Lazer e tempo livre dos filhos

1 – O lazer é necessário para se trabalhar bem. 2 – Diversão em todas as etapas da vida. 3 – A família ensina a brincar. 4 – Atividades que respeitem o gosto dos filhos. 5 – Ao brincar as crianças aprendem a viver. 6 – Promover Clubes Familiares ou espaços educativos.

1 – O lazer é necessário para se trabalhar bem

      Um arco em constante tensão se estraga e deixa de cumprir a função de lançar a seta ao alvo. Uma pessoa também não pode levar a vida em constante pressão, e necessita de momentos de distensão. Trabalhar e brincar são atividades diferentes, mas realizadas pela mesma pessoa. O descanso permite retornar às reponsabilidades familiares, profissionais e sociais com energias renovadas.  Em grego, educação (paideia) e jogo (paidiá) são termos do mesmo campo semântico. De fato, aprendendo a jogar se pode adquirir atitudes para enfrentar a vida.

      As obras humanas − seja trabalhar ou brincar − envelhecem, caducam, e são colocadas no arquivo morto da história. O seu valor mais elevado está em que, ao serem realizadas, façam crescer no amor, o que corresponde também crescer em virtudes. A vida só tem sentido pleno quando fazemos as coisas por amor a Deus, em primeiro lugar, e aos demais, porque só as obras de amor ultrapassarão as fronteiras desta vida e acompanharão na eternidade os que as realizam.

    A atual indústria do entretenimento promove diversões viciosas que dificultam ou impedem o crescimento em virtudes, como a temperança ou autodomínio, a laboriosidade, entre outras. A desorientação dos jovens não é diferente da que se verifica em muitos adultos, que também confundem a felicidade, que é resultado de uma vida plena, com uma efêmera sensação de alegria pontual, que logo passa e deixa um sabor amargo.

      Toda pessoa deseja ser feliz. Porém, muitos − jovens e adultos − não perceberam que a felicidade é um bem espiritual e não material, e se propõem diversões superficiais que apenas afagam os instintos e a sensibilidade, sem preencher a alma. Assim, se sentem tristes, embotados e com a sensação de que lhes falta algo, uma vez satisfeitos seus caprichos. Nos clubes, o crescimento em virtudes, o espirito de solidariedade ou de serviço aos demais, ensinam que a diversão deve ter em conta a Deus e o bem do outro.

      Feriados e fins de semana quebram a monotonia do quotidiano e são ocasiões para descansar, desfrutar da vida em família, educar os filhos e viver a fé em Deus. Na tradição judeu-cristã são dias com sentido religioso, associados ao descanso de Deus, uma vez terminada a Criação, quando Ele abençoou e santificou o sétimo dia e nele contemplou sua maravilhosa obra, vendo que tudo era muito bom, especialmente a criação do ser humano. Assim, desde tempos imemoriais os dias de folga têm pleno sentido em Deus.

      É missão dos pais mostrar aos filhos esse caráter de dom que os feriados e domingos possuem. Devem organizar esses períodos sem deixar Deus ausente ou para o final do dia, mas dando prioridade a Ele. Se os filhos percebem que os pais organizam com antecedência o fim de semana, privilegiando os atos de culto a Deus, compreenderão de modo natural que o tempo livre permanece vazio sem a presença divina.

2 – Diversão em todas as etapas da vida

      Os humanos necessitam de momentos de diversão durante toda a vida, porque podem continuar a crescer como pessoas. O animal também brinca, mas muito menos do que o homem, porque a sua aprendizagem logo se estabiliza. A natureza humana serve-se do divertimento para alegrar, aprender, descansar, motivar, conviver. Nem só as crianças têm necessidade de brincar. O adulto que mantém um espírito jovem, com capacidade de se entusiasmar, de recomeçar, de enfrentar cada novo dia como uma estreia, procura ter momentos de lazer. O idoso, mesmo tendo limitações físicas notáveis, necessita brincar, jogar e sentir que possui ainda forças para enfrentar os desafios da vida. É triste ver jovens ou velhos que carecem da flexibilidade necessária para enfrentar situações novas.

      À medida que o tempo passa, tem cada vez mais importância ao homem encarar a vida com certo sentido lúdico para aplicá-lo às “coisas sérias”, às tarefas habituais, às situações novas que poderiam conduzir ao desânimo ou sentimento de incapacidade. Porque aprendeu a jogar e relativizar os êxitos e os fracassos, a fim de não estragar a diversão, passou a arriscar perante novas situações da vida.

     O lazer é excelente momento para conhecer e moldar a personalidade e o caráter dos filhos: nos passeios, visitas, jogos, excursões e esportes pode-se incentivar a viver muitas virtudes. Com isso, o tempo livre deixa de ser “o tempo para as coisas banais” e transforma-se em tempo qualitativo e performativo.

      Pais que entendem os tempos livres como oportunidades de evasão e perdas de tempo, abrem mão de excelentes oportunidades de crescimento humano e espiritual dos filhos. Também não se trata de ensinar a aproveitar os tempos livres “só para fazer coisas úteis” como estudar, aprender línguas, instrumentos musicais, etc., mas ensinar a desenvolver a unidade de vida, o espírito contemplativo, o amor ao silêncio e à reflexão, o mergulhar a alma na boa literatura, a viver com mais intensidade a vida em família e o trato com os amigos. Tudo isso desenvolve nos filhos uma personalidade firme, o bom uso da própria liberdade e a oportunidade de transcender-se ao exercitar a fé. Só assim aprenderão a conviver com os outros e a aspirar a uma vida plena.

      É necessário orientar crianças, adolescentes e jovens para que valorizem os dias em que as atividades escolares não os obrigam. Assim, donos de si, devem decidir com liberdade e responsabilidade sobre o que desejam fazer. É caminho de excelência humana incentivá-los a utilizar o tempo livre para cultivar o bem (educação da vontade), a verdade (educação da inteligência) e a beleza (educação dos afetos). 

      Descuidar o lazer dos filhos é malograr tudo o que de bom esses momentos podem oferecer; é permitir que sejam vítimas da preguiça ou da comodidade ao se deixar levar por formas passivas e pouco criativas de descanso, como a de passar longo tempo diante da televisão, redes sociais ou games.

      Educar para viver melhor o tempo livre exige que os pais sejam modelos em não “Matar o tempo”, que é atitude egoísta de quem se retrai em suas coisas e não oferece seu tempo a Deus e aos demais. Os filhos devem compreender que descansar não é não fazer nada, mas distrair-se em atividades que exijam menos esforços.

3 – A família ensina a brincar

      Aprende-se a brincar principalmente na família, que se transforma em palco de criatividade: um cobertor sobre os móveis da sala se transforma em cabana, circo, gruta, quartel. Se para a criança viver é competir e conviver, é difícil compreender como se pode harmonizar ambos os aspectos – competir e conviver – à margem da instituição familiar, que é a primeira célula de socialização da pessoa.

      O grande valor pedagógico de brincar reside em vincular os afetos à ação: poucas coisas unem de modo imediato pais e filhos do que brincarem juntos. Partilhar momentos felizes em família evita futuros passatempos nocivos. Quem não faz memória dos momentos da infância brincando com os pais? E se tiveram a dita de vê-los rezando, podem compreender quão nocivo é o descanso que afasta de Deus!

      Por vezes, os pais temem que os filhos “percam o tempo” durante os dias não letivos, e enche-os de atividades extraescolares: aprender idiomas, um instrumento musical, natação, reforço escolar, etc. Com isso, as crianças perdem a oportunidade do ócio criativo, pois o seu tempo livre se converte em prolongamento dos dias “úteis”, a fim de atender atividades ligadas aos afazeres escolares e organizadas por iniciativa dos pais, dando-lhes a impressão de que viver é só cumprir com obrigações sérias.

      Qualquer atividade deve contribuir para o crescimento integral dos filhos (inteligência, vontade e afetos). Porém, entupi-los de compromissos não significa que irão melhorar como pessoas, porque não terão tempo para refletir sobre si mesmos. Os filhos têm que ter oportunidade de exercitar a liberdade própria, tendo a oportunidade de escolher as atividades que mais apreciam para descansar. Entulhá-los com ocupações que os impeça de descontrair-se livre e criativamente e de conviver com os amigos não é formativo, e corre-se o risco de que cresçam sem saber como descansar, se não há quem os dirija. Logo mais se deixarão guiar pelas imposições da sociedade de consumo.

4 – Atividades que respeitem o gosto dos filhos

      Educar para o bom aproveitamento dos tempos de lazer implica propor atividades atraentes que respeitem o modo de ser de cada filho, seus interesses, capacidades e gostos, a fim de que descansem, se divirtam e cresçam humana e espiritualmente. Incentivá-los desde pequenos a descobrir por si próprios o melhor modo de empregar o tempo livre requer dos pais imaginação e espírito de sacrifício. Por exemplo, ajudá-los a perceber que as atividades que consomem tempo desproporcionado ou levem a isolar-se, como ocorre com as horas diante da televisão, internet, redes sociais, games, é menos criativa e saudável do que formas de lazer que permitam cultivar relações presenciais de amizade como ocorrem com o esporte, excursões, jogos ao ar livre com amigos, etc.

      Os filhos, como parte do processo normal de amadurecimento e independência, querem estar com os de sua idade fora do lar e sem a intromissão de adultos. É grande desfrute para eles sair com os amigos para ouvir música, adquirir coisas (roupa, material esportivo, acessórios informáticos, etc.), pois são ocasiões de estarem juntos. Isso não significa que os pais deixem perguntar como se divertem e com quem, afim de orientá-los.

5 – Ao brincar as crianças aprendem a viver

      O que as crianças querem é brincar, pois essa atividade associa-se à felicidade, ao sair fora do tempo e abrir-se à admiração e ao inesperado a que pode levar a imaginação. A brincadeira revela a identidade de cada criança, porque ela se envolve com todo o seu ser naquilo que faz. Brincar é modelo do que será a vida ao assimilar e imitar as atuações dos mais velhos; é jeito de aprender a utilizar as energias e de descobrir as qualidades e as limitações próprias (limitação é diferente de defeitos). Ao brincar, aprende-se a se conhecer e a conhecer os amigos de um modo divertido; exige interpretar os conhecimentos adquiridos nos jogos e a ensaiar suas forças nas competições; brincar leva ao desafio de integrar − com a ajuda dos pais − os diferentes aspectos da personalidade: liderança, sociabilidade, espírito de equipe, reconhecimento das falhas pessoais e compreensão com as falhas dos amigos…

      A brincadeira contém um valor ético e ajuda a ser sujeitos morais: tem regras que devem se assumidas livremente, fixam-se objetivos e aprende-se a relativizar derrotas e vitórias. Por isso, o normal é brincar com outros, “brincar em sociedade”. Este caráter social está tão radicado no ser humano que as crianças ao brincar sozinhas falam consigo e tendem a construir cenários fantásticos, histórias e outras personagens com quem dialogam e se relacionam.

      O interesse dos pais pelo lazer dos filhos pode adotar diferentes formas. Por exemplo, se os filhos convidam os amigos para casa, seja para brincar ou assistir a jogos esportivos, permitirá conhecer a eles e suas famílias, sem dar a errada impressão de que se pretende controlá-los ou que se desconfia deles. Muito interessante é incentivar os filhos que estão na escola fundamental para que convidem de cada vez três ou quatro amigos da turma para lanchar ou brincar em casa. Assim, aos poucos, o filho deixará as “panelinhas” de lado e crescerá em sociabilidade e fortalecerá a amizade com todos, e os pais conhecerão os garotos da turma para orientar os filhos nas escolhas que faz.

6 – Promover Clubes Familiares ou espaços educativos

      Os pais podem promover, com a ajuda de outras famílias, lugares adequados para os filhos crescerem humana e espiritualmente durante os tempos livres nos fins de semana.

      Grupos de pais vêm criando Clubes Familiares em condomínios residenciais, associações, ONGs, escolas em dias não letivos. Esses clubes ajudam os pais a fortalecerem a amizade com os filhos e as mães com as filhas. A estrutura desses clubes é muito simples: reúnem-se uma vez por semana durante três horas, geralmente no sábado pela manhã ou à tarde, em local que contenha uma quadra esportiva e um espaço coberto. Forma-se um grupo só de meninos ou só de meninas, sempre com idade aproximada, a partir dos quatro anos (esses dois grupos devem funcionar em horários distintos).

    As atividades das meninas são organizadas e conduzidas pelas mães, e as dos meninos pelos pais, pois deve-se ter em conta as características físicas, psicológicas e de interesses de cada sexo, que são diferentes. Fomenta-se alguma prática esportiva na quadra e, na parte coberta, um breve lanche que cada criança traz e que pode compartilhar, uma palestra de 15 minutos sobre alguma virtude (com exemplos práticos) e uma aula de religião (15 minutos). Outras atividades podem ser: montagem de modelos, aquarismo, pintura, jogo tipo de sala em equipe, etc. Uma vez por mês o grupo de meninos com os pais e o de meninas com as mães podem programar um passeio ou visita cultural. Assim, as crianças aprendem a brincar sem perder de vista a sua dignidade de filhos de Deus, ao mesmo tempo que convivem com outras crianças com boa formação humana e espiritual. A experiência dos pais é que as crianças esperam ansiosamente pelo dia do clube.  Vale a pena dar essa alegria a elas.

Texto adaptado por Ari Esteves para o site https://staging.ariesteves.com.br/, com base nos artigos “Lazer e tempo livre (1): brincar para viver”, de J.M. Martín e J. Verdiá, em https://bityli.com/uLiYPi; e “Lazer e tempo livre (2): feriado e diversão”, de J.M. Martín e M. Díez, em https://bityli.com/ZnCNbz