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  • Penetrar no tema das obras literárias

    Penetrar no tema das obras literárias

    1 – Não ficar só nos argumentos das histórias 2 – A literatura como modelo de valores 3 – Ler para as crianças os tradicionais contos infantis

    1 – Não ficar só nos argumentos das histórias

        As obras de qualidade nos permitem sair do plano da vida cotidiana e imergir na trama de outras vidas. Mas para isso é preciso penetrar no tema mais profundo de cada obra, e não ficar apenas no argumento ou desenrolar da história, que é o mais óbvio e superficial. Penetrar no tema é discernir o caráter benéfico ou nefasto de certas atitudes. Em Pinóquio, por exemplo, o tema é o poder deformante da mentira, tanto para a alma como para o corpo.

        Para descobrir essa trama é necessário ler a obra por dentro, como se fôssemos o próprio autor durante sua criação: é a chamada leitura genética, criativa. Quem leu MacBeth, de Shakespeare, perceberá a trágica ambição de um nobre escocês que assassina o rei para ocupar o lugar dele, o que o levou à destruição de si mesmo, porque sua consciência passou a acusá-lo a todo instante, fazendo-o perder a paz do espírito. O tema é a entrega desse nobre à ambição de poder, que o fez mergulhar vertiginosamente em sua ambição, a ponto de cometer um homicídio. Meditando no tema da obra MacBeth, concluímos que todos podemos nos ver caindo não em um homicídio, mas na paixão do orgulho, da vaidade, da cupidez ou ânsia pelo dinheiro ao preço da corrupção, no desejo de poder ou status social por egoísmo e não para servir aos demais… Essa obra faz notar ao que se reduz aquele que se entrega a uma paixão desregrada, onde qualquer meio é utilizado para se alcançar o fim desejado.

        No livro “O Pequeno príncipe”, de Saint Exupéry, o pequeno nobre insiste para que o piloto lhe faça o desenho de um cordeiro. O que queria o menino: um desenho ou travar amizade com o piloto? Quem leu “Pinóquio”, de Carlo Collodi, riu com o nariz do moleque que crescia ao mentir, mas poderá ter ficado apenas no argumento da história, sem, contudo, penetrar no tema da obra, que trata do poder deformante da mentira, que desfigura não só o rosto, mas também a alma.

    2 – A literatura como modelo de valores

        Ter modelos é algo muito humano, mas a questão está em acertar e não errar na escolha. Um modo de ensinar valores ou modelos de conduta aos filhos são as narrativas (romances, novelas, contos, biografias, bons filmes), pois têm influência enorme na vida humana. Basta ler a “Odisseia”, de Homero, para ver a fidelidade entre Ulisses e Penélope; ou entre Romeu e Julieta, de Shakespeare. Contar histórias é melhor que discursos teóricos, seja para configuração moral da vida de uma pessoa ou de um povo.

        Os pais devem viver e ensinar os valores que acreditam. Valores são modelos de conduta que adotamos para orientar a nossa vida. Educar em boa parte é transmitir os valores que se acreditam e que filhos devem assumir por vontade própria, sem necessidade de vigilâncias. A pergunta sobre os valores ou modelos que escolhemos tem sentido porque direcionamos a nossa vida por eles. Há quem age por valores de utilidade primária (comer, beber, se divertir); outros pela beleza física, fama, poder, dinheiro, pátria, cultura, destreza técnica, família, religião etc. Examinar os valores que regem a própria vida e os que se querem para os filhos é necessário para não construir sobre bases falsas e origem de fracassos.

        Aprecia-se não valores teóricos, mas imitáveis e assumidos por pessoas que se quer como modelos. Mesmo em tempos de crise de valores encontramos pessoas que personificam um ideal de excelência humana na própria família e nas relações profissionais ou sociais. Essas pessoas são modelos porque a história delas está assentada em fatos edificantes: um casal que completa 30, 40 ou 50 anos de casamento é um valor de fidelidade e de verdadeiro amor que deve ser imitado e ensinado; o amigo que não aceita subornos ou pais que levam adiante e com sacrifícios um lar com vários filhos são exemplos de valores.

    3 – Ler para as crianças os tradicionais contos infantis

        As crianças gostam imensamente de ouvir histórias. Pais, irmãos mais velhos, avós, podem ler para elas, enriquecendo, assim, a inteligência, a memória e a imaginação delas com conteúdos mais ricos do que os games ou horas consumidas passivamente diante de telas digitais, que apresentam imagens prontas e não forçam a imaginação para criá-las. A iniciativa de ler para as crianças pode ser estendida também aos pirralhos da vizinhança ou de uma comunidade pobre, a fim de que desde cedo elas passem a interessar-se pela leitura, o que as fará não se viciarem em celulares ou telas digitais.

        Os tradicionais contos infantis ajudam a materializar o significado do bem e do mal nos personagens das histórias, o que facilita às crianças a compreensão de certos comportamentos, mais do que mil discursos teóricos.

        Sugestão de contos que farão as crianças aguardarem ansiosamente o horário da leitura: O Patinho feio, A lebre e a tartaruga, Pinóquio, A galinha dos ovos de ouro, A princesa e a ervilha, Alice no país das maravilhas, A pequena Sereia, Rapunzel, O gato das botas, A Bela adormecida, Branca de Neve e os sete anões, Chapeuzinho vermelho, Cinderela, O pássaro que enganou o gato, Os três porquinhos, Ali babá e os 40 ladrões, O pequeno Polegar… Ver outras sugestões de contos ou livros para crianças, adolescentes e jovens: clique aqui

        Na escolha dos contos, optar pelas histórias tradicionais e não por aquelas que foram descaracterizadas ao serem recontadas com a finalidade de introduzir nas crianças a preocupação antecipada pelos dramas ecológicos, de meio ambiente, entre outros. As crianças merecem viajar pelo mundo das fadas, reis, rainhas, duendes e bruxas… Mais adiante, quando crescerem, elas terão tempo para conhecer as dores e mazelas humanas. O que não se pode é roubar delas a infância feliz e despreocupada, antecipando temas para os quais ainda não estão preparadas para vivenciar.

    Texto produzido por Ari Esteves com base na obra “Como formarse em ética a traves de la literatura”, de Alfonso López Quintás, Ediciones Rialp, Madrid, 1994; e pelo boletim “A escolha de valores ou modelos de conduta” em  https://staging.ariesteves.com.br/2020/09/a-escolha-de-valores-e-modelos/. Imagem de Dziana Hasanbekava.

  • O pai e sua importância na educação de filhos e filhas

    O pai e sua importância na educação de filhos e filhas

    1 – O pai não deve apenas “dar uma mãozinha para a mãe” 2 – O que representa o pai para a criança? 3 – Características do homem na vida familiar 4 – Como a filha e o filho observam o pai e a mãe

    1 – O pai não deve apenas “dar uma mãozinha para a mãe”

        Criar e educar uma criança exige esforço e capacidade de observação. Essa tarefa não é apenas responsabilidade da mãe, que não pode autoproclamar-se “a que sabe o que é melhor para a criança”, pois sua visão é parcial e se completa com a do marido, que deve participar de todo o processo educativo. Ambos devem transmitir valores e posturas pedagógicas que integram a criança nas diferenças, abrindo a ela horizontes desconhecidos desde os primeiros meses.

        A função paterna vai muito além de “dar uma mãozinha para a mãe”, como se fosse a mãe a única a cuidar dos filhos. Se sábia, a mãe exigirá do marido poder de decisão e colaboração nas escolhas, além da participação na rotina da criança: passear (sem que mãe fique ligando pelo celular para saber se está tudo bem), ninar, contar histórias, buscar na escola, conviver, trocar fraldas e dar mamadeira. O contato físico com o pai fortalece o afeto e a confiança da criança em seus dois principais educadores. Sem confiar no pai, a personalidade da criança será enfraquecida diante de uma mãe possessiva.

    2 – O que representa o pai para a criança?

        Se a mãe representa conforto e aconchego, a masculinidade do pai simboliza limite (não se pode fazer tudo o que quer), aproximação de mundos diferentes (materno e paterno), demonstração de apoio e habilidades educativas não tão ligadas aos afetos (como ocorre com as mães). O pai também representa segurança aos filhos ao abrir o pote de geleia quando ninguém consegue, ao afastar o cachorro que no parque veio cheirar a filha, ao ensinar o menino a fazer uma pipa e guerrear no céu contra a de outros garotos. Quanto mais presente for a figura paterna na vida da criança, mais forte, segura e aberta ao mundo ela será.

        Ao gestar e amamentar, a mãe se torna um porto seguro para o bebê. Então, chega o pai para provocar uma ruptura saudável nesse apegamento, socializando o filho ao estabelecer com ele a primeira relação, além da mãe, e abrindo seus afetos para confiar em mais alguém. O pai surge como um novo universo a ser explorado pela criança: tem o rosto áspero e peludo, voz forte, brinca de modo diferente ao lançá-la ao alto e recolhendo-a ainda em pleno voo e fazendo-a rir muito, pede para pular em seus braços, leva-a de cavalinho nos ombros… Alguém já viu uma mãe se aventurar a tudo isso?

    3 – Características do homem na vida familiar

        James Stenson diz que a principal tarefa de um homem é proteger a sua família, pois a natureza o dotou de capacidades físicas e mentais para isso. Essa proteção está no cerne da masculinidade, pois os homens estão programados pela natureza para ter músculos fortes e agressividade para proteger mulheres e crianças dos perigos; para colocar em favor da família sua força de vontade e seu sentido de justiça e moral; sua resistência, competitividade, assertividade, capacidade mental para abstração, amor pelo planejamento estratégico, gosto pela manipulação de ferramentas e construir objetos.

        O ser humano precisa de alguém para se espelhar. À medida que crescem, as crianças necessitam de heróis a imitar, e começam admirando seus pais a fim de firmar sua personalidade. A desigualdade de virtudes paterna e materna – devido às diferenças na constituição física e psicológica de cada um – facilita as distintas missões que lhes cabe.

    4 – Como a filha e o filho observam o pai e a mãe

        Jacques Leclercq ensina que a inteligência feminina é mais ligada à sensibilidade, dando à mulher dotes de intuição e observação aos pormenores, e a inteligência masculina tende a ver as coisas mais no seu conjunto, favorecendo o espírito de síntese. No caso dos meninos, a figura masculina mostra que a mãe não é a única referência, e que há um modo diferente de sentir, pensar, agir, que lhe é mais natural imitar. No caso da filha, ao observar as atitudes do pai, aprenderá a valorar o que devem possuir os homens, especialmente seu candidato ao namoro e futuro marido. Isso explica que com muita frequência sogros e genros se dão bem.

        A filha de um pai ausente (ou porque ele dá mais valor à sua atividade profissional ou porque está separado da esposa) terá dificuldades para ter um modelo de homem, e correrá o risco de lançar-se nos braços do primeiro tipo bonitinho, mas despreparado para enfrentar a vida e levar adiante um lar. Quanto mais a criança admira o seu pai e a sua mãe, mais profundamente adotará suas atitudes e valores para a formação do próprio caráter.

    Texto produzido por Ari Esteves com base nas obras “Como ser um bom pai”, de James B. Stenson, Editora Quadrante, São Paulo, 2017; e “A família”, de Jacques Leclercq, publicada pela Editora Quadrante em colaboração com a Editora da Universidade de São Paulo, 1968.

  • O silêncio para pensar

    O silêncio para pensar

    1 – O ativismo impede o enriquecimento interior 2 – O culto ao corpo esvazia a alma
    3 – Conhecer-se para interpretar-se

    1 – O ativismo impede o enriquecimento interior

        O homem moderno foge do silêncio, tão necessário para enriquecer o próprio mundo interior. O atual ativismo valoriza apenas a produtividade, a capacidade de gerir várias coisas ao mesmo tempo. Além disso, a televisão, o rádio no carro, as redes sociais, vídeos e noticiários roubam o pouco tempo para pensar e conhecer-se para melhor servir aos demais, pois é aqui onde reside o verdadeiro amor.

        É possível transformar o trabalho e a diversão em fuga de si mesmo, e esse desencontro leva à despersonalização. Consumir, comprar, passear, esporte em excesso e muitas notícias desencontradas preenchem o tempo e impedem o pensamento e a experiência que enriquece a alma. Não basta somar um aglomerado de vivências confusas colhidas em curiosear redes sociais e noticiários. Para ter uma leitura verdadeira de si e da realidade é necessário frear o alvoroço que torna os fatos inconexos, fragmentários e ininteligíveis. Sem o silêncio reflexivo, o centro do homem não se situa dentro de dele, mas fora, na agitação, e acaba-se tendo como opinião própria a dos noticiários, e as necessidades pessoais serão as determinadas pelos anúncios publicitários. Quem não é protagonista de sua própria vida será conduzido por outros: a euforia, as paixões descontroladas, depressões e tristezas serão os inquilinos dessa pensão sem dono.

        O silêncio enriquecedor é um convite à reflexão que faz ter presente o caráter instrumental e limitado das coisas. Quem busca a felicidade em objetos ou em mil atividades é porque renunciou encontrá-la dentro de si e, assim, não será feliz porque a felicidade é um bem espiritual, interior, e não se alcança na correria de quem imita o coelho atrás da cenoura amarrada em uma vareta a dois palmos de seus olhos. Os objetos podem fazer feliz por um momento, mas logo se percebe que são insuficientes, pois há no homem um anseio mais profundo de felicidade que não está no exterior dele.

    2 – O culto ao corpo esvazia a alma

        Os armários se diferenciam pelo que guardam dentro: objetos de valor ou tranqueiras. Assim também os homens não se esgotam nos aspectos físicos exteriores, e são identificados pelo seu mundo interior (sua alma ou almário): sábio ou ignorante, culto ou inculto, cheio de luzes ou de sombras, coerente ou ilógico, verdadeiro ou equivocado, profundo ou frívolo…

        A preocupação de muitas e de muitos é com o bonito ou feio, e isso os faz gastar tempo excessivo no culto exterior do corpo: a foto que irá publicar nas redes sociais, malhação em academias, medicina estética e alimentação sofisticada, muito esporte, roupas esportivas caras e extravagantes… É preciso cuidar do corpo, da aparência, mas dedicar mais tempo a isso do que à inteligência, à vontade (que nos diferenciam dos animais) e à educação dos afetos (sentimentos, emoções e paixões), empobrece o mundo interior, que sendo mais complexo e rico necessita de mais tempo para ser instruído a fim de oferecer muito mais do que os aspectos corporais exteriores.

    3 – Conhecer-se para interpretar-se

        A capacidade de refletir faz a pessoa tomar distância de si para ver-se como objeto de estudo: “Quem sou e qual o sentido da minha vida?” são perguntas não para se problematizar, mas para evitar viver uma vida desde fora, anódina. O princípio socrático “Conhece-te a ti mesmo”, convida à reflexão dos motivos que nos levam a agir. Esse conhecimento, que é uma apreensão de si, nos leva a saber se estamos no caminho da verdade e do bem, que é a senda para a felicidade. Todo conhecimento é uma conquista, e entender-se a si mesmo permite diagnosticar as possibilidades e limites próprios para estabelecer metas reais, além de corrigir os desvios de conduta. O homem não é feliz se não tiver algo a conquistar, se não possuir um projeto de vida ao serviço dos demais, e para o qual se sente com forças de realizar. Desejar a solidão não é fugir das pessoas ou rechaçá-las, mas encontrá-las de um modo mais profundo e enriquecedor.

        Há em cada pessoa fatores intelectuais, volitivos, afetivos e temperamentais que devem estar integrados e unificados para não se fragmentarem e conflitarem-se. Para isso, é preciso ilustrar-se não apenas com o conhecimento profissional, pois as profissões atuais são excessivamente especializadas e muito pouco integradoras, e só permitem apreciações parciais vida. O rechaço de uma interpretação integradora da pessoa leva ao desprestígio da religião, filosofia e arte diante das ciências experimentais.

        Todo autoconhecimento se dirige à posse de si mesmo. Mas o homem não pode resolver-se sem se conhecer, e sem a ajuda de Deus e do conselho prudente. Para conhecer-se é necessário ser humilde e sincero ao valorar as qualidades pessoais, e saber a ciência certa para determinada tarefa. Conhecer-se para dirigir-se, dominar-se. Ser homem é ser uno, é saber integrar inteligência, vontade e afetos em uma unidade de alma e, para isso, ajuda imprescindível é a leitura das grandes obras literárias, biografias; livros de antropologia e de religião…

    Texto adaptado por Ari Esteves com base nos ensinamentos de Ricardo Yepes e Javier Aranguren, no livro “Fundamentos de Antropologia – Um ideal da excelência humana”, editado pelo Instituto Raimundo Lúlio, São Paulo. Imagem de Cottonbro Studio.

  • Uso da internet por crianças e adolescentes

    Uso da internet por crianças e adolescentes

    1 – O desafio da internet para os pais. 2 – Os valores ou modelos de conduta evitam o mau uso da rede. 3 – Educar para o autodomínio ou temperança. 4 – Educar na liberdade

    1 – O desafio da internet para os pais

        A internet representa um dos avanços mais transformadores dos últimos tempos, seja do ponto de vista econômico, social, científico e cultural. Muitas vantagens e desvantagens decorrem dela. O uso da internet alcançou grande difusão na atualidade, e tenderá a aumentar devido sua utilidade para o estudo, trabalho, informação, mensagens, inclusive a seleção de conteúdo para fugir do monopólio dos grupos de comunicação que impõem muitos programas indesejados, etc. Concebida para ser livre e aberta, a rede varre todo tipo de conteúdo, e poucos estão sob o controle das autoridades, o que favorece informações falsas ou não confiáveis, contato com pessoas não recomendáveis, manipulação de comportamentos, etc.

        Para os pais, a internet se tornou um desafio pelo excesso de informações, imagens, jogos, software, redes sociais, fácil acesso à pornografia, à violência de alguns videogames e outros aplicativos que vêm causando danos sérios às crianças. Pela inexperiência e falta de maturidade humana e moral própria da idade, as crianças estão expostas a influxos negativos de diversos modos na internet, muitas vezes sem que seus pais se deem conta, como bem revelou o estudo “Child internet risk perception”, da International Crime Analysis Association, e o “Your family and cyberspace”, da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, publicado em 22 de junho de 2000.

    2 – Os valores ou modelos de conduta evitam o mau uso da rede

        Educar para o bom uso da rede é ajudar a criança a interiorizar e viver valores ou modelos de conduta que servem de guias e força interior para não se deixar arrastar por desejos e impulsos instintivos. Com explicações adequadas, feitas com carinho e olhando nos olhos da criança, ela compreende que passar horas diante da TV, tabletes ou celulares, vicia e torna a inteligência preguiçosa, fraca para pensar e para ter criatividade e inventar brincadeiras por conta própria, ou para utilizar melhor o tempo com jogos de mesa, quebra-cabeça, lego, leitura de contos, xadrez… A criança habituada desde pequena a viver uma disciplina com diferentes horários (dormir, acordar, brincar, refeições, estudar ou fazer recortes, cumprir tarefas no lar) facilmente opta por jogos e brincadeiras ao ar livre e compreende que as precauções são uma ajuda, pois quem habitua-se a navegar sem rumo pela internet é porque adquiriu o vício da preguiça, com a consequente perda de tempo, dependência, ociosidade, fuga dos deveres, desinteresse pelo que custa esforço (estudar, cumprir encargos no lar, realizar algum projeto…).

        Ao apresentar às crianças de modo atrativo que certas atitudes são valiosas e outras degradantes, elas se entusiasmam pelo comportamento reto e nobre (os contos ou narrativas literárias ajudam a materializar o bem e o mal que podem existir nas ações pessoais). Quando as crianças assumem o comportamento reto, mesmo na ausência dos pais agem bem, porque aprenderam a amar o que é reto e a vontade se tornou a reitora de suas ações, e não os sentimentos e desejos. Educar desse modo ajuda os filhos a construírem uma personalidade rica e segura.

    3 – Educar para o autodomínio ou temperança

        A educação para o autodomínio ou virtude da temperança ordena as inclinações dos sentidos e dá senhorio e força para utilizar bem a internet e as novas tecnologias. A educação da vontade, por meio das virtudes, é crucial para esse bom uso. A vontade se inclina para os motivos ou valores interiorizados pela inteligência. Para isso, cada filho precisa compreender que suas decisões livres deixam marcas na personalidade, e que para construir-se é necessário conhecer o certo e o errado antes de agir; que deve refletir sobre o que quer para sua vida e o que apenas faz parte de um gosto ou desejo momentâneo. Os adolescentes, quando se lhes explica, aprendem a distinguir entre o querer, que é inclinação livre da vontade, e o gostar ou desejar, que é inclinação dos sentidos e instintos para o apetecível, e que por não serem racionais são inclinações que devem ser examinadas pela inteligência antes de serem seguidas: ações más repetidas geram vícios; ações boas repetidas geram virtudes.

        É necessário colocar limites no uso dos aparelhos eletrônicos, tendo regras claras em casa: não usar celulares durante as refeições, pois a família que faz poucas refeições conjuntamente ou que nesses momentos tem pouco diálogo porque assiste televisão ou consulta o celular, caminha para a desunião. Outras regras úteis: deixar a porta aberta quando se está usando a internet, não permitir o uso de telas ao ir dormir, combinar entre todos (inclusive com as crianças) para manter um horário fixo para o uso da TV, não passar informações pessoais pela rede, não contatar desconhecidos e informar os pais se algo estranho ocorre, não abrir arquivos digitais enviados por estranhos… É conveniente que os computadores e os pontos de rede estejam em local de passagem ou bastante frequentado no lar (sala de estar, corredor, etc.), e nunca no quarto das crianças ou dos adultos (que devem dar exemplo). Quando se trata de crianças, é um dever dos pais protegê-las por meio de um sistema de filtros, tal como se instalam filtros para evitar o uso de água contaminada. Há filtros de internet para celulares, tabletes, Youtube, etc. Pedir ajuda a Deus para que os filhos sejam temperados e responsáveis, tendo o exemplo dos pais nesse campo.

    4 – Educar na liberdade

        Os pais devem se tornar amigos dos filhos, harmonizando autoridade, requerida pela própria educação, com amizade, que exige colocar-se no mesmo nível dos filhos. Depois, construir a confiança através do diálogo, tendo presente que qualquer jovem, mesmo os mais rebeldes, desejam sempre essa aproximação e amizade com os pais. O segredo está na confiança, em saber educar num clima de familiaridade, sem nunca dar a impressão de desconfiar dos filhos, mas, ao contrário, dar a eles liberdade e ensinar administrá-la com responsabilidade pessoal. É preferível que os pais se deixem enganar uma vez ou outra, porque a confiança que se deposita em cada filho faz com que este se envergonhe de havê-la traído, e se corrige. Um filho ao qual os pais não lhe dão liberdade, porque desconfiam dele, se sentirá impulsionado a refinar seu modo de enganar. O filho deve encontrar sempre em seus pais um olhar de amor incondicional ao perceber neles a felicidade de o terem como filho.

        Ensinar cada filho a ter moderação no uso da tecnologia requer que o casal tenha uma visão comum sobre como ajudá-lo a viver a temperança. O primeiro passo é que os pais deem exemplo de vida nesse aspecto, pois os filhos reparam nos esforços que ambos fazem para viver a temperança e o autocontrole: diz o ditado que mais do que falar, é preciso fazer. Pai e mãe devem pensar juntos sobre o modo como cada filho emprega as horas do dia, a fim de ajudá-lo a planejar outras opções de lazer: passeio junto com a família é ocasiões para se ter conversas significativas com os filhos, excursões, atividades em casa (jogos de mesa, leitura, xadrez, vídeos programados); divertir-se com o esporte, visitas culturais a exposições e museus. Estimule os filhos a terem amigos reais e não virtuais, e mostre que o uso excessivo da tecnologia dificultará a capacidade de ter empatia com os outros e de criar relações sadias.

        Mesmo com tais medidas, em famílias com mais de um filho pode acontecer que um deles faça mal uso da rede, não sendo educativo que os “justos paguem pelos pecadores”, ao submeter a restrições os filhos que se comportam bem. É preciso enfrentar o problema energicamente se necessário com o filho que age mal, evitando que se crie na família um clima generalizado de desconfiança ou de falta de liberdade. Costuma não ser acertado obrigar todos os filhos a prescindirem por completo da internet, pois seria um fracasso à tarefa educativa de ensinar o uso reto e prudente das novas tecnologias, que já formam parte do mundo atual e são manejadas pelas crianças na escola.

        O que se chama de “conflito de gerações” é muito antigo, pois em todas as épocas se apresentou como coisa natural que jovens e adultos vejam as coisas de modo diferente. O que seria surpreendente é que um adolescente pensasse da mesma maneira que uma pessoa madura. Todos tivemos impulsos de rebeldia para com os mais velhos quando começamos a formar critérios e ter mais autonomia. Porém, com o passar dos anos passamos a compreende que os nossos pais tinham razão e que agiam assim por amor a nós. Por isso, compete em primeiro lugar aos pais — que já passaram por esse transe — facilitar o entendimento ao ter flexibilidade e espírito jovem para evitar possíveis conflitos com um amor mais inteligente.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base em artigos, aulas, palestras. Imagem de Kampus Production.

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  • Lazer criativo

    Lazer criativo

    1 – Trabalho e descanso são inseparáveis. 2 – A importância do lúdico. 3 – O dom do bom-humor. 4 – O descanso familiar. 5 – Modos enriquecedores de descansar. 6 – Evitar certos tipos de descanso.

    1 – Trabalho e descanso são inseparáveis

        Quem trabalha necessita descansar para repor forças. Porém, descansar não é ficar sem fazer nada, mas mudar de atividade. Os clássicos chamam o tempo dedicado ao descanso de ócio, onde os prazeres da apreciação e da contemplação permitem saborear os bens que os avatares do cotidiano escondem. O ócio vai em busca da contemplação do belo. O ser humano sempre aspira à beleza, à bondade e à verdade. O belo e o verdadeiro são encontrados na natureza e nas diferentes manifestações da arte; a bondade é encontrada em Deus e em pessoas (a natureza tem terremotos, tsunamis, cobras venenosas e feras que nos podem matar…).

        Dostoievski disse que a beleza salvará o mundo, mas para os utilitaristas buscar o belo não parece ser útil, pois o importante para eles é a funcionalidade das coisas. Como prova de que a beleza anda de mãos dadas com o bem e a verdade, vale a pena assistir o vídeo “Por que a beleza importa?”, de Roger Scruton, no Youtube, onde o narrador mostra vários edifícios europeus abandonados devido à feiura deles, apesar de terem sido pensados para serem funcionais. O mal não é belo, mas incoerente. A natureza humana necessita do belo, e para contemplar a beleza se carece do ócio bom.

    2 – A importância do lúdico

        Ao ócio hoje se pode chamar de ações lúdicas. Não se trata de um mero “entreter-se brincando” ou “divertir-se, quando não há nada que fazer”, mas algo mais rico: alcançar certa plenitude. As ações lúdicas contêm seu fim nelas mesmas, ou seja, não buscam outro objetivo que elas próprias: cantar, dançar, andar pelos caminhos e apreciar uma paisagem não servem para outras coisas senão para elas mesmas, e são realizadas simplesmente porque agradam. Ou seja, não são funcionais; apenas servem para serem apreciadas. As ações técnicas ou laborais têm em previsão alguma finalidade e estão concatenadas para a produção de um bem ou serviço. Já o esporte, um bom filme ou livro de literatura não fazem parte de uma cadeia produtiva, e por isso a arte é um pouco desprezada, e os artista em geral são pobres, pois as pessoas primeiramente dedicam seu dinheiro às necessidades primárias.

        O lúdico renova porque faz esquecer por momentos os deveres que absorvem, tal como o sono faz desconectar por algum tempo das responsabilidades, e ao distender renova as forças. O homem é feliz enquanto joga. Ao entrar num jogo, numa festa, ao ver um filme, se é “transportado” das preocupações habituais, que são esquecidas por algum momento. Uma partida de damas é uma felicidade e, enquanto se joga, o tempo se detém e se é feliz por estar em casa. O jogo exige certa perspicácia, certo desentranhar de capacidades ocultas que a rotina do dia a dia não cobra. O jogo traz o inesperado, que exige raciocínio rápido e faz com que se supere e se coloque novas destrezas em ação, sem outro fim que o desafio do próprio jogo. As crianças são felizes porque gostam de jogar, e estão sempre brincando (brincar é o trabalho delas, lógico, além de outros afazeres no lar, aos quais cumprem como um jogo a realizar!).

    3 – O dom do bom-humor

        As ações lúdicas estão ligadas ao riso, à alegria, à brincadeira, ao fácil, ao gostoso, ao cômico. Rir é sinal de felicidade. A extraordinária e singular capacidade humana de levar as coisas na brincadeira indica que se ingressou na região do lúdico. Na vida humana nem tudo é seriedade, nem pode sê-lo: é necessário rir. Quem está sempre sério termina sendo ridículo. É preciso saber rir, o que não significa ser debochado, desrespeitoso com a dor ou preocupação dos demais. Quem é permanentemente sério se torna ridículo. Já a brincadeira e a ironia boa relativizam as dores, suavizam a seriedade, aparam as arestas do dia tal como a almofada evita o choque entre dois objetos duros que poderiam se partir, amenizam o esforço do sobreviver cotidiano: rir de um problema, rir do próprio gesto mal-humorado tem um efeito liberador.

        A faina cotidiana – trabalho, estudo, encargos – e o sobreviver diário numa cidade grande podem quebrar aquele que não tem espírito esportivo para rir do ônibus que não parou no ponto, do carro que espirrou água suja em sua calça, da condução apertada, do transpirar ao se deslocar sob o sol (estou perdendo peso, diz o homem de bom humor; fico “p” da vida, diz o iracundo). Há pessoas que têm a extraordinária capacidade de levar as coisas com bom humor, de tirar importância do difícil, árduo, da notícia ruim. Esses não vivem alardeando o que fazem, mesmo quando isso lhes custa esforço. São heroicos, exemplares, e sem que eles mesmos o percebam, atraem as amizades e a confiança dos demais.

        Temos que aprender a rir dos problemas e de nós próprios: olhar no espelho e dizer para si: − Cara, como tu fica feio com o rosto severo, carrancudo! Certa pessoa ao se ver tão mal-humorada, tirou uma foto de sua cara a fim de rir do ridículo em que se encontrava. A felicidade tem caráter festivo, e não se pode viver mais que de modo festivo. Se fosse impossível celebrar festas, o homem não poderia ser plenamente feliz. O homem para ser feliz precisa brincar, descontrair-se. As crianças são mais felizes que os adultos porque brincam, porque não se inquietam com o que acontecerá amanhã: mergulham nos jogos e vivem com intensidade o momento, pois já estão aonde queriam chegar.

    4 – O descanso familiar

        Cada cônjuge tem o dever de se preocupar com o descanso do outro; em encontrar um momento semanal para o casal estar a sós e conversar: jantar fora, dançar, ir ao cinema ou a uma audição musical… E ambos – marido e esposa – devem planejar o descanso das crianças nos fins de semana, a fim de que aproveitem bem o tempo com jogos de inteligência, esporte, passeio no parque. Assim, os filhos não ficarão dependentes e passivos com celulares, tabletes ou TV. É bom que a família saia junta aos domingos ao menos meio período e, uma vez por mês, que passe o dia fora. Os fins de semana, feriados e férias são oportunidades de descansar de forma criativa e de fomentar o diálogo familiar.

        O descanso é um bem necessário, mas quando surge razão maior que o justifique, é preciso desprender-se dele sem fazer guerra ou cara feia. Em numerosas ocasiões um pai terá que jogar bola com o filho e prescindir de sua corrida; outras vezes terá que visitar um parente enfermo. Cristo ia descansar sentado na beira do poço, quando chegou a samaritana, uma alma que estava necessitada dEle, e então deixou o descanso, a fome e a sede para fazer aquela mulher recuperar os dons divinos.

    5 – Modos enriquecedores de descansar

        Para descansar não é preciso recorrer a meios extraordinários, mas mudar de atividade e agir com simplicidade. Gabriel Celaya, poeta, escreveu: “Quando o amigo chega, a casa está vazia, mas minha amada tira presunto, anchovas, queijo, azeitonas, duas garrafas de branco, e eu assisto ao milagre – sei que tudo é fiado –, e não quero pensar se poderemos pagá-lo. E quando bebemos e conversamos, e o amigo é feliz, crê que somos felizes, e o somos talvez burlando assim a morte: o que transcende não é a felicidade?”.

        Descansa-se com jogos de sala em família, em passeio pelo campo ou parque, em visitas a museus ou exposições artísticas, pois enriquecem a sensibilidade. O descanso é também um período para cuidar da formação intelectual através da literatura e de filmes com bons roteiros. A arte – um bom romance, por exemplo – tem o dom de nos transportar para dentro de nós, o que não é pouca coisa numa sociedade que busca o barulho e o fugir do silêncio para não se enfrentar com a própria consciência. Ao adentrarmo-nos em nós mesmos, nessa viagem passamos a nos conhecer melhor: “Sem a arte narrativa –e aí se enquadra o cinema– o ser humano teria que contar tão só com suas próprias experiências, o que significa que se veria obrigado a aprender tudo desde o princípio. Sem conhecer a Odisseia, o homem não saberia nada da fidelidade de Penélope; sem Shakespeare ignoraria as dúvidas de Hamlet, o amor de Romeu por Julieta. Sem Dom Quixote, teríamos que descobrir por conta própria a diferença entre ver o mundo como é e vê-lo como deveria ser” (Krzysztof Zanussi, filósofo e cineasta polonês).

        O descanso pode ser incluído nos aspectos positivos do 5º Mandamento: cuidar da saúde (o aspecto negativo ou de não fazer é não matar nem se matar). Na Sagrada Escritura, livro Gênesis, está escrito que Javé viu que tudo o que tinha feito era bom, e que descansou no sétimo dia. Tais palavras revelam que o descanso forma parte dos desígnios divinos. O livro Êxodo, também do Antigo Testamento, diz: “Seis dias trabalhas e farás as suas obras, mas o sétimo dia é de descanso, pois em seis dias fez Javé os céus e a terra, e o mar e quanto neles se contêm, e no sétimo dia descansou”. O descanso está intimamente unido ao culto divino, à contemplação de Deus e de suas obras e ao nosso aperfeiçoamento sobrenatural e humano.

        Aos domingos a alma necessita prestar culto a Deus, indo à Missa ou ao culto, e se abster de trabalhar ou de qualquer atividade que impeça esse culto. No Antigo Testamento há uma passagem onde um dos líderes do povo judeu pede a todos, depois do culto, que vão para casa e tomem cidra e doces manjares. O descanso da mente e do corpo é algo devido à natureza humana para o desenvolvimento de uma vida sadia.

    6 – Evitar certos tipos de descanso

        Hoje, por falta de valores verdadeiros sobre a vida do homem, muitos têm como meta buscar uma vida fácil e divertida – a boa vida –, e colocam o lazer como finalidade, e não como um momento para mudar de ocupação e represar forças para melhor servir aos demais nos afazeres habituais. Hedonista, a atual sociedade busca o prazer e está disposta a pagar o que for por ele, pois a diversão para muita gente se converteu em meta da existência, e o trabalho é apenas uma cruz suportável para fazer frente às despesas com os divertimentos. Há verdadeiros alardes de luxo em equipamentos esportivos de alto custo, hobbies dispendiosos, locais de descanso frívolos e caros… Essa ostentação e destempero revelam como muitos desaprenderam a se divertir. Por falta criatividade ou de imaginação, o descano para outros se reduz em largar-se durante horas e horas diante de uma tela de 40 polegadas, com muita cerveja e pizzas, e ali morgar todo um fim de semana.

        O ambiente das praias deteriorou-se porque se perdeu o sentido do íntimo, do pudor, e houve um acomodamento social nesse sentido. As festas de formaturas ou acadêmicas são ocasiões de excesso de álcool, drogas, sexo, gastos desnecessários… Se requer muita prudência e fortaleza para evitar que uma filha ou filho vá com os colegas passar as férias escolares em resorts, pois é sabido que nas madrugadas de muitos desses locais há o trânsito de jovens de um quarto a outro. Os pais têm medo de dizer “não” a esse tipo de divertimento, pois temem enfrentar a resistência dos filhos, mas depois se arrependem disso. Para descansar não é necessário assistir o triste espetáculo de filmes, novelas ou programas de TV que arrepiam e envilecem a alma ao explorar a intimidade ou misérias alheias. Nas baladas de hoje o som é alto e impede o diálogo, mas parece que isso não importa, pois já não há o que dizer por falta de leitura e da experiência pessoal da contemplação.

        Urge dar testemunho de sobriedade e espírito de desprendimento no modo de descansar. A virtude está em não se sentir pressionado a fazer viagens caras, em frequentar locais badalados e de alto custo… Quem não se deixa levar por modismos dá exemplo de temperança e sobriedade, virtudes que carece a sociedade atual.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base nos ensinamentos de Ricardo Yepes e Javier Aranguren, no livro “Fundamentos de Antropologia – Um ideal da excelência humana”, cap 8: “A felicidade e o sentido da vida”, editado pelo Instituto Raimundo Lúlio, São Paulo. Imagem de Kampus Production.

  • Formar os jovens na castidade

    Formar os jovens na castidade

    1 – A educação da sexualidade e a cultura atual 2 – A importância da educação da sensibilidade 3 – Colaborar com os pais na educação afetivo-sexual dos filhos 4 – Aspectos importantes para a formação dos filhos na castidade 5 – Abordar com os filhos a temática afetivo-sexual o quanto antes

    1 – A educação da sexualidade e a cultura atual

        Desde a juventude é importante compreender o verdadeiro significado da sexualidade humana, que está profundamente ligada ao amor verdadeiro e a um harmonioso projeto de vida que vale a pena ser vivido. Cabe aos pais, no ambiente familiar, ajudar os filhos nessa compreensão, desde quando são pequenos, com informações adaptadas à idade de cada um. Quando ainda crianças, deve-se reforçar a proteção e criar espaços seguros visando uma formação preventiva. Na adolescência e juventude, é necessário penetrar paulatinamente na temática, tendo em conta os diferentes âmbitos onde se desenvolve a vida deles, e as informações que já possuem (o melhor é antecipar-se gradativamente nessas informações). Os pais, em colaboração com outros educadores, precisam estar pendentes das amizades, escola, hobbies, esporte, diversões que praticam e ambiente social que frequentam, pois influenciam fortemente na formação moral dos jovens.

        Há na cultura atual alguns aspectos positivos que colaboram na tarefa de educar na castidade: o reconhecimento da igual dignidade do homem e da mulher, maior sensibilidade sobre o protagonismo educativo por parte dos pais, consciência crescente de proteger os menores de idade e de lutar contra todo abuso sexual.

        Porém, como manifestação negativa, há na atualidade o fácil acesso à pornografia, a separação da sexualidade da verdadeira antropologia humana e sua desvinculação do casamento, a despersonalização dos atos sexuais, a introdução de temas como o da homossexualidade e o da ideologia de gênero. Em alguns lugares obrigou-se as escolas a tratarem da educação sexual de modo confuso e deformante para a consciência, e como tentativa de substituir os pais nessa tarefa. Soma-se a isso, que algumas famílias não compreendem ainda a importância e alcance do problema, e como o ambiente influencia desfavoravelmente seus filhos; outras, não têm interesse em ajudar os filhos a viver a sexualidade de forma humana. Porém, grande parte dos pais deseja educar bem os filhos nesse aspecto, mas não sabe como proceder, ou não possui informações sobre o tema. Tais contextos desinformativos conduzem os jovens a experiências afetivo-sexuais que os afetam danosa e profundamente.

    2 – A importância da educação da sensibilidade

        A formação na castidade exige prevenir, chegar o quanto antes, e saber abordar os temas com profundidade. A castidade está diretamente relacionada com o projeto de Deus para a criatura humana, sendo afirmação do amor e caminho de felicidade. A formação dos jovens em virtudes como a temperança, generosidade, pudor, laboriosidade, entre outras, incide diretamente na castidade, porque forjam uma personalidade equilibrada, madura e autenticamente humana.

        A sexualidade abarca a pessoa em sua unidade de corpo (sentimentos, emoções, paixões), alma (inteligência e vontade) e espírito (a consciência do eu), e nisso se encontra a sua perfeição moral. A educação da sensibilidade, dentro de uma correta visão antropológica, potencializa a capacidade de desfrutar dos verdadeiros bens e facilita a criação de um projeto de vida pelo qual vale a pena dedicar-se, porque põe-se ao serviço dos demais as qualidades e talentos pessoais, e isso libera do egoísmo que é fonte de tristezas. Dentro da perspectiva desse projeto, a educação da sexualidade não é o principal tema, pois há muitos outros que vêm antes dele: família, estudo, profissão, amizades, conhecimento das capacidades ou aptidões pessoais para melhor servir… Quando os jovens se abrem a perspectivas profissionais, culturais, de amizades, esportivas, espirituais e sociais (incluindo obras de ajuda e solidariedade para com os que sofrem), a esfera afetivo-sexual se vê enquadrada como apenas um dos pontos a se ter em conta, mas longe de ser a mais importante, a fim de não criar obsessões ou moralismos ineficazes.

    3 – Colaborar com os pais na educação afetivo-sexual dos filhos

        Os pais são os primeiros e principais educadores da ordem afetivo-sexual de seus filhos, porque ao doarem e acolherem a vida deles em clima de amor e dedicação, ganham uma autoridade e confiança únicas que ninguém pode sucedê-los. Qualquer outro educador é secundário em relação aos pais, e nunca poderá substituí-los no papel que lhes cabe, mas poderá ajudar, apoiar, facilitar os conhecimentos necessários para uma boa educação, já que muitos pais carecem de formação e necessitam que os auxiliem a prepararem-se a fim de educar com competência. Para isso, além de muitas outras iniciativas, pode-se promover ou indicar lives, cursos e palestras sobre orientação e reforço familiar, educação comportamental dos filhos, recomendar bons livros e sites sobre esses temas… Importante também é ajudar os pais a terem informações seguras sobre as novidades tecnológicas que os adolescente e jovens têm acesso, programas que assistem nas diferentes mídias, games, influência de movimentos artísticos, modismos, informações sobre festas ou baladas…

        A tecnologia digital pode ser bem ou mal utilizada. O mau uso dela vem afetando a capacidade dos jovens para compreender, viver e crescer na castidade. Ao que diz respeito à sexualidade, o modo como os jovens utilizam a tecnologia requer prudência e cuidado por parte dos pais, pois a pornografia e sua capacidade viciante ou de adição, com o consequente dano humano e espiritual que produz, está facilmente disponível.

        Os pais devem ajudar − e podem ser ajudados − a formar os filhos no autocontrole, maturidade e responsabilidade necessárias para utilizar bem a tecnologia digital. Toda tarefa educativa requer o bom exemplo dos pais e um plano para orientar o comportamento e o desenvolvimento de bons hábitos nas crianças e adolescentes, a fim de ir proporcionando mais liberdade à medida que cresçam em idade e maturidade, com a explicação cada vez mais profundada dos princípios e valores que os filhos devem interiorizar para orientar-se em suas eleições pessoais.

    4 – Aspectos importantes para a formação dos filhos na castidade

        O acesso das crianças aos temas de sexualidade é cada vez mais precoce, o que exige dos pais não uma atitude passiva, mas de protagonismo, de antecipação. Isso começa pelo diálogo pessoal entre pais e filhos, por meio de uma formação individual adaptada à idade de cada filho, o quanto antes e dentro do ambiente familiar. Os pais devem falar pessoalmente com cada filho (o pai com o filho, a mãe com a filha) sobre a sexualidade dentro dos planos de Deus para cada pessoa. Seguem alguns aspectos para formar os filhos na castidade:

    1. Toda criança é pessoa única e irrepetível e deve receber uma formação individualizada. Os pais, por conhecerem, compreenderem e amarem cada afilho em sua irrepetibilidade, estão na melhor posição para decidir o momento oportuno de dar as diferentes informações, de acordo com o crescimento físico e mental de cada filho.
    2. A dimensão moral, que sempre deve formar parte dessas explicações, é o cultivo da liberdade através de propostas, motivações, aplicações práticas, estímulos, prêmios, exemplos, modelos, símbolos, exortações, revisões do modo de atuar e diálogos que ajudem a desenvolver princípios interiores estáveis que movem a agir em direção ao bem.
    3. A educação sexual se oferece por meio de informação, mas não se pode esquecer que crianças e adolescentes não alcançaram a maturidade plena, e a informação deve chegar de modo adequado e no momento apropriado a cada etapa de vida deles.
    4. Educar para a castidade, e as oportunas informações sobre a sexualidade, devem ser oferecidas no contexto da educação para o amor.

    5 – Abordar com os filhos a temática afetivo-sexual o quanto antes

        Na educação para a castidade convém estudar o modo de dá-la e quem poderá ajudar melhor nessa formação, tendo em vista cada etapa da vida do educando. Uma importante leitura é a do documento “Sexualidade humana: verdade e significado”, pontos 77 a 108, do Pontifício Conselho para a Família, que aborda como atuar nas principais fases do desenvolvimento das crianças: anos da inocência, puberdade, adolescência e projeto de vida para os jovens.

        Muitos pais afirmam que a difusão de mensagens, imagens e costumes que não correspondem ao verdadeiro significado da sexualidade, tornam importante abordar este tema quando os filhos ainda são pequenos, e em conversas regulares e adequadas a cada idade: é melhor um ano antes que cinco minutos depois! Dentro de um contexto de confiança, se pode conversar pouco a pouco sobre a sexualidade, e assim evita-se o risco de que outras pessoas ou fontes, talvez não bem orientadas, sejam as que lhes introduzam e ensinem esses temas. Para isso, sugerimos também a leitura do boletim “Filhos: informação sexual”, que aborda como tratar do tema nas diferentes idades: https://staging.ariesteves.com.br/2021/10/filhos-informacao-sexual/

        Texto adaptado por Ari Esteves com base nos seguintes documentos: Amoris laetitia; Sexualidade humana: verdade e significado, do Pontifício Conselho para a Família; Familiaris consortio; Homem e mulher os criou. Para uma via de diálogo sobre a questão do gender na educação, da Congregação para a Educação Católica.

  • Castidade: virtude do coração que sabe amar

    Castidade: virtude do coração que sabe amar

    1 – A castidade é uma afirmação do amor. 2 – As virtudes educam os afetos. 3 – A inclinação dos afetos deve harmonizar-se ao bem integral da pessoa. 4 – Meios para viver a castidade.

    1 – A castidade é uma afirmação do amor

        “Eu quis amar, mas tive medo. E quis salvar o meu coração”, diz a canção de Tom Jobim. Muitos têm medo de amar verdadeiramente, porque amar exige entregar-se à pessoa amada com um coração que não busca outras compensações.

        Uma das virtudes do coração que sabe amar é a castidade ou pureza de coração. Diante de tantas situações que pervertem o coração, compreende-se com clareza cada vez maior que essa virtude é uma afirmação do amor, que ao negar-se ou dizer não a atitudes ou atos que lhe são contrários, afirma o amor verdadeiro, que é indiviso.

        A pessoa casta é capaz de se conectar afetivamente e desfrutar de tudo o que é belo, nobre, genuinamente alegre. O seu olhar não é egoísta, dirigido a tomar posse do outro, mas contemplativo e agradecido ao não permitir que a relação que o une a cada pessoa ou coisa seja despersonalizada pelo mero desejo de possuir. Quem não é casto tem um olhar baixo, incapaz de desfrutar das pequenas coisas da vida e das relações de pura amizade e fragmenta seu coração, deixando-o sem rumo e embrutecido para tudo que é nobre e delicado, que lhe parecerá insípido porque necessita de emoções fortes para reagir ou experimentar algo agradável.

        Quem vive a castidade como afirmação do amor não precisa de um esforço extraordinário da vontade para rejeitar um impulso sexual desordenado, como o de buscar sites pornográficos ou imagens sensuais, pois seu mundo interior é tecido de realidades valiosas e de relações verdadeiras que o fazem opor-se a este impulso. Durante o período de namoro, a pessoa casta sabe que este é um tempo que deve durar no máximo dois anos ou dois anos e meio, o suficiente para conhecer a personalidade da outra pessoa, seu caráter, virtudes e defeitos, a fim de avaliar se estará apta para viver um projeto de vida comum e para sempre, aberto aos filhos para intensificar a confiança e o amor mútuo do casal. Antecipar os atos próprios da vida conjugal durante o namoro é desvalorizar o que se tem de mais íntimo, além de adulterar e despersonalizar a relação de amor.

        A virtude não é uma espécie de suplemento de força para a vontade resistir e respeitar as normas morais; não é a capacidade de ignorar a afetividade ao opor-se sistematicamente ao que sente como desordenado. Evidentemente tem presente que na formação da virtude é necessário alguma vez dizer não à inclinação afetiva, mas sabe que o objetivo da castidade não é esse não, mas um sim ou afirmação à realização do amor pleno.

    2 – As virtudes educam os afetos

        Mais do que a capacidade de opor-se a uma inclinação desordenada, a virtude constitui a formação ou educação da própria inclinação para que a pessoa desfrute do bem verdadeiro ao permitir que cresça nela uma conaturalidade afetiva ou espécie de cumplicidade para com o bem, sempre querido pela vontade e desejado pelos sentimentos. É precisamente neste sentido que a temperança ordena a tendência natural ao prazer. Se o prazer fosse mau, ordená-lo significaria anulá-lo. O prazer é bom e a natureza humana tende a ele. Porém, pode não ser bom em todos os casos, sendo necessário ordenar a inclinação ao prazer para convertê-lo em aliado do bem. Quem não consegue essa ordenação dentro de si terá um inimigo que poderá destruí-lo da mesma forma que a água, sendo boa para matar a sede, pode provocar enchentes incontroláveis e destruidoras.

    3 – A inclinação dos afetos deve harmonizar-se ao bem integral da pessoa

        Ordenar a tendência ao prazer não é fazer desaparecer essa inclinação, ignorá-la ou reprimi-la, mas integrá-la ao bem ao dar unidade aos desejos de modo que se harmonizem progressivamente com o bem integral da pessoa: corpo, alma e espírito. As tendências humanas são atraídas pelo prazer que causam; são modos de perceber o bem e de apresentá-lo como algo conveniente e que satisfaz. No entanto, isso pode não ocorrer: um doce pode atrair por ser agradável ao paladar, mas não será conveniente comê-lo se a pessoa for diabética. Cada tendência tem o seu único ponto de vista, e avalia a realidade apenas por essa perspectiva. Já a razão ou inteligência é a única faculdade que pode integrar todos os pontos de vista: no caso do doce, a inteligência não ficará apenas no que é agradável ao paladar, mas terá a saúde corporal como um bem maior e o julgará inconveniente para o diabético.

        Ao se permitir que uma tendência se imponha à razão, esta fica confundida e a afetividade passará a dirigir a pessoa. Daí a importância da virtude da temperança, que orienta as tendências para que sejam apoio e não obstáculos ao juízo da razão. A gula, por exemplo, revela que não se compreendeu o significado da necessidade de comer, que não se assimilou que o prazer de comer deve contribuir para o bem integral da pessoa, e não para a sua destruição porque essa tendência passou a buscar apenas o seu bem, e não o de toda a pessoa. O mesmo ocorre com o prazer sensual, que não pode ser um fim buscado em si e fora do contexto do amor verdadeiro, que é dentro do matrimônio, a fim de não perverter essa inclinação, que deve estar integrada ao conjunto da pessoa – corpo, alma e espírito –, ao reafirmar o amor entre os que se amam verdadeiramente e para sempre. A relação sexual humana não é puramente física, mas afeta o espírito.

        Quando Jesus Cristo diz “Felizes os limpos de coração porque verão a Deus” (Mt 5, 8), indica que os que têm o coração obcecado por paixões não conseguem ver além da sua obsessão. A virtude entendida como a criação de um mundo interior belo e equilibrado, faz desfrutar com a realização do bem. A castidade não deve ser vista como um negar-se aos atos desordenados que atraem aos instintos, mas como a criação de um mundo interior pleno de realidades valiosas, sobrenaturais e humanas, como é o amor, seja a Deus, à pessoa com quem se tem o coração comprometido, e às demais pessoas que esperam o nosso amor verdadeiro. Essa virtude cresce não só quando é necessário vencer uma inclinação torcida da sexualidade, mas quando se reafirma o amor.

    4 – Meios para viver a castidade

        O coração que sabe amar conjuga harmoniosamente todas as virtudes, vibra com coisas valiosas e não com coisas insubstanciais, e sabe dar a vida por algo maior do que ele, e não se deixa dominar pelo efêmero e superficial. Quem ama deve crescer em diferentes virtudes para que seus desejos, interesses e aspirações sejam capazes de perceber o verdadeiro valor das coisas.

        Como criar um mundo interior limpo, casto? Em primeiro lugar ao evitar tudo o que possa perturbar o coração, como guardar a vista e a imaginação para que não turvem a alma; ao colocar freios à curiosidade; ao evitar o ócio e o navegar sem objetivo nas redes sociais: quem se deixa levar por qualquer vento aportará em lugar que não deveria ter chegado.

        Convém também crescer em fortaleza, porque essa virtude faz manter o rumo em meio às ondas das inclinações torcidas. A constância − virtude anexa à fortaleza − no trabalho e no cumprimento dos deveres diários fortalece o coração. A sinceridade conosco próprios e com Deus sobre o que nos acontece por dentro oxigena o coração e o impede de se intoxicar com afetos desordenados.

        Um meio indispensável para não deixar o coração viciar-se na impureza ou na busca do prazer sensual é pedir ajuda a Deus, pois necessitamos contar com a força dEle, já que somos fracos. As boas amizades ou relações humanas nobres e o aproveitamento do tempo cumprem também o papel de ajudar a viver a castidade, enquanto o isolar-se ou fechar-se em si é fonte de quedas. A solidariedade ou a dedicação e ajuda aos demais mantém o coração saudável, pois retira-o do egoísmo.

        Os interesses culturais de valor, especialmente a boa literatura, cinema, música, etc., aumentam a sensibilidade estética, e a beleza anda de mãos dadas com o bem e a verdade. Quem habitua-se unicamente a ver filmes violentos e de alta intensidade, leituras insubstanciais e planos de lazer cada vez mais exagerados, afeiçoa-se em viver apenas de emoções fortes, e necessita de um esforço cada vez maior para dominar suas emoções na esfera sexual e, caso o consiga, terá esse domínio como repressão ou negação, e não como um bem a ser buscado. É muito mais rico e eficaz criar um clima interior limpo, luminoso e afirmativo, porque o coração humano foi feito para desfrutar da beleza de Deus, já nesta vida e depois por toda a eternidade, e das coisas boas que Ele criou e pôs à disposição dos homens aqui nesta terra.

    Texto adaptado e acrescentado por Ari Esteves, com base no artigo “Muito humanos, muito divinos (n.13): com todo o coração”, de Julio Diéguez, em www.opusdei.org/pt-br/. Imagem de Hasel Photos.

  • Fortalecer a vontade da criança

    Fortalecer a vontade da criança

    1 – Cada criança deve ganhar o hábito de cumprir suas tarefas. 2 – Motivar a criança para realizar tarefas que não gosta. 3 – Inimigos da força de vontade das crianças.

    1 – Cada criança deve ganhar o hábito de cumprir suas tarefas

        Fazer com que a criança saiba controlar seus sentimentos e não se deixe levar apenas pelo prazenteiro, mas tenha capacidade de enfrentar e concluir acabadamente o que lhe cabe, não é tarefa fácil. Mas isso é possível se os pais o quanto antes ajudá-la a ganhar força por meio de pequenos hábitos diários. A partir de um ano e meio até aos seis ou sete anos, a criança pode crescer muito na disposição de enfrentar suas pequenas responsabilidades, tais como levar ao cesto de lixo a fralda suja, já com um ano e oito meses, como já demonstra uma mãe em vídeo na internet. Até aos seis anos a criança pode incumbir-se de tarefas como manter arrumados seus brinquedos, colocar a roupa limpa na gaveta e a suja no cesto de lavar, levar o lixo para fora, regar as plantas, pôr a mesa para as refeições, colocar a comida do pet, enxugar o box após banhar-se, entre outras. Essas tarefas fortalecem a disposição da criança e a faz crescer em espírito de serviço e de resiliência. Ao tornar-se disciplinada nos horários de acordar e dormir, brincar, lavar-se e fazer as refeições, a criança também ganha força e disposição para enfrentar as tarefas escolares, dedicar-se a jogos de inteligência, leituras, saberá conviver com outras crianças e não se isolar em telas de celulares ou tabletes, que é deixar-se levar pelo mais cômodo.

        A inteligência, com sua capacidade de fazer juízos, e a vontade, que é a capacidade de conduzir-se pelo livre arbítrio ou querer livre, são qualidades próprias da natureza humana que começam a ser desenvolvidas a partir dos seis ou sete anos. Antes disso, as crianças não sabem ajuizar suas ações, nem possuem um querer racional, livre. Ao não ter a capacidade de ajuizar suas ações, elas facilmente são arrastadas pelo gosto e podem passar horas e horas diante da televisão ou celulares, abrir a geladeira a qualquer hora ou deixar tudo bagunçado. Se os pais não as orientarem e exigirem delas, adquirirão vícios difíceis de desarraigar e terão uma vontade fraca já aos seis anos.

    2 – Motivar a criança para realizar tarefas que não gosta

        As crianças podem controlar seus impulsos e desejos desde muito cedo, quando orientadas a agir assim. Aprendem não apenas a realizar o que gostam, que é sempre ir ao mais fácil e agradável, mas a cumprir as pequenas tarefas que são atribuídas a elas, mesmo que não sejam do seu maior gosto. Para isso, necessitam ganhar bons hábitos que as fazem perder o medo de se esforçarem.

        Quando a criança manifesta falta de gosto para realizar alguma tarefa, é preciso motivá-la com carinho e firmeza para que o faça, mesmo que ela não sinta prazer nisso. Pode-se pedir a ela que o faça para agradar aos pais – isso a tornará feliz −, e explicar que manter a casa em ordem é tarefa de todos, inclusive dela; também se pode dizer que ao realizar seus encargos ela crescerá em fortaleza e ganhará o hábito da ordem… Os pais podem dizer que também diariamente cumprem encargos que não são tão agradáveis, mas necessários: levantar-se de madrugada para atender o bebê e lavar a fralda dele cheia de cocô, acordar cedo e ir para o trabalho quando faz frio ou chove, arrumar a casa todos os dias, no trabalho profissional também devem realizar tarefas nem sempre agradáveis, etc…

        Para motivar as crianças a cumprirem seus deveres, outro caminho é fazê-las compreender a importância de valores como o da fortaleza, veracidade, solidariedade, espírito de serviço, ordem… Para educar em valores, que são conceitos não palpáveis, os pais podem se valer dos contos e fábulas infantis, que oferecem às crianças conceitos concretos ao materializar em personagens os vícios como o da preguiça na cigarra ou no Pinóquio, o egoísmo de um velho avaro, a gula de uma menina, entre outros; ou de virtudes como a laboriosidade da formiga, o espírito de equipe dos castores e de serviço das abelhas, a fortaleza de um guerreiro…

    3 – Inimigos da força de vontade das crianças

        Exigir que as crianças controlem seus gostos e instintos custa esforço aos pais e professores. Porém, a perseverança em exigir delas com carinho e firmeza as fará crescer em força de vontade para cumprir o que deve ser feito, e quando ganharem as virtudes correspondentes pela repetição das boas ações, passarão a agir com alegria. Essa vitória não se consegue do dia para a noite, mas com paciência e ao encarar o desafio com o mesmo espírito com que um esportista busca melhorar seus índices: nunca desiste e torna a começar e a recomeçar a cada dia.

        Famílias que poupam os filhos de se esforçarem, porque imaginam para eles uma vida melhor, com menos exigências e mais conforto, acabam superprotegendo-os e enfraquecendo neles a resiliência ou a capacidade de superar as dificuldades que qualquer projeto que vale a pena exige, além de os tornarem fracos de caráter e dependentes de que outras pessoas resolvam seus problemas.

        Para ajudar a criança a ter as rédeas de seus sentimentos e paixões é preciso que ela desenvolva bons hábitos e compreenda o que faz e porque faz, mas sem grandes discursos e através do exemplo e do incentivo para viver os valores que a família julga importantes no seu dia a dia. Deve ser reconhecido o esforço da criança quando terminou o dever escolar e os encargos do lar antes de sair para brincar, de ter reconhecida sua fortaleza ao não se queixar de um desconforto, por não ter dado show no supermercado ao se lhe negar o doce que desejava, porque deixou no lugar a roupa e o material escolar, por viver de modo resoluto a disciplina ou os horários da família, por ter sido solidária com os irmãos ou amigos que precisavam de ajuda escolar…

    Texto produzido por Ari Esteves. Imagem de Ksenla Chernaya.

  • Amar é querer o bem do outro, enquanto outro

    Amar é querer o bem do outro, enquanto outro

    1 – Amar não é realização egocêntrica. 2 – Os três elementos do amor. 3 – Amar é querer. 4 – Amar é querer o bem. 5 – Querer o bem do outro, enquanto outro.

    1 – Amar não é realização egocêntrica

        “Enganar-se a respeito do amor é a perda mais terrível; é um dano eterno, para o qual não há compensação nem no tempo nem na eternidade!”, são palavras de Kierkegaard, escritas há mais de um século e meio, que continuam atuais. Já não sabemos o que significa amar e reduzimos essa palavra a um simples estímulo para o prazer, consumo de bens ou a autorrealização egocêntrica, espécie de “egoísmo a dois”. O amor consiste, embora não exclusivamente, num ato da vontade, firme e estável, que imprime uma fecunda tensão à pessoa inteira e permite descobrir e realizar o bem do ser amado.

        Aristóteles disse que amar é “querer o bem do outro enquanto outro”. Por vezes, os pais dão às crianças um tablete ou celular, ainda quando são pequenas, não pensando no bem dos filhos, mas no sossego que terão, apesar de viciarem as crianças com o excesso de estímulos visuais, que as tornam passivas, sem iniciativas, preguiçosas e com perda da percepção da realidade.

    2 – Os três elementos do amor

        Segundo Aristóteles, são três os elementos que compõem a realidade do amor: a) querer; b) o bem; c) do outro enquanto outro. Fica claro para o filósofo que a coluna vertebral da ação amorosa está na vontade, no querer próprio do livre-arbítrio. Mas o amor não se esgota nisso, pois em sentido profundo é a pessoa toda que ama, desde os atos mais transcendentes, como a oração e o sacrifício pelo ser amado, como pelo conjunto progressivo do que virá a ser a vida conjugal e familiar, que passa pelos sentimentos e afetos que exteriorizam o carinho, até as questões aparentemente mais ínfimas, como o empenho de cada cônjuge por se mostrar elegante e atrativo ao outro; o esforço por sorrir e ser amável; a carícia ou o olhar de carinhoso, mesmo nos momentos de cansaço, nervosismo ou de desalento; ou ainda nos pequenos detalhes que tornam mais saborosos e entranháveis o retorno ao lar após um dia trabalho. Nesses pequenos detalhes se manifesta o amor que ilumina a vida cotidiana.

        Amamos com tudo o que somos, sentimos e fazemos. Neste sentido, amar consiste em derramar o próprio ser por inteiro na promoção do ente querido. Mas a amplitude do amor é vasta e infinita suas ações, que vai desde a palavra ou o silêncio compreensivo, o trabalho intenso, a generosa disponibilidade para os filhos e amigos quando se anda escassos de tempo, o cuidado com a aparência própria e da casa onde se vive. São minúcias imperceptíveis e indispensáveis que se transformam em amor pleno, sincero e provado, e realizadas pela vontade ou um querer que busca de maneira nobre, franca e resoluta o bem da pessoa a quem se estima. O grau de amor que se coloca em cada afazer é que dará o maior ou menor valor às ações.

    3 – Amar é querer

        Amar é querer, sendo esse querer um ato da vontade e não dos sentimentos. Por isso, o amor não se esgota nas disjuntivas do “gosto” ou “não gosto”, “agrada-me” ou “desagrada-me”; nem se identifica com o puro e simples “atrai-me”, “interessa-me”, “apaixona-me” com que tantos − jovens e não tão jovens − justificam o seu comportamento. Essa simples atração dos sentimentos também a possuem os animais, sendo que o próprio do homem é o querer do livre-arbítrio. Os animais se movem por atração-repulsão instintiva, e buscam o seu bem estreito e exclusivo de uma maneira automática. Gostam daquilo que os beneficia a eles ou à sua espécie, e rejeitam aquilo que lhes é danoso. Tomás de Aquino descrevia assim essa realidade: “mais do que mover-se [os animais], são movidos” pelo objeto externo que os atrai ou repele; mais do que agir por iniciativa própria, são “levados a agir”.

        O homem transcende as simples necessidades biológicas, sendo capaz de realizar ações que não se explicam de maneira nenhuma pelo mero impulso da sua conservação física: pode pôr entre parênteses os seus instintos ou tendências físicas ou apetitivas, e querer realizar uma ação boa em si mesma por mais que ela não o atraia pessoalmente, por mais que não lhe agrade nem desperte o seu interesse e até desagrade e repugne; ou, em sentido contrário, pode não querer uma ação, nem levá-la a cabo mesmo que esteja “morrendo” de desejo de realizá-la, ao perceber que esse ato não contribui para o bem dos outros.

        Uma das realidades que manifesta de maneira mais clara a superioridade do homem sobre o animal – e que o distancia deste, segundo Pascal – é que, deixando de lado os seus gostos e apetites, quando as circunstâncias o exigem, o ser humano é capaz de conjugar em primeira pessoa o eu quero ou, se for o caso, o eu não quero, dotado às vezes de muito maior importância antropológica e ética. É o que diz também Julián Marías: “Quando nego que o amor seja um sentimento – identificá-los parece-me um grave erro, e talvez o mais difundido –, não nego a enorme importância que têm os sentimentos, incluídos os amorosos, que acompanham o amor e formam como que o séquito da sua realidade central; esta, porém, pertence a níveis mais profundos da pessoa: os da vontade (La educación sentimental, Alianza Editorial, Madrid, 1992, pág. 26).

        Josemaria Escrivá comentou amplamente essa realidade. Num dos seus textos mais significativos, depois de deixar claro que o amor “não se confunde com uma atitude sentimental”, pergunta-se diretamente em que consiste o amor humano. E responde: “A Sagrada Escritura fala-nos de dilectio – dileção –, para que se compreenda bem que não se refere apenas ao afeto sensível. Exprime antes uma determinação firme da vontade. Dilectio deriva de electio, escolha. Eu acrescentaria que amar, em linguagem cristã, significa querer querer…” (em Amigos de Deus, Quadrante, São Paulo).

        Portanto, distinguem-se três degraus para alcançar a substância mais pura do amor: negar que se trata de um simples sentimento, de um afeto sensível, embora não se deva excluir essa presença, se houver; depois, ressaltar o caráter ativo que qualifica o amor como determinação firme da vontade; por fim, potenciar a índole ativa por meio da “maior prerrogativa do ser humano do ponto de vista operativo”: a reflexividade da vontade, capaz de libertar energias volitivas quase que infinitas.

        É pela vontade, pelo querer, que se superam os meros desejos, paixões ou afetos, e por onde o homem ultrapassa infinitamente o animal. Amar é um ato refinadamente humano, talvez o mais humano de todos. É um ato livre, portanto inteligente, sapientíssimo, decidido, audaz e vibrante, fonte de iniciativas criadoras, e por isso libertador e surpreendente, e por vezes esmagador e custoso, mas sempre desprendido, generoso, altruísta, liberal… Agostinho, Bispo de Hipona, disse “Naquele que se ama, ou não se sente a dificuldade ou se ama a mesma dificuldade (De bono viduitatis,21,26)

    4 – Amar é querer o bem

        O segundo elemento que define o amor é “querer o bem”, e ninguém duvida de que uma mãe ou um pai de família normais queiram o melhor para os seus filhos. No entanto, quando esses pais tentam determinar concretamente o que convém a um filho, em circunstâncias particulares, a questão já se torna mais complexa: que é realmente o bem para esse filho, aqui e agora? Em primeiro lugar, esse bem deve ser um bem para o beneficiado, e não um autoengano mais ou menos consciente e bastante difundido como um bem para o benfeitor. Pai e mãe que dão um prêmio a um filho, devem examinar se mais do que favorecê-lo, querem ficar “em paz” ao evitar o desconforto de um confronto com ele. Em segundo lugar, quando se ama alguém, é necessário que o bem oferecido seja um bem real, objetivo; algo que torne o beneficiário melhor, que faça do ser amado uma pessoa mais cabal, mais plena e perfeita; algo que o aproxime de uma maneira ou de outra do seu destino último, que é amar os outros e a Deus.

        Deve-se procurar que a pessoa amada aprenda a amar de maneira mais sincera, profunda, intensa e eficaz, por meio das intervenções e dádivas recebidas. Entre essas dádivas, ocupa um lugar principal o esforço mental de quem doa por conhecer a fundo a pessoa que recebe a doação, a fim de descobrir o que mais convém a ela. Quando se ama de verdade a outra pessoa, procura-se por todos os meios que esta saiba ou aprenda também a amar mais e melhor aos demais (é um círculo virtuoso). No fundo, amar equivale a ensinar amar e facilitar o amor: amamos e fazemo-nos amar.

        O melhor modo do marido amar a esposa (e vice-versa) é ser muito amável com ela, no sentido mais certeiro e penetrante da palavra; é facilitar ao cônjuge a tarefa de amar; é tornar-lhe simples e agradável o amor pelo outro e receber dele, sem entraves, o seu carinho; é não levantar barreiras que impeçam a entrega ao outro. Na hora da reconciliação, depois de um pequeno desentendimento, não se enquistar na própria posição, mas sair abertamente ao encontro do outro, e se tornar acessível e bem-disposto para que volte a depositar o afeto que havia retirado por se sentir ofendido, e corresponder com a mesma delicadeza àquele que se adiantou em pedir perdão. O mesmo acontece na convivência diária com os outros membros da família, amigos e conhecidos: facilitar o amor ao mostrar-se franco, próximo e disponível; estar pendente do outro e não se fazer áspero, esquivo, distante por encerra-se nos próprios problemas e ocupações ou entrincheirar-se no orgulho.

        O filósofo Jean Guitton afirma que “O que o amor tem de admirável é que o serviço que prestamos a nós mesmos ao amar, também o prestamos ao outro amando-o; mais ainda, prestamo-lo pela segunda vez deixando-nos amar” (Ensayo sobre el amor humano, Ed. Sudamericana, Buenos Aires, 1968).

        Ser amável, facilitar o amor, como modo sublime e supremo de amar, é sem dúvida uma conclusão reveladora. Pode-se afirmar sem receio de ser considerado ingênuo que o fim de toda a educação consiste em ensinar a pessoa do educando a amar, em fazer dele alguém interessado mais no bem dos outros do que no seu próprio. Em todas as tarefas educativas, de orientação familiar ou profissional, ao se tomar  uma decisão mais ou menos complexa, o educador deve formular-se a pergunta: “Isto que vou sugerir ou proibir ao meu filho ou ao meu aluno, o modo como pretendo fazê-lo, o grau de liberdade que lhe concederei para divergir da minha opinião ou, pelo menos, para manifestar a sua, tudo isso o ajudará a amar mais e melhor os outros, ou, pelo contrário, o levará a encerrar-se em si mesmo, no seu «bem» míope e egoísta?”

        A resposta à pergunta acima nunca será encontrada sem um esforço perspicaz e comprometido de todas as capacidades pessoais do educador, do conhecimento teórico que possui, e sem recorrer apenas à experiência de vida, a fim de acertar na decisão. Pode acontecer que certos pais tenham sérias dúvidas sobre a conveniência ou não de enviar a filha adolescente à Inglaterra ou aos Estados Unidos para aperfeiçoar-se na língua inglesa. Se por um lado há hoje em dia a necessidade de conhecer esse idioma, por outro ficam os perigos da solidão, da desadaptação e da desorientação que uma estadia fora de casa pode provocar, sobretudo quando se é muito jovem.

        Diante dos aspectos negativos da viagem poderia surgir o argumento positivo de que contribuiria para o amadurecimento da jovem. Porém, a questão decisiva é outra, e a pergunta chave é: “se na situação anímica e de maturidade em que se encontra minha filha, a estadia no estrangeiro por um certo tempo poderá ajudá-la a amadurecer, a crescer em capacidade de amar, ou, pelo contrário, poderá introduzir no seu desenvolvimento uma deformação que atrase por muitos anos o seu crescimento como pessoa?”. Está é pergunta que os pais devem responder antes de tomar qualquer decisão. Podem, para isso, lançar mão de todos os recursos de sua inteligência e pedir conselho a pessoas sensatas e bem-informadas sobre o tema.

    5 – Querer o bem do outro, enquanto outro

        O outro enquanto outro é a chave do amor genuíno. Amar, na concepção mais nobre e certeira do termo, é procurar o bem do outro, e não o bem de quem oferece a dádiva: é para o outro, e não pelos benefícios mais ou menos materiais que a amizade pode proporcionar a quem doa, que poderia ser a de melhorar nas avaliações de desempenho na empresa, de facilitar a introdução em certo âmbito social, nem a de conseguir um bom trabalho para si ou outra pessoa… Também não há de ser pela satisfação que o relacionamento com os autênticos amigos traz. Nem sequer por tornar melhor a pessoa do que doa, ao dar maior consistência às suas virtudes. Apesar de que o bem e a felicidade não devem ser rejeitados àquele que doa, pois isso seria inumano, o fim primordial do amor é procurar o bem do outro, enquanto outro.

        Trata-se de amar o “outro” unicamente por ser “outro”, porque é pessoa e só por esse motivo torna-se merecedor de amor; e acima de tudo porque Deus o ama e quer manter com ele um colóquio de afeto apaixonado por toda a eternidade, entregando-lhe, justamente através de um amor recíproco e inteligente, o mais imenso dos bens: Ele mesmo. E quem somos para pôr em dúvida os planos do próprio Deus?

    Texto extraído e adaptado por Ari Esteves com base na obra “O que significa amar?”, de Tomás Melendo, Quadrante, São Paulo, 2006, tradução: Henrique Elfes. Imagem de Lurill Lalmin.

  • Educar filhos quando se é só

    Educar filhos quando se é só

    1 – A ausência definitiva de um dos cônjuges. 2 – Não ancorar-se no passado. 3 – É possível educar quando se é só? 4 – O que afeta a ausência de um dos pais. 5 – Educar com realismo e ajudar a que os filhos pensem nos demais.

    1 – A ausência definitiva de um dos cônjuges

        Educar os filhos é acompanhá-los ao longo da vida. Essa tarefa deve ser realizada a dois − pai e mãe −, sendo que o olhar de ambos sobre cada filho deve ser o mesmo. A falta do pai ou da mãe supõe um grande baque nesse caminho. Nem todas as famílias estão completas. Por vezes, a morte pode lançar por terra muitos projetos. São momentos que exigem uma mescla de fortaleza e decisão para olhar o futuro e não ancorar no passado.

        Diversos estudos demonstram que a influência materna sobre os filhos é maior dos 0 aos 7 anos, e a influência paterna passa a ser maior na adolescência e juventude, diminuindo a da mãe: se a influência paterna nos inícios é complementar passa a ser fundamental nesses anos difíceis da adolescência. A falta de um dos cônjuges, que pode ocorrer de improviso ou como algo anunciado, sempre deixa um grande vazio no labor educativo, e ninguém fica ileso. A ausência de um dos pais determinará o modo de educar os filhos. É diferente que faleça um dos pais ou que se dê uma separação pelo divórcio: neste último caso, a decisão é pessoal e se toma com todas as suas consequências; no caso da viuvez é um modo de vida não escolhido.

        Para os filhos é muito mais difícil sofrer uma separação pelo divórcio do que a ausência definitiva do pai ou da mãe pela morte: para a criança, essa ausência definitiva não foi desejada previamente, e a criança não alberga nenhuma dúvida sobre a sinceridade ou autenticidade desse nexo: há dor, mas não dúvida de quanto era amado pelo que faleceu. Na idade de 7 a 12 anos, os filhos entendem bem o significado da morte, e é um fato que não deve ocultar ou maquiar ou dar falsas expectativas que não se cumpriram, tal como “foi de viagem”. Não se pode privar um filho dessa experiência, que o fará alcançar maior grau de maturidade. A dor sempre vai estar presente, pois nunca se espera ficar viúvo ou órfão. Porém, quanto antes aceitar esse fato, melhor.

    2 – Não ancorar-se no passado

        É normal que figura da pessoa que partiu tenha sua presença na família, mas não se deve ficar ancorado no passado. Seria errôneo idolatrar a figura que passou a faltar, enchendo a casa de fotos e mencionando-a em tudo e para tudo, porque se estaria educando com base em algo que já não pode incidir objetivamente nas vidas: “se teu pai estivesse aqui…”, e não se sabe bem o que se quer conseguir com isso, ou para onde conduzirá tal atitude. Algo diferente é recordar o dia da morte, ir ao cemitério, lembrar-se do dia do aniversário, pois o falecimento é um fato objetivo e introduzido na vida da família.

    3 – É possível educar quando se é só?

        Com a partida definitiva de um dos cônjuges fica uma incerteza: se antes a responsabilidade das decisões era compartilhada, agora é preciso decidir solitariamente, sem poder partilhar acerca do êxito ou fracasso de uma decisão tomada. Por isso, é preciso conversar com pessoas de critério, amigos experientes e sensatos, orientadores familiares, ler livros e artigos sobre a educação dos filhos, tendo sempre presente que educação dos filhos é um motivo muito importante para se agarrar e lutar, e não cair na nostalgia de uma ausência.

    4 – O que afeta a ausência de um dos pais

        Quando um adolescente perde um dos pais, o primeiro que afetará é a consciência de segurança. Também será prejudicada a facilidade de aprender, pois esta tem muito a ver com a estabilidade de ânimo. O desenvolvimento dos filhos necessita de um entorno básico que dê pontos de apoio e segurança, que o faça abrir-se para o mundo: se a morte do pai ou da mãe é visto como tragédia, acabará repercutindo nos estudos, nas amizades, no caráter.

        Em algumas ocasiões, sobretudo no princípio da separação, poderá existir a tentação de recluir-se, esconder-se e não se relacionar. As primeiras festas de Natal sem o outro são muito dolorosas. No entanto, para o bem dos filhos, é preciso sobrepor-se e favorecer que cresçam em um ambiente rico em ralações: os avós, os primos, tios, amigos. A relação com os familiares é fundamental, pois esse entorno continuará proporcionando segurança. Em especial, é preciso continuar estreitando os laços com a família daquele que partiu.

        O mesmo ocorre nos assuntos escolares: ao se convocar os pais para uma reunião, é bom que os filhos notem que continuam importando para o seu pai ou mãe, que oculta a sua dor e vai à reunião. Não cair na obsessão de buscar um substituto. O que, sim, se deve buscar é a naturalidade de seguir com o que fazia antes: praticar esporte e participar das mesmas atividades de antes com seus companheiros, ir passear, etc.

        O pai ou a mãe que permaneceu terá que compaginar duas realidades: carinho e firmeza ou autoridade de pai com a ternura de mãe. Isso é um desafio, mas se consegue com o decorrer do tempo. Alguns especialistas dizem que pode ocorrer a tendência, especialmente da mãe, de se superprotetora dos filhos, protegendo-os demais e inibindo sua vontade ou capacidade de reação. Por isso, é preciso fazer os filhos crescerem em autonomia, deixando-os participar de atividades no colégio, esportes…

        A não ser que o filho seja bastante maduro e responsável, e tenha idade adequada (ao redor dos 20 anos), é preciso evitar que caia abusivamente sobre os filhos menores as responsabilidades daquele familiar que passou a faltar. Uma coisa é apoiar-se nos filhos e fomentar a responsabilidade deles, outra é fazer que saltem ou percam a etapa da infância, principalmente se for menina.

    5 – Educar com realismo e ajudar a que os filhos pensem nos demais

        Em resumo, é necessário abrir-se à esperança. Apesar da situação dolorosa de uma morte, é possível seguir adiante. Realismo e relações que ajudem amadurecer, como a de desenvolver o espírito de serviço e de ajuda solidária para com as pessoas que sofrem a carência de bens materiais ou espirituais, são os dois pilares para a educação dos filhos diante da ausência definitiva de um dos pais. A morte de um dos pais não deve se converter em um tabu: as crianças de 7 a 12 anos devem poder falar disso com seus amigos de maneira natural. Em algumas ocasiões, os filhos se sentem envergonhados da situação, como se tivessem culpa. A nova situação deve ser enfrentada com realismo. A partir dos 8 ou 9 anos, filhos e filhas entendem o que é a morte. É preciso contar a verdade: câncer, acidente… E sobretudo alertar sobre as dificuldades que irão passar a partir desse momento, mas que os ajudará crescer em maturidade, fortaleza, espírito de serviço e maior união com os que permanecem.

        Uma mãe ou um pai não pode ser substituído por nada. Simplesmente é preciso atuar a partir desse fato. Por isso, evitar cair na tentação de prodigalizar presentes ou objetos na tentativa de preencher esse vazio. Se antes, a educação era compartilhada, agora é preciso buscar novos pontos de referência para avaliar o acerto ou não das decisões educativas. Como já foi dito, ler livros sobre educação, perguntar a bons amigos, participar de associações de pais ou mães que educam sozinhos porque estes podem compreender melhor a situação.

    Texto traduzido e adaptado por Ari Esteves, com base no artigo ”Padres viuvos. Educar cuando se esta solo”, de Ricardo Regidor e Mercedes Tajada, Revista Hacer Familia, n. 71, Madri, España.