Categoria: FAMÍLIA

  • Harmonia entre vontade e sentimentos

    Harmonia entre vontade e sentimentos

     1 – É imaturo quem se deixa guiar pela afetividade. 2 – O conhecimento superficial de si. 3 – Autocontrole: domínio da vontade sobre os afetos. 4 – A vontade fortalecida coloca os afetos nos eixos

    1 – É imaturo quem se deixa guiar pela afetividade

          Quando não se chega a alcançar a maturidade, a pessoa se deixa influenciar pela afetividade (sentimentos, emoções, paixões), que passa a orientar as ações, e não a decisão da vontade. Com isso, a pessoa consegue se sentir bem a curto prazo, pois faz o que lhe apetece afetivamente no momento. Isso produz prazer imediato aos sentidos (sensorial), mas logo vem a decepção ou chateação pelo dever não cumprido. Por vezes, para neutralizar esse sentimento de mal-estar, o imaturo volta a fazer coisas que lhe permitam sentir-se bem de imediato, e assim acaba caindo em círculo vicioso.

           O domínio da vontade sobre a afetividade também favorece o controle sobre as demais funções psíquicas: percepção, memória, imaginação e pensamento. No início, o exercício desse controle supõe tensão e cansaço, que a curto prazo pode ser desagradável; porém, a médio e a longo prazo, a vontade fortalecida conseguirá que a memória e a imaginação se concentrem naquilo que se está fazendo, e isso produzirá maior eficácia nas ações.

         A afetividade busca desfrutar a curto prazo daquilo que mais agrada, e por isso deve ser comandada pela razão e vontade, que buscam analisar, por meio da inteligência, os demais aspectos da realidade, o que não acontece com a sensibilidade, que busca só o que a agrada de imediato. Por exemplo, a paixão ou instinto de comer só busca a sua satisfação e pode levar o diabético a ingerir um pudim de limão; porém, a razão ao examinar outros aspectos, terá presente que a saúde é um bem maior do que o gosto instintivo, e indicará para a pessoa não comer o doce, a fim de evitar a alta dosagem de açúcar no sangue. As batalhas entre a afetividade e a vontade, quando ocorrerem, travam-se em muitos aspectos da vida psíquica. Os sentidos (ouvido, paladar, tato…) ao evitar o desagradável e buscar o agradável, excitante e divertido, o faz mesmo que isso não seja oportuno: leva a comer e a beber o que deveria ser evitado ou por em quantidades demasiadas; leva a ouvir o que agrada, mesmo que distraia das obrigações ou incomode aos demais, etc.

           A afetividade não deve ser reprimida ou anulada, mas submetida ao âmbito da inteligência, que é a capacidade reitora da pessoa humana: é a imagem do cavaleiro conduzindo o cavalo, e não ao contrário. No início será necessário enfrentar o choque entre a vontade e a afetividade: fazer o que não a agrada aos sentidos, ou não fazer o que os agrada, se isso representa uma desordem. Esse choque interno é acompanhado de algum desgosto que pode inclinar a balança para o lado da afetividade, já que para se livrar desse sentimento de desagrado a via mais rápida – e não a mais correta – será ceder em favor dos afetos e emoções, que impulsionam a escolher o que agrada de imediato.

    2 – O conhecimento superficial de si

           A maioria das pessoas tem um conhecimento superficial de si e acerca dos demais. A sociedade atual é qualificada de audiovisual e hedonista porque busca prioritariamente as sensações produzidas pelos sentidos, ao mesmo tempo que valoriza desmedidamente o corpo e a aparência física, ensina Fernando Sarráis1. Pessoas fascinadas pela maneira superficial de viver, pouco se interessam pela raiz de suas vivências interiores ou psicológicas, e por isso não são capazes de construir-se de uma maneira propriamente humana, madura, nem sabem valorizar seus aspectos interiores que, por serem mais ricos, podem oferecer muito mais: como utilizar bem um aparelho ao não saber como funciona? Ao conhecer o seu funcionamento, se desfruta mais com o seu uso.

           Perceber o que se sente em determinado momento é fácil, mas chegar a conhecer os motivos que levam a tais sentimentos não é tão fácil, pois exige conhecer o modo de ser psicológico, que tem várias camadas que podem encobrir as deficiências da personalidade. Deter-se apenas na análise superficial do comportamento é fácil, mas parcial: ter como causa de uma irritação o insulto recebido é fácil, porém, deve-se ir mais a fundo para saber se a afronta sofrida não terá como causa porque se é uma pessoa não grata por ser egoísta ou orgulhosa. O mesmo pode acontecer a quem se sente inferiorizado, pois a necessidade de ser valorizada pelos demais a faz ser muito suscetível a ponto de reagir de modo desproporcional diante de uma mínima desfeita.

           Todas as pessoas têm aspectos positivos e negativos, sejam de temperamento ou de caráter, e o desejo de melhorar, de transformar o negativo em positivo, torna a pessoa otimista, pronta para uma luta alegre e esportiva. Quem não teme identificar seus próprios defeitos, erros ou limitações é realista e chega a se conhecer com profundidade (a ausência de medo não distorce sua autoavaliação). O conhecimento realista de si vem acompanhado de um conhecimento realista do mundo, o que ajuda acertar na escolha dos meios necessários para alcançar as metas pessoais.

          Para conhecer-se com profundidade, um fator importante é gostar de si mesmo, e sentir-se valorizado não pela admiração que os demais tenham por si, mas pela própria dignidade da pessoa humana, que se fundamenta em ter sua alma criada por Deus, e pelo amor que Ele tem por cada filho seu. Ter um sadio amor a si leva a agradecer as próprias qualidades, recebidas gratuitamente de Deus, e a conhecer e a lutar contra os defeitos ou imperfeições do caráter ou do temperamento, sem nunca se sentir inferiorizado (a falta de amor a si leva a sentimentos de inferioridade). A estima de si é forte motivação para o autoconhecimento, que leva a se sentir seguro na luta por melhorar, porque se sabe aonde ir e aonde se quer chegar. O sadio amor a si impede conviver com as próprias falhas comportamentais, tal como não se quer conviver com bactérias nocivas dentro de si. Para conseguir que a afetividade não seja influenciada por sentimentos negativos que abafem a vontade, também é importante ter uma visão positiva de si, e saber rir das circunstâncias adversas, vendo nelas oportunidades de superação pessoal, pois tal atitude exerce influência favorável ao funcionamento da vontade.

    3 – Autocontrole: domínio da vontade sobre os afetos

          Em nossa época há grande interesse em conseguir uma boa aparência física, e se dá menos importância para conhecer o funcionamento dos aspectos psicológicos, a fim de que sejam maduros e sadios, razão essa de ocorrer tantas enfermidades psíquicas nas diferentes idades, inclusive na infância. Na sociedade atual, o sofrimento ou esforço não é malvisto para melhorar a performance esportiva, acadêmica ou profissional, porque é o preço a pagar pelo êxito no mundo exterior; mas não se vê com bons olhos o esforço interior para ser audaz, sincero, laborioso, casto, temperado, fiel. Porém, o desenvolvimento psicológico supõe esse esforço interior como condição para desenvolver as virtudes, necessárias para se conseguir o equilíbrio entre cabeça e coração (entre vontade e afetos): o mundo interior sendo mais rico que os aspectos exteriores, podem oferecer muito mais!

          Autocontrole é o domínio que a vontade exerce sobre as funções psíquicas e afetivas que influenciam o comportamento. Para consegui-lo é necessário um desenvolvimento suficiente da força de vontade, a que chamamos de virtude da fortaleza, que é conseguida pelo habitual treinamento de fazer o que deve ser feito, sendo isso determinado pela inteligência ou razão (no caso das crianças, pela inteligência de seus educadores). Querer fazer o que se deve ser feito é ato da vontade, e não dos sentimentos: querer é um ato da vontade ou do livre-arbítrio, e gostar é uma inclinação dos sentimentos (portanto, irracional). Por vezes, podemos não gostar do que deve ser feito, mas esse querer, sendo um ato da vontade, e esta é movida pelo amor (o amor é ato próprio da vontade), dá forças a ela para superar a falta de gosto dos sentimentos: uma mãe que levanta de madrugada para atender ao filho, o faz por amor − por um querer da vontade −, já que o gosto de seus sentimentos seria para continuar na cama.    

          No processo de aprendizado do autocontrole, também chamado de educação da afetividade, podem ocorrer três etapas:

        1ª) As crianças pequenas, porque nelas a afetividade é dominante, devem ser orientadas pelos pais.

        2ª) A etapa do equilíbrio entre afetividade e vontade na adolescência, porque essas duas potências interiores podem conflitar-se e fazer levar a uma vida dupla: agir com lógica e liberdade como se fosse adulto, ou agir sem lógica feito criança movida pelos sentimentos e emoções.

        3ª) Etapa das pessoas adultas e maduras, onde a afetividade e a vontade têm poucos conflitos, porque com frequência se age na direção do que é bom e correto. É a etapa da razão que move a vontade, e esta arrasta a afetividade atrás de si para apoiar a decisão.

    4 – A vontade fortalecida coloca os afetos nos eixos

           Nos momentos de conflito, e para superar a falta de gosto decorrente do enfrentamento entre a afetividade e a vontade, é necessário ter uma vontade forte para querer seguir o que a razão indica, e não o que determinam os afetos. Fortalece-se a vontade por meio de pequenos exercícios diários de domínio próprio: viver a ordem e a pontualidade para não ceder à comodidade da desordem, ao não abrir a geladeira fora de hora (controle dos instintos), ao colocar esforço para manter a atenção naquilo que se faz, ao cumprir uma disciplina diária (horário de dormir, de acordar e de refeições; pontualidade no trabalho, etc.). Esses pequenos vencimentos fazem não ceder imediatamente aos caprichos e comodidades, e com isso a força dos afetos diminuirá ou será canalizada para apoiar a vontade naquilo que é correto fazer.

    1Texto extraído e adaptado da obra “Maturidade Psicológica & Felicidade”, de Fernando Sarráis, Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2020, por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Desenho de Aguida Medeiros (@aguidamedeiro)

  • Educação comportamental dos adolescentes

    Educação comportamental dos adolescentes

    1 – Transmita carinho a seus filhos. 2 – Ensine-o a expressar seus sentimentos. 3 – Ajude seu filho a se abrir. 4 – Ensine seu filho a ser bem-humorado. 5 – Reforce a solidariedade. 6 – Estimule a criatividade de seus filhos. 7 – A importância da disciplina familiar.

    1 – Transmita carinho a seus filhos

            Desenvolver um bom relacionamento com seu filho adolescente é fundamental para a educação comportamental dele. Não basta querer aos filhos, mas é preciso que eles sintam isso! Abrace-o, beije-o à vontade. As crianças que desde pequenas recebem muito carinho de seus pais ganham segurança, desenvolvem uma mentalidade sã e enfrentam melhor as situações mais exigentes. Crianças que receberam poucas manifestações de carinho desenvolvem ansiedade e se sentem mais facilmente deslocadas em outros ambientes. Mas tenha presente que educar com carinho inclui saber exigir. Portanto, carinho e firmeza com os filhos é o caminho para uma educação assertiva.

    2 – Ensine-o a expressar seus sentimentos

        Os seres humanos se emocionam e necessitam transmitir suas emoções. Sentir tristeza ou alegria é algo que não deve ser dissimulado, pelo menos no ambiente familiar. Transmita a seus filhos suas emoções e facilite que eles façam o mesmo. A manifestação dos sentimentos deve ser proporcional àquilo que o desencadeou: nem muita vibração por algo pequeno ou irrelevante, nem frieza diante de algo relevante. Saber expressar os sentimentos é uma arte.

        Os adolescentes necessitam aprender a analisar o que sentem em determinados momentos, e como conduzir-se diante de sua própria afetividade. Os sentimentos não devem ser reitores das ações (esse papel cabe à inteligência e vontade), mas podem ajudar muito na consecução delas: quem faz algo com entusiasmo, faz melhor! Porém, não se deve fazer as coisas apenas quando se sente gosto ou prazer. É importante que os filhos vençam os sentimentos negativos diante do cumprimento de um dever (estudar, ajudar nos encargos do lar, dedicar mais tempo à leitura do que redes sociais, ensinar matemática ao irmão mais novo, manter ordenados os objetos pessoais, etc.). Ao agir assim adquirem um caráter reto e forte, tornam-se responsáveis e fortalecem a vontade para enfrentar atitudes de preguiça e comodismo reclamadas por tais sentimentos.

        Ao avaliar as causas ou origens dos sentimentos, os adolescentes passam a ter um conhecimento mais profundo da própria maneira de ser e dos hábitos adquiridos (bons ou maus). Essa reflexão, própria da consciência moral ou juízo prático, os levará a colocar os meios necessários para corrigir o que percebem ser um desvio de conduta. Assim, passarão a amar e querer o que é correto, e não o que é mais cômodo.

    3 – Ajude seu filho a se abrir

        Não espere que seus filhos se dirijam a você para contar tudo o que os preocupa ou acontece, pois é provável que não farão isso. A experiência de vida e o conhecimento acerca de cada filho permitirá que você conclua o resto ao fixar-se no modo como se expressam. Faça perguntas descontraídas, conte algo para eles, faça-os falar dos seus gostos. Se perceber que há “jacutinga nesse mato”, você poderá atuar a tempo, sem esperar que algum problema ganhe transcendência.

        Acostumar um filho a ter tudo de imediato e sem esforço é condená-lo a uma vida falsa e ao enfraquecimento do caráter e da vontade. Quando, um dia, ele perceber que sem sacrifício não se alcança ideais valiosos, e porque se sentirá fraco para enfrentar os desafios da vida, irá culpá-los por nunca terem recebido um “não” de vocês, pais.

        Os filhos necessitam sacrificar-se para ter as coisas; não devem ter tudo o que querem ou tudo que gostam, ainda que você possa comprar. E dependendo da idade deles (15, 16, 17 anos) devem ter a preocupação de ajudar economicamente nas despesas da casa, seja dando aulas particulares, fazendo “bicos” nas férias ou fins de semana…

    4 – Ensine seu filho a ser bem-humorado

        A melhor maneira de superar os estados de apatia é movendo-se, e o melhor modo de superar o mau-humor é o sorrir. Sorrir, ainda que não se tenha vontade, não é hipocrisia, mas esforço para tornar agradável a vida dos demais, e isso é uma grande virtude. O sorriso faz bem a todos: a quem ri e aos que estão ao seu redor. Quem aprende a rir de si mesmo, aprende a tirar importância dos problemas e a não ser tão afetado por eles. O sentido de humor é importante na família: o riso e o humor familiar reforçam as relações, aumentam a confiança e a comunicação entre todos (pais que vivem reclamando azedam o caráter dos filhos).

        Reforce o otimismo de seus filhos não à custa de especular sobre possibilidade de motivações extrínsecas (ter objetos), mas ao fomentar motivações transcendentes: colocar suas qualidades − que recebeu gratuitamente de Deus − ao serviço dos demais.

    5 – Reforce a solidariedade

        Mostre sua satisfação ao observar que seu filho teve uma atitude compreensiva em relação a outra pessoa; e manifeste sua desaprovação se ele foi insensível, indelicado. A solidariedade é a capacidade de compreender o sofrimento dos demais, e agir para minimizar essas dores. Para que os filhos abandonem hábitos egoístas (meu tempo, meus jogos, minhas coisas), devem aprender a doar ao visitar crianças em orfanatos ou comunidades pobres, e levar brinquedos que já não utilizam, mas que estejam em boas condições; podem levar, junto com outros amigos, uns doces aos anciãos de um asilo, e lá cantar ou tocar violão… A generosidade é virtude que torna feliz as pessoas, e o egoísmo é causa de tristezas. Filhos solidários aprendem a não reclamar diante das pequenas carências ou incomodidades.

    6 – Estimule a criatividade de seus filhos

        A criatividade atua como uma válvula de escape ao permitir que a pessoa coloque à prova suas capacidades. A criatividade nos faz estrear a resolução de problemas novos, permite a adaptação às mudanças e a reagir com mais sucesso diante dos problemas. Convide seus filhos a criar e elogie suas criações. Saiba que a criatividade deve estar dentro deles, e não em atitude de passividade diante de telas digitais. A criatividade deve ser estimulada desde a infância: a criança deve crie seus próprios brinquedos e jogos com embalagens simples e outros objetos caseiros: isso é mais útil do que ganhar carros ou bonecos que fazem tudo ao apertar um botão.

    7 – A importância da disciplina familiar

        O lar deve ser disciplinado, com horário certo para cada refeição, dormir e acordar. Com isso, aproveita-se melhor o tempo e se pode organizar para ler livros de literatura, estudar, ouvir música e enriquecer-se culturalmente antes de dormir. As refeições devem ser na mesa e com a televisão desligada, e não no sofá ou sala de estar. Ao menos em uma das refeições – almoço ou jantar – é importante que todos estejam presentes, e nesses trinta minutos de grata convivência, a conversa girará em torno dos pequenos fatos do dia a dia, favorecendo o diálogo familiar e o amor mútuo.

        Procure que em sua casa haja um local onde se possa estar tranquilo. Muitos vivem em cidades ruidosas, e a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou que 20% dos problemas psiquiátricos ocorrem pelo excesso de barulho, que provoca insônia, irritabilidade, depressão, ansiedade, estresse, esgotamento, dores de cabeça.

        Não permita que sua casa se converta em uma prolongação da rua, nem que os aparelhos sonoros ocupem o protagonismo no lar, porque, além de afetar a saúde, impedem que haja maior trato mútuo entre pais e filhos, torna preguiçosa a mente de todos (ficar diante de telas não passa de uma atividade sensorial que discorre apenas no plano da visão, tal como água sobre a pedra); porém, a leitura de um bom livro instiga a imaginação e força o raciocínio ao transformar o que se leu em imagem mental, em conhecimento que não será esquecido. Leia o boletim Menos telas digitais e mais livros

    Sugerimos a leitura dos seguintes boletins: Como falar com seu filho adolescente e Ensinar o adolescente a trabalhar bem

    Texto elaborado por Ari Esteves, inspirado no artigo “Educar Adolescentes”, da Revista  Hacer Familia, no  63, de Ediciones Palabra, Madrid, Espanha. Desenho de Aguida Medeiros (@aguidamedeiro)

  • Investir em virtudes

    Investir em virtudes

    1 – O bem como aspiração da vontade e dos sentimentos. 2 – As tendências instintivas devem ser avaliadas pela inteligência. 3 – As virtudes regulam as tendências naturais. 4 – Ganha-se uma virtude repetindo pequenos atos. 5 – A influência das paixões sobre a inteligência e vontade. 6 – Luta esportiva para conseguir uma virtude

    1 – O bem como aspiração da vontade e dos sentimentos

        A pessoa virtuosa pensa e age bem: sua inteligência procura conhecer a verdade, e sua vontade quer essa verdade como um bem. O bem é objeto de aspiração não apenas da vontade, mas também dos sentimentos e paixões, que possuem tendências que se dirigem àquilo que sentem como um bem. Se a vontade tende ao bem conhecido pela razão (bem racional), e cada paixão ou instinto tende ao bem que o atrai (comida, descanso, música, leitura, etc), é bom ter presente que cada tendência instintiva pode não ser boa para a pessoa como um todo, e por isso os bens instintivos devem ser analisados pela inteligência. A inteligência tem várias concepções de bem, e cada instinto apenas uma.

    2 – As tendências instintivas devem ser avaliadas pela inteligência

        O bem das paixões ou afetividade não é racional, mas uma tendência que antes mesmo da pessoa pensar ou analisar se convém ou não tal afeto, já se sente inclinado a ele. Por exemplo, as tendências de descansar, comer ou beber podem desviar a pessoa de fazer algo que seria necessário realizar antes mesmo de aceitar a sugestão desses sentimentos.

       Portanto, os sentimentos ocorrem antes mesmo de serem analisemos. Por isso, imediatamente após um sentimento ou tendência, é necessário avaliar com a inteligência para saber se o bem instintivo proposto é conveniente ou não, porque podem afastar de compromissos mais importantes.

       A tendência instintiva de gostar de doces deve ser analisada pela inteligência ou juízo prático. Por quê? Porque a inteligência tem diversas concepções de bens, e cada paixão tem apenas uma concepção do que é melhor: para a tendência de comer só interessa esse bem; porém, a razão que analisa integralmente as necessidades da pessoa, examinará outros bens e concluirá que a saúde é um bem maior do que o gosto por doces, e assinalará ao diabético que não coma doces.

    3 – As virtudes regulam as tendências naturais

        As virtudes são assumidas como critérios racionais de regulação das tendências naturais, já que estas não devem ser satisfeitas de qualquer modo, pois poderiam deixar de ser um bem verdadeiro: comer é uma boa tendência, mas será necessário saber o que comer e quando comer, e quem possui a virtude da temperança conseguirá regular tal tendência.

        A boa eleição tem três atos: pensar bem, decidir e agir, porque é um hábito que depende de uma escolha ou eleição feita pela vontade, que deve seguir os juízos da inteligência prática (consciência), e não apenas ao que agrada aos sentidos. As virtudes ajudam a pessoa a pensar e fazer a boa escolha, e quando se ganha o hábito virtuoso, essa eleição é imediata, pois a pessoa quer e percebe imediatamente o que é bom, quase sem necessitar passar por todo processo de pensar, escolher e agir. A virtude não é um automatismo, mas uma decisão ou escolha.

    4 – Ganha-se uma virtude repetindo pequenos atos

        A boa eleição é um ato da vontade ajudada pela virtude. Toda eleição é motivada por uma intenção e eleição dos meios para alcançar o bem escolhido: quem tem a intenção de não engordar deve eleger os meios: não comer o terceiro pastel, não repetir o prato, não comer fora de hora… Não basta saber a teoria sobre determinada virtude, mas é preciso realizar pequenas e constantes ações em direção a ela. Um ato isolado como o de acordar no horário, mesmo que seja bom, não torna a pessoal pontual e laboriosa; o que a faz ganhar a virtude é acordar todos os dias no horário.

       Para se ganhar o hábito virtuoso de ser pontual, responsável, torna-se necessário acordar todos os dias no horário pré-estabelecido, e essa repetição de acordar no horário, sem conceder nenhum minuto a mais à preguiça, chama-se “minuto heroico”, e faz a pessoa ganhar também a virtude da fortaleza para vencer a preguiça.

       Cada pessoa necessita exercitar-se habitualmente nas virtudes que carece, com os atos correspondentes: atos de sinceridade, de paciência, de fortaleza, de bom humor… Obras é que são amores, e não apenas a boa vontade que não se concretiza em ações.

    5 – A influência das paixões sobre a inteligência e vontade

        Se faltam virtudes, a razão ou inteligência pode se deixar influenciar por sentimentos e paixões e não os avaliar bem, e a vontade, enfraquecida por uma inteligência que pensou de forma errada, não terá forças para corrigir tais desvios. Quando se está fortemente influenciado por algum gosto ou prazer sensível, a inteligência vê-se abafada, anulada, e a vontade se torna fraca para superar tal tendência. Daí vem a importância de adquirir virtudes, que fortalecem o hábito de pensar (inteligência) e de querer atuar bem por meio da vontade.

        Quando se diz que a virtude é um termo médio entre dois extremos, quer significar que ela não está nem na ausência, nem no excesso. Por exemplo, a fortaleza encontra-se no ponto médio entre a covardia (ausência de fortaleza) e o excesso (temeridade), que também é um defeito da fortaleza: atravessar uma pista de velocidade e com intenso tráfico de veículos não é fortaleza, mas temeridade, imprudência, desprezo por um bem maior que é a vida: se não há prudência não há virtude.

        Todas as virtudes estão conectadas. As quatro principais virtudes são: prudência, justiça, fortaleza e temperança, e em torno de cada uma delas giram todas as demais virtudes: sensatez, bom conselho, entre outras, são virtudes anexas à prudência; piedade, gratidão, veracidade, obediência e amizade são anexas da justiça; sobriedade, castidade, modéstia, humildade, entre outras, são anexas da temperança; paciência, magnanimidade, longanimidade, entre outras, são anexas da fortaleza. Sem a virtude da fortaleza, por exemplo, é difícil ser justo: Pilatos queria ser justo e não condenar Jesus Cristo, pois não via nele culpa alguma, mas por não ser forte e temer o povo, foi injusto ao entregar Cristo para ser flagelado e morto.

    6 – Luta esportiva para conseguir uma virtude

        Se cada um lutar para conseguir a virtude oposta ao vício ou defeito que o domina − e animar a outros a fazer o mesmo, seja um filho ou amigo −, se tornará uma pessoa melhor e melhorará também seu ambiente familiar, profissional e social.

        A luta por conquistar uma virtude não é triste, mas alegre, tal como a do esportista que procura a cada dia melhorar um pouco mais seus índices. O esportista nunca pensa em abandonar a luta, jogar a toalha: um dia perde e no outro vence, e assim vai melhorando.

       Mas é bom ter presente para si − e dizer a cada um −, que não se alcança uma virtude em duas semanas, mas em três meses, e à base de repetir pacientemente pequenos atos contrários ao defeito que pretende erradicar. Assim, se alguém falhar na luta um dia ou outro, não desanimará, pois terá presente que a conquista de uma virtude levará algum tempo. E assim, com paciência, se conquista a alma.

    Texto produzido por Ari Esteves para o Boletim Pedagogia do Comportamento (staging.ariesteves.com.br/). Imagem de Pixabay.

  • Ensinar a servir

    Ensinar a servir

    1 – Adolescentes precisam de argumentos convincentes. 2 – A idade dos ideais. 3 – Posturas ante a vida. 4 – Motivações dos adolescentes. 5 – Colaborar nas necessidades sociais. 6 – Revelar ao adolescente o sentido do amor humano.

    1 – Adolescentes precisam de argumentos convincentes

         Os pais por vezes estão imersos em grandes correrias familiares, profissionais e sociais e não percebem o quanto o ambiente age de modo negativo sobre os filhos. Ao não lerem, nem estudarem os assuntos atuais e polêmicos, não podem oferecer argumentos convincentes aos filhos. Muitos pais desconhecem o modo atual de dizer as coisas e o tom de voz a ser utilizado, já que não se pode falar de qualquer maneira com um adolescente: uma ordem dada de modo atravessado soa-lhes como provocação; uma resposta fraca e incompleta oferecida a eles, os fará buscar as razões com os amigos, por vezes bastante mal informados. É a idade! Também não se pode impor uma proibição sem oferecer com ela argumentos convincentes. Quando os motivos oferecidos a eles satisfazem a inteligência, já não é preciso temer que o ambiente os afete de modo danoso, porque saberão se impor, inclusive ajudarão os amigos e colegas aos esclarecer-lhes as verdadeiras razões do comportamento humano.

    2 – A idade dos ideais

         O adolescente com sua imaginação faz vasta sondagem sobre o futuro, examina e experimenta mil possibilidades; esquadrinha desejos, debate com os amigos e calibra a autenticidade dos valores que lhe inculcaram os adultos. Este novo período predispõe o adolescente para captar as razões das regras morais, os fundamentos dos valores que os animaram a assumir, incluído o religioso que antes era sustentado pelo emotivo, mas que agora necessita se fundamentar em razões mais profundas.

         A mediocridade é desprezada pelo adolescente, inclusive tem desapreço por si mesmo quando se vê medíocre. Por amar a coerência, manifesta rechaço por meio da gozação àqueles adultos com duas caras ou despersonalizados. Sua preocupação pelo futuro − rumos da pátria, destino do mundo, combate às injustiças, defesa dos mais fracos, desejos de realizar algo grandioso − pode desaparecer se vive imerso em ambiente egoísta e fechado em si mesmo, e tenderá a se refugiar no mundo aburguesado dos adultos que o cercam. Sonha em ser defensor ou libertador, mas se encontra em seu entorno um ambiente frívolo, facilmente abandonará as armas para viver na mediocridade, em mimetismo com um ambiente sem ideal. Se ele não encontra um meio de colaborar para o bem comum, a justiça e a paz, tudo ficará em meras utopias. Só o poder iluminador dos valores vividos em plenitude pela sua família e por ele tornará capaz de mover o adolescente a uma vida de generoso serviço aos demais.

    3 – Posturas ante a vida

         No período mais intelectual que é o da adolescência, o objetivo educativo que se propõe deve apoiar a predisposição natural do jovem por conhecer a essência e o fim de cada ser: sentido da vida humana, família, trabalho, liberdade, profissão… Nesse período o adolescente se vê na necessidade de ter uma postura ante a vida, de adotar sua própria escala de valores ou de aceitar a que propuseram seus pais em períodos anteriores.

         Aos seis anos inicia-se o desenvolvimento do pensamento lógico, a associação de ideias, e as razões que gradualmente vão se tornando mais abstratas até se transformar em pensamento analítico, com enfoque no mais imediato. Com isso, a educação da inteligência avança e se adapta à verdade.

         No período intelectual (15 a 18 anos), o adolescente necessita desenvolver o que se chama pensamento ontológico, que é aquele que investiga a natureza da realidade e da existência. O ontológico, do ponto de vista filosófico, aborda questões relacionadas ao ser. Não é casual que há séculos os jovens nestas idades se propõem sempre as mesmas questões; como não é casual que os primeiros princípios da filosofia devem ser ensinados na época do ensino médio.

    4 – Motivações dos adolescentes

         Com frequência o adolescente cai na tentação de ficar na eficácia externa, e se esquece da alegria que representa trabalhar por convicção, por valores transcendentes (que ultrapassam a si mesmo). Níveis de motivações que podem mover um adolescente:

    1. Motivação extrínseca (exterior): comer, vestir-se, ter muitas coisas materiais, se divertir. Este nível de motivação é primário, egoísta, transitório, e não suficiente para alcançar a verdadeira felicidade, que está no amor (o egoísmo encerra a pessoa na infelicidade, na inveja);

    2. Motivação intrínseca (interior): inclui o desejo de saber mais para apossar-se do mundo da cultura, da ciência ou da arte. Esta motivação é mais perfeita e duradora que a anterior, mas pode levar facilmente ao orgulho, ao envaidecimento diante das qualidades pessoais ao mostrar a sua própria valia e obter reconhecimento, sem perceber que suas habilidades foram dadas gratuitamente por Deus;

    3. Motivação transcendente: ultrapassa a própria pessoa, que quer doar-se aos demais. Esta motivação aperfeiçoa e fortalece a vontade porque a faz vivenciar o verdadeiro amor, que é doar-se àquilo onde vale a pena gastar a vida. Nesta motivação estão os sonhos dos jovens que querem mudar o mundo para melhor. Os motivos transcendentes plenificam com a verdadeira alegria. A felicidade que proporciona o ato virtuoso não se pode comparar jamais com a satisfação puramente sensível do “ter”, e nem sequer pelo prazer que proporciona o “saber fazer” ou o desfrutar do saber. Somente quem trabalha por convicções assentadas no amor, que é o mais alto valor, poderá realizar-se a si mesmo e conquistar a verdadeira felicidade ao dar um fim útil à própria liberdade.

         Uma menina de treze anos que tinha como encargo limpar a cozinha às tardes, comentava desanimada com sua preceptora que detestava fazer isso, e que preferia limpar a casa inteira a ter que limpar a cozinha. Porém, a mãe não cedia e a menina não entendia isso. A preceptora animou a menina a buscar motivos que a ajudassem a decidir-se pela cozinha, ao tentar fazer sua mãe contente, mas sem querer que a mãe cedesse ou trocasse seu encargo. Pediu que a menina refletisse que, além de deixar a mãe feliz, tivesse a certeza de que estaria se preparando para fazer coisas mais difíceis que certamente a vida lhe reservaria, e que oferecesse esse sacrifício por tantas pessoas que sofrem provas difíceis, doenças incuráveis… Tais argumentos foram decisivos e a menina percebeu que estava sendo egoísta e que faltava a ela a virtude da fortaleza para enfrentar situações que não a agradavam.

         Sempre será um motivo persuasivo o imperativo de fortalecer o próprio caráter, de crescer na humildade, de oferecer a Deus sacrifícios por amor aos demais, de participar no bem comum da família e da sociedade em que se vive… São motivos transcendentes que proporcionam grande alegria e ajudam a crescer em liberdade e maturidade.

    5 – Colaborar nas necessidades sociais

          Na vida de infância e na pré-adolescência prevalece fortemente o vivencial e o emotivo. Já os adolescentes para reafirmar sua autonomia e estrear a intimidade recém-descoberta, necessitam de esclarecimentos lógicos, breves, concretos e convincentes, ou seja: sem longos discursos, que detestam. Mover o adolescente para uma vida de serviço generoso será um desafio se na infância e na pré-adolescência isso não se concretizou.

       Os adolescentes são capazes de decidir seu destino, arriscando-se por algo que vale a pena! Animá-los a participar de tarefas que sejam ajuda aos demais, é um grande bem que se pode fazer a eles. As oportunidades que os pais têm para que os filhos sejam fortes e possam enfrentar a vida, está nas ações para o bem do próximo: visitar e prestar ajuda em asilos, orfanatos, comunidades carentes, enfermarias, etc.

         Os adolescentes que despertam para as necessidades sociais dificilmente se deixarão arrastar por frivolidades e caprichos, porque descobriram o valor de sua própria existência e não irão desperdiçá-la em planos mesquinhos. Criar oportunidades para os adolescentes participarem do bem comum se concretiza inicialmente nas pequenas ações frente às necessidades do meio em que vivem. Se fogem disso, ao abandonar seus bons desejos, perceberão um dia que poderiam ter mudado para melhor muitas situações injustas.

         No período da adolescência a inteligência reclama razões práticas aplicadas às realidades concretas e cotidianas que impulsionem a agir. Quantos pais de família se perguntam, angustiados, pelo método adequado para tirar seus filhos de uma vida cômoda, egoísta, a fim de que se abram às necessidades do próximo.

         Certo garoto semanalmente ia com seus amigos a uma ONG para ajudar os idosos lá internados. O ambiente que presenciaram inicialmente era triste. Porém, com o passar do tempo tudo foi se transformando: limparam, consertaram, semearam flores e árvores, pintaram a cozinha, ensinaram alguns idosos a jogar dominó e xadrez, e outros a ler e escrever; ajudaram a escrever cartas ou simplesmente os escutavam e os consolavam. Os garotos logo se deram conta de que a maior transformação ocorrida não foi a do local físico, mas a da alma deles, que se curou da vida frívola em que viviam.

         Quando a personalidade se fundamenta no amor, na preocupação pelos demais; quando se ensina a desprezar o supérfluo e a renunciar a uma vida cômoda, estéril, e a aproveitar melhor o tempo; quando se incentiva a ter motivos transcendentes e a não temer o esforço exigido pelos ideais mais altos, a opção por servir aos demais será uma consequência natural, como também a verdadeira felicidade que isso traz.

    6 – Revelar ao adolescente o sentido do amor humano

         O amor humano, como força que se orienta à vida, se abre ante nossos olhos como um mistério que revela e esconde ao mesmo tempo a profundidade e a riqueza do encontro entre duas pessoas. Pode-se dizer que o amor humano recria a vida por seu próprio dinamismo, em uma chamada superior que reclama a fecundidade e a fidelidade definitiva. Por isso, o verdadeiro amor só pode crescer no calor da família, e se mostra ao adolescente quando a união entre seu pai e sua mãe vai mais além do corporal e alcança o espírito, a alma, revelando toda a profundidade e a dignidade do encontro amoroso. Isso explica que o amor dos pais participa do mistério do amor divino, e flui em uma nova vida na qual se dilatam os corações de seus pais em um amor que se torna cada dia maior, não somente pelo prazer que o fecunda, mas pela vontade de amar e de doar-se a vida inteira.

         A grandeza do fiel amor conjugal ilumina a inteligência dos filhos para a compreensão do sentido verdadeiro da sexualidade humana. Trata-se de uma vocação à qual se orienta a existência e à qual se realiza um projeto definitivo, porque nele se descobre a missão pela qual vale a pena o sacrifício e a entrega, como um pacto formal do amor verdadeiro.

         Muitos jovens estão entediados por viver uma vida sem verdadeiros valores. Agem apenas em busca do prazer e com isso alteram o sentido da sexualidade e do amor, na etapa da vida em que a consciência reclama razões sólidas que permitam encontrar um modo de colocar as qualidades pessoais ao serviço dos demais. Preferem que o instinto rompa qualquer ideal de serviço que os faria verdadeiramente felizes.

         A sexualidade humana começa a ser despertada na adolescência. Mas é preciso ensinar a cada jovem que ela deve ocupar o quinto ou sexto lugar em sua vida, pois antes disso estão outros ideais: o estudo, aprender línguas ou um instrumento musical, direcionar-se para uma profissão, apoiar ONGs que cuidam de pessoas necessitadas, mergulhar nos clássicos da literatura para conhecer as profundezas da alma humana, penetrar no conhecimento da fé em Deus para tornar vida essa vivência e para ter respostas para si e para ajudar os amigos… O namoro não é um mero passatempo, pois quando é utilizado nesse sentido acaba sendo utilizado de má maneira. O namoro é o momento para conhecer melhor a pessoa com quem se pretende montar um projeto familiar. Porém, antes disso, é necessário solidificar a formação humana e espiritual para crescer em maturidade e fortalecer a personalidade.

         Na verdade, não se deveria falar de “educação sexual”, mas de “educação da afetividade”. A falsa “Educação sexual” desumaniza o amor e o substitui pelo comércio genital, pela busca de sensações que desembocam no prazer momentâneo. Pretende-se atar os jovens a uma corrente de sensações físicas, que inclui, além do sexo, o luxo, a velocidade, o conforto, o álcool, os tranquilizantes ou os excitantes, as grifes, as modas, a fim de manter neles um falso sentido de felicidade (artificial e passageiro).

         Na etapa vital da criança (0 a 6 anos) é preciso iniciar com clareza, e de acordo com a incipiente curiosidade infantil, que ainda não tem caráter libidinoso, as conversas sobre o verdadeiro sentido da sexualidade humana. Para isso, sugerimos ler o boletim Filhos: informação sexual, no site staging.ariesteves.com.br/boletins. A criança, desde muito pequena vai necessitando de informações à medida de sua capacidade de compreensão, e os pais não devem ter medo de dar essa necessária informação. Não se trata de falar a uma criança de 4 ou 5 anos do mesmo modo com que se deve falar a um adolescente, como bem explica o boletim acima citado. Quando chegar à adolescência, torna-se necessário oferecer razões mais profundas e definitivas a respeito da sexualidade humana.

    Texto adaptado e completado por Ari Esteves com base na obra “Para Educar Mejor”, de Maria Teresa Aldetre de Ramos, Colección Hacer Familia, Editorial Palabra, Espanha. Imagem de Katrin Bolovtsova.

  • Ensinar a querer

    Ensinar a querer

    1 – A educação integral da pessoa humana. 2 – Fortalecer o caráter. 3 – Desenvolver a sensibilidades dos 6 aos 11 anos. 4 – A dor e sofrimento educam. 5 – Desprender-se do supérfluo. 6 – A importância da família. 7 – Ensinar a viver o amor

    1 – A educação integral da pessoa humana

         A pessoa humana deve ser educada em sua totalidade, e não apenas no aspecto profissional, artístico, científico ou esportivo. Falar da educação do coração é falar da totalidade do homem (inteligência, vontade e afetos). No período de 6 a 11 anos há uma predisposição natural para deixar-se educar o coração, mais que em outras idades, sendo que esse ensinamento é base para o desenvolvimento posterior de capacidades diferentes para a realização de outras tarefas e compreensão de outras realidades: saber viver o sentido do amor, da família, do trabalho e da sexualidade (temas não abordados – ou mal abordados – nas escolas, mas vitais para a verdadeira felicidade da pessoa, e que competem aos pais como primeiros e principais educadores dos filhos). 

         Durante o processo educativo os pais devem ensinar aos filhos a querer, a servir e a pensar (estes dois últimos aspectos serão abordados nos próximos boletins). Ensinar a querer é ensinar a viver com fortaleza e com alegria as inevitáveis contrariedades da vida; é cultivar a finura e a sensibilidade ante a grandeza e a beleza; é deixar o coração se comover ante a dor alheia para que a vontade responda com generosidade, a fim de remediar as necessidades dos demais (ensinar o coração a condoer-se); é fazer notar que o trabalho ou tarefa é um serviço aos demais… A indiferença é hoje uma doença progressiva em nossa sociedade, que se constata na passividade e na apatia frente às dores dos demais: viver fechado no mundo pessoal leva ao egoísmo e este conduz à tristeza e ao embotamento da alma.

         Entre 6 e 11 anos a criança pode viver verdades e valores não como hábitos irrefletidos, mas por meio de sua vontade, quando educada, pois nela reside o querer livre e consciente. É o momento de iniciar a conscientização dos filhos de que não basta pensar no modo como ganharão dinheiro com a profissão que um dia escolherão, mas em ter uma vontade forte para que queiram o bem e não cedam ao mais fácil ou cômodo, nem temam assumir ideais grandes que exijam esforço para serem conquistados.

         Educar o coração e os afetos se consegue com uma vontade forte, que saiba querer. Para ensinar a colocar o coração naquilo que vale a pena, a criança precisa ser orientada, pois sua tendência é ir ao mais fácil e prazenteiro, é sentir-se bem mesmo fazendo o que não é bom (deixar seus brinquedos e roupas desordenadas, não ajudar nas tarefas do lar, comer a qualquer hora, não ter disciplina…).

         Se pode considerar o coração como o princípio não apenas localizado no órgão corporal do lado esquerdo do peito, mas em toda a sensibilidade da pessoa, que se vê afetada integralmente pelas realidades que a circundam. Na educação do coração é primordial compreender o sentido da dor, da contrariedade, do cansaço e da morte, que e o fim de todos.

    2 – Fortalecer o caráter

         Podemos afirmar que o caráter é para o coração o que os músculos são para o corpo. É óbvio que músculos flácidos não resistem a pesos, e se rompem. Assim se passa com o coração quando a vontade e fraca e o caráter é débil: se rompe ante as penas ou dificuldades. Muitas neuroses ou doenças de origem emocional procedem da falta de fortaleza ou debilidade de caráter. Dar ao filho tudo o que pede e evitar dizer um “não” a ele, e poupá-lo das exigências normais da vida é torná-lo débil de caráter, é despersonalizá-lo, é impedir que cresçam em espírito de serviço. Uma parte importante da educação para a dor e para o espírito de serviço apoia-se na virtude da fortaleza.

         Na estrutura da personalidade humana somente é possível educar para o serviço se, depois do autodomínio, sabemos forjar um coração forte, ordenado e que saiba amar. Compreender, perdoar, desculpar e corrigir os filhos a sós e com carinho, não impede a clareza da mensagem e o emprego de energia almofadada quando necessário, pois tais normas marcam definitivamente a etapa dos 6 aos 11 anos.

         O carinho que educa é oferecido sempre num marco de exigência e de serviço ao outro, e tem algo de divino que se manifesta no olhar, no gesto, na atitude festiva (o amor converte a vida em festa); na compreensão das fraquezas e defeitos, mas animando a corrigir-se; em saber prestigiar sem adular; é carinho ofertado a todos, mas que se manifesta como exclusivo para cada um.

    3 – Desenvolver a sensibilidades dos 6 aos 11 anos

         Não basta querer aos filhos: o ambiente de carinho que deve rodeá-los não elimina a exigência e a correção, quando necessárias. Não basta também que sejam instruídos em muitos saberes técnicos ou culturais: é preciso formar seu caráter. Aprender a querer está em pequenos detalhes como ter sempre as mãos limpas para não deixar marcas nos estofados, paredes e portas; é esforçar-se para deixar cada coisa em seu lugar e cuidar de não estragá-las com modos bruscos ou maus tratos; é ter detalhes de cortesia e bons modos com pessoas que não são da família; é jogar ou brincar sabendo sacrificar o resultado para conservar a unidade entre as pessoas; é evitar discussões e tentar compreender a razão dos outros; é ser agradecido, principalmente com Deus pelos dons recebidos…

         A sabedoria popular chama de “dureza de coração” ou “frialdade de sentimentos” a quem não manifesta um coração grande, magnânimo. A atmosfera que o lar deposita no coração da criança tem importância decisiva na formação da consciência dela. Frente a postura de dureza de coração cabe verificar o sentido que os pais dão à dor, pois a insensibilidade vai endurecendo o coração e perde-se o sentido purificador da solidariedade.

    4 – A dor e sofrimento educam

          A dor pode ser transformada em atitude de amor e de serviço. Aprende-se a sofrer, a amar, a servir e, concomitantemente, a ser feliz no lar, e desde o período de 6 a 11 anos, pois nele a criança desenvolve maior ressonância sensível.

         Todos estão de acordo com a definição não científica, mas de grande sentido comum, que com o coração sofremos e nos alegramos. Parece que a afetividade humana se reflete no coração, mais que em outras partes, e de modo diferente em cada pessoa. É fácil observar como duas pessoas são afetadas de maneira distinta diante do mesmo fato; nem sequer se pode dizer que a intensidade de um sofrimento pode ser causada pela privação ou importância de um bem. Em certa escola, um grupo de quatro meninas, entre seis e sete anos, perdeu o pai no período de poucos meses de diferença, sendo que as reações foram desiguais: uma delas se afetou de tal maneira que durante quase seis meses não pôde voltar ao colégio, pois tinha febre e vômitos causados pelo estado emocional; outra voltou a chupar o dedo como costume que há mais de dois anos tinha abandonado; outra aproveitou sua situação para chamar a atenção ao falar continuamente dos detalhes que rodearam o acontecimento; outra se tornou retraída, desajeitada e nervosa, surgindo dermatite em sua pele.

         Os acontecimentos, ainda que semelhantes, são rodeados de circunstâncias diversas que provocam dor cuja intensidade e resultado depende de cada pessoa. A dor é a resposta diante da perda de um bem devido à nossa natureza, mas cada ser humano sofre de maneira diferente. Se ante um pequeno acidente os pais reagem com serenidade, solucionando com naturalidade os problemas, as crianças compreendem que aquilo não tem grande importância. A fortaleza e a serenidade são ingredientes indispensáveis a pais e filhos para aprender a enfrentar e suportar a dor.

         A dor, a contrariedade e o cansaço assumidos na realização dos deveres se identificam com o amor e o espírito de serviço, e estes tornam possível aceitar aqueles, sem se deixar enganar ao substituí-los por compensações absurdas. Quando a dor é rechaçada, adotando-se ante ela uma postura insensível, procurando o analgésico ou deixando-se levar pelo desespero ou pela fuga, se rompe a unidade e a harmonia interior da pessoa, provocando um novo sofrimento. Nos pequenos casos apresentados a seguir nota-se o desejo desordenado de compensação ou fuga.

         Um menino de dez anos, depois de permanecer alguns meses na cama, engessado por todas as partes, o que provocou nele grandes feridas na pele, depois de curado se empenhava para que seus pais satisfizessem seus caprichos mais absurdos: ouvir música a todo volume até à meia noite, e se alguém se queixasse do incômodo o garoto exagerava com o que ele havia passado; exigia de seus pais gastos desproporcionados às suas possibilidades, argumentando que nada se comparava aos sacrifícios que ele havia sofrido; resistia a qualquer exigência, aludindo à injusta situação que viveu, considerando cruéis e culpando a todos os que não sofreram o que ele teve que aguentar, e a todos os que não estivessem dispostos a compensar o que ele havia sugerido.

         Uma menina de sete anos, cujo pai abandonou a família, viu sua mãe que, dedicada a resolver a situação econômica do lar, descuidou de preencher de sentido o sofrimento que causou na filha a fuga paterna. Enquanto isso, a menina encontrou na casa da avó um refúgio gratificante, pois esta, com pena da menina, a satisfazia com mimos e presentes. Com isso, a menina se tornou grosseira e desrespeitosa para com a mãe, e queria estar sempre na casa da avó. A mãe achava que essa reação da filha era consequência “normal” do que havia sofrido, e com falsa compaixão, sem perceber acabou mantendo o ressentimento da filha contra ela. A mãe deveria ensinar a menina a sofrer e a dar sentido à dor provocada pela injustiça que sofreu, e que já não seria possível remediar, pois assim a teria feito crescer em maturidade e misericórdia, que é uma meta alta que deve aspirar o coração humano. Fugir é ocupar-se de qualquer coisa que impeça estar consigo mesmo para não aceitar a dor.

         Existem fugas tão bobas que vão desde comer chocolates a toda hora, comer por comer, buscar uma diversão atrás da outra, ouvir rádio ou ver televisão indiscriminadamente, etc. Aceitar a dor, a contrariedade, o cansaço, a doença, a morte é aceitar a vida. Não há ninguém que possa mudar tais realidades: “da morte ninguém escapa, nem o pobre, nem o rei, nem o Papa”, disse Santa Terezinha. Falsificar a dor é colocar a pessoa a caminho de perder a saúde mental. Em troca, aceitá-la é dar sentido àquilo que é difícil, é transformá-la em amor purificador e redentor, e esse amor engrandece a alma e a salva.

    5 – Desprender-se do supérfluo

         Há sofrimentos não necessários, mas provocados pela frustração de muitos desejos inúteis que se despertam num coração desavisado e que se vê bombardeado de múltiplos estímulos sensíveis: muitos sofrimentos são evitáveis ao educar o coração para se desprender do supérfluo.

         Hoje é necessário ensinar as crianças a manter o coração desprendido de tantos bens supérfluos que são apresentados a todo momento e de forma atraente. A cada cinco minutos a publicidade digital descarrega inúmeras ofertas com o recado de que são “indispensáveis” para a nossa vida. As crianças são vítimas de modismos e grifes, e devem ser alertadas por seus pais sobre esse assédio consumista. Que aprendam a ser criativas ao inventar suas brincadeiras com embalagens e outros objetos simples, por exemplo. A imaginação da criança é mais rica que os produtos comerciais! O botão deve estar dentro das crianças, e não em aparelhos elétricos ou digitais.

    6 – A importância da família

         O homem tem por natureza uma estrutura familiar, e em seu âmbito psíquico-afetivo existe uma necessária ressonância que procede desse recinto vital que é o seu lar. A segurança emocional da pessoa procede principalmente da estabilidade da família. A unidade dos pais se projeta na identidade de cada filho. Pode-se dizer que uma criança tem tudo − mesmo que careça de muitas coisas materiais −, quando em seu lar exista uma unidade familiar fundamentada no carinho entre marido e mulher.

         Sem um lar verdadeiro, o homem se despersonaliza e se perde ao buscar sua identidade entre a massa. Chama a atenção ver como a moda é adotada de maneira mais intensa em jovens com famílias desestruturadas. Adolescentes que provém de famílias unidas, onde reina o carinho, manifestam uma personalidade mais definida e se apegam muito menos às imposições dos modismos e das grifes.

         Filhos que desde pequenos desempenharam tarefas no lar para o bem de toda a família, são impulsionados por motivos de amor porque percebem que servir é mais que um dever: é atitude de amor aos demais. Tal comportamento se manifesta também entre seus amigos da equipe esportiva, nas excursões, no ambiente escolar e de vizinhança, pois seu ânimo e alegria são evidentes e contagiosos.

         No lar se aprende a viver esses valores que dão calor à vida cotidiana e deixam marca na alma infantil. A fé, ilustrada com as narrativas bíblicas, transmite uma imagem luminosa que se imprime na alma da criança. Logo virá a etapa seguinte, onde o estudo dos temas relacionados à fé reforça na razão as convicções que agora se semeiam no coração. A força e o dramatismo da leitura de bons contos transmitem valores que despertam nas crianças desejos de heroísmo, de grandeza, de generosidade, de desprendimento, de magnanimidade, de ternura, de sacrifício…

    7 – Ensinar a viver o amor

         O amor e a dor se unem somente nas fronteiras da misericórdia. Seria absurdo pensar que a educação somente pode ocorrer no marco perfeito da família ideal. É preciso educar de modo a contar com a deterioração mais ou menos grande da saúde das pessoas com o passar do tempo: amar ao fraco é padecer com paciência a sua dor. Diante da deterioração do corpo de quem se ama, se buscam os mil meios para que seja curado, e não se despreza a pessoa pelas feridas que sofre, sejam físicas ou espirituais.

         Todo ser humano, por pior que seja sua conduta moral, terá capacidade de erguer sua vida, se sabe prender-se na mão que vem do alto e das mãos que o amor humano alarga como um ponto entre a miséria e grandeza. Este caminho somente decorre entre o oceano da misericórdia divina e o Céu da esperança. O homem tem que ser completo não apenas momento presente, mas em todas suas possibilidades de transcendência eterna. Não se deve centrar a atenção no pior momento da vida de alguém, como se não houvesse uma história na qual se pudessem destacar coisas boas entesouradas, ou como se não existisse um futuro com mil possibilidades para refazer-se.

         A misericórdia é tecida com fortaleza e paciência, com exigência e suavidade. Amar com um amor misericordioso é compadecer-se das misérias alheias, compreendendo e desculpando, sem se tornar cúmplice ou vítima em atitude doentia. O amor sabe suportar a dor presente e olhar o futuro com esperança e serenidade; o amor nos torna bons, nos impulsiona e eleva, nos purifica e renova.

         Quem na adolescência não aprende a lutar contra o egoísmo, dificilmente aprenderá a servir e a amar, pois a lógica consequência de um coração sensível ante a dor e a necessidade dos demais é o serviço.   Ensinar a viver o amor que se transforma em misericórdia é ensinar a esperar com otimismo; é buscar os remédios possíveis, humanos e sobrenaturais, para resgatar e elevar aquele que caiu.

         Mesmo antes da puberdade o coração deve ser exercitado na compreensão, no perdão e na alegria. Com a puberdade chega um novo período em que a solidariedade humana deve arraigar sobre o terreno bem preparado de um coração magnânimo, forte, e que seja capaz de vencer seu próprio egoísmo. Ninguém é capaz de servir se não foi treinado na fortaleza para resistir com paciência a dor e a contrariedade, encontrando nelas um sentido. Este período deve ser aproveitado para fazer a criança ver as necessidades e carências dos que a rodeiam; carências e necessidades que ela deve procurar remediar, umas vezes por estrita justiça e outras por caridade. A criança deverá encontrar neste período motivos sensíveis que a levem a servir.

         Ao final da etapa de 6 a 12 anos convirá insistir na ideia do dever como um requisito da justiça. No período sensitivo de 0 a 6 anos, os pais transmitiram suas atitudes e o sentido que dão à própria vida. Agora, antes da puberdade, a criança irá descobrir com mais força as vivências paternas, e saberá qual é a atitude que deve adotar ante as exigências de sua própria dignidade, ante a vida humana, ante a dor e a contrariedade, ante trabalho e o cansaço, ante o amor e a sexualidade humana, ante o mal e a injustiça, ante a doença e a morte.

         Se os pais vivem se queixando do trabalho, se realizam mal e às pressas suas tarefas, se buscam fugas ou compensações, se seus juízos são implacáveis para com as demais pessoas, se não sabem compreender e perdoar, se não sabem ver um aspecto positivo em situações mais duras, então não haverá teoria suficiente para educar o coração. Pais sensatos criam oportunidades para que seus filhos aprendam a servir, a fim de que gradualmente estes aumentem a capacidade de esforço e passem a agir aceitando livremente a responsabilidade, reconhecida como um dever de justiça ou de misericórdia. Ao chegar o período da juventude, quando foram bem aproveitadas a inclinação natural à justiça na adolescência, os jovens saberão lutar contra seu próprio egoísmo e realizarão grandes ideias de serviço aos demais.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base no livro “Para Educar Mejor”, de Maria Teresa Aldetre de Ramos, Colección Hacer Familia, Editorial Palabra, Espanha.

  • Para educar melhor

    Para educar melhor

    1 – Educar hoje: a presença ativa dos pais. 2 – Educar o coração, a vontade e a inteligência. 3 – Autodomínio e autonomia. 4 – A criança necessita de normas para se autodeterminar. 5 – Crianças caprichosas e tirânicas. 6 – A indisciplina torna a criança agressiva. 7 – O perigo das etiquetas negativas na criança.

    1 – Educar hoje: a presença ativa dos pais

         Atualmente é um desafio para a criança organizar ou harmonizar a quantidade de informações e estímulos sensoriais que recebe como matéria com a qual deve construir suas experiências. Por isso, hoje é mais urgente a presença ativa dos pais como árbitros insubstituíveis no complicado tráfico do mundo da imagem, que influencia a estrutura da personalidade nascente dos filhos.

         É impensável para pais que queiram educar hoje, deixar que os múltiplos produtos da tecnologia atuem ao acaso e sejam os protagonistas da educação de seus filhos, com tudo o que isto significa. Deixar as crianças em mãos de tabletes e celulares é abandoná-las a uma vida complexa, dispersiva, que as tornará incapazes de governar-se pela própria cabeça, desde a adolescência.

         Dar a cada filho a oportunidade de ser protagonista de sua própria história é favorecer um processo educativo consciente e responsável. Os pais precisam enfrentar a tarefa educativa com mentalidade profissional ao estabelecer um projeto com objetivos ordenados, coerentes e de acordo com as reais necessidades da natureza humana. É necessário oferecer aos filhos a oportunidade de estruturar harmoniosamente sua personalidade, e isso significa que os pais têm que dar oportunidade para que suas crianças cresçam em liberdade e na aceitação gradual de suas responsabilidades.

         A estrutura da personalidade se organiza mediante um processo crescente de responsabilização, no qual cada período é base para o seguinte. Educar a criança primeiramente em seus apetites vitais (comer, dormir, brincar, banhar-se, guardar seus objetos…), ajudando-a a autodominar-se ao criar situações ordenadas que deem oportunidades de crescer em autonomia, com o fim de adquirir hábitos de ordem e disciplina que permitam atuar bem com certa facilidade.

    2 – Educar o coração, a vontade e a inteligência

         Desde a primeira adolescência é preciso educar o coração da criança, que é ensinar a querer. Para isso, é necessário oferecer um ambiente de exigência e carinho, de sobriedade e fortaleza, cujo resultado será a aquisição de atitudes de solidariedade, de compreensão e misericórdia para com os que padecem necessidades espirituais ou físicas, tendo iniciativas para mitigar suas dores.

         Em seguida, é necessário educar a vontade, cujo objetivo é ensinar a servir, dando motivos valiosos que impulsionem a vontade a realizar o bem devido em justiça. O resultado será a compreensão de que além de diretos, temos obrigação de servir, que é a verdadeira forma de amar e de participar no bem comum da família e do ambiente social em que se participa.

         Por último, educar a inteligência, ensinando a pensar. Para isso, criar um ambiente que permita a criança conviver com a verdade, cujo resultado será adquirir postura definida perante a vida por meio de valores que norteiem a conduta. Educar o coração, a vontade e a inteligência já foi objeto de boletins anteriores (ver lista) e ainda serão temas para ouros.

         A vida da criança desde seu nascimento é um desafio que vai crescendo como oportunidade para o desenvolvimento dela. Desde o momento de seu nascimento, a criança estabelece uma relação vital com o meio que a rodeia. Isso quer dizer que toda sua percepção está relacionada com a sua própria vida, e não com o artificialismo das telas digitais. A criança recém-nascida responde somente aos estímulos referentes à luz, ruído, frio, umidade, calor corporal, dor física e alimento. Quando a criança durante os primeiros meses de vida se sente segura, acolhida e alimentada de forma ordenada e em ambiente sem estridências (sem a distração e o barulho da tv), estão se estabelecendo os alicerces de uma vida emocionalmente sadia.

    3 – Autodomínio e autonomia

         É uma necessidade para a criança fazer aquilo que consegue realizar, ultrapassar uma dificuldade que possa ser superada; e por fim, fazer aquilo que é um dever. O autodomínio na etapa vital da criança está relacionado diretamente com o que ela é capaz de realizar. Por esse motivo a maturidade da psicomotricidade e da linguagem desempenham um papel muito importante. A etapa vital da criança, durante os primeiros três anos de sua vida, supõe desenvolver uma série de habilidades e destrezas que requerem oportunidades disciplinadas, ordenadas no tempo, repetidas, projetadas dentro de um processo, integradas em sequência de dificuldade sempre crescente e possível de realizar:

         1a sequência: caminhar de mãos dadas; caminhar só, vacilantemente; caminhar só, com firmeza; caminhar e chutar uma bola de modo desequilibrado; caminhar e chutar uma bola de forma dirigida; correr; correr e chutar a bola; etc.

         2a sequência: mover a cabeça ao ritmo de uma canção; mover a cabeça e bater palmas no ritmo; mover a cabeça, bater palmas e mover o tronco ao ritmo; mover a cabeça, palmas, tronco e pés ao ritmo; mover a cabeça, palmas, tronco e pés ao ritmo de uma canção e mudando de lugar; etc…

         Estes exemplos, desenvolvidos na vida ordinária da criança, devem ser aplicados à linguagem, visão, movimento, equilíbrio, coordenação no tempo e no espaço, etc., em sequências de crescente dificuldade: comer, vestir-se, despir-se, limpar-se, classificar, ordenar, manipular, expressar, etc. Tais ações representam para as crianças uma oportunidade natural de desenvolvimento, sempre e quando se apresentem como atividades de forma ordenada e habitual; hábitos espontâneos na infância.

              A oportunidade natural que tem a criança de obter segurança em si própria, e ampliar sua autonomia, é por meio do domínio e da perícia que vai adquirindo sobre os objetos que a rodeiam. Com muita sabedoria afirmou a este respeito o professor Víctor García Hoz: “Toda substituição inecessária provoca uma limitação no desenvolvimento de quem a recebe”. Se a criança pode dormir sozinha, por que fazer depender de uma cadeira de balanço? Se pode segurar sozinha a mamadeira, por que alguém haverá que segurá-la? Se pode subir sozinha na cadeira ou no banco do automóvel, por que fazê-lo por ela? Deixar que a criança faça o que consegue é permitir que ela desenvolva sua autonomia.

            O autodomínio é a primeira manifestação da liberdade humana e o fundamento para crescer em responsabilidade. Ao não se ter aproveitado o período sensitivo de 0 a 6 anos, que permitiria à criança conseguir mais facilmente conquistar determinado hábitos bons, tornará mais árdua a tarefa no período seguinte. Os pais que falharam precisam reconhecer ante a criança o seu engano e, com carinho e exigência, restabelecer a ordem fora de seu período sensitivo para chegar a formar os bons hábitos correspondentes, que darão facilidade e satisfação para agir bem.

    4 – A criança necessita de normas para se autodeterminar

            A criança experimenta em seu interior uma imperiosa necessidade de normas, e deixá-la na falsa liberdade de viver conforme seus caprichos é como abandoná-la em uma imensa planície sem sinalização alguma que permita a encontrar o caminho certo. A criança necessita de um norte; necessita saber para onde seguir e quais são os pontos de referências que confirmam estar na rota certa. Disse Otto Durr em seu livro Educação na liberdade (Rialp, Madri 1971, p. 36): “A criança pequena exercita suas potências em uma viva e amorosa co-realização. A imitação e a habituação vão atadas à regra e à ordem, sem as quais a vontade infantil fica sem direção nem meta, limitando o processo de independência do ser humano”.

         Quando a criança apresenta patente resistência à obediência, por volta dos três anos, já se faz necessária a primeira argumentação dos bons motivos que devem orientá-la para se autodeterminar. A nascente vontade infantil deve ser sabiamente respeitada, mas não abandonada, e isso equivale ajudar a criança a descobrir os valores que servirão de motor de sua conduta.

         A criança deseja ser boa, ainda que às vezes afirme ou aja ao contrário. Fracassar na tentativa de ser bom, sobretudo no período da infância, produz na criança um sentimento de profunda insatisfação e sofrimento. Mesmo a criança com quem se estabeleceu uma relação consequente, apresenta o fenômeno chamado “da primeira idade da obstinação”: a criança que até então se mostrava submissa é agora capaz de resistir usando toda sua força, desafia a autoridade e se torna rebelde. “O eu próprio começa a ser descoberto ante o eu alheio”. Jaspers distingue quatro formas conscientes de descobrir o eu: 1) “Eu faço”, sensação de atividade; 2) “Eu sou”, consciência de simplicidade; 3) “Eu me identifico com minha história”; 4) “Eu sou diferente dos demais”. Nesse período de autoafirmação da personalidade é fundamental que os pais demonstrem claramente a aceitação da criança, sem deixar de rechaçar as condutas inadequadas: “Eu o amo, por isso desejo que você seja melhor”; “Se você for bom vai se sentir muito contente, e eu desejo que você seja bom porque quero que seja feliz”.

         A criança se sente bem quando se porta bem, e se sente mal quando se porta mal: essa vivência é universal porque a consciência do bem e do mal está impressa na natureza humana. A criança vai construindo sua própria história, e sua própria aceitação procederá de que seja boa ou que tenha esperança profunda de vir a sê-lo. Adquirir o hábito de realizar com perfeição o que deve ser feito em cada momento traz satisfação e faz adquirir virtudes.

         Com naturalidade a criança capta os valores mais transcendentes. Disse André Pietre em seu livro Carta aos Revolucionários bem pensantes (Rialp, Madri 1977, p. 15): “Quando uma mãe diz a seu filho: Não faça isto, é feio”, disse em cinco palavras o que o autor quis expressar em seu livro de cem páginas. O bem, a verdade, a beleza, a vida, a morte, o feio e o mau, se inserem na realidade da criança desde o incipiente descobrimento que ela vai fazendo de si. O contato com a realidade moral e o apreço por si, dependerá em grande parte da aprovação de sua própria consciência.

         Há pais que pretendem simplificar a consciência de seus filhos ao afirmar que não há nada de mau no comportamento deles, e esquecem que esse piloto interior, chamado “consciência”, se apresenta nesta etapa vital com uma pureza e autenticidade que, se não se cuida, deteriora-se para sempre, e deixa na alma da criança uma obscura perplexidade que a impedirá mais adiante de saber quem ela é, colocando em perigo o equilíbrio de sua vida psíquica.

    5 – Crianças caprichosas e tirânicas

            Em toda existência humana se apresenta uma “angústia vital” que faz crescer e amadurecer. Retirar da criança a oportunidade de ultrapassar por si mesma os pequenos apuros que surgem diante dela, é enfraquecer sua natureza. Quando uma criança é substituída de modo desordenado pelos pais e avós, que não permitem que ela passe nenhum tipo de desconforto, que coma no momento que desejar, que faça o que quiser, que não tenha regras nem horários, que vai dormir só quando está exausta e acorda na hora que quiser, essa criança converteu seu reinado em perfeita tirania, mesmo que apenas engatinhe. Os pais apenas dizem que é uma criança difícil, e os avós afirmam que nasceu para mandar porque sabe impor seus caprichos com atitudes de agressividade: chuta, morde, joga o que tem nas mãos e com seus berros vai tornando a vida de sua mãe muito difícil; e quando lhe oferecem algo para comer, não aceita, e depois a qualquer hora pede comida. Os pais, erradamente, se esmeram em deixá-la contente, entendendo por isso que se trata de deixar o filho fazer o que quiser, como quiser e quando quiser. Uma criança com esse comportamento ao entrar no jardim da infância, sua professora logo se dará conta de que com ela já não há muito o que fazer.

         Orientar a vida dos filhos para sua plena realização é ajudá-los a ser eles mesmos, não substituindo-os sem necessidade e mediante um processo de responsabilização gradual e crescente. Por isso, as crianças caprichosas reclamam em seu interior que necessitam ser exigidas; se não o forem, carregarão esse fracasso nas costas sem saber o motivo que as tornou profundamente insatisfeitas. Porém, não deixarão de intuir que seus pais são cumplices dessa situação, e se voltarão contra eles como pequenos tiranos. Este fracasso é uma moeda de duas caras: em uma há o grito da própria consciência que não consegue declarar sua reprovação porque se acomodou; em outra, a incapacidade de poder agir bem por falta de hábitos, frustrando o desenvolvimento natural do autodomínio.

    6 – A indisciplina torna a criança agressiva

         Quem viveu em uma situação de dispersão e indisciplina, manifesta sua frustração em atitudes de agressividade e ressentimento. Esse estado interior, ao não poder ser assumido e entendido a partir da própria consciência, conduz a uma atitude de fuga que pode ser resumida na seguinte frase: faço apenas o que gosto. Os pais não compreendem o que acontece no interior da criança quando a deixam agir conforme seus caprichos, e costumam dar mais importância a um problema de linguagem ou de motricidade do que ajudá-la a aprender a autodominar-se. Com isso, reforçam a conduta irreverente da criança, não permitindo que ela comece a distinguir entre o bem e o mal.

         A criança desde os três anos, ou antes, busca o olhar de aprovação ou reprovação de seus pais antes de jogar o prato no chão ou riscar a parede; se o fez, se mostra na defensiva e experimenta em seu interior algo que a incomoda, e necessita que seja reafirmado pelos pais o que para ela se apresenta com uma mera intuição (que agiu erradamente). O que está mal incomoda, o que está bem gratifica: isto é, fazer o bem constrói e realiza o homem, e o mal o descontrói.

         Cada pessoa é um projeto de vida único, irrepetível, que se abre pela liberdade à grandeza. Mas também pode fracassar na realização de seu projeto, seja porque não foi informado sobre a verdade e o bem, ou por não ter fortalecido a sua vontade na prática habitual de seus deveres ordinários, ou por ter sido abandonado nas mãos do capricho e da inconstância.

    7 – O perigo das etiquetas negativas na criança

         O outro extremo, igualmente prejudicial é o da criança rechaçada e etiquetada como “terrível”, “insuportável”, “teimosa”, “má”, etc. É dramático pensar que, apenas descobertas as primeiras luzes de sua consciência, a criança passa a se resignar com a ideia de não ser boa, e experimenta a realidade de seu fracasso. Dar a oportunidade de melhorar é propor como identidade o bem e a felicidade, é lançar-se com a criança numa aventura cheia de carinho, onde o terreno estará semeado de otimismo para que ela possa descobrir que a vida é como um esporte no qual às vezes se perde uma jogada, mas ainda restam muitas possibilidades de ganhar o jogo. Com ânimo esportivo se recomeça sempre que necessário, e a luta aponta sempre para o triunfo. Devemos ter muito em conta que a riqueza da vida da criança não se satisfaz de qualquer maneira: o que para muitos pais parece ser uma etapa intranscendente, sem valor, é o alicerce de uma vida que deve alcançar a plenitude.

         Somente quando a criança se descobre e se aceita, com a responsabilidade de terminar de se construir, então se pode dizer que ela estreia a sua liberdade. Quando um pai e uma mãe dizem à filha ou ao filho que ele é um tesouro, que não poderiam viver sem ele, que ele é mais luminoso que o sol, isso que parece tão pouco plenifica a alma infantil e a desperta para a profunda consciência de ser amada, mesmo em sua fragilidade (sente-se amada pelo que é e não pelo que possui).

         O mais natural e imediato ao homem é a família como âmbito onde vem a nascer, crescer e desenvolver bons hábitos e valores. Na família, em palavras de Oliveros F. Otero, “se descobre como pessoa e aprende a ser pessoa”. Isso somente se torna realidade se a criança é tratada como pessoa, se é descoberta em seu mistério individual de ser única e irrepetível. Quando a criança é aceita e amada, está sendo ajudada a descobrir a grandeza de sua alma, então ela se aceita a si própria. Há temas que só se aprendem na família, porque somente nela o que parece ter pouca importância revela a transcendência do amor. Mas o amor sempre está precedido da contemplação, do olhar penetrante do coração, como uma espécie de intuição que descobre o mistério.

    Texto de Maria Teresa Aldetre de Ramos, adaptado por Ari Esteves com base no livro Para Educar Mejor, coleção Hacer Familia, Editorial Palabra, Espanha. Desenho de Aguida Medeiros (@medeiro).

  • Bases para a personalidade da criança

    Bases para a personalidade da criança

    1 – Alicerce da personalidade. 2 – Autoestima. 3 – Força de vontade. 4 – A criança e a tolerância à frustração. 5 – Senso de realidade. 6Altruísmo. 7 – Os pais e o desenvolvimento da consciência moral da criança

    1 – Alicerce da personalidade

         “Personalidade é um modo estável de se relacionar consigo próprio, com os demais e com o mundo”, diz George Kelly, citado por Francisco Insa. Durante a infância o papel dos pais e educadores é ajudar a criança a desenvolver vários aspectos do temperamento e caráter que serão o alicerce da sua personalidade.

         Para se sentir acolhida desde os primeiros meses de vida, a criança precisa perceber que é amada e ter rostos alegres ao seu redor. Neste sentido, a mãe desempenha um papel importante: sua presença conforta e sua ausência, ou descaso, causa medo e insegurança, que poderá levar a criança à indiferença e a ter um caráter distante e frio com os pais.

    2 – Autoestima

         Para ter autoestima a criança necessita ser valorizada, sendo que isso é compatível com a correção de suas atitudes quando necessário. Aceitar o modo de ser da criança não significa que ela possa fazer o que quiser: é preciso corrigir com carinho e respeito seus defeitos de temperamento e caráter.

         A criança não é um adulto em miniatura e seu aprendizado é mais lento. Não se pode ser desqualificá-la com apodos negativos (preguiçosa, burra, bagunceira, mentirosa…), porque ela internalizará tais etiquetas e passará a se conformar com seus fracassos. Essa compreensão evita os estereótipos que humilham a criança. Elogiar mais e criticar menos: pais resmungões criam na criança a sensação de impotência. Surpreenda seu filho ou filha todos os dias ao parabenizá-lo pelo que realizou bem, pois o subconsciente da criança registrará o agrado e incentivará a repetir a ação. A consideração e o apreço fazem a criança sentir que possui qualidades. Acreditem nos filhos: o otimismo dos pais transmite confiança neles, e a simpatia torna atrativa a figura do educador!

    3 – Força de vontade

         Também é importante que a criança desenvolva a força de vontade, que a levará a perseguir com afinco algo que custe esforço realizar: manter um horário diário de estudo, por exemplo. A criança se move inicialmente pelo imediato, sejam caprichos ou impulsos primários, porque deseja a todo custo se sentir fisicamente bem ou deixar de se sentir mal, mesmo que seja necessário fazer coisas menos boas (fugir do esforço de guardar seus brinquedos) ou deixar de fazer coisas boas. Será preciso explicar a ela que a satisfação de um capricho, por exemplo, ficar passivamente vendo desenhos o dia todo, não a tornará tão feliz quanto montar com paciência e esforço um quebra-cabeça ou construir um belo castelo com lego, ou ter ordenado suas roupas e brinquedos, porque qualquer destas ações a levará exclamar com alegria: − Eu que fiz isso!, como quem afirma ter sido capaz de realizar algo que valeu a pena. A criança compreende que a fuga do bem custoso deixa o mau sabor do fracasso, que além de ser fonte de tristeza, cria o vício da preguiça que a tornará molengona.

    4 – A criança e a tolerância à frustração

         A tolerância à frustração também é um aspecto relevante a ser desenvolvido na criança, pois a levará a não desmoronar diante dos pequenos e inevitáveis fracassos que terá que suportar, seja na infância ou na adolescência. Ela aprenderá a ser resiliente ao tentar uma e outra vez melhorar o resultado de uma meta não alcançada, e isso requer que os pais estejam ao seu lado para a consolar e animar afetuosamente a recomeçar, mas sabendo se retirar discretamente e a tempo de que a criança perceba que foi ela mesma quem conseguiu o feito. Um outro aspecto que a criança necessita aprender é receber um “não” a uma pretensão (não lhe compraram a barra de chocolate), sem achar que o mundo desabou sobre a cabeça dela. Trata-se de uma luta que os pais precisam enfrentar ao não temer o show de um berreiro no shopping ou supermercado, pois será o modo de ensinar a criança a ter capacidade de se adaptar positivamente frente a situações adversas.

         Para que a criança desenvolva tolerância à frustração é necessário que tenha frustrações: crescer entre as almofadas e algodões da superproteção materna ou paterna, despersonaliza e a torna frágil frente aos inevitáveis reveses que a vida traz, já na infância e adolescência. A frustração pode começar desde o berço ao não ser atendida naquilo que pode esperar, pois as mães sabem quando um choro é motivado por alguma necessidade física (alimentação, asseio, frio ou calor, doença…) ou por um capricho que pode aguardar, como pegar no colo ou não acender a luz ao atendê-la de madrugada, a fim de que comece a aprender a esperar e que o silêncio da noite é para dormir (se os pais acenderem a luz ela não distinguirá o dia da noite).

         Há pais que passaram por dificuldades na infância e não desejam que seus filhos tenham essas experiências, poupando-os de todos os sofrimentos. É uma boa preocupação desejar que eles não provem certas situações como a separação dos pais, a falta de carinho, violências sofridas… Mas é preciso pensar que muitas dificuldades que os pais passaram, principalmente a carência de bens materiais pela falta de dinheiro, lhes fortaleceu a vontade, fez crescer o espírito de sacrifício, deu-lhes critérios de vida como a consciência de poupança e o sentido de desprendimento e o de não criar falsas necessidades; também os fez compreender que as coisas se adquirem com esforço, sendo necessário saber esperar, etc. Por isso, dar tudo de mão beijada (principalmente dinheiro e excesso de objetos) priva os filhos dos valores que a virtude da pobreza ou desprendimento aporta à construção da personalidade, e torna-os moles e frágeis de caráter.

    5 – Senso de realidade

         Outra característica para se fomentar na criança é o senso de realidade. É normal na infância uma certa dose de pensamento mágico, uma certa confusão entre sonho, desejo e realidade até na resolução dos pequenos problemas. Entre os dois e três anos de idade é característica a aparição do chamado amigo imaginário, sendo preciso respeitar e não ficar incomodado por isso, consciente de que o pensamento mágico tem a função positiva de ajudar a criança a resolver certos medos e conflitos, e a desenvolver a criatividade. Porém, é preciso incentivar a criança, à medida que entra na pré-adolescência, para que vá se apoiando cada vez mais na realidade, principalmente porque os videogames e as telas digitais criam um mundo fictício e, no mundo real, as soluções não vêm ao apertar botões: se quebrou o vaso de flores não há varinha mágica que o conserte, mas a criança terá que gastar um bom tempo fixando as partes com a cola adequada.

    6 – Altruísmo

         À medida que o campo de relacionamento da criança se amplia, é o momento de fomentar nela o altruísmo, que permitirá superar o típico egoísmo infantil (que é diferente do egoísmo de um adulto, pois este tem conotação moral).  A criança se lança instintivamente à maior fatia de bolo e comerá tudo que aguentar, sem pensar que na mesa há outros que também desejam comê-lo. Pouco a pouco, de maneira espontânea ou porque seus pais a fizeram olhar ao redor, saberá sacrificar seu próprio gosto em benefício dos demais. O ambiente familiar tem um papel chave, especialmente quando há vários irmãos, para ajudar a criança a renunciar seu próprio gosto pelo bem dos outros e para a formação de uma hierarquia de valor baseada no amor, que é base para uma rica vida espiritual, social e religiosa.

         O altruísmo também é fomentado ao ter a criança tarefas ou encargos domésticos apropriados à idade que possui, a fim de colaborar com a ordem, beleza do lar e bem-estar de todos. É injusto pensar que a criança é incapaz de ser solidária e não tenha espírito de serviço para contribuir com seu esforço na construção de um lar alegre e feliz. Negar à criança tais atribuições é fomentar nela o espírito de mera hospedagem e a errônea ideia de que tenha apenas direitos e não obrigações, transformando-a em senhor feudal, cujos pais são meros servos. Evidentemente essa não é a via para a construção de uma personalidade rica e sadia.

    7 – Os pais e o desenvolvimento da consciência moral da criança

         Cabe aos pais apoiar o desenvolvimento da consciência moral da criança, à medida que ela começa a ganhar compreensão de si, da responsabilidade por seus atos e das necessidades dos outros (inicia por volta dos seis anos). Essa consciência será auxiliada pelas normas praticadas em casa desde os primeiros anos da vida da criança, onde o exemplo, as orientações e indicações dos pais se internalizaram e passaram a fazer parte da vida da criança como luzes ou faróis que sinalizavam o caminho. Aos seis anos surge o sentido moral e a criança começa a distinguir o bem do mal, não mais em função do que ensinaram seus pais, mas ouvindo a sua própria consciência, ao fazer um juízo crítico tanto do quem vem de fora quanto do que se passa em seu mundo interior. Para a melhor formação da consciência da criança, os pais devem continuar ajudando-a distinguir entre o bem do mal, dando razões esclarecedoras; evidentemente isso também exigirá que os pais melhorem continuamente a própria formação para educar bem.

    Texto de Ari Esteves com base no livro “A formação da afetividade”, de Francisco Insa, Editora Cultor de Livros, 2021, São Paulo, SP. Imagem de Aguida Medeiros (@aguidamedeiro).

  • Ensinar o adolescente a trabalhar bem

    Ensinar o adolescente a trabalhar bem

    1. Os jovens devem formar-se no espírito de trabalho. 2. Transmitir aos filhos o sentido de responsabilidade. 3. Adolescentes infantilizados. 4. Os filhos devem perceber as necessidades dos demais. 5. Tarefas no lar. 6. Fomentar virtudes e ideais grandes nos filhos. 7. Animar os filhos a serem generosos

    Os jovens devem formar-se no espírito de trabalho

          Adolescentes e jovens devem se formar num ambiente de laboriosidade e disciplina. A educação para o trabalho pressupõe a educação para o estudo, a fim de que os filhos exercitem a concentração, a disciplina, a ordem, a constância, o espírito de sacrifício, o sentido de responsabilidade e tantas outras virtudes necessárias para aproveitarem bem o tempo, e se tornarem profissionais de prestígio e prontos para servir com competência aos que necessitarem de seus serviços.

          A virtude do trabalho ou da laboriosidade é básica e deve ser vivida desde as primeiras idades da criança por meio de diferentes rotinas familiares que vão educando os sentimentos e afetos por meio de virtudes ou bons hábitos: momentos de lazer e brincadeiras, realização de encargos apropriados à idade de cada filho; horários de estudo, leituras, refeições, dormir, acordar, entre outros.

    Transmitir aos filhos o sentido de responsabilidade

          Estimular os adolescentes para que percebam os talentos que possuem e não temam o sacrifício que comporta alcançar o ideal que sonham é tarefa dos pais, que devem fomentar neles um grande sentido de responsabilidade e ajudá-los a perceber a obrigação grave que têm de estudar e preparar-se bem para utilizar seus talentos ou qualidades humanas ao serviço dos demais. Com isso, fomentarão nos filhos as virtudes humanas que irão prepará-los para participar ativamente tanto vida familiar e social.

          Todos nos condoemos ao ver tantas energias juvenis desperdiçadas, perdas de tempo em celulares e games, acrescidas da absoluta falta de perspectiva porque os pais não educaram para a laboriosidade, nem para ideais grandes. A juventude sempre está disposta a perseguir altos projetos, mas é preciso abrir horizontes a ela. Toda criança tem pensamentos de aventura, de ação, de triunfo, que devem ser canalizados não para metas egoístas, mas para realizar o bem a tantas pessoas necessitadas, primeiramente por meio da aplicação aos estudos.

    Adolescentes infantilizados

          Se ao iniciar o ensino médio o filho continua a ser irresponsável ao acomodar-se no confortável papel de quem não tem obrigações e nem se esforça para estudar seriamente, e não procura descobrir suas aptidões pessoais a fim de canalizá-las para uma profissão com a qual possa servir melhor, os pais não devem esperar que ele se tornará um jovem responsável e competente de repente, ou que o diploma consertará todos os vícios que desenvolveu. Se o adolescente se abandona aos caprichos, se transforma em terreno inculto onde crescem espinhos e abrolhos.

          Muitos adolescentes de quinze e dezesseis anos, ainda infantilizados e preguiçosos, mal sabem escrever com letra cursiva (utilizam a letra de forma, o que indica um analfabetismo funcional) e ficam travados ao desenvolver uma simples redação de dez linhas sobre a família ou o que fazem no dia a dia. Isso revela que o vício de gastar horas e horas diariamente no celular os cegam para estabelecer metas diárias de leitura e estudo, a fim de se prepararem para os exames do Enem, e malbarateiam o seu tempo jogando-o no ralo. Com a desculpa de que não sabem o curso ou faculdade que pretendem fazer, anestesiam a consciência e permanecem passivos, ociosos, e utilizam a internet para perder tempo em redes sociais, vídeos e jogos, e não buscam nela informações e respostas sobre como descobrir suas aptidões por meio de testes vocacionais ou lives sobre as diferentes profissões, com o objetivo de se planejarem para enfrentar as concorridas escolas públicas.

    Os filhos devem perceber as necessidades dos demais

          Na encíclica “Fratelli tutti” (todos irmãos), o Papa Francisco lembra a passagem evangélica do Bom Samaritano, e diz: “existem simplesmente dois tipos de pessoas: aquelas que cuidam do sofrimento e aquelas que passam ao largo; aquelas que se debruçam sobre o caído e o reconhecem necessitado de ajuda e aquelas que olham distraídas e aceleram o passo. De fato, caem as nossas múltiplas máscaras, os nossos rótulos e os nossos disfarces: é a hora da verdade. Debruçamo-nos para tocar e cuidar das feridas dos outros? Abaixamo-nos para levar às costas o outro? Este é o desafio atual, de que não devemos ter medo” (FT, 70).

          Os filhos devem ter motor próprio e perceber as necessidades dos demais tanto na vida familiar como nos ambientes que participam, como o escolar ou entre os amigos. Não deve ser necessário que a mãe peça ao adolescente que limpe o quintal e recolha a sujeira que o cachorro deixou, nem que mantenha em ordem seus objetos pessoais ou colabore nos demais serviços do lar. Um filho sensível, consciente de suas obrigações, faz tudo isso sem que lhe peçam, pois se sente movido pelo amor, que deve se manifestar primeiramente em obras de serviço aos seus pais e irmãos. Há comportamentos que revelam solidariedade ao dar o próprio tempo aos demais.

          Perceber e agradecer o esforço que na família as pessoas fazem ao utilizar a máquina de lavar, fazer compras, limpar, cuidar de um doente, preparar as refeições, pôr e tirar a mesa… Muitas atividades devem ser gerenciadas para que no lar tudo discorra bem. Se um filho se concentra apenas em assuntos pessoais e não se envolve nessas tarefas, nunca aprenderá a trabalhar bem, pois o trabalho é sempre um serviço aos demais e não uma atividade para ser servido por todos.

    Tarefas no lar

          Diversas mães sugerem serviços domésticos que podem ser atribuídos aos filhos nas diferentes faixas etárias (https://staging.ariesteves.com.br/tarefas-para-criancas/). Isso ajudará a incutir nas crianças o espírito de serviço e de prontidão, tornando-as solidárias e participantes na construção de um lar alegre, limpo, ordenado, onde todos se sentem bem. Sem essas atribuições, cria-se nos filhos um espírito de mera hospedagem e a ideia errada de que são apenas sujeitos de direitos e não de obrigações, e com isso se transformam em senhores feudais e seus pais em meros servos.

    Fomentar virtudes e ideais grandes nos filhos

          A felicidade é um dom do amor, e esse dom exige sair de si para doar-se. Os filhos, desde a adolescência, devem concluir que receberam gratuitamente de Deus as qualidades pessoais que possuem para colocá-las ao serviço dos demais. Com isso, tornam-se capazes de buscar ideais grandes que os faça transcender-se, e não estacionar comodamente numa vida raquítica e cômoda. 

          Manter uma vida frívola é sempre algo perigoso. Advertir os filhos do risco de se conformar com metas estritamente pessoais, egoístas ou fechadas em si mesmas: encerrar-se no próprio eu é algo mesquinho, estreito, que empequenece a alma. O trabalho de formação dos pais deve aproximar os filhos da fé, do encontro com Cristo, a fim de que não trabalhem em vão e com estreita visão humana, tendo como únicos objetivos ficar rico, ter poder, status, pois são ideais que encerram a pessoa no egoísmo, que é fonte de infelicidade, além de que uma esperança humana, puramente humana, carece de fundamento. A pessoa que vive com perspectivas estreitas, que não possui interesse por qualquer coisa que não seja o seu prazer e divertimentos, nunca compreenderá o verdadeiro sentido do amor e da felicidade, e terá as pessoas apenas como degraus para os seus interesses.

    Animar os filhos a serem generosos

          Quem ama não sabe calcular, diz o ditado. A alegria de servir traz a experiência de que um trabalho que parecia incômodo se transforma em gratificante, pois passa a ser desejado como um bem ao próximo. Os pais devem fomentar nos filhos ambições nobres, animando-os a levar uma vida mais generosa, e a ter no coração desejos de servir aos demais com suas qualidades: ser sábios, generosos e audazes sem temer os sacrifícios de realizar o sonho de tornar feliz a vida dos demais. Assim, os filhos se animarão em preparar-se para dar soluções aos problemas que afetam tantas vidas.

         Aproveitar para ler os boletins “A disciplina familiar” e “A rotina na vida das crianças

    Texto de Ari Esteves inspirado no artigo “Educar para a laboriosidade”, de Carlos Roberto Pegoretti Júnior, Diário do Grande ABC, 23-08-2021. Imagem de Leeloo The First.

  • Seu filho e o celular

    Seu filho e o celular

    1 – Crianças viciadas em telas digitais se tornam passivas. 2 – As virtudes asseguram o bom uso dos celulares. 3 – Ensinar a criança a controlar seus impulsos. 4 – Os adolescentes anseiam por autonomia

    1 – Crianças viciadas em telas digitais se tornam passivas

         As novas gerações nasceram em um mundo interconectado, ao qual os seus pais não estavam acostumados, e desde muito cedo têm acesso à Internet, redes sociais, chats, videogames. Crianças e jovens estão expostos a um universo sem fronteiras que oferece benefícios e riscos que não podem ser ignorados, o que torna necessária a proximidade e orientação dos pais, que devem adquirir conhecimentos e alguma prática para formar o seu próprio critério e orientar os filhos.

         As novas tecnologias criaram um ambiente onde se pode passar horas e horas. Pedagogos, psicólogos e orientadores familiares constatam que a criança que passa a depender da superestimulação artificial das telas, se acomoda e não é capaz de se encantar ou admirar-se com nada mais, pois deseja apenas retornar à hiperatividade das telas, onde muitos desenhos tidos como “infantis” mudam de cena a cada oito segundos (7,5 cenas por minuto), o que não acontece no mundo real da criança. O excesso de imagens satura os sentidos e bloqueia o raciocínio e a imaginação, e torna a criança passiva e entediada com o mundo real, porque acha-o chato, lento e sem graça. E quando sai à rua com os pais ela não sabe fixar a atenção em nada ao seu redor porque, acostumada à superestimulação, perdeu a curiosidade e a imaginação se acomodou.

         Cada vez mais os dispositivos tecnológicos estão conectados à internet, atingem amplas audiências e permitem que qualquer pessoa difunda mensagens de forma rápida e praticamente sem custo. Que tipo de mensagens? Eis a questão. Para não colocar os filhos em riscos desnecessários ou criar vícios é preciso avaliar o momento oportuno para que utilizem equipamentos digitais. Dos seis aos vinte e quatro meses a criança não precisa de brinquedos, pois se diverte quando o pai ou a mãe brinca de se esconder e reaparecer atrás da porta, gosta de engatinhar e se encanta com os pequenos objetos que encontra no caminho: o ruído do papel celofane, a formiga que carrega uma folha, a embalagem vazia no chão da cozinha… É assim que ela vivencia as próprias experiências e desenvolve as habilidades motoras e de percepção. Se se pretende dar algum brinquedo à criança nessas idades, é desnecessário que sejam de pilhas e contenham botões, já que estes devem estar dentro da criança e não fora dela: não é a brincadeira que deve funcionar, mas a criança. A realidade simples e viva é a atividade por excelência com a qual a criança aprende movida pela curiosidade, desenvolve sua percepção ao considerar os acontecimentos reais do entrono, entre outros benefícios.

         As crianças necessitam despertar a curiosidade diante das pessoas e objetos que as cercam, buscar respostas para as suas experiências e não obter tudo pronto ao apertar botões de equipamentos eletrônicos, que roubam delas a interação com o mundo ao seu redor. Uma criança não precisa estar conectada à internet; se necessário for, é melhor que siga um plano de acesso por um tempo restrito e em local e horário determinados (à noite, desconectar ou desligar), ao mesmo tempo ensiná-la a se proteger de situações perigosas e falar sempre com os pais se algo estranho ocorrer.

         Muitos educadores afirmam que as crianças não devem ter aparelhos eletrônicos avançados (tabletes, celulares, videogames). E se manuseiam algum equipamento por alguns momentos, por sobriedade e para não criar falsas necessidades, é aconselhável que os aparelhos sejam da família e não delas, e só devem ser utilizados em lugares comuns e com normas e horários, a fim de se habituarem a ter outras atividades mais úteis como estudar, cumprir encargos no lar, descansar no convívio com os familiares (o valor do contato humano não pode ser substituído por telas).

    2 – As virtudes asseguram o bom uso dos celulares

         O problema não está nas tecnologias, mas no modo como cada um as utiliza. A vida virtuosa é o filtro mais infalível que existe. Os pais devem ensinar os filhos a se comportarem virtuosamente no mundo digital, e isso se consegue não somente com regras e filtros, mesmo que estes válidos para proteger as crianças da pornografia, ameaças sexuais e outros malefícios. O mais importante é educá-los por meio de virtudes, a fim de que queiram ter uma vida reta, limpa, ao direcionar suas paixões e evitar com alegria tudo que é inconveniente na esfera digital. As novas tecnologias devem estar presentes nas conversas e regras da casa, que costumam ser poucas e de acordo com a idade dos filhos. Ensinar a viver as virtudes implica que os pais sejam exigentes consigo próprios ao moderar o uso do celular para aproveitar melhor o tempo e fixar a atenção na criança que lhes deseja falar… A coerência dos pais ao viverem pessoalmente o que indicam é o melhor modo de educar, pois os filhos ao serem testemunhas desses esforços irão imitá-los.

         A família é escola de virtudes, e onde as crianças aprendem as primeiras noções acerca do bem e do mal, e os valores sobre os quais podem alicerçar uma vida reta e sã. A meta é que cada filho aprenda a tomar decisões de forma adequada à sua idade, e saiba administrar a sua liberdade porque está movido por hábitos que lhe facilitam o autodomínio, a temperança no comer e beber e a ter horários para brincar, estudar e ajudar nas tarefas da casa. Também deve dominar a curiosidade e não entrar em sites que destroem a vida moral e criam vícios difíceis de arrancar. Deve desgostar de perder tempo com informações que não servem para nada, e aprender a descansar criativamente com leituras, quebra-cabeças, xadrez, dama, lego, vídeos culturais previamente programados… Estabelecer diretrizes e explicar sobre a importância de utilizar melhor o tempo e não gastá-lo em redes sociais, videogames, jogos online, são conselhos que os filhos necessitam para desprenderem-se de ambientes digitais. Os mesmos conselhos que orientam o comportamento dos filhos nos espaços públicos (boas maneiras, recato ou pudor, respeito a si e ao próximo, cuidado com a curiosidade, não permanecer ocioso, etc.), devem ser utilizados nos espaços digitais.

    3 – Ensinar a criança a controlar seus impulsos

         De acordo com a idade de cada filho, torna-se decisivo manter diálogos esclarecedores sobre a educação dos afetos (sentimentos, emoções, paixões), a fim de que controlem seus impulsos e tenham presente que o publicado na internet torna-se acessível a todos em qualquer parte do mundo, e deixa rastro que pode ser acessado por tempo indefinido. O mundo digital é um grande espaço que exige mover-se com bom senso: se os pais dizem à criança que na rua não fale com estranhos, o mesmo deve ser dito quando estão no ambiente digital. Uma comunicação franca na família cria um ambiente de confiança onde as dúvidas e as incertezas dos filhos são rapidamente resolvidas.

         Como um bom guia de montanhas, os pais devem acompanhar os filhos no ambiente digital para que estes não sofram e nem causem danos a outros: consultar com eles a internet e “perder tempo” ao jogar um videogame com os filhos tornam-se oportunidades para conversas mais profundas sobre o uso da rede. Essas experiências devem ser transmitidas a outras famílias.

         A infância é o momento de iniciar a prática das virtudes, e de aprender o bom uso da liberdade. No período de zero a seis anos criam-se hábitos que serão básicos na formação do caráter e domínio do temperamento, e se aprende a viver a virtude da ordem nos aspectos material (guardar brinquedos e roupas próprias) e temporal (ter horários para cada atividade). Tais hábitos, uma vez adquiridos, fortalecem a vontade para vencer a preguiça e o comodismo.

         É conveniente mostrar aos filhos o valor da austeridade quanto ao uso de aplicativos, gadgets (dispositivos portáteis), etc. Ensiná-los a viver o desprendimento não é apenas por motivos econômicos, mas para que não sejam dominados pela compulsão de ter as últimas novidades da indústria eletrônica, nem criar falsas necessidades (tem mais quem precisa de menos). Saber esperar até que os objetos úteis barateiem é parte da virtude da pobreza ou do desprendimento dos bens materiais. 

    4 – Os adolescentes anseiam por autonomia

         Na adolescência os filhos anseiam por um grau maior de autonomia, e os pais devem ir soltando as rédeas aos poucos, porque ainda são incapazes de administrar plenamente a liberdade. Mas isso não significa que tenham de ser privados da independência que lhes corresponde. Trata-se de ensinar-lhes a administrar a liberdade responsavelmente, a fim de serem capazes de visualizar objetivos mais altos ao colocar suas capacidades ao serviço do próximo. Autonomia e respeito às regras da disciplina familiar se conseguem com diálogos esclarecedores sobre os porquês ou razões subjacentes a algumas exigências que poderiam parecer limitantes, mas que na realidade não são proibições, e sim afirmações que ajudam a forjar uma personalidade autêntica que sabe ir contra a corrente de modismos ou campanhas publicitárias que escravizam: o guard rail das estradas não limitam a liberdade do motorista, mas orientam e protegem a sua vida.

         Educar é dotar os filhos de uma sabedoria que lhes permita administrar os sentimentos e afetos por meio da inteligência e vontade bem formadas. Mostrar como a virtude é atrativa e abraça ideais magnânimos: lealdade, respeito aos outros, fidelidade, solidariedade, autodomínio para ter as rédeas das inclinações instintivas, pudor, modéstia, etc.

         A missão dos pais é facilitada quando conhecem as preferências dos filhos, sabem o que lhes entusiasma e se interessam pelos hobbies que praticam. Assim se gera a confiança necessária para que eles compartilhem seus sentimentos. Há jovens que escrevem blogs ou usam as redes sociais para colocar conteúdos, e seus pais não sabem ou nunca leram os seus textos, o que leva os filhos a julgarem que eles não se interessam ou não apreciam o que fazem. Ler com agrado e interesse o que seus filhos escrevem ou postam enriquecerá o diálogo familiar.


    Sugestão de leitura para completar o tema: Boletim Educar na realidade

    Texto adaptado por Ari Esteves com base no artigo “Educar en las nuevas tecnologias”, de Juan Carlos Vásconez, (@jucavas). Imagem de Tima Miroshnichenko.

  • Transmitir a fé aos filhos

    Transmitir a fé aos filhos

    1 – Fé, legado mais importantes para se transmitir aos filhos. 2 – A fé deve ser vivida no dia a dia. 3 – Dificuldade dos jovens para viver a fé. 4 – Sem virtudes os filhos não vivem a fé. 5 – Piedade sem doutrina não basta. 6 – Abrir horizontes ao mostrar a beleza da fé.

    1 – Fé, legado mais importantes para se transmitir aos filhos

       A fé é o legado mais importante que os pais podem transmitir aos filhos, porque uma esperança humana, puramente humana, carece de sentido já que tudo passa com a morte, e nem riquezas e nem as honrarias nos acompanharão ao sepulcro. A Esperança que alegra o coração é a que eleva-se até Deus porque apenas a fé e o Amor a Deus dão significado à existência humana. A transmissão da fé não é uma questão acessória, da qual depende só um pouco mais de felicidade, mas trata-se de algo radical que afeta o resultado de toda a vida, à qual passa a iluminar. 

       Nenhuma comunidade humana está tão bem-dotada como a família para facilitar que a fé enraíze nos corações das crianças, a fim de que elas coloquem seus primeiros afetos em Deus, em Jesus Cristo e em Nossa Senhora, à imitação de seus pais, se estes forem sinceramente piedosos. É na própria família que se forja o caráter, a personalidade, criam-se os bons costumes, e onde se aprende a conviver com Deus

         A família cristã transmite a beleza da fé e do amor a Cristo ao viver em harmonia, ao saber sorrir e esquecer as próprias preocupações para atender aos demais, “a não dar importância a pequenos atritos que o egoísmo poderia converter em montanhas; a depositar um amor grande nos pequenos serviços de que se compõe a convivência diária(É Cristo que passa, n. 23).

         Transmitir a vida de Jesus Cristo aos filhos é o melhor alimento que se pode dar a eles, que desde pequenos têm necessidade de Deus e capacidade de perceber a sua grandeza. As crianças sabem apreciar o valor da oração e do que é sagrado, e percebem a diferença entre o bem e o mal. Fomentar nos filhos a unidade entre o que se crê e o que se vive é a meta a ser conseguida, pois uma mensagem de salvação afeta toda a pessoa, ao enraizar no entendimento e no coração. Para isso, está em jogo a amizade dos filhos com Jesus Cristo, tarefa que merece os melhores esforços dos pais para tornar acessível a doutrina cristã aos filhos.

    2 – A fé deve ser vivida no dia a dia

         Para transmitir a fé é importante que a família tenha vida de piedade, que é de trato simples e filial com Deus: abençoar as refeições, rezar com os filhos pequenos as orações da manhã e da noite, ensinar-lhes a recorrer aos Anjos da Guarda, a ter carinho com Nossa Senhora, a dar importância à participação na Santa Missa, mesmo durante as viagens, ensinar de forma natural a defender e a transmitir a fé e o amor a Jesus. Esses são modos concretos de favorecer a virtude da piedade (trato filial com Deus) nas crianças.

         O “Elemento fundamental e insubstituível da educação para a oração é o exemplo concreto, o testemunho vivo dos pais: só rezando em conjunto com os filhos, o pai e a mãe […] entram na profundidade do coração dos filhos, deixando marcas que os acontecimentos futuros da vida não conseguirão fazer desaparecer”. (Exhort. Apost. Familiaris consortio, n.60).    

         Se os pais pretendem mostrar como a vida de Cristo muda a existência do homem, é lógico que os filhos notem que, em primeiro lugar, tenha mudado a vida de seus próprios pais. Ser bons transmissores da fé em Jesus Cristo implica manifestar com a própria vida a adesão a Ele, e lutar cada dia por ser melhores, pois os filhos, ao verem esse esforço, procurarão imitar os pais.

         A educação da fé não é um mero ensinamento, mas a transmissão de uma mensagem de vida. Ainda que a palavra de Deus seja eficaz em si mesma, é mais convincente quando se vê encarnada na vida dos pais, e isso é importante para as crianças. Os pais têm tudo a seu favor para comunicar a fé aos filhos. Além da palavra, devem ser piedosos, coerentes, e dar testemunho pessoal a todo o momento, com naturalidade, sem procurar dar lições constantemente. As crianças são perspicazes, mesmo que pareçam ingênuas, e percebem como seus pais vivem a fé. É preciso pensar no modo mais pedagógico de transmitir a fé a elas, e preparar-se para ser bons educadores. Porém, o decisivo é o empenho com que os pais colocam em prática em suas vidas os princípios da fé.

    3 – Dificuldade dos jovens para viver a fé

         Muitos jovens afrouxam na fé que receberam ao sofrer algum tipo de prova: a pressão de um ambiente paganizado, amigos que ridicularizam as convicções religiosas, um professor que dá as “lições” numa perspectiva ateia ou que põe Deus entre parêntesis. Há jovens que foram educados na piedade, mas sucumbiram diante de um ambiente para o qual não estavam preparados, porque careciam de profundidade doutrinal e educação nas virtudes. É preciso conhecer os diferentes ambientes que influenciam na educação dos filhos para ajudá-los a superar as dificuldades.

         As crises de fé ganham força quando os filhos deixam de comentar suas dificuldades com os pais. É importante criar um clima de confiança e estar sempre disponíveis a eles, pois, por mais indóceis que pareçam, desejam sempre essa aproximação. Falar com os filhos é o que há de mais grato aos pais, sendo também a via mais direta para estabelecer uma profunda amizade: quando há confiança, eles falam de suas inquietações e sentimentos. Embora haja idades mais difíceis do que outras para conseguir essa proximidade, os pais não devem afrouxar no entusiasmo por “chegarem a ser amigos dos filhos; amigos a quem se confiam as inquietações, a quem se consulta sobre os problemas, de quem se espera uma ajuda eficaz e amável” (Cristo que passa, n. 27).

         Nesse ambiente de amizade que deve ser a família, os filhos devem ouvir falar de Deus de um modo agradável e atrativo. Mas isso requer que os pais encontrem um tempo de qualidade para estar com os filhos, e estes devem perceber que suas coisas interessam aos pais mais do que outras ocupações. Nenhuma circunstância pode levar a omitir ou atrasar esse diálogo: desligar a TV ou o computador quando a menina ou o garoto pretende dizer algo; reduzir a duração do trabalho profissional para chegar cedo em casa, e facilitar a conversa com os filhos; encontrar formas de entretenimento que tornem agradável a vida familiar, etc.

         Os filhos, embora vivam no mesmo lar, possuem interesses e sensibilidades diferentes, e essas variedades ao invés de serem obstáculos, ampliam o horizonte educativo. Conhecer o temperamento e o caráter de cada filho leva a educá-lo de forma personalizada, sem estereótipos. Mesmo sendo o caminho da fé muito pessoal − pois faz referência ao mais íntimo da pessoa (sua relação com Deus) −, o papel da instrução é ajudar a percorrê-lo. Transmitir a fé não é questão de estratégia, mas de facilitar que cada um queira melhorar ao descobrir o desígnio de Deus para a sua vida.

    4 – Sem virtudes os filhos não vivem a fé

         Na transmissão da fé não basta a piedade, mas é relevante a educação nas virtudes para que os filhos não cedam diante do mais fácil, e deixem de seguir a razão iluminada pela fé. Formar nas virtudes requer salientar a importância da exigência pessoal, do empenho no trabalho e estudo, no espírito de serviço aos demais, na temperança, pois esses bens estão acima dos desejos materiais e facilitam a compreensão das realidades do espírito.

         Educar os filhos com pouca exigência, nunca lhes dizer “não” e procurar satisfazer todos os seus desejos, é caminho que lhes fechará as portas para a elevação do espírito. Essa condescendência nasce de um falso carinho, ou do querer livrar-se do esforço de pôr limites aos apetites e ensiná-los a obedecer e a esperar. E como a dinâmica do consumismo é insaciável, cair nesse erro leva os filhos a ter um estilo de vida caprichoso e volúvel, introduzindo-os numa espiral negativa de busca de comodidades, de falta de virtudes humanas e desinteresse pelos outros. Saciar todos os caprichos é colocar sobre a vida espiritual uma carga pesada, incapacitando a pessoa para a doação e o compromisso com Deus e aos demais.

    5 – Piedade sem doutrina não basta

         A transmissão da fé aos filhos é uma tarefa que exige empenho. Quando se busca educar na fé, “não se deve separar a semente da doutrina da semente da piedade” (Forja, n. 918). É preciso unir o conhecimento com a virtude, a inteligência com os afetos. Não bastam algumas práticas de piedade com um mero verniz de doutrina: é necessário que a doutrina se faça vida ao se transformar em determinações no dia a dia, em compromisso que leve amar a Cristo e aos demais.

         Piedade sem doutrina torna os filhos vulneráveis diante do combate intelectual que sofrerão ao longo da vida. Por isso, necessitam de uma formação apologética profunda e ao mesmo tempo prática, e que respeite as peculiaridades próprias de cada idade. Ao tratar de um livro ou de atualidades poderá ser boa ocasião para ilustrar o tema com a doutrina da fé. Ler o Catecismo ou o Compêndio da Doutrina Cristã com as crianças ajudará a que compreendam a importância do estudo da doutrina.

    6 – Abrir horizontes ao mostrar a beleza da fé

         Conseguir que os filhos interiorizem a fé requer aproveitar as diferentes situações para aconselhá-los com razões humanas e sobrenaturais. Abrir horizontes é mostrar aos filhos a beleza da vida cristã e das virtudes, sem limitar-se a dizer o que é proibido ou obrigatório, pois isso daria a falsa imagem de que a fé é uma normativa que limita, e não que liberta o coração de liames que o escravizam e eleva a alma até as verdadeiras alegrias. Na educação da fé deve-se ter muito presente que os Mandamentos de Deus conduzem a pessoa à melhor expressão de si mesma, tal como seguir o manual de instruções do carro o faz render melhor, os Mandamentos são o manual para melhor utilização dessa união de alma e corpo que são os seres humanos.

         Seria um erro associar “motivos sobrenaturais” ao cumprimento de encargos, tarefas ou “obrigações” que sejam custosas para as crianças. Não é bom abusar do recurso de pedir à criança que tome a sopa ou coma salada como um sacrifício a Deus: dependendo de sua vida de piedade e de sua idade pode ser conveniente, mas é melhor procurar outros motivos que a estimule. Isso porque Deus não pode ser o “antagonista”,  mas um Pai que ama cada um de seus filhos acima de todas as coisas, e que Cristo é o bom Mestre, o Amigo que nunca engana.

         Relacionar a fé com razões que os filhos compreendam e valorizam revela que a mensagem cristã é racional e bela: amar a Deus em primeiro lugar coloca ordem nos demais amores, faz dirigir a vida ao esquecimento próprio (ideal que atrai aos jovens), e permite compreender as razões pelas quais se deve viver a castidade, a temperança na comida e uso dos games, a laboriosidade, o desprendimento dos bens, a prudência no uso da internet.

         Educar na fé é pôr os meios para que os filhos convertam sua existência inteira em um ato de adoração a Deus: “a criatura sem o Criador desaparece” (Const. past.Gaudium et spes, n. 36). Na adoração encontra-se o verdadeiro fundamento da maturidade pessoal: se não se adora a Deus, adora-se a sim mesmo por meio de desejos de poder, prazer, riquezas, ciência, beleza…

         Para adorar, as crianças devem descobrir a figura de Jesus Cristo ao serem estimuladas desde pequenas a falar pessoalmente com Ele (isso se chama oração). Aproveitar fatos cotidianos para contar a elas sobre Cristo e seus amigos e penetrar com elas nas cenas do Evangelho. Estimular a piedade nas crianças significa facilitar que elas ponham o coração em Jesus Cristo. Explicar a elas sobre os acontecimentos bons ou maus, e que escutem a voz da própria consciência, na qual o próprio Deus revela sua vontade, e procurar pôr em prática o que ouviu. As crianças adquirem tais hábitos quase por osmose, vendo como seus pais se relacionam com o Senhor, e como O têm presente em seu dia a dia. A fé, mais que a transmissão de um conteúdo, é seguir uma Pessoa que aceitamos sem reservas e a quem nos confiamos.

         Os bons pais desejam que seus filhos alcancem a plenitude humana e espiritual, sendo felizes em todos os aspectos da existência: profissional, cultural, afetivo e espiritual. O melhor serviço que se pode prestar a uma pessoa – a um filho de modo especial – é apoiá-la para que responda plenamente à sua vocação cristã, e descubra o que Deus espera dela. Porque não se trata de uma questão acessória, da qual depende só um pouco mais de felicidade, mas de algo radical que afeta o resultado de toda a vida.

    Sugestão de leitura: “A fé explicada”, de Léo J. Trese, www.quadrante.com.br

    Texto extraído e adaptado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, com base nos artigos "Transmitir la fé", de Alfonso Aguiló, em www.almudi.org. Imagem de Cottonbro Studio.