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  • Fazer da curiosidade uma aliada

    Fazer da curiosidade uma aliada

    1 – Há muitos modos de olhar para o mesmo fato. 2 – O olhar da curiosidade vã. 3 – Pensar bem antes de clicar o play. 4 – Frutos da temperança.

    1 – Há muitos modos de olhar para o mesmo fato

        Há muitas maneiras de olhar para o que nos rodeia. O fotógrafo e o pintor têm um olhar estético para a mesa ornada com muitos pratos, e tentará captar a beleza que a arte culinária orna a necessidade primária de alimentar-se. Já o glutão tem para a mesma mesa um olhar possessivo e empastado. As diferentes formas de apreciar a realidade manifestam como uma pessoa se relaciona com o mundo. Há quem passa diante de um jardim com os olhos grudados nas imagens do celular, e não percebe a beleza que ali reina entre plantas, flores, arbustos, pássaros, e mal sabe nomear ou identificar cada um desses seres.

        Ver a realidade de uma maneira nova exige desprender-se de si para não ver as coisas apenas do ponto de vista da utilidade que elas têm para o proveito próprio. O olhar contemplativo longe está de ser egoísta ou possessivo porque, transfigurado pela virtude da temperança, admira o brilho divino que cada realidade possui em si mesma.

    2 – O olhar da curiosidade vã

        O olhar do intemperado considera as pessoas e as realidades do ponto de vista do benefício que estas podem trazer para si, do favor que podem prestar, sendo incapaz de ver o que o outro necessita, o que poderá fazer por ele ou apenas para admirar o que é belo sem desejar apropriar-se dele. Manipular a realidade com desejos egoístas traz cegueira ao espírito. A falta de temperança destrói o ser humano porque o torna insensível para o verdadeiro conhecimento das pessoas e das realidades, o que conduz a erros de conduta. O olhar não enriquecido pela virtude da temperança impregna a pessoa de interesses egoístas, possessivos, tal como o de um animal que se fixa na sua presa. Esse olhar que divaga de imagem em imagem nas telas digitais é predador porque busca apenas satisfazer a paixão pela curiosidade superficial, e revela um modo de ver tudo pelo prisma do próprio interesse, e não sabe apreciar o que cada realidade transmite porque se prende rigidamente a um único ângulo, tal como o do glutão diante de uma mesa artisticamente preparada ou do olhar do animal para com sua presa, pois só desejam a satisfazer o estômago.

        O olhar intemperado se comporta como a borboleta que pula de flor em flor, sem fixar-se em nada, e se detém o tempo mínimo indispensável para satisfazer a ânsia de uma curiosidade insaciável. Tomás de Aquino chamou esse olhar de curiositas, vício oposto à virtude da studiositas, que consiste em dar a justa medida ao desejo de conhecer, e remove os obstáculos que impedem ver com profundidade e com o esforço de concentração que todo processo de aprendizagem e de admiração trazem consigo. O olhar da curiositas  faz o papel de coletor de lixo das redes sociais e internet que varre para dentro da razão milhares de imagens e informações desencontradas, impossíveis de serem correlacionadas ou integradas, afetando a aprendizagem e tornando cega a inteligência: “O olho é a luz do corpo. Se teu olho é são, todo o teu corpo será iluminado” (Mt 6,22). A falta de conteúdos significativos impede a pessoa de oferecer seus dons para o bem dos demais, pois se tornou frívola, superficial e incapaz de habitar em si mesma.

    3 – Pensar bem antes de clicar o play

        É necessário desenvolver um sereno processo de discernimento para dedicar tempo e fazer crescer as potencialidades ou dotes pessoais, com o fim de aplicá-los à solução das necessidades que carecem tantas pessoas ao redor. Fugir do imediatismo da vã curiosidade: antes de clicar o play de um vídeo, ou navegar sem rumo na internet, pensar para onde isso conduzirá, e saber prescindir do que faz mal à própria alma, tendo a convicção de que esse discernimento não diminuirá a liberdade pessoal, mas livrará o coração de ser escravo de banalidades.

        O olhar desprendido do temperado capacita-o para descobrir a beleza que se oculta nas coisas simples, faz aprofundar na verdade das coisas, pois o mundo revela e fala de Quem o criou. O olhar temperado faz descobrir maravilhas insuspeitadas porque a moderação liberta e purifica o coração, e facilita uma relação serena com as pessoas e as coisas (o egoísta e o invejoso são infelizes porque nada os saciam). O primeiro efeito da temperança é a “tranquilidade de espírito”, fruto da ordem interior da pessoa. O olhar desprendido e limpo repara nos verdadeiros tesouros da vida e da convivência, e neles encontra um autêntico repouso.

    4 – Frutos da temperança

        A temperança leva a não olhar desnecessariamente o celular durante o trabalho ou na convivência com as pessoas. Essa renúncia que parece de pouco valor é decisiva para concentrar os cinco sentidos naquilo que deve ser feito: dizer “não” ao que dispersa a mente é dizer “sim” ao que realmente importa. Tal esforço desenvolve a interioridade e contribui para despojar-se do que é superficial e da perda de tempo: “A vida recupera então os matizes que a intemperança descolore. Ficamos em condições de nos preocuparmos com os outros, de compartilhar com todos as coisas pessoais, de nos dedicarmos a tarefas grandes”, diz Escrivá de Balaguer.

    Texto produzido por Ari Esteves.

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  • Emotividade:  o apático e o amorfo

    Emotividade: o apático e o amorfo

    1 – Temperamento apático. 2 – Temperamento amorfo

    1 – Temperamento apático

        O apático é não emotivo, não ativo e secundário. Seu ânimo é constante, tem sentido de honra e certa dignidade na maneira de ser. É sincero, honesto, discreto e digno de confiança. Aprecia a solidão. Pode ser um bom conselheiro, quando maduro. É tranquilo, pacífico e normalmente não importuna ninguém.

        Defeitos do apático: é insensível, pois carece do estímulo da emotividade, e sua atividade é baixa, sendo seu traço dominante a tranquilidade acompanhada de frieza e vazio interior. Costuma ter inércia mental para pensar, agir e falar (tem longos períodos de silêncio). Sem força psicológica, seus pensamentos tendem a ser banais, negativos e presos ao passado. Preso às rotinas, tem horror à novidade e se deixa vencer pela preguiça. Costuma ser independente, diverte-se pouco e não costuma interessar-se por si mesmo, nem pelos amigos. Tende a ser egoísta, de mau gênio, irritadiço, pessimista e sensual. Possui, junto com o amorfo, poucas aptidões. Sua inteligência não abstrai e nem extrai o essencial; o pensamento é incoerente, pobre de ideia e de relações lógicas. Sua infância é sem vigor, e quando estudante, não se interessa pelas atividades escolares, sendo que a falta de esforço o faz ter resultados baixos. Alguns apáticos encerram-se demasiadamente em si mesmos e chegam a ser melancólicos, taciturnos e invejosos.

        Modo de tratar o apático: ter afeto, paciência, constância e firmeza com ele, a fim de ajudá-lo a sair de si e voltar-se aos demais. Como seu basal é a tranquilidade, desenvolver nele a emotividade e a atividade para ganhar gosto pela ação e sair da inércia. Tirá-lo da rotina e do automatismo, fazendo-o ter um comportamento autônomo e deliberado. Dar um sentido de missão para sua vida, que costuma ser triste e vazia, ao utilizar com ele métodos ativos e procedimentos estimulantes, carregados de valores ou modelos de conduta. Integrá-lo a um meio social compreensível, vivificante, de trabalhos em equipe, e fomentar nele as virtudes da sociabilidade, generosidade e espírito de serviço. Elevar suas aspirações e ensiná-lo a superar suas debilidades e sentir satisfação pelos êxitos alcançados. Fazê-lo perceber a satisfação que dá o cumprimento do dever. Animá-lo a descobrir a Deus nos demais e a ter sentimentos de compaixão pelos que sofrem.

        Quando estudante, rodeá-lo de um ambiente familiar disciplinado, caloroso e que o estimule ao trabalho e estudo; propor-lhe metas com dificuldades progressivas e verificar se cumpriu os trabalhos escolares, pois sendo inativo poderá deixar de fazê-los. Um companheiro da mesma idade poderá incentivá-lo a cumprir as metas a que se propõe. Um rosto alegre é o melhor jeito de ganhá-lo, pois o levará a ter confiança e simpatia pelo educador, pois deseja ser orientado. Não costuma doer-se de suas faltas, tornando-se necessário ajudá-lo a conscientizar-se da importância de viver a caridade com todos.

    2 – Temperamento amorfo

        O amorfo é não-emotivo, não ativo e primário. É obediente, calmo, objetivo, tranquilo e tolerante. Em geral, seus juízos são equilibrados. Aceita com gosto a convivência e as brincadeiras que lhe fazem, e não faz dano a ninguém. Costuma ser equilibrado e adaptável a qualquer meio.

        Defeitos do amorfo: aparenta ser dócil, mas trata-se mais de passividade. Acomoda-se facilmente e não aprecia planos para o futuro, nem resultados a longo prazo, além de não almejar grandes ideais. Passivo, irresponsável e sem espírito de serviço, é visivelmente preguiçoso, desordenado e deixa as coisas para acabá-las apressadamente e à última hora. É frio, pouco cuidadoso com seu asseio, impontual e inclinado aos prazeres sensuais. Predisposto ao desalento e à melancolia, seu caráter é sombrio. Pode ganhar o vício dos jogos de azar, e cede facilmente ao ambiente e ao que é fácil de fazer. Carece de fervor religioso. Não é mau, mas sim egoísta, e não sente necessidade de ser amado nem de amar e servir aos demais. Pouco generoso, não se interessa pelos amigos. Oportunista, aproveita-se dos demais para fugir das responsabilidades. Costuma ser comilão e com grande atração pela cama. O amorfo paranervoso é o mais preguiçoso dos amorfos, sendo necessário ajudá-lo mais a abandonar esse vício. Os para sanguíneos não aceitam a pecha de preguiçoso, pois cumprem os trabalhos que lhes são exigidos – e não mais do que isso – por uma autoridade competente (se abandonados a si mesmo pouco fariam).

        Modos de tratar o amorfo: como ele aceita os conselhos e necessita de uma clara e firme autoridade, o educador deve ter caráter e virtude para alcançar-lhe o coração, e falar de modo concreto e claro, indo ao fundamental para não confundi-lo. Sem gosto pela ação, o amorfo terá mais êxito em trabalhos que exijam paciência e pouca imaginação. Propor-lhe metas fáceis, não tudo de uma vez, e ir alentando-o pouco a pouco, e fazendo-o perceber que seu êxito se dará por meio de pequenos passos que modifiquem suas disposições inatas à inatividade, à negligência e à tendência de atrasar as coisas. Ao gostar de esportes coletivos – mas não de ginástica –, e a fim de que ganhe gosto pelo esforço continuado, animá-lo a melhorar a performance da prática que aprecia. Como se deixa influenciar pelo ambiente (família, escola, amigos), é importante que este lhe ofereça exemplo de energia, pontualidade, entusiasmo e ação. Deve lutar contra a falta de exatidão verbal, contra a tendência a debochar, de pedir emprestado e de pouca pontualidade aos compromissos. Sugerir-lhe fazer cada dia algo pelos amigos, e a colaborar para o bem de pessoas necessitadas. Não deixá-lo isolado: para alcançar metas de trabalho poderá fazer parte de alguma equipe, pois saberá cumprir sua meta, já que tem receio de críticas ou reprovações. Inadaptado, é preciso adquirir o hábito de se interessar e esforçar-se por algo. Fazê-lo ganhar hábitos de limpeza e ordem; disciplinar seu sono e refeições.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base no livro “Guía práctica de caracterologia”, de José Gay Bochaca, Ediciones Internacionales Univertarias, Madri. Sugestão de leitura: “Conheça o seu filho”, de Anna Maria Costa, Editora Quadrante, São Paulo. Imagem de Pixabay.

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  • Emotividade: o sanguíneo e o fleumático

    Emotividade: o sanguíneo e o fleumático

    1 – Temperamento sanguíneo. 2 – Temperamento fleumático

    1 – Temperamento sanguíneo

        O sanguíneo é não-emotivo, ativo e primário. Tranquilo, prático e oportunista, procura fins ou resultados imediatos. É mais reflexivo do que impulsivo. Deseja a harmonia e reconcilia-se com facilidade. É perseverante, sincero e leal. Não gosta do isolamento. É expansivo e amante do esporte. Desprendido, não se importa com o que dizem dele, nem interfere na vida dos demais. Extrovertido, é o mais otimista dos caracteres (otimismo sem entusiasmo), e julga que as coisas se consertam com o tempo. Independente em seus juízos, tem réplica para tudo, e se interessa pelo que é atual, concreto. Versátil, diplomático, cortês e com presença de espírito. É permeável às influências coletivas.

        Defeitos do sanguíneo: tende a ser egoísta, duro, oportunista e com pouca compaixão. Cético e crítico sarcástico, diverte-se ao provocar os emotivos e os tímidos. Ainda que tranquilo, em algumas ocasiões pode ter atitudes de violência e irritação. Muito trabalhador, mas com tendência a não acabar bem as tarefas devido à ânsia de mudar de atividade. Interessa-se por tudo, sendo seduzido pelas novidades. Entregue aos seus interesses, é alheio às necessidades dos demais. Tem vontade fraca e cede diante das dificuldades. Fraco de vida moral, pode cometer indelicadezas e mentir facilmente. Integra-se bem ao ambiente familiar. Há sanguíneos que se aproximam dos coléricos, dada à sua primariedade, espírito empreendedor e veemência (estes apreciam crônicas esportivas, novelas e aventuras). Aqueles que se parecem com os amorfos têm menos atividades, mas são ávidos leitores de notícias políticas.

        Modo de tratar o sanguíneo: criar-lhe um ambiente afetuoso para que se dedique aos demais com amor, e para viver a benevolência ao ajudar no que pode. Sendo frio, ensiná-lo a se emocionar, a desenvolver a emoção intelectual e a moderar a primariedade. Sua tendência à indiferença pode ser corrigida por uma educação que o faça perceber as necessidades dos demais, e a ter compaixão pelos que sofrem. Suscitar nele uma verdadeira sensibilidade para transformar sua bondade externa, mais voltada aos seus interesses, para uma bondade interna, profunda e generosa. Na adolescência, ajudá-lo a perceber a doçura da mãe e os sacrifícios do pai, sendo que a missão da mãe é decisiva para conduzi-lo à simpatia com os demais, a não ignorar a dor alheia e a ter encargos familiares para se desprender de si. Corrigi-lo com certa severidade e fazê-lo perceber que pode causar danos ao faltar a caridade com os demais. Alguns sanguíneos podem deixar-se dominar pelos sentidos e prazeres, sendo necessário estar atento para ensiná-los a viver a virtude da temperança ou autodomínio. Vaidoso, ambicioso, deve mudar seus valores por outros mais nobres. Organizar o seu trabalho ou estudo, ensiná-lo a ter espírito de equipe e dar a ele tarefas que o tirem do isolamento. Fazê-lo ver que uma das causas dos seus fracassos é a inconstância, e ajudá-lo a perseverar no esforço continuado. Buscar motivos intelectuais, mais do que práticos. Orientar sua curiosidade, que tenta suprir a pobreza interior, para algo que valha a pena.

    2 – Temperamento fleumático

        O fleumático é não-emotivo, ativo e secundário. Trabalha com constância, sendo decidido, pontual, sempre ocupado, veraz e digno de confiança. Costuma ser pouco expansivo. De humor constante, é natural, simples de trato, não vaidoso e nem ambicioso. Tem interesses intelectuais. Reflexivo, chega a grandes resultados, ainda que lentamente. É tradicionalista, tranquilo, objetivo, silencioso e discreto. Ajuda a quem lhe pede um favor, mas não costuma adiantar-se ou fazer mais do que o solicitado. Aprecia as conversas sérias, mas sendo pouco falador prefere ouvir. Não teme o esforço ao buscar interesses próprios. Tem vontade de fazer bem as coisas e gosta de limpeza. Quando estudante, costuma ser hábil no raciocínio; ordenado nos cadernos, livros e mesa de trabalho e não causa problemas aos professores. Sua vida familiar discorre sem efusões, e ama os pais mais por sentido de dever do que por sentimentos de gratidão. Não é inovador, mas facilmente adaptável.

        Defeitos do fleumático: por manifestar poucos sentimentos e emoções não tem grandes expansões ou arranques, tende à frialdade e pode chegar a ter orgulho de sua frieza. Prefere jogos solitários. É calculador, metódico e pouco compreensível. Pouco compreensível, é por vezes é irônico, severo, insensível e altaneiro com os demais. Tende à solidão, a fugir da convivência, e a desdenhar o carinho familiar e dos amigos. Pode ter manias de ordem.  

        Modos de tratar o fleumático: apesar de não se deixar guiar facilmente, o fleumático necessita de orientação para resolver questões concretas. O fleumático não se fixa muito nos modos ou figura do tutor, mas sim em suas ideias e métodos. É necessário tratá-lo com sentido de humor, pois isso lhe cai bem, dado o tipo de caráter que possui. Ter presente que a maturidade psicológica exige integrar de modo harmonioso os sentimentos e afetos para colocar não apenas a cabeça, mas também o coração naquilo que faz e na relação com os demais. A afetividade humana requer aprendizagem para evitar extremos: o de quem nega o valor dos afetos e os silencia tal como se não existissem, e age friamente só pela razão; ou o de quem converte o impulso afetivo na única instância de decisão e de ação. Esses dois casos revelam fragilidades que desembocam ou na rigidez e inflexibilidade ou na desorientação de quem muda continuamente de rumo, porque se deixa levar unicamente pela percepção imediata dos sentimentos. Por isso, o fleumático – e o amorfo – deve criar sentimentos para compreender os demais e ter uma inteligência não alheia aos sentimentos; precisa ser compreensivo com os defeitos alheios, não teoricamente, mas com detalhes concretos fundados no amor, na doação de si. Para não se isolar deve procurar atividades coletivas, participar das conversas, melhorar a sua relação com os demais…

        Para o fleumático ser mais sensível e vencer a indiferença e a frieza, deve ganhar virtudes como a sociabilidade, generosidade, misericórdia, espírito de serviço, benevolência. Despertar sua emotividade sem utilizar tentativas violentas ou forçadas. A vida de fé e a luta espiritual, além da boa literatura, oferecem a ele exemplos concretos de doação de si. Desenvolver o olhar estético para contemplar a beleza da natureza, que a princípio pouco lhe afeta, ajudará a despertar seus sentimentos e a ter mais sensibilidade para o que o cerca. Fomentar a que tenha dor pelos erros cometidos e saiba pedir perdão, e não ser indiferente ao desgosto que poderá ter causado. Precisa ser prevenido para não se deixar levar por automatismos, que o tornam meticuloso e cheio de manias.

        No próximo boletim analisaremos os dois últimos temperamentos: amorfo e apático.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base no livro “Guía práctica de caracterologia”, de José Gay Bochaca, Ediciones Internacionales Univertarias, Madri. Sugestão de leitura: “Conheça o seu filho”, de Anna Maria Costa, Editora Quadrante, São Paulo. Imagem de Pixabay.

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  • Emotividade: o colérico e o apaixonado

    Emotividade: o colérico e o apaixonado

    1 – Temperamento colérico. 2 – Temperamento apaixonado

    1 – Temperamento colérico

        O colérico é emotivo, ativo e primário (seus sentimentos o fazem reagir de modo imediato ao fato que os provocou). Costuma ser trabalhador, serviçal e sociável. Esquece logo as ofensas. Tende a ser alegre, otimista e muito entusiasta. Bem-humorado, sabe brincar com as pessoas, sendo por vezes grosseiro. É simpático, e sem complexos. Decidido, prático, inventivo e fácil de palavra, é capaz de concentrar-se intensamente para afrontar alguma urgência. Generoso, entrega-se de imediato à ação, cumpre eficazmente as ordens. Empreendedor e audaz, sempre busca impressões novas. Costuma ser capacitado para os negócios. Bom camarada, adianta-se às necessidades dos companheiros e logo influencia o seu grupo, criando um ambiente amigável onde participa com gosto nos trabalhos em equipe. Está disposto tanto para o melhor como para o pior: prestar um serviço com total entrega, principalmente se colaborou para a decisão, ou armar um alvoroço. Costuma ser caritativo com os enfermos.

        Defeitos dos coléricos: a impulsividade pode torná-los violentos, pois alteram-se facilmente de ânimo, com momentos de afetos ou de bruscas violências. Impacientes, costumam agir sem pensar muito, tendem à improvisação, à superficialidade e à precipitação, apesar de se acharem seguro em seus juízos. Gostam de viver intensamente e se inclinam a satisfazer os prazeres da gula e outros. Ambiciosos, amantes da popularidade, das aparências, são aventureiros e buscam atividades que lhe proporcionam satisfação, mesmo que não sejam as melhores. Imediatistas, querem saber de tudo, sonham com tudo, sem decidir-se por nada. Desejam vagamente, mas nada escolhem. O círculo familiar lhes parece estreito, e desejam mais liberdade, independência. Preferem estar na rua e realizar alguma atividade, e não no lugar de trabalho ou em casa. A rapidez intelectual deles está ligada à instabilidade emotiva e aos seus arrebatamentos. Cambiantes, distraem-se com facilidade. Caso venham a mentir, não o fazem para enganar, mas para colorir a conversação. Não sabem sintetizar. Sem refletir, comprometem-se facilmente, e depois não cumprem todas as promessas. Sensíveis ao que lhe dizem, custa-lhes ser humilde e tendem mais a falar do que a fazer, e com isso podem chegar a ser falsos. Não respeitam muito o silêncio em ambientes onde é exigido, e lhes custa seguir regulamentos ou regras. Quando crianças, colecionam de tudo, costumam ser agitados, turbulentos, instáveis; a puberdade é sofrida, e ofendem com o excesso de rebeldias e insubordinações frequentes.

        Modos de tratar os coléricos: ajudá-los a conter seus entusiasmos, a dominar a primariedade e a ter objetivos de ordem superior que os entusiasmem alcançar. Ensiná-los a refletir sobre o motivo ou finalidade da ação que irão realizar. Devem saber que, sendo a atividade improvisada e dispersiva a dominante deles, devem para fomentar as virtudes contrárias: prudência, constância, temperança. Educá-los não no abstrato, mas no concreto, no modo de fazer as coisas. Incentivá-los em seus êxitos anima-os a perseverar naquilo que começou. Sendo sinceros e predispostos à ação, necessitam de orientação humana e espiritual. Não são críticos, e ficam felizes quando relatam seus problemas e confiam nas orientações que lhe são dadas. Deixam-se levar pelas boas ideias, mesmo que não sejam deles. Não educá-los com autoritarismos ou palavras violentas, ou que lhes imponham temores, pois perderão as energias da qual estão dotados, e que devem ser bem aproveitadas. Precisam ter domínio de si, e se darem conta de que a extroversão leva-os à dispersão. Praticar esportes os ajudam a dar vasão ao seu ímpeto de atuar. É preciso fazê-los compreender que as regras de convivências são necessárias e importantes. Integrá-los no ambiente escolar evita a insubordinação. Se adolescentes, ajudá-los a organizar o estudo e os encargos para o bom andamento do lar. Começam bem as coisas, mas precisam renovar o ânimo para conclui-las. Estar atento aos amigos, pois são influenciados por eles: os bons amigos os ajudam a não interessarem-se apenas pelo que gostam.

    2 – Temperamento apaixonado

        O apaixonado é emotivo, ativo e secundário (seus sentimentos o fazem reagir não de forma imediata, mas posteriormente ao fato que os provocou). Costuma possuir boas qualidades: constância, capacidade de decidir e de chefiar, rapidez na ação. É organizador, enérgico, constante e supera os obstáculos para alcançar suas metas. Capaz de grandes ideais, é dominado pela obra que deseja levar a cabo. Aproveita bem o tempo e nunca está ocioso. Não costuma ser preguiçoso, nem se entregar aos prazeres dos sentidos. Tem profundo sentido religioso.

        Defeitos dos apaixonados: costumam ser independentes, impulsivos e podem chegar a ser violentos. Suscetíveis, isolam-se. Quando se propõem a servir seus interesses, podem ser orgulhosos e ambiciosos. Radicais, autoritários, muitas vezes são irreconciliáveis. Sombrios, custa-lhes trabalhar em equipe, e preferem agir sozinhos. Algumas vezes caem na crítica aos demais. São contrários a esportes e excursões, que sentem como perdas de tempo. Alguns são introvertidos, com tendência a viver sob a influência do passado.

        Há dois tipos de apaixonados: reflexivo e acentuado, com fundos comuns: violência, ação decidida, sentido prático, visão ampla, independência, capacidade de observação, boa memória, ausência de vaidade. Porém, há diferenças entre eles:

        1) Apaixonado reflexivo: não costuma ser muito emotivo. Não é severo ou sombrio, nem ensimesmado. De caráter conciliador, tolerante, sua paciência é média. Com impulsividade pouco acentuada, sabe dominar-se. Aberto às novidades, interessa-se pelas coisas, pessoas e acontecimentos. Aprecia a leitura de livros de científicos. Demonstra ternura e fortes sentimentos familiares. É perseverante naquilo que se propõe a realizar. Se acredita que sua causa é justa, age de modo obstinado. Quando estudante, entrega-se às tarefas escolares e a jogos complicados e inteligentes, sendo o aluno que menos problemas apresenta aos pais e professores; e alcança boa maturidade entre os 13 e 14 anos.

        2) Apaixonado acentuado: é severo, sombrio, ensimesmado, isolado, muito impulsivo e impaciente. Sendo suscetível e crítico, chega a ser intolerante, dominador e encerrado em suas ideias. Quando estudante, poderá apresentar problemas educativos difíceis. Na adolescência pensará longamente sobre as injustiças que acredita ter sido vítima, sendo necessário criar ao entorno dele um ambiente aberto, acolhedor e otimista. Habituá-lo a conhecer os limites a que deve sujeitar-se, e não permitir que faça o que não é correto. Proporcionar-lhe um ambiente agradável, utilizando uma autoridade afetuosa. Há dois tipos de apaixonados acentuados: 1) Melancólico, que é meditativo, rancoroso, suscetível, exato, constante e apaixonado pela leitura séria. 2) Impetuoso, com forte emotividade e intensa atividade, tem aparência de colérico. Pode chegar a ser antipático. Se pouco dotado de inteligência, não aceitará seus fracassos e procurará compensar isso com excessivos trabalhos ou impondo sua autoridade aos demais.

        Modos de tratar os apaixonados: necessitam de um guia e esperam muito dele, e as conversas devem ser profundas. Como são bons observadores, fixarão em todos os detalhes do seu tutor, que deverá ser competente, amigo, compreensivo e inspirar-lhes confiança. Sendo muito exigentes, poderão manifestar diretamente seu juízo sobre o tutor. Por serem muito emotivos, o tutor não deve dizer-lhes palavras humilhantes ou ásperas, nem utilizar sarcasmos e ironias, pois desalentarão e irão feri-los profundamente. Devem, os apaixonados, mostrarem-se como são, sem esconder o que não fizeram bem, pois o tutor precisa conhecer suas inclinações egocêntricas ou altruístas, sociais ou intelectuais. Aos apaixonados reflexivos, ajudá-los com bons argumentos a que ganhem gosto pelas artes (literatura, música, cultura, poesia, pintura…), e que passem a agir sob os ditames da razão e não dos sentimentos; e que adotem valores ou modelos de conduta baseados na generosidade e na sociabilidade (por exemplo, trabalhar em equipe), pois a tendência deles é isolar-se. Já os apaixonados acentuados necessitam de uma sólida direção, mas nunca incompreensiva ou brutal, mas fazendo-os perceber que são compreendidos e que se quer ajudá-los: falar-lhes amigavelmente ao coração para persuadi-los, e deixá-los refletir e falar sobre suas objeções, sem nunca empregar com eles a burla; acostumá-los a meditar sobre seus atos, utilizando argumentos razoáveis, e mostrar-lhes claramente os problemas para que se habituem a raciocinar profundamente. Ao pensar que o esporte e excursões são perdas de tempo, é preciso ajudá-los a compreender que descansar é um modo de voltar ao trabalho com forças renovadas.

        No próximo boletim analisaremos os temperamentos sanguíneo e fleumático.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base no livro “Guía práctica de caracterologia”, de José Gay Bochaca, Ediciones Internacionales Univertarias, Madri. Sugestão de leitura: “Conheça o seu filho”, de Anna Maria Costa, Editora Quadrante, São Paulo. Imagem de Pixabay.

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  • Emotividade: o nervoso e o sentimental

    Emotividade: o nervoso e o sentimental

    1 – Os diferentes caracteres. 2 – Temperamento nervoso. 3 – Temperamento sentimental

    1 – Os diferentes caracteres

        Os diferentes caracteres temperamentais do ser humano compõem-se dos seguintes traços: emotividade (ou não-emotividade), atividade (ou não-atividade) e ressonância (primariedade ou secundariedade).

        Temperamento emotivo: todo ser humano possui a capacidade de comover-se, sendo que a maioria das pessoas reage subjetivamente de modo proporcional à provocação externa, porém o emotivo se comove mais facilmente que a média dos indivíduos.

        Temperamento ativo: não tem nada a ver com o ativismo ou movimento contínuo de pessoas impulsivas ou nervosas (isso é apenas atividade aparente). Ser ativo não significa tanto trabalhar, agitar-se, mover-se, mas em ser espontaneamente conduzido a agir para satisfazer sua necessidade natural de estar sempre fazendo algo.

        Ressonância: entende-se por ressonância a repercussão que as impressões causam no ânimo de cada um: se as impressões têm efeito imediato sobre a conduta, a ressonância é primária; se influem posteriormente é secundária.

        As características abaixo apresentadas são apenas indicativas de certo predomínio de alguns traços temperamentais, pois todos participam de alguma maneira de alguma das características que compõem os diferentes caracteres: o seja, podem não ocorrer todos na mesma pessoa. Para melhor compreensão dos caracteres temperamentais, sugerimos a leitura do boletim Emotividade: Características.

    2 – Temperamento nervoso

        Características do temperamento nervoso: é emotivo, não-ativo e primário. Extrovertido e desordenado, inclina-se à falta de objetividade. Tende a entusiasmar-se com facilidade e a construir grandes projetos, mas é inconstante e logo os abandona. Foge da solidão, gosta de mudanças, novidades e divertimentos. É suscetível e propenso ao exagero e pode mentir para enfeitar a realidade. Vaidoso, aprecia estar em primeiro plano e a ser simpático para ficar bem. É egocêntrico. A teimosia é manifestação típica da impulsividade. Costuma ser pouco submisso. Sendo impulsivo toma decisões precipitadas, sem medir as consequências. É inconstante nos seus interesses e simpatias. Facilmente cai na crítica a outras pessoas (professores, educadores…).

        Traços positivos do temperamento nervoso: é generoso, delicado, alegre. Costuma ser simpático nas conversas e pendente das demais pessoas. É otimista, facilmente influenciável e tende a imitar as pessoas às quais admira. Costuma ser tenaz na execução daquilo que aprecia.

        Modos de tratar o nervoso: precisa de educadores francos e pacientes para aguardar a que recupere a calma, a fim de lhe fazer ver que a falta de domínio próprio é uma fraqueza. Procurar que tenha calma, e evitar-lhe a excitação. A severidade excessiva, repreensões e críticas não o educam, antes o levam a protestar, tornando-se necessário corrigi-lo com delicadeza e falar com calma para evitar-lhe motivos de irritação e violência. Sendo influenciável, é importante o bom exemplo dos pais, amigos e educadores. Não alimentar seus muitos projetos, mas que se atenha a um único objetivo de cada vez, e persevere nele até a consecução final. Afastá-lo das falsas manias de originalidade, que o levam a assumir atitudes teatrais, e estimulá-lo a ter uma individualidade autêntica, refletida. Não ceder às suas raivas e fazer com que ganhe consciência delas, mas com tranquilidade, sem ironias e castigos. Cercar-lhe de um ambiente sem concessões, mas sem severidades. Demonstrar-lhe seus caprichos com poucas palavras e calmamente. Porque tende a ser egocêntrico e a falar de si sem cessar, mudar-lhe o foco para fixar-se nos demais. Sendo impulsivo e por decidir de modo precipitado, é necessário ajudá-lo a ver tudo o que está em jogo nas atitudes irrefletidas.

        Se adolescente, explicar esse seu defeito de caráter e estimulá-lo ao domínio próprio. Ensiná-lo a ver as coisas em perspectiva ampla, e a valorizar o pensamento abstrato. Sua força motriz pode ser dominada pela prática esportiva não violenta, pelos trabalhos manuais e encargos materiais no lar. Estimulá-lo a ter horário e a não deixar as coisas para o dia seguinte. Deve estar sempre ocupado, e a família pode ajudá-lo nisso com jogos de inteligência, tarefas para o bom andamento do lar, visitas a exposições e museus… Deve cuidar de não deixar solta a imaginação. A escola com sua regularidade de obrigações ajuda-o a dominar seu temperamento.

    3 – Temperamento sentimental

        Características do temperamento sentimental: é emotivo, inativo e secundário. Fechado, tímido e introvertido, tende à solidão, a fugir da convivência com os demais e a vida em grupo. Sua introversão leva-o a ser egoísta e a pensar muito em si mesmo. Se acentuada, a introversão leva-o ao menosprezo pelos demais e à falta de sociabilidade. Suscetível e vulnerável, desconfia dos demais. Meditativo, raciocina com honestidade, mas caoticamente. Falta-lhe senso prático. É imaginativo, mas como fuga mental. Sua inatividade leva-o a fugir da ação, e sua afetividade o faz temer as consequências da ação, tornando-o indeciso e escrupuloso. Mostra-se descontente de si próprio e pouco preocupado com seu aspecto exterior. É inclinado à melancolia, ao pessimismo e a ver as coisas pelo lado trágico. Opta pelas coisas costumeiras e não aprecia mudanças ou novidades. Prefere viver de lembranças e conservar tristezas e felicidades da infância, e integra as novas experiências às já enraizadas. Sua mudança de humor é lenta e duradora. Pouca inclinação pelas ciências exatas. Predisposto às enfermidades psíquicas.

        Aspectos positivos do sentimental: sua afetividade e sensibilidade são ricas. É honesto e sincero. Costuma ser delicado e constante nos afetos. Aprecia a solidão e o silêncio. Está sempre disposto a compreender os demais. Seu olhar é sincero e reservado, e sua conversação é escassa e dócil. Delicado e reservado, costuma não ter problemas de convivência. É pertinaz. Descobrir as atividades que lhe interessam: passeios, excursões, colecionismo, jogos de inteligência, trabalhos artísticos.

        Modos de tratar o sentimental: que tenha e se interesse por um ambiente familiar afetivo e acolhedor para não se isolar. Precisa de uma vida regular, calma. Evitar as situações que possam feri-lo, pois sendo dócil e sensível, uma simples repreensão dada com pouca oportunidade e indelicadeza pode feri-lo profundamente. Não humilhá-lo, pois isso o fará depreciar a si mesmo e a cultivar rancor pelo ofensor. Mostrar-lhe com discrição as faltas cometidas para facilitar a que se desculpe. Na adolescência, tende ao dogmatismo e à utopia, sendo necessário revelar-lhe essas atitudes para que as reconheça e se corrija. Ajudá-lo a esquecer e aceitar os fatos desagradáveis sem exasperar-se. Elogiar seus êxitos e não sublinhar suas fraquezas, e propor-lhe metas, uma após a outra, sem deixar que julgue graves seus insucessos, ou que se esconda no “não vale a pena”. Infundir-lhe constantemente confiança e coragem. Para vencer a melancolia, a tendência à inatividade e para livra-lo de manias, não deixá-lo ocioso, mas ganhar hábitos de trabalho e de aproveitamento do tempo, preenchendo o dia com atividades úteis e concretas. E para aumentar sua atividade, mostrar-lhe um fim a que deve aspirar. Descobrir coisas que possam interessá-lo. Não combater diretamente a introversão, mas sim o gosto pela solidão, pelo isolar-se e a viver do passado: que se dê conta do bom que é ajudar as pessoas, participar de atividades em grupo, trabalhar e jogar em equipes. Procurar ser amigo dele, pois necessita de alguém que o compreenda. Devido à sua intranquilidade, necessita do afeto firme e estável dos que o rodeiam. Ao necessitar muito de orientação humana e espiritual, mostrar-se receptivo e com tempo para ouvi-lo. Orientar sua vaga religiosidade para uma religião autêntica, que crie compromissos.

        No próximo boletim analisaremos os temperamentos colérico e apaixonado. T

    Texto adaptado por Ari Esteves com base no livro “Guía práctica de caracterologia”, de José Gay Bochaca, Ediciones Internacionales Univertarias, Madri. Sugestão de leitura: “Conheça o seu filho”, de Anna Maria Costa, Editora Quadrante, São Paulo. Imagem de Pixabay.

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  • Emotividade: Características

    Emotividade: Características

    1 – A emotividade. 2. Atividade. 3 – Inatividade. 4 – Ressonância. 5 – Quadro caracterológico

    1 – A emotividade

        Para muitos autores os caracteres temperamentais do ser humano compõem-se pela emotividade (ou não-emotividade), atividade (ou não-atividade) e ressonância (primariedade ou secundariedade). Todo ser humano possui a capacidade de comover-se, sendo que a maioria das pessoas reage subjetivamente de modo proporcional à provocação externa, porém o emotivo se comove mais facilmente que a média dos indivíduos.

        Por emotividade entende-se a intensidade da comoção afetiva ou sentimental que determinado acontecimento externo causa na subjetividade de alguém. No emotivo ocorre uma desproporção entre a importância objetiva de um fato e o impacto subjetivo nele causado: diante do mesmo acontecimento sua reação será intensa; e ao não-emotivo pouco afetará. A pessoa com predominância emotiva tende a comover-se e agitar-se por coisas que depois perceberá que exagerou na reação. Na emotividade há liberação de certa quantidade de energia orgânica, que se manifesta corporal e psicologicamente pela comoção que os acontecimentos produzem na pessoa. Quando se diz que um temperamento é não-emotivo, por exemplo, não se afirma que careça dos demais traços, mas que os possui em grau inferior, enquanto a não-emotividade predomina sobre os demais.

        Manifestações corporais da emotividade: facilidade para rir ou chorar, enrubescer ou empalidecer; humor variável: o comportamento altera-se bruscamente, indo da excitação ao abatimento; é impressionável; irrita-se com facilidade; inquieto; tom de voz forte e alterado; turba-se diante de um efeito surpresa; movimentos do corpo carregados de expressividade (aperto de mão efusivo, tom de voz, etc.).

    Manifestações psicológicas da emotividade: ansiedade injustificada e desproporcional ao fato que a provocou; pode adotar atitude violenta; facilidade para o exagero; tendência a condoer-se e sintonizar-se com os sentimentos de dor ou alegria dos demais; utiliza palavras exageradas (superlativismo); tendência a falar dos demais; sensibilidade extrema às burlas; não gosta de espetáculos violentos; inteligência intuitiva e imaginação concreta; rechaça as abstrações; adere por inteiro e intensamente a qualquer projeto que o arrasta, e fica penetrado de emoção.

    2 – Atividade

        O temperamento ativo não tem nada a ver com o ativismo ou movimento contínuo de pessoas impulsivas ou nervosas (isso é apenas atividade aparente). Ser ativo não significa tanto trabalhar, agitar-se, mover-se, mas em ser espontaneamente conduzido a agir para satisfazer essa necessidade, que lhe natural. O ativo age e trabalha mais pelo gosto da atividade do que pelo resultado. Frente a um obstáculo é empurrado instintivamente a aumentar sua capacidade de ação para superá-lo. Está sempre ocupado e aplicar-se rápida e desembaraçadamente ao trabalho, perseverando nele com tenacidade até cumprir os prazos estabelecidos.

    Efeitos da atividade sobre a vida psicológica: aptidão para investigar, aprender, realizar; sua inteligência aguçada diminui a influência da emotividade; é decidido e age rapidamente mesmo em questões difíceis; é otimista, criativo, apto para a matemática.

    3 – Inatividade

        O não-ativo ou inativo ao agir parece ir contra a própria vontade; queixa-se porque o impulso para fazer algo não vem de dentro, mas é impelido por circunstâncias externas. É inativa a pessoa que desanima diante de um obstáculo, e se faz acompanhar de um certo cansaço e lentidão no agir. Parece inclinada à preguiça, mas na verdade não é preguiça, e sim carência de energia e tendência a desanimar porque sente que não conseguirá alcançar o que pretende. O inativo descuida ou posterga suas responsabilidades, carece de vivacidade no trabalho e foge dos obstáculos. Efeitos psicológicos da inatividade: favorece a passividade do espírito, enfraquece a manifestação dos sentimentos, é escravo de hábitos, evita iniciativas que possam perturbar sua inatividade.

    4 – Ressonância

        Por ressonância entende-se a repercussão que as impressões têm sobre o ânimo de cada um. A ressonância está presente em todas as pessoas, mas de modo desigual: se as impressões têm efeito imediato sobre a conduta, a ressonância é primária; se influem posteriormente, a ressonância é secundária. Os primários reagem de forma rápida e contundente diante de ofensas ou contrariedades, mas logo esquecem o fato; são superficiais e inconstantes em seus projetos. A primariedade favorece a soltura e a rapidez de reação. Já os secundários, mais tranquilos, recebem as ofensas ou contrariedades calmamente, porém as guardam, cozinhando-as, dentro de si por mais tempo; vivem mais nas lembranças do passado do que no presente; são conservadores e prendem-se às rotinas porque temem as mudanças. A secundariedade favorece a inibição, a organização pessoal, e faz criar método de trabalho.

    5 – Quadro caracterológico

        Da combinação dos três elementos – emotividade (ou não-emotividade), atividade (ou não atividade) e ressonância (primária ou secundária), resultam diferentes tipos de temperamentos. O quadro abaixo é apenas um esquema, pois não se encontra o tipo perfeito, dada a complexidade do ser humano, a determinação de sua vontade em mudar, a educação recebida… Por exemplo, o amorfo, caso tenha vontade forte e espírito de luta, poderá mudar os traços que percebe deslustrar seu comportamento. Trata-se de um ponto de referência para autoavaliar-se e para conhecer os filhos ou os educandos, a fim de intervir com mais eficácia nos aspectos caracterológicos destoantes, pois todos temos a capacidade de nos corrigirmos para melhor, se a vontade for forte:

    • Emotivo – inativo – primário: Nervoso
    • Emotivo – inativo – secundário: Sentimental
    • Emotivo – ativo – primário: Colérico ou dinâmico
    • Emotivo – ativo – secundário: Apaixonado
    • Não emotivo – ativo – primário: Sanguíneo
    • Não emotivo – ativo – secundário: Fleumático
    • Não emotivo – inativo – primário: Amorfo
    • Não emotivo – inativo – secundário: Apático

        Conhecer as características de cada temperamento ajudará n formação pessoal e na educação comportamental de crianças, adolescentes e jovens. Nos próximos boletins veremos com mais detalhes os traços positivos e negativos que resultam das combinações apontadas acima, e o modo de atuar para a melhora de cada temperamento.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base no livro “Guía práctica de caracterologia”, de José Gay Bochaca, Ediciones Internacionales Univertarias, Madri; e “Conheça o seu filho”, de Anna Maria Costa, Editora Quadrante, e Imagem de Pixabay

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  • Férias escolares: aproveitamento criativo do tempo

    Férias escolares: aproveitamento criativo do tempo

    1 – A ociosidade não descansa. 2 – O descanso familiar criativo. 3 – Livros de literatura enriquecem o pensamento e descansam. 4 – Importância das tradicionais brincadeiras infantis. 5- Atividades para adolescentes nas férias

    1 – A ociosidade não descansa

        Descansar não é ficar sem fazer nada, mas distrair-se em atividades que exijam menos esforços (Caminho, n. 357). Trata-se de um bom conselho para os pais terem em conta nos meses de férias escolares de seus filhos, a fim de que aproveitem melhor o tempo e se enriqueçam humana e culturalmente: diz o velho refrão que a ociosidade é a mãe de todos os vícios! Com inteligência, perspicácia e criatividade, os pais devem incentivar o descanso dos filhos – sejam eles crianças, adolescentes ou jovens –, e fazê-los compreender que as muitas horas passadas diante de celulares, tabletes ou TV trazem enorme enfraquecimento intelectual e fraqueza da vontade, além de facilitar a entrada em sites inconvenientes e viciantes.

        O primeiro passo para programar as atividades é ter horário de dormir e de acordar, de fazer as refeições, de findar o trabalho e retornar para casa… Um lar onde não há atividades fixas se torna um caos e favorece o empobrecimento humano e cultural de seus membros: chegar do trabalho ou da escola na hora que quiser, fazer as refeições diante da televisão ou no sofá, deixar os objetos pessoais em qualquer canto, descansar de forma isolada e não em família…. Com isso, a TV passa a ser a protagonista da casa e cria ocasiões de perdas de tempos, impede o silêncio necessário para as atividades criativas, e leva cada um a agir como bem entender.

    2 – O descanso familiar criativo

        Fins de semana, feriados e períodos de férias são oportunidades não apenas para descansar, mas para fomentar o diálogo familiar. Faz parte de uma boa rotina familiar sair aos domingos ao menos meio período, e uma vez por mês passar o dia fora.

        Os pais devem promover a cultura familiar por meio de boas rotinas distribuídas ao longo do dia, da semana e do mês: tertúlias ou bate-papos após as refeições, audição de músicas de qualidade, sessões de vídeos culturais ou filmes selecionados, leitura de obras literárias e de contos para as crianças, jogos de sala, passeios em parques ou pelo campo para curtir a natureza; visitar museus, exposições artísticas, feiras de livros; ir ao teatro infantil; cozinhar em família… Essas iniciativas facilitam que os filhos abandonem celulares e telas digitais, e criam excelente ambiente no lar para ampliar os horizontes culturais de todos.

        Em bairros periféricos das grandes cidades as crianças são forçadas a ouvir à exaustão o funk e o rap, que penetram nos lares de forma insistente através dos pancadões das vizinhanças. É importante que os pais sejam criativos e ampliem o gosto das crianças ao deslumbrá-las com outros gêneros musicais: MPB, música clássica própria para cada idade, chorinho, samba, sertanejo, blue, jaz, corais, orquestras, música instrumental… Isso pode ser feito com DVDs, pesquisa no Youtube, apresentações ao vivo…

        Em nossa época, onde impera a cultura da emoção e da imagem, os pais podem contar com o cinema como grande aliado na educação dos sentimentos dos filhos. As cenas de filmes selecionados, por conter bons enredos, tocam os afetos ao abordarem aspectos essenciais da vida humana: coragem, honestidade, lealdade, fidelidade, o que leva cada um a refletir sobre o modo como conduz a própria vida. A afetividade, onde residem os sentimentos, emoções e paixões, não deve ser ignorada no processo educativo de adolescentes e jovens. Assim, para programar filmes que aportem valores ou modelos de conduta, sugerimos visitar o site https://pablogonzalezblasco.com.br/, que possui excelentes comentários e sugestões sobre bons filmes para serem vistos em família.

    3 – Livros de literatura enriquecem o pensamento e descansam

        Promover minutos diários para a leitura dos clássicos e das boas obras contemporâneas é excelente modo de descansar e de aproveitar o tempo. A leitura forja o caráter, cura as doenças da alma, resgata a autoestima, aumenta a preparação intelectual e cultural ao incidir diretamente sobre a inteligência, amplia o nível e o alcance do pensamento, enriquece o vocabulário, melhora a forma de expressar o pensamento escrito e ora, e faz ganhar com a experiência do outro (“escarmentar em cabeça alheia”, diz o ditado): “Sem a arte narrativa – e aí se enquadra o cinema – o ser humano teria que contar tão só com suas próprias experiências, o que significa que se veria obrigado a aprender tudo desde o princípio. Sem conhecer a Odisseia, o homem não saberia nada da fidelidade de Penélope; sem Shakespeare ignoraria as dúvidas de Hamlet, o amor de Romeu por Julieta. Sem Dom Quixote, teríamos que descobrir por conta própria a diferença entre ver o mundo como é e vê-lo como deveria ser” (Krzysztof Zanussi, filósofo e cineasta polonês).

        É preciso nutrir a veia criativa das crianças por meio da contação de histórias e sessões de leitura para elas. Essas atividades deixam um legado para a vida toda, que é o gosto pela leitura. Na internet há vários vídeos com dicas sobre contação de histórias e leituras interativas.

        No site https://staging.ariesteves.com.br/literatura-infanto-juvenil/, há inúmeras sugestões de livros por idade. Caso o adolescente não esteja habituado a ler livros, sugerimos iniciar pela literatura infantil, tão apreciada também pelos adultos (o famoso filósofo C.S. Lewis, professor de Oxford, durante toda sua vida leu contos de fadas, duendes, animais que falam, reis e rainhas…).

    4 – Importância das tradicionais brincadeiras infantis

        Educar as crianças na realidade do dia a dia, e não na irrealidade das telas digitais, oferece oportunidades para incentivá-las a desenvolver bons hábitos ou virtudes. Surgem nas férias excelentes maneiras de fomentar as clássicas brincadeiras infantis, essenciais para o desenvolvimento motor e intelectual das crianças: criam novas habilidades, ajudam a explorar o imaginário com o “faz de conta”, fixam a atenção, desenvolvem a estratégia e o raciocínio lógico, sociabiliza e favorece o autodomínio… Infinitamente melhor do que ficar passivamente diante de telas são as brincadeiras de pular corda, amarelinha, pião, queimada, batata quente, pega-pega, bolinha de gude, passar anel, empinar pipa, esconde-esconde, cinco marias, telefone sem fio, stop ou adedanha, jogo da velha, bolinha de sabão, entre muitas outras. No site https://quindim.com.br/blog/jogos-e-brincadeiras-antigas/ há explicações de como promover essas brincadeiras.

        Criar acampamento em casa, fazer sessões de história e de leitura, jogos de tabuleiro, brincadeira no jardim ou no parque de esguichar água um no outro, ginástica em grupo… Os jogos de inteligência, como o quebra-cabeça, xadrez, lego, damas, de memória, entre outros, resgatam as crianças das telas digitais. Passeios em parques, jardins ou campo são ótimas ocasiões para se conhecer os tipos de flores, árvores, pássaros e insetos que circulam nesses ambientes.

        A ”oficina de brinquedos” solta a imaginação das crianças ao transformar em brinquedos garrafas pet, rolos de papel toalha, caixa de leite, embalagens descartáveis de produtos de cozinha e limpeza.

        Visitar exposições de arte com crianças exige certa estratégia. Trata-se de criar uma espécie de jogo com elas. Antes de ir ao local, entrar no site da exposição e gravar ou imprimir os quadros ou esculturas que as crianças mais apreciaram. Depois, no local da exposição, pedir a elas que localizem as obras escolhidas (nunca diga que a escolha é feia, pois inibirá a espontaneidade da criança), e pergunte a cada uma, caso fosse a artista, que mais colocaria na obra de arte. Com isso, a criança fixará a atenção nos detalhes para imaginar o que mais poderia acrescentar.

    5- Atividades para adolescentes nas férias

        Sem horário de dormir e de acordar não se pode planejar nada seriamente, nem crescer em virtudes humanas. É medicamente comprovado que as pessoas em condições normais de saúde precisam de 7h30 a 8h de sono por dia, sem necessidade de tirar a sesta após o almoço, a fim de não ficarem preguiçosas e com ânimo arredio a qualquer esforço físico ou mental. Portanto, se um adolescente dorme às 22h, poderá pular da cama no horário fixado, por exemplo, às 6h30, para cumprir o planejado: tempo de asseio, café da manhã e iniciar as atividades programadas.

        Quais ocupações os adolescentes podem se dedicar nas férias? Dependerá da situação de cada um: quem foi mal em algumas disciplinas do ensino fundamental ou médio, deverá dedicar uma ou duas horas diárias para melhorar o desempenho nessas matérias. Também poderá adiantar o estudo das disciplinas que cursará após as férias.

        O aluno que passa muito tempo em games e redes sociais, certamente tem dificuldades com a redação, caligrafia discursiva (só escreve com letras de forma) e desconhece a grafia das palavras. A falta de leitura leva muitos adolescentes a reter apenas a sonoridade das palavras, e não sua grafia: ao invés de escreverem a “gente foi passear”, anotam “agente foi passear”, “seromano” e não “ser humano”. Soma-se a essa carência a de não saber colocar pontos finais no mesmo parágrafo ao concluir uma ideia, enchendo-o de vírgulas: Minha família é muito legal (caberia um ponto final após essa ideia), agente (a gente) se gosta muito (poderia ter outro ponto final), vamos passear e viajar junto (caberia colocar aqui outro ponto final e um “s” em junto), minha mãe e meu pai amo eles… As férias ofertam a possibilidade de mudar o triste panorama do analfabetismo funcional, onde adolescentes e jovens já não reconhecem as palavras e, por não compreender os textos que leem, não captam as ideias centrais para explicar o conteúdo do que foi lido.

        Os pais, mesmo não sendo professores de português, devem perceber as dificuldades que os filhos têm para escrever. Para isso, basta pedir que redijam um texto curto (dez linhas, por exemplo) sobre um fato cotidiano, e depois ler ou apresentá-lo a um amigo que possa lê-lo e orientar sobre o modo de corrigir as carências apresentadas.

        Uma sugestão para melhorar a escrita dos adolescentes e jovens, é a leitura do livro de contos “Brás, Bixiga e Barra Funda”, de Antonio de Alcântara Machado, que escreve frases curtas e com ponto final, fáceis para os adolescentes “pegarem” o jeito do autor e passar a imitá-lo, sem necessidade de enfrentar as complicadas regras gramaticais.

        Na aritmética, muitos jovens falham nas contas de multiplicar e de dividir, e atribuem a culpa à pandemia ou à escola pública. Mas, se forem sinceros, deverão atribuir a culpa à falta de interesse em estudar por conta própria, seja em livros ou por meio de aulas gratuitas no Youtube. Aproveitar as férias para aprofundar nessa disciplina escolar.

        O período de férias é excelente momento para o filho ou filha conferir a faculdade pública ou privada que pretende ingressar, e iniciar o preparo para o vestibular com um ou dois anos de antecedência, seja o ENEM, Fuvest ou outro. Para decidir sobre a carreira que pretende fazer, caso haja dúvida, é preciso examinar os dotes naturais e o gosto pessoal para depois escolher, entre as carreiras que utilizam tais competências, aquela que mais se ajusta ao gosto, e à qual poderá imaginar-se a trabalhar nela pelos próximos anos. Para isso, na dúvida entre um curso ou outro, a sugestão é verificar pelo site de cada instituição de ensino, as disciplinas que a carreira irá percorrer nos anos do curso, optando por aquela que mais se ajusta às preferências e competências pessoais.

        As férias são também oportunidades para desenvolver algum hobby para o qual tenha talento: desenho, pintura, aprender um instrumento musical, treinar uma modalidade esportiva, xadrez, jardinagem, voluntariado em algum projeto social, aprender um idioma, iniciar alguma coleção.

        Outra sugestão para evitar a dispersão em mil assuntos ou curiosidades oferecidas pela internet e redes sociais – o cérebro não consegue ordenar o excesso de informações desencontradas –, é concentrar o interesse dentro de um campo do saber. Para isso, dedicar-se mais profundamente a algum tema científico, cultural ou artístico, seja por meio de lives, vídeos, áudios, cursos online… Com conhecimento mais aprofundado em algum tema, poderá o jovem contribuir para a formação humana e cultural de familiares e amigos, além de poder colaborar com aulas e palestras em alguma ONG e enriquecer o debate cultural.

    Texto produzido por Ari Esteves. Desenho de Charles Parker

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  • Caráter – Temperamento – Personalidade

    Caráter – Temperamento – Personalidade

    1 – O desenvolvimento do caráter depende da vontade. 2 – Cada pessoa é responsável pelo caráter que possui. 3 – Temperamento. 4 – Personalidade. 5 – Muito temperamento e pouco caráter

    1 – O desenvolvimento do caráter depende da vontade

        Por vezes ouvimos expressões do tipo “é uma pessoa de caráter” ou “falta-lhe caráter”. Caráter tem um sentido mais psicológico e está ligado à racionalidade, ao querer da vontade, à retidão ou falta de retidão de consciência, à compostura, ao modo de ser e de agir pensado e desejado. Em outras palavras, o caráter se centra na vontade, nos valores éticos assumidos pela pessoa, e está influenciado pelo intelecto e pela vontade, sendo possível modificá-lo para melhor ou pior, dependendo dos hábitos, conceitos e da vontade de cada pessoa.

        Não há determinismo ou congelamento do caráter porque o homem, ao agir livremente, poderá empenhar-se para ganhar os traços de caráter que não possui (por exemplo, ser mais seguro, corajoso, ordenado, laborioso) ou modificar aspectos negativos dele (deixar de mentir, de aceitar subornos, de falar mal dos outros, vencer a preguiça…).

        Adolescentes e jovens habitualmente se deixam influenciar ou conduzir pelos sentimentos, impulsos e afetos, tornando-se necessário que adquiram força de caráter com a educação que lhes é oferecida. Para isso, é importante ajudá-los a fortalecer a vontade por meio do cumprimento de suas responsabilidades diárias. Assim, terão forças para não se deixar levar exclusivamente pelo gosto da sensibilidade, que os inclina apenas ao prazenteiro, a fim de atuar por meio da vontade.

    2 – Cada pessoa é responsável pelo caráter que possui

        A vontade é chamada de apetite da inteligência, pois seu querer tem fundo racional, livre (diferente do gostar ou não gostar próprios dos sentimentos e paixões, que são irracionais). A vontade expressa unidade pessoal, não sendo o resultado de uma coleção de tendências inatas e agrupadas. A vontade se é forte impõe unidade e hierarquia no conjunto dos apetites, tendências e hábitos. Dado que o caráter tem base intelectiva, a vontade é causa e efeito do caráter. Por isso, se afirma que cada um é responsável pelo caráter que possui, porque é possível superar e transcender o biológico (temperamento) por meio da educação e do esforço por adquirir virtudes. Ou seja, o carácter tem a possibilidade de melhorar ou piorar, já que depende do esforço de cada um.

        O caráter está vinculado à parte mais espiritual ou intelectiva-volitiva, sendo possível modificá-lo pelo uso que a pessoa faça do seu querer livre e responsável, e recebe influências dos fatores culturais, do meio em que vive, da família, educação recebida, das amizades. O caráter se forja pelo esforço pessoal, sendo a forma secundária (não primária) de reagir aos estímulos do ambiente: a resposta de cada pessoa dependerá de ter controlado ou não seu temperamento, sentimentos e paixões por meio da vontade. Se o caráter é uma resposta secundária e não espontânea, supõe que os impulsos inferiores da pessoa se encontrem submetidos ao influxo das faculdades superiores (inteligência e vontade).

    3 – Temperamento

        Já ouvimos expressões do tipo “é uma pessoa de temperamento difícil” ou “é ansioso e agitado”. O temperamento é o produto da incidência entre o corpo (fundo vital) e o anímico-espiritual (instintos e afetos da personalidade), e está mais condicionado aos fatores genéticos, à herança transmitida pelos pais. Trata-se do conjunto de inclinações inatas, próprias do indivíduo e resultantes de sua constituição físico-psicológica, intimamente ligadas aos fatores bioquímicos, endócrinos e neurovegetativos, que imprimem uns traços distintivos à conduta primariamente operativa da pessoa.

        O temperamento, mais ligado à biologia, é a forma de reagir diante dos estímulos do ambiente; é a resposta ou reação primária que cada um apresenta segundo seu tipo ou estrutura constitucional, independente do querer da vontade, mas que deve ser controlado por esta: se cada um não é responsável pelo temperamento que possui, é causador do caráter que tem.

        As disposições hereditárias têm grande plasticidade e aceitam modificar-se, sobretudo se há luta e atuação de uma vontade forte que desenvolva as virtudes contrárias aos aspectos negativos do temperamento: por exemplo, o entusiasmo, a espontaneidade afetiva e a emotividade exagerada recebidas do fundo vital (ler abaixo), são traços temperamentais que poderão ser modificados dentro de uns limites razoáveis, desde que a pessoa se empenhe para isso.

    4 – Personalidade

        A personalidade está formada pelo caráter (que sofre influência do meio ambiente, educação, profissão, etc ) e pelo temperamento (com seus instintos, afetos, tendências, e fundo vital). A noção de caráter está muito ligada à de personalidade, entendendo-se por esta o resultado das funções e propriedades correspondentes a três níveis biopsíquicos da pessoa, que Lersch aborda da seguinte maneira:

    1. Corpo, com sua anatomia e seu estrato básico e elementar constituído pelo “fundo vital”, que é o funcionamento orgânico com suas funções básicas de nutrição, crescimento e procriação. Dessas funções surgem as tendências ou impulsos do instinto de conservação (alimentação, agressão e fuga) e instinto sexual, surgindo dessas funções os estados afetivos de prazer e dor. Os animais participam desse fundo vital.
    2. Alma, com sua zona apetitiva, impulsos, instintos, tendências e paixões que constituem o segundo estrato da pessoa, e que nascem independentemente do “eu consciente”, mas que pelo “eu consciente” devem ser dirigidos. Esses apetites e instintos também são comuns aos animais, que não conseguem controlá-los por lhes faltar racionalidade.
    3. Espírito, onde residem a inteligência, memória e vontade, de níveis superiores e racionais, que devem atuar sobre os estratos inferiores, fazendo com que a pessoa aja por determinação e consciência próprias (os animais não possuem este estrato).

        O fundo vital e a zona apetitiva estão mais ligadas ao temperamento; sendo que o caráter se constitui pelos estratos da atividade superior volitiva-racional. A personalidade engloba as três dimensões acima citadas, e com isso se explica que no homem haja unidade e hierarquia: se uns estratos podem influenciar outros, a decisão de agir ou não, de seguir ou não as tendências inatas, será sempre do “eu consciente”.

    5 – Muito temperamento e pouco caráter

        Pessoas que se deixam levar pelos seus impulsos instintivos são chamadas de temperamentais (ou sentimentais), pois têm na realidade muito temperamento e pouco caráter. Como foi explicado, o temperamento não é um destino inalterável, rígido: iniciar o quanto antes a mudança é o ideal, a fim de não deixar cristalizar-se modos de ser indesejados, principalmente se carregados desde a infância. Uma pessoa com força de vontade e virtudes sabe desenvolver um caráter firme e reto, dominar seu temperamento e construir uma rica personalidade.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base no livro “Guía práctica de caracterología”, de José Gay Bochaca, Ediciones Internacionales Universiarias, Madrid, España, 2003.

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  • Não dê celular ao seu filho

    Não dê celular ao seu filho

    1 – As telas impedem apreciar o mundo ao redor. 2 – Imprudência dos pais que colocam telas digitais para os filhos. 3 – A criança necessita da realidade ao seu entorno. 4 – Ensinar a desejar o desejável

    1 – As telas impedem apreciar o mundo ao redor

        Crianças nascidas a partir de 2010 pertencem à chamada Geração Glass (vidro em inglês, em referência às telas), porque nasceram em meios às imagens e podem passar horas e horas diárias diante de tabletes, smartphones, computadores, laptops. Vários estudos informam que crianças expostas por longas horas às telas digitais têm seu cérebro estimulado por altas doses de dopamina, que é um neurotransmissor relacionado ao prazer, à satisfação. A dopamina pode ocorrer dentro da normalidade, por exemplo, ao assistir a um bom filme, fazer uma boa refeição, praticar esporte; ou pode ser estimulada em altas dosagens provocadas pelos vícios, tal como o da bebida, drogas, pornografia, e agora também o das telas.

        A realidade normal, o convívio com os pais e irmãos, o estudo, a leitura de contos, as brincadeiras sozinhas ou com os amigos, um passeio na natureza, se tornam tediosos e desestimulante porque trazem menor nível de prazer para crianças acostumadas às telas. Habituadas a ver e a fazer apenas o que é agradável à sensibilidade, não conseguem controlar seus impulsos e dizer “não” a si mesmas, nem a ouvir um “não”: o resultado é a falta de autodomínio, o encerrar-se em si mesmas, ter atitudes de desobediências, fugir das responsabilidades. Há relatos de crianças que reagem com extrema rebeldia e agressividade ao ser retiradas delas as telas. Um adolescente, em verdadeira crise de abstinência porque o proibiram de utilizar o celular, chegou a bater a cabeça contra a parede para machucar a si, e logicamente a seus pais com tal atitude. É fácil antever nessas crianças o menor desempenho em matemática, linguagem, física, química. Soma-se a isso o risco a que estão expostas pelas muitas horas na internet: pornografia, pedofilia… Quando um adolescente envereda pelos sites pornográficos, obceca-se por isso e perde o interesse por estudar, conviver com as pessoas, sonhar com algum projeto, etc.

    2 – Imprudência dos pais que colocam telas digitais para os filhos

        Não se trata de ser contra a tecnologia, mas de saber utilizá-la. O excesso de informações, sons, cores e estímulos deixam saturada a sensibilidade e o cérebro da criança, que não consegue ordenar tantos temas desencontrados. A quantidade de imagens e de situações apresentadas durante um minuto na televisão não permite que a sensibilidade (sentimentos, emoções, paixões) tenha tempo de se manifestar corretamente, gerando com isso atitudes de indiferença diante de situações que reclamariam, por exemplo, um sentimento de dor ou de misericórdia, porque foram abafados pelas sucessivas imagens. Existe um período crítico em que as crianças precisam ter um nível de estímulo proporcional à capacidade cognitiva, e não uma enxurrada de estímulos que prejudica a atenção devido à entrada de tantas informações desencontradas, que mais do que estimular a inteligência, anula a capacidade de pensar e relacionar, e tudo fica reduzido ao periférico.

        Há pais que colocam telas diante dos filhos pequenos para ter tempo de descansar, cuidar da casa, trabalhar; ou porque são levados a isso pelos produtores de programas que afirmam ser importante para aumentar os neurotransmissores ou o nível de inteligência dos filhos; para que os filhos não sejam analfabetos digitais; ou para controlar onde eles estão (isso só fisicamente, pois a cabeça e o coração poderão estar em locais indesejados). O que se constata é que o excesso de telas torna as crianças passivas e com preguiça mental para criar seus jogos, estar sozinhas com seus próprios pensamentos; perdem habilidade para o que exige esforço racional como montar lego, encaixar cubos, xadrez, jogos de memória, quebra-cabeças. O gosto por estudar e o interesse pelas realidades ao seu entorno também vão por água abaixo. Essa inabilidade chega ao extremo de não saberem prestar atenção em alguém que pretenda manter uma conversação com elas. Afirmar que se tornam mais inteligentes e que são crianças multitarefas é uma balela que várias pesquisas de institutos norte-americanos vêm provando ao contrário (ler o livro Educar na realidade, de Catherine L’Ecuyer, Editora Fons Sapientiae). Quanto a serem analfabetos digitais, não se deve ter receio disso, pois quando os filhos crescerem e chegarem ao mercado de trabalho, toda a tecnologia de hoje será obsoleta e digna de exposição em museus.

        Inteligente não é quem recebe um monte de informações, mas quem sabe selecioná-las e conectá-las entre si com objetivos concretos. A farta exposição às telas tem aumentado o índice de hiperatividade e desatenção das crianças, cuja memória também deixa de apoiar a cognição porque se tornou um armário entupido de bugiganga. Além do analfabetismo funcional, temos agora crianças com déficit de inteligência porque utilizam mal a capacidade de pensar, desestimulada pela sucessão de imagens e estímulos visuais que apagam o encantamento e a curiosidade natural pela realidade, e o gosto por descobrir o ser das coisas.

    3 – A criança necessita da realidade ao seu entorno

        Sem a interface humana ou diálogo com um adulto, fica difícil para a criança criar vínculos afetivos profundos com seus pais, compreender a importância dos valores ou modelos de conduta que estão por detrás de certas realidades, captar critérios diretamente explicados a ela para que possa distinguir entre o certo e o errado. A criança necessita de um interlocutor que a olhe nos olhos e fale com ela para transmitir acolhimento, segurança e que a anime a fazer suas próprias experiências. Essa relação dialogal ensina a criança a gesticular, a manifestar seus pensamentos e sentimentos, a dar entonação normal a uma conversa, o que não ocorre com as crianças a quem lhes falta a interação humana, substituída pelas imagens com suas habituais cenas exageradas e situações limites para estimular nelas sentimentos de alegria, tristeza ou medo, com o fim de captar a atenção delas. Com isso, se tornam crianças desfocadas da realidade e de si mesmas, e não aprendem a interagir ou expressar-se sem imitar os modos exagerados dos personagens das telas.

        São os pais, e não as telas, que ensinam as crianças a serem temperadas e a terem valores firmes para saber agir em busca do que é bom, a fim de não ficarem à mercê do que lhes é imposto pelas telas. Uma criança não tem o senso crítico desenvolvido, e necessita da carinhosa, paciente e insistente vigilância dos pais, que em curto espaço de tempo conseguem que seus filhos aprendam a distinguir entre conteúdos bons e ruins, para fazerem boas escolhas por si mesmos, já que muitas vezes os pais não estarão ao lado para ajudar na eleição.

        Os pais devem ser os intérpretes da realidade para seus filhos pequenos, ajudando-os a conhecer gradativamente as coisas ao seu redor. Se as telas são a interface entre a criança e o seu mundo, uma enxurrada de situações passará a acomodar-se dentro dela, sem distinguir entre o bom e o ruim, pois seus pais deixaram de ser seus intérpretes. A criança exposta ao excesso de telas age por motivações externas, dependente das iniciativas que lhe são impostas desde fora, e passa a viver à base de recompensa, tem medo ou ansiedade das coisas que são custosas, já que habituou-se a apertar botões de aparelhos eletrônicos para ter tudo facilmente. Torna-se uma criança não motivada para sair de si mesma e retornar à realidade e ser generosas para não brigar com o irmão, para visitar uma pessoa doente, para ajudar em alguma tarefa do lar.

        Crianças que agem por motivações interiores são capazes de criar o seu mundo a partir de dentro, de sua imaginação e das realidades que observou pausadamente e as incorporou dentro de si. Deve haver um tempo de maturação, de desenvolvimento daquilo que dever ser absorvido na biografia da criança. Se não há memória de vivências não haverá experiências. As brincadeiras são uma ferramenta importante para o aprendizado: o silêncio e a conversa consigo mesma para dar sentido aos potes de embalagens plásticas oferecidos a ela para brincar, a compreensão das regras dos diferentes jogos, o controlar seus impulsos para respeitar os parceiros de brincadeiras, são realidades que as crianças desvinculadas de telas digitais possuem. Porque passaram a explorar o mundo ao seu redor, elas sabem explicar melhor suas vivências, calmamente apreendidas; e quando não compreenderam algo, tiveram tempo de recorrer aos pais: a lagarta que se transformou em borboleta, a árvore que começou a transformar suas flores em frutos, os diferentes insetos que surgiram no jardim num dia de chuva ou aqueles que perambulam pelas paredes e vasos da casa… Mais facilmente essas crianças estarão dispostas a outras motivações interiores, tal como saber perdoar, privar-se de uma coisa para dar a alguém, preparar uma brincadeira para tornar felizes os irmãos e os amigos, perguntar para entender um assunto, ajudar os pais na arrumação da casa…

    4 – Ensinar a desejar o desejável

        Platão diz que o objetivo da educação é ensinar a desejar o desejável, e o que é o desejável senão o bom, belo e verdadeiro? Ir ao encontro do que é belo e verdadeiro exige um querer racional, sendo necessário ajudar as crianças nessa tarefa, pois dada a inexperiência de vida, elas tenderão a procurar apenas o agradável aos sentidos. Cabe aos pais fomentar o gosto por realidades superiores: Deus, leitura de contos (ler para elas se forem muito pequenas), passeio pelo campo e parques sem medo de que se machuquem, brincadeiras que incentivem a criatividade; visitas culturais a museus e exposições, tornando essa atividade uma espécie de jogo onde a criança deverá encontrar as obras que viu antes no site da exposição.

    Texto produzido por Ari Esteves com base em live do Canal Youtube de Sâmia Marsili. Imagem de Kaku Nguyen.

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  • O preguiçoso se cansa antes de trabalhar

    O preguiçoso se cansa antes de trabalhar

    1 – A experiência da fraqueza humana é universal. 2 – A preguiça é causa de muitas injustiças. 3 – Com a virtude da fortaleza se combate a preguiça. 4 – Não matar o tempo. 5 – Ajudar as crianças a vencerem a preguiça

    1 – A experiência da fraqueza humana é universal

        Cansaço é o que sentimos depois de um dia de trabalho; preguiça é o que sentimos antes de trabalhar, disse Agostinho, de Hipona. Preguiça é a tendência de fugir dos deveres; é o desgosto ou tristeza diante do esforço que o cumprimento das obrigações reclama. Já se disse que a eficácia da vida de uma pessoa tem muito a ver com a sua capacidade de vencer a preguiça, pois as coisas importantes custam, e as mais importantes custam mais. Só quem é capaz de vencer-se realiza algo que vale a pena.

        A experiência da fraqueza humana é universal, e atire a primeira pedra quem não falhou muitas vezes por preguiça diante do que deveria fazer. Quantas vezes nos propomos a realizar algo que nos custa um pouco e fugimos da tarefa: regime para emagrecer, exercícios físicos, iniciar pontualmente um trabalho material ou intelectual… É que no fundo há um querer incompleto − um querer-não-querer – devido a resistência da própria afetividade, que é o conjunto das emoções, afetos, sentimentos e paixões que nos fazem gostar ou desgostar das coisas: se algo custa esforço, os sentimentos podem protestar e se resistirem a realizar, mesmo que a inteligência tenha revelado que deveria ser feito. Uma vontade fraca torna-se cúmplice dos sentimentos, e leva a chamar de preguiçoso aquele que se deixou vencer pelo sentimento de desagrado diante do que deveria fazer.

    2 – A preguiça é causa de muitas injustiças

        Não se dá muita importância à preguiça, pois ela se apresenta com cara divertida, marota, inofensiva: não fazer o bem parece ser menos grave do que fazer o mal. Mas a preguiça é um câncer e causa de muitas injustiças, sejam familiares, quando os pais que não corrigem os filhos; profissionais, quando se realiza um trabalho mal feito; ou sociais, quando um funcionário público ou de empresa privada não realiza bem sua tarefa; quando as autoridades não intervêm para que seja prestado melhor serviço público. A preguiça também é causa de injustiças quando os cidadãos de uma comunidade não dedicam tempo para ajudar aqueles que mais necessitam, seja por meio de ONGs ou por outras iniciativas.

        O excesso de conforto, o tempo demasiado em divertir-se, o afeiçoar-se desordenadamente a um trabalho ou esporte podem paralisar em detrimento de outras responsabilidades, como por exemplo, familiares, onde a pessoa pode ceder sem contradizer suas atividades prazerosas. Algumas atividades que afagam os sentimentos ou as paixões são rapidamente deletérias: jogos de azar, álcool, drogas, pornografia, pois quando se incrustam na imaginação fazem calar a consciência, que fica obscurecida, e debilitada a vontade. Só se conserva a liberdade e a capacidade de tomar decisões justas quando se consegue o controle dos bens que podem arrastar por sua forte atração. É necessário fazer com que esses bens ocupem o seu devido lugar, pois prometem muito e acabam por dar pouco: quem não controla suas paixões torna-se marionete de seus impulsos e desejos.

    3 – Com a virtude da fortaleza se combate a preguiça

        As atrações afetivas ou sentimentais são boas e causa de felicidade quando apoiam as ações para a consecução do que deve ser feito, e não ao contrário, já que a preguiça é causa de insatisfações, tristezas e frustrações. É necessário educar a sensibilidade ao tirar o brilho demasiado que os objetos possam exercer sobre ela, fazendo a pessoa ceder sem a menor resistência.

        Importa combater os hábitos de preguiça, pois distorcem a biografia pessoal. Não existe outro tratamento contra a preguiça senão por meio de virtudes, principalmente a da fortaleza, que crescerá à medida que se vence em pequenas batalhas diárias: acordar e dormir no horário; deixar ordenados os objetos pessoais ao concluir um trabalho; servir aos demais nos diferentes encargos que exigem a familiar, tais como lavar os pratos, fazer as compras, manter ordenadas as roupas, enxugar o banheiro…; não adiar o cumprimento de uma tarefa; chegar pontualmente aos compromissos; atuar quando os filhos agem mal…

        É fácil esquecer as responsabilidades que pesam sobre os ombros de cada um, conformando-se apenas em dar um jeito nas coisas, e deixar-se arrastar por falsas razões para ficar de braços cruzados. Ao considerar as próprias responsabilidades, é preciso renovar cada dia, logo pela manhã, o propósito de não ceder à preguiça, mas de enfrentar os afazeres com otimismo, persuadido de que com isso se alcança a perfeição humana a que todos são chamados diante de Deus.

    4 – Não matar o tempo

        Na vida de cada pessoa se apresenta a tentação da passividade e da preguiça, e em vez de procurar o modo de resolver as dificuldades objetiva, se deixa levar por falsas desculpas que paralisam o esforço. Muito interessante é a parábola narrada por Cristo, onde um administrador entrega parte de seus bens a três empregados, a fim de que estes negociem e obtenham algum lucro para ele, até que regresse de uma viagem. Essa história revela que Deus concede a cada pessoa dons ou qualidades com as quais deve negociar e servir aos demais mediante seu esforço pessoal, e que um dia será cobrado por isso. O interessante dessa parábola é que um dos funcionários foi preguiçoso e, ao invés de negociar com o único bem que recebeu, escondeu-o para não o perder, a fim de devolvê-lo intacto ao patrão. Agiu assim porque não queria ter trabalho algum, mas apenas se refugiar na passividade. Talvez se tenha achado mais esperto que os outros por ter abandonado o seu único instrumento do seu trabalho, e optado pelo comodismo para matar o tempo. Nessa história, o “espertinho”, contrariamente aos outros dois funcionários que fizeram render os bens recebidos, ficou sem argumentos para justificar sua poltronice diante do patrão, que o despediu do trabalho.

        É pena viver matando o tempo, que deve ser aproveitado para fazer render as qualidades pessoais. Se alguma vez a preguiça invade em qualquer das suas manifestações, é o momento de lutar contra a excessiva compreensão que cada um tem para consigo mesmo. Por vezes pensamos demasiadamente na saúde e no descanso, que não devem faltar porque são necessários para voltar ao trabalho com forças renovadas. Porém, descansar não é ficar ocioso, mas distrair-se em atividades que exijam menos esforços.

    5 – Ajudar as crianças a vencerem a preguiça

        Os pais não devem temer exigir dos filhos. Com paciência e carinho devem ajudar as crianças a vencerem a preguiça, pois elas também são vítimas desse defeito e, por não terem experiência de vida, necessitam ser orientadas. Se ajudadas, em pouco tempo elas adquirirem hábitos para a vida afora, e ficarão agradecidas pela insistência de seus pais. É obrigação dos pais exigir dos filhos que coloquem no lugar as próprias roupas e o material esportivo, que façam diariamente a cama ao acordar, enxugar o box do banheiro para o próximo encontrá-lo seco, colocar no lugar a mochila, chegar pontualmente às refeições. É preciso admoestar a que abandonem formas sorrateiras de preguiça: interromper o estudo para ver o celular ou ir ate a geladeira. Vale insistir também que cresçam em espírito de serviço e cumpram os encargos familiares que lhe foram atribuídos, antes de sair para brincar. Outra forma de ajudar as crianças a vencerem a inatividade de ficar horas e horas vendo desenhos, é incentivá-las a praticar jogos de inteligência: xadrez, quebra-cabeça, damas, jogos de memória, montagem de legos, entre outros.

        Crianças a partir dos 2 anos ou 2,5 anos gostam de obedecer a seus pais para agradá-los, e facilmente ganham o hábito de serem ordenadas. Para isso, a menina deve ser exigida com afeto a se acostumar a colocar as bonecas na caixa de bonecas, os pratinhos na de pratinhos, as panelinhas na caixa de panelinhas; o menino, a guardar os soldadinhos na caixa de soldadinhos, carrinhos na de carrinhos, bolinhas na de bolas, lego na de lego, etc. O que não podem é jogar tudo dentro de um mesmo recipiente! Como não sabem ler nessas idades, é inevitável que os pais diferenciem as caixas ao colar o desenho correspondente do lado de fora. Evidentemente, a criança de 2 anos ou 2,5 anos não percebe que está adquirindo a virtude da ordem, mas logo notará que muitos coleguinhas do infantil ou fundamental são desordenados, bagunçados e preguiçosos, e que para ela não custa esforço algum agir corretamente. Ou seja, aos seis anos perceberá que tem a virtude da ordem, que faz parte da virtude da fortaleza.

    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Imagem de Pixabay.

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