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  • Aspectos da educação humana

    Aspectos da educação humana

    1 – Três aspectos da educação humana: corpo (adestrar), inteligência (instruir), vontade (educar). 2 – Os pais são os únicos mestres para educar a vontade dos filhos.

    1 – Três aspectos da educação humana: corpo (adestrar), inteligência (instruir), vontade (educar)
    1. O corpo necessita ser adestrado para andar, praticar um esporte, fazer exercícios físicos.
    2. A inteligência necessita ser instruída para aprender idiomas, matemática, história, literatura, computação, etc. Aqui entra o papel da escola ao auxiliar os pais nesses aspectos.
    3. A vontade necessita ser educada e fortalecida para querer o bem que lhe foi mostrado pela inteligência: querer ser estudioso, ordenado, sincero, obediente, generoso, solidário, responsável. Na educação dos filhos, o grande papel dos pais encontra-se neste terceiro nível: educar para conhecer, querer e buscar o bem.
    2 – Os pais são os únicos mestres para educar a vontade dos filhos

        É fácil encontrar mestres para o adestramento em judô e tênis ou para a instruir em matemática ou idiomas. Porém, não se encontra professores para ensinar os filhos a serem generosos, responsáveis, sinceros e toda uma série de valores, porque a educação da vontade está reservada aos pais. Assim como os pais buscam instruir-se em aspectos profissionais ou técnicos, também devem instruir-se para educar a vontade dos filhos.    

        Com textos curtos e de fácil leitura, o Boletim Pedagogia do Comportamento orienta os pais sobre a educação comportamental de crianças e adolescentes.

    Texto produzido por Ari Esteves, inspirado na live do Youtube no 17 de Jeb Malheiro.

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  • Educação das virtudes na primeira infância

    Educação das virtudes na primeira infância

    1 – A criança não tem capacidade para discernir entre o bem e o mal. 2 – Crises de imaturidade na adolescência. 3 – Sem medo de dizer “não”. 4 – Criar bons hábitos até cinco anos de idade. 5 – Três aspectos da virtude da ordem para crianças. 6 – Ordem material, temporal, afetiva e mental

    1 – A criança não tem capacidade para discernir entre o bem e o mal

        A criança chega ao mundo com movimentos sensitivos (não racionais) que a impulsionam a dormir, mamar, morder, sentir raiva (chorar), pegar, largar… Até os quatro e cinco anos não há nela racionalidade ou lógica, e educar nesses primeiros anos é fazer o papel de condutor ou guia que indica como agir melhor em cada circunstância.

        Ao não ter capacidade de discernir entre o bem e o mal, a criança fará apenas o que é gostoso aos sentidos, ou o mais fácil: passará uma manhã vendo TV sem saber se isso é bom ou ruim, não perceberá as consequências da desordem ao deixar jogados seus brinquedos e roupas pela casa, comerá a qualquer momento e de modo intemperado, não partilhará e não ajudará em nada…

        Enquanto não tiver a racionalidade mais desenvolvida, que começa a ocorrer a partir dos seis ou sete anos, a criança brincará com um carrinho sujo sobre a toalha limpa. Ao explicar o motivo para não fazer isso, ela, que tem intuição de amor, passará a agir para o bem da mãe, do pai e dos irmãos, substituindo aos poucos o egoísmo pelo amor: − Não suje, para a mamãe não ter que lavar de novo!Guarde o brinquedo na caixa para o seu irmão encontrar. Você não vai deixar pudim para sua irmã?

    2 – Crises de imaturidade na adolescência

        Entre um e cinco anos de idade, se não estiver sendo educada desde a primeira ordem (material), quando chegar aos seis ou sete anos a criança estará enfraquecida nas dimensões psicológica e espiritual. Os maus hábitos criados até os cinco anos a levarão a se conduzir pela preguiça, egoísmo, intemperança, desobediência, afetando, assim, a dimensão espiritual (consciência do eu e onde residem o sentido de responsabilidade e o amor). Desajustada nas três dimensões de sua educação − que não se encaixarão −, a criança passará a tomar decisões erradas, pois estará fortemente influenciada pelos maus hábitos de sua afetividade.

        As crises de imaturidade em adolescentes de dez, onze ou doze anos, manifestadas em desobediências, egoísmos, intemperanças, preguiças, irresponsabilidades, ocorrem muitas vezes pela falta de educação nas três dimensões assinaladas, desde as primeiras idades, fazendo-os agir como crianças de cinco anos que não foram educadas em sua afetividade.

    3 – Sem medo de dizer “não”

        Educar é um trabalho de intervenção curativa, como a do médico (que por vezes dói). Se não há intervenção, a criança não se esforça para agir bem. Portanto, é função dos pais ajudá-la a ganhar bons hábitos pela repetição de pequenas ações diárias, que se transformarão em virtudes. Para essa conquista, os pais não devem ter medo de contristar, de dizer não, sabendo conciliar carinho com exigência: – Querido, arrume agora os seus brinquedos.  − Filha, você não irá dormir na cama do papai e da mamãe, mas na sua! –  Carlinhos, encerre agora a brincadeira e venha almoçar.

    4 – Criar bons hábitos até cinco anos de idade

        Mesmo sem a racionalidade desenvolvida, mas pela autoridade, paciência e insistência dos pais, a criança até cinco anos de idade poderá criar hábitos de ordem, obediência, moderação em sua impulsividade (não brigar ao perder um jogo), comer na hora certa. Esses bons hábitos serão racionalizados a partir dos seis ou sete anos, e se tornarão virtudes, porque estas exigem decisão da vontade: – Eu quero ter horário para fazer as coisas!

    5 – Três aspectos da virtude da ordem para crianças

        Desde as primeiras idades, os pais devem estar pendentes dos três aspectos da educação da pessoa humana: corpo, alma e espírito. Até os cinco anos de idade, a educação corporal é vivida intensamente através da ordem material (guardar seus objetos, ter pequenas tarefas na casa) e da temporal (ter horários ou rotinas), que facilitarão também a ordem dos afetos da criança (autodomínio e controle dos sentimentos, emoções e paixões). Essa ordem primeira (corporal) fortalecerá a educação da segunda ordem, a da alma ou mental (inteligência e vontade), que ocorrerá a partir dos seis anos ou sete anos, quando, então, a criança passará também para a terceira ordem, que é a espiritual e onde residem a consciência eu, o amor e o sentido de responsabilidade: – Quero ajudar a minha a mãe a manter a casa em ordem!

    6 – Ordem material, temporal, afetiva e mental

        Ordem material: a criança quer pegar, tocar, morder, largar, sentir. Portanto, arrumar e guardar objetos será para ela algo fácil de realizar. Para isso, os pais devem providenciar caixas com desenhos que informarão o tipo de brinquedo que ali deve ser colocado, e determinarão onde cada caixa deverá ser deixada. Há várias tarefas materiais que a criança poderá fazer nas primeiras idades (leia o boletim “Construir a autonomia da criança”). Assim, com bons hábitos criados, mesmo na casa dos avós ou em outros locais, a criança desejará saber onde deve guardar suas coisas.

        Ordem temporal: permite a criança ter rotinas ou horário de acordar, mamar, brincar, banhar-se e dormir. As rotinas, que fazem a criança se sentir segura, devem ser vividas todos os dias, inclusive aos sábados e domingos, pois sem elas a criança fica desnorteada, irritada e por vezes estressada. Cada atividade tem um “o que fazer” e um “quando fazer”, sem protelar (leia o boletim “A rotina na vida das crianças”)

        Ordem afetiva: A criança deve moderar sua impulsividade e preocupar-se pelos outros ao não mexer em tudo, nem fazer o que quer, seja na igreja (– Silêncio, aqui mora Deus!) ou em qualquer outro lugar (cabeleireiro, consultório médico, lojas). Respeitar e ser gentil com os pais, avós, tios, professores e amigos dos pais, faz parte da ordem nos afetos (sentimentos, emoções e paixões).

        Ordem mental: desde pequena a criança necessita aprender que no modo de agir ou fazer há um certo ou errado, um bem ou mal, um pode ou não pode. Mesmo que não compreenda os motivos até os cinco anos, perceberá que o bem sempre deve vencer, seja nos filmes, nos contos que são lidos para elas e nas atitudes dos pais.

        Os hábitos de ordem até os cinco anos de idade favorecem a motricidade da criança, e isso tem influência positiva nos aspectos psicológicos ou de ordem mental ao facilitar o sentido de responsabilidade, a captação de conceitos, o domínio da vontade sobre o corpo, a capacidade de concentração ao fazer as coisas.

    Texto produzido por Ari Esteves, inspirado na live do Youtube no 17 de Jeb Malheiro.

  • Consumismo infantil

    Consumismo infantil

    1 – As crianças são induzidas a consumir. 2 – Os efeitos negativos do consumismo infantil. 3 – Os influenciadores do consumismo infantil. 4 – O papel orientador dos pais e professores. 5 – Os pais devem dar exemplo de sobriedade. 6 – Como orientar as crianças a não serem consumistas. 7 – A legislação protege as crianças.

    1 – As crianças são induzidas a consumir

        Não nascemos consumistas. Trata-se de um hábito ideológico marcante da sociedade atual, ao qual todos estamos à mercê, inclusive as crianças, pois vivem uma fase de peculiar desenvolvimento que as tornam facilmente vulneráveis. Cada vez mais cedo as crianças são convidadas a imitar o universo dos adultos com sua complexidade e relações de consumo.

        As mídias de massa sabem impactar e estimular o consumismo inconsequente e supérfluo, servindo-se também das crianças ao perceber o quanto elas são mestras em insistir e determinar o que seus pais devem comprar.

    2 – Os efeitos negativos do consumismo infantil

        Nas datas comemorativas ao longo do ano o apelo consumista se torna mais agressivo. Indefesas, as crianças sofrem cada vez mais os graves resultados desse consumismo: erotização precoce; perda da infância ao imitar os adultos em seus hábitos de consumo e estilo de vida; desaparecimento da criatividade infantil e incapacidade para inventar seus próprios brinquedos e diversões; submissão aos seus desejos imediatos; apego ao artificialismo das telas digitais e tédio ao retornar à vida real; falta de gosto para apreciar a beleza que a natureza oferece nos campos e parques (querem logo voltar às telas); sedentarismo, obesidade, passividade, consumo precoce de tabaco e álcool, banalização da violência, além de outras consequências.

    3 – Os influenciadores do consumismo infantil

        A comunicação mercadológica tem se aprimorado cada vez mais. Os shoppings fascinam as crianças com suas lojas de brinquedos de todo tipo, salas de jogos, cores e luzes que estimulam o divertimento artificial. A publicidade infantil serve-se do apelo afetivo de músicas envolventes cantadas por crianças, efeitos especiais, produtos e serviços associados a personagens famosos, brindes, jogos, cartazes chamativos e sedutores.

        A publicidade da TV e internet são os influenciadores mais fortes do consumismo infantil, ao moldar o pensamento, desejos e o comportamento das crianças expostas a ela. A opinião dos amigos consumistas também tem forte influência.

        Dada a necessidade da pessoa humana ser aceita ou pertencer a um grupo, o ato de consumir se torna um modo de inclusão social pela via da imitação. Assim, a criança julga necessitar de determinados brinquedos ou roupas, e até de fazer os passeios consumidos pelo seu grupo.

    4 – O papel orientador dos pais e professores

        Pais e professores têm papel imprescindível para evitar o consumismo infantil, desde que deem exemplo de sobriedade. Os pais devem esclarecer seus filhos, o quanto antes, sobre os aspectos e efeitos de uma vida consumista; e fazê-los perceber que o importante não é “ter” objetos, mas “ser” ricos interiormente ao apreciar outros valores que permanecerão sempre, e jamais serão esquecidos em caixas ou prateleiras após o uso: amar a boa literatura, poesia e bons filmes; saber contemplar a natureza com suas belezas; fazer trilhas pelos campos; dedicar tempo para novas e profundas amizades; apreciar a boa música e pintura; cultivar o silêncio e a relação amorosa com Deus; fazer visitas culturais com familiares e amigos a museus, apresentações musicais, teatro…

    5 – Os pais devem dar exemplo de sobriedade

        Pais consumistas tornam seus filhos consumistas, porque o exemplo fala mais forte do que as palavras. Se o pai faz um carrinho de madeira para o filho ou utiliza embalagens vazias para criar divertidos brinquedos, passará conceitos e valores importantes para ele: cresce na amizade com o filho, torna-o agradecido ao ver que o pai dedica tempo a ele, incentiva-o a fazer seus próprios brinquedos.

        Não é bom que as crianças se acostumem a ganhar brinquedos com frequência, mas em época certa: Natal, aniversário ou por algum outro motivo relevante. É mais educativo que os pequenos utilizem a imaginação para criar brinquedos com embalagens e outros materiais caseiros.

        Necessitam os pais alertar os filhos − e cobrar isso da escola − sobre a influência negativa do “marquismo” ou propaganda que torna algumas marcas em “desejo de consumo” dos incautos. Pais que estimulam os filhos a não utilizar a mochila do ano anterior porque “saiu de moda”, ou que compram brinquedos e tênis influenciados pela propaganda, deformam o caráter da criança e fazem-na cativa e vítima dos métodos propagandistas.

    6 – Como orientar as crianças a não serem consumistas

    Algumas dicas para evitar que a criança seja consumista:

    • Fomente o gosto da criança para bens que não sejam apenas a posse de objetos: amor pela leitura de livros infantis; filmes para que descubra as atitudes dos personagens (converse com ela sobre isso, não interrompendo a explanação dela); saber apreciar a boa música; aprender algum instrumento musical.
    • Visite com a criança exposições de quadros ou esculturas. Prepare-a antes de ir não com palestras sobre estilos artísticos, mas transformando o passeio em jogo divertido. Para isso, veja com ela o acervo pelo site e deixe-a escolher as telas que deverá localizar no museu (talvez imprimi-las para facilitar a busca). Depois, pergunte sobre o quadro que ela mais gostou, sem demonstrar que teve ou não bom gosto porque o estilo não agradou a você. Pergunte a ela como o pintor poderia também ter apresentado a cena. Ao fixar a atenção nas pinturas, a criança desenvolve o senso de observação para os detalhes e o espírito de contemplação.
    • Seja firme diante da insistência da criança quando pede brinquedos, porque ela não sabe o que é melhor para si mesma. Não acostume-a com presentes fora de época, mas apenas nas datas especiais: aniversário, Natal ou outra ocasião que julgue importante.
    • Faça para a criança brinquedos de madeira ou embalagens vazias, pois ela terá carinho especial por aquele que o pai ou a mãe fez para ela.
    • Utilize o dinheiro da mesada da criança para repor ou consertar o que ela quebrou − seja um bibelô, vidro ou brinquedo do irmão −, a fim de que perceba o quanto as coisas custam.
    • Antes de ir ao supermercado, combine com a criança sobre os produtos que irão comprar, e o quanto poderão gastar. À medida que um produto vai para o carrinho, faça a conta de subtração junto com ela. Peça a ajuda dela para pesquisar nas prateleiras os produtos mais em conta.
    • Vá a peças de teatro infantil; informe-se antes de que a mensagem da peça não seja contrária aos seus valores. Participe de saraus, que são atividades lúdicas e recreativas para apresentação de músicas, recitação de poesias, leituras de livros ou outra atividade cultural.
    • Programe um passeio mensal para passar o dia fora, a fim de que a criança aprenda a contemplar a natureza: excursão pelo campo para fazer trilhas; chácaras, sítios ou fazendas temáticas com exposição de flores ou plantas; represas; parques; jardim botânico. O zoológico é muito atrativo para as crianças.

    7 – A legislação protege as crianças

        Para finalizar, os pais e responsáveis devem saber que a Constituição Federal em seu artigo 227, ao abordar de forma geral a proteção da criança e do adolescente, serve de base legal para responsabilizar toda e qualquer a ação mercadológica que venha influenciar negativamente a criança. O Código de Defesa do Consumidor protege todos da propaganda enganosa, especialmente as crianças, e afirma que se mostra abusiva a comunicação que se aproveita da deficiência de julgamento e experiência delas. A Resolução 163/2014 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), que tem força de lei, proíbe a comunicação mercadológica que vise persuadir o público infanto-juvenil ao consumo de qualquer produto ou serviço utilizando expedientes que explorem a sua vulnerabilidade, imaturidade, ingenuidade e/ou suscetibilidade à sugestão. Utilizar linguagem infantil, músicas pertencentes a esse universo e cantada por crianças, efeitos especiais, entre outros, atingem-nas mais facilmente devido à sua condição de pessoas ainda em desenvolvimento psicológico.

        A venda casada, que é considerada abusiva pelo Código de Defesa do Consumidor, ocorre quando um produto é vendido juntamente com outro que desperte interesse ainda maior, não podendo ser adquirido em separado, o que condiciona o comprador a levar ambos os produtos. Por exemplo, na Páscoa pode haver ovos de chocolate voltados para o público infantil que trazem um bicho de pelúcia ou boneco de super-heróis, tornando os preços superiores aos demais.

    Texto produzido por Ari Esteves

  • Construir a autonomia da criança

    Construir a autonomia da criança

    1 – Tornar a criança responsável. 2 – A criança deve perceber a importância de sua ajuda. 3 – A superproteção deseduca. 4 – A desobediência infantil: conflito entre a alma e o corpo. 5 – A autonomia faz a criança lidar com suas frustrações e ser persistente. 6 – A criança deve resolver seus próprios problemas. 7 – Tarefas por idade ou a bolha de egoísmo.

    1 – Tornar a criança responsável

        Para que um lar seja alegre e agradável não basta a convivência pacífica, nem a falta de exigência onde cada um se mete no quarto com seu tablete para viver uma vida egoísta. A criança necessita ser educada para se tornar responsável na vida familiar, cujo ambiente dependerá desse protagonismo livre e ativo, onde cada membro aprende a servir e a doar-se aos demais, desde a primeira infância.

        Construída com pequenas tarefas apropriadas a cada idade − que a criança cumprirá divertindo-se −, autonomia não significa deixá-la fazer o que quiser, mas guiar para escolhas que a enriquecem verdadeiramente, a fim de que se arrisque, desenvolva a autoconfiança e o espírito de serviço e de ajuda aos outros.

    2 – A criança deve perceber a importância de sua ajuda

        A criança cresce em autonomia ao perceber que seus pais só intervêm quando é realmente necessário. Responsabilizar é tornar a criança ativa, fazendo-a perceber que sua ajuda faz falta no lar. Até a idade de cinco anos, ela cumprirá seus pequenos deveres para agradar os pais; a partir dos seis anos deverá agir para prestar um serviço de amor, com alegria não pelo sorvete que ganhará (fluxo centrípeto), mas pela ajuda que tornará mais agradável a vida dos pais e irmãos, pois isso a fará sair de si mesma (fluxo que centrífugo) ou motivação transcendente.

    3 – A superproteção deseduca

        Há pais inseguros em tornar seus filhos independentes, e acabam substituindo-os naquilo que eles poderiam fazer sozinhos. Essa superproteção leva a criança ao acomodamento, à introversão, à falta de segurança ou medo de agir por conta própria, à vergonha de se expor ou arriscar, à inabilidade no convívio social (não saberá cortar seu bife no refeitório da escola ou servir-se numa festa, nem amarrará o próprio tênis na aula de educação física). Os mesmos aspectos negativos da superproteção ocorrem quando os pais, impacientes e inconstantes, com a desculpa de que “não têm tempo” ou que “farão melhor”, e se adiantam a fazer o que a criança poderia conseguir.

        Pais que reclamam ser o filho passivo e desinteressado, que nunca agradece a sobremesa ou os pratos feitos para ele, além de não ajudar nas tarefas do lar, devem saber que a culpa de tais atitudes é dos próprios pais que, superprotetores, pouco exigiram dele na infância e pré-adolescência, e com isso o tornaram egoísta e só metido em seus interesses e credor de todas as atenções. Julga ele que nada tem a ver com os encargos domésticos, pois isso é apenas dever dos pais, já que ele se sente um rei em sua corte e que está para ser servido por todos.

    4 – A desobediência infantil: conflito entre a alma e o corpo

        Hoje vemos mães que padecem a desobediência do filho de quatro anos porque não foi trabalhada a afetividade da criança por meio de uma disciplina familiar desde os dois anos. A conta agora se tornou cara, pois mudar as disposições de uma criança de cinco, seis ou sete anos para algo que não foi capacitada será jogo duro. O conflito entre o espírito (consciência) do adolescente e seus sentimentos (manifestações corporais), revela que ele nunca foi exigido para contrariar sua afetividade ou sentimentos a fim de cumprir seus deveres. Nessa terceira camada da pessoa humana, que é o espírito (corpo, alma e espírito), reside a consciência do eu, o amor e o sentido de liberdade e responsabilidade pessoais.

    5 – A autonomia faz a criança lidar com suas frustrações e ser persistente

        Aprendemos com tentativas que nos fazem acertar ou errar, e amadurecemos afetivamente ao aceitar situações contrárias ao nosso gosto. Alguns pais temem que seus filhos sofram frustrações e com isso não permitem que eles amadureçam. Se a criança escolheu ir ao parque e não ao shopping, e ao chegar no local da opção se arrepende e pede para irem ao shopping, dizer que ficará para outro dia e que ela procure aproveitar o momento; se o adolescente disse ao amigo da escola que iria no aniversário dele no sábado, e ao chegar esse dia prefere ir jogar futebol com outros colegas, é preciso ajudá-lo a tomar consciência de que deve cumprir a palavra dada.

        Ao explicar à criança que não irá ao passeio que ela deseja, mas àquele que o irmão aprecia, a fará compreender que os demais também têm seus gostos que devem ser respeitados. Ao não comprar o doce que a criança pede fora de hora, está sendo ensinada a ser paciente e saber esperar para desfrutar da guloseima na hora certa. Animar o filho a não desistir de montar o lego ou o quebra-cabeça o faz ser resiliente e perseverante diante das dificuldades.

    6 – A criança deve resolver seus próprios problemas

        Confie na capacidade da criança resolver seus problemas. Pergunte sempre a opinião dela sobre o que pretende fazer − se acha certo ou errado −, e dê chances para que reflita sobre suas ações. Se a criança trocou os tênis de pés e indaga se está correto, não responda, mas pergunte sobre o que ela acha. Se houve um desentendimento com um amigo da escola, dialogue para ela conclua sobre a importância de reconhecer seus erros, saber pedir desculpas e buscar a reconciliação da amizade ou aprender a perdoar.

    7 – Tarefas por idade ou a bolha de egoísmo

        A criança acostumada a não ter tarefas familiares mete-se dentro de si, vai para seu canto com o tablete e não consegue mais furar a bolha do egoísmo para se interessar pelos outros. Ao chegar à adolescência, irá se distanciar ainda mais da família e nunca entenderá que a felicidade está no amor, que é entrega aos demais. Filhos incomodados dentro do lar e que não gostam de sair com os pais, revela que algo está errado em sua educação.

        A grande educadora italiana, Maria Montessori, sempre estimulou a autonomia infantil, e isso pode ser feito no dia a dia do lar ao delegar responsabilidades. Quando uma mãe ensina a criança que começou a andar para que leve a fralda suja até a lixeira, age não movida por uma eficácia organizativa, mas pelo aspecto espiritual que tornará a criança ativa no amor e no espírito de serviço aos demais.

        Para dar responsabilidades é preciso saber adequar a tarefa à idade, a fim de não ser injusto ao atribuir tarefas que estão além ou aquém da capacidade da criança. As tarefas vão sendo cumulativas e distribuídas entre os vários filhos:

        De 2 a 3 anos: colocar os sapatos (de preferência sem cadarço), acomodar-se na mesa e comer sozinha, ordenar os brinquedos por caixas, colocar água no copo (deixar ao seu alcance), jogar a fralda suja no lixo.

        De 3 a 4 anos: varrer pequenas áreas com uma mini vassoura, ir ao banheiro sozinha, arrumar a mochila para a escola, separar as roupas sujas das limpas, jogar o lixo na lata, regar plantas em vasos, colocar a mesa e tirá-la após as refeições, trocar a toalha da mesa, deixar em ordem os sapatos no armário, vestir-se sozinha.

        De 4 a 5 anos: fazer a sua higiene pessoal, passar geleia no pão com uma faca sem corte, distribuir os talheres na mesa e retirá-los, guardar as compras, utilizar o aspirador de pó, dobrar suas roupas e panos de prato, pôr comida para os animais domésticos e limpar a sujeira deles, separar o lixo reciclável, enxugar o banheiro após o banho.

        De 6 a 7 anos: ajudar a cozinhar pratos fáceis, varrer o chão com vassoura de adulto, tirar a mesa após as refeições e lavar a louça, descascar frutas, lavar verduras, limpar gavetas e armários, organizar seu próprio guarda-roupa.

        De 8 a 9 anos: levar o lixo para rua, limpar e organizar a geladeira, fazer compras com uma lista, preparar seu lanche.

        De 10 a 11 anos: cozinhar pratos básicos para a família, ajudar a escolher o cardápio do dia, limpar o micro-ondas e o chão da cozinha, tirar o pó dos móveis.

        Acima de 12 anos: preparar refeições e sobremesas para a família; ir a pé para a escola, se fica no bairro.

  • Elogiar é reconhecer o esforço da criança

    Elogiar é reconhecer o esforço da criança

    1 – A importância do elogio. 2 – O elogio faz o subconsciente sugerir que repita a ação. 3 – Não premie com brinquedos. 4 – Parâmetros para o elogio. 5 – Elogiar diante de outras pessoas. 6 – Sempre que houver um esforço, elogiar.

    1 – A importância do elogio

          É tão importante exigir o cumprimento de uma ordem, quanto reconhecer o esforço ao ser cumprida. Demonstre alegria quando a criança se comportou bem. Não veja a melhora na conduta dela como algo natural ou que tenha sido fácil de alcançar.

          Há pais que temem premiar as boas condutas dos filhos; acham que o bom comportamento deve ser uma atitude normal. É injusto fechar os olhos e não reconhecer o esforço do filho, por exemplo, que tirou boas notas, quando eram fracas.

          Pais assertivos têm presente o impacto do elogio ao ver nele o reforçador mais útil que possuem: ajudam que os filhos perseverem na boa conduta porque dá a entender que eles, pais, são justos ao notarem os esforços da criança, que terá a autoestima fortalecida:

          − “Filha, você hoje me ajudou muito com a casa. Vamos tomar um sorvete!”.

    2 – O elogio faz o subconsciente sugerir que repita a ação

          Surpreenda a criança todos os dias ao parabenizá-la pelo que realizou bem, pois o subconsciente dela registrará o agrado e a incentivará repetir a ação. Elogiar os dois irmãos que brincaram juntos sem brigar; dizer-lhes que merecem pudim na sobremesa do jantar.

          Dizer ao filho reclamão que obedeceu sem protestar:

          − “Fico feliz com sua atitude de desligar a TV e se aprontar para a escola. Me dá um abraço”.

          Sem que você tenha pedido, a criança vestiu o pijama, guardou a bermuda no cabide, banhou-se e escovou os dentes: vá até o quarto dela e elogie essa atitude e conte uma história como prêmio.

    3 – Não premie com brinquedos

          Não premiar a criança com brinquedos para não transformá-la em consumista e interesseira; nem aceite chantagem do tipo “Só arrumarei a mesa se ganhar um carrinho!“. O prêmio deve ser uma liberalidade dos pais.

          A criança se sente especial com o tempo dedicado a ela. As melhores compensações são aqueles momentos juntos com os pais: brincar com bola, irem ao parque, assistir um vídeo, dormir mais tarde para ficar com os pais. Se no dia anterior o filho foi castigado porque tratou mal seu melhor amigo, e agora brincam amigavelmente, o pai poderá dizer:  − “Você brinca com o Julinho se brigar. Vou trazer um sorvete para cada um”.

    4 – Parâmetros para o elogio

          Ao elogiar, caminhe até a criança, olhe nos olhos dela e diga o que fez bem. Se oportuno, dê toques suaves no ombro ou alise cabeça dela para aumentar impacto da mensagem. Não elogie demais um pequeno êxito, mas sim os importantes: se melhorou um pouco as notas escolares não diga: − “Que maravilha!”, mas − “Melhorou bem, mas ainda falta um pouco de esforço para encerrar bem o semestre”.

          Evite ironias ao elogiar, que seria um modo escamoteado de ser hostil: − “Como limpou bem seu quarto hoje! Já era hora…”. Ou, − “Inacreditável, você hoje não brigou com seu irmão!”. Esse tipo de ironia frustra a criança porque revela que os pais não confiam nela, nem acreditam no esforço dela por melhorar.

    5 – Elogiar diante de outras pessoas

          Elogiar diante de outra pessoa agrada a criança, sendo também um reforço positivo. A esposa diz ao marido, na presença filha: − “A Maria me ajudou muito no trabalho da casa”. O pai olha para a filha e diz: − “Fico feliz com o que disse a mamãe! Você é uma filha muito especial”, e a beija.

          Agregar ao elogio ações não verbais como carícia, abraço, significa mais do que um simples “que bom!”. Para as crianças pequenas dizer apenas “quem bom” é insuficiente, se o esforço para mudar foi grande. Necessitam motivações mais palpáveis do que palavras.

    6 – Sempre que houver um esforço, elogiar

          Elogiar raramente não produz efeito. O mesmo elogio pode durar mais tempo para fixar um comportamento: elogiar durante uma semana a filha de quatro anos cada vez que se vestiu sozinha; premiar durante vários dias o filho de sete anos que não brigou mais com o irmão menor ao brincar com ele.

    Texto produzido por Ari Esteves, com base no livro “Carinho e firmeza com os filhos”, de Alexander Lyford-Pike, Editora Quadrante, São Paulo.

  • Os bons hábitos dos filhos

    Os bons hábitos dos filhos

    1 – Dimensão afetiva e racional da pessoa humana. 2 – Afetividade domina a criança até os seis anos. 3 – A importância da criança ser ordenada desde a primeira infância. 4 – Hábitos racionais ou virtudes. 5 – Educação da vontade nas diferentes idades. 6 – Ter sempre presente na educação da criança.

    1 – Dimensão afetiva e racional da pessoa humana

    Para ajudar a criança a ganhar bons hábitos ou virtudes é necessário compreender que existe na pessoa humana uma dimensão afetiva (os animais também possuem afetividade ligada aos instintos) e uma dimensão racional. Nos afetos residem os sentimentos, as emoções e paixões, além dos instintos de preservação (alimentação), segurança (abrigo) e procriação. Como dimensão propriamente humana está a racionalidade, que envolve a inteligência e a vontade: os afetos se adestram, a inteligência se instrui, a vontade se educa!

    2 – Afetividade domina a criança até os seis anos

    Não se pode falar em racionalidade na criança até aos seis anos, porque ainda não estruturou seu pensamento. Nesse período ela pode adquirir bons hábitos, que se transformarão em virtudes ao serem racionalizados, a partir dos seis anos (Fundamental 1). Antes disso, falaremos apenas de hábitos, cujo mecanismo é a repetição. Tornar uma criança virtuosa é muito rápido, se ela desde as primeiras idades começar a fazer sua cama, manter organizados seus brinquedos e roupas, acostumar-se com os horários estabelecidos. Se a criança não ganhou bons hábitos até aos seis anos, será mais difícil adquirir virtudes na adolescência. Os hábitos são uma preparação ou trampolim para as virtudes, que por estarem na esfera racional ou volitiva, exigem que a criança faça escolhas livres e conscientes: − “Eu quero comer verduras porque não quero ser um moleque enjoado e cheio de manhas!”, tal afirmação baseia-se em conhecimento intelectual e na decisão livre da vontade.

    3 – A importância da criança ser ordenada desde a primeira infância

    Mas antes da fase racional, a criança pode acostumar-se a agir bem ao viver aspectos de ordem em seus brinquedos, ao ajudar nos pequenos encargos do lar, ao comer e dormir na hora certa, ao vestir-se sozinha, ao arrumar sua cama. É interessante o que conseguiu uma mãe com o filho que começava a andar em pé: após trocar a fralda dele, ensinou-o a levar a suja até o cesto de lixo. Mesmo que não compreendesse o motivo para agir assim, a criança cumpria prazerosamente a tarefa pela segurança da rotina e por agradar a mãe. Investir muito na afetividade dos filhos, principalmente nos aspectos de ordem, é missão importante dos pais: se uma criança bate, joga o sapato, atira no chão os talheres é porque não está educada na afetividade, e pouco se exige dela.

    A criança deve ganhar autonomia disciplinar ao cumprir as tarefas que lhe são ensinadas, não devido à presença da mãe, mas porque tornou-se independente. Para isso, é importante exigir que desde as primeiras idades seja ordenada. O hábito da ordem, que só se adquire com exercícios diários, tem quatro aspectos: ordem material, ordem temporal, ordem afetiva e ordem mental:

        Ordem material: a partir de um ano de idade a criança já pode começar a viver a ordem material ao guardar seus brinquedos e roupas nos locais que lhe foram indicados. A mãe não deve fazer isso por ela, mas precisa ensiná-la a fazê-lo, repetindo várias vezes a ação junto com a criança, até que esta passe a agir sozinha. Cada passo nesse sentido é uma conquista. Se os pais não vencerem a batalha dos aspectos materiais, os filhos sempre desejarão que os outros façam as coisas por eles, tornando-se pequenos imperadores cercados de servos. A criança que não desenvolveu bons hábitos porque se acostumou a não arrumar seus brinquedos e roupas, a ficar na cama ou comer fora de hora, a assistir desenhos o dia todo, etc., não terá forças para viver as virtudes aos seis anos, pois sua vontade estará escravizada por uma afetividade débil e desordenada.

        Ordem temporal: a criança se sente segura nas rotinas. Para isso, ela precisa começar a cumprir horários. A afetividade começa a entrar nos trilhos com a ordem material e temporal: ter horário de brincar e parar; ter horário para tomar banho, jantar e dormir. O hábito do sono exige um ritual, sendo importante que a criança vista o pijama e não vá para a cama com outra roupa. Quando a criança é desordenada e agitada na hora de dormir, significa que está indisciplinada na ordem temporal do sono, pois assiste TV ou faz atividades que já não convém nesse horário, e que a impedem de conciliar o sono.

        Ordem afetiva: É preciso dizer “não” à criança, sem medo de contrariá-la, a fim de que saiba esperar pelas coisas e controle seus afetos. A criança não deve assistir desenhos sempre que quiser; ao divertir-se, deve apanhar um brinquedo de cada vez e pacientemente esgotar suas possibilidades e não pegar outro a cada instante, a fim de dominar a tendência à inconstância. Se a mãe cede a todos os caprichos da criança, é porque teme que ela fique triste. Agindo assim, a mãe logo perderá autoridade, além de tornar caprichosa e pouco criativa a criança. A educação afetiva inclui a alimentação: comer de tudo e no horário, sem permitir dengos (apresentar a comida de várias formas).

        Ordem mental: mesmo que não tenha a racionalidade desenvolvida, a criança com quatro anos já deve perguntar se pode ou não fazer tal coisa. A boa explicação começará a desenvolver a racionalidade dela. A ordem mental também pode ser desenvolvida com jogos. Para isso, diminuir o tempo de desenhos animados, que torna a criança passiva e preguiçosa para pensar e imaginar brincadeiras, além de criar dificuldades com aritmética e disciplinas que exigirão atenção no Fundamental 1. Substitua os desenhos por jogos de memória, de discorrer, dominó, damas, xadrez, lego, cubos, quebra-cabeça, etc. A criança que sabe jogar saberá estudar e cumprir seus deveres. Tanto os jogos como o esporte fomentam muitas virtudes e habilidades sociais, pois exigem seguir regras e respeitar os “adversários”. Além disso, a criança precisa aprender a brincar sozinha (parear cartas de figuras iguais, lego, montar quebra-cabeça, entre outras), pois o silêncio exigido por essas brincadeiras ajuda fixar a atenção − prejudicada hoje pela velocidade das imagens midiáticas −, e despertará a interioridade da criança, ensinando-a a resolver sozinha seus pequenos problemas e a fará ganhar autonomia e independência para agir. Após brincar, a criança deve guardar seus objetos. Pais, não interrompam o silêncio e a atenção das crianças!

    4 – Hábitos racionais ou virtudes

    Aos seis anos (Fundamental 1) a criança entra no mundo racional e tem necessidade de conhecer a verdade sobre as coisas que a cercam: é a fase das perguntas incessantes que irão ilustrar a sua inteligência. Enquanto não praticar racionalmente suas ações, a criança pode adquirir bons hábitos de forma, digamos, mecânica, pois estes são bases para as virtudes. Passar do hábito à virtude significa que a criança começou a agir com inteligência e vontade próprias: − “Quero tomar banho frio de manhã para ficar forte”. – “Quero comer salada para aprender a comer de tudo”. – “Quero ajudar minha mãe nas tarefas da casa”. – “Quero ter um horário diário para estudar”. Quando a criança compreende que deve fazer algum sacrifício, então alcançou o nível da virtude, que exige querer (inclinação da vontade) algo pensado pela inteligência, mesmo que afetivamente no início não agrada realizar.

    Se a afetividade da criança estiver ajustada, ela terá prazer em ser corajosa, constante e laboriosa, que são escolhas racionais, e saberá enfrentar os sentimentos contrários ou a falta de gosto para estudar ou arrumar suas coisas. A virtude logo dará à criança grande alegria ao ser colocada em prática. Muitos pais perdem essa batalha ao não exigir que os filhos cumpram as tarefas, quando estes manifestam falta de gosto em fazê-las: se não forem exigidos, nunca aprenderão a cumprir e amar seus deveres.

    5 – Educação da vontade nas diferentes idades

    O terceiro momento da educação é o da vontade, onde reside a inclinação para o amor e o exercício da liberdade e das escolhas livres. A inteligência ao revelar uma verdade inclina a vontade, que é o apetite da inteligência, para aderir a essa verdade, e os afetos, quando ordenados, apoiam a decisão da vontade. Uma afetividade desajustada – preguiçosa ou indolente – domina a vontade e pode impedir a pessoa decidir bem.

    Ao ter adquirido até seis anos o bom hábito de ficar quinze minutos diários numa mesinha para fazer desenhos, folhear revistas com historinhas em imagens, além de jogos que exigiam concentração, será fácil a criança dedicar mais tempo diário ao estudo no Fundamental 1. Mas, se nunca estudou, como fará isso na adolescência?

    Dos seis aos dez anos a criança deve aprender a ser generosa: compartilhar coisas, convidar os amigos para brincar em casa com seus brinquedos, doar às crianças de um orfanato os brinquedos que já não utiliza, deixar que as pessoas escolham os melhores lugares, desprender-se do tempo e ajudar a mãe a colocar a mesa para as refeições, dar lugar no jogo para outros brincarem, participar de jogos ou atividades que não a atraem tanto a fim de conviver com os demais, compartilhar o lanche, emprestar a bola, ajudar os amigos com dificuldades em alguma matéria escolar. Se gosta de xadrez, poderá organizar um campeonato na escola; se aprecia a leitura de contos, poderá ler para a avó.

    Se a mãe foi possessiva e protegeu demais a criança até os seis anos, ao evitar que fizesse sacrifícios, terá transformado o filho numa maria-mole. Dos seis aos dez anos a criança deverá desenvolver a rijeza de pular da cama no horário previsto, não reclamar da comida ou da temperatura, não dormir à tarde, ir à padaria com chuva, sair de casa e enfrentar a fila do ônibus: são atividades de embate que favorecem a capacidade de enfrentar dificuldades. Neste período é importante a atuação do pai, que deverá fazer excursões mais exigentes: subir morros, andar vinte quilometro de bicicleta, incentivar o filho a desenvolver-se bem em algum esporte, ir ao campo em dia de chuva.

    Dos onze aos quatorze anos (Fundamental 2), fase da puberdade, entrará mais fortemente o tema da sexualidade (assistir a live 43 de João Malheiro – Youtube jebmalheiro). A fortaleza é a grande virtude do Fundamental 2 (no Fundamental 1 foi a temperança ou autodomínio).

    As virtudes do ensino médio são temperança (compreender profundamente a sexualidade humana, que é diferente à do animal); prudência para julgar e atuar bem; ter ideais e saber utilizar a liberdade para se comprometer com algo que vale à pena, e a serviço dos demais; ser responsáveis pelas próprias ações (os pais já não interferem muito, mas podem ajudar o jovem a que tenha iniciativas e as assuma responsavelmente). É o momento da descoberta da própria identidade, se foram desenvolvidas as virtudes dos períodos anteriores. O jovem deve conhecer suas qualidades e virtudes para potenciá-las ainda mais, e reconhecer seus defeitos de temperamento e caráter para corrigi-los, a fim de saber conviver com as pessoas e escolher com acerto uma profissão. Ao ter ajustada a sua afetividade, inteligência e vontade, saberá conduzir-se e responder com segurança à indagação “para que existo e qual a minha função neste mundo?”.

    6 – Ter sempre presente na educação da criança

    1) Crescer em virtudes é necessário para educar bem; 2) Não se deixar levar pelo falso raciocínio – fruto do comodismo – de que o tempo resolverá os problemas comportamentais das crianças; 3) Ter um plano educativo para cada filho; 3) Ser persistentes ao começar e recomeçar cada dia a tarefa de educar; 5) Manter um tempo diário de leitura sobre a educação dos filhos, mesmo que sejam dez ou quinze minutos (esse investimento de tempo evitará dores de cabeça em futuro próximo).

    Texto produzido por Ari Esteves para o Boletim Pedagogia do Comportamento, baseado na live 61, de João Malheiro, com o título “A virtude da ordem e a disciplina e equilíbrio emocional da criança”, disponível no canal do Youtube de Jebmalheiro.

  • As virtudes por idade

    As virtudes por idade

    1 – Melhores períodos para o aprendizado de crianças e adolescentes. 2 – Aprendizado da criança da gravidez aos quatro anos. 3 – Aprendizado da criança até 12 anos.  4 – Aprendizado do adolescente de 12 a 18 anos.

    1 – Melhores períodos para o aprendizado de crianças e adolescentes

        Conhecer os períodos naturais em que a criança e o adolescente estão mais predispostos a aprender facilita o processo educativo. Chamam-se “períodos sensitivos” e ocorrem apenas uma vez na vida (perdem-se ao redor dos vinte anos). São períodos porque correspondem a uma determinada etapa natural que torna fácil o aprendizado e o desenvolvimento de bons hábitos; e sensitivos porque estão na esfera biológica e psicológica de cada pessoa.

        Ao possuir inteligência e vontade livre, a pessoa pode determinar-se a aprender algo em qualquer idade, mesmo depois dos períodos sensitivos. Mas é preciso ter em conta que passado esse período, o aprendizado torna-se mais laborioso: aprender a andar de bicicleta aos 40 anos é mais difícil que aos quatro, e nunca o fará com facilidade; aprender matemática simples é mais fácil aos 7 que aos 30 anos.

        Existem períodos de nível material (andar, equilibrar-se…), e períodos de nível intelectual (ordem, jogos, idiomas). O período de ouro é o da educação da vontade (a partir dos 7 anos).

        Falaremos de aprendizados. Porém, ter em conta que as crianças também podem adquirir bons hábitos como espírito de serviço, solidariedade, ordem material e temporal, entre outros. Até aos seis anos, a criança ainda não tem desenvolvida sua inteligência e vontade, de modo que não se pode falar em virtudes humanas até essa idade, pois são qualidades que exigem o querer livre e consciente da vontade esclarecida pela inteligência. Porém, até os seis anos, a criança pode adquirir bons hábitos, que se transformarão em virtudes a partir dos seis anos. Uma criança que até a idade de seis anos não foi exigida para ser ordenada e a cumprir pequenas tarefas no lar, estará menos preparada para desenvolver a virtude da ordem, entre outras.

    2 – Aprendizado da criança da gravidez aos quatro anos

       – Da gravidez até os 3 anos: escutar música clássica a partir dos 6 ou 7 meses de gravidez cria conexões e estruturas que favorecem o bom gosto musical e a facilidade para idiomas.

       – 10 aos 15 meses: andará sozinha apenas observando os adultos.

       – 1 aos 3 anos: ordem, pois a criança se acostuma a ter seus brinquedos guardados no mesmo lugar, desfrutando-se em organizá-los. Porém, necessita observar como os mais velhos da casa repetem essas ações.

     – 3 aos 5 anos: equilíbrio, capacidade para andar de patins ou bicicleta (jamais esquecerá, mesmo que fique muitos anos sem praticar).

       – 1 aos 4 anos: falar a língua materna e aprender outros idiomas (dois anos e meio), desde que conviva com falantes desses idiomas.

     – 2 aos 4 anos, a descoberta do eu: a partir dos 2 anos a criança deixa de ser individualista e compreende o limite entre o “meu” e o “seu”, e aprende a compartilhar. Aos 3 anos pode iniciar a compreensão da natureza tripla da pessoa humana: corpo (material), alma (imaterial: inteligência e vontade) e espírito (a consciência do “eu”). Helena Lubienska, a grande discípula de Maria Montessori, afirmava “dizer que a criança até os 3 anos não passa de um tubo digestivo é negar o espírito”. “Tratar a criança como se fosse apenas um conjunto de funções fisiológicas, vendo nela apenas a vida vegetativa e animal, é desconhecer sua vida psíquica e negar seu espírito”. E fazia exercícios onde a criança, a partir dos 3 anos, ficava em pé para olhar o seu corpo (pernas, mãos, braços), sem confundi-los com o seu “eu”, que deveria comandar esses órgãos: − “Diga às suas pernas: caminhe!”. Nessa primazia do espírito, o “eu” decide e comanda tanto o corpo (que se vê) como a alma (que pensa e quer).

        As atividades manuais, exercícios físicos, brincadeiras e jogos devem servir para a criança considerar a conquista de seu corpo como um trabalho pessoal, fruto de seus esforços. Isso a conduzirá pedagogicamente ao desenvolvimento de uma personalidade consciente e responsável.

    3 – Aprendizado da criança até 12 anos

     – 3 aos 9 anos, sinceridade: entre 3 e 6 anos a criança vive a sinceridade de modo natural (não sabem mentir), e distinguem o certo do errado porque assim lhe foi assim explicado. Dos 6 aos 9 anos, como consequência da justiça, devem continuar a ser sinceros, mas é nessa fase que aprendem as falsas “vantagens” da mentir).

      – Antes dos 6 anos, obediência: porque estão predispostas a isso ao reconhecer uma autoridade coerente, persistente, confiável e carinhosa.

      – 4 aos 7 anos, os jogos: a idade do jogo é mais intensa nesse período (desde os 2 anos é capaz de entreter-se e inventar brincadeiras). A criança que aprendeu a jogar bem (exige esforço e concentração) terá facilidade para estudar e cumprir bem suas tarefas.

       – 7 aos 11 anos, responsabilidade para assumir as tarefas e não fazer apenas o que gosta; perseverança para levar adiante a decisão que tomou; o amor à justiça começa a se desenvolver e se entristecem diante das injustiças; afã de superação, desejo de melhorar e superar-se no dia a dia; o valor à própria imagem e a opinião que os demais têm deles deve ser aproveitados para que cresçam em virtudes; pudor (11 anos) para guardar a intimidade do corpo e da alma da curiosidade alheia (as meninas começam antes).

       – 7 aos 12 anos, estudo: possuem desejos de aprender; generosidade e impulsos de ajudar aos demais; laboriosidade, ao querer ser útil e ajudar; fortaleza, ao desenvolver a capacidade de sacrifício e esforço ao cumprir seus encargos e deveres diários.

     4 – Aprendizado do adolescente de 12 a 18 anos

      – 12 aos 15 anos: aumenta a autonomia, inteligência e o idealismo: ajudar aos demais com as qualidades pessoais desenvolvidas, pois podem desenvolver a consciência de que devem ser generosos; amizade, dada a necessidade de ser estimado e valorizado pelos amigos (é o momento da influência da turma). É preciso conhecer os amigos e explicar o que significa uma verdadeira amizade.

       – 13 aos 15 anos, sobriedade: acostumar-se a viver com pouco dinheiro, pois se dão conta de que podem se divertir sem gastar muito; não acumular roupas e tênis, tendo apenas os necessários.

       – 15 aos 18 anos, formação de critério: pré-disposição para pensar, julgar, analisar e argumentar. Fomentar o desejo de influenciar positivamente no ambiente social em que vive.

    Texto elaborado por Ari Esteves com base nos livros “Educar hoje”, de Fernando Corominas, Editora Quadrante, 2017, São Paulo; e “A educação do homem consciente”, de Helena Lubienska de Lenval, Editora Kirion, Campinas, 2018.

  • Os pais devem educar com mentalidade profissional

    Os pais devem educar com mentalidade profissional

    1 – A influência da família é profunda e duradora. 2 – Os pais devem educar com mentalidade profissional. 3 – A Ciência Pedagógica Familiar é acessível e apoia os pais.

    1 – A influência da família é profunda e duradora

        A vida familiar aporta a influência mais profunda e duradoura na vida de qualquer pessoa. Esse influxo é para o bem ou para o mal, pois dependerá da maior ou menor preparação dos pais, que incidirá na qualidade educativa que eles proporcionam.

        Cada pessoa recebe diferentes tipos de estímulos educativos nos ambientes em que vive: família, escola, relações sociais, rua, amizades. O pedagogo suíço Pestalozzi (1746 a 1827), em sua obra “Como Gertrudes ensina seus filhos”, sustenta que a autêntica educação social, fundada na educação moral e da personalidade, não a pode dar o Estado, que se preocupa só com o comportamento exterior, e que da educação interior se ocupa a família: a sociedade pode civilizar, mas não educar. Acrescenta Pestalozzi que o fundamento de toda cultura humana e social é o lar, cuja obra educadora gira em torno da atitude familiar do amor, sacrifício e abnegação dos pais. Podemos acrescentar que é no lar onde os filhos aprendem a viver todas as virtudes humanas.

    2 – Os pais devem educar com mentalidade profissional

        Aos pais não lhes basta o sentido comum e a experiência de ser pais: necessitam preparar-se seriamente − cientificamente − para educar bem seus filhos. A capacitação dos pais como educadores inclui saber analisar a própria situação familiar, detectar os possíveis problemas e aplicar as soluções educativas: para cada problema existe uma solução; basta estudar para encontrá-la. Para isso, devem dedicar algum tempo diário (mesmo que sejam dez minutos) à sua própria formação.

        Ainda que os pais não sejam profissionais da educação, devem educar com mentalidade profissional. As condições para essa ação educativa são as seguintes:

    1. Perseverança nas metas e na dedicação de tempo aos filhos;
    2. Personalização das ações educativas, sabendo como tratar a necessidade de cada filho;
    3. Otimismo, pois não se pode educar se não há confiança na natureza perfectível da pessoa humana;
    4. Coerência no pensamento e na ação: dar exemplo, pois não basta só falar;
    5. Profundo respeito à pessoa de cada filho;
    6. Capacidade de serviço para se entregar a cada filho;
    7. Valentia para enfrentar os inumeráveis problemas ligados ao desenvolvimento da criança.

    3 – A Ciência Pedagógica Familiar é acessível e apoia os pais

        A Pedagogia Familiar ou ciência pedagógica da educação familiar é uma ciência prática baseada no método do caso, além de se apoiar em fundamentos teóricos. Essa pedagogia se enquadra dentro da Pedagogia Diferencial, que considera a educação em função das diferenças pessoais de idade, sexo, personalidade e ambiente em que vive cada pessoa. Uma coisa é ter ideias universais sobre educação e outra bem diferente é aplicar a cada caso concreto os postulados educativos. Quando se deseja trazer as ideias gerais à prática, é preciso aplicá-las não em pessoas abstratas, mas em uma ou várias pessoas com suas características próprias, distinta das demais.

    Este texto está baseado nos ensinamentos de Gerardo Castillo, em sua obra “La realización personal en el ámbito familiar”, EUNSA, 2009, Navarra, Espanha.

  • A rotina na vida das crianças

    A rotina na vida das crianças

    1 – Os benefícios das rotinas para as crianças. 2 – Os quatro aspectos da virtude da ordem. 3 – Ser paciente ao ensinar uma rotina à criança.

    1 – Os benefícios das rotinas para as crianças

        A rotina se insere dentro da virtude da ordem, e são imensos os benefícios que ela traz à criança: é fonte de estabilidade e segurança ao dar confiança sobre o que fazer em cada momento, promove a disciplina interior, ajuda a controlar a afetividade, facilita a obediência, faz o ambiente do lar serenar, o que é importante para a criança.

        É importante que os pais compreendam que a rotina tem sabedoria por trás, não sendo meramente externa, pragmática, tal como buscar uma eficiência organizativa para transformar a criança em robô. É algo muito maior, ligado ao enriquecimento interno da criança. A rotina é o caminho para ela alcançar disciplina interior, controlar a afetividade ao se dirigir às próximas atividades, facilitar a obediência, ganhar habilidades motoras em aprendizados que a ajudarão a dominar o seu mundo afetivo, vivenciando, assim, sua primeira interioridade.

        De segunda à sexta-feira, a vida já traz certa rotina aos pequenos: retorno da escola, lavar-se, trocar de roupa, almoçar, estudar, encargos na casa, brincar, banhar-se, jantar, dormir. Porém, nos fins de semana os pais ficam sem entender o motivo pelo qual muitas crianças manifestam certo desgoverno na afetividade e brigam com os irmãos, quebram objetos por acidente e são desobedientes. A criança não é um mini adulto que procura desafiar os pais, e que precisa ser adestrado: se os pais não a ajudam a ter rotinas, ela ficará desorientada e à mercê de caprichos.

    2 – Os quatro aspectos da virtude da ordem

        A virtude da ordem tem quatro pilares: ordem material (guardar os objetos em seu lugar), ordem temporal (onde se insere cada rotina), ordem afetiva (dos sentimentos, emoções, paixões, que deve começar o quanto antes) e ordem mental (a partir dos seis ou sete anos).

        A rotina pertence à ordem temporal. Os adultos também necessitam fazer as coisas em função do tempo, e não em função das coisas ou tarefas. Gastar três horas para preparar um bolo fará atropelar afazeres mais importantes e essa desordem será causa de afobações e atropelos. A ordem temporal dá paz e ajuda a colocar a cabeça nas pessoas que dependem de nós, sendo mais fácil viver o amor e o serviço a eles. O bolo não pode ser a desculpa para desatender compromissos mais importantes. Uma pessoa que trabalha em função do tempo, e não das coisas, consegue se organizar para os deveres de daqui a pouco, de manhã, da semana que vem, do final do mês…

        Até os cinco anos, a criança deve crescer na dimensão material e temporal da ordem, pois isso dará a ela mais estabilidade comportamental, disciplina, atenção e equilíbrio emocional para controlar a sua sensibilidade (ordem afetiva).

    3 – Ser paciente ao ensinar uma rotina à criança

        O confinamento imposto pela pandemia revelou que os pais não estão preparados para criar rotinas na vida das crianças. Em atividades online e em outras deixaram os filhos sozinhos ao acreditar que eram pequenos adultos que saberiam se conduzir. As coisas não funcionam assim. Ou seja, não tiveram a paciência de ajudá-los, sentando-se ao lado deles para ensiná-los a se conduzir. Sem isso, a criança se impacienta e desiste logo. Para criar uma rotina é preciso ter paciência e insistir por semanas, e parabenizar o esforço da criança cada vez que alcançou uma etapa.

        A rotina de limpar o pó dos livros − ou do espelho, etc. − tem que ser pacientemente explicada, a fim de que a criança não fique confusa e desista ao não se sentir preparada. Não ter pressa ao ensinar é o segredo, já que não se trata de buscar a eficiência material de limpar livros. A limpeza de uma prateleira de livros poderá demorar uma semana. O importante é fazer lentamente os movimentos com a mão que tira o pó, depois colocar calmamente o livro na estante e retirar o seguinte.

    4 – A criança não compreende a sucessão do tempo

        O primeiro aspecto da ordem para a criança é a ordenação material dos objetos: com um ano e pouco aprende a guardar seus brinquedos nas respectivas caixas. Depois, deve ser ajudada a saber o que fazer em seguida (ordem temporal), pois, ao não ter ainda racionalidade, ela não tem senso de previsibilidade ou de sucessão temporal e poderá ficar apenas à mercê de seus caprichos, sem se importar com mais nada. É evidente que a criança não deve ser um mini executivo com a agenda lotada e olhos pregados no relógio. Mas, ao não saber o que fazer, ela se inquieta, torna-se confusa e pode chegar à irritação ou habituar-se às desordens.

        A criança pequena não distingue o passado e o futuro, mas apenas o presente. Dizer para uma criança que irá passear daqui a uma semana não quer dizer nada, pois apenas consegue ver o dia de hoje. Ela não tem noção de que é um dia tem vinte e quatro horas, que uma semana tem sete dias e um mês trinta dias. Ao ouvir contar as histórias da Bíblia, ela pensa que Abraão, Moisés e Cristo eram coleguinhas que viveram na mesma época (séculos, o que é isso?).

        A criança nunca sabe o que vem depois: se é hora de lanchar ou de brincar. O mesmo acontece com um adulto colocado em ambiente onde não sabe o que fazer, tal como em um acampamento militar, não sendo militar: ficará desorientado. É preciso mostrar a sequência de atividades de um modo que ela entenda, por exemplo, colocando na parede uma cartela com desenhos coloridos que indiquem a sequência das atividades. Em cada sala de aula da Escola Porto Real, no Rio de Janeiro, há uma pequena cartela com as 15 atividades que as crianças desenvolverão no período integral. A encarregada da sala vai deslocando a bolinha para a próxima atividade a ser realizada. Sem isso, as crianças não saberiam o que fazer e iriam ou para o lanche ou para o pátio antes da hora prevista.

        A criança deve fazer as coisas ao seu ritmo, e não no dos adultos. A ajuda na sucessão das atividades deve ser feita com paz e serenidade, pois isso tranquiliza a criança. Somente por volta dos sete ou oito anos é que ela saberá se organizar sozinha; antes disso dificilmente conseguirá.

    Texto produzido por Ari Esteves para o Boletim Pedagogia do Comportamento, com base na live 61, de João Malheiro, com o título “A virtude da ordem e a disciplina e equilíbrio emocional da criança”, disponível no canal do Youtube de Jebmalheiro.

  • Enquanto ainda é tempo…

    Enquanto ainda é tempo…

    1 – Corrigir as crianças com paciência.  2 – Cada cônjuge deva dar mais do que espera receber. 3 – Na família deve haver regras claras.

    1 – Corrigir as crianças com paciência

        As crianças têm traços encantadores e defeitos que precisam ser pacientemente corrigidos desde pequenas, a fim de não adentrarem na pré-adolescência e adolescência com as mesmas deficiências. A missão dos pais consiste em educar a vontade e formar o caráter, ajudando-os a adquirirem bons hábitos. A família que não souber educar os filhos na infância, porque os pais apenas se preocupam em mantê-las ocupadas com muitas diversões, e contam com a passagem do tempo para que elas melhorem, logo se verá metida em apuros e perderá a falsa paz angariada ao custo de não exigir dos filhos.

        Junto com os traços maravilhosos, as crianças apresentam sérios defeitos e vícios que vão se tornando cada vez mais evidentes com a passagem do tempo. A partir dos dois anos de idade começam a dizer não e aferrar-se em teimosias, egocentrismos e em desejos de dominar pela birra ou manipulação aos que a cercam, para que ajam como elas querem. São impulsionadas a agir por apetites e paixões, que devem ser constantemente corrigidas.

        Para ensinar os bons hábitos às crianças pequenas é necessário repetir muitas vezes a explicação, tendo a certeza de que a reiteração não será eterna, e que em determinado momento elas passarão a incorporar o hábito. A criança precisa ser ajudada a corrigir seus modos sempre que necessário. Por exemplo, insistir para que digam “por favor”, “obrigado”, “com licença”, mesmo que pareça não haver progresso. Os pais devem ter a convicção de que a semente lançada produzirá efeito e um dia testemunharão a criança dizer essas expressões ao se dirigir aos outros. Os pais devem considerar o sacrifício da persistência como investimento que dará frutos permanentes.

     2 – Cada cônjuge deva dar mais do que espera receber

       O casamento não é um contrato onde os lucros são divididos na proporção 50/50, mas em 80/20 ou 90/10. Ou seja, cada cônjuge dá muito mais do que espera receber. O amor verdadeiro não significa partilha justa, mas em esquecer-se de si mesmo e entregar-se ao outro até o sacrifício. Pais que vivem dessa forma transmitem aos filhos profundas lições, porque a atitude da criança para com a mãe e o pai reflete a conduta que estes têm entre si. Quando o casal se respeita, os filhos seguem o mesmo exemplo dos pais. 

       Portanto, os filhos ganham hábitos em primeiro lugar vendo o exemplo dos pais, porque os imitam inconscientemente. Berros e grandes discursos têm pouco ou nenhum efeito sobre eles, se não veem os pais praticarem as virtudes que exigem deles. Em segundo lugar, ganham hábitos pela prática dirigida que os estimula a fazer uma e outra vez determinada ação. Em terceiro, pela explicação verbal do que se espera deles, desde que observem os pais praticarem o que ensinam.

    3 – Na família deve haver regras claras

        Desde pequenas, as crianças mostram grande amor aos pais e irmãos, e o pior pesadelo delas é o receio de serem separadas da família. Têm grande prazer em viver e acordam alegres porque veem o seu dia como uma dádiva ou oportunidade para brincar e ajudar nas tarefas do lar, quando são ensinadas a fazer isso. A criança está sempre disposta a rir e a agir. Quando pequenas, elas não sabem mentir e têm grande amor à verdade; só aprendem a enganar a si mesmas e aos outros quando se tornam mais velhas.

        Na família, como em qualquer outra sociedade ou instituição, deve haver regras claras e razoáveis para serem vividas por todos, inclusive pelos pais. As regras fazem as crianças saberem o que se espera delas e, com isso, ganham confiança em si mesmas para agir. As regras funcionam como o guard rail de uma autoestrada, pois dão segurança e revelam a fronteira do certo e do errado: ultrapassar as regras causará estragos a si e aos demais.

        Exemplos de regras que vão formando o caráter dos filhos, e que precisam ser anunciadas com frequência no lar: “Em casa nunca falamos mal de ninguém”, “Não interrompemos as pessoas quando falam”, “Ao sermos corrigidos, não retrucamos ou damos desculpas”, “Cumprimos com a palavra dada”, “Não discutimos durante as refeições”, “Só entramos em casa com os sapatos limpos”, “Cada um guarde as roupas e objetos próprios”, “Não comemos fora de hora”, “Quando usamos um prato ou copo, lavamos e o colocamos no lugar”, “Voltamos direto do trabalho (os pais) ou da escola (os filhos) para casa”, “Não assistimos televisão durante as refeições”.

        Certamente o lar não é um quartel com regras frias e sem alma. Junto às normas, que ao serem vividas demonstram a preocupação de uns pelos outros, deve haver muito carinho entre pais e filhos. Um lar para ser luminoso e alegre constrói-se com o generoso e sorridente sacrifício de todos.

    Texto produzido por Ari Esteves, baseado na obra “Enquanto é tempo”, de James B. Stenson, Editora Quadrante, São Paulo.