Categoria: EDUCAÇÃO

  • Menos telas digitais e mais livros

    Menos telas digitais e mais livros

    1 – O excesso de imagens empobrece a inteligência. 2 – Quem lê pouco, pouco tem a transmitir. 3 – Os pais devem ler e incentivar a leitura de seus filhos. 4 – Argumentos para incentivar a leitura. 5 – Expressar o pensamento pela escrita

    1 – O excesso de imagens empobrece a inteligência

        Com a leitura aumentamos a preparação intelectual, porque ela incide diretamente sobre a inteligência e faz aumentar o nível e o alcance do pensamento. Quando esclarecida pelos bons livros, a inteligência extasia-se com o bem e a verdade. A leitura, além de excelente modo de descansar e de aproveitar o tempo, aumenta a cultura humanística, melhora a forma de expressar o pensamento escrito e oral, enriquece o vocabulário e nos faz ganhar com a experiência do outro (“escarmentar em cabeça alheia”, diz o ditado).

         Hoje, muitos afogam a inteligência com imagens, notícias, videogames, programas fúteis de televisão, etc. As milhares de imagens e informações dão a ilusão de que se conhece tudo, mas a mente não processa nem relaciona tanta informação desencontrada, e tão pouco os sentimentos reagem diante do que veem, e o resultado é um mundo interior pobre, com a espessura da tela que, ao ser apagada, apaga também a mente de seu espectador, que  perde a capacidade de reflexão e de sentir. Não se trata de demonizar as telas porque são muito úteis, desde que utilizadas para uma cultura programada.

    2 – Quem lê pouco, pouco tem a transmitir

         Quem não lê biografias, artigos, ensaios, história, livros sobre família e educação dos filhos, romances, contos, não saberá dar respostas a si e a quem necessita (filhos, parentes, amigos, colegas) sobre questões como namoro, arte e sua importância para o espírito humano, sexualidade, família, casamento, amizade, religião, atitudes éticas, drogas… Certa mãe, encharcada de TV e com pouca leitura, respondeu à filha que foi buscar orientação para um problema com o marido: − “Você quis casar, agora aguente!”. Se essa mãe aproveitasse seu tempo com boas leituras saberia de sua missão e diria algo como: – “Filha, compreendo a situação, mas é necessário o seu sacrifício para reconquistar seu marido e ser fiel à palavra dada a Deus, e para o bem dos seus filhos”.

         Os grandes gênios da arte literária aprofundam a nossa formação, pois acertaram no modo de contar os dramas do coração do homem de todos os tempos: o amor e o ódio, a alegria e a dor, a covardia e a coragem, a fidelidade e a traição… Os valores retratados na Odisseia de Homero (VIII a.C.) são perenes na conduta humana: fidelidade, coragem, prudência…

    3 – Os pais devem ler e incentivar a leitura de seus filhos

         Muitos pais não sabem como motivar seus filhos adolescentes a lerem os bons livros de literatura, e reclamam do tempo que seus rebentos perdem nas telas digitais. Razões não faltam para que se entristeçam com tal situação, mas o culpado são eles mesmos, pais, porque não incentivaram a leitura dos filhos quando estes ainda eram pequenos, já que esse hábito é iniciado com contos e histórias lidas para as crianças. Agora, para entusiasmar os adolescentes a descobrirem o prazer e a importância da leitura, será necessário que os pais meditem em argumentos convincentes (a seguir daremos alguns) para transmitir a eles. Outra dica é aguardar até o dia em que a garota ou o garoto esteja bem-humorado e predisposto para um bom papo, pois esta será a melhor ocasião de abordar o tema do hábito da leitura (o local para o esse diálogo é importante: uma agradável caminhada no parque ou tomando um gelado na sorveteria). Nesse momento trate a filha ou o filho como uma pessoa madura, a fim de que ele se sinta valorizado. Aproveite e seja sincero ao dizer que você − pai ou mãe – também está procurando dedicar mais tempo à leitura e menos às telas digitais.

    4 – Argumentos para incentivar a leitura

         Seguem alguns argumentos que podem motivar o hábito de leitura:

    • “Sem a arte narrativa – e aí se enquadra o cinema – o ser humano teria que contar tão só com suas próprias experiências, o que significa que se veria obrigado a aprender tudo desde o princípio. Sem conhecer a Odisseia, o homem não saberia nada da fidelidade de Penélope; sem Shakespeare ignoraria as dúvidas de Hamlet, o amor de Romeu por Julieta. Sem Dom Quixote, teríamos que descobrir por conta própria a diferença entre ver o mundo como é e vê-lo como deveria ser” (Krzysztof Zanussi, filósofo e cineasta polonês).
    • Ao sair do plano cotidiano e imergir na trama de outras vidas, os enredos literários provocam o imaginário do leitor e permitem discernir o caráter benéfico ou maléfico de certas atitudes, transformando a experiência da leitura em vivência pessoal.
    • As grandes obras da literatura universal proporcionam um profundo conhecimento da alma humana. Já foi dito que a literatura é como um espelho que o homem levanta diante de si para ajudá-lo a conhecer-se melhor.
    • Aprender a ler é aprender a viver, porque na leitura encontramos respostas para os grandes interrogantes do homem e da sociedade, sem nos conformarmos com uma visão superficial da vida. A boa leitura nos livra de preconceitos infundados que se valem da nossa ignorância ou desconhecimento da realidade.
    • As leituras condicionam o modo de pensar, e este determina a forma de viver. Eleger bons livros não é ato moralmente indiferente. A pessoa prudente busca informações sobre o que ler.
    • Sendo curto o tempo que a vida moderna dispõe para a leitura, não vale a pena gastá-lo com obras que desfiguram a verdade e que influenciarão o modo de agir. Há excelentes livros ou textos que convém ler: biografias, ensaios, artigos, contos, amor conjugal, educação comportamental dos filhos, romances, história, etc. Revistas de novelas ou gibis podem servir para descansar em momentos particulares da vida, mas restringir as leituras apenas a isso revelaria superficialidade, frivolidade e triste perda de tempo.
    • Um bom livro não atua sozinho: o leitor dialoga com o autor e os personagens e cria com eles certa forma de amizade.
    • A leitura por vezes pode não causar prazer ao exigir esforço e fadiga, que devem ser enfrentados como quem busca metas altas sem ceder à comodidade ou preguiça.
    • Ler e reler os autores favoritos é um grande modo de penetrar mais a fundo no argumento das histórias, pois os bons autores sempre têm uma mensagem profunda a transmitir (ajudar as crianças a descobrir esse argumento).
    • Trazer sempre consigo um livro é o modo de aproveitar uns minutos aqui e outros ali para folheá-lo, seja no metrô, ônibus, fila ou sala de espera, mesmo que sejam poucas páginas por vez. Quem não tem um livro à mão nunca encontra tempo para ler. Para muitas famílias ler após o jantar é um ritual maravilhoso.
    • A leitura prende-se no espírito e desperta a atenção que se deve dar às palavras, e estas instigam a imaginação com boas ideias; o mesmo não ocorre a quem se põe passivamente diante da sucessão de imagens desencontradas das telas, pois o cérebro abandona o esforço por dar sentido a elas, e a pessoa esquece tudo o que viu nos dias sucessivos. Quem não lê não se renova e tende a ser repetitivo em suas falas.

    5 – Expressar o pensamento pela escrita

         A vida moderna obriga a expressar o pensamento por meio da escrita, seja no trabalho, na escola ou na vida social. O hábito de ler  desperta o espírito de quem escreve para as armadilhas que por vezes as palavras conduzem: patético não é pateta, mas comovente, pois vem de pathos ou sentimentos em latim. Ao expressar um sentimento, saiba com exatidão o significado de angústia. Acintoso é termo por vezes mal empregado. Ou seja: não “chutar” o sentido de uma palavra, mas ganhar o hábito de consultar o dicionário sempre que necessário (essa tarefa hoje é facilitada pela internet). Tenha sempre presente que as palavras não devem ser utilizadas para impressionar, porque isso se chama pedantismo.

    Texto produzido por Ari Esteves (staging.ariesteves.com.br/). Fotografia de Anastasia Shuraeva.

  • O hábito da ordem em crianças de 1 a 3 anos

    O hábito da ordem em crianças de 1 a 3 anos

    1 – A criança não nasce ordenada por natureza. 2 – Viver a ordem para a criança é mais um jogo ou brincadeira. 3 – Os pais devem criar uma disciplina familiar. 4 – A ordem deve ser vivida o quanto antes para se tornar um hábito.

    1 – A criança não nasce ordenada por natureza

        A criança não nasce ordenada ou desordenada por natureza, pois não se trata de algo genético, mas porque no momento oportuno teve ou não a ajuda necessária para tal. Entretanto, há no interior dela a pré-disposição natural para a ordem, pois o período sensitivo (não voluntário) em que o organismo tende intuitivamente a realizar ações ordenadas, é entre um e três anos de idade. Por meio do instinto-guia ou conhecimento primário, tem a criança a capacidade de realizar várias ações apenas por observação e imitação, tal como caminhar ou ordenar coisas; e a ânsia de repetir essas mesmas ações faz parte do chamado período sensitivo da criança. Porém, com a mesma facilidade de imitar a ordem, imitará a desordem se não for orientada ou porque vê os mais velhos não darem bom exemplo.

    2 – Viver a ordem para a criança é mais um jogo ou brincadeira

        Entre um e três anos de idade a criança gosta de guardar e retirar seus brinquedos, roupas e sapatos sempre no mesmo lugar. Para isso, basta indicar uma gaveta e prateleira; ela também aprecia ter um canto fixo com uma mesinha e cadeira baixa para sentar e fazer recortes, desenhos e folhear livros com imagens (esse hábito facilitará o gosto pelo estudo no Fundamental 1).

        Para ser ordenada será necessário que no início os pais brinquem com a criança repetidas vezes de “pôr as coisas no mesmo lugar”. Aliás, ela mesma gosta de se colocar no seu lugar habitual: ao brincar de esconder-se irá sempre para o mesmo canto, como também dormirá na mesma cama e ocupará a mesma cadeira durante as refeições, pois necessita de estabilidade em seu ambiente.

    3 – Os pais devem criar uma disciplina familiar

        Ser metódica e ordenada é um processo que a criança aprende com grande facilidade, sempre que for ensinada e tenha em seus pais um modelo a seguir. A ordem vivida de forma rítmica nos horários de refeições, sono, brincadeiras, asseio, saídas para passeios, ajudará no desenvolvimento físico, psíquico e espiritual da criança, além de facilitar a aquisição de muitas outras virtudes. Daí, a importância de se ter uma disciplinar familiar, também para os pais. Respeitar a ordem e os horários da criança é atitude fundamental para os pais não as desnortearem ou deseducarem.

    4 – A ordem deve ser vivida o quanto antes para se tornar um hábito

        Enquanto a criança não atingir a idade da razão (até os cinco anos), viverá a ordem ou desordem como hábito adquirido − bom ou mau − que se converterá em virtude ou vício a partir dos seis ou sete anos de idade, quando, então, começa a idade razão e ela passa a atuar livremente ou por vontade própria.

    Texto produzido por Ari Esteves com base no livro “Educar hoje”, de Fernando Corominas, Editora Quadrante, São Paulo, 2017.

  • A fraqueza humana e sua superação

    A fraqueza humana e sua superação

    1 – A fraqueza humana. 2 – A preguiça ou fuga do esforço. 3 – A pressão social como causa da fraqueza. 4 – O esforço da superação: luta esportiva. 5 – Virtude da temperança. 6 – Virtude da fortaleza.

    1 – A fraqueza humana

        A fraqueza é companheira da vida humana. Muitas vezes nos propomos a fazer ou deixar de fazer algo e não conseguimos: deixar de fumar, seguir um regime alimentar, fazer exercícios físicos… Não é que tenhamos mudado de opinião, mas simplesmente não fazemos. Se existisse um tratamento fácil contra a fraqueza todos o seguiríamos. O amor desordenado aos bens que nos atraem e a preguiça diante do esforço que o dever exige são as causas interiores da fraqueza; e a causa exterior é a pressão social que nos coage a fazer o que não queríamos ou a não fazer o que queríamos.

        Os bens nos atraem porque nos aperfeiçoam, desde que essa atração não passe dos limites racionais. Os instintos podem arrastar com paixão desregrada para os bens primários: comida, bebida, sexo, conforto, esporte; como também a inclinação pelos bens intelectuais pode ser desproporcionada e fazer com que nos centremos demasiadamente ao trabalho, ao dinheiro, à posição social, à música, ao poder, esquecendo dos bens e deveres maiores, como são o amor a Deus e aos demais.

        Cada concessão à desordem aumenta a fraqueza pessoal e realimenta a inclinação àquilo que deixou de ser um bem, dado o uso desmedido dele. Se tais concessões se tornam hegemônicas afogam a razão e enfraquecem a vontade, fazendo a pessoa perder a liberdade ao se entregar a vícios como drogas, álcool, pornografia, jogos de azar… Quem se afeiçoa de modo exagerado à cerveja sabe que diante de uma garrafa dessa bebida não tem forças para evitá-la; e se a imagem dela se incrustar na sua imaginação não será capaz de pensar em outra coisa, calando as demais vozes interiores: a consciência fica obscurecida e a vontade debilita-se e a pessoa cede. É assim que a paixão se apodera de um homem.

    2 – A preguiça ou fuga do esforço

        Outra fraqueza interna é a preguiça, que é o desgosto diante do esforço para cumprir uma obrigação, e sua fuga. A eficácia da vida de um homem tem muito a ver com a capacidade de vencer a preguiça, porque as coisas importantes custam, e as muito importantes custam mais: não existe nada de grande valia que não custe esforço; e só quem é capaz de vencer-se realiza algo que vale a pena. Os pais devem ensinar a criança desde pequenas a não fugir de suas tarefas e a cumprir seus horários, a fim de que cresça disciplinada e com força de vontade.

        Não se dá à preguiça a devida importância pelo seu aparente aspecto inofensivo: não fazer algo bom é menos grave do que fazer algo mau. Mas esse vício ocasiona males na vida das pessoas e das sociedades, sendo causa de muitas injustiças: por preguiça a autoridade não intervém ou não presta o serviço devido; os pais não corrigem os filhos; o professor não ensina como deveria; as administrações dos estados e das comunidades eternizam os trâmites burocráticos e reduzem a produtividade das pessoas e empresas.

    3 – A pressão social como causa da fraqueza

        A pressão social, também chamada de respeito humano ou medo do ridículo, é a causa exterior da fraqueza humana, porque nos pode levar a comportarmo-nos de acordo com o modo dos outros pensarem, por medo de “cair mal“ ou de que nos zombem. Tememos ser apontados com o dedo e marcados com algum apodo. Sendo filhos do tempo em que vivemos tendemos a sustentar a opinião da maioria: pensamos e vestimo-nos da mesma maneira; gostamos das mesmas coisas; curtimos as mesmas modas, os mesmos ídolos e odiamos os mesmos demônios. Para não sermos malvistos tendemos a pensar que é bom ou mal o que dizem ser bom ou mau; rimos de uma piada que ofende as nossas convicções; calamo-nos envergonhados diante dos nossos princípios morais ou religiosos, ou talvez da nossa origem, profissão, amigos; condescendemos com o capricho de um superior hierárquico, mesmo que isso nos pareça imoral. Importa descobrir em nós os efeitos da pressão social e lutar contra eles.

        Essa pressão social é benéfica ao reprimir comportamentos excêntricos ou antissociais; mas é maléfica ao violentar a nossa consciência a ponto de agirmos contra ela. Não se trata de resistir ao ambiente pelo gosto de ser diferente, porque isso se chama esnobismo: se todos se inclinam em uma direção é provável que haja fortes razões para isso, e seria uma estupidez ser do contra por princípio. Se tais razões não existem temos de proteger a liberdade da nossa consciência ao não permitir que o irracional nos condicione a agir contra ela.

    4 – O esforço da superação: luta esportiva

        Cada pessoa necessita de treinos para vencer suas fraquezas, tal como o esportista se exercita a fim de suportar a dor e a vontade de desistir ao correr uma maratona, prova dura e longa. Para vencer as três dimensões da fraqueza é necessário um clima de luta esportiva e treinos para melhorar as marcas pessoais. Como os bens podem arrastar com força desproporcionada, é preciso enquadrá-los na medida certa: quem faz um regime alimentar deve evitar pensar em comida e fugir das ocasiões; quem se afeiçoou à cerveja de forma exagerada tem que fugir das ocasiões e não acariciar essa bebida com a imaginação. Quem tem o coração comprometido com alguém − tal como no casamento − deve resistir aos afetos de enamoramento que o inclinam a aproximar-se de outra pessoa e fugir das ocasiões. Trata-se de não alimentar uma paixão que será difícil dominar e que causará dores e injustiças. Pensar de outro modo é desconhecer os mecanismos da fraqueza humana.

        A luta contra a fraqueza tem um princípio único: tratar a si mesmo com dureza! Não com a dureza irracional de um louco ou de um masoquista, mas com a estudada do esportista vencedor, que se propõe pequenas metas para ir ganhando um centímetro após outro em altura ou distância; metas que estejam sempre um pouco além do possível. É assim que se vencem as paixões desordenadas.

        A paixão por um bem não será uma rede arrastão se, além de inteligência, a pessoa crescer em força de vontade e utilizar truques para não permitir que a memória e a imaginação se polarizem. Diante de uma derrota é necessário recuperar com rapidez o terreno ao não satisfazer todos os gostos, mesmo que seja algo bom, a fim de servir de treino para o fortalecimento da vontade: não beber sempre que apetece; comer um pouco menos do que se gosta mais e mais do que se gosta menos; dominar a curiosidade; negar-se a satisfazer pequenas comodidades; abster-se de caprichos; respeitar os horários fixados; fazer primeiro o que é mais importante, mesmo que seja desagradável, etc. Não se trata de negar-se em tudo e sempre, mas treinar para buscar uma medida justa em tudo.

    5 – Virtude da temperança

        As virtudes são hábitos racionais estáveis com os quais se podem vencer os três aspectos da fraqueza. A que leva a moderar a excessiva atração pelos bens é a virtude da temperança, que vem de temperar, dar têmpera, textura, equilíbrio e ordem ao mundo das paixões e desejos. Dentro da temperança, chama-se sobriedade a moderação na comida e na bebida; e castidade ao controle do desejo do prazer sexual. É preciso pôr limites ao desejo desregrado pelo trabalho profissional, à ambição de subir, aos Hobbies, ao esporte, ao perder futilmente o tempo com telas digitais, etc. Tudo precisa ter a medida da razão para ser verdadeiramente humano: se passar da medida deixará de ser um bem.

    6 – Virtude da fortaleza

        A virtude que leva a vencer a preguiça e a pressão que o ambiente exerce chama-se Fortaleza, que é a capacidade de enfrentar ou suportar com firmeza as dificuldades. Chama-se força de vontade a que vence a preguiça e valentia a que vence a pressão social e a timidez. A fortaleza é necessária para sair da cama no horário, para perseverar no trabalho que se tornou cansativo… O verdadeiro corretivo da preguiça é o espírito de serviço ou a firme decisão de orientar a atividade pessoal para servir aos demais. Viver nesse nível de exigência pode parecer incômodo, mas se trata de valiosa maneira de viver; aliás, é o único estilo coerente com o que é próprio da vida: lutar!

    Texto de Juan Luís Lorda, adaptado por Ari Esteves com base no livro “Moral: a arte de viver”, de J. L. Lorda, Editora Quadrante, São Paulo, 2001.

  • Para decidir bem: a formação da consciência

    Para decidir bem: a formação da consciência

    1 – Os bens e os deveres. 2 – Tipos de deveres. 3 – Estabelecer prioridades ou ordem nos bens e deveres. 4 – A atuação da consciência. 5 – Formar a consciência para decidir bem. 6 – Não obrigar a agir contra a consciência. 7 – A criança tende a viver dominada pelo instinto.

    1 – Os bens e os deveres

        A conduta humana está condicionada por duas forças que se completam: a dos bens que nos atraem e a dos deveres que nos obrigam. Como estabelecer uma ordem ou hierarquia quando essas forças entram em conflito é o que veremos.

        Bens ligados aos instintos: os instintos são predisposições que a natureza impõe aos animais e aos homens para garantir a sobrevivência: comer, beber, abrigar-se, defender-se, procriar. São bens primários e importantes, mas não é digno do homem manter sua vida centrada neles, pois tendo inteligência e vontade, o ser humano é livre e pode aspirar a bens mais altos. No homem, os bens ligados aos instintos não são totalmente seguros e a pessoa precisa orientá-los, servindo-se de sua inteligência, a fim de que não se desviem: comer demais, beber demais, usar o instinto sexual para ver pornografia na internet…

        Bens ligados ao espírito: a pessoa humana tem inteligência para buscar outros bens, além dos associados aos instintos: ter uma profissão ou ofício; apreciar música, pintura, literatura; estudar línguas, organizar uma coleção interessante, fabricar instrumentos… Mas corre-se o risco de centrar a vida em algum desses bens de forma exagerada, o que torna necessário que a pessoa, por meio de sua consciência, faça um juízo prático para ter segurança sobre o que deve fazer em cada momento.

    2 – Tipos de deveres

        Os deveres nos chegam desde fora como chamadas que nos dirigem Deus, as pessoas e os seres que estão ao nosso redor: animais, plantas, meio ambiente, os instrumentos que utilizamos e que devem ser bem cuidados. O animal não tem inteligência e só sente a voz do instinto, que busca a conservação de sua vida. Porém, os seres humanos ouvem a voz dos outros seres: um homem não pode comer sossegado se tiver ao lado outro homem faminto, pois percebe que este tem necessidade de sua ajuda e se sente obrigado a isso. O leão não se importa se outro leão ao seu lado morre de fome e come toda a presa.

        Existem três tipos de deveres: 1) Para com Deus, que sendo quem é deve ocupar o primeiro lugar na nossa vida: “Amar a Deus com todo o teu coração, com toda a tua mente, com toda a tua força”. 2) Para com os homens: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. No amor aos homens é colocada uma medida: “amar o próximo como a ti mesmo”. Essa pedagogia divina é muito inteligente, pois não conseguiríamos amar desse modo os bilhões de homens do mundo, mas devemos amar aqueles que estão ao nosso lado pelos laços de sangue, de amizade, de trabalho. 3) Para com a natureza ou meio ambiente, que devemos dominá-la, mas respeitá-la e preservá-la para todas as gerações de homens que ainda virão.

        Tais deveres devem ser cumpridos mesmo a contragosto, não vendo neles apenas obrigações, mas bens a realizar. Ao colocar amor ou sentimento na realização de um dever, ganha-se gosto em cumpri-lo: um homem apaixonado pela sua família sente-se feliz em sacrificar-se por ela; uma mãe não atende seus filhos a contragosto, mas sorrindo; o professor e o artesão apaixonados pelo que fazem realizam suas funções com extraordinária energia.

    3 – Estabelecer prioridades ou ordem nos bens e deveres

        Sendo limitados tanto em nossas forças quanto no tempo que dispomos, não conseguimos estudar e ver futebol ao mesmo tempo. Por isso, temos que estabelecer prioridades, tendo presente que os bens nos atraem e os deveres, por vezes, fugimos deles por covardia ou preguiça. É necessário avaliar, pois os bens só são bens se desfrutados com medida, sejam eles primários ou da inteligência. Apenas os bens mais altos não exigem medida: não podemos ter medida no Amor a Deus, nem em relação às pessoas (um marido não pode ter medida no amor à sua esposa).

        No início de cada dia é preciso fazer um exame de três minutos para identificar as prioridades. Essa avaliação se faz com a consciência, que é a capacidade da inteligência prática de avaliar qual o dever ou o bem a ser atendido em primeiro lugar. A consciência não decide, mas apenas avalia a situação e faz perceber o que deve ser feito. A decisão de fazer ou não o que a voz da consciência indica cabe à pessoa por meio de sua vontade.

    4 – A atuação da consciência

        Para avaliar os prós e os contras, a pessoa se serve da sua consciência, que trabalha com os dados da inteligência, e não deve permitir que seus sentimentos ou gostos interfiram na avaliação objetiva da realidade. Com a inteligência percebe-se determinada situação, a ser avaliada pela pessoa por meio de sua consciência, a fim de saber como agir. Por exemplo, é sábado e uma mãe se prepara para arrumar a casa. Seu filho, adolescente de onze anos, se apronta para jogar videogame, mas percebe que a mãe está cansada, pois trabalhou fora a semana inteira. Então, o filho avaliará a situação por meio de sua consciência, e chegará ao seguinte juízo: − Devo deixar o videogame de lado e ajudar a minha mãe. Por isso se costuma dizer “a voz da consciência” para indicar algo que ouvimos interiormente.

        A consciência disse ao jovem o bem concreto que deveria fazer, mas a decisão de ajudar ou não a mãe caberá a ele, por meio de sua vontade. Esse juízo da consciência é o ato mais próprio do homem, que deve ser realizado e amado. O valor da vida de uma pessoa depende desse seguir a sua consciência. O juízo prático da consciência é realizado antes da ação e voltará depois para conferir se foi realizado ou não: se o jovem agiu em conformidade com sua consciência, a felicidade do dever cumprido o invadirá; se por egoísmo agiu em desacordo, terá ido contra a parte mais íntima e delicada do seu ser. Quando a ordem interior se destrói por uma ação contrária à consciência, fica um rastro de mal-estar chamado remorso. Quem habitualmente atua contra a própria consciência corrompe e apaga a luz que orienta as ações, e deixa de ser uma pessoa livre para se tornar escrava de seus vícios, que no caso do jovem seria o da preguiça. A maturidade de uma pessoa está em ouvir a voz dos deveres e cumpri-los.

    5 – Formar a consciência para decidir bem

        A formação da consciência é necessária para a pessoa decidir sem erro. Para isso, ela necessita que a inteligência forneça os dados corretos sobre a realidade. Um exemplo: certo pai cruzou a sala de estar e viu seu filho com uma bola nas mãos. Ao retornar, notou quebrado o vaso e pensou que fora o garoto o autor da façanha. Sentindo-se cobrado pela sua consciência, penalizou o filho ao determinar que ficaria sem a bola a semana toda. Depois soube pela esposa que foi o gato quem quebrou o vaso. Por isso, devemos ler, estudar os assuntos, ouvir as pessoas para decidir bem (o pai agiu imprudentemente ao não perguntar nada à esposa).

        E necessário formar a consciência em valores perenes para dar a ela segurança em seus juízos: saber que o suborno é ação ruim, e que a justiça, ao dar a cada um o que lhe pertence, é ato bom, facilita os juízos da consciência. Quem foge de saber o que é certo ou errado para não se sentir obrigado pela sua consciência a mudar de atitude, age com imprudência e com graves consequências para si e para os demais.

    6 – Não obrigar a agir contra a consciência

        Cada um deve descobrir o modo correto de agir em cada caso. Desde fora se pode ajudar a perceber, mas não obrigar a fazer de modo diferente do que julgou: um pai não pode obrigar o filho a estudar, se este não o desejar. Mesmo que amarre o garoto na cadeira e coloque um livro diante dele, o filho não estudará se não quiser. Ou seja, ninguém pode decidir pelo outro, pois o querer é algo muito íntimo, pessoal; é uma força que deve vir de dentro. Mas o pai pode ensinar o filho a conhecer o certo e o errado, e como o correto deve ser querido e o errado rejeitado, a fim de ajudá-lo com razões profundas a decidir bem.

        Quando a decisão de alguém o faz quebrar a ordem da realidade (ordem externa), então se pode intervir: se a pessoa decide suicidar-se ou roubar de quem possui, porque acha que isso é justo, podemos impedi-la de fazer tais besteiras, porque estará agindo contra a ordem objetiva da realidade e os valores que a permeiam.

        É tarefa de cada pessoa avaliar o seu comportamento para se construir. Estamos a cada momento tomando decisões, e estas nos constroem ou destroem. Uma pessoa que não enfrenta seus deveres se torna imatura e caminha pela vida em bases falsas. Com o passar do tempo concluirá ter sido medíocre e enterrado muitos ideais porque se deixou levar pela preguiça ou outros vícios.

    7 – A criança tende a viver dominada pelo instinto

        O ser humano, por ser inteligente e livre, rompe o cerco limitado dos instintos (que busca apenas a sua satisfação) e respeita os seres não por interesse próprio, mas porque eles existem e têm as suas necessidades. A criança até aos cinco anos só pensa nela e não partilha, nem percebe a necessidade dos outros. Enquanto a inteligência dela não se desenvolve, vive dominada pelos instintos primários e cabe aos pais ajudá-la a vencer esse individualismo, animando-a a partilhar. Se é inevitável e desculpável o egoísmo da criança, já o de um adolescente ou jovem é sinal de imaturidade ao revelar desajuste de personalidade: um corpo crescido, mas uma inteligência com síndrome de infantilidade.

    Texto produzido por Ari Esteves, com base no livro “Moral: a arte de viver”, de Juan Luís Lorda, Editora Quadrante, São Paulo, 2001. Fotografia de Osama B. Aamir.jpg

  • Pais frouxos, violentos e assertivos

    Pais frouxos, violentos e assertivos

        1 – Pais com crise de autoridade, crise de tradição, crise de maturidade. 2 – Crianças de 0 a 2 anos: pais permissivos, violentos e assertivos. 3 – Crianças de 3 a 7 anos: pais permissivos, violentos e assertivos. 4 – Crianças de 8 a 11 anos: pais permissivos, violentos e assertivos. 5 – Adolescentes de 12 a 16 anos: pais permissivos, violentos e assertivos

    1 – Pais com crise de autoridade, crise de tradição, crise de maturidade

        Há pais que se encontram confusos e com crise de autoridade provocada pelo relativismo, que prega não haver verdades objetivas também na educação dos filhos, e estão como quem dirige à noite em estrada sem iluminação, faixas e sinalizações. Outra é a crise de tradição, porque foram esquecidos os valores perenes (liberdade, amor, verdade, beleza, família) que vinham sendo construídos desde os gregos (portanto há vinte e seis séculos), com consequências diárias na vida das famílias, a ponto de uma mãe se arrepender tarde demais por ter liberado o celular para o filho de dez anos, ou ter permitido que a filha adolescente começasse a participar de certas festas. Há também a crise de maturidade, com pais que educam pela emoção: permitem ou não com base no que sentem (são emotivistas), e não por terem estudados os temas importantes para esclarecer os filhos. Tais desequilíbrios geraram a crise da pessoa humana, porque se perdeu o conceito de pessoa e o que é ser homem ou mulher.

        Segue abaixo a descrição de alguns comportamentos adotados pelos pais, nas diferentes idades dos filhos. Pode-se errar ou pelo excesso de carinho mal-entendido (pais permissivos) ou por excesso de firmeza (pais autoritários). A atitude correta dos pais se chama “assertividade”, que vem do substantivo “asserto”, de origem latina, que significa “proposição afirmativa”, agir com assertividade, positivamente, pois são pais que se mostram seguros, firmes, mas com flexibilidade quando não estão em jogo valores que acreditam ser os melhores para os filhos: agem com carinho e firmeza, tal como uma bigorna almofadada.

    2 – Crianças de 0 a 2 anos: pais permissivos, violentos e assertivos

        Pais permissivos, fracos ou submissos não dominam a própria afetividade e se mostram imaturos na relação com os filhos nessa faixa etária. Diante de choros ou birras cedem facilmente sem perceber o que realmente o bebê necessita: falta-lhes inteligência emocional para compreender isso, já que pensam demasiadamente em si próprios e não no filho. Se a criança de dois anos não quer comer, ficam desconcertados e mudam o alimento. Ou seja, ficam à mercê do filho, que logo percebe que pode colocar os pais no bolso ou na rodinha (gíria futebolista). Não sabem criar e exigir rotinas de sono, ordem, alimentação e higiene.

        Pais autoritários, violentos ou agressivos são dominadores. O filho tem medo da voz e do olhar de um pai assim, e se põe assustado na presença dele, já que não transmite carinho e acolhimento. Geralmente são pais que não aceitam algo da criança, e por não estudarem nada sobre a educação do bebê, gritam, dão respostas hostis do tipo “Esse meu filho é uma praga”, “Você me deixa louco”. É possível um filho amar e ter confiança em pai com esse perfil?

        Pais assertivos são seguros porque sabem o que fazer em cada etapa da vida do bebê, seja ele de um mês, três meses ou dois anos: o alimento a ser dado, como deve ser o sono ou o comportamento da criança nesse período… Estão tranquilos, seguros e não negociam nada com o bebê, pois sabem como agir em cada situação (comer, dormir ou banhar). Aliás, o pai procura dar banho no bebê para que a criança sinta seu afeto e aproximação com ele. A comunicação desses pais é ativa, firme, clara; a criança ao não perceber insegurança neles, não faz manha: − Filho, está na hora do banho; e em seguida a da mamadeira. O filho sabe que não tem a opção de fazer ou não. Uma mãe com muito mi mi mi diz “− Ai você não quer tomar banho! Que faço agora?”, e será explorada pela criança a ponto de logo dizer para as amigas: − Meu filho joga o sapato e bate em mim! É preciso encarar a criança “olho no olho”, apoiar a mão no ombro dela e repreendê-la com firmeza ao agir mal. Esse contato físico – olho no olho e mão no ombro − é importante para a criança de 0 a 2 anos. A assertividade pede essa firmeza.

    3 – Crianças de 3 a 7 anos: pais permissivos, violentos e assertivos

        Pais permissivos nestas idades já perderam a batalha do banho, comida e sono. Para se livrar do problema terceirizam a criança para a babá ou escola. Quando a mãe começa a ter medo de enfrentar o banho da criança algo não está bem, porque não sente alegria em estar com o filho. Não deixa também de ser uma fraqueza a atitude da mãe superprotetora que, por medo de exigir, faz tudo o que a criança deveria fazer: − Aí, vai quebrar o copo; deixa que eu guardo. Ou – Eu levo a mochila pra você não cair. – Tadinho, a professora passou muita lição de casa? Ou – Cadeira malvada, por que você machucou o pé do meu filhinho? (e a mãe bate na cadeira como se o móvel fosse culpado pela imprudência da criança). O filho percebe que a mãe é insegura e submissa porque não confia na capacidade dele. Outra atitude da mãe fraca nesta faixa etária é a que, por medo de corrigir, diz para si que o filho vai melhorar com o tempo: − Ele joga as coisas e bate em mim; mas não faz por mal e vai melhorar. Ou − Puxa, por que você fez isso pra mamãe? Isso é querer educar na “peninha”, na compaixão pela mamãe (filhos até cinco anos não percebem o que é compaixão). A mãe age assim porque não tem coragem de dizer com firmeza as coisas. Não se educa na “peninha da mamãe”, mas na argumentação firme: − Você não devia ter feito isso. Vá pegar e limpe o chão. Se ocorrer de novo ficará toda manhã sem sua bicicleta. A criança entende o argumento do tipo “não suje porque terei que levar” e não um argumento sentimental. Mandar é diferente de pedir. Mãe submissa não comanda o filho, mas apenas diz: − Arrume sua cama pra mamãe, vai (quando?). A criança precisa de comandos firmes: − Julinho, arrume agora a sua cama.

        Pais autoritários são grossos e violentos na comunicação: batem, xingam, empurram. Humilham a criança com palavrões porque desconhecem o respeito à dignidade do outro. O filho tem pavor de estar com o pai e vai se afastando dele. Sendo pais imaturos, falta-lhes serenidade, autocontrole, fortaleza e paciência para superar aos poucos as dificuldades da criança. A ausência de equilíbrio interior e o pouco conhecimento sobre educação dos filhos, torna-os autoritários: − Você vai ver o que vai acontecer se não fizer a lição de casa. São exagerados nas punições ao não pensar nelas antecipadamente com o outro cônjuge: − Ficará um mês sem ver televisão. Ou – Nos próximos dois meses só sairá de casa para ir à escola e nada mais.

        Pais assertivos gostam de estar com os filhos, de fazê-los protagonistas e de envolvê-los em tarefas. Animam as crianças a sugerirem passeios e criam um clima de felicidade ao deixar algo para a decisão delas: − Onde vocês gostariam de ir almoçar hoje? Fomentam a autonomia da criança para ela agir sem medo: − Você faz as coisas com capricho. Pinte essa parede da garagem que ficará muito boa. Filhos de pais assertivos gostam de retornar ao lar, porque ali há céu, um ambiente gostoso onde no jantar os filhos falam de suas coisas e os pais contam como foi o seu dia de trabalho. Na sala de estar fazem uma tertúlia ou bate papo sem que a TV se intrometa: a filha lê uma poesia, o menino mostra o desenho que fez na escola; e depois, pai e filho se deitam no chão para montar o quebra-cabeça. Esse ambiente de lar é um dos grandes legados da família que os filhos jamais esquecerão. São pais que perceberam o valor entranhável do lar, e procuram chegar cedo do trabalho. Mas se em alguma ocasião o filho briga com o irmão ou trata mal a mãe, o pai têm uma conversa exigente com ele.

    4 – Crianças de 8 a 11 anos: pais permissivos, violentos e assertivos

        Pais permissivos não percebem que nessa faixa a puberdade começa a falar mais forte. A mãe acha que o filho é maravilhoso e que não vai se envolver com nada referente à sexualidade, e libera as telas, os vídeos, os filmes. Por vezes são mães que querem esticar um pouco o período de baby de um garoto de sete ou oito anos, e não o deixa ir à rua fazer compras, passear sozinho no parque, pagar uma conta. Têm medo que o filho vai ser assaltado ou se machucar. São mães carentes e com certo egoísmo ao querer manter o filho na infância e preso à sua saia. A criança tem que tornar guerreira! É preciso ir soltando a linha para a pipa subir alto! Consequências de pais fracos: o filho será cada vez mais exigente e cioso com os cuidados que devem ter para com ele; será queixoso e chorão diante de qualquer incomodidade ou tarefa que lhe custe esforço realizar; por falta de exigência e por fazer apenas o que gosta, terá forte tendência ao TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade); tornar-se-á emocionalmente fraco, pouco resistente à frustração e facilmente influenciável pelos amigos.

        Pais autoritários nessa faixa etária não têm a autoridade do conhecimento, mas apenas a da força bruta. Não percebem que o filho está terminando o Fundamental 1 e entrando no 2, e que já está maduro para ouvir argumentos sólidos, explicados em diálogo amigável, sobre o motivo para não ir a determinadas festas, não beber álcool, não ver certos filmes ou fazer excursão com a turma da escola para Porto Seguro; por que não ter televisão no quarto?; e questões sobre a sexualidade humana. Ao não ter argumentos por falta de leitura e estudo, berram e dizem que vai ser assim porque “quem manda nesta casa sou eu; aqui se faz o que eu digo”. E estabelecem um monte de regras rígidas e castigam em excesso. Geralmente são pais focados no trabalho e quando chegam em casa estão desanimados para as questões dos filhos. Pais autoritários costumam ter filhos com vontade fraca, ansiosos, desconfiados e com tendência a esconder tudo deles. São filhos que não interiorizaram as virtudes porque não aprenderam a querer as coisas livremente, mas foram obrigados a aceitar tudo goela abaixo, sem explicações convincentes. Medrosos, inseguros e com baixa autoestima porque foram castigados e injustiçados com frequência, não suportarão mais essas atitudes no final da adolescência e enfrentarão fortemente os pais.

        Pais assertivos sabem que nessas idades a pressão do ambiente é negativamente forte, e estudam muito para compreender os problemas e dar aos filhos critérios para que saibam filtrar as opiniões distorcidas dos meios de comunicação, escola ou dadas por colegas mal informados. Sabem que precisam ir soltando os filhos para que assumam riscos e sejam responsáveis, por isso não os secretariam lembrando a todo instante o que devem fazer. Porém, exigem que tenham uma agenda e anotem os compromissos. São pais que, se erram, será por excesso, não por omissão; porém, os filhos sabem que a falha foi por querer dar o melhor a eles. São firmes e não deixam os filhos assistirem qualquer coisa na TV, mas organizam culturalmente o lar com programas selecionados, bons livros e visitas culturais. Não são coniventes com escolas fracas que não fazem provas após os feriados para não incomodar os alunos com estudos nessas folgas, porque têm presente que para passar no vestibular de uma excelente universidade pública, os filhos terão que se exigir muito. Mostram ideais elevados para os filhos assumirem sem medo, preparando-os para atuarem no mundo e não para ficarem agarrados à saia da mãe ou à calça do pai.

    5 – Adolescentes de 12 a 16 anos: pais permissivos, violentos e assertivos

        A adolescência tem quatro fases: 1) Fase regressiva, ou tentativa de voltar à infância, sendo muito ruim se a mãe se torna conivente com isso. 2) Fase agressiva, de enfrentamento com os pais, porque querem sair para o mundo e compreender a vida, mas se sentem tolhidos quando os pais não vão soltando as rédeas aos poucos. 3) Fase transgressiva, perigosa se não houve educação da afetividade e a aquisição de virtudes. Haverá um caldeirão de sentimentos entrechocando-se, e então pode acontecer de tudo: drogas, pornografia, festas perigosas, gravidez precoce, bebidas. É a fase onde ocorrem suicídios entre os jovens, quando não houve educação em valores, porque se encontram insatisfeitos, vazios por dentro, e veem a vida sem sentido. O pai, percebe que está perdendo o filho e passa a impor regras duras e sem explicação, mas apenas no enfrentamento, que ocorrerá de modo explosivo. 4) Fase construtiva se dá em adolescentes educados em sua sensibilidade, inteligência e vontade desde crianças; então desejam mudar o mundo para melhor, e aceitam com agrado os desafios dos grandes ideais. A adolescência é a fase propícia para iniciar a inteligência na contemplação do bem, da verdade e da beleza.

        Pais permissivos nessa fase acham que os filhos já estão grandinhos e podem ser liberados para tudo: festas, viajar com a turma, chegar tarde em casa, fazer programas de fim de semana sem saber para onde foram. Não se preocupam em conhecer os amigos dos filhos e suas famílias; deixam os adolescentes horas e horas enfiados no celular, sem interessar-se pelo que veem. Pensam que os filhos saberão enfrentar os temas polêmicos, e temem conversar com eles sobre questões como aborto, homossexualidade, sexo fora do casamento, drogas. São pais que vão se afastando dos filhos e, para evitar os temas complicados, lotam a agenda dos jovens com cursos e atividades extracurriculares, e perdem a oportunidade de terem os filhos juntos de si para diálogos profundos em clima de amizade.

        Pais autoritários ao perceber que estão perdendo o filho desta faixa etária, porque anda com novos amigos e frequenta festas e ambientes onde há o risco de drogas e promiscuidades, e por não estarem preparados para dialogar, baixam excessivas regras em casa. O filho, que não foi educado porque o pai, além de não ser amigo, nunca se preparou para dar explicações convincentes, facilmente partirá para o enfrentamento e o resultado será a perda desse filho.

        Pais assertivos com filhos nessa fase investem tempo ao estudo para fundamentar e antecipar suas respostas sobre drogas, pornografia, sexo fora do casamento, gravidez precoce, aborto, homossexualidade, etc. Dialogam e ajudam os filhos na escolha na carreira universitária. Ao ser consultado pelo filho ou filha que quer ir a uma festa, procuram saber onde é, com quem irá, o que irá rolar e os que estarão presentes. Então, darão ou não a permissão, mas com argumentos sólidos e convincentes, que vacinam os filhos ao fazer ver as opiniões torcidas de veículos de comunicação, amigos e, por vezes, professores. Ao negar a permissão, não temem que os filhos fiquem chateados por alguns dias, pois sabem que isso logo passará.

        Pais equilibrados têm filhos responsáveis, confiantes em si mesmos, com capacidade de liderança e prontos para resolver seus problemas. São filhos felizes que seguem o caminho do bem porque seus pais são bons guias.

    Importante sugestão de leitura: livro “Carinho e firmeza com os filhos”, de Alexander Lyford-Pike, Editora Quadrante, São Paulo

    Texto produzido por Ari Esteves, inspirado na live do Youtube no 68 de Jeb Malheiro.

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  • Aspectos da educação humana

    Aspectos da educação humana

    1 – Três aspectos da educação humana: corpo (adestrar), inteligência (instruir), vontade (educar). 2 – Os pais são os únicos mestres para educar a vontade dos filhos.

    1 – Três aspectos da educação humana: corpo (adestrar), inteligência (instruir), vontade (educar)
    1. O corpo necessita ser adestrado para andar, praticar um esporte, fazer exercícios físicos.
    2. A inteligência necessita ser instruída para aprender idiomas, matemática, história, literatura, computação, etc. Aqui entra o papel da escola ao auxiliar os pais nesses aspectos.
    3. A vontade necessita ser educada e fortalecida para querer o bem que lhe foi mostrado pela inteligência: querer ser estudioso, ordenado, sincero, obediente, generoso, solidário, responsável. Na educação dos filhos, o grande papel dos pais encontra-se neste terceiro nível: educar para conhecer, querer e buscar o bem.
    2 – Os pais são os únicos mestres para educar a vontade dos filhos

        É fácil encontrar mestres para o adestramento em judô e tênis ou para a instruir em matemática ou idiomas. Porém, não se encontra professores para ensinar os filhos a serem generosos, responsáveis, sinceros e toda uma série de valores, porque a educação da vontade está reservada aos pais. Assim como os pais buscam instruir-se em aspectos profissionais ou técnicos, também devem instruir-se para educar a vontade dos filhos.    

        Com textos curtos e de fácil leitura, o Boletim Pedagogia do Comportamento orienta os pais sobre a educação comportamental de crianças e adolescentes.

    Texto produzido por Ari Esteves, inspirado na live do Youtube no 17 de Jeb Malheiro.

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  • Educação das virtudes na primeira infância

    Educação das virtudes na primeira infância

    1 – A criança não tem capacidade para discernir entre o bem e o mal. 2 – Crises de imaturidade na adolescência. 3 – Sem medo de dizer “não”. 4 – Criar bons hábitos até cinco anos de idade. 5 – Três aspectos da virtude da ordem para crianças. 6 – Ordem material, temporal, afetiva e mental

    1 – A criança não tem capacidade para discernir entre o bem e o mal

        A criança chega ao mundo com movimentos sensitivos (não racionais) que a impulsionam a dormir, mamar, morder, sentir raiva (chorar), pegar, largar… Até os quatro e cinco anos não há nela racionalidade ou lógica, e educar nesses primeiros anos é fazer o papel de condutor ou guia que indica como agir melhor em cada circunstância.

        Ao não ter capacidade de discernir entre o bem e o mal, a criança fará apenas o que é gostoso aos sentidos, ou o mais fácil: passará uma manhã vendo TV sem saber se isso é bom ou ruim, não perceberá as consequências da desordem ao deixar jogados seus brinquedos e roupas pela casa, comerá a qualquer momento e de modo intemperado, não partilhará e não ajudará em nada…

        Enquanto não tiver a racionalidade mais desenvolvida, que começa a ocorrer a partir dos seis ou sete anos, a criança brincará com um carrinho sujo sobre a toalha limpa. Ao explicar o motivo para não fazer isso, ela, que tem intuição de amor, passará a agir para o bem da mãe, do pai e dos irmãos, substituindo aos poucos o egoísmo pelo amor: − Não suje, para a mamãe não ter que lavar de novo!Guarde o brinquedo na caixa para o seu irmão encontrar. Você não vai deixar pudim para sua irmã?

    2 – Crises de imaturidade na adolescência

        Entre um e cinco anos de idade, se não estiver sendo educada desde a primeira ordem (material), quando chegar aos seis ou sete anos a criança estará enfraquecida nas dimensões psicológica e espiritual. Os maus hábitos criados até os cinco anos a levarão a se conduzir pela preguiça, egoísmo, intemperança, desobediência, afetando, assim, a dimensão espiritual (consciência do eu e onde residem o sentido de responsabilidade e o amor). Desajustada nas três dimensões de sua educação − que não se encaixarão −, a criança passará a tomar decisões erradas, pois estará fortemente influenciada pelos maus hábitos de sua afetividade.

        As crises de imaturidade em adolescentes de dez, onze ou doze anos, manifestadas em desobediências, egoísmos, intemperanças, preguiças, irresponsabilidades, ocorrem muitas vezes pela falta de educação nas três dimensões assinaladas, desde as primeiras idades, fazendo-os agir como crianças de cinco anos que não foram educadas em sua afetividade.

    3 – Sem medo de dizer “não”

        Educar é um trabalho de intervenção curativa, como a do médico (que por vezes dói). Se não há intervenção, a criança não se esforça para agir bem. Portanto, é função dos pais ajudá-la a ganhar bons hábitos pela repetição de pequenas ações diárias, que se transformarão em virtudes. Para essa conquista, os pais não devem ter medo de contristar, de dizer não, sabendo conciliar carinho com exigência: – Querido, arrume agora os seus brinquedos.  − Filha, você não irá dormir na cama do papai e da mamãe, mas na sua! –  Carlinhos, encerre agora a brincadeira e venha almoçar.

    4 – Criar bons hábitos até cinco anos de idade

        Mesmo sem a racionalidade desenvolvida, mas pela autoridade, paciência e insistência dos pais, a criança até cinco anos de idade poderá criar hábitos de ordem, obediência, moderação em sua impulsividade (não brigar ao perder um jogo), comer na hora certa. Esses bons hábitos serão racionalizados a partir dos seis ou sete anos, e se tornarão virtudes, porque estas exigem decisão da vontade: – Eu quero ter horário para fazer as coisas!

    5 – Três aspectos da virtude da ordem para crianças

        Desde as primeiras idades, os pais devem estar pendentes dos três aspectos da educação da pessoa humana: corpo, alma e espírito. Até os cinco anos de idade, a educação corporal é vivida intensamente através da ordem material (guardar seus objetos, ter pequenas tarefas na casa) e da temporal (ter horários ou rotinas), que facilitarão também a ordem dos afetos da criança (autodomínio e controle dos sentimentos, emoções e paixões). Essa ordem primeira (corporal) fortalecerá a educação da segunda ordem, a da alma ou mental (inteligência e vontade), que ocorrerá a partir dos seis anos ou sete anos, quando, então, a criança passará também para a terceira ordem, que é a espiritual e onde residem a consciência eu, o amor e o sentido de responsabilidade: – Quero ajudar a minha a mãe a manter a casa em ordem!

    6 – Ordem material, temporal, afetiva e mental

        Ordem material: a criança quer pegar, tocar, morder, largar, sentir. Portanto, arrumar e guardar objetos será para ela algo fácil de realizar. Para isso, os pais devem providenciar caixas com desenhos que informarão o tipo de brinquedo que ali deve ser colocado, e determinarão onde cada caixa deverá ser deixada. Há várias tarefas materiais que a criança poderá fazer nas primeiras idades (leia o boletim “Construir a autonomia da criança”). Assim, com bons hábitos criados, mesmo na casa dos avós ou em outros locais, a criança desejará saber onde deve guardar suas coisas.

        Ordem temporal: permite a criança ter rotinas ou horário de acordar, mamar, brincar, banhar-se e dormir. As rotinas, que fazem a criança se sentir segura, devem ser vividas todos os dias, inclusive aos sábados e domingos, pois sem elas a criança fica desnorteada, irritada e por vezes estressada. Cada atividade tem um “o que fazer” e um “quando fazer”, sem protelar (leia o boletim “A rotina na vida das crianças”)

        Ordem afetiva: A criança deve moderar sua impulsividade e preocupar-se pelos outros ao não mexer em tudo, nem fazer o que quer, seja na igreja (– Silêncio, aqui mora Deus!) ou em qualquer outro lugar (cabeleireiro, consultório médico, lojas). Respeitar e ser gentil com os pais, avós, tios, professores e amigos dos pais, faz parte da ordem nos afetos (sentimentos, emoções e paixões).

        Ordem mental: desde pequena a criança necessita aprender que no modo de agir ou fazer há um certo ou errado, um bem ou mal, um pode ou não pode. Mesmo que não compreenda os motivos até os cinco anos, perceberá que o bem sempre deve vencer, seja nos filmes, nos contos que são lidos para elas e nas atitudes dos pais.

        Os hábitos de ordem até os cinco anos de idade favorecem a motricidade da criança, e isso tem influência positiva nos aspectos psicológicos ou de ordem mental ao facilitar o sentido de responsabilidade, a captação de conceitos, o domínio da vontade sobre o corpo, a capacidade de concentração ao fazer as coisas.

    Texto produzido por Ari Esteves, inspirado na live do Youtube no 17 de Jeb Malheiro.

  • Consumismo infantil

    Consumismo infantil

    1 – As crianças são induzidas a consumir. 2 – Os efeitos negativos do consumismo infantil. 3 – Os influenciadores do consumismo infantil. 4 – O papel orientador dos pais e professores. 5 – Os pais devem dar exemplo de sobriedade. 6 – Como orientar as crianças a não serem consumistas. 7 – A legislação protege as crianças.

    1 – As crianças são induzidas a consumir

        Não nascemos consumistas. Trata-se de um hábito ideológico marcante da sociedade atual, ao qual todos estamos à mercê, inclusive as crianças, pois vivem uma fase de peculiar desenvolvimento que as tornam facilmente vulneráveis. Cada vez mais cedo as crianças são convidadas a imitar o universo dos adultos com sua complexidade e relações de consumo.

        As mídias de massa sabem impactar e estimular o consumismo inconsequente e supérfluo, servindo-se também das crianças ao perceber o quanto elas são mestras em insistir e determinar o que seus pais devem comprar.

    2 – Os efeitos negativos do consumismo infantil

        Nas datas comemorativas ao longo do ano o apelo consumista se torna mais agressivo. Indefesas, as crianças sofrem cada vez mais os graves resultados desse consumismo: erotização precoce; perda da infância ao imitar os adultos em seus hábitos de consumo e estilo de vida; desaparecimento da criatividade infantil e incapacidade para inventar seus próprios brinquedos e diversões; submissão aos seus desejos imediatos; apego ao artificialismo das telas digitais e tédio ao retornar à vida real; falta de gosto para apreciar a beleza que a natureza oferece nos campos e parques (querem logo voltar às telas); sedentarismo, obesidade, passividade, consumo precoce de tabaco e álcool, banalização da violência, além de outras consequências.

    3 – Os influenciadores do consumismo infantil

        A comunicação mercadológica tem se aprimorado cada vez mais. Os shoppings fascinam as crianças com suas lojas de brinquedos de todo tipo, salas de jogos, cores e luzes que estimulam o divertimento artificial. A publicidade infantil serve-se do apelo afetivo de músicas envolventes cantadas por crianças, efeitos especiais, produtos e serviços associados a personagens famosos, brindes, jogos, cartazes chamativos e sedutores.

        A publicidade da TV e internet são os influenciadores mais fortes do consumismo infantil, ao moldar o pensamento, desejos e o comportamento das crianças expostas a ela. A opinião dos amigos consumistas também tem forte influência.

        Dada a necessidade da pessoa humana ser aceita ou pertencer a um grupo, o ato de consumir se torna um modo de inclusão social pela via da imitação. Assim, a criança julga necessitar de determinados brinquedos ou roupas, e até de fazer os passeios consumidos pelo seu grupo.

    4 – O papel orientador dos pais e professores

        Pais e professores têm papel imprescindível para evitar o consumismo infantil, desde que deem exemplo de sobriedade. Os pais devem esclarecer seus filhos, o quanto antes, sobre os aspectos e efeitos de uma vida consumista; e fazê-los perceber que o importante não é “ter” objetos, mas “ser” ricos interiormente ao apreciar outros valores que permanecerão sempre, e jamais serão esquecidos em caixas ou prateleiras após o uso: amar a boa literatura, poesia e bons filmes; saber contemplar a natureza com suas belezas; fazer trilhas pelos campos; dedicar tempo para novas e profundas amizades; apreciar a boa música e pintura; cultivar o silêncio e a relação amorosa com Deus; fazer visitas culturais com familiares e amigos a museus, apresentações musicais, teatro…

    5 – Os pais devem dar exemplo de sobriedade

        Pais consumistas tornam seus filhos consumistas, porque o exemplo fala mais forte do que as palavras. Se o pai faz um carrinho de madeira para o filho ou utiliza embalagens vazias para criar divertidos brinquedos, passará conceitos e valores importantes para ele: cresce na amizade com o filho, torna-o agradecido ao ver que o pai dedica tempo a ele, incentiva-o a fazer seus próprios brinquedos.

        Não é bom que as crianças se acostumem a ganhar brinquedos com frequência, mas em época certa: Natal, aniversário ou por algum outro motivo relevante. É mais educativo que os pequenos utilizem a imaginação para criar brinquedos com embalagens e outros materiais caseiros.

        Necessitam os pais alertar os filhos − e cobrar isso da escola − sobre a influência negativa do “marquismo” ou propaganda que torna algumas marcas em “desejo de consumo” dos incautos. Pais que estimulam os filhos a não utilizar a mochila do ano anterior porque “saiu de moda”, ou que compram brinquedos e tênis influenciados pela propaganda, deformam o caráter da criança e fazem-na cativa e vítima dos métodos propagandistas.

    6 – Como orientar as crianças a não serem consumistas

    Algumas dicas para evitar que a criança seja consumista:

    • Fomente o gosto da criança para bens que não sejam apenas a posse de objetos: amor pela leitura de livros infantis; filmes para que descubra as atitudes dos personagens (converse com ela sobre isso, não interrompendo a explanação dela); saber apreciar a boa música; aprender algum instrumento musical.
    • Visite com a criança exposições de quadros ou esculturas. Prepare-a antes de ir não com palestras sobre estilos artísticos, mas transformando o passeio em jogo divertido. Para isso, veja com ela o acervo pelo site e deixe-a escolher as telas que deverá localizar no museu (talvez imprimi-las para facilitar a busca). Depois, pergunte sobre o quadro que ela mais gostou, sem demonstrar que teve ou não bom gosto porque o estilo não agradou a você. Pergunte a ela como o pintor poderia também ter apresentado a cena. Ao fixar a atenção nas pinturas, a criança desenvolve o senso de observação para os detalhes e o espírito de contemplação.
    • Seja firme diante da insistência da criança quando pede brinquedos, porque ela não sabe o que é melhor para si mesma. Não acostume-a com presentes fora de época, mas apenas nas datas especiais: aniversário, Natal ou outra ocasião que julgue importante.
    • Faça para a criança brinquedos de madeira ou embalagens vazias, pois ela terá carinho especial por aquele que o pai ou a mãe fez para ela.
    • Utilize o dinheiro da mesada da criança para repor ou consertar o que ela quebrou − seja um bibelô, vidro ou brinquedo do irmão −, a fim de que perceba o quanto as coisas custam.
    • Antes de ir ao supermercado, combine com a criança sobre os produtos que irão comprar, e o quanto poderão gastar. À medida que um produto vai para o carrinho, faça a conta de subtração junto com ela. Peça a ajuda dela para pesquisar nas prateleiras os produtos mais em conta.
    • Vá a peças de teatro infantil; informe-se antes de que a mensagem da peça não seja contrária aos seus valores. Participe de saraus, que são atividades lúdicas e recreativas para apresentação de músicas, recitação de poesias, leituras de livros ou outra atividade cultural.
    • Programe um passeio mensal para passar o dia fora, a fim de que a criança aprenda a contemplar a natureza: excursão pelo campo para fazer trilhas; chácaras, sítios ou fazendas temáticas com exposição de flores ou plantas; represas; parques; jardim botânico. O zoológico é muito atrativo para as crianças.

    7 – A legislação protege as crianças

        Para finalizar, os pais e responsáveis devem saber que a Constituição Federal em seu artigo 227, ao abordar de forma geral a proteção da criança e do adolescente, serve de base legal para responsabilizar toda e qualquer a ação mercadológica que venha influenciar negativamente a criança. O Código de Defesa do Consumidor protege todos da propaganda enganosa, especialmente as crianças, e afirma que se mostra abusiva a comunicação que se aproveita da deficiência de julgamento e experiência delas. A Resolução 163/2014 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), que tem força de lei, proíbe a comunicação mercadológica que vise persuadir o público infanto-juvenil ao consumo de qualquer produto ou serviço utilizando expedientes que explorem a sua vulnerabilidade, imaturidade, ingenuidade e/ou suscetibilidade à sugestão. Utilizar linguagem infantil, músicas pertencentes a esse universo e cantada por crianças, efeitos especiais, entre outros, atingem-nas mais facilmente devido à sua condição de pessoas ainda em desenvolvimento psicológico.

        A venda casada, que é considerada abusiva pelo Código de Defesa do Consumidor, ocorre quando um produto é vendido juntamente com outro que desperte interesse ainda maior, não podendo ser adquirido em separado, o que condiciona o comprador a levar ambos os produtos. Por exemplo, na Páscoa pode haver ovos de chocolate voltados para o público infantil que trazem um bicho de pelúcia ou boneco de super-heróis, tornando os preços superiores aos demais.

    Texto produzido por Ari Esteves

  • Construir a autonomia da criança

    Construir a autonomia da criança

    1 – Tornar a criança responsável. 2 – A criança deve perceber a importância de sua ajuda. 3 – A superproteção deseduca. 4 – A desobediência infantil: conflito entre a alma e o corpo. 5 – A autonomia faz a criança lidar com suas frustrações e ser persistente. 6 – A criança deve resolver seus próprios problemas. 7 – Tarefas por idade ou a bolha de egoísmo.

    1 – Tornar a criança responsável

        Para que um lar seja alegre e agradável não basta a convivência pacífica, nem a falta de exigência onde cada um se mete no quarto com seu tablete para viver uma vida egoísta. A criança necessita ser educada para se tornar responsável na vida familiar, cujo ambiente dependerá desse protagonismo livre e ativo, onde cada membro aprende a servir e a doar-se aos demais, desde a primeira infância.

        Construída com pequenas tarefas apropriadas a cada idade − que a criança cumprirá divertindo-se −, autonomia não significa deixá-la fazer o que quiser, mas guiar para escolhas que a enriquecem verdadeiramente, a fim de que se arrisque, desenvolva a autoconfiança e o espírito de serviço e de ajuda aos outros.

    2 – A criança deve perceber a importância de sua ajuda

        A criança cresce em autonomia ao perceber que seus pais só intervêm quando é realmente necessário. Responsabilizar é tornar a criança ativa, fazendo-a perceber que sua ajuda faz falta no lar. Até a idade de cinco anos, ela cumprirá seus pequenos deveres para agradar os pais; a partir dos seis anos deverá agir para prestar um serviço de amor, com alegria não pelo sorvete que ganhará (fluxo centrípeto), mas pela ajuda que tornará mais agradável a vida dos pais e irmãos, pois isso a fará sair de si mesma (fluxo que centrífugo) ou motivação transcendente.

    3 – A superproteção deseduca

        Há pais inseguros em tornar seus filhos independentes, e acabam substituindo-os naquilo que eles poderiam fazer sozinhos. Essa superproteção leva a criança ao acomodamento, à introversão, à falta de segurança ou medo de agir por conta própria, à vergonha de se expor ou arriscar, à inabilidade no convívio social (não saberá cortar seu bife no refeitório da escola ou servir-se numa festa, nem amarrará o próprio tênis na aula de educação física). Os mesmos aspectos negativos da superproteção ocorrem quando os pais, impacientes e inconstantes, com a desculpa de que “não têm tempo” ou que “farão melhor”, e se adiantam a fazer o que a criança poderia conseguir.

        Pais que reclamam ser o filho passivo e desinteressado, que nunca agradece a sobremesa ou os pratos feitos para ele, além de não ajudar nas tarefas do lar, devem saber que a culpa de tais atitudes é dos próprios pais que, superprotetores, pouco exigiram dele na infância e pré-adolescência, e com isso o tornaram egoísta e só metido em seus interesses e credor de todas as atenções. Julga ele que nada tem a ver com os encargos domésticos, pois isso é apenas dever dos pais, já que ele se sente um rei em sua corte e que está para ser servido por todos.

    4 – A desobediência infantil: conflito entre a alma e o corpo

        Hoje vemos mães que padecem a desobediência do filho de quatro anos porque não foi trabalhada a afetividade da criança por meio de uma disciplina familiar desde os dois anos. A conta agora se tornou cara, pois mudar as disposições de uma criança de cinco, seis ou sete anos para algo que não foi capacitada será jogo duro. O conflito entre o espírito (consciência) do adolescente e seus sentimentos (manifestações corporais), revela que ele nunca foi exigido para contrariar sua afetividade ou sentimentos a fim de cumprir seus deveres. Nessa terceira camada da pessoa humana, que é o espírito (corpo, alma e espírito), reside a consciência do eu, o amor e o sentido de liberdade e responsabilidade pessoais.

    5 – A autonomia faz a criança lidar com suas frustrações e ser persistente

        Aprendemos com tentativas que nos fazem acertar ou errar, e amadurecemos afetivamente ao aceitar situações contrárias ao nosso gosto. Alguns pais temem que seus filhos sofram frustrações e com isso não permitem que eles amadureçam. Se a criança escolheu ir ao parque e não ao shopping, e ao chegar no local da opção se arrepende e pede para irem ao shopping, dizer que ficará para outro dia e que ela procure aproveitar o momento; se o adolescente disse ao amigo da escola que iria no aniversário dele no sábado, e ao chegar esse dia prefere ir jogar futebol com outros colegas, é preciso ajudá-lo a tomar consciência de que deve cumprir a palavra dada.

        Ao explicar à criança que não irá ao passeio que ela deseja, mas àquele que o irmão aprecia, a fará compreender que os demais também têm seus gostos que devem ser respeitados. Ao não comprar o doce que a criança pede fora de hora, está sendo ensinada a ser paciente e saber esperar para desfrutar da guloseima na hora certa. Animar o filho a não desistir de montar o lego ou o quebra-cabeça o faz ser resiliente e perseverante diante das dificuldades.

    6 – A criança deve resolver seus próprios problemas

        Confie na capacidade da criança resolver seus problemas. Pergunte sempre a opinião dela sobre o que pretende fazer − se acha certo ou errado −, e dê chances para que reflita sobre suas ações. Se a criança trocou os tênis de pés e indaga se está correto, não responda, mas pergunte sobre o que ela acha. Se houve um desentendimento com um amigo da escola, dialogue para ela conclua sobre a importância de reconhecer seus erros, saber pedir desculpas e buscar a reconciliação da amizade ou aprender a perdoar.

    7 – Tarefas por idade ou a bolha de egoísmo

        A criança acostumada a não ter tarefas familiares mete-se dentro de si, vai para seu canto com o tablete e não consegue mais furar a bolha do egoísmo para se interessar pelos outros. Ao chegar à adolescência, irá se distanciar ainda mais da família e nunca entenderá que a felicidade está no amor, que é entrega aos demais. Filhos incomodados dentro do lar e que não gostam de sair com os pais, revela que algo está errado em sua educação.

        A grande educadora italiana, Maria Montessori, sempre estimulou a autonomia infantil, e isso pode ser feito no dia a dia do lar ao delegar responsabilidades. Quando uma mãe ensina a criança que começou a andar para que leve a fralda suja até a lixeira, age não movida por uma eficácia organizativa, mas pelo aspecto espiritual que tornará a criança ativa no amor e no espírito de serviço aos demais.

        Para dar responsabilidades é preciso saber adequar a tarefa à idade, a fim de não ser injusto ao atribuir tarefas que estão além ou aquém da capacidade da criança. As tarefas vão sendo cumulativas e distribuídas entre os vários filhos:

        De 2 a 3 anos: colocar os sapatos (de preferência sem cadarço), acomodar-se na mesa e comer sozinha, ordenar os brinquedos por caixas, colocar água no copo (deixar ao seu alcance), jogar a fralda suja no lixo.

        De 3 a 4 anos: varrer pequenas áreas com uma mini vassoura, ir ao banheiro sozinha, arrumar a mochila para a escola, separar as roupas sujas das limpas, jogar o lixo na lata, regar plantas em vasos, colocar a mesa e tirá-la após as refeições, trocar a toalha da mesa, deixar em ordem os sapatos no armário, vestir-se sozinha.

        De 4 a 5 anos: fazer a sua higiene pessoal, passar geleia no pão com uma faca sem corte, distribuir os talheres na mesa e retirá-los, guardar as compras, utilizar o aspirador de pó, dobrar suas roupas e panos de prato, pôr comida para os animais domésticos e limpar a sujeira deles, separar o lixo reciclável, enxugar o banheiro após o banho.

        De 6 a 7 anos: ajudar a cozinhar pratos fáceis, varrer o chão com vassoura de adulto, tirar a mesa após as refeições e lavar a louça, descascar frutas, lavar verduras, limpar gavetas e armários, organizar seu próprio guarda-roupa.

        De 8 a 9 anos: levar o lixo para rua, limpar e organizar a geladeira, fazer compras com uma lista, preparar seu lanche.

        De 10 a 11 anos: cozinhar pratos básicos para a família, ajudar a escolher o cardápio do dia, limpar o micro-ondas e o chão da cozinha, tirar o pó dos móveis.

        Acima de 12 anos: preparar refeições e sobremesas para a família; ir a pé para a escola, se fica no bairro.

  • Elogiar é reconhecer o esforço da criança

    Elogiar é reconhecer o esforço da criança

    1 – A importância do elogio. 2 – O elogio faz o subconsciente sugerir que repita a ação. 3 – Não premie com brinquedos. 4 – Parâmetros para o elogio. 5 – Elogiar diante de outras pessoas. 6 – Sempre que houver um esforço, elogiar.

    1 – A importância do elogio

          É tão importante exigir o cumprimento de uma ordem, quanto reconhecer o esforço ao ser cumprida. Demonstre alegria quando a criança se comportou bem. Não veja a melhora na conduta dela como algo natural ou que tenha sido fácil de alcançar.

          Há pais que temem premiar as boas condutas dos filhos; acham que o bom comportamento deve ser uma atitude normal. É injusto fechar os olhos e não reconhecer o esforço do filho, por exemplo, que tirou boas notas, quando eram fracas.

          Pais assertivos têm presente o impacto do elogio ao ver nele o reforçador mais útil que possuem: ajudam que os filhos perseverem na boa conduta porque dá a entender que eles, pais, são justos ao notarem os esforços da criança, que terá a autoestima fortalecida:

          − “Filha, você hoje me ajudou muito com a casa. Vamos tomar um sorvete!”.

    2 – O elogio faz o subconsciente sugerir que repita a ação

          Surpreenda a criança todos os dias ao parabenizá-la pelo que realizou bem, pois o subconsciente dela registrará o agrado e a incentivará repetir a ação. Elogiar os dois irmãos que brincaram juntos sem brigar; dizer-lhes que merecem pudim na sobremesa do jantar.

          Dizer ao filho reclamão que obedeceu sem protestar:

          − “Fico feliz com sua atitude de desligar a TV e se aprontar para a escola. Me dá um abraço”.

          Sem que você tenha pedido, a criança vestiu o pijama, guardou a bermuda no cabide, banhou-se e escovou os dentes: vá até o quarto dela e elogie essa atitude e conte uma história como prêmio.

    3 – Não premie com brinquedos

          Não premiar a criança com brinquedos para não transformá-la em consumista e interesseira; nem aceite chantagem do tipo “Só arrumarei a mesa se ganhar um carrinho!“. O prêmio deve ser uma liberalidade dos pais.

          A criança se sente especial com o tempo dedicado a ela. As melhores compensações são aqueles momentos juntos com os pais: brincar com bola, irem ao parque, assistir um vídeo, dormir mais tarde para ficar com os pais. Se no dia anterior o filho foi castigado porque tratou mal seu melhor amigo, e agora brincam amigavelmente, o pai poderá dizer:  − “Você brinca com o Julinho se brigar. Vou trazer um sorvete para cada um”.

    4 – Parâmetros para o elogio

          Ao elogiar, caminhe até a criança, olhe nos olhos dela e diga o que fez bem. Se oportuno, dê toques suaves no ombro ou alise cabeça dela para aumentar impacto da mensagem. Não elogie demais um pequeno êxito, mas sim os importantes: se melhorou um pouco as notas escolares não diga: − “Que maravilha!”, mas − “Melhorou bem, mas ainda falta um pouco de esforço para encerrar bem o semestre”.

          Evite ironias ao elogiar, que seria um modo escamoteado de ser hostil: − “Como limpou bem seu quarto hoje! Já era hora…”. Ou, − “Inacreditável, você hoje não brigou com seu irmão!”. Esse tipo de ironia frustra a criança porque revela que os pais não confiam nela, nem acreditam no esforço dela por melhorar.

    5 – Elogiar diante de outras pessoas

          Elogiar diante de outra pessoa agrada a criança, sendo também um reforço positivo. A esposa diz ao marido, na presença filha: − “A Maria me ajudou muito no trabalho da casa”. O pai olha para a filha e diz: − “Fico feliz com o que disse a mamãe! Você é uma filha muito especial”, e a beija.

          Agregar ao elogio ações não verbais como carícia, abraço, significa mais do que um simples “que bom!”. Para as crianças pequenas dizer apenas “quem bom” é insuficiente, se o esforço para mudar foi grande. Necessitam motivações mais palpáveis do que palavras.

    6 – Sempre que houver um esforço, elogiar

          Elogiar raramente não produz efeito. O mesmo elogio pode durar mais tempo para fixar um comportamento: elogiar durante uma semana a filha de quatro anos cada vez que se vestiu sozinha; premiar durante vários dias o filho de sete anos que não brigou mais com o irmão menor ao brincar com ele.

    Texto produzido por Ari Esteves, com base no livro “Carinho e firmeza com os filhos”, de Alexander Lyford-Pike, Editora Quadrante, São Paulo.