1 – Trair a confiança. 2 – Pais ausentes. 3 – Pais frouxos. 4 – Pais autoritários. 5 – A superproteção. 6 – Pais que não gostam de ler. 7 – Antídoto contra os defeitos.
1 – Trair a confiança
Quem não tem defeitos atire a primeira pedra! Todos colecionamos pencas deles, mas o importante é reconhecê-los com humildade e lutar contra eles, principalmente se forem pais, pois como diz André Bergè, pedagogo francês, “os defeitos dos pais são os defeitos dos filhos”, que na linguagem popular seria o mesmo que dizer “filho de peixe peixinho é”.
A sabedoria não penetra por osmose, mas sim pelo estudo e a reflexão. Porém, os defeitos penetram pela simples convivência. Pais, professores, tutores, preceptores e demais educadores têm obrigação moral de corrigir-se para não transmitir às crianças suas falhas habituais. Os pais, por deterem a mais plena confiança dos filhos, não podem trai-los ao passar a eles seus enguiços por meio do mal exemplo. Porém, não devemos desanimar diante da lista de defeitos que todos os filhos de Eva portamos, pois graças ao princípio da unidade da pessoa humana, quando se melhorara em um aspecto, melhoram-se em muitos outros. Pessimismos, inseguranças, espírito fofoqueiro, preguiças, indiferença pela leitura, fuga dos deveres, desordens nos objetos pessoais, apegos a seus planos… tudo isso, infelizmente, impregna nos filhos. Se, ao contrário, os pais decidirem a lutar por meio de pequenos atos contrários a cada defeito, também florescerão nos filhos as virtudes que procurarão imitar.
2 – Pais ausentes
Todos tivemos um pai e uma mãe e podemos afirmar que a ausência deles não educa, porque cada filho carece sentir-se amado, valorizado ao notar que seus pais o admiram e elogiam seus pontos positivos. Os pais ganham a confiança do filho quando se esforçam por ouvi-lo e compreendê-lo, mesmo em coisas insignificantes, e quando dizem “te amo”, e conversam muito com ele. Nos finais de semana e feriados, os pais nota 10 levam o filho ou a filha para passear, tomar sorvete, soltar pipas, brincar no parque, andar de bicicleta; à noite, se distraem com ele em jogos de mesa ou lendo-lhe contos. Os pais não conquistam o filho dando-lhe presentes, mas estando presentes e oferecendo-se eles mesmos, seja através do abraço, do sorriso amigo e fiel, do olhar compassivo ou indicativo. Ao gastarem tempo com a criança, revelam que apreciam mais estar com ela do que com outras pessoas, ou em outras atividades, e isso o filho percebe e fixará na memória tantos momentos que se tornarão pétreos, inesquecíveis. É assim que um filho se sente amado, seguro, forte.
Quanto à figura masculina, muitos adultos reclamam que não tiveram um pai forte, amigo, companheiro. Sem o convívio com o pai, a criança se prende à saia da mãe, e terá pouca iniciativa para enfrentar situações novas, e se tornará mais fechada e medrosa na adolescência e na vida adulta. É comum identificar traços de introspecção e dependência materna em crianças que não tiveram um modelo masculino. A ausência do pai na educação de um filho ou de uma filha é nefasta e cientificamente comprovada porque atinge o núcleo da formação da identidade da criança. James Stenson cita várias organizações americanas que confirmam estatisticamente que crianças crescidas sem a figura paterna têm seis vezes mais chances de crescerem na pobreza e duas vezes mais riscos de abandonarem os estudos, quando comparadas com crianças de lares com pais sempre presentes. A falta do pai faz aumentar a violência – inclusive a doméstica – porque os filhos se rebelam mais facilmente quando não há alguém que imponha limites. Em famílias de pai ausente há dados que revelam o decréscimo de casamentos, aumento das uniões de fato, baixa fecundidade, multiplicação de divórcios, maior abandono dos estudos dos filhos, filhas com gravidez precoce, maior número de lares monoparentais. Pela falta de um pai amigo, muitos jovens se deixam levar facilmente pelas gangues de rua, tornando-se indisciplinados e violentos. O governo britânico procurou dificultar o recurso à fecundação artificial para mulheres que vivem só, porque percebeu que um filho precisa de um pai.
3 – Pais frouxos
Pais frouxos, permissivos ou submissos temem dizer não, o que é um falso amor. Com isso, mostram-se imaturos na relação com os filhos nas diferentes faixas etárias. Diante de choros e birras cedem facilmente porque lhes falta inteligência emocional para compreender e sobrepor-se a cada situação. Se a criança de dois anos não quer comer, ficam desconcertados e mudam o cardápio, e com isso põem-se à mercê das manhas do filho, que passa a manipulá-los. Não sabem exigir rotinas e perdem a batalha do horário de dormir, de fazer as refeições e banhar-se, de exigir ordem nos brinquedos e roupas.
Na adolescência, quando a puberdade começa a falar mais forte, os pais frouxos liberam as telas para assistir o que desejam, sem esclarecer com profundidade o que representa a pornografia e o vício da ociosidade ou preguiça pela perda de tempo em games. Permitem ao filho ou filha ir a festas onde rola de tudo, viajar com a turma, chegar tarde em casa, fazer programas de fim de semana sem saber para onde foram. Não se preocupam em conhecer os amigos dos filhos e suas famílias; permitem que os filhos passem horas enfiados no celular, sem interessar-se pelo que veem. Temem abordar temas como drogas, homossexualidade, sexo fora do casamento, e dão como desculpa que mais adiante os filhos saberão resolver tais assuntos sozinhos. São pais que vão se afastando do filho ao lotá-lo de atividades extracurriculares, a fim de evitar o enfrentamento com os problemas, e perdem a oportunidade de ter o filho junto de si para dialogar com profundidade e em clima de amizade.
Certa filha estava para ir ao baile da escola e vestia uma saia curta, que comprara recentemente. O pai a viu, deu um pulo e disse que não sairia assim, dando os motivos! A garota chorou e suplicou, mas ele não cedeu e ela teve que mudar de roupa. Na semana seguinte, a filha retornou à loja e trocou o tal vestido por outro, e depois agradeceu ao pai porque compreendera que as demais colegas não respeitavam a si mesmas na festa. Ou aquele garoto que entrou rindo em casa porque, junto com os amigos, esvaziara os pneus de um carro da vizinhança. O pai levou-o até o proprietário do veículo e o fez contar o que fizera. Ao se tornar adulto, o filho lembrava-se agradecido dessa atitude paterna. São esses os pais que no entardecer da vida têm a alegria de ver como seus filhos se transformaram em mulheres e homens justos, responsáveis e empenhados em viver e transmitir a educação recebida. Ler o boletim Carinho e firmeza com os filhos.
4 – Pais autoritários
Geralmente focados em seu trabalho, pais autoritários são dominadores e o filho (ou filha) tem medo de sua voz e de seu olhar, e vai se afastando de sua presença pelo pavor que esta emana. Por vezes são pais que não aceitam algum comportamento da criança, e pela falta de leitura sobre como saber lidar com determinadas situações, tornam-se autoritários, violentos e grossos: batem, empurram, humilham com palavrões e dão respostas hostis do tipo “Você é uma praga e me deixa louco”; “Vai ver o que acontecerá se tirar notas baixas”… São exagerados nas punições porque não dialogam com a esposa para saber o melhor modo de corrigir o filho: − Ficará duas semanas sem ver televisão, ou – Durante um mês só sairá de casa para ir à escola e nada mais. Ou seja, desconhecem o que é o respeito à dignidade da pessoa humana, e como deve ser aplicada uma medida corretiva para educar e não humilhar. Pais autoritários são imaturos ao mostrar-se desequilibrados, sem autocontrole e impacientes para superar aos poucos as dificuldades de um filho.
Ao não ter a autoridade do conhecimento, mas apenas a da força bruta, esses pais desconhecem a capacidade humana de ouvir e compreender os argumentos sólidos oferecidos em diálogo amigável, por exemplo, sobre o motivo de não ir a determinadas festas, não beber álcool, o perigo das drogas, não ver certos filmes ou fazer excursão com a turma da escola a praias e hotéis badalados, não ter televisão no quarto… Ao desconhecerem essas respostas ficam sem argumentos e para manter a autoridade agem com brutalidade: − “Quem manda nesta casa sou eu; e vai fazer o que eu digo”, além de estabelecerem um monte de regras rígidas e castigos em excesso.
Pais autoritários costumam ter filhos com vontade fraca, ansiosos e com tendência a esconder tudo deles. Os filhos não interiorizaram as virtudes porque não aprenderam a agir livremente e motivados por explicações convincentes, mas na marra ou goela abaixo. Castigados e injustiçados com frequência, tornam-se medrosos, inseguros e com baixa autoestima. Ao chegarem à juventude, esses filhos não mais suportarão essas atitudes e enfrentarão os pais. Ao perceber que estão perdendo o filho, porque anda com novos amigos e frequenta ambientes onde há risco de drogas e promiscuidades, e por não estarem preparados para dialogar, reincidem nas excessivas regras. Porém o filho, que nunca foi educado por um pai amigo, partirá para o enfrentamento, e o resultado será a perda desse filho.
5 – A superproteção
Há mães inseguras em tornar o filho (ou filha) independente, e acabam substituindo-o em tudo que este pode fazer. Mimam e poupam de fazer sacrifícios, e com isso não percebem que a criança passa a ficar centrada em si mesma. Ao não atribuir tarefas no lar para o conforto de todos, a criança passa a ser egoísta e interessada apenas em suas coisas. Essa superproteção leva o pequeno ao acomodamento, à introversão, à falta de segurança, ao medo de agir por conta própria, à vergonha de se expor ou arriscar, à inabilidade no convívio social, porque a mãe sempre faz tudo que ele deve fazer: não saberá cortar seu bife no refeitório da escola, nem amarrar o próprio tênis na aula de educação física… Por medo de exigir, a mãe superprotetora vive dizendo: − Aí, vai quebrar o copo e se cortar; deixa que eu guardo. Ou – Eu levo a mochila pra você não cair. – Tadinho, a professora passou muita lição de casa! Ou – Cadeira malvada, por que você machucou o pé do meu filhinho?, e a mãe bate na cadeira como se o móvel fosse culpado pela imprudência da criança. O filho percebe que a mãe não confia em sua capacidade.
Pais que reclamam ser o filho (ou filha) passivo, desinteressado e que nunca agradece a comida feita ao gosto dele, porque julgar ser normal fazer o que ele gosta, devem saber que a culpa de tal comportamento é dos próprios pais que, superprotetores, tornaram o filho egoísta, exclusivista e dependente de que todos façam as coisas por ele, pois sente em seu emocional que deve ser assistido e favorecido como um príncipe em sua corte. A superproteção ocorre também quando os pais, impacientes e com a desculpa de que não têm tempo para esperar, ou que farão mais rápido e melhor, se adiantam a fazer o que a criança poderia realizar sozinha, mesmo que durante algum tempo não tivesse a destreza de se vestir rapidamente ou preparar seu lanche e arrumar seus apetrechos escolares, ou fazer a cama ao acordar. Ler o boletim Construir a autonomia da criança.
Por medo de corrigir, a mãe fraca diz: − Ele joga as coisas e bate em mim, mas irá melhorar com o tempo. Ou − Puxa, por que você fez isso pra mamãe? Isso é querer educar na “peninha”, na compaixão pela mamãe (filhos até cinco anos não percebem o que é compaixão). A mãe age assim porque não tem coragem de dizer com firmeza as coisas, e julga que se educa na “peninha da mamãe”. A criança entende uma argumentação firme, segura e respeitosa: − Você não devia ter feito isso; agora vá pegar a vassoura e limpe o chão. Ou, Filho, não faça mais isso; se ocorrer de novo ficará toda manhã sem sua bicicleta. A criança entende o argumento do tipo “não suje porque terá que limpar” e não um argumento sentimental do tipo − Ah, não faça isso pra mamãe. Mandar é diferente de pedir. A mãe submissa não comanda o filho, mas apenas diz: − Arrume sua cama pra mamãe, vai (evitou dize o momento em que deve ser feito). A criança precisa de comandos delicados, mas firmes: − Julinho, arrume agora a sua cama. Há mães que querem esticar o período de baby de um garoto de dez anos, e não o deixa ir à rua fazer compras, tomar ônibus sozinho para ir à escola, ir ao parque e jogar bola… Com a desculpa de que serão assaltados, as mães carentes mantém o filho na infância e preso à sua saia.
A criança tem que aprender a ser guerreira! É preciso ir soltando a linha para ela subir mais alto! Outras consequências da superproteção: o filho será cada vez mais exigente e cioso de cuidados que devem ter para com ele; será queixoso e chorão diante de qualquer incomodidade ou tarefa que lhe custe esforço realizar; e por falta de exigência e fazer apenas o que gosta, terá forte tendência ao TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), porque não foi exigido a ser constante e persistente quando algo passava a custar ou contrariá-lo. E assim, o filho se tornou emocionalmente fraco, pouco resistente à frustração e facilmente influenciável pelos amigos.
6 – Pais que não gostam de ler
Há pais que não gostam de ler. Dizem que no fim do dia chegam cansados em casa, e não têm coragem de abrir um livro. Afirmam isso porque não sabem que há leituras para descansar. O grande escritor irlandês e crítico literário C.S. Lewis disse, na introdução aos Contos de Narnia, que sempre gostou de ler contos infantis e, mesmo sendo adulto e professor das Universidades de Oxford e de Cambridge, na Inglaterra, continuava a gostar de lê-los. Reis, rainhas, duendes, bruxos, bruxas, mágicos e animais que falam são leituras que prendem, descansam e arrebatam. Adultos que não gostam de ler podem começar a fazê-lo pelos famosos contos infantis, pois a leitura é contagiosa e logo estarão com outros livros em mãos. Não é necessário ter horas e horas livres para iniciar o hábito da leitura, mas apenas alguns minutos diários para que o “vício das letras” faça ansiar por alguns minutos mais de leitura, a fim de continuar a se deliciar com as histórias. Aliás, um pai que não gosta de ler poderá “matar dois coelhos com uma cajadada só” ao ler para os filhos pequenos, mesmo que seja um conto por dia, no mesmo horário. Com isso, pai e filho deixaram de ser escravos da televisão e dos algoritmos digitais, que sempre enviam imagens dos temas que costumam acessar, o que lhes rouba os minutos de leitura. Veja a nossa sugestão de literatura infanto-juvenil para iniciar-se no hábito de ler, independentemente da idade.
7 – Antídoto contra os defeitos
O melhor antídoto contra um defeito é conquistar a virtude que lhe é contrária, por meio de pequenos e constantes atos que se opõem a esse defeito. Por exemplo, quem é desordenado ganhará a virtude da ordem ao criar o hábito de deixar cada coisa que utilizou em seu lugar, chegar pontualmente aos compromissos, não mudar o plano de tarefas previsto sem um motivo razoável, não curiosear nas redes sociais, etc. Trata-se de uma luta constante, alegre e esportiva.
E como o amor é industrioso, além dos pais lutarem contra as próprias falhas, precisam ajudar os filhos a lutarem contra suas próprias imperfeições. Pais assertivos unem carinho com firmeza, que é o segredo da boa educação das crianças, para ajudá-las a ganharem hábitos que depois se transformarão em virtudes. Os pais não devem temer ser exigentes e cobrar o que é certo: ser firmes como uma bigorna, porém almofadada, e não omitir-se quando a criança faz uma malcriação ou bagunça, a fim de não permitir que crie maus hábitos. Se necessário for, aplica-se uma medida corretiva ou castigo justo, equilibrado (estudado antes com a esposa), sem suprimi-lo diante da insistência do filho, para não demonstrar fraqueza, insegurança ou ser manipulado por ele: explicar as razões da correção, antecipadamente informada de que seria aplicada, e dizer ao filho que agem assim − pai e mãe − por amor a ele.
É certo que se deve respeitar a liberdade das crianças e adolescentes, e deixar que discordem em assuntos de livre opinião: o que irão jogar, que passeios fazer, qual a cor da roupa para ir à festa… Porém, há temas que pela falta de juízo e de experiência de vida das crianças, os pais não devem ceder para não se arrependerem depois. Vale a pena agir o quanto antes, pois a formação de um hábito intelectual, como é ocaso das virtudes, não pode ser alcançado muito tarde ou de maneira inconsistente, e sem grau de exigência.
Texto produzido por Ari Esteves, inspirado na obra “Como ser um bom pai”, de James B. Stenson, Editora Quadrante, São Paulo, 2017, e no boletim “Pais frouxos, violentos ou assertivos”, disponível no site staging.ariesteves.com.br/.