Categoria: FAMÍLIA

  • Fazer da curiosidade uma aliada

    Fazer da curiosidade uma aliada

    1 – Há muitos modos de olhar para o mesmo fato. 2 – O olhar da curiosidade vã. 3 – Pensar bem antes de clicar o play. 4 – Frutos da temperança.

    1 – Há muitos modos de olhar para o mesmo fato

        Há muitas maneiras de olhar para o que nos rodeia. O fotógrafo e o pintor têm um olhar estético para a mesa ornada com muitos pratos, e tentará captar a beleza que a arte culinária orna a necessidade primária de alimentar-se. Já o glutão tem para a mesma mesa um olhar possessivo e empastado. As diferentes formas de apreciar a realidade manifestam como uma pessoa se relaciona com o mundo. Há quem passa diante de um jardim com os olhos grudados nas imagens do celular, e não percebe a beleza que ali reina entre plantas, flores, arbustos, pássaros, e mal sabe nomear ou identificar cada um desses seres.

        Ver a realidade de uma maneira nova exige desprender-se de si para não ver as coisas apenas do ponto de vista da utilidade que elas têm para o proveito próprio. O olhar contemplativo longe está de ser egoísta ou possessivo porque, transfigurado pela virtude da temperança, admira o brilho divino que cada realidade possui em si mesma.

    2 – O olhar da curiosidade vã

        O olhar do intemperado considera as pessoas e as realidades do ponto de vista do benefício que estas podem trazer para si, do favor que podem prestar, sendo incapaz de ver o que o outro necessita, o que poderá fazer por ele ou apenas para admirar o que é belo sem desejar apropriar-se dele. Manipular a realidade com desejos egoístas traz cegueira ao espírito. A falta de temperança destrói o ser humano porque o torna insensível para o verdadeiro conhecimento das pessoas e das realidades, o que conduz a erros de conduta. O olhar não enriquecido pela virtude da temperança impregna a pessoa de interesses egoístas, possessivos, tal como o de um animal que se fixa na sua presa. Esse olhar que divaga de imagem em imagem nas telas digitais é predador porque busca apenas satisfazer a paixão pela curiosidade superficial, e revela um modo de ver tudo pelo prisma do próprio interesse, e não sabe apreciar o que cada realidade transmite porque se prende rigidamente a um único ângulo, tal como o do glutão diante de uma mesa artisticamente preparada ou do olhar do animal para com sua presa, pois só desejam a satisfazer o estômago.

        O olhar intemperado se comporta como a borboleta que pula de flor em flor, sem fixar-se em nada, e se detém o tempo mínimo indispensável para satisfazer a ânsia de uma curiosidade insaciável. Tomás de Aquino chamou esse olhar de curiositas, vício oposto à virtude da studiositas, que consiste em dar a justa medida ao desejo de conhecer, e remove os obstáculos que impedem ver com profundidade e com o esforço de concentração que todo processo de aprendizagem e de admiração trazem consigo. O olhar da curiositas  faz o papel de coletor de lixo das redes sociais e internet que varre para dentro da razão milhares de imagens e informações desencontradas, impossíveis de serem correlacionadas ou integradas, afetando a aprendizagem e tornando cega a inteligência: “O olho é a luz do corpo. Se teu olho é são, todo o teu corpo será iluminado” (Mt 6,22). A falta de conteúdos significativos impede a pessoa de oferecer seus dons para o bem dos demais, pois se tornou frívola, superficial e incapaz de habitar em si mesma.

    3 – Pensar bem antes de clicar o play

        É necessário desenvolver um sereno processo de discernimento para dedicar tempo e fazer crescer as potencialidades ou dotes pessoais, com o fim de aplicá-los à solução das necessidades que carecem tantas pessoas ao redor. Fugir do imediatismo da vã curiosidade: antes de clicar o play de um vídeo, ou navegar sem rumo na internet, pensar para onde isso conduzirá, e saber prescindir do que faz mal à própria alma, tendo a convicção de que esse discernimento não diminuirá a liberdade pessoal, mas livrará o coração de ser escravo de banalidades.

        O olhar desprendido do temperado capacita-o para descobrir a beleza que se oculta nas coisas simples, faz aprofundar na verdade das coisas, pois o mundo revela e fala de Quem o criou. O olhar temperado faz descobrir maravilhas insuspeitadas porque a moderação liberta e purifica o coração, e facilita uma relação serena com as pessoas e as coisas (o egoísta e o invejoso são infelizes porque nada os saciam). O primeiro efeito da temperança é a “tranquilidade de espírito”, fruto da ordem interior da pessoa. O olhar desprendido e limpo repara nos verdadeiros tesouros da vida e da convivência, e neles encontra um autêntico repouso.

    4 – Frutos da temperança

        A temperança leva a não olhar desnecessariamente o celular durante o trabalho ou na convivência com as pessoas. Essa renúncia que parece de pouco valor é decisiva para concentrar os cinco sentidos naquilo que deve ser feito: dizer “não” ao que dispersa a mente é dizer “sim” ao que realmente importa. Tal esforço desenvolve a interioridade e contribui para despojar-se do que é superficial e da perda de tempo: “A vida recupera então os matizes que a intemperança descolore. Ficamos em condições de nos preocuparmos com os outros, de compartilhar com todos as coisas pessoais, de nos dedicarmos a tarefas grandes”, diz Escrivá de Balaguer.

    Texto produzido por Ari Esteves.

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  • Férias escolares: aproveitamento criativo do tempo

    Férias escolares: aproveitamento criativo do tempo

    1 – A ociosidade não descansa. 2 – O descanso familiar criativo. 3 – Livros de literatura enriquecem o pensamento e descansam. 4 – Importância das tradicionais brincadeiras infantis. 5- Atividades para adolescentes nas férias

    1 – A ociosidade não descansa

        Descansar não é ficar sem fazer nada, mas distrair-se em atividades que exijam menos esforços (Caminho, n. 357). Trata-se de um bom conselho para os pais terem em conta nos meses de férias escolares de seus filhos, a fim de que aproveitem melhor o tempo e se enriqueçam humana e culturalmente: diz o velho refrão que a ociosidade é a mãe de todos os vícios! Com inteligência, perspicácia e criatividade, os pais devem incentivar o descanso dos filhos – sejam eles crianças, adolescentes ou jovens –, e fazê-los compreender que as muitas horas passadas diante de celulares, tabletes ou TV trazem enorme enfraquecimento intelectual e fraqueza da vontade, além de facilitar a entrada em sites inconvenientes e viciantes.

        O primeiro passo para programar as atividades é ter horário de dormir e de acordar, de fazer as refeições, de findar o trabalho e retornar para casa… Um lar onde não há atividades fixas se torna um caos e favorece o empobrecimento humano e cultural de seus membros: chegar do trabalho ou da escola na hora que quiser, fazer as refeições diante da televisão ou no sofá, deixar os objetos pessoais em qualquer canto, descansar de forma isolada e não em família…. Com isso, a TV passa a ser a protagonista da casa e cria ocasiões de perdas de tempos, impede o silêncio necessário para as atividades criativas, e leva cada um a agir como bem entender.

    2 – O descanso familiar criativo

        Fins de semana, feriados e períodos de férias são oportunidades não apenas para descansar, mas para fomentar o diálogo familiar. Faz parte de uma boa rotina familiar sair aos domingos ao menos meio período, e uma vez por mês passar o dia fora.

        Os pais devem promover a cultura familiar por meio de boas rotinas distribuídas ao longo do dia, da semana e do mês: tertúlias ou bate-papos após as refeições, audição de músicas de qualidade, sessões de vídeos culturais ou filmes selecionados, leitura de obras literárias e de contos para as crianças, jogos de sala, passeios em parques ou pelo campo para curtir a natureza; visitar museus, exposições artísticas, feiras de livros; ir ao teatro infantil; cozinhar em família… Essas iniciativas facilitam que os filhos abandonem celulares e telas digitais, e criam excelente ambiente no lar para ampliar os horizontes culturais de todos.

        Em bairros periféricos das grandes cidades as crianças são forçadas a ouvir à exaustão o funk e o rap, que penetram nos lares de forma insistente através dos pancadões das vizinhanças. É importante que os pais sejam criativos e ampliem o gosto das crianças ao deslumbrá-las com outros gêneros musicais: MPB, música clássica própria para cada idade, chorinho, samba, sertanejo, blue, jaz, corais, orquestras, música instrumental… Isso pode ser feito com DVDs, pesquisa no Youtube, apresentações ao vivo…

        Em nossa época, onde impera a cultura da emoção e da imagem, os pais podem contar com o cinema como grande aliado na educação dos sentimentos dos filhos. As cenas de filmes selecionados, por conter bons enredos, tocam os afetos ao abordarem aspectos essenciais da vida humana: coragem, honestidade, lealdade, fidelidade, o que leva cada um a refletir sobre o modo como conduz a própria vida. A afetividade, onde residem os sentimentos, emoções e paixões, não deve ser ignorada no processo educativo de adolescentes e jovens. Assim, para programar filmes que aportem valores ou modelos de conduta, sugerimos visitar o site https://pablogonzalezblasco.com.br/, que possui excelentes comentários e sugestões sobre bons filmes para serem vistos em família.

    3 – Livros de literatura enriquecem o pensamento e descansam

        Promover minutos diários para a leitura dos clássicos e das boas obras contemporâneas é excelente modo de descansar e de aproveitar o tempo. A leitura forja o caráter, cura as doenças da alma, resgata a autoestima, aumenta a preparação intelectual e cultural ao incidir diretamente sobre a inteligência, amplia o nível e o alcance do pensamento, enriquece o vocabulário, melhora a forma de expressar o pensamento escrito e ora, e faz ganhar com a experiência do outro (“escarmentar em cabeça alheia”, diz o ditado): “Sem a arte narrativa – e aí se enquadra o cinema – o ser humano teria que contar tão só com suas próprias experiências, o que significa que se veria obrigado a aprender tudo desde o princípio. Sem conhecer a Odisseia, o homem não saberia nada da fidelidade de Penélope; sem Shakespeare ignoraria as dúvidas de Hamlet, o amor de Romeu por Julieta. Sem Dom Quixote, teríamos que descobrir por conta própria a diferença entre ver o mundo como é e vê-lo como deveria ser” (Krzysztof Zanussi, filósofo e cineasta polonês).

        É preciso nutrir a veia criativa das crianças por meio da contação de histórias e sessões de leitura para elas. Essas atividades deixam um legado para a vida toda, que é o gosto pela leitura. Na internet há vários vídeos com dicas sobre contação de histórias e leituras interativas.

        No site https://staging.ariesteves.com.br/literatura-infanto-juvenil/, há inúmeras sugestões de livros por idade. Caso o adolescente não esteja habituado a ler livros, sugerimos iniciar pela literatura infantil, tão apreciada também pelos adultos (o famoso filósofo C.S. Lewis, professor de Oxford, durante toda sua vida leu contos de fadas, duendes, animais que falam, reis e rainhas…).

    4 – Importância das tradicionais brincadeiras infantis

        Educar as crianças na realidade do dia a dia, e não na irrealidade das telas digitais, oferece oportunidades para incentivá-las a desenvolver bons hábitos ou virtudes. Surgem nas férias excelentes maneiras de fomentar as clássicas brincadeiras infantis, essenciais para o desenvolvimento motor e intelectual das crianças: criam novas habilidades, ajudam a explorar o imaginário com o “faz de conta”, fixam a atenção, desenvolvem a estratégia e o raciocínio lógico, sociabiliza e favorece o autodomínio… Infinitamente melhor do que ficar passivamente diante de telas são as brincadeiras de pular corda, amarelinha, pião, queimada, batata quente, pega-pega, bolinha de gude, passar anel, empinar pipa, esconde-esconde, cinco marias, telefone sem fio, stop ou adedanha, jogo da velha, bolinha de sabão, entre muitas outras. No site https://quindim.com.br/blog/jogos-e-brincadeiras-antigas/ há explicações de como promover essas brincadeiras.

        Criar acampamento em casa, fazer sessões de história e de leitura, jogos de tabuleiro, brincadeira no jardim ou no parque de esguichar água um no outro, ginástica em grupo… Os jogos de inteligência, como o quebra-cabeça, xadrez, lego, damas, de memória, entre outros, resgatam as crianças das telas digitais. Passeios em parques, jardins ou campo são ótimas ocasiões para se conhecer os tipos de flores, árvores, pássaros e insetos que circulam nesses ambientes.

        A ”oficina de brinquedos” solta a imaginação das crianças ao transformar em brinquedos garrafas pet, rolos de papel toalha, caixa de leite, embalagens descartáveis de produtos de cozinha e limpeza.

        Visitar exposições de arte com crianças exige certa estratégia. Trata-se de criar uma espécie de jogo com elas. Antes de ir ao local, entrar no site da exposição e gravar ou imprimir os quadros ou esculturas que as crianças mais apreciaram. Depois, no local da exposição, pedir a elas que localizem as obras escolhidas (nunca diga que a escolha é feia, pois inibirá a espontaneidade da criança), e pergunte a cada uma, caso fosse a artista, que mais colocaria na obra de arte. Com isso, a criança fixará a atenção nos detalhes para imaginar o que mais poderia acrescentar.

    5- Atividades para adolescentes nas férias

        Sem horário de dormir e de acordar não se pode planejar nada seriamente, nem crescer em virtudes humanas. É medicamente comprovado que as pessoas em condições normais de saúde precisam de 7h30 a 8h de sono por dia, sem necessidade de tirar a sesta após o almoço, a fim de não ficarem preguiçosas e com ânimo arredio a qualquer esforço físico ou mental. Portanto, se um adolescente dorme às 22h, poderá pular da cama no horário fixado, por exemplo, às 6h30, para cumprir o planejado: tempo de asseio, café da manhã e iniciar as atividades programadas.

        Quais ocupações os adolescentes podem se dedicar nas férias? Dependerá da situação de cada um: quem foi mal em algumas disciplinas do ensino fundamental ou médio, deverá dedicar uma ou duas horas diárias para melhorar o desempenho nessas matérias. Também poderá adiantar o estudo das disciplinas que cursará após as férias.

        O aluno que passa muito tempo em games e redes sociais, certamente tem dificuldades com a redação, caligrafia discursiva (só escreve com letras de forma) e desconhece a grafia das palavras. A falta de leitura leva muitos adolescentes a reter apenas a sonoridade das palavras, e não sua grafia: ao invés de escreverem a “gente foi passear”, anotam “agente foi passear”, “seromano” e não “ser humano”. Soma-se a essa carência a de não saber colocar pontos finais no mesmo parágrafo ao concluir uma ideia, enchendo-o de vírgulas: Minha família é muito legal (caberia um ponto final após essa ideia), agente (a gente) se gosta muito (poderia ter outro ponto final), vamos passear e viajar junto (caberia colocar aqui outro ponto final e um “s” em junto), minha mãe e meu pai amo eles… As férias ofertam a possibilidade de mudar o triste panorama do analfabetismo funcional, onde adolescentes e jovens já não reconhecem as palavras e, por não compreender os textos que leem, não captam as ideias centrais para explicar o conteúdo do que foi lido.

        Os pais, mesmo não sendo professores de português, devem perceber as dificuldades que os filhos têm para escrever. Para isso, basta pedir que redijam um texto curto (dez linhas, por exemplo) sobre um fato cotidiano, e depois ler ou apresentá-lo a um amigo que possa lê-lo e orientar sobre o modo de corrigir as carências apresentadas.

        Uma sugestão para melhorar a escrita dos adolescentes e jovens, é a leitura do livro de contos “Brás, Bixiga e Barra Funda”, de Antonio de Alcântara Machado, que escreve frases curtas e com ponto final, fáceis para os adolescentes “pegarem” o jeito do autor e passar a imitá-lo, sem necessidade de enfrentar as complicadas regras gramaticais.

        Na aritmética, muitos jovens falham nas contas de multiplicar e de dividir, e atribuem a culpa à pandemia ou à escola pública. Mas, se forem sinceros, deverão atribuir a culpa à falta de interesse em estudar por conta própria, seja em livros ou por meio de aulas gratuitas no Youtube. Aproveitar as férias para aprofundar nessa disciplina escolar.

        O período de férias é excelente momento para o filho ou filha conferir a faculdade pública ou privada que pretende ingressar, e iniciar o preparo para o vestibular com um ou dois anos de antecedência, seja o ENEM, Fuvest ou outro. Para decidir sobre a carreira que pretende fazer, caso haja dúvida, é preciso examinar os dotes naturais e o gosto pessoal para depois escolher, entre as carreiras que utilizam tais competências, aquela que mais se ajusta ao gosto, e à qual poderá imaginar-se a trabalhar nela pelos próximos anos. Para isso, na dúvida entre um curso ou outro, a sugestão é verificar pelo site de cada instituição de ensino, as disciplinas que a carreira irá percorrer nos anos do curso, optando por aquela que mais se ajusta às preferências e competências pessoais.

        As férias são também oportunidades para desenvolver algum hobby para o qual tenha talento: desenho, pintura, aprender um instrumento musical, treinar uma modalidade esportiva, xadrez, jardinagem, voluntariado em algum projeto social, aprender um idioma, iniciar alguma coleção.

        Outra sugestão para evitar a dispersão em mil assuntos ou curiosidades oferecidas pela internet e redes sociais – o cérebro não consegue ordenar o excesso de informações desencontradas –, é concentrar o interesse dentro de um campo do saber. Para isso, dedicar-se mais profundamente a algum tema científico, cultural ou artístico, seja por meio de lives, vídeos, áudios, cursos online… Com conhecimento mais aprofundado em algum tema, poderá o jovem contribuir para a formação humana e cultural de familiares e amigos, além de poder colaborar com aulas e palestras em alguma ONG e enriquecer o debate cultural.

    Texto produzido por Ari Esteves. Desenho de Charles Parker

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  • Não dê celular ao seu filho

    Não dê celular ao seu filho

    1 – As telas impedem apreciar o mundo ao redor. 2 – Imprudência dos pais que colocam telas digitais para os filhos. 3 – A criança necessita da realidade ao seu entorno. 4 – Ensinar a desejar o desejável

    1 – As telas impedem apreciar o mundo ao redor

        Crianças nascidas a partir de 2010 pertencem à chamada Geração Glass (vidro em inglês, em referência às telas), porque nasceram em meios às imagens e podem passar horas e horas diárias diante de tabletes, smartphones, computadores, laptops. Vários estudos informam que crianças expostas por longas horas às telas digitais têm seu cérebro estimulado por altas doses de dopamina, que é um neurotransmissor relacionado ao prazer, à satisfação. A dopamina pode ocorrer dentro da normalidade, por exemplo, ao assistir a um bom filme, fazer uma boa refeição, praticar esporte; ou pode ser estimulada em altas dosagens provocadas pelos vícios, tal como o da bebida, drogas, pornografia, e agora também o das telas.

        A realidade normal, o convívio com os pais e irmãos, o estudo, a leitura de contos, as brincadeiras sozinhas ou com os amigos, um passeio na natureza, se tornam tediosos e desestimulante porque trazem menor nível de prazer para crianças acostumadas às telas. Habituadas a ver e a fazer apenas o que é agradável à sensibilidade, não conseguem controlar seus impulsos e dizer “não” a si mesmas, nem a ouvir um “não”: o resultado é a falta de autodomínio, o encerrar-se em si mesmas, ter atitudes de desobediências, fugir das responsabilidades. Há relatos de crianças que reagem com extrema rebeldia e agressividade ao ser retiradas delas as telas. Um adolescente, em verdadeira crise de abstinência porque o proibiram de utilizar o celular, chegou a bater a cabeça contra a parede para machucar a si, e logicamente a seus pais com tal atitude. É fácil antever nessas crianças o menor desempenho em matemática, linguagem, física, química. Soma-se a isso o risco a que estão expostas pelas muitas horas na internet: pornografia, pedofilia… Quando um adolescente envereda pelos sites pornográficos, obceca-se por isso e perde o interesse por estudar, conviver com as pessoas, sonhar com algum projeto, etc.

    2 – Imprudência dos pais que colocam telas digitais para os filhos

        Não se trata de ser contra a tecnologia, mas de saber utilizá-la. O excesso de informações, sons, cores e estímulos deixam saturada a sensibilidade e o cérebro da criança, que não consegue ordenar tantos temas desencontrados. A quantidade de imagens e de situações apresentadas durante um minuto na televisão não permite que a sensibilidade (sentimentos, emoções, paixões) tenha tempo de se manifestar corretamente, gerando com isso atitudes de indiferença diante de situações que reclamariam, por exemplo, um sentimento de dor ou de misericórdia, porque foram abafados pelas sucessivas imagens. Existe um período crítico em que as crianças precisam ter um nível de estímulo proporcional à capacidade cognitiva, e não uma enxurrada de estímulos que prejudica a atenção devido à entrada de tantas informações desencontradas, que mais do que estimular a inteligência, anula a capacidade de pensar e relacionar, e tudo fica reduzido ao periférico.

        Há pais que colocam telas diante dos filhos pequenos para ter tempo de descansar, cuidar da casa, trabalhar; ou porque são levados a isso pelos produtores de programas que afirmam ser importante para aumentar os neurotransmissores ou o nível de inteligência dos filhos; para que os filhos não sejam analfabetos digitais; ou para controlar onde eles estão (isso só fisicamente, pois a cabeça e o coração poderão estar em locais indesejados). O que se constata é que o excesso de telas torna as crianças passivas e com preguiça mental para criar seus jogos, estar sozinhas com seus próprios pensamentos; perdem habilidade para o que exige esforço racional como montar lego, encaixar cubos, xadrez, jogos de memória, quebra-cabeças. O gosto por estudar e o interesse pelas realidades ao seu entorno também vão por água abaixo. Essa inabilidade chega ao extremo de não saberem prestar atenção em alguém que pretenda manter uma conversação com elas. Afirmar que se tornam mais inteligentes e que são crianças multitarefas é uma balela que várias pesquisas de institutos norte-americanos vêm provando ao contrário (ler o livro Educar na realidade, de Catherine L’Ecuyer, Editora Fons Sapientiae). Quanto a serem analfabetos digitais, não se deve ter receio disso, pois quando os filhos crescerem e chegarem ao mercado de trabalho, toda a tecnologia de hoje será obsoleta e digna de exposição em museus.

        Inteligente não é quem recebe um monte de informações, mas quem sabe selecioná-las e conectá-las entre si com objetivos concretos. A farta exposição às telas tem aumentado o índice de hiperatividade e desatenção das crianças, cuja memória também deixa de apoiar a cognição porque se tornou um armário entupido de bugiganga. Além do analfabetismo funcional, temos agora crianças com déficit de inteligência porque utilizam mal a capacidade de pensar, desestimulada pela sucessão de imagens e estímulos visuais que apagam o encantamento e a curiosidade natural pela realidade, e o gosto por descobrir o ser das coisas.

    3 – A criança necessita da realidade ao seu entorno

        Sem a interface humana ou diálogo com um adulto, fica difícil para a criança criar vínculos afetivos profundos com seus pais, compreender a importância dos valores ou modelos de conduta que estão por detrás de certas realidades, captar critérios diretamente explicados a ela para que possa distinguir entre o certo e o errado. A criança necessita de um interlocutor que a olhe nos olhos e fale com ela para transmitir acolhimento, segurança e que a anime a fazer suas próprias experiências. Essa relação dialogal ensina a criança a gesticular, a manifestar seus pensamentos e sentimentos, a dar entonação normal a uma conversa, o que não ocorre com as crianças a quem lhes falta a interação humana, substituída pelas imagens com suas habituais cenas exageradas e situações limites para estimular nelas sentimentos de alegria, tristeza ou medo, com o fim de captar a atenção delas. Com isso, se tornam crianças desfocadas da realidade e de si mesmas, e não aprendem a interagir ou expressar-se sem imitar os modos exagerados dos personagens das telas.

        São os pais, e não as telas, que ensinam as crianças a serem temperadas e a terem valores firmes para saber agir em busca do que é bom, a fim de não ficarem à mercê do que lhes é imposto pelas telas. Uma criança não tem o senso crítico desenvolvido, e necessita da carinhosa, paciente e insistente vigilância dos pais, que em curto espaço de tempo conseguem que seus filhos aprendam a distinguir entre conteúdos bons e ruins, para fazerem boas escolhas por si mesmos, já que muitas vezes os pais não estarão ao lado para ajudar na eleição.

        Os pais devem ser os intérpretes da realidade para seus filhos pequenos, ajudando-os a conhecer gradativamente as coisas ao seu redor. Se as telas são a interface entre a criança e o seu mundo, uma enxurrada de situações passará a acomodar-se dentro dela, sem distinguir entre o bom e o ruim, pois seus pais deixaram de ser seus intérpretes. A criança exposta ao excesso de telas age por motivações externas, dependente das iniciativas que lhe são impostas desde fora, e passa a viver à base de recompensa, tem medo ou ansiedade das coisas que são custosas, já que habituou-se a apertar botões de aparelhos eletrônicos para ter tudo facilmente. Torna-se uma criança não motivada para sair de si mesma e retornar à realidade e ser generosas para não brigar com o irmão, para visitar uma pessoa doente, para ajudar em alguma tarefa do lar.

        Crianças que agem por motivações interiores são capazes de criar o seu mundo a partir de dentro, de sua imaginação e das realidades que observou pausadamente e as incorporou dentro de si. Deve haver um tempo de maturação, de desenvolvimento daquilo que dever ser absorvido na biografia da criança. Se não há memória de vivências não haverá experiências. As brincadeiras são uma ferramenta importante para o aprendizado: o silêncio e a conversa consigo mesma para dar sentido aos potes de embalagens plásticas oferecidos a ela para brincar, a compreensão das regras dos diferentes jogos, o controlar seus impulsos para respeitar os parceiros de brincadeiras, são realidades que as crianças desvinculadas de telas digitais possuem. Porque passaram a explorar o mundo ao seu redor, elas sabem explicar melhor suas vivências, calmamente apreendidas; e quando não compreenderam algo, tiveram tempo de recorrer aos pais: a lagarta que se transformou em borboleta, a árvore que começou a transformar suas flores em frutos, os diferentes insetos que surgiram no jardim num dia de chuva ou aqueles que perambulam pelas paredes e vasos da casa… Mais facilmente essas crianças estarão dispostas a outras motivações interiores, tal como saber perdoar, privar-se de uma coisa para dar a alguém, preparar uma brincadeira para tornar felizes os irmãos e os amigos, perguntar para entender um assunto, ajudar os pais na arrumação da casa…

    4 – Ensinar a desejar o desejável

        Platão diz que o objetivo da educação é ensinar a desejar o desejável, e o que é o desejável senão o bom, belo e verdadeiro? Ir ao encontro do que é belo e verdadeiro exige um querer racional, sendo necessário ajudar as crianças nessa tarefa, pois dada a inexperiência de vida, elas tenderão a procurar apenas o agradável aos sentidos. Cabe aos pais fomentar o gosto por realidades superiores: Deus, leitura de contos (ler para elas se forem muito pequenas), passeio pelo campo e parques sem medo de que se machuquem, brincadeiras que incentivem a criatividade; visitas culturais a museus e exposições, tornando essa atividade uma espécie de jogo onde a criança deverá encontrar as obras que viu antes no site da exposição.

    Texto produzido por Ari Esteves com base em live do Canal Youtube de Sâmia Marsili. Imagem de Kaku Nguyen.

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  • Para dar certo na vida

    Para dar certo na vida

    1 – É tarefa de cada um construir-se. 2 – As virtudes são essenciais para a construção pessoal. 3 – O crescimento humano exige respostas de amor. 4 – A importância das virtudes sociais. 5 – Alguns caminhos para motivar-se

    1 – É tarefa de cada um construir-se

        Para dar certo na vida não bastam os conhecimentos técnicos, científicos e culturais, pois há quem os possui e são infelizes, inclusive há os que não lutam contra seus defeitos e acabam sendo pessoas de difícil convivência no âmbito familiar, profissional ou social. Isso ocorre normalmente porque seus afetos (ou o conjunto de suas emoções, sentimentos e paixões) não estão sob o domínio da inteligência e da vontade que, por meio das virtudes humanas, ordenam a afetividade.

        É experiência comum que ninguém nasce pronto, sendo necessário construir-se ao buscar a perfeição humana ao longo da vida, principalmente fortalecendo as qualidades pessoais e eliminando os defeitos, a fim de chegar à expressão ideal de si mesmo para ser feliz e tornar felizes as pessoas com as quais se convive.

        A formação humana não se cinge apenas ao aspecto profissional, mas deve abarcar a pessoa por completo − inteligência, vontade e afetos –, e isso se consegue por meio de virtudes que contribuam para a configuração do caráter e o aperfeiçoamento do temperamento. O hábito de refletir sobre o que está certo ou de errado nas próprias ações, ideias, aspirações, desejos e sentimentos, é tarefa diária que pode feita durante alguns minutos no final de cada dia, com o intuito de tirar alguns propósitos – três ou quatro – simples e concretos para levá-los à prática no dia seguinte. Por meio desse exame vai ocorrendo uma conaturalidade com o bem, de modo que cabeça (inteligência e vontade) e coração (sentimentos, emoções e paixões) quase que de forma instintiva contribuam para orientar as inclinações e sentimentos de acordo com a verdade, a fim de que a pessoa passe a querer e a desejar até sensivelmente o que é bom.

    2 – As virtudes são essenciais para a construção pessoal

        Para conquistar as virtudes é preciso estar motivado por valores ou convicções que fortaleçam a vontade em direção ao bem. Nascem as virtudes de um querer livre, racional e pela prática habitual de atos contrários aos defeitos (não basta apenas um ato virtuoso para se criar um hábito estável). Por isso, se diz que as virtudes são racionais e conduzem progressivamente a uma maturidade maior, expressada por meio de uma afetividade equilibrada, relações humanas profundas e justas, um agir que busca sempre o moralmente bom… A pessoa virtuosa deseja agir bem, e se sente mal se não se comporta dessa maneira.

    3 – O crescimento humano exige respostas de amor

        “O que nos pode tornar felizes, senão a experiência do amor dado e recebido?”, disse Francisco, na audiência de 14-07-17. O crescimento humano acontece quando há respostas livres de amor e não pelo simples cumprimento de obrigações ou regras, pois estas engessam a pessoa. O amor dá forma de ser a cada virtude porque leva a lutar contra as imperfeições próprias e compreender os defeitos alheios, amando as pessoas não pelos resultados que se possam obter delas, mas pela dignidade que possuem por serem pessoas, e ajudando-as a serem melhores. Pode-se afirmar que todo desejo de melhora e toda tarefa formativa deve conduzir a um crescimento no amor e no serviço aos outros.

        Aprofundar na compreensão de quem somos, cultivar convicções firmes, ter a valentia de não se deixar levar pelo que faz a maioria, e saber explicar o motivo pelo qual se atua de um determinado modo, indica que não se vive de maneira frívola e negligente. Esse comportamento exerce um grande atrativo desde fora, principalmente se está unido ao modo de falar, à discrição ou pudor na maneira de se vestir e mover-se, no jeito de sorrir e de olhar… Todos esses aspectos externos denotam um rico mundo interior e a personalidade de quem os possui.

    4 – A importância das virtudes sociais

        As atividades solidárias ajudam a crescer no amor e sair do egoísta círculo do eu para dirigir o pensamento e as ações aos demais. Pode-se afirmar que parte da formação humana consiste em desenvolver as virtudes sociais, que são caminho para a fraternidade e a amizade. A magnanimidade, a preocupação pelos mais necessitados, o espírito de serviço, a dedicação de tempo aos outros e a escuta atenta são virtudes que fazem respeitar os modos de ser e de fazer diferente dos próprios, ensinam a proteger a liberdade das pessoas, tornam delicado o trato mútuo e fazem mais justas e humanas as relações entre os homens. Tais virtudes, unidas ao esforço pessoal por melhorar, transformam o ambiente familiar em remanso de paz e trazem solidariedade às relações profissionais e sociais.

        “Esse ambiente de amizade, que cada um está chamado a levar consigo, é o fruto da soma de muitos esforços por tornar a vida agradável para os outros. Ganhar mais afabilidade, alegria, paciência, otimismo, delicadeza e todas as virtudes que tornam a convivência amável é importante para que as pessoas possam se sentir acolhidas e felizes: uma palavra amena multiplica os amigos e acalma os inimigos, uma língua afável profere saudações (Eclo 6,5). A luta para melhorar o próprio caráter é condição necessária para que surjam mais facilmente relações de amizade. Por outro lado, certas maneiras de se expressar podem atrapalhar ou dificultar a criação de um ambiente de amizade. Por exemplo, ser categórico demais ao expressar a própria opinião, dando a impressão de que achamos que nossas colocações são as definitivas, ou não se interessar ativamente pelo que os outros dizem, são maneiras de agir que nos fecham em nós mesmos. Em algumas ocasiões, esses comportamentos manifestam uma incapacidade de distinguir o que é opinável daquilo que não é, ou a dificuldade para relativizar questões em que as soluções não são necessariamente únicas” Carta de Mons. Fernando Ocariz, de 01-11-2019

        As virtudes sociais ajudam a distinguir entre o essencial e o transitório ou passível de mudança nas relações entre as pessoas. Essas qualidades são necessárias para a paz social, pois tornam madura e solidária a personalidade de cada um, que passa a atuar com flexibilidade ao distinguir em cada momento entre o que não é essencial e o que o é, e neste último caso, sabendo manter uma delicada e respeitosa firmeza diante do que entende ser um valor permanente.

    5 – Alguns caminhos para motivar-se

        Há caminhos que ajudam a compreender a importância do aperfeiçoamento humano e a ajuda aos demais: a contemplação e o encantamento que oferece a arte e a beleza da natureza; o refletir sobre os clássicos da literatura e considerar a mensagem de fundo dos bons filmes; a vida de oração que leva a meditar no silêncio sobre si próprio e no bem que se pode fazer aos que mais necessitam; o estudo e aprofundamento acerca do comportamento humano que oferecem os bons manuais de antropologia… Esses aspectos, necessários para elevar a sensibilidade humana até o autenticamente bom e belo, são meios que fazem o espírito descobrir dimensões mais profundas da realidade, modelam a personalidade, iluminam a consciência e permitem dar respostas coerentes com as próprias convicções.

    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Imagem de Anna Shvets.

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  • Vida boa ou boa vida?

    Vida boa ou boa vida?

    1 – O que é viver bem? 2 – Um projeto de serviço aos demais dá sentido à vida. 3 – Quais são os valores que regem a minha vida? 4 – Necessitamos de valores imitáveis. 5 – Contos e romances podem apresentar modelos de conduta.

    1 – O que é viver bem?

        Viver bem não se esgota na satisfação das necessidades básicas ou primárias, a que costumam chamar de “boa vida”: comer, beber, dormir, vestir-se, fazer compras… Contentar-se apenas com usufruir de pequenos prazeres pontuais como academias, passeios, vídeos, comidas, muito esporte, baladas, games, viagens, é transformar em finalidades o que deve ser apenas um meio para descansar a fim de retornar ao projeto maior com ânimo renovado. Aquietadas essas necessidades, se a vida de um homem não se dirige a um ideal maior – a uma vida boa –, ela se converte em algo sem sentido.

        A incapacidade de ultrapassar o puramente primário ou material faz com que haja forte crise de projetos vitais. Muitas pessoas não sabem por onde seguir porque faltam verdades ou valores a que se inspirar. A ausência de uma razão maior para viver retrai a ação, desmotiva e empequenece os projetos, que se tornam exíguos a ponto de não valer a pena se sacrificar por eles. Que sentido tem a vida para quem se vê apenas como uma realidade corporal a ser satisfeita biologicamente, e não espiritualmente? Os afetos e a sensibilidade corporal necessitam integrar-se ao espiritual para serem enriquecidos por uma interpretação superior, ofertada pela razão. Quem reduz a vida em agradar apenas a sua sensibilidade corporal, defrauda o seu corpo porque não o une ao seu espírito: a natureza humana integra corpo e alma em unidade inseparável. Quando a realidade espiritual não é alimentada, a pessoa ressente-se e pode acusar diversas formas de insatisfação interior ou psicológica.

    2 – Um projeto de serviço aos demais dá sentido à vida

        Ter projetos mais elevados impede reduzir a vida à busca de bens primários, pois estes uma vez satisfeitos reclamam por novos consumos, já que não preenchem a alma de felicidade. É preciso ter a capacidade de acolher a verdade até ficar fecundado por ela, gerando ações que podem transformar o mundo. Todos os grandes projetos ou realizações em prol da humanidade, seja no plano moral, artístico e científico, foram gestados na vida espiritual e na reflexão de grandes homens como Pasteur, Dante, Cervantes, Jérôme Legeune, Dostoievski, Shakespeare, Ampére, Thomas Edison…

        A experiência do silêncio e da reflexão criam o ambiente adequado para amadurecer o pensamento e desenvolver um projeto para o qual vale a pena gastar-se. Quem é profundo e não fica apenas nas impressões superficiais das mil imagens e notícias das telas digitais, acaba por penetrar nas questões que podem orientar a vida. Por exemplo, quando não se é indiferente aos que sofrem, quando não se trabalha apenas para si, mas também para diminuir as necessidades materiais e espirituais dos que sofrem, começa-se então a ter mais sentido a vida e os projetos se engrandecem. − Qual é a missão que me cabe, sem a qual a minha história perde sentido? Quando um grande ideal se apodera de alguém, vem a ser o motor de suas ações, pois a ele se voltam a inteligência, vontade e os afetos.

    3 – Quais são os valores que regem a minha vida?

        Antes de agir necessitamos aplicar alguns critérios prévios chamados valores ou referências para pautar a ação em direção à verdade e ao bem, fim natural da pessoa. A educação em boa parte consiste em transmitir modelos e valores de conduta, a fim de que cada um saiba por si mesmo fazer boas escolhas. Examinar sobre os valores que regem a própria vida é medida de prudência para não construir sobre o erro, que seria fatal e origem de fracassos. As mídias mostram exemplos não edificantes de alguns que se deixaram corromper porque adotaram como valores a fama, poder ou dinheiro… Muitos adolescentes, carentes de algo a oferecer, pretendem ser youtubers a qualquer preço porque julgam que a fama é sinal de felicidade. A pergunta sobre quais os valores ou modelos a adotar tem sentido porque determinam o caminho bom ou mau que se dá à própria vida.

         A reflexão sobre valores e modelos de conduta, a preocupação pelos mais necessitados; a contemplação da arte, da natureza, da boa música; o incentivo que a leitura das obras literárias clássicas oferece, ajudam a crescer no serviço aos demais porque elevam o espírito até dimensões mais profundas da realidade, e tecem um mundo interior rico e capaz de projetos que irradiem com intensidade a verdade e a beleza a tantos que carecem desses bens.

    4 – Necessitamos de valores imitáveis

        Os valores não podem ser teóricos, inexequíveis, mas representados por modelos a serem imitados, e com os quais podemos nos identificar e eleger, seja porque viveu ou vive uma vida cheia de significados pelos quais vale a pena se arriscar. Em tempos de crise de valores é possível encontrar pessoas que personifiquem um ideal de excelência humana, seja na própria família, na profissão ou nas relações sociais, porque a história delas está lastreada por fatos – virtudes! – edificantes.

    5 – Contos e romances podem apresentar modelos de conduta

        As narrativas – contos, romances, novelas, teatro, biografias… – têm influência enorme na vida humana porque geram condutas. Contar histórias sempre teve alcance maior do que discursos teóricos na configuração da vida de pessoas ou de um povo. A transmissão oral de contos feita pelos pais às crianças, a leitura de romances épicos, dramas e mesmo os bons filmes, são veículos de transmissão de valores e modelos de condutas. Porém, é necessário estar atento porque em nossos dias os grandes narradores são a TV, as redes sociais e a publicidade, que podem manipular por meio de histórias que apresentam modelos que não condizem com a verdade acerca da natureza humana, seja na conduta familiar, profissional, social ou de lazer.

    Texto produzido por Ari Esteves, inspirado nos ensinamentos de Ricardo Yepes e Javier Aranguren Echevarria, no livro “Fundamentos de Antropologia – Um ideal de excelência humana”, editado pela Livraria e Instituto Raimundo Lúlio, São Paulo. Imagem de Asad Photo Maldíves

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  • Elegância e bom gosto

    Elegância e bom gosto

    1 – A beleza salvará o mundo. 2 – Bom gosto não é questão de dinheiro. 3 – Casa simples, limpa e ordenada. 4 – Elegância no vestir-se. 5 – O modo de se vestir reflete a personalidade. 6 – As roupas devem adequar-se a cada situação. 7 – A moda é para vestir e não despir

    1 – A beleza salvará o mundo

         Dostoievski disse que a beleza salvará o mundo, mas para os utilitaristas buscar o belo não parece ser útil, pois o importante para eles é a funcionalidade das coisas. Como prova de que a beleza anda de mãos dadas com o bem e a verdade, vale a pena assistir o vídeo “Por que a beleza importa?”, de Roger Scruton, no Youtube, onde o narrador mostra vários edifícios europeus abandonados devido à feiura deles, apesar de terem sido pensados para serem funcionais. O mal não é belo, mas incoerente. A natureza humana necessita do belo, que é um valor que traz harmonia e dignidade à pessoa e ao seu entorno.

    2 – Bom gosto não é questão de dinheiro

         Bom gosto e elegância não são qualidades arbitrárias ou de ostentação, mas de simplicidade e humildade ao admitir que em tudo deve haver harmonia, equilíbrio e proporção. Elegância e bom gosto não dependem de ser rico ou pobre, mas de saber escolher, pois há ambientes luxuosos e decorados com péssimo gosto, onde vários estilos se misturam e se chocam; e há ambientes simples, mas decorados com objetos bem escolhidos em brechós, e que imprimem um toque de harmonia e elegância ao local.

    3 – Casa simples, limpa e ordenada

         O bom gosto está nos pequenos detalhes que tornam amável a vida de família; está no cuidado com as pequenas coisas, está no afã de servir aos demais. Se cada membro da família − dos adultos às crianças − colabora para que o lar esteja limpo, ordenado e decorado com simplicidade e bom gosto, torna-se uma maravilha retornar para casa no final de cada dia. Faz parte do bom gosto cuidar dos pormenores da casa: consertar o quanto antes a fiação elétrica exposta, a torneira pingando, as tomadas soltas; trocar a vidraça quebrada; recuperar ou substituir os móveis com defeitos, manter nos armários os objetos que se usam no dia a dia; decorar o ambiente com vasos, flores e quadros… Na periferia das grandes cidades é possível ver desde fora casas simples com paredes externas rebocadas, sem umidade e pintadas; janelas com seus caixilhos de madeira também pintados, vasos de flores que ornamentam a entrada e demonstram que naquele lar há bom gosto e respeito pelos seus moradores… Aliás, tal visual incentiva a que os vizinhos façam o mesmo, pois a beleza é contagiante, difusiva.

    4 – Elegância no vestir-se

         Elegância e bom gosto devem estar presentes também no vestir-se, e para isso não é preciso gastar mais dinheiro, mas saber combinar as cores e os padrões dos tecidos (listrado, estampado ou liso). Revela elegância e harmonia utilizar uma das peças de cor escura (a calça, por exemplo), com outra (a camisa) de cor clara (ou vice e versa), sendo que ambas devem combinar os tons. Se a camisa é listrada ou com estampas, não utilizar uma jaqueta ou blazer também listrado, pois o visual com tantos riscos chega a embaralhar a vista e causará tontura ou labirintite a quem vê (o ideal será que uma das peças seja de estampa lisa). Uma roupa de tom azul dificilmente combinará com a de tom marrom; nem a de tom cinza combinará com o amarelo ou cenoura… A mesma roupa não deve ser utilizada por dois dias seguidos. Em geral, camisas, meias e peças de baixo devem ser usadas apenas uma vez por dia, e ser deixadas para lavar: utilizar por dias seguidos a mesma camisa encarde o colarinho e obriga a lavar com mais intensidade, desgastando rapidamente o tecido.

        Para aprender a combinar as cores, uma sugestão é observar as vitrines das lojas de roupas dos shoppings, onde o bom gosto de muitos vitrinistas sabe adequar os tons das indumentárias de seus manequins (bem, nem sempre…). Outra sugestão é pesquisar na internet sites como o www.vivadecora.com.br/pro/mistura-de-cores/, ou outros, que ajudam a combinar as cores não apenas das roupas, mas para qualquer ambiente da casa ou oficina.

    5 – O modo de se vestir reflete a personalidade

         A roupa revela aos demais o que somos e como somos; transmite o que queremos comunicar. Embora afirme-se que as aparências enganam, em muitas ocasiões elas transmitem verdades: podem revelar a profissão, idade, pulcritude, bom gosto, sensibilidade… Pode-se até fazer uma sutil alteração no conhecido refrão “Dize-me com quem andas, e te direi quem és”, para “Dize-me como andas e te direi quem és”. Há um equilíbrio profundo entre as roupas que se utiliza e a personalidade, pois a imagem externa de uma pessoa espelha a riqueza ou pobreza de seu interior: a mulher que deseja ser fatal procura mostrar “as armas da mulher”, e não se vestirá como a que quer ser apreciada pelo seu recato, elegância, distinção, cultura ou competência profissional. A anciã não se vestirá como uma jovem.

        Cada pessoa veste-se de acordo com seus ideais e aspirações. Um guarda-roupa revela se a pessoa sabe combinar as cores, se é dominada pela tendência do momento, ou se busca o equilíbrio entre beleza e funcionalidade. Para enfrentar o mercado de trabalho, as mulheres não necessitam masculinizar-se, pois o mundo laboral necessita de sua feminilidade, de sua atenção aos detalhes, dos modos empáticos e delicados de agir.

    6 – As roupas devem adequar-se a cada situação

         A roupa apropriada para cada ocasião torna atraente a pessoa, que se apresenta como alguém que respeita a si e aos demais, o que dá mais peso e credibilidade à sua personalidade, e ao que faz. A roupa tem uma dimensão social, e deve respeitar os valores que cada situação exige: ir ao casamento do amigo com agasalho esportivo ou com calça Jean revela que não se dá à ocasião a importância que ela tem, seja para o amigo ou para os demais convidados que se vestem elegantemente.

        Saber qual é a roupa apropriada para cada ocasião − passeio, trabalho, cerimônia social ou religiosa, esporte – demonstra sensibilidade. No lar, o estilo casual simples e elegante repercute na pessoa e no ambiente familiar (evitar andar de calção e sem camisa); no esporte, ao não usar roupas extravagantes para chamar a atenção e mostrar os detalhes anatômicos do corpo, indica que a pessoa é rica interiormente e não necessita evidenciar-se (ler o boletim Educar para o pudor). Na atividade profissional, a roupa revela bom gosto, respeito a si, ao ambiente, aos colegas de trabalho e aos clientes: trabalhar de jeans na área de apoio às redes de computadores está bem, mas não seria o ideal atender de jeans os clientes de uma agência bancária.

    7 – A moda é para vestir e não despir

         A moda não pode ser frívola, feita apenas para ser vista, porque trata-se de uma realidade cultural, moral e artística que reflete a história do momento e a personalidade dos que a criam e a dos que a adotam. A moda deve embelezar o corpo, mas sendo capaz de expressar a grandeza da alma: a dimensão e finalidade da moda pode ser lida em “La moda. ¿La conoces en toda su dimensión? (A moda: conhece-a em toda sua dimensão?), de Encarnita Ortega.

         Diz Sofia Carluccio, conhecida desenhista de moda no Uruguai, que alguns procuram conceber ou utilizar modelos chamativos, buscando atrair a atenção ao apelar para o recurso fácil do provocante. “Uma coisa que vejo muito claramente é que a moda é para vestir e não para despir: isso é como um “leit motiv”. Diz ela que na hora de desenhar não procura simplesmente que as pessoas estejam na moda, mas que combinem modéstia com elegância através de pequenos detalhes e acessórios. Cada peça de roupa é pensada até os mínimos detalhes.

    Texto elaborado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Sugestão de leitura: “La moda: entre a ética y la estética”, de Ana Sanches de la Nieta Hernández, traduzido por Manuel Alves de Sá, Diel Editora, Lisboa, Portugal. Imagem de hissetmehurriyeti.

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  • Atribuir tarefas aos filhos

    Atribuir tarefas aos filhos

    1 – Os filhos não possuem só direitos, mas também obrigações. 2 – Tarefas e encargos fortalecem a vontade dos filhos. 3 – Não substituir os filhos naquilo que devem fazer

    1 – Os filhos não possuem só direitos, mas também obrigações

        Erro comum é exigir que os filhos sejam apenas bons estudantes. A formação acadêmica ou profissional é só um aspecto da educação integral da pessoa humana, que carece também da educação da vontade e dos sentimentos. Há jovens excelentes do ponto de vista escolar, mas não têm autodomínio e são vítimas de seus instintos, sentimentos, paixões e portadores de um temperamento e caráter de difícil convivência, seja na vida familiar, escolar ou social. Isso ocorre muitas vezes porque pouco foram exigidos a contrariar a vontade e os sentimentos para cumprir seus deveres. Os pais não devem ter medo de exigir dos filhos desde que são crianças, pois os hábitos (bons ou ruins) se conquistam nas primeiras idades. 

        Só o bom vinho melhora com o passar do tempo: se não há esforço por evoluir cada dia, piora-se. Os defeitos não combatidos crescem na proporção geométrica à passagem do tempo. É triste constatar que os anos discorrem e muitas crianças chegaram à adolescência ou juventude e continuam sendo preguiçosas, desordenadas, birrentas, comilonas, malcriadas e egoístas. Isso aconteceu porque os pais não souberam trabalhar os aspectos negativos do caráter e do temperamento delas, e enganaram-se com o falso o raciocínio de que melhorariam com o decorrer tempo.

        Por que os filhos não são exigidos? Talvez por alguma das seguintes condutas: medo de perder o carinho deles (comum em pais que passam o dia fora); por admitir modelos liberais de comportamento impostos pelos meios de comunicação; por influência de correntes psicológicas que insistem em não contrariar as crianças para não provocar traumas; e por desconhecer que todos trazemos dentro um princípio inato de desordem ou lei de menor esforço. Evitar trabalhos aos filhos porque não pediram para nascer é profundo erro de apreciação antropológica, já que ninguém pediu para nascer, pois é Deus quem infunde a alma espiritual, racional e livre; além disso todos agradecemos o dom da vida, que sendo assumido traz responsabilidades.

    2 – Tarefas e encargos fortalecem a vontade dos filhos

        Trata-se de um direito e um dever dos pais exigir, porque as crianças não têm critérios nem experiência de vida e necessitam de orientação para agir bem, pois caso contrário serão capazes de passar um dia inteiro diante de uma TV ou deixando bagunçada a sala onde brincaram, além de não estabelecer para si horários a cumprir. Condoer-se e não exigir a que cumpram as tarefas ou − o que é pior − fazer as coisas por elas, transforma-as em pessoas acomodadas, fracas de vontade e acostumadas a que os outros cumpram as suas obrigações. Sábio é o provérbio sobre esse tipo de comportamento: “Com churros não se faz alavanca!”, pois logo serão adolescentes e jovens egoístas e metidos exclusivamente em seus interesses pessoais, e pouco importando-se em ajudar aos demais.  

        Os filhos não são portadores unicamente de direitos, mas possuidores também de deveres filiais, fraternais e sociais (amigos, vizinhos, professores…). Devem contribuir para o bem-estar de todos na casa. Os encargos, que podem ser muito variados, são as tarefas atribuídas a cada membro da família e aceitos livremente como contribuição ao bem-estar de todos. Cada tarefa é parte de um trabalho maior que deve ser alcançado em conjunto com os demais membros da família, e que dependerá dos costumes de cada lar, da idade, caráter e capacidade de cada um. Há pais que se reúnem com os filhos, desde o maior até o menor, e de modo alegre e descontraído fazem juntos uma lista com sugestões para deixar a casa ordenada e com horários estabelecidos: enxugar o banheiro, colocar os pratos e talheres na mesa, varrer e lavar pratos e talheres, levar o lixo para o portão; ordenar os quartos, sala e objetos pessoais; alimentar o cachorro e limpar a sujeira que faz; ir à padaria ou supermercado, fazer os consertos materiais na casa… Após concluir a lista de encargos, pais e filhos escolhem as tarefas que julgam desempenhar melhor. E estabelecem horários para as refeições, ligar e desligar a TV, ler, estudar, dormir, acordar… Permitir que os filhos adiem as tarefas e que passem o tempo em redes sociais, jogos e vídeos, é autorizá-los a que sejam preguiçosos e irresponsáveis. Devem primeiro cumprir o que os pais pedem, e só depois serem autorizados a fazer o que querem: − Não poderá ir jogar futebol enquanto não recolher os pratos e arrumar a mesa do jantar.

        Ter encargos no lar desde criança fortalece a vontade, faz crescer o sentido de responsabilidade, aumenta o espírito de solidariedade e a preocupação pelos demais. E para fortalecer a vontade não há outro tratamento senão o de exigir o cumprimento das tarefas e dos horários: estar pontualmente nas refeições e demais compromissos; ter horário para dormir, acordar, banhar-se, vestir-se por conta própria, guardar as roupas, brincar, estudar, não ir à geladeira fora de hora, ordenar os brinquedos após usá-los… Essas ações criam hábitos estáveis que fortalecem a vontade e o caráter, além de ajudar a dominar o temperamento.   

    3 – Não substituir os filhos naquilo que devem fazer

        O filho que se vê substituído nos esforços que deve realizar tem a vontade e o caráter enfraquecidos, não cresce em autonomia e na capacidade de resolver as coisas por conta própria. O paternalismo ou a superproteção evita os esforços que os filhos, desde criança, necessitam empreender, e os habitua a que os outros sempre façam as coisas por eles. É importante que os filhos − do menor ao maior − tenham encargos no lar, adaptados à idade e à capacidades de cada um. Não esperar que se tornem ingovernáveis para iniciar o processo educativo e exigir que sejam solidários e se preocupem com os demais. Adolescentes que não estudam, não cumprem os encargos familiares; que são desordenados, passivos e desobedientes, revelam que seus pais não souberam exigir desde a primeira infância; agora, na adolescência, erradicar defeitos cristalizados exigirá luta maior.

        Não se deve impedir nem substituir a criança pequena de cumprir qualquer tarefa que tenha capacidade de fazê-la, mesmo que no começo não a faça com perfeição e exija paciente e bem-humorado treinamento. Ao realizar a tarefa incumbida, a criança a executará com a alegria de estar praticando um jogo, ganhará autodomínio, independência, espírito de serviço e preocupação pelos demais.

        No âmbito familiar, o mais conveniente – e a meta a ser atingida – é que a ajuda prestada por cada membro seja ditada pelo amor e sentido de responsabilidade, e não porque será cobrada a execução da tarefa. Veja no link a seguir diversos vídeos onde mães oferecem dicas preciosas de tarefas que podem ser atribuídas aos filhos desde criança: https://staging.ariesteves.com.br/tarefas-para-criancas/

    Produzido por Ari Esteves (staging.ariesteves.com.br/)

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  • Trabalhar bem

    Trabalhar bem

    1 – O trabalho é educativo. 2 – Condições para o trabalho ser bem realizado. 3 – Trabalho e virtudes. 4 – Ambição profissional. 5 – Ensinar os filhos a trabalharem bem. 6 – Para quem trabalha em casa (home office).

    1 – O trabalho é educativo

         O trabalho é a nossa vinculação com o mundo: “O que você faz?” é pergunta que já nos fizeram e que fizemos a outras pessoas. Todos esperam uma resposta para esse enigma, e após elucidado, vem o sorriso e a expressão: “Ah, que bom”. Seja qual for o trabalho, sempre haverá um “Ah, que bom”, como compreensão de que é por meio dele que cada pessoa se autorrealiza, cresce em virtudes e colabora para com o bem-comum. O trabalho, como escola de virtudes, é um meio educativo por excelência. Aprende-se a trabalhar desde criança ao cumprir os pequenos deveres de cada dia na vida familiar, escolar e social. Um erro de muitos pais é realizar as tarefas que cabem aos filhos executá-las, o que torna fraca a vontade destes, que devem ser exigidos em muitos aspectos: levantar e deitar-se na hora, estudar o tempo previsto, cumprir encargos no lar… Mais do que nunca é preciso ajudar as crianças, adolescente e jovens a crescer em energia interior por meio do cumprimento das obrigações que lhes cabem, pois será o exercício para enfrentar as dificuldades e os desafios que a vida lhes trará.

    2 – Condições para o trabalho ser bem realizado

         “Faz o que deves e está no que fazes” (livro Caminho, n. 815) é o primeiro passo para um trabalho bem realizado, pois leva a cumprir o dever de cada momento. “Faz o que deves” significa que não se trata apenas de ocupar o tempo ao fazer qualquer tarefa, mas executar o que deve ser feito em cada momento: fugir disso é ser irresponsável e deixar-se levar pela preguiça ou comodismo. A todos convém fazer um rápido exame sobre o que é mais importante realizar em cada momento, para não se deixar levar pelo capricho. “Faz o que deves” exige o exercício da virtude da prudência para avaliar o que deve ser feito, e da virtude da fortaleza para fazê-lo sem atrasos. “Está no que fazes” é a segunda exigência do trabalho bem-feito: trata-se de colocar os cinco sentidos na tarefa que se tem entre mãos, sem permitir as distrações ou fugas da imaginação e da memória.

         Há quem pensa trabalhar bem porque é perfeccionista. Porém, isso é um vício ou defeito de buscar como finalidade a perfeição pela perfeição, a complacência vã naquilo que faz, ou só o resultado externo do trabalho (sua intenção muitas vezes é a vangloria). Este defeito revela que se perdeu a visão de conjunto e o sentido de prudência, que ensina ser “o ótimo inimigo do bom”, pois não se pode dedicar a uma tarefa maior tempo do que o necessário, a fim de não deixar de atender prioridades mais importantes.

    3 – Trabalho e virtudes

         Um ato e outro formam um hábito, uma inclinação, uma facilidade, e com isso se ganha a virtude correspondente e se fortalece a vontade. Todos os homens necessitam lutar para adquirir hábitos operativos que facilitem viver de acordo com critérios éticos de conduta. Para alcançar o hábito ou a virtude da laboriosidade é preciso realizar bem as pequenas tarefas de cada dia, e ajudar os filhos a fazê-lo também: fechar uma porta sem bater, guardar os objetos que foram utilizados para realizar determinada tarefa, deixar em ordem as coisas pessoais, cuidar dos pormenores de ordem e pontualidade para começar e terminar as coisas no tempo previsto, planejar as tarefas com antecedência e não deixá-las para o último momento (a afobação costuma ser motivo de marretagens).

         Trabalhar bem não é questão de temperamento, mas de esforço pessoal, de aquisição de virtudes. Qualquer atividade profissional honesta é campo para o exercício de todas as virtudes humanas, que crescem com o desenvolver das tarefas: prudência para avaliar todas as questões envolvidas e iniciar pelo mais importante, ordem para aproveitar bem o tempo, fortaleza para perseverar e concluir o trabalho iniciado, temperança ao vencer o comodismo de fazer paradas inecessárias para curiosear na internet, paciência quando as coisas não saem como planejadas…. A laboriosidade e a diligência são duas virtudes que se unem para trabalhar bem: o laborioso aproveita o tempo, faz o que deve e está naquilo que faz; o diligente, do verbo latino diligo, que significa amar, trabalha com amor, com cuidado.

    4 – Ambição profissional

         Ambição é o desejo de conquistar algo, movido mais pela emoção ou coração do que pela razão. Quem não tem ambição deixa de assumir os riscos de uma conquista e acomoda-se na zona de conforto. Há quem julga ser os ambiciosos pessoas gananciosas que buscam objetivos egoístas (geralmente dinheiro, poder…), e podem até pisar nos outros para alcançar o que querem, o que não deixa de ser distorção da reta ambição. Podemos entender o termo ambição como o desejo de dar mais de si, de desenvolver as capacidades inatas para melhor servir aos demais, de conhecer bem o trabalho que lhe cabe realizar. Para dar um exemplo, se um oftalmologista ou um alfaiate não ambicionasse novos conhecimentos, ficariam acomodados no tempo, com técnicas ultrapassadas e sem capacidade para oferecer um bom serviço: quem iria a um oftalmologista que desconhecesse as novas técnicas, e cujos aparelhos fossem ultrapassados? Quem voltaria a um alfaiate que não soubesse as novas tendências ou estilos, e forçasse o cliente a fazer um terno fora de moda? Uma pessoa sem entusiasmo pelo que faz não ambiciona chegar a mais longe e faz o mínimo indispensável: “É preciso adquirir toda a ciência humana que sua capacidade lhe permita adquirir… e tereis retratado o caráter dos apóstolos de hoje, tais como indubitavelmente Deus os quer” (Caminho 857). Há certas coisas que as pessoas nos irão cobrar, e com justiça, porque fazem parte da profissão ou ofício que abraçamos.

         Distinguir o tempo dedicado à informação em noticiários e blogues, daquele dedicado à formação por meio de livros, artigos, vídeos… Quem tem o cuidado de traçar planos de formação para os próximos meses e anos, evitará que o tempo se esvaia em curiosidades que levarão à mediocridade profissional. Para se aperfeiçoar continuamente pode-se dedicar alguns minutos diários, aproveitar os fins de semana e os tempos de transportes públicos ou de salas de espera para estudar os temas relacionados à profissão. O relativismo e a busca pela vida cômoda, que avassalam a sociedade atual, afetam o desejo e a alegria de servir aos demais com as qualidades pessoais: a falta de convicções ocorre porque já não há verdades ou grandes valores a se inspirar.

    5 – Ensinar os filhos a trabalharem bem

         Para que os filhos desenvolvam uma personalidade rica e resistam às influências negativas do ambiente, e a tendência natural de perder o tempo em redes sociais, é necessário estimulá-los a esforçar-se diariamente para cumprir as obrigações que lhes cabem. Ao atribuir encargos, e exigir de forma cordial e amável para que os cumpram, os pais fortalecem a vontade dos filhos para abraçar os grandes ideais da vida, que sempre custam esforço.

         Muitos adolescentes e jovens crescem em ambientes permissivos, de pouca exigência, e acomodam-se a ponto de sempre esperar que outros resolvam seus encargos. Toda pessoa necessita esforçar-se seriamente, se deseja construir algo valioso. Desde as primeiras idades da vida vai se configurando o caráter e a capacidade de aprender a esforçar-se. Pais que privam os filhos da oportunidade de se sacrificarem, de renunciar caprichos, para evitar que sofram como eles, pais, sofreram, estão transformando seus rebentos em molengões e fracos de caráter: diz o provérbio que “com churros não se faz alavanca”. Mais do que proteger os filhos para que não sofram, trata-se de sofrer junto com eles, de acompanhá-los e de ajudar a que superem a má vontade diante de uma renúncia a realizar. O melhor período para que os filhos aprendam a se superar vai do zero aos doze anos de idade, por meio do cumprimento de encargos familiares adequados à idade de cada um, de ter horário para estudar e realizar as tarefas escolares, de se sacrificar e ser solidário para ajudar os amigos…

         O exemplo dos pais é importante: os filhos admiram o pai ou a mãe a quem nunca viram reclamar dos sofrimentos que suportou, e passam a imitá-lo. Já um pai ou uma mãe que se queixa dos trabalhos e esforços que faz, cria filhos ansiosos, fracos e inseguros. Por isso, é preciso valorizar as pequenas vitórias de cada filho com um sorriso ou elogio, seja porque soube esperar e não comeu fora de hora, porque aguentou sem reclamar a sede durante um passeio, porque dobrou e guardou as próprias roupas ou colocou os jogos e brinquedos nas caixas e prateleiras correspondentes…

         A vida cotidiana oferece muitas oportunidades para que cada filho se exercite na fortaleza: resistir ao impulso de realizar um capricho, saber suportar uma dor ou enxaqueca sem reclamar, superar o desgosto porque algo saiu não como o esperado, dominar o cansaço com um sorriso, terminar as tarefas da escola e cumprir o tempo de estudo previsto antes de sair para jogar ou brincar, realizar os deveres domésticos que estão ao seu encargo… O filho que desde pequeno aprendeu a fazer as coisas sem se queixar será valente, decidido e sem medos bobos e infundados (medo do escuro e de dormir sozinhos, por exemplo). Ao crescer com personalidade, não se envergonhará por não possuir tênis caros ou a mochila da moda; terá peito para dizer aos amigos que combinou chegar cedo em casa; não receará fracassar em algo porque aprendeu a transformar as derrotas em experiências para sair fortalecido. Não se trata de empurrar os filhos para que sejam temerários ou imprudentes, mas de ajudá-los a se arriscar sem receio de errar ou fazer feio. Os filhos devem ser capazes de empreender ações que levem consigo um esforço prolongado: é melhor ter encargos diários do que reservar um único dia para cumprir muitas tarefas de uma só vez. Só assim serão capazes de comprometer-se com ideais valiosos. Certo pai, que conheci, disse aos seus onze filhos que não poderia pagar uma faculdade particular para cada um, e que teriam de se preparar para entrar em universidades públicas: todos entraram!

    6 – Para quem trabalha em casa (home office)

         Para trabalhar bem no ambiente doméstico (home office) é necessário estabelecer um horário para iniciar e terminar as atividades, combinando com o outro cônjuge esses horários em função das refeições: começar cedo para acabar antes, tal como se estivesse na empresa, a fim de ter tempo para se dedicar à família. Vestir-se de acordo faz parte da personalidade e do estilo de um bom profissional: a elegância tem a ver com saber eleger o mais adequado para cada ocasião. Ter organizado o espaço de trabalho com móveis adequados e boa iluminação. Silenciar as notificações das redes sociais, se não forem imprescindíveis para o trabalho, fará render o tempo. Avisar com antecedência a família para fazer mais silêncio, quando for necessário realizar uma chamada de videoconferência, e esforçar-se em aprender a utilizar um novo aplicativo que facilitará a realização das tarefas. Aproveitar as pausas naturais do trabalho para estar com as crianças, e não se esquecer de oferecer a Deus cada tarefa, a fim de transformá-la em oração e oferenda grata a Ele: com isso, uma hora de trabalho se transformará em uma hora de oração!

    Produzido por Ari Esteves. Imagem de Katerina Holmes

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  • O cinema e seu valor formativo

    O cinema e seu valor formativo

    1 – O cinema como meio educativo. 2 – Pais em sintonia com o mundo subjetivo dos filhos. 3 – Contar com as emoções no processo educativo. 4 – As cenas de um filme podem motivar um jovem.

    1 – O cinema como meio educativo

         Em nossa época, onde impera a cultura da emoção e da imagem, o cinema é um grande recurso para a educação dos sentimentos. Suas cenas, que muitas vezes tocam os afetos ao abordar aspectos essenciais da vida humana, ajudam a refletir como cada um conduz a própria vida. A afetividade, onde residem sentimentos, emoções e paixões, não deve ser ignorada no processo educativo de adolescentes e jovens. Cabe aos pais e educadores contemplá-la e utilizá-la como porta de entrada para a compreensão da alma juvenil e seu universo atual, valendo-se do cinema como metodologia simples e acessível.

         Os sentimentos estabelecem uma ponte entre o que se conhece intelectualmente e o que a vontade decide executar. Por vezes, não basta concluir que algo deva ser executado para que a vontade queira fazê-lo ou colocar a mão na massa. Para essa realização cumpre papel importante a motivação dos sentimentos. Isso não significa que devemos fazer as coisas apenas quando os sentimentos nos motivam, pois às vezes é necessário agir contra eles. Por exemplo, quando Madre Tereza de Calcutá recolhia da sarjeta um moribundo cheio de pústulas e malcheiroso, talvez seus sentimentos fossem de repelência, mas ela o acolhia e levava-o para tratá-lo em sua casa de caridade. Porém, os sentimentos cumprem um papel muito importante, principalmente na vida dos jovens: imaginemos um rapaz que se emociona ao ver deslizar pelos céus um avião, e decide ser aviador. Tendo as condições físicas e intelectuais para essa profissão, porá os meios para continuar seus estudos no ensino médio, encontrará um trabalho durante o período da tarde para pagar a escola de aviador, que cursará à noite, a fim de tirar o brevê de piloto. O sacrifício desse jovem faz é grande, e haverá dias em que sua vontade será a de não ir à escola de pilotagem. Porém, seu forte sentimento, que se reacende cada vez que se imagina pilotando um avião, o faz superar a má vontade e ir à escola.

         Não seríamos humanos se desprezássemos o papel facilitador dos sentimentos para que o querer da vontade execute algo. Como diz Pablo Blasco, no artigo abaixo citado, “os sentimentos revestem o conhecimento [intelectual, por suposto] com uma roupagem pessoal que facilita o querer – a execução –, porque são bases da motivação. Uma coisa são as ideias e os conceitos, outra é como as ideias me atingem, e qual é o sabor que elas têm para o meu paladar afetivo. É no âmbito afetivo onde o personalismo se impõe como condição eficaz de aprendizado e de assimilação de atitudes”. Um mesmo fato atinge de modo diferente a cada pessoa, e isso é motivado pelos sentimentos.

         Os sentimentos não podem modificar os conceitos matemáticos, mas podem promover atitudes, estimular alguém a estudar essa ciência pela paixão que sente por ela; também podem encorajar condutas éticas não motivadas pela leitura de livros de moral, mas ao ver a cena de um filme em que a personagem não aceita, por exemplo, ser subornada para trair alguém. Nesse sentido, ensina Pablo Blasco, os sentimentos são como o tempero que facilita a ingestão do alimento, conferindo a ele um toque especial e personalíssimo que faz do comer algo que vai muito além da simples nutrição.

    2 – Pais em sintonia com o mundo subjetivo dos filhos

         A educação da afetividade requer um toque de arte por parte do educador, que deve entrar em sintonia com o mundo subjetivo do educando, e adaptar-se às necessidades e ao paladar deste, como um tempero que conquiste e estimule a vontade para realizar algo. Nesse sentido o cinema, ao provocar a afetividade, dará um toque especial ou sabor aos conhecimentos e conceitos, tornando mais acessível a sua busca (ou até repelindo-os). As cenas levam à reflexão quando são verdadeiramente questionadoras. Pablo Blasco comenta que no filme “O resgate do soldado Ryan”, com Tom Hanks, vê-se a passagem em que o capitão está morrendo e o soldado Ryan inclina-se sobre ele, e ouve do oficial estas palavras: “James, faça por merecer”. Quarenta anos depois, James Ryan visita o cemitério onde está enterrado o capitão, e acompanhado da esposa, filhos e netos, olha para o túmulo e diz: “Todos os dias penso no que você me disse naquele dia, na ponte. Procurei viver a minha vida do melhor modo possível. Espero que, pelo menos diante dos seus olhos, eu tenha ganhado o que todos vocês fizeram por mim”, e em seguida, dirige o olhar à esposa e indaga: “Diga que a minha vida prestou para algo, que tive uma vida digna”. Esse é o currículo de James Ryan: ter formado uma família, educado seus filhos e levado uma vida honesta e sacrificada. O capitão, que na vida civil era professor, educou Ryan com o exemplo de sua vida e com a frase “faça por merecer”. Quem assiste essa cena é levado a se perguntar se o sentido que está dando à sua vida é magnânimo ou mesquinho.

         Nem tudo se aprende por argumentação e raciocínio lógico, mas também pela percepção dos sentimentos, que alavancam o processo de educar. Afirma Pablo Blasco que nas culturas antigas o meio principal para a educação moral era contar histórias por meio de artes como teatro, literatura e ópera, que possuem o papel de suprir as experiências que nem todos podem vivenciar durante a vida. Ao fornecer essas experiências – “escarmentar em cabeça alheia”, diz o ditado popular –, por meio de cenas, o cinema permite penetrar até o nível moral e pessoal. Ao ter por trás um excelente roteiro, os bons filmes se distanciam infinitamente das epidérmicas e velozes imagens que se consomem diariamente nas redes sociais, e que só trazem a dissipação do espírito e impedem a reflexão sobre si mesmo para agir como um sujeito moral.

         Um bom filme pode oferecer a quem o assiste a experiência fecunda de eleger para suas ações o ato virtuoso. Tanto o cinema como a literatura podem unir imaginação, sentimentos e ideias à realidade de uma experiência como se fosse vivida pessoalmente, que é modo excelente para a compreensão profunda da qualidade do agir virtuoso. “Sem a arte narrativa –e aí se enquadra o cinema– o ser humano teria que contar tão só com suas próprias experiências, o que significa que se veria obrigado a aprender tudo desde o princípio. Sem conhecer a Odisseia, o homem não saberia nada da fidelidade de Penélope; sem Shakespeare ignoraria as dúvidas de Hamlet, o amor de Romeu por Julieta. Sem Dom Quixote, teríamos que descobrir por conta própria a diferença entre ver o mundo como é e vê-lo como deveria ser” (Krzysztof Zanussi, filósofo e cineasta polonês).

         Assistir a um filme bem selecionado deixa de ser apenas um simples passatempo ou divertimento, porque as cenas vitais provocam sentimentos – alegria, entusiasmo, aprovação, rechaço, condenação –, que podem configurar condutas. Pablo Blasco afirma que “a tragédia grega provocava a catarse, entendida em duplo sentido: primeiro, imediato, como a liberação dos sentimentos, como uma limpeza orgânica, como um purgante; o segundo, muito importante, é que mediante a catarse colocam-se no seu lugar todos esses sentimentos acumulados – emoções – que não poucas vezes se armazenam de modo desordenado”.

    3 – Contar com as emoções no processo educativo

         As emoções podem ser contempladas no processo educativo. Não basta vê-las passivamente, mas é preciso dar vazão e permitir que as emoções possam cumprir o seu papel no desejo de aprender e de motivar o estudante. Assim, será mais fácil envolver a racionalidade e fundamentar conceitos. O educador que permite, no espaço formativo, o fluir das emoções através da discussão, da partilha de sentimentos, abre caminho para uma verdadeira reconstrução da afetividade. Esse processo requer tato, habilidade; requer evitar precipitações para promover um aprendizado que respeite o ritmo quase fisiológico da emotividade. Não se pode obrigar ninguém a sentir o que não sente. Pode-se simplesmente mostrar. O tempo e a reflexão sobre as emoções se encarregarão de aprimorar o paladar afetivo.

         A educação através da estética não é superficial. Ao atingir as emoções e a sensibilidade, não se deseja ancorar na emotividade os valores e modelos de conduta, mas suscitar uma reflexão sobre esses mesmos valores e atitudes. Ensina Pablo Blasco que se pode conquistar uma habilidade técnica sem nada sentir e sem refletir muito sobre ela. Porém, é mais difícil adquirir valores, progredir nas virtudes e incorporar condutas sem um processo prévio de reflexão. O desencadear da reflexão é facilitado pela estética, pela arte do cinema – “a beleza salvará o mundo”, disse Dostoievski –, que sensibiliza e incentiva para aprendizados racionais de modo personalizado e por meio de cenas que ofertem uma representação do mundo concreta, dinâmica, sensitiva e emotiva. Tais cenas conduzirão à fundamentação racional, buscada com entusiasmo e emoção, e como porta de entrada para que o jovem faça posteriores construções.

         Pablo diz que as respostas racionais representadas pelo “estou de acordo” ou “discordo” serão substituídas por respostas emotivas suscitadas pela imagem: “gosto” ou “não gosto”, onde existe uma aceitação ou rejeição visceral, de impacto, sem participação do racional. Com isto não se pretende, em absoluto, dispensar a necessidade do raciocínio e conceitos para a construção do aprendizado. Apenas afirma-se que dificilmente um jovem aceitará raciocínios lógicos se a emoção não lhe facilita o caminho. Ao passar antes pelas emoções, porque é assim que hoje os jovens estão habituados a proceder, abre-se a porta de entrada para posteriores construções lógicas. Santo Agostinho diz que “Naquilo que se ama, ou não se sente a dificuldade ou se ama a própria dificuldade”. Ou seja, quando se põe o coração – leia-se sentimentos – os trabalhos nunca serão tão penosos, e torna-se mais fácil suportar a carga e manter a alegria durante o esforço.

         Diz Pablo Blasco, que “o cinema pode exprimir o que a racionalidade levaria muito tempo para explicitar e acabaria resultando até enfadonho. Um comentário de uma conhecida professora e mãe de família, a respeito do filme King Kong: – Esse é o homem que toda mulher gostaria de ter ao lado!Mas como um homem?! – exclamo eu – estamos falando de um gorila! E ela continua sorrindo: – Engano seu, meu caro: ele luta por ela, defende-a, se bate, e se deixa ferir… E aprende dela a delicadeza, os modos, a poesia. E quer somente a ela. As outras mulheres que lhe apresentam ele as descarta. Surpreso pelo comentário, lembrei-me do pensamento de um filósofo que diz: Nada imuniza tanto o homem [que pertence] do universo das mulheres, como o amor apaixonado por uma delas. E, em outra ocasião, quando comenta a mulher muda o ambiente e o homem tal como o clima trabalha os vegetais sem fazer aparentemente nada, formando-o à sua imagem e semelhança”.

    4 – As cenas de um filme podem motivar um jovem

         A educação pelo cinema arranca desejos profundos do jovem, e motiva-o para grandes sonhos e novos desafios. No filme “O Último Samurai”, durante um congresso, Pablo Blasco teve a experiência, após apresentar as cenas em que homens medievais valentes, e em atitude de serviço (servir parece ser a missão deles), enfrentavam as modernas metralhadoras com coragem e espada. Sim, caiam mortos, mas arrancando do inimigo o reconhecimento, a veneração e até a vitória moral. Diz Pablo que “Esse é o modo de promover novos Samurais, mesmo com tecnologia moderna, entre os jovens soldados que ficam atônitos vendo a valentia daqueles no combate”. Quando acabou a conferência, um jovem veio à frente, segurou o braço do conferencista e disse com os olhos brilhando: “Professor, eu quero ser um Samurai!”.

          A um pai ou educador que pergunta “E se o jovem não concluir o que eu gostaria que ele concluísse?”, cabe afirmar que devem levantar a lebre. “Não adianta – diz Pablo – colocar rolha num vulcão, porque antes ou depois explodirá. O que melhor se pode fazer é promover a reflexão para que o jovem se vá construindo. Algo muito próximo ao que o macaco Rafiki fez com Simba, no filme O Rei Leão, onde Simba, na boa vida, não queria assumir a realidade de que se tornara um leão adulto. O macaco interroga-o e pergunta: – Quem é você? Tal pergunta faz virar ao avesso o confortável Hakuna Matata, em que Simba vivia, para trazê-lo à realidade” E conclui, Pablo: “Não são as respostas as que devem vir prontas, fabricadas, mas sim as perguntas, a modo de provocações que o professor, o pai, ou formador devem continuar, e serenamente dirigir ao seu interlocutor. A ficha tem de cair por si só – para utilizar uma linguagem corrente. E, nesta empreitada de provocar reflexões, o cinema é um prato cheio, uma oportunidade excelente”.

    Sugerimos visitar o site https://pablogonzalezblasco.com.br/category/filmes/, onde há comentários de vários filmes que poderão ser assistidos e comentados em família.

    Texto de Ari Esteves, adaptado da entrevista do médico e humanista Pablo González Blasco, à Revista “Ser família”, edição 3, 2007.

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  • Educar na liberdade

    Educar na liberdade

    1 – Cada pessoa deve escolher seu próprio caminho. 2 – O bom uso da liberdade. 3 – Correr o risco da liberdade dos filhos. 4 – A virtude faz utilizar bem a liberdade. 5 – Confiança no educador. 6 – Autonomia e liberdade versus superproteção e autoritarismos.

    1 – Cada pessoa deve escolher seu próprio caminho

        A liberdade é uma das marcas que definem a pessoa humana, e que permite ao homem alcançar sua máxima grandeza, ou degradação quando é mal utilizada. A realização da liberdade consiste no conjunto de decisões que vão delineando a própria vida e configurando a biografia e identidade pessoais. Cada pessoa escolhe o seu caminho a trilhar, e isso se chama projeto vital. Instalado no tempo presente, o homem olha para o futuro, a fim de ver aonde quer chegar, e mediante decisões tomadas no seu hoje escolhe a carreira profissional com a qual pretende servir melhor aos outros, prepara-se para ingressar no curso ou faculdade que pretende fazer, procura um posto de trabalho, decide-se casar e montar uma família, opta por alguma atividades social para ajudar pessoas necessitadas, seleciona os livros culturais com o qual enriquecerá sua inteligência e seu coração… São escolhas que precisam ser colocadas em prática no presente, pois não basta a espontaneidade e o ir tocando a vida para que a liberdade seja bem empregada e tudo dê certo: viver é idealizar projetos e levá-los a termo; é ter uma meta, uma direção, pois sem isso a liberdade se torna irrelevante e a vida tenderá a ser mesquinha (qualquer projeto magnânimo exige a tomada de decisões).

        O ser humano pode aspirar a realizações para as quais se vê dotado, mesmo que isso suponha sacrifícios ou riscos, que estão presentes em todos os projetos que valem a pena. Caso contrário, a liberdade ficará restrita à escolha da roupa para ir à festa, o esporte a praticar no fim de semana, o game com o qual matará o tempo… Se não há um fim alto e atraente, um projeto para o qual vale a pena sacrificar-se, a vida se reduzirá ao trivial e a pessoa se empobrecerá vitalmente. A meta alta a que uma pessoa se propõe se chama ideal.

    2 – O bom uso da liberdade

        Toda forma de crescimento humano e espiritual apela para a liberdade, pois sem ela não há educação, mas adestramento, domesticação ou imposição, que é para animais. A liberdade exige um querer pessoal, não manipulado pelos outros, pois se apoia sobretudo no exercício da vontade. A tarefa formativa consiste em oferecer os conhecimentos intelectuais e morais para que cada pessoa possa querer e agir por vontade própria: não se obriga um filho a estudar, mas se oferece os elementos para que ele decida livremente e com entusiasmo a fazê-lo. Ou seja, é necessário ajudar a pessoa a desejar receber educação, para processá-la intelectualmente e assumir o aprendizado como algo próprio, pois ninguém pode ser forçado a empreender um caminho que não quer: quem chegasse ao absurdo de amarrar o filho em uma cadeira, e o obrigasse a ler um livro colocado diante dele, não conseguiria fazê-lo estudar, se não o quisesse, pois se a vontade do garoto não é estudar, sua mente e imaginação irão para outros lugares.

        Muitos jovens consomem suas horas com músicas, games e vídeos, e não percebem que estão utilizando muito mal o tempo que dispõem e a própria liberdade. Fogem de fazer para si perguntas vitais sobre qual profissão escolher, que escola pretende cursar, quais as disciplinas que deve estudar para se preparar o ENEM, FUVEST ou outras provas… Adiam pensar nesses temas e tapam os ouvidos e a consciência com os fones de ouvidos e imagens de celular. Quando chegar o vestibular não terão tempo de estudar o suficiente, serão reprovados e irão reclamar da sorte e dos professores que tiveram. Educar para a liberdade é ajudar a que os filhos se perguntem sobre o que é uma vida sensata, e caso não saibam responder a isso, é sinal que estão deixando que o acaso resolva suas vidas, ou que outras pessoas decidam por eles.

        Para evitar o mau uso da liberdade, é importante iluminar a inteligência de cada filho, inflamar a vontade dele e fortalecer o seu coração com conselhos e orientações devidos, para que tome a decisão de assumir o que deve ser feito. Fomentar o protagonismo de cada filho começa desde as primeiras idades ao deixar que faça suas escolhas: ir ao parque ou ao shopping? Se decidiu pelo parque, e estando ali pretende mudar de plano e ir para o shopping, os pais devem fazê-lo compreender que deve assumir as consequências da escolha, e que o shopping ficará para a próxima semana. Se o garoto diz que pretende ser jogador de futebol, mais do que lhe dizer um não gordo e rotundo, deve ser ajudado a ponderar nas consequências dessa escolha, e já no presente fazer uma avaliação séria dos talentos e qualidades que possui para essa prática esportiva (não basta gostar de jogar futebol); dedicar horas diárias não apenas a jogar futebol, mas a treinamentos físicos para preparar o corpo para essa prática esportiva; frequentar escola de futebol; assistir a vídeos e entrevistas com preparadores físicos; saber como conjugará o tempo do ensino regular com um trabalho para ajudar nas despesas da casa e pagar a escola de futebol… Com isso, o jovem irá ponderar melhor acerca de suas escolhas, pois as coisas não caem prontas do céu.

    3 – Correr o risco da liberdade dos filhos

        A educação deve levar a que o educando aperfeiçoe a capacidade de dirigir a própria existência e torne efetiva sua liberdade em vista de um projeto pessoal de vida. Amar os filhos é amar a sua liberdade, e isso implica correr o risco de expor-se à liberdade deles. Aos jovens, depois de dar os oportunos conselhos, e de fazer as considerações necessárias, os pais devem se retirar delicadamente para não abafar o grande dom da liberdade a que têm direito. Não se trata de uma despreocupada indiferença por parte dos pais, mas de construir a autonomia dos filhos. Não é possível desejar a liberdade deles sem aceitar as suas consequências. Para haver amadurecimento psicológico, junto com o respeito à liberdade deve-se oferecer as razões e exigências morais que ajudem a pessoa a escolher o bem e a verdade. Se um filho pede autorização para determinado plano, surge a ocasião de ajudá-lo a ponderar todas as circunstâncias que estarão em jogo, se é um capricho ou uma necessidade, para depois tomar uma decisão.

        Os pais devem pretender que os filhos, de acordo as idades deles, respeitem certos limites. Se são crianças ou adolescentes, algumas vezes poderá tornar-se necessário aplicar medidas corretivas com prudência e moderação, dando as razões oportunas e, claro, sem violência. Se um filho jovem opta por uma decisão errada, é preciso compreender e permanecer ao seu lado para ajudá-lo a superar as dificuldades e extrair daquela má experiência todo bem que for possível. É evidente que, ao tratar-se de crianças, por não possuírem ainda a inteligência e a capacidade de juízo desenvolvidas, os pais fazem esse papel ao direcioná-las para um agir correto, pois sabem que isso é o melhor para elas. Na infância, convém estimular o uso da sua liberdade ao pedir tarefas que os filhos possam realizá-las, e também dar-lhes explicações sobre o porquê certas coisas são boas e outras más.

    4 – A virtude faz utilizar bem a liberdade

        Respeitar a pessoa e a sua liberdade não significa aceitar como válido qualquer escolha. Os pais devem dialogar com os filhos sobre o que é bom e reto e, em alguma circunstância, deverão ter a valentia de corrigir com a energia necessária, tal como fez certo pai que disse à filha de 15 anos que não permitiria que ela fosse à festa com a roupa tão curta que utilizava, e que deveria trocar de vestido. A filha tentou driblar a indicação, mas vendo a firmeza do pai, mudou de roupa. Na festa, percebeu que suas colegas não se respeitavam a si mesmas, e que por isso não eram respeitadas e nem podiam exigir que o fossem, e compreendeu os motivos do pai. O amor busca o bem da pessoa, e que esta dê o melhor de si, a fim de alcançar uma felicidade verdadeira, que preenche a alma. Quem ama pretende que a outra pessoa lute contra as suas deficiências, ajudando-a nessa tarefa. Uma conduta correta costuma ser o resultado de muitas correções.

        O ambiente hedonista e consumista que hoje respiram muitas famílias, não permite compreender o valor da virtude ou a importância de atrasar uma satisfação para obter um bem maior: ser livre e não escravo de suas paixões ou instintos. Os bens que valem a pena conquistar exigem empenho e força de vontade para serem atingidos. A virtude da fortaleza fornece a energia moral para não se conformar com o já alcançado, e quem possui essa energia é mais livre do que aquele que não a possui. Constitui um desafio para os educadores, em particular aos pais, mostrar de modo convincente que o uso autenticamente humano da liberdade não consiste tanto em fazer o que agrada, mas em fazer o que é certo, bom e verdadeiro. Não há maior escravidão ou perda de liberdade do que se deixar levar pelas paixões: quem apenas faz o que lhe agrada é menos livre e feliz do que aquele que cumpre com o seu dever.

    5 – Confiança no educador

        Para os pais ganharem a confiança dos filhos precisam primeiramente confiar neles, a fim de que estes possam abrir a sua intimidade. Sem confiança é difícil propor metas que contribuam para o crescimento pessoal dos filhos. A confiança se consegue, mas não se pode impô-la ou exigir. Adolescentes e jovens necessitam confiar no educador, e o fazem quando veem nele um comportamento moral justo, quando ele é íntegro e coerente ao viver o que ensina, e que é portador de verdades de que carecem. Assim se adquire a autoridade moral necessária para educar, pois caso contrário paralisa-se esse processo.

        Cada idade tem seu aspecto positivo, sendo que o da juventude é confiar e responder positivamente ao estímulo feito de modo amável para assumir tarefas. Se os pais nada pedem, não ajudam o amadurecimento psicológico dos filhos, que passam a satisfazer apenas seus caprichos. Quem é pouco exigido desde a infância, se acomoda e passa a julgar que tudo deve ser resolvido pelos outros. Essa falta de esforço e de virtudes torna os filhos imaturos e resistentes a qualquer sacrifício, mesmo o de estudar seriamente.

    6 – Autonomia e liberdade versus superproteção e autoritarismos

        Crescer em autonomia é crescer em liberdade. Os filhos crescem em autonomia ao perceber que seus pais só intervêm quando é realmente necessário. É preciso confiar na capacidade dos filhos resolverem seus problemas, e perguntar sempre a opinião deles sobre o que pretendem fazer − se acham certo ou errado −, e dar chances para que reflitam sobre suas ações. Esse é o caminho para o amadurecimento de uma personalidade sadia.

        Há duas atitudes de pais inseguros em tornar seus filhos independentes: o autoritarismo e a superproteção. Tanto o autoritarismo quanto à superproteção, cerceiam a liberdade dos filhos, e leva-os à introversão, à falta de segurança ou medo de agir por conta própria, à vergonha de se expor ou se arriscar, à inabilidade no convívio social. O autoritarismo obriga à força, goela abaixo, porque são pais que não sabem dialogar e dar os motivos que possam esclarecer a inteligência e fortalecer a vontade dos filhos para que queiram fazer o que deve ser feito, então empregam a força bruta. Já a superproteção elimina a iniciativa dos filhos, que acabam sendo substituídos naquilo que poderiam fazer sozinhos, levando-os ao acomodamento e ao egoísmo de pensarem só em si. Mimar e poupar de fazer sacrifícios ao não lhes atribuir tarefas no lar torna-os egoístas e interessados apenas em suas coisas. Por medo de exigir, a mãe superprotetora vive dizendo: “Aí, vai quebrar o copo e se cortar, deixa que eu guardo”; “Eu levo a mochila pra você não cair”; “Tadinho, a professora passou muita lição de casa!”; “Cadeira malvada, por que você machucou o pé do meu filhinho?”, e a mãe bate na cadeira como se o móvel fosse culpado pela imprudência da criança. Tais filhos logo percebem que a mãe não confia em sua capacidade de ser livre e agir por conta própria. Também não se educa em autonomia quando os pais, impacientes e inconstantes, e com a desculpa de que “não têm tempo” ou que “farão melhor”, se adiantam a fazer o que a criança poderia realizar.

        A autonomia deve ser fomentada ainda quando os filhos são crianças: se o garoto trocou os tênis de pés e indaga se estão corretos, não responda, mas pergunte sobre o que ele acha. Se houver um desentendimento com um amigo da escola, dialogue sobre que meios deverá ele empregar para resolver a situação. Responsabilizar os filhos para realizar tarefas no lar fortalece a vontade deles para cumprir suas obrigações, e os faz pensar nos demais e não apenas em si próprios, e com isso se preparam para sacrificar-se por ideais mais custosos de levar adiante.

    Texto produzido por Ari Esteves com base no livro “Fundamentos de Antropologia”, capítulo 6 (A liberdade), de Ricardo Yepes e Javier Aranguren, Instituto Brasileiro Raimundo Lúlio, São Paulo, 2005;  artigo “Educar na liberdade”, de J.M. Barrio, em www.opudei.org.br; artigos que estão no site staging.ariesteves.com.br/, página Boletins por Temas, verbete “Educar a vontade”. Desenho de Ron Lach.

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