1 – Trabalho e descanso são inseparáveis. 2 – A importância do lúdico. 3 – O dom do bom-humor. 4 – O descanso familiar. 5 – Modos enriquecedores de descansar. 6 – Evitar certos tipos de descanso.
1 – Trabalho e descanso são inseparáveis
Quem trabalha necessita descansar para repor forças. Porém, descansar não é ficar sem fazer nada, mas mudar de atividade. Os clássicos chamam o tempo dedicado ao descanso de ócio, onde os prazeres da apreciação e da contemplação permitem saborear os bens que os avatares do cotidiano escondem. O ócio vai em busca da contemplação do belo. O ser humano sempre aspira à beleza, à bondade e à verdade. O belo e o verdadeiro são encontrados na natureza e nas diferentes manifestações da arte; a bondade é encontrada em Deus e em pessoas (a natureza tem terremotos, tsunamis, cobras venenosas e feras que nos podem matar…).
Dostoievski disse que a beleza salvará o mundo, mas para os utilitaristas buscar o belo não parece ser útil, pois o importante para eles é a funcionalidade das coisas. Como prova de que a beleza anda de mãos dadas com o bem e a verdade, vale a pena assistir o vídeo “Por que a beleza importa?”, de Roger Scruton, no Youtube, onde o narrador mostra vários edifícios europeus abandonados devido à feiura deles, apesar de terem sido pensados para serem funcionais. O mal não é belo, mas incoerente. A natureza humana necessita do belo, e para contemplar a beleza se carece do ócio bom.
2 – A importância do lúdico
Ao ócio hoje se pode chamar de ações lúdicas. Não se trata de um mero “entreter-se brincando” ou “divertir-se, quando não há nada que fazer”, mas algo mais rico: alcançar certa plenitude. As ações lúdicas contêm seu fim nelas mesmas, ou seja, não buscam outro objetivo que elas próprias: cantar, dançar, andar pelos caminhos e apreciar uma paisagem não servem para outras coisas senão para elas mesmas, e são realizadas simplesmente porque agradam. Ou seja, não são funcionais; apenas servem para serem apreciadas. As ações técnicas ou laborais têm em previsão alguma finalidade e estão concatenadas para a produção de um bem ou serviço. Já o esporte, um bom filme ou livro de literatura não fazem parte de uma cadeia produtiva, e por isso a arte é um pouco desprezada, e os artista em geral são pobres, pois as pessoas primeiramente dedicam seu dinheiro às necessidades primárias.
O lúdico renova porque faz esquecer por momentos os deveres que absorvem, tal como o sono faz desconectar por algum tempo das responsabilidades, e ao distender renova as forças. O homem é feliz enquanto joga. Ao entrar num jogo, numa festa, ao ver um filme, se é “transportado” das preocupações habituais, que são esquecidas por algum momento. Uma partida de damas é uma felicidade e, enquanto se joga, o tempo se detém e se é feliz por estar em casa. O jogo exige certa perspicácia, certo desentranhar de capacidades ocultas que a rotina do dia a dia não cobra. O jogo traz o inesperado, que exige raciocínio rápido e faz com que se supere e se coloque novas destrezas em ação, sem outro fim que o desafio do próprio jogo. As crianças são felizes porque gostam de jogar, e estão sempre brincando (brincar é o trabalho delas, lógico, além de outros afazeres no lar, aos quais cumprem como um jogo a realizar!).
3 – O dom do bom-humor
As ações lúdicas estão ligadas ao riso, à alegria, à brincadeira, ao fácil, ao gostoso, ao cômico. Rir é sinal de felicidade. A extraordinária e singular capacidade humana de levar as coisas na brincadeira indica que se ingressou na região do lúdico. Na vida humana nem tudo é seriedade, nem pode sê-lo: é necessário rir. Quem está sempre sério termina sendo ridículo. É preciso saber rir, o que não significa ser debochado, desrespeitoso com a dor ou preocupação dos demais. Quem é permanentemente sério se torna ridículo. Já a brincadeira e a ironia boa relativizam as dores, suavizam a seriedade, aparam as arestas do dia tal como a almofada evita o choque entre dois objetos duros que poderiam se partir, amenizam o esforço do sobreviver cotidiano: rir de um problema, rir do próprio gesto mal-humorado tem um efeito liberador.
A faina cotidiana – trabalho, estudo, encargos – e o sobreviver diário numa cidade grande podem quebrar aquele que não tem espírito esportivo para rir do ônibus que não parou no ponto, do carro que espirrou água suja em sua calça, da condução apertada, do transpirar ao se deslocar sob o sol (estou perdendo peso, diz o homem de bom humor; fico “p” da vida, diz o iracundo). Há pessoas que têm a extraordinária capacidade de levar as coisas com bom humor, de tirar importância do difícil, árduo, da notícia ruim. Esses não vivem alardeando o que fazem, mesmo quando isso lhes custa esforço. São heroicos, exemplares, e sem que eles mesmos o percebam, atraem as amizades e a confiança dos demais.
Temos que aprender a rir dos problemas e de nós próprios: olhar no espelho e dizer para si: − Cara, como tu fica feio com o rosto severo, carrancudo! Certa pessoa ao se ver tão mal-humorada, tirou uma foto de sua cara a fim de rir do ridículo em que se encontrava. A felicidade tem caráter festivo, e não se pode viver mais que de modo festivo. Se fosse impossível celebrar festas, o homem não poderia ser plenamente feliz. O homem para ser feliz precisa brincar, descontrair-se. As crianças são mais felizes que os adultos porque brincam, porque não se inquietam com o que acontecerá amanhã: mergulham nos jogos e vivem com intensidade o momento, pois já estão aonde queriam chegar.
4 – O descanso familiar
Cada cônjuge tem o dever de se preocupar com o descanso do outro; em encontrar um momento semanal para o casal estar a sós e conversar: jantar fora, dançar, ir ao cinema ou a uma audição musical… E ambos – marido e esposa – devem planejar o descanso das crianças nos fins de semana, a fim de que aproveitem bem o tempo com jogos de inteligência, esporte, passeio no parque. Assim, os filhos não ficarão dependentes e passivos com celulares, tabletes ou TV. É bom que a família saia junta aos domingos ao menos meio período e, uma vez por mês, que passe o dia fora. Os fins de semana, feriados e férias são oportunidades de descansar de forma criativa e de fomentar o diálogo familiar.
O descanso é um bem necessário, mas quando surge razão maior que o justifique, é preciso desprender-se dele sem fazer guerra ou cara feia. Em numerosas ocasiões um pai terá que jogar bola com o filho e prescindir de sua corrida; outras vezes terá que visitar um parente enfermo. Cristo ia descansar sentado na beira do poço, quando chegou a samaritana, uma alma que estava necessitada dEle, e então deixou o descanso, a fome e a sede para fazer aquela mulher recuperar os dons divinos.
5 – Modos enriquecedores de descansar
Para descansar não é preciso recorrer a meios extraordinários, mas mudar de atividade e agir com simplicidade. Gabriel Celaya, poeta, escreveu: “Quando o amigo chega, a casa está vazia, mas minha amada tira presunto, anchovas, queijo, azeitonas, duas garrafas de branco, e eu assisto ao milagre – sei que tudo é fiado –, e não quero pensar se poderemos pagá-lo. E quando bebemos e conversamos, e o amigo é feliz, crê que somos felizes, e o somos talvez burlando assim a morte: o que transcende não é a felicidade?”.
Descansa-se com jogos de sala em família, em passeio pelo campo ou parque, em visitas a museus ou exposições artísticas, pois enriquecem a sensibilidade. O descanso é também um período para cuidar da formação intelectual através da literatura e de filmes com bons roteiros. A arte – um bom romance, por exemplo – tem o dom de nos transportar para dentro de nós, o que não é pouca coisa numa sociedade que busca o barulho e o fugir do silêncio para não se enfrentar com a própria consciência. Ao adentrarmo-nos em nós mesmos, nessa viagem passamos a nos conhecer melhor: “Sem a arte narrativa –e aí se enquadra o cinema– o ser humano teria que contar tão só com suas próprias experiências, o que significa que se veria obrigado a aprender tudo desde o princípio. Sem conhecer a Odisseia, o homem não saberia nada da fidelidade de Penélope; sem Shakespeare ignoraria as dúvidas de Hamlet, o amor de Romeu por Julieta. Sem Dom Quixote, teríamos que descobrir por conta própria a diferença entre ver o mundo como é e vê-lo como deveria ser” (Krzysztof Zanussi, filósofo e cineasta polonês).
O descanso pode ser incluído nos aspectos positivos do 5º Mandamento: cuidar da saúde (o aspecto negativo ou de não fazer é não matar nem se matar). Na Sagrada Escritura, livro Gênesis, está escrito que Javé viu que tudo o que tinha feito era bom, e que descansou no sétimo dia. Tais palavras revelam que o descanso forma parte dos desígnios divinos. O livro Êxodo, também do Antigo Testamento, diz: “Seis dias trabalhas e farás as suas obras, mas o sétimo dia é de descanso, pois em seis dias fez Javé os céus e a terra, e o mar e quanto neles se contêm, e no sétimo dia descansou”. O descanso está intimamente unido ao culto divino, à contemplação de Deus e de suas obras e ao nosso aperfeiçoamento sobrenatural e humano.
Aos domingos a alma necessita prestar culto a Deus, indo à Missa ou ao culto, e se abster de trabalhar ou de qualquer atividade que impeça esse culto. No Antigo Testamento há uma passagem onde um dos líderes do povo judeu pede a todos, depois do culto, que vão para casa e tomem cidra e doces manjares. O descanso da mente e do corpo é algo devido à natureza humana para o desenvolvimento de uma vida sadia.
6 – Evitar certos tipos de descanso
Hoje, por falta de valores verdadeiros sobre a vida do homem, muitos têm como meta buscar uma vida fácil e divertida – a boa vida –, e colocam o lazer como finalidade, e não como um momento para mudar de ocupação e represar forças para melhor servir aos demais nos afazeres habituais. Hedonista, a atual sociedade busca o prazer e está disposta a pagar o que for por ele, pois a diversão para muita gente se converteu em meta da existência, e o trabalho é apenas uma cruz suportável para fazer frente às despesas com os divertimentos. Há verdadeiros alardes de luxo em equipamentos esportivos de alto custo, hobbies dispendiosos, locais de descanso frívolos e caros… Essa ostentação e destempero revelam como muitos desaprenderam a se divertir. Por falta criatividade ou de imaginação, o descano para outros se reduz em largar-se durante horas e horas diante de uma tela de 40 polegadas, com muita cerveja e pizzas, e ali morgar todo um fim de semana.
O ambiente das praias deteriorou-se porque se perdeu o sentido do íntimo, do pudor, e houve um acomodamento social nesse sentido. As festas de formaturas ou acadêmicas são ocasiões de excesso de álcool, drogas, sexo, gastos desnecessários… Se requer muita prudência e fortaleza para evitar que uma filha ou filho vá com os colegas passar as férias escolares em resorts, pois é sabido que nas madrugadas de muitos desses locais há o trânsito de jovens de um quarto a outro. Os pais têm medo de dizer “não” a esse tipo de divertimento, pois temem enfrentar a resistência dos filhos, mas depois se arrependem disso. Para descansar não é necessário assistir o triste espetáculo de filmes, novelas ou programas de TV que arrepiam e envilecem a alma ao explorar a intimidade ou misérias alheias. Nas baladas de hoje o som é alto e impede o diálogo, mas parece que isso não importa, pois já não há o que dizer por falta de leitura e da experiência pessoal da contemplação.
Urge dar testemunho de sobriedade e espírito de desprendimento no modo de descansar. A virtude está em não se sentir pressionado a fazer viagens caras, em frequentar locais badalados e de alto custo… Quem não se deixa levar por modismos dá exemplo de temperança e sobriedade, virtudes que carece a sociedade atual.
Texto adaptado por Ari Esteves com base nos ensinamentos de Ricardo Yepes e Javier Aranguren, no livro “Fundamentos de Antropologia – Um ideal da excelência humana”, cap 8: “A felicidade e o sentido da vida”, editado pelo Instituto Raimundo Lúlio, São Paulo. Imagem de Kampus Production.
