mídias se mantém desligadas e só serão utilizadas em horários pré-determinados, permitindo que as pessoas tenham tempo para pensar, ler, dialogar ou concentrar-se em suas tarefas…

         Até aos cinco anos, a criança deve crescer na dimensão material e temporal da ordem, que dará a ela mais estabilidade comportamental, disciplina, atenção e equilíbrio emocional para controlar seus impulsos (ordem afetiva). É evidente que a criança não deve ser um mini executivo com a agenda lotada e olhos pregados no relógio. Mas se não sabe que fazer em cada momento, torna-se confusa e desordenada.

         Para as crianças, as rotinas são criadas com paciência, insistindo durante algum tempo até que as façam sozinhas, e parabenizando-as pelo esforço cada vez que alcançam uma etapa. A rotina de limpar o pó dos livros − ou do espelho, etc. − tem que ser pacientemente explicada, a fim de que a criança não fique confusa e desista ao não se sentir preparada. Não ter pressa ao ensinar é o segredo, já que não se trata de buscar a eficiência material de limpar os livros. A limpeza de uma estante de livros poderá demorar uma semana. O importante é fazer lentamente os movimentos com a mão que tira o pó, depois colocar calmamente o livro na prateleira e retirar o seguinte.

         A criança pequena não distingue a sucessão temporal, mas apenas o momento presente: não tem noção de ter o dia vinte e quatro horas, de ter a semana sete dias e o mês trinta. Por isso, ela não sabe o que vem em seguida: se é hora de pintar, lanchar ou de tomar banho. O mesmo acontece a um adulto colocado em ambiente desconhecido: se desorienta e não sabe o que fazer.

         É preciso mostrar à criança a sequência das atividades ao colocar uma cartela com desenhos coloridos que indiquem o que vem depois. No Colégio Porto Real, Rio de Janeiro, em cada sala de aula há uma pequena cartela com as quinze atividades que as crianças devem desenvolver ao longo do dia. A encarregada da sala vai deslocando a bolinha para a próxima atividade a ser realizada. Sem isso, elas ficam sem saber se devem ir para o lanche, pátio ou sala. Somente por volta dos sete ou oito anos é que saberá se organizar sozinha (ordem mental).

         Não se deve impedir que as crianças desde pequenas tenham encargos, nem substitui-las no que conseguem fazer, mesmo que no início não cumpram com perfeição e exijam paciente e bem-humorado treinamento. Não é suficiente que ela fique metida apenas em suas coisas. A criança executa seu encargo com a alegria de estar praticando um jogo. Ao fazer isso, cresce em autodomínio, independência, preocupação pelos demais e ganha espírito de equipe ou de cooperação, que são hábitos ou virtudes portadoras de felicidade, já que o egoísmo é sempre causa de isolamento e tristeza. A criança a partir de um ano e meio pode jogar na lixeira a fralda suja, colocar seus brinquedos em cada caixa, deixar a roupa na gaveta, dormir e comer no horário.

         Isso não quer dizer que as crianças só devam fazer o quem gostam, pois assim jamais cresceriam em espírito de serviço e força de vontade, e ficariam sempre pendentes dos sentimentos e gostos. Fazer tarefas que não nos agradam faz parte da vida. Porém, ao atribuir uma tarefa à criança, levar em conta o caráter e o temperamento dela: tarefas movimentadas podem corresponder àquela mais inquieta, enquanto à mais calma conferir as que exijam maior atenção e cuidado. A idade é outro fator para distribuir encargos, pois sempre haverá escala de dificuldade entre eles. É interessante fazer a distinção entre idade mental e real, pois algumas crianças estão mais capacitadas que outras para efetuar determinadas tarefas, independentemente da idade real. Não incumbir tarefa que seja fácil nem difícil de executar, pois ambas desestimulariam a criança.

    4 – Para chegar a ser um adolescente organizado

         A criança acostumada a realizar suas tarefas desde pequena, logo se tornará um adolescente organizado e com força de vontade para enfrentar dificuldades. E porque foi estimulada a fazer o que devia, aprendeu a vencer os estados de ânimo: ao arrumar o quarto, roupas e brinquedos, quando não sentia gosto em fazer, fortaleceu sua vontade para enfrentar agora tarefas mais exigentes, como a de ter hábito diário de estudo. Se os pais cedem, os filhos serão arrastados pela preguiça ou comodismo. Permitir que os filhos adiem as tarefas é autorizá-los a que sejam preguiçosos e irresponsáveis. Devem primeiro cumprir o que os pais pedem, e só depois serem autorizados a fazer o que querem:− “Não poderá ir brincar enquanto não recolher os pratos e arrumar a mesa do jantar”. Caso contrário, será desordenado, acomodado e habituado a fazer apenas o que gosta, tal como inundar-se de imagens digitais, que tornam a mente preguiçosa para a leitura de livros, e viverá centrado apenas em si e em suas coisas.

         Há pais que impedem seus filhos de crescerem psicologicamente, pois preferem vê-los como eternas crianças. Tal atitude, egoísta e injusta, não os prepara para uma adolescência virtuosa porque não os fazem crescer em autonomia, mantendo-os sempre necessitados de que façam as coisas por eles. O paternalismo ou a superproteção enfraquece a vontade e o caráter dos filhos, pois os substituem nos esforços que deveriam fazer. As crianças não devem ser vistas apenas como necessitadas de ajuda e portadoras unicamente de direitos, mas possuidoras também de deveres para com os pais, irmãos e demais pessoas que se relacionam com a família. Ao contribuir para com o bem-estar de todos na casa, elas crescem humana e espiritualmente: enxugar banheiro, colocar pratos e talheres na mesa, ordenar seu quarto e objetos pessoais, varrer, ajudar os irmãos, ser educadas com os que não são da família…

    5 – Importância da cultura familiar

         A família é o primeiro âmbito de promoção da cultura e o ambiente mais próximo da pessoa, sendo também o que mais pode ajudar seus integrantes a desenvolver a sensibilidade para a verdade, o bem e o belo. Gustave Thibon dizia que “uma das principais funções da família é criar um ambiente em que a instrução tende a converter-se em cultura e a cultura converter-se em sabedoria no sentido de saborear”.

         É triste comprovar que muitos pais não sabem programar os fins de semana, e desaproveitam esse precioso tempo para enriquecerem culturalmente a si e aos filhos. A falta de interesse e esforço dos pais pela própria formação cultural e humana decepciona os filhos, que logo se lamentarão de não apreciarem a música clássica, de serem indiferentes à pintura, escultura, poesia, teatro e literatura, porque seus pais agiram preguiçosamente nesse campo. Há uma relação muito grande entre pais que cultivam sua sensibilidade estética e filhos que também a cultivam. Se os pais não desejam que as filhas pequenas imitem as danças sensuais que veem na TV e cantem letras ofensivas − mesmo que no momento não compreendam o que dizem −, precisam criar no lar uma atmosfera de cultura ao colocar as crianças frente ao que é estética e moralmente mais belo.

         As tertúlias ou bate-papos familiares durante as refeições ou momentos de lazer, ilustram as crianças sobre a profissão do pai e da mãe, seus gostos artísticos, seus hobbies. Muitas crianças não sabem como é o trabalho do pai e da mãe porque estes dialogam pouco com elas sobre isso (pensam erradamente que elas não compreenderão). As vivências e experiências narradas enriquecerão as crianças, que se sentirão valorizadas pelos pais.  A transmissão do patrimônio cultural da família pode ser feito com fotografias, objetos de decoração que são lembranças de pessoas ou momentos do passado, vídeos e gravações de viagens, tradições e costumes da família.

         Os pais não são os únicos responsáveis pela cultura familiar: filhos mais velhos, tias, tios e avós podem colaborar nessa promoção ao falar de seus estudos, hobbies. Convidar amigos para contar alguma experiência interessante: viagem, esporte, artes, colecionismo.

       Visitar livrarias e feiras de livros com as crianças, inscrevê-las em bibliotecas públicas, ir a exposição de quadros ou esculturas, participar de audições musicais de diferentes gêneros a fim de que possam comparar o que é esteticamente mais belo, levá-las ao teatro infantil, à leitura de poesias e contação de histórias; programar nos fins de semana sessões de vídeos culturais, históricos, geográficos. E incentivar sempre as crianças a relatarem as impressões sobre o que presenciaram.

         Com o espírito elevado pelas boas leituras, a TV, tabletes, celulares e mídias sociais perderão o atrativo, pois se descobriu a maneira mais intensa e rica de aproveitar o tempo. As cinco ou seis horas que muitos adolescentes gastam atualmente com games, vídeos e mídias sociais, e que mal se recordam no dia seguinte do que ficou dessas horas que escoaram sem deixar rastro, tal como água sobre pedra, é um alerta para que os pais incentivem o gosto pelos livros, pois uma boa leitura nunca se esquece e faz ganhar capacidade de expressão, autoconhecimento, criatividade e experiência de vida.

    6 – Programar o encontro com o belo

         A arte, atividade humana criadora de beleza, é regida pelo sentido da estética e não pelo de utilidade, que é próprio da ciência e da técnica. A beleza tem algo de divino e inspira o coração e a mente das crianças. O teatro, a pintura, a escultura, a poesia e a arte narrativa (conto, romance, novela) tornam rico o espírito humano, que passará a produzir do que se alimenta. As crianças precisam ser introduzidas pelos pais no mundo da cultura, a fim de descobrir a beleza estética encontrada nas diversas manifestações artísticas. Helena Lubienska, discípula de Maria Montessori, relata que a Divina Comédia, de Dante Alighieri, foi lida com avidez em sala por meninos de sete a doze anos. Ela se surpreendeu com a atenção que colocavam na narrativa e a facilidade com que decoravam trechos da obra; e por fim, apresentaram uma peça teatral baseada nesse texto.

         O tempo dedicado à leitura de um bom livro oferece muito mais à inteligência e à sensibilidade do que as longas horas deglutindo sucessivos desenhos, jogos eletrônicos e fotos em redes sociais. A cultura das imagens se dirige ao desenvolvimento de sensações e impressões superficiais e passageiras, diminuindo a capacidade reflexiva. A leitura de bons livros leva a raciocinar, a criar as próprias imagens ao remover a imaginação e a memória, a construir ideias sobre a vida e as pessoas, o que leva ao autoconhecimento, além de transmitir critérios que orientam a conduta para o bem.

    Texto de Ari Esteves. Imagem de Ron Lach.

  • Como falar com seu filho adolescente

    Como falar com seu filho adolescente

    1 – Alguns adolescentes se recusam a dialogar. 2 – Saber escutar e ter sensibilidade. 3 – Eles questionam tudo. 4 – Dar respostas que esclareçam. 5 – Pais, descanse com a família e não isoladamente. 6 – Dicas práticas ao interagirem com o filho

    1 – Alguns adolescentes se recusam a dialogar

         Há pais que veem a adolescência de seu filho como uma época complicada: resiste à autoridade, não consulta sobre questões que têm consequências reais (escola, amigos, festas, relação com pessoas de outro sexo…), tem dificuldades para controlar suas emoções e decide de modo impulsivo… Porém, o que mais reclamam os pais é que o filho, antes comunicativo, passou a ser silencioso, expressando-se por monossílabos e frases entrecortadas. O motivo desse mutismo pode ter muitas causas, sendo a que mais se justificam os adolescentes para agir assim é que ao desejar falar com seus pais, estes já começam com sermões, não prestam atenção no que eles dizem e os tratam como crianças.

         A conversa com o adolescente perde força se os pais falam incessantemente, fazem afirmações dogmáticas, não deixam falar, dão respostas que revelam não estar escutando, se contradizem, fazem generalizações sem sentido, utilizam um tom de voz e trejeitos julgadores e incriminatórios, traem a confiança dele ao expor uma confidência que fez.

         Pais interessados em saber o que ocorre na vida de seu filho − isso é justo e razoável − não devem utilizar perguntas diretas, que podem não ser tão eficazes quanto apenas se sentar e prosear descontraidamente, sem segundas intenções. Embora o filho seja um livro aberto com os amigos, pode ficar em silêncio quando a amizade com os pais está fria porque estes agem de modo pouco natural. Ele se abrirá com os pais quando não se sentir coagido a compartilhar sua intimidade. O adolescente é muito sensível ao modo como é tratado pelos pais: um tom de voz paternalista ou autoritário, mesmo sem intenção, lança por terra qualquer tentativa de manter uma conversa tranquila e fluida, pois ele aprecia ser tratado como um adulto, e não como criança.

    2 – Saber escutar e ter sensibilidade

         Saber escutar exige o sacrifício de não começar de imediato a contradizer, discutir, julgar. Primeiro deixe seu filho falar sem interrompê-lo. Nunca o desqualifique e nem grite. Pense que haverá tempo para deixar as coisas mais claras e acertar os ponteiros.

         Tratar de assuntos que costumam terminar em discussões exige maior sensibilidade dos pais. Ao perceber que o filho está de mal humor, evitem abordar um tema cujo diálogo será estrepitoso, pois não chegarão a conclusão alguma e facilmente escaparão palavras que depois ambos se arrependerão. Se por vezes os filhos são rudes e os pais, ressentidos, respondem com a mesma moeda, estão apenas reagindo e não agindo. A falta de controle dos adolescentes exige que os pais saibam dominar a si próprios: lembrem-se que os adultos são os pais, e que o filho ainda não tem pleno governo sobre suas emoções, e não pensa com lógica ao estar nervoso. Contem até dez, respirem fundo antes de responder, e digam-lhe serenamente que deve respeitar a autoridade dos pais, e que a conversa ficará para outro momento. No dia seguinte, quando o filho estiver contente e de bom humor, será o momento de abordar aquele tema conflitivo para estabelecer as normas familiares: horário de estudo, saídas para festas, diminuir o uso de celulares e redes sociais, ajudar nos encargos familiares, dormir no horário, ou outro. Ele obedecerá mais facilmente diante de bons argumentos ditos de forma respeitosa.

         Os diálogos com os adolescentes não podem se restringir a ordens, a tratar de questões polêmicas como as oportunidades de saídas, uso de celulares, notas escolares. Os pais devem dar o primeiro passo para iniciar uma conversação grata. E o motivo pode ser um tema que interesse ao filho: o jogo de futebol que participou, o game preferido, as músicas que gosta, o ídolo que admira, o instrumento musical que tenta aprender… Esses temas concretos ajudarão a se aprofundar com naturalidade em outros mais abstratos, como os ideais que pretende alcançar − sua vocação profissional −, tendo por base suas qualidades ou habilidades pessoais. O objeto final de uma conversa com um adolescente não são fatos concretos, mas ideias.

         A conversação diária normalmente gira em torno de temas simples e de pouca importância: computador, televisão, esporte, festas… Falar de tudo um pouco já é alguma coisa, pois o diálogo fomenta a amizade entre pais e filhos. Porém, deixar de abordar temas mais profundos indica que o clima familiar é carente de objetivos ou valores mais altos. Então, é preciso provocar tais temas.

         Deem poucos conselhos – só os mais importantes – para não os aborrecer com muitas indicações, e indispô-los a não ouvi-los quando realmente necessitarem de uma orientação importante. Evitem criticar diretamente um amigo dele, mas abordem o tema do que é a verdadeira amizade utilizando uma boa história literária, e deixe-o concluir sozinho.

         Os pais precisam compreender o idioma do filho, e isso não significa que têm que utilizar o mesmo vocabulário, mas entender o que ele diz. Mais do que dar sermões ou aconselhar desde uma cátedra e em tom professoral, é preciso ouvir. Há pais que parecem estar em outro planeta e não sintonizam com seu filho, e assim desperdiçam momentos chaves para conhecer seu caráter e temperamento, suas preferências estéticas e culturais (músicas, livros, filmes, pinturas), os temas científicos que aprecia… Aproveitem os instantes juntos no carro e coloquem muita atenção ao que ele diz, pois comentários descontraídos revelam o que há no coração e abrem horizontes educativos.

         Os pais não podem ouvir apenas o que lhes interessa. Ainda que estejam cansados e o que filho diz não seja de grande importância, é preciso escutá-lo porque o tema tem relevância para ele, e porque essa é maneira de ir conhecendo o que ele pensa ou valoriza. Assim, o filho perceberá que os pais se interessam por tudo o que diz respeito a ele, e não apenas que tire boas notas, seja ordenado e obediente. Reparem que ele está aberto ao futuro e se sente cheio de possibilidades, mesmo que não saiba explicar como isso se efetivará. Valorizem seus sentimentos e não tentem minimizar suas decepções ao tirar importância daquilo que ele julga ser significativo, pois demonstraria desdém pelo que ele sente ou valoriza: perder uma partida de futebol, ter uma decepção com o melhor amigo, um fracasso escolar, um fora que recebeu da turma… Que ele perceba que vocês compreendem seus sentimentos, mas digam-lhe que precisa saber perdoar ou que será capaz de superar suas deficiências escolares porque é determinado e forte… Estejam atentos, pois um comentário inesperado sobre algo que ocorreu durante o dia é a maneira que ele tem de se comunicar. Ouçam e permanecerem abertos e interessados.

    3 – Eles questionam tudo

         O adolescente julga as pessoas, inclusive seus pais, questiona tudo e por vezes interioriza seus sentimentos e os mantém só para si. Não é de se admirar que às vezes age como se fosse o centro do universo. Mas não se enganem: ele tem dificuldade de conhecer a si mesmo – autocrítica –, de desenvolver pensamentos abstratos e diagnosticar acertadamente o mundo que o rodeia. É preciso ajudá-lo a desenvolver a capacidade de raciocinar e pensar soluções, aproveitando as notícias, narrativas literárias, o tema de um filme. Trata-se de ir do fato concreto ao pensamento abstrato, sempre dentro de uma conversa serena que o leve a concluir por si. Ponham casos hipotéticos em que parece que o fim justifica os meios: alguém que “cola” para tirar boas notas; ou que para ser o melhor na profissão não ensina um colega para que este não o ultrapasse nela, e deixe-o falar.

         Considerem seu filho digno de confiança, pois demonstra que vocês acreditam na eficácia dele. Encontrem maneiras de mostrar que vocês confiam nele, pedindo favores e dando-lhe privilégios: ler para o irmão menor, cuidar de certas gestões familiares, ir ao banco, pagar contas… Façam-no saber que vocês têm fé nele, pois isso aumentará sua autoestima. Tratem-no como adulto ao participar dos projetos familiares e valorizem a opinião dele ao perguntar o ponto de vista que tem sobre determinado assunto, e de que forma enfrentaria tal situação. Saber que os pais confiam nele dará grande força moral. Levem-no a sério. Os pais tendem a elogiar os filhos mais novos, mas os adolescentes também precisam de alento para se sentirem considerados. Para o bom relacionamento com ele, sejam positivos e motivadores.

    4 – Dar respostas que esclareçam

         Embora os pais definam as regras, devem estar preparados para explicá-las: ouvir a razão esclarecedora de que festas em vésperas de aulas não serão permitidas, tornará mais fácil aceitar a determinação. Pela falta de experiência, os adolescentes necessitam conhecer a razão pela qual uma ação é boa ou má: não basta dizer “porque não pode”. Saibam também que eles percebem as incoerências dos pais quando exigem que respeitem os mais velhos, mas eles não se sentem respeitados em suas opiniões; ou se em casa dizem que devem ser solidários, e depois são dissuadidos a não “perderem” tempo em ajudar um amigo fraco nas disciplinas escolares, ou porque não o deixam participar de alguma ONG que atende pessoas necessitadas, e porque percebem que os pais não são solidários, já que não dão esmolas nem ajudam famílias carentes. 

    5 – Pais, descansem com a família e não isoladamente

              Faça seu filho conhecer os valores que a família herdou de seus antepassados, pois está ávido por conhecer a história de seus pais, avós, tios: seus juízos e convicções, seus erros e acertos, lutas e esperanças. Isso é mais importante que qualquer bem material, e ajudará na formação da personalidade dele. Narrar as atitudes de parentes que demonstraram retidão de caráter, honestidade, fé, fidelidade, incorruptibilidade, entre tantos outros valores, o encherá de um bom orgulho – emulação – que o levará a dar continuidade a essa tradição familiar.

         Muitos adolescentes afirmam que os pais ao chegarem do trabalho descansam de modo isolado. É preciso descansar em família e não cada em seu canto. Para isso, fomentar momentos de desconcentração onde todos estejam juntos, seja em torno da mesa durante uma refeição ou na sala de estar para bater um bom papo sobre os acontecimentos do dia, e não para tratar das notas escolares. Consigam que ao menos numa das refeições diárias estejam todos, pois ali se pode de conviver com naturalidade e ouvir os filhos falarem dos jogos que participaram, darem notícias de amigos, planos de descanso que gostariam de fazer com a família, etc. As crianças que se habituam a conversar com os pais sobre os acontecimentos triviais, também se abrirão quando surgirem assuntos mais difíceis. Importante: impeçam nesses momentos de intimidade familiar, a intromissão de celulares, redes sociais, televisão…

         Tendo por base um clima de confiança, busquem um momento na semana para estar a sós com cada filho, sem que isso pareça algo postiço ou fabricado propositadamente. Para que as conversas íntimas surjam naturalmente, coloquem-se no lugar dele e façam uma lista de temas que possam interessá-lo. Peçam a opinião dele sobre assuntos sérios e prestem atenção na resposta para que perceba que os pais confiam nele. Respeitem a intimidade dele; não tentem tirar confidências à base de interrogatórios. Não o force abrir o coração, talvez como se abra com um amigo íntimo, e conquistem vocês a posição desse amigo à base de carinho e confiança, e tratando-o como adulto, respeitando suas opiniões, valorizando seus pontos de vista. Não imponham nada, nem deem opiniões determinantes, cortantes: é melhor que a discreta ajuda de vocês o faça tirar conclusões.

         Falar não é a única maneira de se comunicar. Façam coisas juntos: consertos materiais na casa, colocar em ordem a garagem, limpar o quintal, cuidar do jardim, pintar paredes… O importante é que o adolescente saiba que pode estar perto do pai ou da mãe e compartilhar experiências positivas, sem ter que ouvir cobranças, perguntas intrusivas ou chamadas de atenção.

         O jantar de sábado deve ser aguardado com alegria por ser gostoso! Um plano divertido para se estar junto com o pai é combinar com o filho ou filha que o jantar de cada sábado será feito por ambos, e que a mãe descansará e terá uma surpresa: um sábado será cachorro-quente com seus acessórios, outro será de pizzas, outro de hamburguês e demais itens, outro de frios e diferentes pães, outro de queijos e vinho, etc. Ao pensar juntos, pai e filho ou filha, a amizade dos dois se fortalecerá.

    6 – Dicas práticas ao interagirem com o filho

    • Reservem um tempo durante o dia ou ao anoitecer para ouvir seu filho (ou filha) falar sobre suas atividades, seus gostos. Tenham certeza de que ele ou ela perceberá se vocês escutam com interesse.
    • Lembrem-se de falar com seu filho (dialogar) e não falar para o seu filho (monologar).
    • Façam-lhe perguntas que não sejam respondidas apenas com “sim” ou “não”, a fim de favorecer a conversação.
    • Aproveitem os momentos juntos no carro para falar e ouvir seu filho (o noticiário do rádio não é o mais importante).
    • Estejam nas celebrações escolares ou esportivas em que ele participa; pratiquem um jogo com ele; façam-no saber que vocês estão sempre disponíveis para ele.
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    Texto de Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, com base no artigo “Cómo hablar con un adolescente”, Revista Hacer Familia – octubre 1999; artigo “Consejos para comunicarse con su adolescente”, de Rachel Ehmke, do Child Mind Institute; e artigo “La comunicación y su hijo de 13 a 18 anõs”, de www.kidshealth.org. Imagem de Kindel Media.

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  • Filhos que não gostam de ler

    Filhos que não gostam de ler

    1 – A falta de incentivo familiar para a leitura. 2 – As crianças gostam de ouvir histórias. 3 – Vantagens da leitura. 4 – As telas empobrecem a mente. 5 – Promover uma rica cultura familiar

    1 – A falta de incentivo familiar para a leitura

       Quando um adolescente afirma que não gosta de ler, não se pode atribuir a culpa à escola, mas à falta de incentivo familiar. Logicamente a liberdade pessoal sempre estará presente nas decisões pessoais, e mesmo sendo os pais bons leitores, poderá um filho não apreciar a leitura. Porém, constata-se na maioria dos casos que a falta de estímulo pelos livros vem do desinteresse dos pais, que não leem e não souberam promover a leitura.

         Causa pesar constatar que muitos pais e mães mal percebem que desaproveitaram a ocasião de ler para os filhos, quando estes eram pequenos, pois teria sido um modo magnífico de criar neles o interesse pelos livros, e não pelas preguiçosas telas digitais.

         Ao serem privados de descobrir o prazer de fixar a atenção na narração de histórias lidas ou ouvidas, ao chegar à adolescência encharcados de imagens, os filhos logo se entediam com os textos e se tornam arredios a eles, pois se acostumaram com o pouco esforço mental que as telas exigem. Com isso, não descobrem que a leitura é em si mesma um universo, que os livros falam conosco como bons amigos, que alimentam criativamente a imaginação ao torná-la mais rica que as telas digitais, e que fomentam a capacidade de concentração e o gosto pelo estudo.

    2 – As crianças gostam de ouvir histórias

         Faz parte da natureza humana ouvir histórias e penetrar em mundos desconhecidos. Os tradicionais contos infantis arrebatam as crianças, que pedem incansavelmente para que releiam suas histórias preferidas, e aguardam ansiosamente a hora em que os pais ou um irmão façam isso para elas. Quando fisgadas, sonham um dia ler por conta própria, pois percebem que é a chave para viajarem com a imaginação. Para a criança, a leitura é um jogo entre ela, a mãe ou pai e o conto, sendo o adulto a voz das histórias e a mão que a conduz para dentro da narrativa. Os pais devem ser pacientes e repetir esse jogo dia após dia, reservando um tempo exclusivo para isso. Grandes escritores relatam que desde pequenos foram insaciáveis “devoradores” de livros. É através dos personagens dos contos que as crianças começam a compreender que existe o bem e o mal; que devem amar o bem e odiar o mal.

         Para afastar o feitiço das telas digitais deve-se aumentar a satisfação de ler. Para isso, é necessário encontrar um tipo de leitura que agrade, e de acordo com a idade dos filhos: contos, dramas, romances, suspense, aventuras, comédias, fantasias, biográficas, livros históricos, entre tantos outros gêneros e estilos. A emoção da leitura tem a ver com o texto e o contexto, e com o modo do escritor se relacionar com o leitor, seja pelo seu modo de dizer ou pelas metáforas e imagens que utiliza.

    3 – Vantagens da leitura

         Deveria ser desnecessário listar os benefícios infinitos da leitura, que é uma forma profunda de conhecimento, mas torna-se necessário mencionar alguns para que não passem despercebidos pelos pais. A literatura além de iluminar a inteligência ao dar a ela riqueza léxica e capacidade de argumentar e expressar pensamentos e sentimentos de forma rica, é também um laboratório que ensina coisas insubstituíveis para a vida: a maneira de compreender a si e as pessoas, os valores que valem a pena conquistar, o significado do amor verdadeiro, a experiência alheia que se pode colher, permite distinguir muitos valores, como o da amizade verdadeira da falsa (para isso basta ler Pinóquio, de Carlos Collodi).

         A leitura promove um grande acontecimento na vida da criança: a faz descobrir o que cada coisa é, que nome e significado possui, e isso a permite ganhar conceitos para se expressar. Ao se aproximar da palavra, a criança percebe nela há um mistério que provoca sentimentos.

         A leitura é íntima, e mantém um diálogo interior ao buscar na alma os conceitos das palavras para manejá-los por meio da memória, imaginação e inteligência, o que permite a reflexão, que é outro mecanismo linguístico da inteligência para analisar situações e sentimentos, e isso só é possível mediante a palavra.

         Porém, o vício de permanecer frente as telas digitais vendo discorrer diante dos olhos excessivas imagens, que mal podem ser processadas, impede o senso crítico e a capacidade de tirar consequências. A literatura vai além do conhecimento. Hannah Arendt estabelece uma distinção entre conhecimento e pensamento: conhecimento é fácil, diz ela, sendo o que aprendemos com a técnica, a ciência e o método. Já o pensamento é a capacidade da pessoa refletir sobre si (cair em si), pois se o homem perde a capacidade de pensar acaba sem distinguir entre o bem e o mal.

    4 – As telas empobrecem a mente

         Hoje, os audiovisuais podem ser considerados os adversários principais da leitura, pois fascinam a criança: são agradáveis e não exigem esforço mental para se postar passivamente diante de uma tela e assistir a uma enxurrada de imagens prontas.
         Quando os pais ofertam ao filho um celular ou tablete, a fim de que fique em casa e fujam dos perigos da rua, mal percebem que tal atitude cômoda gera na criança vícios, atitudes de preguiça ou comodidade, tornando-a passiva e indiferente às pessoas e às realidades que a cercam. E ao retornar ao mundo real sente-se entediada dele.
         Se por um lado o excesso de imagens faz adormecer a inteligência, por outro instiga as paixões e leva o adolescente a não se questionar se é certo ou errado moralmente − tarefa essa da inteligência ou consciência prática − ver cenas pornográficas, debilitando, com isso, sua vontade para decidir de modo contrário. A inteligência necessita de valores para pensar bem, e estes são facilmente aprendidos na leitura e releitura de bons livros.

    5 – Promover uma rica cultura familiar

         É tarefa dos pais promover um sadio ambiente cultural na família, a fim de ampliar a sensibilidade de todos para as diferentes formas de beleza. Uma criança que desde sua casa ouve os “pancadões” com músicas e letras de péssimo gosto, que chega da rua aos seus ouvidos nos fins de semana, não saberá da existência de gêneros musicais mais ricos se os pais não os apresentar a ela, seja por vídeos ou participando ao vivo de boas apresentações.
         Não é preciso ter poder aquisitivo para fomentar um excelente ambiente cultural na família, mas possuir sensibilidade, bom gosto e capacidade de avaliar o que é bom a fim de programar vídeos, leituras, visitas a museus e exposições (cerâmica, pintura, artesanatos, escultura), apresentações musicais de diferentes gêneros em polos culturais gratuitos da cidade… Os grandes museus da Europa possuem sites, sendo possível viajar dentro deles, e no YouTube basta localizar shows musicais de alto nível estético, seja do gênero popular ou clássico para crianças.

         Sempre é tempo de recomeçar, caso os pais tenham perdido o tempo oportuno de promover a leitura em família. Para isso, devem explicar aos filhos sobre a importância desse hábito, e que pretendem corrigir-se e se tornar bons leitores. Depois, informar que deixarão de ficar grudados na tv e outras telas para aproveitar esses espaços com bons livros. Entusiasmar os filhos para organizarem juntos uma biblioteca familiar, informando-se com amigos de critério e bom gosto sobre as excelentes obras literárias. Introduzir nos passeios familiares visitas a livrarias, sebos, feiras de livros, locais de contação de histórias ou de leitura de poesias; e programar vídeos com esses conteúdos. Veja a lista de livros de literatura infanto-juvenil para sugerir ao seu filho: staging.ariesteves.com.br/livros

    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/.

  • A construção do eu

    A construção do eu

    1 – Conhecer-se para se construir. 2 – O risco de fugir de si. 3 – Ser ou ter, eis a questão. 4 – Verdades perenes. 5 – Elementos para construir o eu. 6 – A função das virtudes.

    1 – Conhecer-se para se construir

         Quem sou diante dos meus próprios olhos? A necessidade de identidade é profunda no homem, e só quem se conhece poderá chegar à melhor expressão de si mesmo. O “eu” de cada pessoa não se confunde com seus braços, pernas, inteligência ou vontade, porque trata-se de sua dimensão espiritual, a consciência de si, o centro de suas decisões e onde residem o amor e o querer. O “eu” deve ter senhorio sobre as demais potências (inteligência, vontade e afetividade), e isso se alcança por meio de uma contínua formação que alimente a inteligência com a verdade, potencie as qualidades e elimine os defeitos e imperfeições que todos os filhos de Eva possuem.

         Ser inconformistas consigo e não conviver com os erros como quem cultiva bactérias dentro de si: “Não digas: Eu sou assim… são coisas do meu caráter. São coisas da tua falta de caráter…” (Caminho, no 4). Quem diz “é que sou assim”, também poderia dizer “eu me fiz assim”. João Paulo II, na Carta aos Artistas (04-05-1999), diz: “A cada homem se lhe confia a tarefa de ser artífice da própria vida; em certo sentido, deve fazer dela uma obra de arte, uma obra mestra”.

    2 – O risco de fugir de si

         O perigo que assedia o homem moderno é o de mexer-se muito e andar na superfície de si: lê biografias, sabe da vida de artistas e esportistas, mas pouco entende de si. O excesso de imagens consumidas diariamente lhe dá a ilusão de que conhece tudo, porém, ao não saber processar tantas informações desencontradas, seu conhecimento é periférico e só tem a espessura das telas que, ao ser desligadas, também o apaga porque tudo resumiu-se em curiosidades. Foge de refletir sobre si mesmo, e por isso almoça vendo telas, no carro liga o som porque teme o silêncio, em casa se lança afoito ao controle da TV a fim de ouvir todos os noticiários do dia. Nos fins de semana curte baladas, festas, toneladas de vídeos. E assim, o barulho em torno de sua vida é ensurdecedor e impede a reflexão e a fala, mas isso não importa porque tem pouco para dizer. No domingo à tarde, ao se ver obrigado a frear seu frenesi e encontrar-se consigo, sente tédio. Viver esse tipo de vida só é possível ao narcotizar a consciência e chamar a preguiça de “necessidade de descansar”; a covardia de “não ser intolerante”. Mas isso tem um preço, porque ao desconhecer a verdade sobre as realidades que o cercam produz desconcerto e conflitos pessoais que o conduzirão a terapias.

         Um autor, se não me falha a memória é Lopes Quintás, refere-se a certa mãe que responde à filha que lhe foi pedir conselhos porque estava com um problema no casamento: − Você quis se casar, agora aguente!, e se pergunta esse autor: Agiu bem essa mãe? Foi profunda a sua resposta? Aguentar é o termo correto? Bem, podemos imaginar que a mãe talvez passasse muitas horas consumindo informações e curiosidades, mas não soube ter presente os valores que estavam em jogo, a fim de ajudar a filha a ser fiel e a levar adiante o lar, mesmo ao sacrificar algo. Poderia ter ajudado a filha a reconquistar o marido e a seguir adiante na grande tarefa de cumprir com sua palavra diante de Deus, e de educar os filhos que o casal possuía.

    3 – Ser ou ter, eis a questão

         Num plano mais superficial a necessidade de ser que cada um sente, se confunde com a de ter, de se identificar com os objetos que possui: moto, carro, aparência física para chamar a atenção… E quando se envelhece ou as coisas perdem atualidade, instala-se o desconcerto e o vazio interior.

         Quem identifica o seu ser com os seus talentos ou habilidades esportivas, intelectuais, profissionais ou artísticas, também confunde o ter com o ser, pois ao perder essas capacidades pela velhice, doença ou acidente, vem a crise e a falta sentido da vida. É bom sentir-se capaz de realizar algo para servir aos demais. Porém, ninguém vale pelo que sabe ou não fazer, mas porque é uma pessoa cuja alma foi criada por Deus.

         Deixar-se levar pelos vícios é mais fácil − e enganoso − , porque prometem muito com pouco esforço, mas ao final dão pouco, embotam a alma e são causas de tristezas. Quem carece de virtudes não será capaz de empreender projetos de envergadura, nem se lançará a realizar grandes ideais. Uma vontade fraca, pouco exercitada, permite que a pessoa seja facilmente arrastada por sentimentos e paixões desordenadas.

    4 – Verdades perenes

         Quem se nega a descobrir verdades sobre si e acerca de tantos outros temas como família, namoro, casamento, filhos, trabalho como meio e não fim, sexualidade, tentará se dirigir a um ponto de luz onde pensa residir a felicidade, mas quanto mais corre, mais se distanciará dela, e perceberá que se encontra sobre um iceberg à deriva no oceano.

         Em qualquer época sempre existiu para o homem verdades perenes que não dependem da opinião: honra, lealdade, fidelidade, não atraiçoar… É fácil aceitar que existam verdades no campo das ciências exatas (química, física, matemática), porque elas não dependem da opinião humana. Porém, existem princípios e verdades que devem nortear a vida do homem, ao aceitá-las livremente: fazer o bem e evitar o mal, não roubar, trabalhar bem, não mentir, ser honesto, entre tantas outras. Se uma sociedade se tornar relativista correrá o perigo de ficar sem bases firmes, e não saberá distinguir entre o bem e o mal. Com isso, ao não saber defender as verdades, as pessoas não se corrigem e em nome da espontaneidade passam a agir como gostam e não como devem, derivando disso muitas injustiças contra o próprio homem. No fundo, tornam-se perenemente presentes as palavras de Pilatos: “O que é a verdade?”.

    5 – Elementos para construir o eu

         É necessário melhorar o temperamento, o caráter e os sentimentos, pois afetam o nosso modo de ser, compreender e agir. Muitos concentram o seu esforço apenas em aprimorar a instrução profissional, que é só um aspecto da educação humana, e desatendem a sua formação integral: quem estaciona no conhecimento técnico tem uma visão pobre de si, da família, da pessoa humana, da cultura, do bem comum, da religião…

         O caráter, que influi na postura que temos diante da vida, se forja e se modifica pela influência dos conhecimentos auferidos na família, trabalho, escola, rua, amigos, meios de comunicação, livros… Tais conhecimentos ofertam conceitos, preconceitos e modo de ver e compreender a realidade. Já o temperamento é genético e faz parte do jeitão de ser de cada um: tímido, extrovertido, ansioso, distraído, colérico… Ao homem lhe é dada a capacidade de atuar sobre o seu temperamento, caráter  e afetividade, a fim de melhorá-los.

         É tão comum taxar alguém por algum defeito que possui: distraído, pavio curto, paradão, inseguro, mentiroso… O pior é constatar que os anos passam e a pessoa não muda porque não luta, o que afetará seu modo de trabalhar, de reagir diante dos acontecimentos e nas relações com os demais. Não podemos admitir os defeitos em nossa vida como quem admite um fato inexorável, imodificável, pois seria como criar micróbios dentro de si. O impulsivo por temperamento deve lutar para ser paciente, o preguiçoso necessita fazer atos de fortaleza ao não protelar o cumprimento dos deveres, o melancólico pode utilizar sua sensibilidade para fazer amigos e ajudar aos demais, o colérico pode utilizar sua audácia para levar adiante projetos em prol dos mais necessitados, o sanguíneo pode utilizar sua habilidade de comunicação para difundir verdades sobre a família, casamento, bem-comum, vida humana…

         O animal não necessita pensar porque suas tendências instintivas – comer, beber, dormir, acasalar – fazem-no atuar bem e orientam suas ações para a conservação da espécie, e não mais do que isso. Já no homem os instintos são falhos, inseguros, e não garantem a sobrevivência da pessoa nem a da espécie, porque sua capacidade reitora é a inteligência, que supre e corrige as pulsões instintivas quando estas se desordenam.

         As pulsões instintivas humanas dão energia, mas podem anarquizar-se. Todos sentimos dentro de nós uma desordem inata que bagunçou a orientação dos instintos humanos (a Igreja Católica chama isso de consequências ou relíquias do pecado original). No ser humano cada instinto busca a própria satisfação, sem importar-se com o corpo como um todo: a gula pode induzir o diabético a comer doce, a entupir o cardíaco de alimentos saturados de colesterol, a encharcar alguém de álcool; o instinto de procriação desorbitado levará o libidinoso a buscar o prazer venéreo e adquirir vícios e adições como o da pornografia pela internet, entre outros.

         Ou seja, cada instinto humano se não for orientado pela inteligência e vontade bem formadas, buscará apenas sua satisfação, e desatenderá ao que é melhor para a pessoa. Abandonar-se à lei dos instintos leva o homem ao fracasso rotundo. O ser humano não busca o fim da espécie, como acontece com os animais, mas um fim pessoal, porque pelo livre-arbítrio deverá escolher entre ser médico, sapateiro, chefe de cozinha, mecânico, engenheiro…; como também poderá decidir ser ladrão, estelionatário, traficante, etc.

    6 – A função das virtudes

         Aristóteles dizia que a virtude torna boa a obra e seu agente. Isso porque são hábitos bons, conscientes, que penetram na alma e suas potências (inteligência, vontade e afetividade), e estabilizam a personalidade ao eliminar o que destoa, e dão facilidade para buscar o bem. As virtudes, uma vez radicadas na alma, ajudam a decidir bem porque fortalecem a vontade e tornam mais fácil a execução do que é correto. Todos temos tendências naturais desordenadas, e devemos descobri-las e lutar para reformá-las por meio das virtudes: o irascível deve exercitar-se no autodomínio, o preguiçoso necessita impor-se um horário para iniciar e concluir suas tarefas, cabe ao dubitativo não protelar suas decisões e ao tímido expor-se mais.

         Ganham-se virtudes pela repetição de atos bons, tal como se ganham vícios pela repetição de atos maus. Para que arraigue um hábito operativo bom não basta uma ação isolada, mas muitos atos para que se estabilize o comportamento. E quando ganhamos um hábito bom, pelo princípio da unidade do ser humano, é a pessoa toda que melhora. A fortaleza, por exemplo, se conquista com pequenos atos como iniciar o estudo na hora, colocar as coisas no lugar ao finalizar um trabalho, não desviar-se do dever de cada momento, chegar pontualmente aos compromissos, não protelar o início de uma tarefa…

         Cada pessoa necessita tomar as rédeas de sua vida, sendo protagonista dela: non ducor duco (não ser conduzidos, mas conduzir). A luta por melhorar o temperamento e o caráter dá maturidade, autodomínio, força moral e desenvolve muitas virtudes. Um exame de consciência diário de três minutos ao final do dia, identifica se a conduta pessoal está dominada pelos sentimentos − isso se chama sentimentalismo −, ou se as ações temperamentais e de caráter são destoantes. Os defeitos não devem cristalizar-se em pré-disposições ou tendências, pois conduzirão a tomar decisões erradas. Sempre seremos convidados a escolher, e a reiteração de escolhas erradas gera maus hábitos ou vícios: a opção pela desordem e ociosidade leva à preguiça; a tristeza diante do bem alheio conduz à inveja, etc. Portanto, o melhor e o que mais felicidade traz é conduzir-se sempre pela verdade e o bem, por meio de uma luta interior alegre e esportiva.

         A cada dia os esportistas começam e recomeçam a fim de melhorar seus índices. Qualquer atleta que sobe ao pódio fracassou muitas vezes, mas não se rendeu, nem desanimou. Não jogar a toalha, nem desistir de melhorar o próprio “eu”. Ao contrário, insistir muitas vezes até alcançar a meta: listar as carências e defeitos pessoais e estabelecer uma luta alegre e esportiva, com atos contrários a cada falha: o desordenado deve esforçar-se para colocar cada coisa no seu lugar; o preguiçoso necessita estabelecer horário para iniciar e concluir as tarefas, e evitar fugir atrás de outras coisas; o egoísta precisa se pôr à disposição das pessoas para servi-las; o sensual deve precaver-se para não se colocar em situações que instiguem a sua sensualidade… Só para quem abandona a luta a derrota é certa.

    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/.