Categoria: VIRTUDES

  • A criança e a mentira

    A criança e a mentira

    1 – O que é a mentira? 2 – A mentira nas crianças pequenas. 3 – A mentira na adolescência. 4 – O clima de confiança incentiva dizer a verdade. 5 – Não dramatizar se seu filho mentiu. 6 – Evitar punições ou castigos diante de uma mentira. 7 – Iniciativas que ajudam abordar o tema da mentira com as crianças

    1 – O que é a mentira?

        Verdade é a adequação entre a mente e a realidade, diz a definição clássica. Portanto, a mentira consiste em pensar uma coisa diferente da realidade, com a intenção de enganar. Parece mais fácil ocultar a verdade do que enfrentar suas consequências. A mentira surge como atrativo para mudar a realidade e buscar benefício próprio. A gravidade da mentira é medida pelas consequências que produz. O poder da mentira faz com que existam mitômanos ou pessoas que mentem compulsivamente para construir um mundo irreal com suas próprias falsidades, o que pode trazer até consequências psicóticas porque faz perder a referência da verdade. Distorcer, aumentar ou diminuir a realidade; dissimular uma situação, não fazer o que se diz, prometer o que não irá cumprir, utilizar-se de ambiguidades para confundir, ocorrem como meios para fugir de responsabilidades, evitar punições, ficar bem com os demais, auferir ganhos, entre outras motivações.

        A veritas é a virtude baseada na tendência de manifestar-se como se é, ou manifestar-se sobre a realidade tal como ela é. Essa virtude faz parte da autenticidade que deve iluminar qualquer pessoa; autenticidade que é contraposta ao artificialismo da mentira, pois reflete coerência própria da luz da verdade, e está ligada à autorrealização humana, que só ocorre quando a ação é moralmente boa. Os pais devem educar as crianças desde pequenas para que sejam autênticas, verazes, pois seus filhos, quando forem adultos, saberão dizer um não bem grande à corrupção e ao ganho fácil e desonesto.

    2 – A mentira nas crianças pequenas

        Assim como os adultos, as crianças podem mentir por diversas razões: não desapontar os pais, conquistar algo que desejam, fugir das responsabilidades, chamar a atenção para impressionar, evitar castigos. Também podem mentir para demonstrar desejos ou algo que as incomodam. Observar se a mentira da criança é intencional ou não. Depois, procure compreender se os motivos que a levaram a distorcer os fatos foram a angústia, frustração ou medo. Isso não significa que você é conivente com a mentira, mas que pretende conversar de maneira franca sobre as consequências da mentira, porque isso é fundamental para o desenvolvimento da personalidade da criança, que precisa aprender desde cedo que a mentira é indesejada, seja qual for o motivo, e para que esse defeito não se torne recorrente. Mesmo que, por vezes, a situação pareça cômica, deixar claro que mentir é errado, que prejudica a quem conta e aos demais, além de abalar a confiança e afetar o relacionamento.

        Até a idade de 5 ou 6 anos, a mentira da criança pode representar uma certa confusão entre realidade e imaginação (ou fantasia), e a imaginação se torna tão viva que a criança chega a falar consigo mesma ou manter diálogos com amigos imaginários: tudo isso faz parte do desenvolvimento do pensamento. Após os 6 anos as fantasias começam a rarear. Aos 7 anos a criança já tem consciência do que é verdade ou mentira, sendo esta, portanto, intencional. Então, precisa ser relembrada que a mentira prejudica os outros e trai a confiança que depositam nela. Entre 7 e 8 anos, a criança vive um período de ostentação e autoafirmação, e ao desejar ser a melhor em casa e na escola pode mentir em algo. A partir dos 10 anos, a mentira surge comumente para fugir de responsabilidades.

    3 – A mentira na adolescência

        Mentiras na adolescência preocupam mais porque nesta idade a consciência e o querer da vontade estão mais desenvolvidos. Mas isso não significa que o adolescente seja um mentiroso compulsivo: apenas vive intensamente e tem dificuldade para lidar com as frustrações, e porque não quer decepcionar. Por vezes, quer guardar algum segredo para preservar a própria intimidade ou conquistar independência: pode não contar que foi à casa de um amigo que os pais não consideram boa amizade, a fim de afirmar sua autonomia.

        Mesmo que compreenda a diferença entre verdade e mentira, isso não é suficiente para impedir que o adolescente não diga alguma inverdade para impressionar. Se ele planeja algo que parece ousado demais, dizer simplesmente um “não” é pouco razoável: reflita com ele sobre as razões que tornam seu plano inconveniente.

    4 – O clima de confiança incentiva dizer a verdade

        O modo como os adultos dizem as coisas podem influenciar a imagem e a estima que a criança tem de si, e isso pode afetar-lhe o caráter e a personalidade de forma positiva ou negativa. Há forte conexão entre o modo como a criança se sente e como se comporta: se a chamam de mentirosa, poderá sentir que não há outro remédio senão seguir por essa via; se é admirada e respeitada, agirá tendo presente esses valores. Fomentar a autoestima do filho torna-o seguro de si, e sem necessidade de mentir para se autoafirmar: ressaltar à criança que as pessoas verazes são mais estimadas.

        Nunca rotule de mentiroso seu filho, porque este não é seu modo habitual de ser. Demonstre confiança nele, que não é um mitômano, e considere a mentira como um incidente passageiro ou gafe que ele deve retificar. Se o filho reconheceu que mentiu, valorize esse fato.

        Os adultos têm um papel importante para educar a criança na verdade e honestidade, ao deixar claro desde muito cedo que falsidades e pequenos furtos nunca serão aceitos. A criança pode mentir porque observa o comportamento dos adultos, que são modelos ou espelhos para elas. Mentiras leves também são um mau exemplo: dizer para a esposa que você não está em casa, a fim de não atender o telefone, é mentira; se você riscou o móvel da casa e pediu para a criança não contar isso à mãe, é outra falsidade. Pais que mentem terão filhos mentirosos.

        A verdade nem sempre é boa de se ouvir, mas não há outro remédio. Esteja preparado para entender o que de fato aconteceu, tendo presente que todos somos capazes de cometer desatinos, se não contarmos com a ajuda de Deus e dos demais, pois assim seremos compreensíveis com os erros dos outros. Entenda por que a criança mentiu: medo, frustração, fantasia, chamar atenção. Depois, acolher a criança com respeito e explicar a ela que não agiu corretamente.

        O clima de confiança faz a criança se sentir confortável e sem medo de contar a verdade. Conversar muito com os filhos e criar momentos lúdicos em família, como brincar com eles, assistir juntos desenhos ou filmes infantis e ler antes de dormir, ajudam a criar um clima de confiança e de empatia que evitam mentiras para impressionar os pais.

        Não minta para as crianças! Para construir uma relação de confiança, os pais devem ser verazes: se não pretendem comprar algo que a criança pede, não diga que “na volta farão isso”, a fim de que ela esqueça o pedido, e sabendo que não comprarão. É melhor informar que a compra não é necessária, e que deverá aprender a esperar por outra ocasião: Natal, aniversário ou outra festa.

        Não invada a intimidade da criança quando ela não se sente à vontade para tratar determinados assuntos. Por vezes, é melhor mostrar-se acolhedor e deixar-se enganar uma ou outra vez a fim de demonstrar confiança para com a criança que, se mentiu, ficará dolorida por ter traído a confiança que os pais depositam nela.

    5 – Não dramatizar se seu filho mentiu

        Se você flagrou seu filho contando uma mentira, tente manter a calma. Embora o adolescente não seja mais uma criança, ainda é um ser humano em formação. Portanto, cuidado com suas reações ao ouvir uma mentira. A criança poderá se sentir insegura e amedrontada se os adultos ficarem nervosos ou agitados, e terá mais dificuldade para assumir a mentira. Não é preciso aceitar as mentiras dos filhos, mas reajam com calma. Se os nervos estiverem à flor da pele, dê um tempo e fale mais tarde ou no dia seguinte que foi errado o comportamento do dia interior, e que se tivesse dito a verdade não precisaria temer nenhuma reação ruim.

        Conversar sobre o motivo que levou a mentir torna-se ocasião para dialogar. Fuja de frases do tipo “você falhou comigo” ou “não vou confiar mais em você”, muito próprias para o teatro de melodramas. Faça a criança ver que se tivesse dito a verdade seria ajudada a consertar o erro.

        Não crie armadilhas para contradizer a criança: ao perceber que ela está mentindo, fale abertamente sobre o assunto. Se os pais sabem que o filho não fez a tarefa da escola, em vez de perguntar se fez a lição, perguntar sobre o motivo de não ter feito. Se a criança de 4 a 5 anos traz da escola um objeto diferente e afirma que ganhou ou achou, confirmar a realidade do fato e, se retirou da carteira escolar de alguém, dizer que aquilo não pertence a ela, e que deve devolver no mesmo lugar. Se tiver dúvida sobre a história da criança, peça para contar de novo horas mais tarde e compare as versões.

        Os pais conhecem bem os filhos e logo percebem se estão mentindo: não finja que não percebeu, mas faça um comentário enaltecendo a imaginação fértil da criança, que perceberá ter inventado a história. Um garoto ao retornar da escola contava fatos irreais que afirmava ter realizado. Os pais, que não queriam chamá-lo de mentiroso, combinaram entre si e com o filho que diariamente, durante o jantar, cada um – pai, mãe e filho – contaria um fato ocorrido durante o dia, e uma história inventada. E assim faziam todas as noites. E quando a criança retornava da escola e contava algo fantasioso, perguntavam se a narrativa fazia parte das inventadas. O garoto pensava em silêncio e respondia que era das inventadas, e assim foi se corrigindo sem nunca receber a pecha de mentiroso.

    6 – Evitar punições ou castigos diante de uma mentira

        Muitas crianças acham que a mentira vale a pena porque pode evitar um castigo ou repreensão. O clima de medo é prejudicial. Caso os pais descubram a verdade, não usem de violência, não gritem, não percam a cabeça. Conversem sobre as consequências da mentira; expliquem que a pessoa mentirosa quebra a confiança que nela se deposita, que magoa as pessoas. Dar à criança a oportunidade de corrigir o erro, de reparar a injustiça que fez, é mais eficiente do que aplicar um castigo, além de contribuir de maneira positiva para o amadurecimento emocional da criança.

        Não seja um fiscal rígido que impossibilite o diálogo com os filhos. Talvez ele tenha mentido para não envergonhar-se ou envergonhar os pais. Quanto mais punitivo forem os pais, maior é a chance da criança ou adolescente mentir para não ser punido, e não aprenderá com os próprios erros. Ao invés de punir, escute-o, compreenda o motivo da mentira e explique com exemplos as consequências das inverdades, que sempre têm pernas curtas. Ressalte os benefícios da sinceridade e os prejuízos da insinceridade na formação do caráter e da personalidade.

    7 – Iniciativas que ajudam abordar o tema da mentira com as crianças

        Assistir com os filhos filmes que revelam como a mentira é destrutiva. Muitos roteiros são construídos a partir de uma inverdade que enreda e afunda os personagens em espiral negativa, sendo que o remédio teria sido dizer a verdade. Livros também ajudam abordar o tema da mentira, e são uma ótima ferramenta para ensinar valores e modelos de conduta de uma forma lúdica. A leitura auxilia na introdução de temas espinhosos quando não se sabe por onde começar. Leiam para as crianças pequenas, e depois conversem sobre como agiu a mentira na história. Se a criança souber ler, proponha uma leitura individual e depois reflita com ela sobre o livro.

        Sugestões de leituras: “A verdade segundo Arthur”, de Tim Hopgood. Arthur resolveu fazer o que sua mãe havia proibido: dar uma volta na bicicleta de seu irmão mais velho, e acabou riscando um carro estacionado na frente da casa. Para fugir da responsabilidade inventou uma série de histórias fantásticas que não convenceu ninguém.

        “Pig, o Travesso”, de Aaron Blabey. Trata-se de uma fábula onde o cachorrinho egoísta,  malcriado e ganancioso conta mentiras e vive culpando Tobias, um cão da raça salsicha, fiel e paciente amigo que não desiste de buscar algo de bom no Pig.

        “Pinóquio”, de Carlo Collodi. É clássica a história do boneco de madeira que queria ser um menino de verdade. Suas mentiras fazem o nariz crescer, o que demonstra o poder deformante da mentira. A história é para crianças de todas as idades.

        “O menino e o lobo”, de Esopo, é fábula onde um menino cuidador de um rebanho de ovelhas, que se divertia ao alarmar os moradores da vila ao mentir que seu rebanho estava sendo atacado por um lobo, a fim de que viessem acudi-lo. Certo dia, porém, o rebanho realmente foi atacado, e o menino gritou por ajuda, mas ninguém veio, pois julgavam que se tratava novamente de uma mentira.

    Texto elaborado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/

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  • Os pais e o rendimento escolar dos filhos

    Os pais e o rendimento escolar dos filhos

    1 – O estudo é o trabalho profissional do estudante. 2 – Algumas características do bom aluno. 3 – O ambiente familiar influi nos estudos dos filhos. 4 – Atitudes recomendadas aos pais. 5 – Relações dos pais com os preceptores dos seus filhos.

    1 – O estudo é o trabalho profissional do estudante

         Sendo o estudo o trabalho profissional que o estudante deve realizar, e porque espera-se que todo profissional faça com perfeição o seu trabalho, não se pode desejar menos do estudante, pois será por meio desta tarefa que ele crescerá em virtudes humanas como fortaleza, constância, autodomínio, sentido de responsabilidade e espírito de solidariedade ao contribuir com seus esforços para o bem de todos. Portanto, os pais devem alentar os filhos a dar verdadeiro valor ao estudo: 1) Ter um motivo transcendente para estudar (ajudar aos demais); 2) Desenvolver as capacidades e virtudes pessoais que o estudo requer; 3) Adotar procedimentos ou métodos que façam render o estudo; 4) Ter bom clima ou ambiente familiar que fomente o estudo.

       Fazer os filhos estudarem não é fácil, pois alguns não têm vontade de fazê-lo porque são inconscientes da importância do estudo, e se deixam vencer pela preguiça e comodidade; outros encontram dificuldades porque não aprenderam como estudar e não possuem um plano ou método de estudo.

    2 – Algumas características do bom aluno

        Pais e educadores devem estimular os adolescentes e jovens não apenas tirar boas notas escolares, mas a crescerem como pessoa ao dar ao estudo um motivo transcendente, que é ajudar aos demais com as próprias qualidades desenvolvidas com esforço. Estudar não consiste em acumular informações ou receber passivamente algo elaborado, pois tal comportamento esconde preguiça mental, ausência de profundidade e desconhecimento dos verdadeiros motivos para estudar. Aprender não se limita a repetir conceitos de modo mecânico, mas em expressar com as próprias palavras o real significado do aprendizado, pois o estudo não deve ser passivo e sem o esforço da reflexão e da crítica pessoal. As disciplinas oferecidas pelos professores são necessárias, mas o aluno deve aprender a trabalhar os conteúdos para elaborar um saber com ideias próprias. Esta postura, que filtra as informações recebidas, desenvolve o raciocínio e facilita o espírito crítico para distinguir a verdade do erro.

        A experiência mostra que o bom aluno não é o que tem boas notas, mas possui péssimo caráter e um temperamento que torna difícil a vida dos pais, professores e colegas: memorizar livros e apostilas bastam para tirar boas notas, mas não para formar uma pessoa íntegra. É verdadeiramente bom aluno aquele que ao interiorizar o aprendizado cresce em virtudes humanas para melhor servir aos demais (motivação transcendente).

    3 – O ambiente familiar influi nos estudos dos filhos

         Qualquer aluno necessita encontrar em sua família um ambiente acolhedor, otimista, harmonioso, disciplinado e que respeita o silencio para o estudo. Para isso, é necessário criar um ambiente propício ao estudo ao manter a televisão desligada; determinar horários fixos para as refeições, bate-papos familiares e momentos de descanso, a fim de não criar ocasiões de distração e indisciplina que prejudica a continuidade dos estudos fora da escola.

         O estudo dos filhos é influenciado positivamente por: 1) Fatores pessoais: capacidade mental que pode ser aumentada pelo esforço, vontade forte para não se deixar levar pelo mais cômodo (responsabilidade), adquirir a virtude ou hábito de estudo, possuir um método de aprendizado; 2) Fatores ambientais: fomentar um clima familiar propício ao estudo e à cultura familiar (ler o boletim Promover a cultura na família), combinar os horários para as atividades de descanso e lazer.

         Nas lições do grande pedagogo espanhol Victor Garcia Hoz, a família é determinante para o comportamento das pessoas, e isso se comprova por meio de pesquisas que revelam como a deterioração da vida familiar e a delinquência juvenil estão fortemente ligadas. O ambiente familiar afeta consideravelmente a pessoa, tanto para o bem quanto para o mal. A falta de afeto, carinho e diálogo repercutem de forma negativa no comportamento dos filhos, e no rendimento escolar destes. Enganam-se os pais que não distinguem entre quantidade e qualidade de tempo que dedicam aos filhos: estar na mesma sala com os filhos, mas com a atenção voltada o tempo todo para a TV, não significa estarem juntos. Os pais devem ser os melhores amigos dos filhos, e isso se consegue com o diálogo e o interessar-se pelas coisas deles.

        A relação paternal-filial quando não é boa faz surgir comportamentos ruins nos filhos. Quando um aluno começa a se apresentar deprimido, incapaz de se concentrar ou fixar a atenção nas aulas; quando se torna revoltado, desanimado, quieto e isolado, é quase certo que há desavenças no ambiente familiar. Os atritos constantes entre os pais ocasiona consideráveis prejuízos à educação dos filhos: afetam sua segurança, causam ansiedade, falta do estímulo para o estudo e o baixo rendimento escolar, trazem problemas psicológicos, complexos e revoltas. Por vezes, o mau comportamento de não estudar pode ser uma arma ou recado do filho: “Não estou satisfeito com as brigas de vocês, que devem se entender melhor para se amarem mais”. Só um clima do diálogo soluciona os diversos problemas do dia a dia de uma família. É importante que os pais detectem o motivo que tornou difícil a convivência no lar: problemas financeiros se contornam com o tempo e iniciativas entre todos; já os problemas de relacionamento exigem a humildade de não permitir atitudes de soberba e orgulho que conduzem à falta de perdão e ao distanciamento que envenenam a vida familiar.

        Os pais devem se esforçar para melhorar a si próprios continuamente, e isso se consegue por meio de propósitos simples e diários, praticados com bom humor e espírito esportivo (começar e recomeçar). O clima familiar depende em grande parte das atitudes dos pais, que possuem o desafio de dar exemplo ao buscar a melhora pessoal e não apenas a de seus filhos: Sêneca afirmou que “longo é o caminho com preceitos, mas breve e eficaz com exemplos”. Portanto, antes de exigirem que os filhos sejam melhores como pessoas ou como alunos, os pais devem dar-lhes exemplo ao procurar melhorar a si próprios, pois o bom educador vive primeiramente aquilo que ensina.

    4 – Atitudes recomendadas aos pais

            Os filhos valorizam muito o esforço e a dedicação dos pais à família. Esse bom exemplo é decisivo para que os filhos sejam melhores. Para formar bem os filhos, os pais devem primeiro formar bem a si próprios ao dedicar um tempo diário à formação pessoal: ler livros, assistir vídeos, participar de cursos e palestras sobre orientação familiar e educação do comportamento dos filhos. Depois, devem ter as seguintes atitudes positivas: 1) Valorizar não apenas as notas escolares dos filhos, mas também as virtudes ou bons hábitos deles; 2) Elogiar o esforço que fazem para melhorar como pessoas; 3) Assumir como pais a responsabilidade de serem os principais responsáveis pela formação dos filhos, e não deixar esse encargo à escola; 4) Estar atentos ao uso que os filhos fazem de celulares, tabletes e internet, dada as influências negativas de certos programas; 5) Interessar-se pelos vídeos e jogos que os filhos assistem, das amizades que possuem, dos ambientes que frequentam; 6) Ter como primeira preocupação a formação integral dos filhos, que inclui não apenas a educação da inteligência, mas a dos afetos e sentimentos para que melhorem como pessoas.

    5 – Relações dos pais com os orientadores dos seus filhos

        Os pais não devem limitar-se a pedir informações sobre as notas escolares do filho, mas também em fornecer dados concretos que venham facilitar o trabalho dos preceptores: como e quanto estuda o filho em casa, se aproveita ou não o tempo, as dificuldades mais frequentes que possui (tempo gasto em telas digitais para se divertir), como se comporta em casa com os pais e irmãos, que ambientes frequenta, quais as preocupações atuais do filho, que dúvidas apresentou aos pais e estes não souberam esclarecer, a que vídeos dedica tempo, se está namorando, se ajuda nos encargos familiares…

        A parceria com a escola será prejudicada se não comparecem às reuniões de formação dos pais, oferecidas pela como ocasião de aproximar conteúdos de orientação familiar para facilitar a missão de educar integralmente os filhos. Dentre os inúmeros afazeres que os pais possuem, devem ter presente que “No Colégio há três coisas importantes: primeiro, os pais; segundo o professorado; terceiro os alunos. Os nossos filhos – não vos ofendais – estão em terceiro lugar. Dessa forma andarão multo bem” (São Josemaria).

    Texto escrito por Ari Esteves com base em artigo impresso “Os pais e o rendimento escolar dos filhos”, de autor desconhecido. Imagem de Leeloo Thefirst

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  • O esforço na vida da criança

    O esforço na vida da criança

    1 – Não há fórmulas mágicas para substituir o esforço. 2 – A necessidade é mãe de todas as invenções. 3 – É ilógico ofertar às crianças o desnecessário

    1 – Não há fórmulas mágicas para substituir o esforço

        Com base no esforço e na exigência pessoal foram gestadas as grandes obras artísticas e científicas. Ao ler a biografia de Michelangelo, Gaudi, Pasteur, Jérôme Lejeune, Thomás Edison, entre muitos outros, se descobre que, com dor e sofrimento, dedicaram milhares de horas de intensos trabalhos às suas criações.

        Saber esforçar-se não vem de bate-pronto, mas de uma educação serena e persistente. É preciso que pais e educadores ensinem às crianças e adolescentes que não há fórmulas mágicas para o aprendizado sério. Para isso, evitar frases do tipo “aprenda divertindo-se”, “Não vai custar nada”, “Vai ser facinho…”. É bom critério educacional revelar às crianças que seus professores, músicos e esportistas que admiram gastaram muitas horas de aprendizado para dominar a matéria, instrumento musical ou técnica esportiva.

        Pais que reclamam da escola porque passa muita lição de casa transmitem aos filhos a mensagem de que não precisam se esforçar. Os filhos em casa devem substituir as horas gastas em mídias sociais por horas de estudo e de leitura de obras literárias, jogos de inteligência (xadrez, quebra-cabeça…), encargos ou tarefas para o bom funcionamento do lar, vídeos selecionados… A família que possui horários fixos para as refeições, dormir e acordar – os pais devem dar exemplo ao cumprir esses horários – criará uma disciplina que favorecerá o aproveitamento do tempo e o consequente crescimento humano e cultural de todos.

    2 – A necessidade é mãe de todas as invenções

        As crianças nascem com um desejo inato de conhecer, investigar e entender o mecanismo das coisas ao seu redor. Se o ambiente que as cerca é favorável ao aprendizado, elas desenvolverão seus talentos e habilidades. Porém, se o estilo de vida familiar oferta tudo à criança ou ao adolescente, antes mesmo de necessitar, satura-o de estímulos artificiais e torna-o passivo e consumista. Então, a criança passa de pequena empreendedora para grande consumidora, pois se afasta do desejo de investigar e de inventar. Um carrinho elétrico já vem pronto, e basta apertar o botão para que funcione; porém, criar um ônibus com a caixinha vazia de leite e transformar tampinhas de pet em rodinhas desse veículo, exigirá que o botão da criatividade esteja dentro da criança, e não fora dela. Já foi dito que “A necessidade é mãe de todas as invenções”. A criança começa a ser criatividade ao se esforçar para ter o que não possui, mas se já possui antes mesmo de necessitar, não fará falta ser criativa.

    3 – É ilógico ofertar às crianças o desnecessário

        É na escassez de recursos onde a inteligência, vontade, imaginação e memória são estimuladas a suprir as carências. Isso de ter o que todo mundo tem é ir a reboque de modismos e deixar o essencial de lado. As estatísticas da moda não devem decidir pelos pais, nem criar hábitos de consumo, se desejam educar bem. Introduzir o celular na vida da criança é fazer o que muitos pais infelizmente fazem, e desatendem com isso valiosos critérios educacionais. A lógica de ofertar à criança o que não é necessário tem que ser quebrada desde a infância, a fim de não formar adolescentes que justificarão todo tipo de necessidades porque querem imitar seus colegas. Um garoto de uma escola da periferia da Capital de São Paulo perguntou ao professor se era correto comprar um tênis de grife, porém falsificado. A necessidade de aparentar certa opulência surgiu nesse adolescente porque não foi educado para outros valores, como desprendimento dos bens materiais, autenticidade para apresentar-se modesta e sobriamente entre seus iguais, não se deixar influenciar pelas falsas necessidades criadas pela propaganda comercial… As crianças precisam de poucas coisas, sendo mais saudável que aprendam também a viver desprendidas daquilo que possuem, a fim de serem mais livres.

        O esforço é educativo e as crianças devem prová-lo desde cedo porque fortalece a vontade, faz descobrir as próprias limitações, torna-as pacientes e constantes, desenvolve nelas as capacidades e talentos naturais para melhor servir aos demais.

    O texto acima foi adaptado por Ari Esteves com base no capítulo “O esforço, a austeridade e a simplicidade”, do livro “Educar na realidade”, de Catherine L’Ecuyer, Editora Fons Sapientiae, 2019. A imagem do menino é de Paola Roxanna Nemek.

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  • Criança necessita de limites

    Criança necessita de limites

    1 – A criança troféu se torna tirânica. 2 – Como conseguir que a criança obedeça? 3 – A criança deve aprender a conviver com a frustração. 4 – Não dar tudo o que a criança pede.

    1 – A criança troféu se torna tirânica

        Quando se deixa de considerar a criança como um presente, e se passa a considerá-la um troféu para ser exibido, logo ela se torna tirânica, ensina a educadora Catherine L’Ecuyer*. A criança troféu parece tão perfeita que não precisa ser corrigida para que continue sendo fofa, exibida e caprichosa. E para que ela não dê shows em público, seus pais, que possuem pouca autoridade, cedem a tudo.

        Cada vez é mais comum ver nas ruas crianças que pedem aos gritos, pois nunca lhes foi dito um “não” gordo e rotundo. Por conhecer bem as regras para manipular os pais, essas crianças se tornam mal-agradecidas, batem, gritam, quebram tudo, exigem determinadas roupas, só comem o que gostam, engolem saquinhos de guloseimas em segundos, abrem a geladeira quando querem, respondem mal aos adultos e não os olham nos olhos, e quando o fazem é com viés desafiador.

        Como consertar tudo isso? Pode-se começar por substituir os produtos de luxo por outros mais simples que incentivem a criatividade, menos celulares e mais tempo com a família, horas a menos de videogames e mais bicicleta ou brincadeiras com outras crianças, substituir as recompensas materiais pelo carinho, transformar as horas de televisão em passeios pelas praças arborizadas ou parques, trocar o barulho dos aparelhos pelo silêncio e a observação. Mas, acima de tudo, saber dizer “não” ao que se considera inconveniente à criança.

    2 – Como conseguir que a criança obedeça?

        Sim, é preciso respeitar a liberdade da criança, mas dentro de certos limites. Como conseguir que uma criança não tire o boné que foi colocado para protegê-la do sol? Colocando-o de novo. E se tirá-lo outra vez? Coloque-o novamente até que não o tire mais. Porém, se a criança já tiver idade para intuir as consequências de suas ações, dizer para ela: – Que pena, querido, não podemos ir ao parque porque você não quer usar o boné e faz muito sol. Como não queremos que você se queime, deixaremos para ir ao parque outro dia, se não fizer sol. Como conseguir que uma criança de três anos coma salada? Colocando salada na refeição dela. E se não come? Coloque-a nas seguintes refeições até que coma.

    – Filha, comece a limpar a sujeira que você fez! Havia dito que se tornasse a fazer isso, ficaria sem ver desenhos por dois dias.

        Antes de dois anos, aproximadamente, a criança ainda não tem capacidade de obedecer, sendo necessário tirar do alcance dela objetos perigosos e chamar a atenção cada vez que os toque. Ter presente que bebê não zomba, e afirmar ao contrário é fomentar a desconfiança entre ele e seus pais, o que intensificará a desatenção e fará surgir nele a necessidade de chamar a atenção. Os bebês quando choram ou se queixam, pedem a atenção dos pais para resolver suas necessidades básicas e afetivas. É necessário ajudá-los a regular seus hábitos de sono e de comida, por exemplo, mas sem que isso prejudique a necessidade que eles têm de serem cuidados, e sem cair no condutismo, que reduziria a relação com eles a meros sujeitos passivos programáveis por estímulos externos (prêmios e castigos), condicionando, assim, a forma deles agirem.

        A partir de dois anos, aproximadamente, a criança tem o vínculo de confiança consolidado com seus pais, quando estes atenderam suas naturais necessidades. A partir desse momento, a criança começa a ter capacidade de obedecer, sendo a ocasião de fazê-la compreender as consequências naturais de suas ações (como a de não querer utilizar o boné para brincar no sol). Assim, a criança começa entender uma das leis principais do mundo em que vive: somos livres para fazer o que queremos, mas não livres das consequências naturais que nossos atos provocam.

    3 – A criança deve aprender a conviver com a frustração

        O mundo não age necessariamente como queremos. A birra da criança de dois anos, por exemplo, nada mais é que uma consequência da frustração que causa a ela saborear a realidade de que “se o mundo não age como eu quero, então me aborreço para que seja como eu quero”. Se os pais cedem, reforçam a falsa esperança da criança de que o mundo transigirá sempre que ela quiser. Porém, ao não ceder os pais deixam claro que as ações têm consequências naturais, e que as pessoas não se comportam de acordo com os desejos da criança, ajudando-a, assim, a descobrir o que é a realidade. Quanto antes as crianças compreenderem isso, menos birras lançarão sobre seus pais.

        O mundo tem suas leis: o sol queima e, se não nos protegermos dele, nos queimamos, mesmo que não queiramos tal desconforto. Cada família vai encontrando seu jeito mais eficiente de funcionar, e pode valer-se das leis da natureza ou do comportamento correto: se para ir ao parque em dia ensolarado, a mãe diz que é para usar o boné, e a criança não o faz, simplesmente não se vai ao parque. Não é necessário guerrear nem chantagear ao oferecer prêmios de consolo. A consequência natural é não ir ao parque, a fim de que a criança entenda e assuma as consequências de seus atos. Se os pais fizerem isso sem dramatizar, mas com bom humor e de comum acordo, a criança os verá seguros e não irá manipulá-los com birras. Os pais possuem pouco tempo, mas devem saber que controlar a birra requer paciência, porque educar é um processo lento.

    4 – Não dar tudo o que a criança pede

        Na criança se encontra as sementes do conhecimento, o que a predispõe para pesquisar, comparar, saborear e manipular para conhece; Aristóteles dizia que elas também estão predispostas para adquirir virtudes. Mas, se estão saturadas de objetos de consumo, logo perdem a curiosidade e a capacidade de esforçar-se para chegar à excelência. O consumismo satura os sentidos e as potências da alma, e faz desaparecer o interesse por aprender e ser criativo; e quando a isso se soma a ausência de limites, é sufocada também a predisposição para as virtudes e a capacidade de se esforçar.

        Aristóteles, na Ética a Nicômaco, diz que a educação certa consiste em saber alegrar-se e sofrer pelas coisas que valem a pena, e que devemos ser educados para isso desde a infância. A invenção ou descoberta, que é a forma mais elevada de conhecer, surge de maneira natural nas crianças, porque elas possuem a tendência natural para a verdade, bondade e beleza. Mas essas capacidades não brotam no caos, no barulho contínuo, na saturação dos sentidos com imagens e na falta de limites e na indisciplina.  

        O que é bom demanda esforço. Miguel Cervantes dizia que “o caminho da virtude é muito estreito e o caminho do vício, amplo e espaçoso”. A criança mimada, paparicada, a quem não se coloca limites, terá a vontade fraca por lhe faltar as asas do esforço e da sobriedade. Ao contrário, a criança que conhece seus limites, será verdadeiramente livre, rica (tem mais quem precisa de menos) e imensamente feliz. Maria Montessori dizia que deixar a criança que ainda não desenvolveu sua vontade fazer o que quiser, é atraiçoar seu sentido da liberdade. Podemos entender essas palavras da genial educadora no sentido de que a criança a quem não se impõe limites, desenvolverá maus hábitos e se tornará escrava deles, já que a liberdade pressupõe o desenvolvimento das virtudes da temperança e do autocontrole, conseguidas mediante o esforço e o desenvolvimento de bons hábitos.

    *Texto adaptado por Ari Esteves, com base no capítulo “Ter tudo? Estabelecer e fazer respeitar os limites”, de Catherine L’Ecuyer, em seu livro “Educar na realidade”, Editora Fons Sapientiae, 3ª edição, São Paulo, 2016. Desenho de Michel Pereira (Instagram @michelvp.oficial); imagem de Anastasia Shuraeva

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  • Educar o coração

    Educar o coração

    1 – O emotivismo. 2 – Os sentimentos devem aliar-se à realização do bem. 3 – Educam-se os sentimentos desde a infância. 4 – Sentir alegria ao agir corretamente. 5 – Reconhecer os próprios sentimentos e recusar a vulgaridade. 6 – Educar o coração

    1 – O emotivismo

        A afetividade humana é essencial, pois sem ela seríamos incompletos. Quando se põe o coração – sinônimo de pôr os sentimentos – naquilo que se faz, como por exemplo na atividade profissional que se exerce, tende-se a fazer melhor. Pôr o coração não significa deixar-se arrastar pelos afetos, já que a razão ou inteligência é quem deve dirigir a pessoa; apenas se pretende afirmar que os sentimentos dão cordialidade à razão e torna agradável, e não fria, a realização do bem.

        Chama-se emotivismo a característica de dar primazia aos sentimentos. A afetividade (sentimentos, emoções, paixões) deve ter como ponto de referência a razão, que permite discernir se os afetos são autenticamente humanos ou não (os animais também possuem afetividade). A intensidade sentimental sem inteligência pode levar a desvios de conduta: diante da morosidade do trânsito pode-se ficar nervoso, enfadar-se, xingar, esbravejar, mas ao colocar racionalidade nesse sentimento – já que não há alternativa para escapar do engarrafamento –, pode-se colocar uma boa música para relaxar ou ouvir um podcast sobre educação comportamental dos filhos, etc., e com isso evita-se a absolutização dos sentimentos em detrimento de opções mais razoáveis.

    2 – Os sentimentos devem aliar-se à realização do bem

        A afetividade facilita a ação voluntária: uma jovem que por gostar de animais decide estudar veterinária, fará com determinação e entusiasmo esse curso. Portanto, mais do que eliminar as paixões ou dificultá-las, se trata de encaminhá-las à realização do bem, que é aproveitar-se não apenas da força de vontade, mas também do apetite sensível para agir: “O meu coração e a minha carne gritam de alegria para o Deus vivo”, diz o Salmo 84,3. Não se deve suprimir ou as paixões como se fossem algo mau ou recusável. Claro, se as paixões ou sentimentos se desordenarem e levarem a não cumprir o que é certo, será preciso corrigi-los porque nem tudo o que sentimos será bom ou reto. Isso significa que é preciso orientar ou dirigir a emotividade para os bens verdadeiros: o amor a Deus e ao próximo, por exemplo.

        É um engano fazer equivaler autenticidade com espontaneidade, ao julgar ser autêntica a pessoa que, sem pensar, segue espontaneamente seus sentimentos. Por exemplo, alguém com forte temperamento (colérico) poderá ser espontaneamente bruto com quem, sem querer, venha a empurrá-lo no metrô; ou será autenticamente humano se souber perdoar ao conscientizar-se da situação em que ambos se encontram. A espontaneidade irracional é própria dos animais, e a autenticidade humana é fruto do discernimento em seguir aquilo que se percebe como correto. O conceito errado de “espontaneidade” e “naturalidade” com frequência fere o decoro, rebaixa a própria sensibilidade e animaliza as reações afetivas. Por isso, os pais devem transmitir aos filhos uma atitude de recusa à vulgaridade, não apenas em questões de cunho sensual, mas na escolha de formas de divertimento ou entretenimento, no modo de portar-se ou vestir-se em casa… O mesmo acontece com a liberdade que, sem ética ou sem critérios de discernimento entre o bem e o mal, deixa de ser autêntica para se tornar libertinagem ou puro individualismo (a liberdade é autêntica quando se conforma com a verdade). A educação da afetividade não se identifica com a educação da sexualidade, pois esta é apenas uma parte do campo emocional, que certamente deve ser educada em ambiente familiar de confiança e por meio da educação dos sentimentos e crescimento em virtudes.

    3 – Os sentimentos se educam desde a infância

        Cabe aos pais normalizar os afetos dos filhos ao ensiná-los a manifestar seus sentimentos de modo proporcional à realidade que os despertou: se perdeu um jogo ou não teve a refeição que esperava, deverá ser ajudado a controlar o sentimento de raiva e compreender que a causa dessa ira é má por ser egoísta, injusta, desproporcionada e mal-agradecida. A morte de uma pessoa querida ou a notícia de uma doença inesperada torna-se ocasião para ensinar a ser forte e controlar os sentimentos ao aceitar os acontecimentos, pois se Deus o permitiu será para um bem maior, mesmo que no momento não se compreenda isso. Diante de uma reação de medo, antipatia ou indiferença pelos que sofrem, os pais devem abordar o tema com o filho para ajudá-lo a pôr os afetos em seu lugar: não admitir medos bobos, saber que desprezar uma pessoa porque os sentimentos (que são irracionais) não se simpatizaram com ela é uma injustiça, não ter misericórdia nem se condoer diante do sofrimento de alguém é inumano… A educação sentimental permite que na adolescência e juventude os filhos superem com facilidade qualquer crise sentimental, pois o equilíbrio emocional adquirido favorece a harmonia dos sentimentos, o crescimento de hábitos bons e o fortalecimento da vontade.

    4 – Sentir alegria em agir corretamente

        Os pais devem procurar que os filhos desfrutem ao fazer o bem, e isso se consegue com a educação dos sentimentos, especialmente durante a infância, que é o período em que se formam os hábitos bons ou ruins. Os afetos são um poderoso motor para a ação, pois tendem ao que mais agrada e fogem do que desagrada. Educar os sentimentos é fazer com que as tendências naturais coincidam com o bem da pessoa: se dedicar um tempo ao estudo ou à leitura fora do horário escolar é um bem a ser alcançado, o quanto antes é necessário ser criativo para estimular a criança a que aprenda a ter gosto em cumprir esse horário, mesmo que tenha que superar um sentimento inicial de desagrado. Fazer a criança e o adolescente perceber, com calma e insistente paciência, a fealdade da ação de esparramar-se por horas no sofá para ver televisão, será para que não pratique essa ação e aproveite melhor o tempo. Se os afetos conduzem a criança a fugir do dever de ordenar seus brinquedos, roupas ou enxugar o box após o banho, deverá ser esclarecida de que não deve se deixar levar pela preguiça ou comodismo, mesmo que no início seja necessário aplicar alguma medida corretiva. Os pais podem ter a certeza de que, se insistirem com carinhosa paciência, chegará um momento em que a criança passará a fazer espontaneamente o que deve ser feito, sem necessidade de grandes raciocínios ou súplicas, e o fará com gosto e sentirá desagrado em agir erradamente.

    5 – Reconhecer os próprios sentimentos e recusar a vulgaridade

        A criança e o adolescente precisam reconhecer seus próprios sentimentos. Para isso, os pais podem valer-se das histórias oferecidas pela literatura ou pelo cinema, pois atuam fortemente sobre os sentimentos e tornam mais fácil aprender a dar respostas sentimentais ou afetivas de modo proporcionado ao fato que as desencadeou. As narrativas lidas ou ouvidas movem os sentimentos em determinada direção, sendo grande a influência delas nas crianças (daí a importância de ler para elas os clássicos contos infantis, pois materializam o bem ou o mal em seus diferentes personagens). As cenas de uma história de aventura, suspense ou romântica contribuem para reforçar os sentimentos adequados a cada situação: indignação frente à injustiça, compaixão e solidariedade pelos sofrimentos de alguém, admiração diante de atos de fortaleza, encantamento pelo que é belo, o perdão como compreensão da debilidade humana, aprender o que é amar frente a uma cena fidelidade ao cônjuge… As boas histórias educam o gosto estético, previnem contra a falta de tom humano que por vezes degenera em vulgaridades, aumenta o senso crítico ou a capacidade de avaliar a qualidade das narrativas.

    6 – Educar o coração

        A educação das emoções fomenta nos filhos um coração magnânimo, capaz de amar verdadeiramente a Deus e as pessoas, e torna possível perceber as necessidades e preocupações dos demais. Um ambiente sereno e de exigência contribui para dar confiança e estabilidade ao complexo mundo dos sentimentos. Se os filhos se sentem queridos incondicionalmente, se comprovam que agir bem é motivo de alegria para seus pais, que seus erros não levam à perda da confiança neles e são corrigidos com carinho, terão facilitada a sinceridade, crescerão em clima interior de ordem e sadia manifestação afetiva. E certamente saberão desenvolver sentimentos positivos de compreensão, alegria e confiança para superar as zangas, birras, invejas, egoísmos e preguiças, atitudes que por tirarem a paz e a harmonia da alma serão entendidas como convite para ações concretas como pedir desculpa, perdoar, dedicar tempo aos demais…

        A vida de oração e de trato filial com Deus é condição importante para ordenar os afetos do coração e assegurar a capacidade de amar verdadeiramente e de ser generosos. Tem enobrecido o coração, que se converte em depósito de imensas riquezas, aquele que luta contra os sentimentos de egoísmo e de vaidade, quem controla a imaginação e a memória para colocar os cinco sentidos naquilo que faz, quem tem autodomínio para moderar seu apetite nas refeições, quem fomenta convivência amável com os desagradáveis, quem solidariza-se diante das necessidades dos demais…

        O coração é um motor que deve ser educado, cuidado e afinado para orientar toda a sua força na direção do bem. Como vimos, isso se consegue ao lutar diariamente em pequenas coisas para vencer o apego à comodidade, ao egoísmo de pensar só em si, a tendência à exaltação pessoal… Assim, pouco a pouco o coração vai se tornando magnânimo e capaz de dedicar os seus melhores esforços à execução de grandes ideais ao serviço do próximo.

    Texto produzido e adaptado por Ari Esteves com base em aulas de Luis Romera Oñate, da Pontificia Università della Santa Croce (Roma); e do artigo “Educar o coração”, de J.M. Martín e J. Verdiá, em https://opusdei.org/pt-br/article/educar-o-coracao/

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  • Emotividade:  o apático e o amorfo

    Emotividade: o apático e o amorfo

    1 – Temperamento apático. 2 – Temperamento amorfo

    1 – Temperamento apático

        O apático é não emotivo, não ativo e secundário. Seu ânimo é constante, tem sentido de honra e certa dignidade na maneira de ser. É sincero, honesto, discreto e digno de confiança. Aprecia a solidão. Pode ser um bom conselheiro, quando maduro. É tranquilo, pacífico e normalmente não importuna ninguém.

        Defeitos do apático: é insensível, pois carece do estímulo da emotividade, e sua atividade é baixa, sendo seu traço dominante a tranquilidade acompanhada de frieza e vazio interior. Costuma ter inércia mental para pensar, agir e falar (tem longos períodos de silêncio). Sem força psicológica, seus pensamentos tendem a ser banais, negativos e presos ao passado. Preso às rotinas, tem horror à novidade e se deixa vencer pela preguiça. Costuma ser independente, diverte-se pouco e não costuma interessar-se por si mesmo, nem pelos amigos. Tende a ser egoísta, de mau gênio, irritadiço, pessimista e sensual. Possui, junto com o amorfo, poucas aptidões. Sua inteligência não abstrai e nem extrai o essencial; o pensamento é incoerente, pobre de ideia e de relações lógicas. Sua infância é sem vigor, e quando estudante, não se interessa pelas atividades escolares, sendo que a falta de esforço o faz ter resultados baixos. Alguns apáticos encerram-se demasiadamente em si mesmos e chegam a ser melancólicos, taciturnos e invejosos.

        Modo de tratar o apático: ter afeto, paciência, constância e firmeza com ele, a fim de ajudá-lo a sair de si e voltar-se aos demais. Como seu basal é a tranquilidade, desenvolver nele a emotividade e a atividade para ganhar gosto pela ação e sair da inércia. Tirá-lo da rotina e do automatismo, fazendo-o ter um comportamento autônomo e deliberado. Dar um sentido de missão para sua vida, que costuma ser triste e vazia, ao utilizar com ele métodos ativos e procedimentos estimulantes, carregados de valores ou modelos de conduta. Integrá-lo a um meio social compreensível, vivificante, de trabalhos em equipe, e fomentar nele as virtudes da sociabilidade, generosidade e espírito de serviço. Elevar suas aspirações e ensiná-lo a superar suas debilidades e sentir satisfação pelos êxitos alcançados. Fazê-lo perceber a satisfação que dá o cumprimento do dever. Animá-lo a descobrir a Deus nos demais e a ter sentimentos de compaixão pelos que sofrem.

        Quando estudante, rodeá-lo de um ambiente familiar disciplinado, caloroso e que o estimule ao trabalho e estudo; propor-lhe metas com dificuldades progressivas e verificar se cumpriu os trabalhos escolares, pois sendo inativo poderá deixar de fazê-los. Um companheiro da mesma idade poderá incentivá-lo a cumprir as metas a que se propõe. Um rosto alegre é o melhor jeito de ganhá-lo, pois o levará a ter confiança e simpatia pelo educador, pois deseja ser orientado. Não costuma doer-se de suas faltas, tornando-se necessário ajudá-lo a conscientizar-se da importância de viver a caridade com todos.

    2 – Temperamento amorfo

        O amorfo é não-emotivo, não ativo e primário. É obediente, calmo, objetivo, tranquilo e tolerante. Em geral, seus juízos são equilibrados. Aceita com gosto a convivência e as brincadeiras que lhe fazem, e não faz dano a ninguém. Costuma ser equilibrado e adaptável a qualquer meio.

        Defeitos do amorfo: aparenta ser dócil, mas trata-se mais de passividade. Acomoda-se facilmente e não aprecia planos para o futuro, nem resultados a longo prazo, além de não almejar grandes ideais. Passivo, irresponsável e sem espírito de serviço, é visivelmente preguiçoso, desordenado e deixa as coisas para acabá-las apressadamente e à última hora. É frio, pouco cuidadoso com seu asseio, impontual e inclinado aos prazeres sensuais. Predisposto ao desalento e à melancolia, seu caráter é sombrio. Pode ganhar o vício dos jogos de azar, e cede facilmente ao ambiente e ao que é fácil de fazer. Carece de fervor religioso. Não é mau, mas sim egoísta, e não sente necessidade de ser amado nem de amar e servir aos demais. Pouco generoso, não se interessa pelos amigos. Oportunista, aproveita-se dos demais para fugir das responsabilidades. Costuma ser comilão e com grande atração pela cama. O amorfo paranervoso é o mais preguiçoso dos amorfos, sendo necessário ajudá-lo mais a abandonar esse vício. Os para sanguíneos não aceitam a pecha de preguiçoso, pois cumprem os trabalhos que lhes são exigidos – e não mais do que isso – por uma autoridade competente (se abandonados a si mesmo pouco fariam).

        Modos de tratar o amorfo: como ele aceita os conselhos e necessita de uma clara e firme autoridade, o educador deve ter caráter e virtude para alcançar-lhe o coração, e falar de modo concreto e claro, indo ao fundamental para não confundi-lo. Sem gosto pela ação, o amorfo terá mais êxito em trabalhos que exijam paciência e pouca imaginação. Propor-lhe metas fáceis, não tudo de uma vez, e ir alentando-o pouco a pouco, e fazendo-o perceber que seu êxito se dará por meio de pequenos passos que modifiquem suas disposições inatas à inatividade, à negligência e à tendência de atrasar as coisas. Ao gostar de esportes coletivos – mas não de ginástica –, e a fim de que ganhe gosto pelo esforço continuado, animá-lo a melhorar a performance da prática que aprecia. Como se deixa influenciar pelo ambiente (família, escola, amigos), é importante que este lhe ofereça exemplo de energia, pontualidade, entusiasmo e ação. Deve lutar contra a falta de exatidão verbal, contra a tendência a debochar, de pedir emprestado e de pouca pontualidade aos compromissos. Sugerir-lhe fazer cada dia algo pelos amigos, e a colaborar para o bem de pessoas necessitadas. Não deixá-lo isolado: para alcançar metas de trabalho poderá fazer parte de alguma equipe, pois saberá cumprir sua meta, já que tem receio de críticas ou reprovações. Inadaptado, é preciso adquirir o hábito de se interessar e esforçar-se por algo. Fazê-lo ganhar hábitos de limpeza e ordem; disciplinar seu sono e refeições.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base no livro “Guía práctica de caracterologia”, de José Gay Bochaca, Ediciones Internacionales Univertarias, Madri. Sugestão de leitura: “Conheça o seu filho”, de Anna Maria Costa, Editora Quadrante, São Paulo. Imagem de Pixabay.

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  • Emotividade: o sanguíneo e o fleumático

    Emotividade: o sanguíneo e o fleumático

    1 – Temperamento sanguíneo. 2 – Temperamento fleumático

    1 – Temperamento sanguíneo

        O sanguíneo é não-emotivo, ativo e primário. Tranquilo, prático e oportunista, procura fins ou resultados imediatos. É mais reflexivo do que impulsivo. Deseja a harmonia e reconcilia-se com facilidade. É perseverante, sincero e leal. Não gosta do isolamento. É expansivo e amante do esporte. Desprendido, não se importa com o que dizem dele, nem interfere na vida dos demais. Extrovertido, é o mais otimista dos caracteres (otimismo sem entusiasmo), e julga que as coisas se consertam com o tempo. Independente em seus juízos, tem réplica para tudo, e se interessa pelo que é atual, concreto. Versátil, diplomático, cortês e com presença de espírito. É permeável às influências coletivas.

        Defeitos do sanguíneo: tende a ser egoísta, duro, oportunista e com pouca compaixão. Cético e crítico sarcástico, diverte-se ao provocar os emotivos e os tímidos. Ainda que tranquilo, em algumas ocasiões pode ter atitudes de violência e irritação. Muito trabalhador, mas com tendência a não acabar bem as tarefas devido à ânsia de mudar de atividade. Interessa-se por tudo, sendo seduzido pelas novidades. Entregue aos seus interesses, é alheio às necessidades dos demais. Tem vontade fraca e cede diante das dificuldades. Fraco de vida moral, pode cometer indelicadezas e mentir facilmente. Integra-se bem ao ambiente familiar. Há sanguíneos que se aproximam dos coléricos, dada à sua primariedade, espírito empreendedor e veemência (estes apreciam crônicas esportivas, novelas e aventuras). Aqueles que se parecem com os amorfos têm menos atividades, mas são ávidos leitores de notícias políticas.

        Modo de tratar o sanguíneo: criar-lhe um ambiente afetuoso para que se dedique aos demais com amor, e para viver a benevolência ao ajudar no que pode. Sendo frio, ensiná-lo a se emocionar, a desenvolver a emoção intelectual e a moderar a primariedade. Sua tendência à indiferença pode ser corrigida por uma educação que o faça perceber as necessidades dos demais, e a ter compaixão pelos que sofrem. Suscitar nele uma verdadeira sensibilidade para transformar sua bondade externa, mais voltada aos seus interesses, para uma bondade interna, profunda e generosa. Na adolescência, ajudá-lo a perceber a doçura da mãe e os sacrifícios do pai, sendo que a missão da mãe é decisiva para conduzi-lo à simpatia com os demais, a não ignorar a dor alheia e a ter encargos familiares para se desprender de si. Corrigi-lo com certa severidade e fazê-lo perceber que pode causar danos ao faltar a caridade com os demais. Alguns sanguíneos podem deixar-se dominar pelos sentidos e prazeres, sendo necessário estar atento para ensiná-los a viver a virtude da temperança ou autodomínio. Vaidoso, ambicioso, deve mudar seus valores por outros mais nobres. Organizar o seu trabalho ou estudo, ensiná-lo a ter espírito de equipe e dar a ele tarefas que o tirem do isolamento. Fazê-lo ver que uma das causas dos seus fracassos é a inconstância, e ajudá-lo a perseverar no esforço continuado. Buscar motivos intelectuais, mais do que práticos. Orientar sua curiosidade, que tenta suprir a pobreza interior, para algo que valha a pena.

    2 – Temperamento fleumático

        O fleumático é não-emotivo, ativo e secundário. Trabalha com constância, sendo decidido, pontual, sempre ocupado, veraz e digno de confiança. Costuma ser pouco expansivo. De humor constante, é natural, simples de trato, não vaidoso e nem ambicioso. Tem interesses intelectuais. Reflexivo, chega a grandes resultados, ainda que lentamente. É tradicionalista, tranquilo, objetivo, silencioso e discreto. Ajuda a quem lhe pede um favor, mas não costuma adiantar-se ou fazer mais do que o solicitado. Aprecia as conversas sérias, mas sendo pouco falador prefere ouvir. Não teme o esforço ao buscar interesses próprios. Tem vontade de fazer bem as coisas e gosta de limpeza. Quando estudante, costuma ser hábil no raciocínio; ordenado nos cadernos, livros e mesa de trabalho e não causa problemas aos professores. Sua vida familiar discorre sem efusões, e ama os pais mais por sentido de dever do que por sentimentos de gratidão. Não é inovador, mas facilmente adaptável.

        Defeitos do fleumático: por manifestar poucos sentimentos e emoções não tem grandes expansões ou arranques, tende à frialdade e pode chegar a ter orgulho de sua frieza. Prefere jogos solitários. É calculador, metódico e pouco compreensível. Pouco compreensível, é por vezes é irônico, severo, insensível e altaneiro com os demais. Tende à solidão, a fugir da convivência, e a desdenhar o carinho familiar e dos amigos. Pode ter manias de ordem.  

        Modos de tratar o fleumático: apesar de não se deixar guiar facilmente, o fleumático necessita de orientação para resolver questões concretas. O fleumático não se fixa muito nos modos ou figura do tutor, mas sim em suas ideias e métodos. É necessário tratá-lo com sentido de humor, pois isso lhe cai bem, dado o tipo de caráter que possui. Ter presente que a maturidade psicológica exige integrar de modo harmonioso os sentimentos e afetos para colocar não apenas a cabeça, mas também o coração naquilo que faz e na relação com os demais. A afetividade humana requer aprendizagem para evitar extremos: o de quem nega o valor dos afetos e os silencia tal como se não existissem, e age friamente só pela razão; ou o de quem converte o impulso afetivo na única instância de decisão e de ação. Esses dois casos revelam fragilidades que desembocam ou na rigidez e inflexibilidade ou na desorientação de quem muda continuamente de rumo, porque se deixa levar unicamente pela percepção imediata dos sentimentos. Por isso, o fleumático – e o amorfo – deve criar sentimentos para compreender os demais e ter uma inteligência não alheia aos sentimentos; precisa ser compreensivo com os defeitos alheios, não teoricamente, mas com detalhes concretos fundados no amor, na doação de si. Para não se isolar deve procurar atividades coletivas, participar das conversas, melhorar a sua relação com os demais…

        Para o fleumático ser mais sensível e vencer a indiferença e a frieza, deve ganhar virtudes como a sociabilidade, generosidade, misericórdia, espírito de serviço, benevolência. Despertar sua emotividade sem utilizar tentativas violentas ou forçadas. A vida de fé e a luta espiritual, além da boa literatura, oferecem a ele exemplos concretos de doação de si. Desenvolver o olhar estético para contemplar a beleza da natureza, que a princípio pouco lhe afeta, ajudará a despertar seus sentimentos e a ter mais sensibilidade para o que o cerca. Fomentar a que tenha dor pelos erros cometidos e saiba pedir perdão, e não ser indiferente ao desgosto que poderá ter causado. Precisa ser prevenido para não se deixar levar por automatismos, que o tornam meticuloso e cheio de manias.

        No próximo boletim analisaremos os dois últimos temperamentos: amorfo e apático.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base no livro “Guía práctica de caracterologia”, de José Gay Bochaca, Ediciones Internacionales Univertarias, Madri. Sugestão de leitura: “Conheça o seu filho”, de Anna Maria Costa, Editora Quadrante, São Paulo. Imagem de Pixabay.

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  • Emotividade: o colérico e o apaixonado

    Emotividade: o colérico e o apaixonado

    1 – Temperamento colérico. 2 – Temperamento apaixonado

    1 – Temperamento colérico

        O colérico é emotivo, ativo e primário (seus sentimentos o fazem reagir de modo imediato ao fato que os provocou). Costuma ser trabalhador, serviçal e sociável. Esquece logo as ofensas. Tende a ser alegre, otimista e muito entusiasta. Bem-humorado, sabe brincar com as pessoas, sendo por vezes grosseiro. É simpático, e sem complexos. Decidido, prático, inventivo e fácil de palavra, é capaz de concentrar-se intensamente para afrontar alguma urgência. Generoso, entrega-se de imediato à ação, cumpre eficazmente as ordens. Empreendedor e audaz, sempre busca impressões novas. Costuma ser capacitado para os negócios. Bom camarada, adianta-se às necessidades dos companheiros e logo influencia o seu grupo, criando um ambiente amigável onde participa com gosto nos trabalhos em equipe. Está disposto tanto para o melhor como para o pior: prestar um serviço com total entrega, principalmente se colaborou para a decisão, ou armar um alvoroço. Costuma ser caritativo com os enfermos.

        Defeitos dos coléricos: a impulsividade pode torná-los violentos, pois alteram-se facilmente de ânimo, com momentos de afetos ou de bruscas violências. Impacientes, costumam agir sem pensar muito, tendem à improvisação, à superficialidade e à precipitação, apesar de se acharem seguro em seus juízos. Gostam de viver intensamente e se inclinam a satisfazer os prazeres da gula e outros. Ambiciosos, amantes da popularidade, das aparências, são aventureiros e buscam atividades que lhe proporcionam satisfação, mesmo que não sejam as melhores. Imediatistas, querem saber de tudo, sonham com tudo, sem decidir-se por nada. Desejam vagamente, mas nada escolhem. O círculo familiar lhes parece estreito, e desejam mais liberdade, independência. Preferem estar na rua e realizar alguma atividade, e não no lugar de trabalho ou em casa. A rapidez intelectual deles está ligada à instabilidade emotiva e aos seus arrebatamentos. Cambiantes, distraem-se com facilidade. Caso venham a mentir, não o fazem para enganar, mas para colorir a conversação. Não sabem sintetizar. Sem refletir, comprometem-se facilmente, e depois não cumprem todas as promessas. Sensíveis ao que lhe dizem, custa-lhes ser humilde e tendem mais a falar do que a fazer, e com isso podem chegar a ser falsos. Não respeitam muito o silêncio em ambientes onde é exigido, e lhes custa seguir regulamentos ou regras. Quando crianças, colecionam de tudo, costumam ser agitados, turbulentos, instáveis; a puberdade é sofrida, e ofendem com o excesso de rebeldias e insubordinações frequentes.

        Modos de tratar os coléricos: ajudá-los a conter seus entusiasmos, a dominar a primariedade e a ter objetivos de ordem superior que os entusiasmem alcançar. Ensiná-los a refletir sobre o motivo ou finalidade da ação que irão realizar. Devem saber que, sendo a atividade improvisada e dispersiva a dominante deles, devem para fomentar as virtudes contrárias: prudência, constância, temperança. Educá-los não no abstrato, mas no concreto, no modo de fazer as coisas. Incentivá-los em seus êxitos anima-os a perseverar naquilo que começou. Sendo sinceros e predispostos à ação, necessitam de orientação humana e espiritual. Não são críticos, e ficam felizes quando relatam seus problemas e confiam nas orientações que lhe são dadas. Deixam-se levar pelas boas ideias, mesmo que não sejam deles. Não educá-los com autoritarismos ou palavras violentas, ou que lhes imponham temores, pois perderão as energias da qual estão dotados, e que devem ser bem aproveitadas. Precisam ter domínio de si, e se darem conta de que a extroversão leva-os à dispersão. Praticar esportes os ajudam a dar vasão ao seu ímpeto de atuar. É preciso fazê-los compreender que as regras de convivências são necessárias e importantes. Integrá-los no ambiente escolar evita a insubordinação. Se adolescentes, ajudá-los a organizar o estudo e os encargos para o bom andamento do lar. Começam bem as coisas, mas precisam renovar o ânimo para conclui-las. Estar atento aos amigos, pois são influenciados por eles: os bons amigos os ajudam a não interessarem-se apenas pelo que gostam.

    2 – Temperamento apaixonado

        O apaixonado é emotivo, ativo e secundário (seus sentimentos o fazem reagir não de forma imediata, mas posteriormente ao fato que os provocou). Costuma possuir boas qualidades: constância, capacidade de decidir e de chefiar, rapidez na ação. É organizador, enérgico, constante e supera os obstáculos para alcançar suas metas. Capaz de grandes ideais, é dominado pela obra que deseja levar a cabo. Aproveita bem o tempo e nunca está ocioso. Não costuma ser preguiçoso, nem se entregar aos prazeres dos sentidos. Tem profundo sentido religioso.

        Defeitos dos apaixonados: costumam ser independentes, impulsivos e podem chegar a ser violentos. Suscetíveis, isolam-se. Quando se propõem a servir seus interesses, podem ser orgulhosos e ambiciosos. Radicais, autoritários, muitas vezes são irreconciliáveis. Sombrios, custa-lhes trabalhar em equipe, e preferem agir sozinhos. Algumas vezes caem na crítica aos demais. São contrários a esportes e excursões, que sentem como perdas de tempo. Alguns são introvertidos, com tendência a viver sob a influência do passado.

        Há dois tipos de apaixonados: reflexivo e acentuado, com fundos comuns: violência, ação decidida, sentido prático, visão ampla, independência, capacidade de observação, boa memória, ausência de vaidade. Porém, há diferenças entre eles:

        1) Apaixonado reflexivo: não costuma ser muito emotivo. Não é severo ou sombrio, nem ensimesmado. De caráter conciliador, tolerante, sua paciência é média. Com impulsividade pouco acentuada, sabe dominar-se. Aberto às novidades, interessa-se pelas coisas, pessoas e acontecimentos. Aprecia a leitura de livros de científicos. Demonstra ternura e fortes sentimentos familiares. É perseverante naquilo que se propõe a realizar. Se acredita que sua causa é justa, age de modo obstinado. Quando estudante, entrega-se às tarefas escolares e a jogos complicados e inteligentes, sendo o aluno que menos problemas apresenta aos pais e professores; e alcança boa maturidade entre os 13 e 14 anos.

        2) Apaixonado acentuado: é severo, sombrio, ensimesmado, isolado, muito impulsivo e impaciente. Sendo suscetível e crítico, chega a ser intolerante, dominador e encerrado em suas ideias. Quando estudante, poderá apresentar problemas educativos difíceis. Na adolescência pensará longamente sobre as injustiças que acredita ter sido vítima, sendo necessário criar ao entorno dele um ambiente aberto, acolhedor e otimista. Habituá-lo a conhecer os limites a que deve sujeitar-se, e não permitir que faça o que não é correto. Proporcionar-lhe um ambiente agradável, utilizando uma autoridade afetuosa. Há dois tipos de apaixonados acentuados: 1) Melancólico, que é meditativo, rancoroso, suscetível, exato, constante e apaixonado pela leitura séria. 2) Impetuoso, com forte emotividade e intensa atividade, tem aparência de colérico. Pode chegar a ser antipático. Se pouco dotado de inteligência, não aceitará seus fracassos e procurará compensar isso com excessivos trabalhos ou impondo sua autoridade aos demais.

        Modos de tratar os apaixonados: necessitam de um guia e esperam muito dele, e as conversas devem ser profundas. Como são bons observadores, fixarão em todos os detalhes do seu tutor, que deverá ser competente, amigo, compreensivo e inspirar-lhes confiança. Sendo muito exigentes, poderão manifestar diretamente seu juízo sobre o tutor. Por serem muito emotivos, o tutor não deve dizer-lhes palavras humilhantes ou ásperas, nem utilizar sarcasmos e ironias, pois desalentarão e irão feri-los profundamente. Devem, os apaixonados, mostrarem-se como são, sem esconder o que não fizeram bem, pois o tutor precisa conhecer suas inclinações egocêntricas ou altruístas, sociais ou intelectuais. Aos apaixonados reflexivos, ajudá-los com bons argumentos a que ganhem gosto pelas artes (literatura, música, cultura, poesia, pintura…), e que passem a agir sob os ditames da razão e não dos sentimentos; e que adotem valores ou modelos de conduta baseados na generosidade e na sociabilidade (por exemplo, trabalhar em equipe), pois a tendência deles é isolar-se. Já os apaixonados acentuados necessitam de uma sólida direção, mas nunca incompreensiva ou brutal, mas fazendo-os perceber que são compreendidos e que se quer ajudá-los: falar-lhes amigavelmente ao coração para persuadi-los, e deixá-los refletir e falar sobre suas objeções, sem nunca empregar com eles a burla; acostumá-los a meditar sobre seus atos, utilizando argumentos razoáveis, e mostrar-lhes claramente os problemas para que se habituem a raciocinar profundamente. Ao pensar que o esporte e excursões são perdas de tempo, é preciso ajudá-los a compreender que descansar é um modo de voltar ao trabalho com forças renovadas.

        No próximo boletim analisaremos os temperamentos sanguíneo e fleumático.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base no livro “Guía práctica de caracterologia”, de José Gay Bochaca, Ediciones Internacionales Univertarias, Madri. Sugestão de leitura: “Conheça o seu filho”, de Anna Maria Costa, Editora Quadrante, São Paulo. Imagem de Pixabay.

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  • Emotividade: o nervoso e o sentimental

    Emotividade: o nervoso e o sentimental

    1 – Os diferentes caracteres. 2 – Temperamento nervoso. 3 – Temperamento sentimental

    1 – Os diferentes caracteres

        Os diferentes caracteres temperamentais do ser humano compõem-se dos seguintes traços: emotividade (ou não-emotividade), atividade (ou não-atividade) e ressonância (primariedade ou secundariedade).

        Temperamento emotivo: todo ser humano possui a capacidade de comover-se, sendo que a maioria das pessoas reage subjetivamente de modo proporcional à provocação externa, porém o emotivo se comove mais facilmente que a média dos indivíduos.

        Temperamento ativo: não tem nada a ver com o ativismo ou movimento contínuo de pessoas impulsivas ou nervosas (isso é apenas atividade aparente). Ser ativo não significa tanto trabalhar, agitar-se, mover-se, mas em ser espontaneamente conduzido a agir para satisfazer sua necessidade natural de estar sempre fazendo algo.

        Ressonância: entende-se por ressonância a repercussão que as impressões causam no ânimo de cada um: se as impressões têm efeito imediato sobre a conduta, a ressonância é primária; se influem posteriormente é secundária.

        As características abaixo apresentadas são apenas indicativas de certo predomínio de alguns traços temperamentais, pois todos participam de alguma maneira de alguma das características que compõem os diferentes caracteres: o seja, podem não ocorrer todos na mesma pessoa. Para melhor compreensão dos caracteres temperamentais, sugerimos a leitura do boletim Emotividade: Características.

    2 – Temperamento nervoso

        Características do temperamento nervoso: é emotivo, não-ativo e primário. Extrovertido e desordenado, inclina-se à falta de objetividade. Tende a entusiasmar-se com facilidade e a construir grandes projetos, mas é inconstante e logo os abandona. Foge da solidão, gosta de mudanças, novidades e divertimentos. É suscetível e propenso ao exagero e pode mentir para enfeitar a realidade. Vaidoso, aprecia estar em primeiro plano e a ser simpático para ficar bem. É egocêntrico. A teimosia é manifestação típica da impulsividade. Costuma ser pouco submisso. Sendo impulsivo toma decisões precipitadas, sem medir as consequências. É inconstante nos seus interesses e simpatias. Facilmente cai na crítica a outras pessoas (professores, educadores…).

        Traços positivos do temperamento nervoso: é generoso, delicado, alegre. Costuma ser simpático nas conversas e pendente das demais pessoas. É otimista, facilmente influenciável e tende a imitar as pessoas às quais admira. Costuma ser tenaz na execução daquilo que aprecia.

        Modos de tratar o nervoso: precisa de educadores francos e pacientes para aguardar a que recupere a calma, a fim de lhe fazer ver que a falta de domínio próprio é uma fraqueza. Procurar que tenha calma, e evitar-lhe a excitação. A severidade excessiva, repreensões e críticas não o educam, antes o levam a protestar, tornando-se necessário corrigi-lo com delicadeza e falar com calma para evitar-lhe motivos de irritação e violência. Sendo influenciável, é importante o bom exemplo dos pais, amigos e educadores. Não alimentar seus muitos projetos, mas que se atenha a um único objetivo de cada vez, e persevere nele até a consecução final. Afastá-lo das falsas manias de originalidade, que o levam a assumir atitudes teatrais, e estimulá-lo a ter uma individualidade autêntica, refletida. Não ceder às suas raivas e fazer com que ganhe consciência delas, mas com tranquilidade, sem ironias e castigos. Cercar-lhe de um ambiente sem concessões, mas sem severidades. Demonstrar-lhe seus caprichos com poucas palavras e calmamente. Porque tende a ser egocêntrico e a falar de si sem cessar, mudar-lhe o foco para fixar-se nos demais. Sendo impulsivo e por decidir de modo precipitado, é necessário ajudá-lo a ver tudo o que está em jogo nas atitudes irrefletidas.

        Se adolescente, explicar esse seu defeito de caráter e estimulá-lo ao domínio próprio. Ensiná-lo a ver as coisas em perspectiva ampla, e a valorizar o pensamento abstrato. Sua força motriz pode ser dominada pela prática esportiva não violenta, pelos trabalhos manuais e encargos materiais no lar. Estimulá-lo a ter horário e a não deixar as coisas para o dia seguinte. Deve estar sempre ocupado, e a família pode ajudá-lo nisso com jogos de inteligência, tarefas para o bom andamento do lar, visitas a exposições e museus… Deve cuidar de não deixar solta a imaginação. A escola com sua regularidade de obrigações ajuda-o a dominar seu temperamento.

    3 – Temperamento sentimental

        Características do temperamento sentimental: é emotivo, inativo e secundário. Fechado, tímido e introvertido, tende à solidão, a fugir da convivência com os demais e a vida em grupo. Sua introversão leva-o a ser egoísta e a pensar muito em si mesmo. Se acentuada, a introversão leva-o ao menosprezo pelos demais e à falta de sociabilidade. Suscetível e vulnerável, desconfia dos demais. Meditativo, raciocina com honestidade, mas caoticamente. Falta-lhe senso prático. É imaginativo, mas como fuga mental. Sua inatividade leva-o a fugir da ação, e sua afetividade o faz temer as consequências da ação, tornando-o indeciso e escrupuloso. Mostra-se descontente de si próprio e pouco preocupado com seu aspecto exterior. É inclinado à melancolia, ao pessimismo e a ver as coisas pelo lado trágico. Opta pelas coisas costumeiras e não aprecia mudanças ou novidades. Prefere viver de lembranças e conservar tristezas e felicidades da infância, e integra as novas experiências às já enraizadas. Sua mudança de humor é lenta e duradora. Pouca inclinação pelas ciências exatas. Predisposto às enfermidades psíquicas.

        Aspectos positivos do sentimental: sua afetividade e sensibilidade são ricas. É honesto e sincero. Costuma ser delicado e constante nos afetos. Aprecia a solidão e o silêncio. Está sempre disposto a compreender os demais. Seu olhar é sincero e reservado, e sua conversação é escassa e dócil. Delicado e reservado, costuma não ter problemas de convivência. É pertinaz. Descobrir as atividades que lhe interessam: passeios, excursões, colecionismo, jogos de inteligência, trabalhos artísticos.

        Modos de tratar o sentimental: que tenha e se interesse por um ambiente familiar afetivo e acolhedor para não se isolar. Precisa de uma vida regular, calma. Evitar as situações que possam feri-lo, pois sendo dócil e sensível, uma simples repreensão dada com pouca oportunidade e indelicadeza pode feri-lo profundamente. Não humilhá-lo, pois isso o fará depreciar a si mesmo e a cultivar rancor pelo ofensor. Mostrar-lhe com discrição as faltas cometidas para facilitar a que se desculpe. Na adolescência, tende ao dogmatismo e à utopia, sendo necessário revelar-lhe essas atitudes para que as reconheça e se corrija. Ajudá-lo a esquecer e aceitar os fatos desagradáveis sem exasperar-se. Elogiar seus êxitos e não sublinhar suas fraquezas, e propor-lhe metas, uma após a outra, sem deixar que julgue graves seus insucessos, ou que se esconda no “não vale a pena”. Infundir-lhe constantemente confiança e coragem. Para vencer a melancolia, a tendência à inatividade e para livra-lo de manias, não deixá-lo ocioso, mas ganhar hábitos de trabalho e de aproveitamento do tempo, preenchendo o dia com atividades úteis e concretas. E para aumentar sua atividade, mostrar-lhe um fim a que deve aspirar. Descobrir coisas que possam interessá-lo. Não combater diretamente a introversão, mas sim o gosto pela solidão, pelo isolar-se e a viver do passado: que se dê conta do bom que é ajudar as pessoas, participar de atividades em grupo, trabalhar e jogar em equipes. Procurar ser amigo dele, pois necessita de alguém que o compreenda. Devido à sua intranquilidade, necessita do afeto firme e estável dos que o rodeiam. Ao necessitar muito de orientação humana e espiritual, mostrar-se receptivo e com tempo para ouvi-lo. Orientar sua vaga religiosidade para uma religião autêntica, que crie compromissos.

        No próximo boletim analisaremos os temperamentos colérico e apaixonado. T

    Texto adaptado por Ari Esteves com base no livro “Guía práctica de caracterologia”, de José Gay Bochaca, Ediciones Internacionales Univertarias, Madri. Sugestão de leitura: “Conheça o seu filho”, de Anna Maria Costa, Editora Quadrante, São Paulo. Imagem de Pixabay.

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  • Emotividade: Características

    Emotividade: Características

    1 – A emotividade. 2. Atividade. 3 – Inatividade. 4 – Ressonância. 5 – Quadro caracterológico

    1 – A emotividade

        Para muitos autores os caracteres temperamentais do ser humano compõem-se pela emotividade (ou não-emotividade), atividade (ou não-atividade) e ressonância (primariedade ou secundariedade). Todo ser humano possui a capacidade de comover-se, sendo que a maioria das pessoas reage subjetivamente de modo proporcional à provocação externa, porém o emotivo se comove mais facilmente que a média dos indivíduos.

        Por emotividade entende-se a intensidade da comoção afetiva ou sentimental que determinado acontecimento externo causa na subjetividade de alguém. No emotivo ocorre uma desproporção entre a importância objetiva de um fato e o impacto subjetivo nele causado: diante do mesmo acontecimento sua reação será intensa; e ao não-emotivo pouco afetará. A pessoa com predominância emotiva tende a comover-se e agitar-se por coisas que depois perceberá que exagerou na reação. Na emotividade há liberação de certa quantidade de energia orgânica, que se manifesta corporal e psicologicamente pela comoção que os acontecimentos produzem na pessoa. Quando se diz que um temperamento é não-emotivo, por exemplo, não se afirma que careça dos demais traços, mas que os possui em grau inferior, enquanto a não-emotividade predomina sobre os demais.

        Manifestações corporais da emotividade: facilidade para rir ou chorar, enrubescer ou empalidecer; humor variável: o comportamento altera-se bruscamente, indo da excitação ao abatimento; é impressionável; irrita-se com facilidade; inquieto; tom de voz forte e alterado; turba-se diante de um efeito surpresa; movimentos do corpo carregados de expressividade (aperto de mão efusivo, tom de voz, etc.).

    Manifestações psicológicas da emotividade: ansiedade injustificada e desproporcional ao fato que a provocou; pode adotar atitude violenta; facilidade para o exagero; tendência a condoer-se e sintonizar-se com os sentimentos de dor ou alegria dos demais; utiliza palavras exageradas (superlativismo); tendência a falar dos demais; sensibilidade extrema às burlas; não gosta de espetáculos violentos; inteligência intuitiva e imaginação concreta; rechaça as abstrações; adere por inteiro e intensamente a qualquer projeto que o arrasta, e fica penetrado de emoção.

    2 – Atividade

        O temperamento ativo não tem nada a ver com o ativismo ou movimento contínuo de pessoas impulsivas ou nervosas (isso é apenas atividade aparente). Ser ativo não significa tanto trabalhar, agitar-se, mover-se, mas em ser espontaneamente conduzido a agir para satisfazer essa necessidade, que lhe natural. O ativo age e trabalha mais pelo gosto da atividade do que pelo resultado. Frente a um obstáculo é empurrado instintivamente a aumentar sua capacidade de ação para superá-lo. Está sempre ocupado e aplicar-se rápida e desembaraçadamente ao trabalho, perseverando nele com tenacidade até cumprir os prazos estabelecidos.

    Efeitos da atividade sobre a vida psicológica: aptidão para investigar, aprender, realizar; sua inteligência aguçada diminui a influência da emotividade; é decidido e age rapidamente mesmo em questões difíceis; é otimista, criativo, apto para a matemática.

    3 – Inatividade

        O não-ativo ou inativo ao agir parece ir contra a própria vontade; queixa-se porque o impulso para fazer algo não vem de dentro, mas é impelido por circunstâncias externas. É inativa a pessoa que desanima diante de um obstáculo, e se faz acompanhar de um certo cansaço e lentidão no agir. Parece inclinada à preguiça, mas na verdade não é preguiça, e sim carência de energia e tendência a desanimar porque sente que não conseguirá alcançar o que pretende. O inativo descuida ou posterga suas responsabilidades, carece de vivacidade no trabalho e foge dos obstáculos. Efeitos psicológicos da inatividade: favorece a passividade do espírito, enfraquece a manifestação dos sentimentos, é escravo de hábitos, evita iniciativas que possam perturbar sua inatividade.

    4 – Ressonância

        Por ressonância entende-se a repercussão que as impressões têm sobre o ânimo de cada um. A ressonância está presente em todas as pessoas, mas de modo desigual: se as impressões têm efeito imediato sobre a conduta, a ressonância é primária; se influem posteriormente, a ressonância é secundária. Os primários reagem de forma rápida e contundente diante de ofensas ou contrariedades, mas logo esquecem o fato; são superficiais e inconstantes em seus projetos. A primariedade favorece a soltura e a rapidez de reação. Já os secundários, mais tranquilos, recebem as ofensas ou contrariedades calmamente, porém as guardam, cozinhando-as, dentro de si por mais tempo; vivem mais nas lembranças do passado do que no presente; são conservadores e prendem-se às rotinas porque temem as mudanças. A secundariedade favorece a inibição, a organização pessoal, e faz criar método de trabalho.

    5 – Quadro caracterológico

        Da combinação dos três elementos – emotividade (ou não-emotividade), atividade (ou não atividade) e ressonância (primária ou secundária), resultam diferentes tipos de temperamentos. O quadro abaixo é apenas um esquema, pois não se encontra o tipo perfeito, dada a complexidade do ser humano, a determinação de sua vontade em mudar, a educação recebida… Por exemplo, o amorfo, caso tenha vontade forte e espírito de luta, poderá mudar os traços que percebe deslustrar seu comportamento. Trata-se de um ponto de referência para autoavaliar-se e para conhecer os filhos ou os educandos, a fim de intervir com mais eficácia nos aspectos caracterológicos destoantes, pois todos temos a capacidade de nos corrigirmos para melhor, se a vontade for forte:

    • Emotivo – inativo – primário: Nervoso
    • Emotivo – inativo – secundário: Sentimental
    • Emotivo – ativo – primário: Colérico ou dinâmico
    • Emotivo – ativo – secundário: Apaixonado
    • Não emotivo – ativo – primário: Sanguíneo
    • Não emotivo – ativo – secundário: Fleumático
    • Não emotivo – inativo – primário: Amorfo
    • Não emotivo – inativo – secundário: Apático

        Conhecer as características de cada temperamento ajudará n formação pessoal e na educação comportamental de crianças, adolescentes e jovens. Nos próximos boletins veremos com mais detalhes os traços positivos e negativos que resultam das combinações apontadas acima, e o modo de atuar para a melhora de cada temperamento.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base no livro “Guía práctica de caracterologia”, de José Gay Bochaca, Ediciones Internacionales Univertarias, Madri; e “Conheça o seu filho”, de Anna Maria Costa, Editora Quadrante, e Imagem de Pixabay

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