Educar para a liberdade

1 – Não temer a liberdade dos filhos. 2 – Ensinar os filhos a serem livres. 3 – Atribuir responsabilidades aos filhos. 4 – Saber exigir das crianças. 5 – Não imponha; explique os motivos de um comportamento. 6 – Crianças livres, não dependentes de telas digitais.

1 – Não temer a liberdade dos filhos

          Os pais devem refletir se estão educando os filhos para agir com liberdade e responsabilidade em cada campo de atuação: família, escola, amizades, relações sociais, porque muito em breve atuarão sozinhos, longe do olhar dos pais.

    Pertence à essência da educação familiar o respeito pela liberdade dos filhos, segundo a idade e circunstâncias de cada um. Só onde há o ar puro da liberdade germinam as virtudes humanas ou hábitos que fazem cada filho querer o que é bom, belo e verdadeiro. Os pais não devem ter medo de educar na liberdade! Tenham presente que até Deus deseja que o sirvamos com liberdade, e respeita as nossas decisões: “e deixou Deus o homem em mãos do seu livre arbítrio” (Eccli. 15,14).

2 – Ensinar os filhos a serem livres

     Os pais têm uma dupla função: ensinar os filhos a serem livres ao dar a eles motivos de atuação que lhes ilumine a mente e mova a vontade para querer o bem; não os abandoná-los, mas vigiar discretamente o exercício dessa liberdade. Muitos são os campos em que os pais devem orientar a liberdade dos filhos: em primeiro lugar a relação com Deus; depois, encarar as outras responsabilidades, segundo a idade de cada um: colaborar para o bom andamento do lar por meio de tarefas que lhes são atribuídas, pois não devem pensar que tudo deva chegar a eles de mão beijada, e que não precisam se preocupar com o bom andamento da casa; ajudar os irmãos e os amigos em suas dificuldades; ordenar seus objetos pessoais, estudar com empenho…

     É necessário criar situações em que a criança tenha que tomar uma decisão: ir ao parque ou ao shopping? Se a escolha recaiu no shopping e ao chegar no local se arrepende da eleição e deseja e ir ao parque, a fim de aprender a refletir melhor sobre suas escolhas e assumir as consequências, não deve ser levada ao parque, que ficará para outro dia. Se pede sorvete e bolo deve decidir por um só. Se colocou os tênis em pés trocados e pergunta se está certo, a mãe olha em silêncio e espera que a criança tenha a segurança de concluir por si mesma que errou. Se o menino tem a tarefa de tirar o pó dos móveis, mas quer sair para jogar futebol, a mãe só deve autorizá-lo depois que cumprir seu encargo. Se a criança tropeçou na cadeira e, raivosa, chuta o móvel e o xinga, é preciso dizer que culpa não deve ser atribuída à cadeira, mas à falta de atenção da própria criança.

3 – Atribuir responsabilidades aos filhos

     A liberdade não se perde ao eleger ou se comprometer com algo. A liberdade não é um fim em si mesma, mas para ser utilizada em escolhas livres e assumir posturas na vida. O processo de amadurecimento da pessoa exige a capacidade de se comprometer. É preciso ensinar aos filhos que não podem atuar irresponsavelmente e que cada atitude deve responder a um porquê que os leve a assumir as próprias decisões, sem esconder-se atrás de circunstâncias, pessoas ou acontecimentos alheios. Liberdade sem responsabilidade se transforma em libertinagem, como ocorre quando os filhos não têm encargos ou responsabilidade no lar e só fazem o que gostam.

     Os pais devem ir soltando paulatinamente os filhos, e estar atentos para observar o modo como empregam o tempo livre cada dia, como descansam nos fins de semana, os ambientes em que se movem e as amizades que possuem. Quanto ao dinheiro, devem dispor de pouco, pois só assim concluirão como é custoso ganhá-lo, e que devem aprender a poupá-lo: crianças que na escola compram doces ou guloseimas que quiserem, é porque lhes sobra dinheiro.

4 – Saber exigir das crianças

     Educar com carinho não significa ceder a todos os caprichos da criança, porque isso cria nela os piores defeitos. Carinho não exclui a exigência, que não é brutalidade, mas bigorna de ferro almofadada. Educar para a liberdade implica exercer uma autoridade que evita os extremos: nem demasiada bondade ou frouxidão, nem demasiado rigor. Age mal a mãe que faz o que os filhos deveriam fazer: põe a comida no prato, veste e amarra os sapatos dele, arruma suas roupas e brinquedos. Tudo aquilo que a criança tem condições de fazer sozinha, deve fazê-lo. Agir de modo contrário tornará a criança dependente e desqualificada para agir sozinha no lar, na escola e na vida social.

5 – Não imponha, mas explique os motivos de um comportamento

    A educação dos filhos só funciona se abrange a pessoa integralmente: inteligência, vontade, afetos ou sentimentos, em clima de liberdade, pois com pancadarias e ordens taxativas é muito difícil que os filhos sejam verdadeiramente educados (obedecem apenas diante dos olhos dos pais, mas não quando estiverem sozinhos). A imposição autoritária ou goela abaixo não é acertada para educar e leva a desprezar as indicações, obtendo-se, com isso, o oposto do que se queria e se perde o esforço educativo.

     Pedagogicamente deve-se mostrar às crianças − desde muito pequenas − os motivos que aconselham determinados comportamentos. Respeitar a liberdade é ajudar a que queiram assumir como próprias as suas responsabilidades. Chegará o momento, depois de dar conselhos e fazer as considerações necessárias para orientar a liberdade, em que os pais devem ir se retirando delicadamente para respeitar as decisões dos filhos. Por exemplo, os pais não podem obrigar a ir à Missa ou culto religioso ao arrastar a criança pelas orelhas, pois isso não serve para formar os filhos na fé. É preciso transmitir as razões que ajudem a decidir com liberdade e, claro, com o bom exemplo dos pais.

     Um indicador da qualidade da educação oferecida é quando o educando assumiu como princípios próprios e determinantes para sua vida aquilo que lhe foi transmitido. Se a filha caprichosa só come salada diante da mãe, que a obriga, mas fora dos olhos da mãe − na escola ou na casa da avó − não come, é porque não assumiu como própria essa ação por falta de explicação mais convincente que mova a vontade dela para querer.

6 – Crianças livres, não dependentes de telas digitais

     Os problemas não deixam de existir porque se desconhece a existência deles, e tenderão a aumentar se não forem colocados os remédios para eliminá-los. Formação e liberdade caminham inseparavelmente: se o filho não estiver bem educado – por exemplo, no interesse de estudar por conta própria –, não poderá ser verdadeiramente livre, porque escolherá formas de perder o tempo, que é escolher o mal: quem escolhe o mal é escravo dele (A verdade vos fará livre, disse Cristo).

     Pode alguém pensar que é livre ao decidir gastar suas horas em curiosidades nas telas digitais, mas essa eleição ao proceder de um conhecimento falso da realidade, não a torna uma pessoa livre, mas imprudente ao eleger o erro, e caso persevere nesse comportamento, ficará escravo de um vício. O bom exercício da liberdade pressupõe a aquisição de virtudes, e nisso os pais são insubstituíveis. Por exemplo, para os filhos serem livres da dependência no uso de telas digitais e mídias sociais, e da forte pressão dos meios de comunicação, os pais devem, além de dar exemplo de vida, oferecer as razões profundas para que as crianças e os adolescentes compreendam o mal que está por trás dessa perda de tempo, e fomentar neles o desejo de querer aproveitar melhor o tempo para atividades mais enriquecedoras, criativas e virtuosas, pois assim, terão a vontade fortalecida.

     Para que os filhos sejam livres e não dependentes de telas digitais, influi muito uma cultura familiar que promova opções de lazer úteis e formativos. Para valorizar o tempo das crianças e adolescentes, além de orientar suas energias e interesses para o que vale à pena, pode-se incentivar a prática de esporte em locais de bom ambiente humano, participar de iniciativas sociais (arrecadar brinquedos ou alimentos no colégio ou no bairro para famílias carentes), fomentar a leitura de livros de contos e aventuras adequados à idade de cada filho; afeiçoá-los pelo colecionismo, xadrez, quebra-cabeças; procurar amigos interessados em cultivar inciativas científicas e culturais como visitar museus e livrarias; programar vídeos sobre arte, história, ciências, etc.

   Texto produzido por Ari Esteves (staging.ariesteves.com.br/).