Categoria: EDUCAÇÃO

  • Educar filhos quando se é só

    Educar filhos quando se é só

    1 – A ausência definitiva de um dos cônjuges. 2 – Não ancorar-se no passado. 3 – É possível educar quando se é só? 4 – O que afeta a ausência de um dos pais. 5 – Educar com realismo e ajudar a que os filhos pensem nos demais.

    1 – A ausência definitiva de um dos cônjuges

        Educar os filhos é acompanhá-los ao longo da vida. Essa tarefa deve ser realizada a dois − pai e mãe −, sendo que o olhar de ambos sobre cada filho deve ser o mesmo. A falta do pai ou da mãe supõe um grande baque nesse caminho. Nem todas as famílias estão completas. Por vezes, a morte pode lançar por terra muitos projetos. São momentos que exigem uma mescla de fortaleza e decisão para olhar o futuro e não ancorar no passado.

        Diversos estudos demonstram que a influência materna sobre os filhos é maior dos 0 aos 7 anos, e a influência paterna passa a ser maior na adolescência e juventude, diminuindo a da mãe: se a influência paterna nos inícios é complementar passa a ser fundamental nesses anos difíceis da adolescência. A falta de um dos cônjuges, que pode ocorrer de improviso ou como algo anunciado, sempre deixa um grande vazio no labor educativo, e ninguém fica ileso. A ausência de um dos pais determinará o modo de educar os filhos. É diferente que faleça um dos pais ou que se dê uma separação pelo divórcio: neste último caso, a decisão é pessoal e se toma com todas as suas consequências; no caso da viuvez é um modo de vida não escolhido.

        Para os filhos é muito mais difícil sofrer uma separação pelo divórcio do que a ausência definitiva do pai ou da mãe pela morte: para a criança, essa ausência definitiva não foi desejada previamente, e a criança não alberga nenhuma dúvida sobre a sinceridade ou autenticidade desse nexo: há dor, mas não dúvida de quanto era amado pelo que faleceu. Na idade de 7 a 12 anos, os filhos entendem bem o significado da morte, e é um fato que não deve ocultar ou maquiar ou dar falsas expectativas que não se cumpriram, tal como “foi de viagem”. Não se pode privar um filho dessa experiência, que o fará alcançar maior grau de maturidade. A dor sempre vai estar presente, pois nunca se espera ficar viúvo ou órfão. Porém, quanto antes aceitar esse fato, melhor.

    2 – Não ancorar-se no passado

        É normal que figura da pessoa que partiu tenha sua presença na família, mas não se deve ficar ancorado no passado. Seria errôneo idolatrar a figura que passou a faltar, enchendo a casa de fotos e mencionando-a em tudo e para tudo, porque se estaria educando com base em algo que já não pode incidir objetivamente nas vidas: “se teu pai estivesse aqui…”, e não se sabe bem o que se quer conseguir com isso, ou para onde conduzirá tal atitude. Algo diferente é recordar o dia da morte, ir ao cemitério, lembrar-se do dia do aniversário, pois o falecimento é um fato objetivo e introduzido na vida da família.

    3 – É possível educar quando se é só?

        Com a partida definitiva de um dos cônjuges fica uma incerteza: se antes a responsabilidade das decisões era compartilhada, agora é preciso decidir solitariamente, sem poder partilhar acerca do êxito ou fracasso de uma decisão tomada. Por isso, é preciso conversar com pessoas de critério, amigos experientes e sensatos, orientadores familiares, ler livros e artigos sobre a educação dos filhos, tendo sempre presente que educação dos filhos é um motivo muito importante para se agarrar e lutar, e não cair na nostalgia de uma ausência.

    4 – O que afeta a ausência de um dos pais

        Quando um adolescente perde um dos pais, o primeiro que afetará é a consciência de segurança. Também será prejudicada a facilidade de aprender, pois esta tem muito a ver com a estabilidade de ânimo. O desenvolvimento dos filhos necessita de um entorno básico que dê pontos de apoio e segurança, que o faça abrir-se para o mundo: se a morte do pai ou da mãe é visto como tragédia, acabará repercutindo nos estudos, nas amizades, no caráter.

        Em algumas ocasiões, sobretudo no princípio da separação, poderá existir a tentação de recluir-se, esconder-se e não se relacionar. As primeiras festas de Natal sem o outro são muito dolorosas. No entanto, para o bem dos filhos, é preciso sobrepor-se e favorecer que cresçam em um ambiente rico em ralações: os avós, os primos, tios, amigos. A relação com os familiares é fundamental, pois esse entorno continuará proporcionando segurança. Em especial, é preciso continuar estreitando os laços com a família daquele que partiu.

        O mesmo ocorre nos assuntos escolares: ao se convocar os pais para uma reunião, é bom que os filhos notem que continuam importando para o seu pai ou mãe, que oculta a sua dor e vai à reunião. Não cair na obsessão de buscar um substituto. O que, sim, se deve buscar é a naturalidade de seguir com o que fazia antes: praticar esporte e participar das mesmas atividades de antes com seus companheiros, ir passear, etc.

        O pai ou a mãe que permaneceu terá que compaginar duas realidades: carinho e firmeza ou autoridade de pai com a ternura de mãe. Isso é um desafio, mas se consegue com o decorrer do tempo. Alguns especialistas dizem que pode ocorrer a tendência, especialmente da mãe, de se superprotetora dos filhos, protegendo-os demais e inibindo sua vontade ou capacidade de reação. Por isso, é preciso fazer os filhos crescerem em autonomia, deixando-os participar de atividades no colégio, esportes…

        A não ser que o filho seja bastante maduro e responsável, e tenha idade adequada (ao redor dos 20 anos), é preciso evitar que caia abusivamente sobre os filhos menores as responsabilidades daquele familiar que passou a faltar. Uma coisa é apoiar-se nos filhos e fomentar a responsabilidade deles, outra é fazer que saltem ou percam a etapa da infância, principalmente se for menina.

    5 – Educar com realismo e ajudar a que os filhos pensem nos demais

        Em resumo, é necessário abrir-se à esperança. Apesar da situação dolorosa de uma morte, é possível seguir adiante. Realismo e relações que ajudem amadurecer, como a de desenvolver o espírito de serviço e de ajuda solidária para com as pessoas que sofrem a carência de bens materiais ou espirituais, são os dois pilares para a educação dos filhos diante da ausência definitiva de um dos pais. A morte de um dos pais não deve se converter em um tabu: as crianças de 7 a 12 anos devem poder falar disso com seus amigos de maneira natural. Em algumas ocasiões, os filhos se sentem envergonhados da situação, como se tivessem culpa. A nova situação deve ser enfrentada com realismo. A partir dos 8 ou 9 anos, filhos e filhas entendem o que é a morte. É preciso contar a verdade: câncer, acidente… E sobretudo alertar sobre as dificuldades que irão passar a partir desse momento, mas que os ajudará crescer em maturidade, fortaleza, espírito de serviço e maior união com os que permanecem.

        Uma mãe ou um pai não pode ser substituído por nada. Simplesmente é preciso atuar a partir desse fato. Por isso, evitar cair na tentação de prodigalizar presentes ou objetos na tentativa de preencher esse vazio. Se antes, a educação era compartilhada, agora é preciso buscar novos pontos de referência para avaliar o acerto ou não das decisões educativas. Como já foi dito, ler livros sobre educação, perguntar a bons amigos, participar de associações de pais ou mães que educam sozinhos porque estes podem compreender melhor a situação.

    Texto traduzido e adaptado por Ari Esteves, com base no artigo ”Padres viuvos. Educar cuando se esta solo”, de Ricardo Regidor e Mercedes Tajada, Revista Hacer Familia, n. 71, Madri, España.

  • A vida como tarefa a realizar

    A vida como tarefa a realizar

    1 – Ser feliz é anseio de toda pessoa. 2 – Perda do sentido da vida. 3 – Ter um ideal é motor para as ações. 4 – Para gestar um ideal de serviço ao próximo. 5 – Cada um é ator de sua própria história

    1 – Ser feliz é anseio de toda pessoa

        Ser feliz é o anseio de toda pessoa. O que torna uma vida feliz? A felicidade não é um bem solitário, mas tem em vista o bem de outras pessoas. Yepes, em seu livro Fundamentos de Antropologia, diz que a vida humana não se constrói solitariamente: se não há um alguém, um destinatário a quem oferecer os esforços, a vida fica aborrecida, sem sentido. O esforço pessoal deve ser um dom ou benefício aos demais. Quem não tem alguém para compartilhar, sente-se só. Entregar-se aos demais é o modo mais intenso de amar, e ajuda a encarar com mais fortaleza as dificuldades, já que o bem almejado não é somente para si, mas tem um beneficiário. A felicidade está em saber amar, em tornar feliz a pessoa amada: ser feliz é destinar-se à pessoa amada. Se ficar truncada a capacidade de amar, a vida humana perde sentido. O engano da vida fácil ou a falta de capacidade para o sacrifício torna ausente qualquer motivação e faz perder o sentido da existência pessoal: se não há um projeto de serviço aos demais não se pode ser feliz, pois a trilha do egoísmo conduz à tristeza.

        “O que se necessita para conseguir a felicidade não é uma vida cômoda, mas um coração apaixonado”, disse Escrivá de Balaguer. O que preenche o coração humano não são coisas, mas o amor às pessoas, sendo a primeira delas Deus e, por Ele, as demais, iniciando pelas mais próximas. O grau de felicidade de alguém está na sua capacidade de amar: trabalhar na enfermaria de um hospital, montar redes de internet para facilitar a vida dos demais, administrar uma empresa, estudar medicina ou preparar aulas são tarefas em benefício dos demais, e os esforços não teriam sentido se não houvesse a quem dedicá-los. Por isso, se diz que o mais profundo e elevado do homem está em seu interior, e que a felicidade afeta a pessoa em seu espírito, sem confundir-se com sentimentos que passam, nem com o prazer pontual que acaba ou com a posse de objetos que se estragam ou se tornam obsoletos. Há pessoas que não encontram sentido na vida e se enganam enchendo-a de prazeres que rapidamente necessitam ser substituídos.

    2 – Perda do sentido da vida

        Há uma forte crise de projetos vitais, e muitos não sabem por onde seguir por falta convicções ou verdades e valores a que se inspirar. Quem não encontra razão para viver não se lança e fica desmotivado, e o coração se empequenece por falta de ideais, ou porque os projetos são exíguos e não vale a pena se arriscar por eles, ou porque se teme o esforço de de realizar algo que vale a pena. A falta de um projeto de serviço aos demais, o engano da vida fácil, torna insípida a existência. Há pessoas que por falta de um projeto se enganam e passam a trabalhar e a viver apenas para usufruir de pequenos prazeres pontuais: academia, passeios, vídeos, comidas, muito esporte, baladas, novo aparelho eletrônico, viagens… Com isso, transformam em finalidades de sua existência o que deveria ser apenas um meio para descansar e retornar ao projeto maior com ânimo renovado. Outros, ainda, trabalham apenas para si e sua família, e fecham os olhos às necessidades materiais, espirituais, culturais e profissionais que carecem tantas pessoas ao seu redor. É preciso motivar com palavras, exemplo e ações propositivas aqueles que se tornaram indiferentes aos que sofrem.

    3 – Ter um ideal é motor para as ações

        Qual é a missão que me cabe, sem a qual a minha história perde sentido? É conhecida a história de um homem que perguntou a vários operários sobre o que faziam: um deles disse que carregava tijolos, outro que levantava uma parede e o terceiro afirmou que construía uma catedral que atravessaria os séculos e onde as pessoas poderiam encontrar a Deus. Essa ideia finalística é importante: não dou apenas aulas de física, ou faço a limpeza do prédio, cozinho ou opero computadores: com a minha atividade facilito a vida das pessoas para que estas possam, por sua vez, colaborar com sua atuação para tornar melhor a vida das pessoas deste nosso mundo. A minha motivação, o meu esforço, as minhas qualidades são um dom, um benefício para os colocar ao serviço dos demais.

        Quando um ideal se apodera de alguém, vem a ser o motor de suas ações, pois a ele se voltam a inteligência, a vontade e os sentimentos. Para isso, é necessária a experiência do silêncio e da reflexão, que criam o ambiente adequado para amadurecer o pensamento e desenvolver um projeto para o qual vale a pena gastar-se. Quem é profundo e não fica apenas nas impressões superficiais das mil imagens e notícias das telas digitais, quem penetra no fundo das questões sabe por onde orientar sua vida. É preciso ter a capacidade de acolher a verdade até ficar fecundado por ela, gerando, assim, ações que podem transformar o mundo. Todos os grandes projetos ou realizações em prol da humanidade, seja no plano moral, artístico e científico, foram gestados na vida espiritual e na solidão de grandes homens: Pasteur, Dante, Cervantes, Jérôme Legeune, Dostoievski, Shakespeare, Ampére, Thomas Edison…

    4 – Para gestar um ideal de serviço ao próximo

        A palavra maturidade significa estar no ponto, sazonado, e por extensão faz referência à plenitude do ser. Costuma-se distinguir três campos fundamentais da maturidade: maturidade intelectual, que não estaciona nas curiosidades superficiais, mas aprofunda-se nas questões importantes por meio da leitura e da reflexão, a fim de atuar de modo correto sobre a realidade; maturidade sentimental para canalizar a própria sensibilidade e fazê-la reagir positivamente diante das necessidades que se apresentam, sem abater-se pelas dificuldades que o empreendimento exigirá; e maturidade social, que leva a ver a sociedade não como oportunidades de network, mas como possibilidade de ajudar ou aliviar as necessidades dos que sofrem.

        Não faltarão dificuldades para se colocar em prática um projeto pessoal de serviço aos demais: a escassez de tempo, a tendência humana de ter uma vida egoísta e centrada em si, medo ao sacrifício para colocar em prática um projeto… A fé em Deus, o espírito de sacrifício e a maturidade pessoal são elementos necessários para seguir adiante e não se deixar abater pelas dificuldades ou pessimismos. Buscar conselho possibilita não errar o caminho e dá segurança ao agir, pois sozinho é mais fácil naufragar diante de momentos difíceis. Estudar, ler, ouvir para melhor compreensão da realidade que se pretende melhorar; depois, unir amigos para essa causa, dando a eles oportunidades de colaborar e preocupar-se pelos outros, ajudando-os a fugir da vida egoísta a que tantos se enclausuram.

    5 – Cada um é ator de sua própria história

        Um ideal valoriza os talentos, as habilidades e as tendências inatas. Carlyle disse que “o viver é uma conjugação ininterrupta do verbo fazer”. Por isso, cada um deve examinar suas possibilidades, gostos e tendências para aproveitá-las na busca de um afazer que torne melhor a vida das pessoas e o mundo que o cerca.

        Cada pessoa é o ator principal de sua história, sem dublê ou intérprete. Todos recebemos gratuitamente capacidades e competências que devemos agradecer a Deus e tirar partido delas para servir aos demais. O Papa Francisco ao falar aos jovens – todos podem ser jovens de espírito! − disse: “Peço-lhes que sejam construtores do futuro, que se metam no trabalho por um mundo melhor. Queridos jovens, por favor, não balconeen a vida, metam-se nela como fez Jesus” (discurso a jovens em 27-07-2013). Balconear é observar os acontecimentos de longe, comodamente, sendo que o equivalente no Brasil seria “assistir o jogo da arquibancada e não entrar em campo”.

        O boletim A escolha de princípios ajudará a buscar um ideal pelo qual vale a pena dedicar a vida.

    Texto produzido por Ari Esteves, inspirado nos ensinamentos de Ricardo Yepes e Javier Aranguren Echevarria, no livro “Fundamentos de Antropologia – Um ideal de excelência humana”, editado pela Livraria e Instituto Raimundo Lúlio, São Paulo. Imagem de Fauxels.

  • As boas rotinas

    As boas rotinas

    1 – As boas rotinas nos aperfeiçoam. 2 – Sem rotinas tudo seria improvisações. 3 – Dar motivos mais altos às tarefas de sempre. 4 – As boas rotinas familiares. 5 – Rotinas também nos fins de semana

    1 – As boas rotinas nos aperfeiçoam

        A sabedoria se esconde atrás das rotinas, que nem de longe visam transformar cada pessoa em robô, mas são caminhos para se chegar à disciplina interior e ao autocontrole. Sem rotinas não haveria virtudes, pois estas são hábitos adquiridos pela repetição de atos bons. A boa rotina especializa, aumenta o espírito de responsabilidade, faz perseverar no aperfeiçoamento do serviço que se oferece. Uma famosa dançarina disse: “Eu não procuro ser melhor do que as outras; procuro ser melhor do que eu mesma”. Sem repetir uma e outra vez nossas ações, como chegaremos à perfeição delas?

        A vida é um contínuo começar e recomeçar. O sol, a lua, as estações do ano, os horários dos ônibus e do metrô, o trabalho e o descanso. Tudo o que é levado a sério não deixa de se converter em repetições, em hábitos, pois sem previsibilidade se instalaria o caos. A natureza tem suas leis que se repetem para o nosso bem. Se as estações do ano não chegassem no momento esperado, seria uma confusão saber o momento de plantar e de colher. Portanto, se até o mundo irracional tem suas rotinas – porque tem uma Inteligência por traz −, então podemos aprender do irracional a racionalidade das boas rotinas.

        Cada dia é diferente do anterior e do seguinte, e nem sempre os problemas de hoje serão os de amanhã. Mas, ao colocar essa variedade sob controle, criamos rotinas e com isso nos sentimos seguros. Dizem que a vida é elástica, pois tem muitas variações. Mas elástico quer dizer que tenderá sempre a voltar ao modelo original: o que deixa de ser elástico passa a ser rígido, sem vida, e logo se rompe.

    2 – Sem rotinas tudo seria improvisações

        As rotinas dão ordem à nossa vida exterior e interior e facilitam os processos diários. Todos gostamos e necessitamos da repetição e da ordem, pois sem isso não haveria trabalho eficaz, a vida familiar seria um caos, as empresas deixariam de cumprir e oferecer bons serviços. Como melhorar a qualidade de um trabalho sem o repetir uma e outra vez? Haveria apenas improvisações e se passaria a contar com o acaso para as coisas saírem bem. Então, já não haveria bons profissionais, mas apenas amadores. Todos sabemos que o bom artista, o bom atleta ou o bom profissional, seja de que área for, tem que cumprir um horário exigente, um plano de trabalho rigoroso, repetir ações, a fim de não ser uma simples amador. Um bom cirurgião fez milhares de vezes os mesmos procedimentos, o bom futebolista repetiu centenas de vezes o mesmo chute para colocar a bola no ângulo desejado…

    3 – Dar motivos mais altos às tarefas de sempre

        Mas, é preciso estar atento para evitar que as más rotinas ocupem espaço no dia a dia: momentos diários em redes sociais, internet, games e curiosidades são rotinas que fazem decrescer humana e espiritualmente. Em tais casos, seria necessário ter a prudência e a fortaleza de introduzir boas rotinas nos horários dedicados às más: ler obras literárias, assistir vídeos para melhorar a performance das qualidades pessoais a fim de melhor servir aos demais, entre outras.

        Para realizar as tarefas de sempre com ânimo renovado é preciso dar motivos mais altos. Para isso, podemos adotar a sugestão de Escrivá de Balaguer de que uma hora de trabalho é uma hora de oração. Ou seja, ao dar a cada tarefa um fim mais alto, de amor, a enobrecemos e afastamos o perigo da monotonia, do trabalhar por inércia, distraídos e sem criatividade.

        É certo que também gostamos de variar, e de quebrar a rotina de vez em quando, mas dentro de um certo controle. Ao variar, logo ansiamos retornar ao de sempre, como nos finais de férias desejamos retornar aos afazeres do dia a dia. Nem sempre quebrar a rotina ajudará, a não ser que seja para um descanso criativo que fará retornar aos trabalhos com o espírito renovado. Para isso, não se trata de ficar sem fazer nada, mas mudar de atividade: quem tem um trabalho intelectual, descansará fazendo esporte; quem tem um trabalho manual descansará lendo ou assistindo a um bom filme. Não é por almoçar em qualquer horário que nos sentiremos melhor, nem por chegar ao emprego em horários diferentes trabalharemos melhor.

    4 – As boas rotinas familiares

        Os pais devem promover a cultura familiar por meio de boas rotinas, como as tertúlias ou bate-papos familiares, audição de boa música em dias determinados da semana, sessões de bons vídeos, leitura de contos para as crianças, visitas a museus e livrarias, idas a parques ou campos para curtir a natureza. Essas boas rotinas facilitarão que os filhos abandonem o uso de celulares e telas digitais.

        As boas rotinas familiares criam no lar um excelente ambiente para o crescimento humano e espiritual de seus moradores: horário de dormir e de acordar, horário das refeições, horário de findar o trabalho e retornar para casa; horário de ler, estudar ou descansar… Excelente rotina familiar é promover a leitura dos clássicos, pois forja o caráter, cura as doenças da alma e resgata a autoestima. Com a leitura aumenta-se a preparação intelectual e cultural, porque ela incide diretamente sobre a inteligência e faz aumentar o nível e o alcance do pensamento, faz melhorar a forma de expressar o pensamento escrito e oral, enriquece o vocabulário e faz ganhar com a experiência do outro (“escarmentar em cabeça alheia”, diz o ditado). Porém, a leitura, que é também excelente modo de descansar e de aproveitar o tempo, necessita de que no lar haja um clima de harmonia e silêncio.

        A falta de boas rotinas transforma o lar em caos e conduz cada um a agir como bem entender e de forma egoísta, sem pensar nos demais: a chegar do trabalho ou da escola na hora que quiser, a fazer as refeições diante da televisão ou no sofá, em deixar os objetos pessoais em qualquer lugar. Um lar onde o almoço e o jantar diários não têm horários definidos; onde a TV, permanentemente ligada, se torna ocasião de perdas de tempos e não favorece a leitura, a audição de boas músicas, o bate-papo familiar, o estudo. Toda essa indisciplina se torna deletéria para o crescimento humano e espiritual de cada membro da família.

        As rotinas dos encargos que cada membro da família deve cumprir – das crianças aos adultos – se inserem dentro da virtude da ordem, e trazem imensos benefícios a todos os membros da família, e também às crianças: é fonte de estabilidade e segurança ao dar certeza sobre o que fazer em cada momento, faz crescer o sentido de responsabilidade, promove a disciplina interior ao deixar uma atividade e iniciar outra, controla os afetos que tendem apenas ao prazeroso, facilita a obediência, cria na casa um ambiente sereno onde a televisão e outras mídias se mantém desligadas e só serão utilizadas de modo programado e em horários pré-determinados, o que permite que as pessoas tenham tempo para pensar, ler, dialogar ou concentrar-se em suas tarefas…

    5 – Rotinas também nos fins de semana

        É importante que os pais compreendam que a rotina tem sabedoria por trás, não sendo meramente externa, pragmática, tal como buscar uma eficiência organizativa para transformar as pessoas em objetos fabricados em série. É algo muito maior, ligado ao enriquecimento interno de cada membro da família. A rotina é o caminho para a criança alcançar disciplina interior e controlar a afetividade ao se dirigir às atividades seguintes, o que facilita o hábito de dominar o próprio temperamento. De segunda à sexta-feira, a vida já traz certa rotina aos pequenos: retorno da escola, lavar-se, trocar de roupa, almoçar, estudar, encargos na casa, brincar, banhar-se, jantar, dormir. Porém, nos fins de semana os pais ficam sem entender o motivo pelo qual muitas crianças manifestam certo desgoverno na afetividade, desorientação, brigam com os irmãos, quebram objetos por acidente e são desobedientes. Isso pode ocorrer porque os pais não as ajudam a criar boas rotinas, e as deixam à mercê de caprichos.

    Texto de Ari Esteves. Imagem de Anna Nekrashevich.

  • Educar para a solidariedade

    Educar para a solidariedade

    1 – Ensinar a compreender e ajudar aos que sofrem. 2 – A solidariedade é causa de alegria. 3 – Ações solidárias começam na família. 4 – Promover ações solidárias no entorno social

    1 – Ensinar a compreender e ajudar aos que sofrem

        Na encíclica “Fratelli tutti” (todos irmãos), o Papa Francisco lembra a passagem evangélica do Bom Samaritano, e diz: “existem simplesmente dois tipos de pessoas: aquelas que cuidam do sofrimento e aquelas que passam ao largo; aquelas que se debruçam sobre o caído e o reconhecem necessitado de ajuda e aquelas que olham distraídas e aceleram o passo. De fato, caem as nossas múltiplas máscaras, os nossos rótulos e os nossos disfarces: é a hora da verdade. Debruçamo-nos para tocar e cuidar das feridas dos outros? Abaixamo-nos para levar às costas o outro? Este é o desafio atual, de que não devemos ter medo” (FT, 70).

        A solidariedade é a capacidade de compreender o sofrimento dos demais, e faz agir para minimizar essas dores ou dificuldades. Há comportamentos que revelam solidariedade ao dar o próprio tempo aos demais. Quando os filhos abandonam hábitos egoístas (meu tempo, meus jogos, minhas coisas, meus planos, meu esporte, meu, meu, meu…) e aprendem a colaborar, serão mais felizes.

        Os pais devem mostrar satisfação ao observar que o filho teve uma atitude compreensiva em relação a outra pessoa, como também devem manifestar desaprovação se ele foi insensível. Se um filho se concentra apenas em assuntos pessoais e não se envolve em tarefas que não revertam em vantagens apenas para si, seja no lar ou fora dele, nunca aprenderá a trabalhar bem, pois o trabalho é sempre um serviço prestado aos outros e não um modo de ser servido.

    2 – A solidariedade é causa de alegria

        A generosidade é virtude que torna feliz a pessoa; o egoísmo é vício causador de tristeza. A solidariedade, fruto da virtude da generosidade, torna magnânimo o coração e dá aos que a possuem a alegria do amor, que sempre exige sair de si para doar-se aos demais. Os filhos que percebem as necessidades dos outros, tanto na vida familiar quanto na social, aprendem a não reclamar das pequenas carências ou incomodidades, e sabem reconhecer e agradecer o esforço dos pais para levar adiante o lar.

        Muitas pessoas só vivem para satisfazer seus caprichos e prazeres, e por isso sofrem inutilmente ao ver frustrado o desejo de ter algum bem supérfluo! Um coração não solidário é fortemente atraído pela publicidade digital que a cada cinco minutos, e de forma atraente à sensibilidade, faz inúmeras ofertas tidas como “indispensáveis” para a vida. Educar o coração para a solidariedade é ter um modo de vida sóbrio, desprendido, e pensar nos demais. Os pais devem ensinar desde cedo as crianças a fugirem do assédio consumista, dos modismos e grifes.

    3 – Ações solidárias começam na família

        Não deve ser necessário à mãe pedir ao adolescente para limpar o quintal, recolher a sujeira que o cachorro deixou ou manter em ordem o quarto e objetos pessoais. Um filho sensível, consciente de suas obrigações − porque lhe foi ensinado desde criança a ser solidário − faz tudo isso sem que lhe peçam, pois se sente movido pelo amor que deve se manifestar primeiramente em obras de serviço aos seus pais e irmãos. Porém, como nem sempre essa sensibilidade está à flor da pele, é necessário que os pais incentivem os filhos, desde pequenos, a empreenderem ações de serviço dentro da família: manter suas roupas e brinquedos em ordem, dispor a mesa para as refeições, cuidar de um irmão enfermo ou ajudá-lo nas disciplinas escolares, levar o lixo para fora, fazer compras, limpar a casa… Muitas mães postaram no Youtube diversos serviços domésticos que podem ser atribuídos aos filhos, nas diferentes faixas etárias (confira em staging.ariesteves.com.br/tarefas-para-criancas/). Essas tarefas ajudarão a incutir nas crianças o espírito de serviço e de prontidão, que as tornará solidárias e participantes na construção de um lar alegre, limpo, ordenado, onde todos contribuem par isso. Filhos sem tarefas familiares se sentem meros hospedes com a falsa ideia de serem sujeitos apenas de direitos e não de obrigações, o que os torna senhores feudais tendo servos os pais.

    4 – Promover ações solidárias no entorno social

        A sociedade atual, sacudida e desagregada por tensões e conflitos, e por inúmeros individualismos e egoísmos, pode ser modificada se os filhos crescerem não só no sentido de justiça, mas no de amor e solicitude desinteressada pelos demais, especialmente pelos mais carentes. Para isso, podem ser estimulados a promover obras de solidariedade na sociedade em que vivem. Por exemplo, junto com um amigo pode visitar a casa de repouso de idosos do bairro ou um orfanato, e levar doces ou tocar algum instrumento musical para alegrar por alguns momentos os que ali vivem; podem também promover na escola ou no bairro campanhas de doação de alimentos para famílias carentes. Ao filho ou filha de 4 a 6 anos, o pai pode animar a doar brinquedos que estejam em boas condições e não são mais utilizados, indo visitar com a criança alguma família carente do bairro, a fim de ofertar os brinquedos. Tais ações, além de evitar a indiferença e o egoísmo de pensar em si mesmos, construirá na alma dos filhos o desejo futuro de se empenharem na solução de tantos problemas sociais.

    Texto de Ari Esteves. Imagem de Klrill Ozerov.

  • Quando o mundo nos fala

    Quando o mundo nos fala

    1 – Há muitas maneiras de olhar para uma mesma realidade. 2 – Pensar bem antes de clicar o play de uma imagem. 3 – O olhar egoísta torna a alma insensível. 4 – A temperança faz contemplar o mundo com um novo olhar

    1 – Há muitas maneiras de olhar para uma mesma realidade

        Há diversas maneiras de olhar para a mesma realidade: um fotógrafo ou pintor olhará para uma mesa repleta de alimentos de modo diferente do olhar ansioso do glutão. Em nosso dia a dia, olhamos para um outdoor da cidade de modo diferente daquele que contemplamos um nascer ou pôr de sol. As diferentes formas de olhar não ocorrem apenas pelas circunstâncias do momento, mas têm a ver com o modo de nos relacionarmos com o mundo.

        Olhar para a realidade de uma maneira nova é não se fixar em um aspecto ou na utilidade do que temos diante dos olhos. Chama-se olhar contemplativo aquele que não procura apropriar-se de modo egoísta daquilo que vê, mas que se mantém em prudente distância para descobrir o algo divino que ali se esconde.

        A virtude da temperança modera o desejo de açambarcar as realidades para usufruir delas de modo possessivo. A palavra latina temperare significa “misturar as coisas em sua dose certa”. A pessoa temperada não se deixa absorver pelo imediato, mas vai além, pois sua atitude aberta, atenta e silenciosa a predispõe para ir ao núcleo das coisas, e aprender do mundo que a rodeia.

    2 – Pensar bem antes de clicar o play de uma imagem

        Ser temperado no desejo de conhecer permite o olhar contemplativo que atinge o núcleo das realidades que permeiam o mundo. O olhar intemperado e de insaciável curiosidade que borboleteia de uma coisa para outra, tal como quem procura imagens nas redes sociais, se detém apenas no periférico do mundo, pois só deseja buscar o prazer da percepção sensível ou o gosto fugaz do consumo de novas informações: é a “concupiscência dos olhos”, de que fala João em seu Evangelho. Tomás de Aquino diferencia a curiosidade da estudiosidade, sendo que esta última encontra a dose justa (temperada) do desejo de conhecer, removendo os obstáculos que impedem chegar à raiz ou profundidade dos elementos contemplados, sem se importar com o esforço e fadiga que o processo de aprendizagem acarreta.

        Muitos cedem à curiosidade porque preferem ficar na periferia de sua existência ou das coisas que observa. É conhecida por todos a frase de Cristo de que o olho é a luz do corpo, o que permite dizer que o olhar contemplativo ilumina a mente e o coração, o que fez Ele observar que os lírios do campo se vestiam melhor do que o Rei Salomão! O olhar fugaz cega cada vez mais para ver com profundidade a si próprio. Navegar à toa pelas redes sociais e internet traz experiências insensatas que confundem a mente e o coração, impedindo a pessoa de habitar em si mesma. O mundo da distração impede o esforço de ir à interioridade pessoal, onde se encontra Aquele que pode saciar a sede de cada pessoa. Agostinho, Bispo de Hipona, no Século IV, expressou esta experiência assim: “Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas. Estavas comigo, mas eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem”.

        O olhar que penetra até o núcleo das realidades é sereno e detém-se sem pressa na contemplação das realidades, e antes de clicar o play de uma imagem, indaga-se se isso é verdadeiramente relevante. O sábio prescinde do que faz mal à alma, e do que impede o desenvolvimento do pensamento, e assim livra-se de muitas escravidões.

    3 – O olhar egoísta torna a alma insensível

        O olhar possessivo da pessoa intemperada filtra tudo pelo interesse imediato e egoísta, e só tem um ponto de mira, sendo que tudo o mais se torna opaco como a visão de um animal que procura apenas saciar seu apetite. Quem age assim vê o mundo pelo benefício imediato que pode receber dele.

        A intemperança é destruidora e torna a pessoa insensível para perceber as nuances dos acontecimentos e das pessoas que a cercam, o que torna suas decisões arriscadas pela falta de um autêntico conhecimento da realidade: o guloso, preso pelos prazeres do paladar, não percebe a criatividade e beleza de uma mesa artisticamente bem-posta; e ao não desfrutar do estético, pouco poderá ter uma conversa enriquecedora com alguém.

        O olhar interesseiro não percebe as necessidades dos demais, e influi negativamente nas relações com os outros, pois tende a considerar as pessoas do ponto de vista do benefício que podem trazer ou do favor que poderá obter. A cegueira do espírito que faz não perceber a singularidade e a riqueza da personalidade do outro, provém de uma consciência distorcida pela intemperança, que conduz o coração a buscar torcidos interesses: quem manipula o próximo não é capaz de amar verdadeiramente.

    4 – A temperança faz contemplar o mundo com um novo olhar

        A temperança faz contemplar o mundo com um novo olhar, que descobre maravilhas insuspeitadas. A moderação purifica o coração e cria uma relação serena que desenvolve a sincera atitude de não se deixar arrastar pela utilidade e benefício que as pessoas ou realidades podem oferecer. O primeiro efeito da temperança é trazer tranquilidade à alma, fruto de uma ordem interior. O olhar desprendido e limpo percebe os verdadeiros tesouros, faz crescer a sensibilidade para notar os detalhes preciosos e diversos que as realidades e as pessoas possuem, tal como o olhar não utilitário, mas contemplativo dos artistas e poetas.

        A temperança concentra as forças em projetos e ideais que valem à pena. Não olhar desnecessariamente para o celular, nem curiosear na internet durante o trabalho ou estudo, pode parecer coisa de pouco valor, mas trata-se de pequenas renúncias decisivas para concentrar as potências interiores naquilo que vale a pena: quem diz “não” àquilo que dispersa a mente, diz “sim” ao que realmente importa. Este esforço desenvolve a interioridade e contribui para fugir do superficial e perdas de tempo, e a “A vida recupera então os matizes que a intemperança descolore. Ficamos em condições de nos preocuparmos com os outros, de compartilhar com todos as coisas pessoais, de nos dedicarmos a tarefas grandes”, dizia Josemaria Escrivá (Amigos de Deus, n. 84).

        O olhar desprendido, sereno e transparente faz descobrir a beleza de tudo o que existe. A temperança faz desfrutar mais das realidades espirituais e das sensíveis ou materiais. Livrar-se da busca ansiosa do prazer e da autoafirmação, permite descobrir a beleza até nas coisas mais delicadas e discretas como a de uma pequenina flor que desabrocha entre as pregas do cimento de uma via, ou da simplicidade das pombas que sempre cedem passagens aos homens que seguem pela calçada. “Alguém disse, não sem razão, que somente o que tem um coração limpo é capaz de rir de verdade. Não é menos certo que somente pode perceber a beleza do mundo aquele que o contempla com um olhar limpo” (Pieper, As virtudes fundamentais, Cultor de Livros, São Paulo). A pessoa temperada aprofunda mais na verdade das coisas, pois o mundo lhe fala de Deus. Quem embarcar nesta aventura poderá repetir aquela exclamação de São Josemaria: “Meu Deus! Encontro graça e beleza em tudo o que vejo” (Forja n.415).

    Texto extraído, adaptado e completado por Ari Esteves com base no artigo “Y entonces, el mundo te habla”, de Maria Schoerghuber, em www.opusdei.org.es. Imagem de MIkhalL Nllov).

  • Imaturidade

    Imaturidade

    1 – Motores da conduta: vontade e sentimentos. 2 – Adultos infantilizados. 3 – Características da imaturidade. 4 – Características positivas da personalidade. 5 – Graus mais leves de imaturidade. 6 – O que torna negativa a imaturidade. 7 – Para crescer em maturidade

    1 – Motores da conduta: vontade e sentimentos

         No ser humano existem dois motores que determinam a conduta: a vontade, que segue as indicações da inteligência, e a afetividade, que é movida pela força irracional das emoções e sentimentos provocados por estímulos externos e internos. A maturidade psicológica consiste no domínio habitual da força da afetividade pela força da vontade. Nas pessoas imaturas, a memória, imaginação e pensamento, assim como a conduta, funcionam por impulsos dos estados afetivos, ou seja, emoções e sentimentos que são muito intensos e de predomínio negativo: ansiedade, temor, ira, tristeza e reagem a estímulos internos e externos.

         Uma das consequências mais importantes da imaturidade é a influência intensa que a afetividade exerce sobre a inteligência, o que faz com que essas pessoas distorçam a percepção da realidade física, pessoal e social, tendo importantes dificuldades de adaptação social. A maturidade tende com o tempo a provocar patologias de maior ou de menor intensidade.

    2 – Adultos infantilizados

         Quando se diz que uma pessoa adulta é como uma criança, ou que é um pouco infantil, se quer significar que é imatura. Também se costuma dizer que uma criança é muito madura para significar que é senhora de si, e que isso não se baseia na mera biologia, mas no comportamento dela. Considera-se maduro quem se comporta de acordo com a razão, que é a faculdade que julga se o comportamento é adequado ou não: não agir com maturidade revela que a pessoa foi movida não pela inteligência, mas pela afetividade.

         As crianças agem principalmente movidas pela afetividade, sendo que seus pais são para elas a razão e a vontade ao indicar-lhes o que devem ou não fazer. Para que as crianças se comportem como os pais querem, devem gerar nelas emoções e sentimentos mediante estímulos e medidas disciplinares, até que desenvolvam suficientemente própria razão e vontade (por volta dos seis ou sete anos). Embora dominadas pela afetividade, as crianças não são chamadas de imaturas, mas apenas de crianças. Porém, quando um adulto se comporta como criança, impulsionado principalmente pela afetividade, não o chamamos de criança, mas de imaturo, ainda que às vezes dizemos que se comporta como uma criança ou é infantil.

    3 – Características da imaturidade

         A imaturidade apresenta algumas características: sentimento de inferioridade ou diminuição da autoestima, sensação de insegurança, baixo autoconhecimento devido a uma fraca capacidade de introspecção, impulsividade, dependência emocional do ambiente devido ao baixo autocontrole. Além disso, como derivadas da fraca autoestima e insegurança, as pessoas imaturas têm escassa confiança em si mesmas e por isso vivem em permanente ansiedade ou temor.

         Derivadas das características acima mencionadas, os adultos imaturos apresentam também outras características visíveis da personalidade: intensa timidez, introversão, instabilidade emocional, excessiva preocupação, hipersensibilidade e susceptibilidade emocional, desconfiança, baixa tolerância à frustração e reações desproporcionadas perante ela, tendência a refugiar-se na fantasia, lançar a culpa nos outros, fugir das responsabilidades por medo de fracassar, excessiva necessidade de apoio e afeto dos outros. Essas pessoas correm o risco maior de serem infelizes e podem apresentar problemas psiquiátricos. A infelicidade dessas pessoas se expressa em forma de sentimentos de insatisfação e frustração, constante irritabilidade e propensão à violência verbal, e o recurso frequente ao álcool, cigarro, estimulantes, analgésicos, tranquilizantes e até drogas.

    4 – Características positivas da personalidade

         Toda pessoa possui características positivas em sua personalidade, que derivam da interação da predisposição genética e hábitos adquiridos pela repetição de atos positivos. Algumas dessas características são: bom sentido artístico ou musical, habilidade manual, grande energia física, sociabilidade, caráter divertido ou afetuoso. Porém, nas pessoas imaturas as características negativas são mais frequentes que as positivas, e a intensidade dependerá do grau de imaturidade.

    5 – Graus mais leves de imaturidade

         Há pessoas com graus leves de imaturidade que em situações externas favoráveis apresentam funcionamento psíquico e comportamento externo maduros, mais como um verniz ou fachada de normalidade, pois em situações mais difíceis elas fazem notar o seu núcleo de imaturidade em forma de condutas inadequadas. Em outros casos, o núcleo da imaturidade está oculto durante os anos de juventude, graças a um grande esforço de vontade que controla a força dos afetos negativos, mas, ao chegar por volta dos 40 anos, e com a diminuição da resistência psicológica e o declínio da força de vontade, pode-se apresentar manifestações de imaturidade, que aumentam ou se mantém no tempo com intensidade incômoda para os próprios sujeitos e as pessoas que os cercam.

    6 – O que torna negativa a imaturidade

         A imaturidade psicológica é o predomínio da afetividade sobre a vontade. Mas sendo que os conceitos de vontade e afetividade são positivos, o que torna negativa a imaturidade são dois motivos: o predomínio do inferior (afetividade) sobre o superior (razões e vontade), e um possível caráter negativo de sua afetividade, fazendo que o imaturo apresente frequentes e intensos afetos negativos, que dominam seu funcionamento psíquico e o comportamento habitual.

    7 – Para crescer em maturidade

         O ser humano possui capacidade de ter afetos positivos e negativos. Os negativos são mais frequentes e passivos, isto é, a pessoa os sofre por influência das condições biológicas ou externas (ambientais). Os positivos, ao contrário, são ativos no sentido de que dependem do esforço do sujeito para adquiri-los e mantê-los. Esse esforço é o meio imprescindível para progredir no caminho da maturidade psicológica. As pessoas imaturas não se esforçam o suficiente e por isso não conseguem o domínio voluntário da sua afetividade, razão pela qual a sua vida psicológica acaba sendo dominada por afetos negativos de grande intensidade.

         Tudo o que o ser humano possui tem uma finalidade, um sentido, e os afetos positivos e negativos não são uma exceção. Mas estes últimos, se não forem mantidos sob o domínio da razão e da vontade, a fim de que sejam adequados em intensidade diante dos estímulos que os produzem, podem deteriorar ou bloquear o funcionamento psíquico apropriado e chegar a produzir enfermidades físicas e psíquicas. Podem também ser a origem de comportamentos inadequados e perigosos para o próprio sujeito e para as pessoas ao seu redor.

    Texto extraído e adaptado por Ari Esteves com base no livro “Maturidade psicológica & Felicidade”, de Fernando Sarráis, Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2020. Imagem de Aguida Medeiros (@aguidamedeiro).

  • Os ideais e o adolescente

    Os ideais e o adolescente

    1 – Ter ideais. 2 – O ideal se conquista com esforço. 3 – Ausência de ideais. 4 – Como encontrar o próprio ideal. 5 – O futuro não depende da sorte

    1 – Ter ideais

        Ter ambições elevadas, sonhos altos de transcender a si para se pôr ao serviço dos demais, cabe no coração dos adolescentes. Aos quinze anos, muitos jovens, ao se sentir emulados, se espelharam em pessoas a quem admiravam pelo seu saber artístico, técnico ou científico, e seguiram seus passos.

        Louis Pasteur, cientista francês, cujas descobertas tiveram enorme importância na história da química e da medicina, ao tomar posse na Academia Francesa, disse: “Feliz de quem traz em si um deus interior, um ideal de arte, ideal de ciência…”. Ter um ideal, já na adolescência, é a indicação de uma meta a ser alcançada e dos meios para consegui-la. Quem tem uma direção, organiza-se para colocar em andamento o seu projeto, canaliza seus sentimentos e a determinação da vontade para esse alvo.

        Quando um ideal se apodera de alguém, vem a ser o princípio diretor das ideias, dos desejos, afetos e ações. Aspirar a algo valioso é condição necessária para dar sentido à própria existência e orientar as energias.

    2 – O ideal se conquista com esforço

        Para viver um ideal é relevante a educação nas virtudes para não ceder ao mais fácil. Formar nas virtudes requer salientar a importância da exigência pessoal, do empenho no trabalho e no estudo, no espírito de serviço aos demais, na temperança, pois esses bens estão acima dos desejos materiais e facilitam a compreensão das realidades do espírito, onde reside o verdadeiro ideal, aquela aspiração que ajudará outras pessoas.

        Quem deseja algo com entusiasmo, com sentimentos, mais facilmente enfrentará as dificuldades. É preciso armar-se de coragem para contribuir com o melhor de si ao serviço dos demais, que é o verdadeiro sentido do amor. Para isso, e preciso corrigir os traços do temperamento que se opõem à entrega de um ideal, às inclinações pessoais que não permitem tirar todo rendimento das qualidades pessoais. Ficar na base da montanha é mais cômodo que subir ao cume para divisar lonjuras. Preferir uma vida tranquila, sem dor ou embaraços deixa, por fim, um sabor amargo.

        Daniel O´Connell, líder irlandês que no início do século XIX lutou pelos direitos dos trabalhadores, quando ainda era adolescente dizia que “Ainda que a natureza não me tenha dado talentos de primeiríssima ordem, jamais me contentarei em ser medíocre na minha profissão”. Thomas Edison, americano criador de vários dispositivos de comunicação e de sistemas de energia elétrica, utilizados até hoje, e especialmente conhecido como o criador da lâmpada incandescente, disse aos seus interlocutores, que o julgavam ser um gênio: “Que balela! Afirmo que o segredo do gênio é o trabalho… O gênio se compõe de 1% de inspiração e de 99% de transpiração”.

    3 – Ausência de ideais

        Sempre encontraremos pessoas indiferentes à vida que poderemos ajudar com a nossa palavra. A ausência de convicções causa muito mal, e faz perder o tempo ao esperar por algo que nunca irá se concretizar. Não é racional andar à toa, levar a vida na flauta, sem indagar-se sobre qual é a missão que lhe está destinada, qual a contribuição pessoal para melhorar a vida de tantas pessoas que sofrem. A indiferença nesse ponto leva ao endurecimento do coração, que é a antecipação do fracasso. Quem vive satisfeito na mediocridade, na vida cômoda e egoísta, tenderá a ceder cada vez mais nesses aspectos.

        Evidentemente há aqueles que, influenciados pelos aspectos exteriores da pessoa, sonham com ideais de fama, desejo de ter influência nas mídias ou possuir muito dinheiro, mesmo que interiormente sejam vazios de valores humanos. Porém, é fato mais que comprovado por inúmeros testemunhos dos que buscaram falsos ideais, que tarde demais constataram que só se é feliz no amor, na doação, pois o egoísmo, o estar obcecado por si mesmo, conduz à tristeza. Seria bem oportuna a leitura do boletim “As motivações humanas: o que o leva a agir?”.

        No inferno de Dante as almas covardes sofrem tormentos especiais. O poeta ouve os gritos de cólera e os uivos de dor dessas almas, e pergunta ao seu cicerone: − Quem são essas almas que parecem tão profundamente mergulhadas no luto? O mestre responde: − Tal estado miserável é o das almas tristes que viveram sem infâmia e sem louvor; o céu as rejeita para que lhe não alterem a beleza. Nenhuma lembrança deles subsiste no mundo; a justiça e a misericórdia os desprezam. Não discorramos sobre eles: veja e segue”.

    4 – Como encontrar o próprio ideal

        Examinar as possibilidades pessoais. Blackie dizia que a energia moral se adquire pelo exercício dos livros e discursos, e podemos entender por isso a busca por palestras, aulas, lives, vídeos selecionados com bons conteúdos, testes para identificar as aptidões pessoais, etc. Essa busca será a sinaleira que facilitará o encontro de uma tarefa útil, que depois deverá ser empreendida pelos pés e pelo esforço da vontade. A vontade é a faculdade que age de acordo com as leis da razão, e ajudará na busca por encontrar o melhor modo de prestar um serviço útil a si e a todos. A vontade crescerá mediante o esforço de enfrentar a volubilidade de ânimo, a indolência, a apatia natural para certos esforços ou estudos. Porém, os sentimentos também podem ajudar, pois quem realiza algo com sentimentos e paixão, consegue fazer melhor, pois enfrentará com mais forças as dificuldades para atingir a meta que busca.

        Bernardo de Claraval dividia os homens em duas grandes categorias: os que querem saber só para saber, que acendem suas luzes à noite e as apagam ao primeiro clarão do dia, e se empalidecem sobre os livros para devassar os segredos da natureza ou assimilar o pensamento dos autores; e há os que trabalham para um fim mais nobre e cultivam a inteligência a fim de a consagrar ao serviço do bem. A sabedoria está em tirar proveito da instrução para transformar a própria vida em serviço aos demais: é nessa decisão de entrega, de doação de si, onde reside o verdadeiro amor e, consequentemente, a felicidade.

        Muitos dons que os adolescentes possuem são desperdiçados bobamente porque lhes falta o essencial: uma vontade forte, um caráter resoluto, um querer com tenacidade. Há uma curiosa lenda que fala de um menino que numa noite de verão contemplava as águas de um poço, e ficou maravilhado ao ver flutuar nelas infinitas estrelas. No dia seguinte, ao voltar à beira do poço não viu mais os astros e retornou triste para casa dizendo a todos que eles se tinham afogado. Hoje, a estrela de muitos adolescentes não consegue brilhar porque a inteligência deles se tornou preguiçosa, e o esforço de perseguir algum ideal que vale a pena sucumbiu diante das telas de games e celulares.

    5 – O futuro não depende da sorte

        O futuro não depende da sorte ou do acaso, mas do empenho que se coloca no momento presente. Cada pessoa é responsável pelo seu porvir, que se conquista com o que realiza agora. Já dizia Carlyle que “O viver é uma conjugação ininterrupta do verbo fazer”. Cada um deve examinar suas forças, suas qualidades, tendências e gostos para aproveitá-los na busca de um afazer que torne melhor o mundo em que vive. Para essa reflexão se pode buscar ajuda dos pais, professores ou amigos prudentes e com experiência de vida, mas a decisão será sempre pessoal.

        Enamorar-se da beleza, da verdade e do bem, faz aproveitar melhor o tempo e as horas de trabalho e de descanso, e organiza as potências espirituais e morais. A razão se torna soberana e os sentimentos e paixões se inclinam a ela. O ideal regula e ordena as ações, realça, embeleza e transforma as miudezas da vida. O ideal valoriza os talentos e habilidades e tendências inatas, desenvolve as qualidades intelectuais e as morais.

    Texto extraído e adaptado por Ari Esteves, com base na obra “Rumo à cultura”, de L. Riboulet, Editora Globo, Porto Alegre, 1960. Imagem de Pixabay.

  • Harmonia entre vontade e sentimentos

    Harmonia entre vontade e sentimentos

     1 – É imaturo quem se deixa guiar pela afetividade. 2 – O conhecimento superficial de si. 3 – Autocontrole: domínio da vontade sobre os afetos. 4 – A vontade fortalecida coloca os afetos nos eixos

    1 – É imaturo quem se deixa guiar pela afetividade

          Quando não se chega a alcançar a maturidade, a pessoa se deixa influenciar pela afetividade (sentimentos, emoções, paixões), que passa a orientar as ações, e não a decisão da vontade. Com isso, a pessoa consegue se sentir bem a curto prazo, pois faz o que lhe apetece afetivamente no momento. Isso produz prazer imediato aos sentidos (sensorial), mas logo vem a decepção ou chateação pelo dever não cumprido. Por vezes, para neutralizar esse sentimento de mal-estar, o imaturo volta a fazer coisas que lhe permitam sentir-se bem de imediato, e assim acaba caindo em círculo vicioso.

           O domínio da vontade sobre a afetividade também favorece o controle sobre as demais funções psíquicas: percepção, memória, imaginação e pensamento. No início, o exercício desse controle supõe tensão e cansaço, que a curto prazo pode ser desagradável; porém, a médio e a longo prazo, a vontade fortalecida conseguirá que a memória e a imaginação se concentrem naquilo que se está fazendo, e isso produzirá maior eficácia nas ações.

         A afetividade busca desfrutar a curto prazo daquilo que mais agrada, e por isso deve ser comandada pela razão e vontade, que buscam analisar, por meio da inteligência, os demais aspectos da realidade, o que não acontece com a sensibilidade, que busca só o que a agrada de imediato. Por exemplo, a paixão ou instinto de comer só busca a sua satisfação e pode levar o diabético a ingerir um pudim de limão; porém, a razão ao examinar outros aspectos, terá presente que a saúde é um bem maior do que o gosto instintivo, e indicará para a pessoa não comer o doce, a fim de evitar a alta dosagem de açúcar no sangue. As batalhas entre a afetividade e a vontade, quando ocorrerem, travam-se em muitos aspectos da vida psíquica. Os sentidos (ouvido, paladar, tato…) ao evitar o desagradável e buscar o agradável, excitante e divertido, o faz mesmo que isso não seja oportuno: leva a comer e a beber o que deveria ser evitado ou por em quantidades demasiadas; leva a ouvir o que agrada, mesmo que distraia das obrigações ou incomode aos demais, etc.

           A afetividade não deve ser reprimida ou anulada, mas submetida ao âmbito da inteligência, que é a capacidade reitora da pessoa humana: é a imagem do cavaleiro conduzindo o cavalo, e não ao contrário. No início será necessário enfrentar o choque entre a vontade e a afetividade: fazer o que não a agrada aos sentidos, ou não fazer o que os agrada, se isso representa uma desordem. Esse choque interno é acompanhado de algum desgosto que pode inclinar a balança para o lado da afetividade, já que para se livrar desse sentimento de desagrado a via mais rápida – e não a mais correta – será ceder em favor dos afetos e emoções, que impulsionam a escolher o que agrada de imediato.

    2 – O conhecimento superficial de si

           A maioria das pessoas tem um conhecimento superficial de si e acerca dos demais. A sociedade atual é qualificada de audiovisual e hedonista porque busca prioritariamente as sensações produzidas pelos sentidos, ao mesmo tempo que valoriza desmedidamente o corpo e a aparência física, ensina Fernando Sarráis1. Pessoas fascinadas pela maneira superficial de viver, pouco se interessam pela raiz de suas vivências interiores ou psicológicas, e por isso não são capazes de construir-se de uma maneira propriamente humana, madura, nem sabem valorizar seus aspectos interiores que, por serem mais ricos, podem oferecer muito mais: como utilizar bem um aparelho ao não saber como funciona? Ao conhecer o seu funcionamento, se desfruta mais com o seu uso.

           Perceber o que se sente em determinado momento é fácil, mas chegar a conhecer os motivos que levam a tais sentimentos não é tão fácil, pois exige conhecer o modo de ser psicológico, que tem várias camadas que podem encobrir as deficiências da personalidade. Deter-se apenas na análise superficial do comportamento é fácil, mas parcial: ter como causa de uma irritação o insulto recebido é fácil, porém, deve-se ir mais a fundo para saber se a afronta sofrida não terá como causa porque se é uma pessoa não grata por ser egoísta ou orgulhosa. O mesmo pode acontecer a quem se sente inferiorizado, pois a necessidade de ser valorizada pelos demais a faz ser muito suscetível a ponto de reagir de modo desproporcional diante de uma mínima desfeita.

           Todas as pessoas têm aspectos positivos e negativos, sejam de temperamento ou de caráter, e o desejo de melhorar, de transformar o negativo em positivo, torna a pessoa otimista, pronta para uma luta alegre e esportiva. Quem não teme identificar seus próprios defeitos, erros ou limitações é realista e chega a se conhecer com profundidade (a ausência de medo não distorce sua autoavaliação). O conhecimento realista de si vem acompanhado de um conhecimento realista do mundo, o que ajuda acertar na escolha dos meios necessários para alcançar as metas pessoais.

          Para conhecer-se com profundidade, um fator importante é gostar de si mesmo, e sentir-se valorizado não pela admiração que os demais tenham por si, mas pela própria dignidade da pessoa humana, que se fundamenta em ter sua alma criada por Deus, e pelo amor que Ele tem por cada filho seu. Ter um sadio amor a si leva a agradecer as próprias qualidades, recebidas gratuitamente de Deus, e a conhecer e a lutar contra os defeitos ou imperfeições do caráter ou do temperamento, sem nunca se sentir inferiorizado (a falta de amor a si leva a sentimentos de inferioridade). A estima de si é forte motivação para o autoconhecimento, que leva a se sentir seguro na luta por melhorar, porque se sabe aonde ir e aonde se quer chegar. O sadio amor a si impede conviver com as próprias falhas comportamentais, tal como não se quer conviver com bactérias nocivas dentro de si. Para conseguir que a afetividade não seja influenciada por sentimentos negativos que abafem a vontade, também é importante ter uma visão positiva de si, e saber rir das circunstâncias adversas, vendo nelas oportunidades de superação pessoal, pois tal atitude exerce influência favorável ao funcionamento da vontade.

    3 – Autocontrole: domínio da vontade sobre os afetos

          Em nossa época há grande interesse em conseguir uma boa aparência física, e se dá menos importância para conhecer o funcionamento dos aspectos psicológicos, a fim de que sejam maduros e sadios, razão essa de ocorrer tantas enfermidades psíquicas nas diferentes idades, inclusive na infância. Na sociedade atual, o sofrimento ou esforço não é malvisto para melhorar a performance esportiva, acadêmica ou profissional, porque é o preço a pagar pelo êxito no mundo exterior; mas não se vê com bons olhos o esforço interior para ser audaz, sincero, laborioso, casto, temperado, fiel. Porém, o desenvolvimento psicológico supõe esse esforço interior como condição para desenvolver as virtudes, necessárias para se conseguir o equilíbrio entre cabeça e coração (entre vontade e afetos): o mundo interior sendo mais rico que os aspectos exteriores, podem oferecer muito mais!

          Autocontrole é o domínio que a vontade exerce sobre as funções psíquicas e afetivas que influenciam o comportamento. Para consegui-lo é necessário um desenvolvimento suficiente da força de vontade, a que chamamos de virtude da fortaleza, que é conseguida pelo habitual treinamento de fazer o que deve ser feito, sendo isso determinado pela inteligência ou razão (no caso das crianças, pela inteligência de seus educadores). Querer fazer o que se deve ser feito é ato da vontade, e não dos sentimentos: querer é um ato da vontade ou do livre-arbítrio, e gostar é uma inclinação dos sentimentos (portanto, irracional). Por vezes, podemos não gostar do que deve ser feito, mas esse querer, sendo um ato da vontade, e esta é movida pelo amor (o amor é ato próprio da vontade), dá forças a ela para superar a falta de gosto dos sentimentos: uma mãe que levanta de madrugada para atender ao filho, o faz por amor − por um querer da vontade −, já que o gosto de seus sentimentos seria para continuar na cama.    

          No processo de aprendizado do autocontrole, também chamado de educação da afetividade, podem ocorrer três etapas:

        1ª) As crianças pequenas, porque nelas a afetividade é dominante, devem ser orientadas pelos pais.

        2ª) A etapa do equilíbrio entre afetividade e vontade na adolescência, porque essas duas potências interiores podem conflitar-se e fazer levar a uma vida dupla: agir com lógica e liberdade como se fosse adulto, ou agir sem lógica feito criança movida pelos sentimentos e emoções.

        3ª) Etapa das pessoas adultas e maduras, onde a afetividade e a vontade têm poucos conflitos, porque com frequência se age na direção do que é bom e correto. É a etapa da razão que move a vontade, e esta arrasta a afetividade atrás de si para apoiar a decisão.

    4 – A vontade fortalecida coloca os afetos nos eixos

           Nos momentos de conflito, e para superar a falta de gosto decorrente do enfrentamento entre a afetividade e a vontade, é necessário ter uma vontade forte para querer seguir o que a razão indica, e não o que determinam os afetos. Fortalece-se a vontade por meio de pequenos exercícios diários de domínio próprio: viver a ordem e a pontualidade para não ceder à comodidade da desordem, ao não abrir a geladeira fora de hora (controle dos instintos), ao colocar esforço para manter a atenção naquilo que se faz, ao cumprir uma disciplina diária (horário de dormir, de acordar e de refeições; pontualidade no trabalho, etc.). Esses pequenos vencimentos fazem não ceder imediatamente aos caprichos e comodidades, e com isso a força dos afetos diminuirá ou será canalizada para apoiar a vontade naquilo que é correto fazer.

    1Texto extraído e adaptado da obra “Maturidade Psicológica & Felicidade”, de Fernando Sarráis, Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2020, por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Desenho de Aguida Medeiros (@aguidamedeiro)

  • Inteligência ou depósito de futilidades

    Inteligência ou depósito de futilidades

    1 – Os olhos e os ouvidos são os porteiros da alma. 2 – Para ser mais profundo, selecionar os assuntos na internet. 3 – A mente preguiçosa foge dos livros. 4 – Nem tudo que gostamos deve ser feito. 5 – Saber distinguir o que é brilho falso

    1 – Os olhos e os ouvidos são os porteiros da alma

        Os sentidos externos (olhos, ouvidos…) são como que os porteiros da alma que permitem a entrada daquilo que nutre a inteligência, a vontade, a memória e a imaginação. Deixar os olhos e os ouvidos vagarem por qualquer lugar transforma a cabeça em depósito de futilidades, de quinquilharias.

        As horas e horas consumidas na internet e em redes sociais, sem critério algum e apenas para se distrair, fazem desperdiçar um tempo valioso que poderia ser utilizado para desenvolver as próprias qualidades ou talentos pessoais, a fim de melhor servir aos demais. As mil imagens que passam diante dos olhos, feito água sobre pedra, e a enxurrada de informações desencontradas, nada oferecem de substancioso e deixam um acúmulo de conhecimentos inúteis que servem apenas para tornar a mente preguiçosa e arredia a qualquer esforço para se aprofundar em assuntos que valem a pena.

    2 – Para ser mais profundo, selecionar os assuntos na internet

        Somos seres limitados, sem tempo para fazer tudo o que gostaríamos. Por isso, temos que selecionar aquilo que vale a pena, seja no campo profissional, cultural ou de entretenimento.

        Quem se aprofunda em um assunto que aprecia, ou para o qual se sente preparado, seja no campo artístico, literário ou cultural, saberá contemplar a beleza e a verdade com mais profundidade e poderá servir melhor aos demais com seus conhecimentos. Mas esse aprofundamento exigirá selecionar as buscas na internet, dando prioridade a palestras, vídeos e textos que abordem o assunto de preferência.

        O homem moderno se mexe muito, mas anda na superfície de si. Sabe da vida de artistas e esportistas, mas desconhece a si próprio. Tudo se resume em curiosidades. O excesso de imagens que consome diariamente dá a ele a ilusão de que conhece tudo, mas não sabe processar tantas informações desencontradas. Vazio de ideias próprias, seu conhecimento é periférico e só tem a espessura das telas, e se apaga com ela com um clique: sua opinião é a das mídias, pois vive do consumismo de informações e imagens.

        Ao temer refletir sobre si, o homem moderno foge do silêncio, pois este facilita o encontro consigo, e por isso almoça vendo telas, no carro liga o som em volume alto, nos transpores coletivos desperdiça um tempo para leituras com músicas no celular, ao chegar em casa se lança afoito ao controle da TV para ouvir vários noticiários. Nos fins de semana não aproveita o tempo para ler as boas obras literárias e fazer visitas culturais aos diferentes museus da cidade, pois prefere as baladas, festas, toneladas de vídeos e games para não estar em silêncio consigo. O barulho em torno de sua vida é ensurdecedor e impede a reflexão e a fala, mas isso não importa porque tem pouco a dizer. Sente tédio do domingo à tarde porque é obrigado a frear sua correria e encontrar-se consigo.

    3 – A mente preguiçosa foge dos livros

        A dispersão em mil imagens, torna fraca a capacidade de manter a atenção em algo que exija esforço, pois a mente se tornou preguiçosa e passiva, e assim, não enfrenta também as boas obras literárias. Quem gasta seis ou sete horas na semana em redes sociais, caso empregasse esse tempo para ler um bom livro, como “A morte de Ivan Ilyich”, de Tolstói, ou o “Pequeno Príncipe”, de Saint Exupéry, jamais esqueceria essas leituras, que são curtas. Porém, as horas gastas atrás de curiosidades na internet não serão recordadas no dia seguinte.

        Os grandes mestres da literatura penetram com profundidade na alma humana, e seus personagens fornecem janelas que permitem a compreensão de si e dos demais. Um verdadeiro leitor não gasta seu tempo limitado rolando telas de celulares e tabletes a procura de frivolidades, nem “lendo mil livros medíocres que embotam seu senso crítico e ferem sua sensibilidade literária” (Nicolás Gómez Dávila).

        Quem ouve uma aula ou palestra, lê um livro ou executa alguma tarefa, deve ter presente o sábio conselho “faz o que deves e está no que fazes“. Quando há luta pessoal para não dar rédeas soltas a caprichos e curiosidades, a fim de colocar os olhos, ouvidos, memória e imaginação naquilo que realiza (Tereza de Jesus dizia que a imaginação é a louca da casa), ganha rapidez de compreensão, fortalece a vontade e cresce na virtude da temperança, que sendo espírito senhoril, coloca freios na afetividade quando esta tenta desviar-se do cumprimento dos deveres.

    4 – Nem tudo que gostamos deve ser feito

        As sensações e caprichos que o corpo reclama não devem ficar à rédea solta, pois nem tudo que gostamos deve ser feito. É mais cômodo deixar-se arrastar pelos impulsos chamados primários ou naturais (comer, beber, descansar), do que enfrentar as responsabilidades. Mas ao ceder, vem a tristeza de não haver cumprido com o dever, e isso enfraquece a vontade, torna frívolo e superficial o caráter e alimenta os vícios da preguiça e comodidade, difíceis de arrancar quando se incrustam na alma.

        A temperança, tal como o sal, dá sabor à vida porque torna a pessoa dona de si, ao lhe dar força de vontade para não gastar as horas com imagens e curiosidades vãs. A temperança não supõe limitação à liberdade, mas grandeza de alma, porque privação e escravidão se encontram na intemperança de se deixar arrastar pelo falso brilho e chacoalhar de latas que embotam a alma dos que navegam sem rumo pelas redes sociais e internet.

    5 – Saber distinguir o que é brilho falso

        Muitas coisas nas redes sociais e internet brilham como lantejoulas baratas. Para encontrar o ouro é preciso peneirar o cascalho ou arrancar a ganga. Quem não faz seleção do que vê, torna sua mente uma loja de briquebraque, de quinquilharias. Quem seleciona o que vale a pena, mesmo que custe esforço e desagrade no momento, percebe que o sacrifício foi apenas aparente, e que ao exigir-se ficou livre daqueles mil fiozinhos que prendem ou atam o coração e tornam a vida estéril. Daí a importância de buscar o que vale a pena, a fim de preparar-se melhor profissionalmente e participar com criatividade e preparo do debate cultural.

        O ser humano se interessa por conhecer aquilo que ama, seja uma pessoa, uma profissão, um esporte, um hobby, um campo de conhecimento cultural ou artístico (literatura, pintura, teatro, escultura, música). Diz Fernando Sarráis, em seu livro “Maturidade psicológica”, que quando se ama algo bom, busca-se conhecer aquilo que é amado, e o amor aumenta mais o desejo desse conhecimento.

        Podemos concluir das palavras acima que, se uma pessoa não sabe o que buscar na internet e redes sociais, com o fim de se aprofundar em algo para melhor utilizar seus dons e servir aos demais, não ama senão à própria preguiça ou comodidade, sendo esta a razão pela qual não se interessa por conhecer algo com maior fundura.

    Texto de Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/.
    Imagem de Aguida Medeiros (@aguidamedeiro).

  • A fortaleza transforma os obstáculos em oportunidades

    A fortaleza transforma os obstáculos em oportunidades

    1 – Somos colocados à prova. 2 – A fortaleza robustece as convicções. 3 – O forte é paciente. 4- Dar um motivo maior aos nossos esforços. 5 – Ter um modelo de fortaleza.

    1 – Somos colocados à prova

        Em nosso dia a dia há momentos de descontração e de contrariedades, e estes sempre nos põem à prova. É preciso aprender a encaixar tanto esses momentos difíceis, quanto aqueles dias em nada saiu como o planejado. A virtude da fortaleza tem a ver com isso, porque transforma os obstáculos em oportunidades e experiências vividas. Com isso, tornamos a orientar nossas ações uma e outra vez na direção correta, e sem sofrer rachaduras irreparáveis, pois tudo na vida passa e as circunstâncias externas sempre podem mudar.

        Há coisas não necessárias para ser felizes, e que às vezes se apresentam como imprescindíveis. Isso pode suceder com certas comodidades que hoje são quase moeda corrente, mas também com outras necessidades que podemos criar, sem nos darmos conta. Desejamos ser suficientemente livres para que as circunstâncias externas não tomem decisões por nós: um incomodo não deve nos roubar o sorriso, o cansaço não deve nos vencer tão rapidamente a ponto, por exemplo, de chegar cansado do trabalho e não dar atenção à criança que deseja contar algo, não renunciar um gosto pessoal em favor de outra pessoa… A fortaleza nos faz menos dependentes de tudo que não seja o amor de Deus, de modo que estejamos contentes entre todo tipo de pessoas, em qualquer lugar, e dedicando-nos a qualquer tarefa.

        Basta um olhar realista ao mundo para reconhecer a necessidade da fortaleza. Notamos que as circunstâncias, positivas ou adversas, nos influenciam. Damo-nos conta da necessidade de sobrelevar certos períodos difíceis sem abater-nos, nem perder a serenidade. Além disso, sabemos por experiência própria que as coisas valiosas requerem esforço e paciência: desde levar adiante uns estudos ou vencer um defeito do próprio caráter, até cultivar relações profundas com outras pessoas ou crescer na amizade com Deus.

    2 – A fortaleza robustece as convicções

        Não devemos ficar com uma visão estreita da fortaleza, como se ela fosse apenas um fatigoso esforço que nos leva a ir contra a corrente. A fortaleza não consiste num exercício acinzentado da vontade por superar-se, não se queixar, resistir diante do que não queremos ou não entendemos. Ver a fortaleza dessa maneira esgota qualquer pessoa. Ser forte consiste mais em robustecer nossas convicções, em renovar sempre o amor que nos move, em fazer brilhar com maior força em nós os bens autênticos. Então iremos eleger cada vez com mais facilidade e gosto aquilo que verdadeiramente queremos.

        Quem carece de fortaleza talvez não seja capaz de evitar um comentário brusco, nem consiga sorrir quando se encontra cansado. Nessas situações, a fadiga é o motivo que pesa mais nas reações ou decisões, e que faz a pessoa perder de vista outras razões pelas quais vale a pena se esforçar.

        “O que se necessita para conseguir a felicidade, não é uma vida cômoda, mas um coração enamorado” (Sulco 79). O caminho de qualquer homem é exigente porque requer um amor cada vez mais profundo, e como diz uma tradicional canção “coração que não quer sofrer dores, passa a vida inteira livre de amores”.

    3 – O forte é paciente

        O forte não se desespera porque sabe esperar. Não perder a serenidade diante de um fracasso, nem se intranquilizar quando os frutos dos esforços tardam a chegar, é obra da paciência, que é virtude anexa da fortaleza. Ser paciente não é consequência de um otimismo simplório, nem resignação, mas fortaleza pura, pois quem sabe suportar uma contradição permanente, tal como uma doença incurável, é mais forte do que aquele que pode enfrentar uma situação que tenha esperança de vencer. A fortaleza é a atitude do homem livre que ama não só por momentos ou temporadas, mas luta com os olhos postos no fim último que o aguarda.

    4- Dar um motivo maior aos nossos esforços

        Quem faz crescer em si a virtude da fortaleza não só é capaz de se sobrepor ao cansaço, como o faz porque percebe que isso causa um bem a si e aos demais. Terá mais facilidade para sobrepor-se e enfrentar suas fraquezas, quem descobre um valor transcendente ou caminho para amar mais a Deu: ao dar um fim mais alto à ação de levantar-se na hora fixa, ou de evitar uma queixa, ou dedicar tempo a alguém quando espontaneamente não o faria, será mais fácil de realizar ao se ter em vista um bem mais alto.

        Cada sacrifico livremente assumido, cada contradição acolhida sem rebeldia, cada vencimento feito por amor, reafirma na pessoa a convicção de que a felicidade se encontra em Deus, mais que em qualquer outra realidade. A luta cotidiana se converte, então, em conquista progressiva do bem verdadeiro, em caminho de esperança. Nas decisões pessoais, buscar habitualmente o bem autêntico dá ânimo para não se conformar com o imediato ou com o efêmero.

        Ser forte é a atitude própria de quem percebe o valor real das coisas. Ver no processo de vencer-se em pequenas coisas não apenas o desafio de sobrepor-se a si mesmo, mas um modo de ser mais livres ao vencer sentimentos (não racionais) que impedem o livre-arbítrio de fazer o bem que custa realizar, mas que a consciência pede para realizar.

        A alegria e a paz dependem mais do que verdadeiramente é querido pela vontade, do que pelas circunstâncias de cada momento, sejam elas externas ou internas. A luta por crescer na virtude da fortaleza leva a enfrentar o medo ao esforço a ser empregado na realização de um bem. O forte sabe perseverar no bem, mesmo que isso não seja o “mais gostoso”.

    5 – Ter um modelo de fortaleza

        Podemos adotar como modelo de fortaleza uma pessoa que conhecemos e que soube exigir-se, seja o pai, a mãe, avós, um amigo, ou algum personagem cuja biografia nos encantou. Porém, quem mais encarnou essa virtude foi Jesus Cristo, que vem sendo modelo de fortaleza para cristãos ou não, pois ele soube relacionar-se com a adversidade e a dor sem construir muros ao seu redor, nem se cobriu com uma armadura para evitar as feridas. Isso é interessante, pois o recurso a muros e armaduras impede o contato e o diálogo com a realidade, e cria uma rigidez que impossibilita mover-se com soltura. Amar o mundo significa ter a capacidade de poder relacionar-se com ele, seja em sua riqueza ou em seus imperfeitos, causados pelas ações humanas. Pedir emprestada a fortaleza de Cristo nos torna mais sensíveis, profundos e metidos em cheio na realidade, sem temores.

    Texto traduzido e adaptado por Ari Esteves, com base no artigo “Te seguiré adonde vayas”, em https://opusdei.org/es/article/muy-humanos-muy-divinos-x-te-seguire-adonde-vayas/. Imagem de Ahha Pbkkoba.