Categoria: VIRTUDES

  • As boas rotinas

    As boas rotinas

    1 – As boas rotinas nos aperfeiçoam. 2 – Sem rotinas tudo seria improvisações. 3 – Dar motivos mais altos às tarefas de sempre. 4 – As boas rotinas familiares. 5 – Rotinas também nos fins de semana

    1 – As boas rotinas nos aperfeiçoam

        A sabedoria se esconde atrás das rotinas, que nem de longe visam transformar cada pessoa em robô, mas são caminhos para se chegar à disciplina interior e ao autocontrole. Sem rotinas não haveria virtudes, pois estas são hábitos adquiridos pela repetição de atos bons. A boa rotina especializa, aumenta o espírito de responsabilidade, faz perseverar no aperfeiçoamento do serviço que se oferece. Uma famosa dançarina disse: “Eu não procuro ser melhor do que as outras; procuro ser melhor do que eu mesma”. Sem repetir uma e outra vez nossas ações, como chegaremos à perfeição delas?

        A vida é um contínuo começar e recomeçar. O sol, a lua, as estações do ano, os horários dos ônibus e do metrô, o trabalho e o descanso. Tudo o que é levado a sério não deixa de se converter em repetições, em hábitos, pois sem previsibilidade se instalaria o caos. A natureza tem suas leis que se repetem para o nosso bem. Se as estações do ano não chegassem no momento esperado, seria uma confusão saber o momento de plantar e de colher. Portanto, se até o mundo irracional tem suas rotinas – porque tem uma Inteligência por traz −, então podemos aprender do irracional a racionalidade das boas rotinas.

        Cada dia é diferente do anterior e do seguinte, e nem sempre os problemas de hoje serão os de amanhã. Mas, ao colocar essa variedade sob controle, criamos rotinas e com isso nos sentimos seguros. Dizem que a vida é elástica, pois tem muitas variações. Mas elástico quer dizer que tenderá sempre a voltar ao modelo original: o que deixa de ser elástico passa a ser rígido, sem vida, e logo se rompe.

    2 – Sem rotinas tudo seria improvisações

        As rotinas dão ordem à nossa vida exterior e interior e facilitam os processos diários. Todos gostamos e necessitamos da repetição e da ordem, pois sem isso não haveria trabalho eficaz, a vida familiar seria um caos, as empresas deixariam de cumprir e oferecer bons serviços. Como melhorar a qualidade de um trabalho sem o repetir uma e outra vez? Haveria apenas improvisações e se passaria a contar com o acaso para as coisas saírem bem. Então, já não haveria bons profissionais, mas apenas amadores. Todos sabemos que o bom artista, o bom atleta ou o bom profissional, seja de que área for, tem que cumprir um horário exigente, um plano de trabalho rigoroso, repetir ações, a fim de não ser uma simples amador. Um bom cirurgião fez milhares de vezes os mesmos procedimentos, o bom futebolista repetiu centenas de vezes o mesmo chute para colocar a bola no ângulo desejado…

    3 – Dar motivos mais altos às tarefas de sempre

        Mas, é preciso estar atento para evitar que as más rotinas ocupem espaço no dia a dia: momentos diários em redes sociais, internet, games e curiosidades são rotinas que fazem decrescer humana e espiritualmente. Em tais casos, seria necessário ter a prudência e a fortaleza de introduzir boas rotinas nos horários dedicados às más: ler obras literárias, assistir vídeos para melhorar a performance das qualidades pessoais a fim de melhor servir aos demais, entre outras.

        Para realizar as tarefas de sempre com ânimo renovado é preciso dar motivos mais altos. Para isso, podemos adotar a sugestão de Escrivá de Balaguer de que uma hora de trabalho é uma hora de oração. Ou seja, ao dar a cada tarefa um fim mais alto, de amor, a enobrecemos e afastamos o perigo da monotonia, do trabalhar por inércia, distraídos e sem criatividade.

        É certo que também gostamos de variar, e de quebrar a rotina de vez em quando, mas dentro de um certo controle. Ao variar, logo ansiamos retornar ao de sempre, como nos finais de férias desejamos retornar aos afazeres do dia a dia. Nem sempre quebrar a rotina ajudará, a não ser que seja para um descanso criativo que fará retornar aos trabalhos com o espírito renovado. Para isso, não se trata de ficar sem fazer nada, mas mudar de atividade: quem tem um trabalho intelectual, descansará fazendo esporte; quem tem um trabalho manual descansará lendo ou assistindo a um bom filme. Não é por almoçar em qualquer horário que nos sentiremos melhor, nem por chegar ao emprego em horários diferentes trabalharemos melhor.

    4 – As boas rotinas familiares

        Os pais devem promover a cultura familiar por meio de boas rotinas, como as tertúlias ou bate-papos familiares, audição de boa música em dias determinados da semana, sessões de bons vídeos, leitura de contos para as crianças, visitas a museus e livrarias, idas a parques ou campos para curtir a natureza. Essas boas rotinas facilitarão que os filhos abandonem o uso de celulares e telas digitais.

        As boas rotinas familiares criam no lar um excelente ambiente para o crescimento humano e espiritual de seus moradores: horário de dormir e de acordar, horário das refeições, horário de findar o trabalho e retornar para casa; horário de ler, estudar ou descansar… Excelente rotina familiar é promover a leitura dos clássicos, pois forja o caráter, cura as doenças da alma e resgata a autoestima. Com a leitura aumenta-se a preparação intelectual e cultural, porque ela incide diretamente sobre a inteligência e faz aumentar o nível e o alcance do pensamento, faz melhorar a forma de expressar o pensamento escrito e oral, enriquece o vocabulário e faz ganhar com a experiência do outro (“escarmentar em cabeça alheia”, diz o ditado). Porém, a leitura, que é também excelente modo de descansar e de aproveitar o tempo, necessita de que no lar haja um clima de harmonia e silêncio.

        A falta de boas rotinas transforma o lar em caos e conduz cada um a agir como bem entender e de forma egoísta, sem pensar nos demais: a chegar do trabalho ou da escola na hora que quiser, a fazer as refeições diante da televisão ou no sofá, em deixar os objetos pessoais em qualquer lugar. Um lar onde o almoço e o jantar diários não têm horários definidos; onde a TV, permanentemente ligada, se torna ocasião de perdas de tempos e não favorece a leitura, a audição de boas músicas, o bate-papo familiar, o estudo. Toda essa indisciplina se torna deletéria para o crescimento humano e espiritual de cada membro da família.

        As rotinas dos encargos que cada membro da família deve cumprir – das crianças aos adultos – se inserem dentro da virtude da ordem, e trazem imensos benefícios a todos os membros da família, e também às crianças: é fonte de estabilidade e segurança ao dar certeza sobre o que fazer em cada momento, faz crescer o sentido de responsabilidade, promove a disciplina interior ao deixar uma atividade e iniciar outra, controla os afetos que tendem apenas ao prazeroso, facilita a obediência, cria na casa um ambiente sereno onde a televisão e outras mídias se mantém desligadas e só serão utilizadas de modo programado e em horários pré-determinados, o que permite que as pessoas tenham tempo para pensar, ler, dialogar ou concentrar-se em suas tarefas…

    5 – Rotinas também nos fins de semana

        É importante que os pais compreendam que a rotina tem sabedoria por trás, não sendo meramente externa, pragmática, tal como buscar uma eficiência organizativa para transformar as pessoas em objetos fabricados em série. É algo muito maior, ligado ao enriquecimento interno de cada membro da família. A rotina é o caminho para a criança alcançar disciplina interior e controlar a afetividade ao se dirigir às atividades seguintes, o que facilita o hábito de dominar o próprio temperamento. De segunda à sexta-feira, a vida já traz certa rotina aos pequenos: retorno da escola, lavar-se, trocar de roupa, almoçar, estudar, encargos na casa, brincar, banhar-se, jantar, dormir. Porém, nos fins de semana os pais ficam sem entender o motivo pelo qual muitas crianças manifestam certo desgoverno na afetividade, desorientação, brigam com os irmãos, quebram objetos por acidente e são desobedientes. Isso pode ocorrer porque os pais não as ajudam a criar boas rotinas, e as deixam à mercê de caprichos.

    Texto de Ari Esteves. Imagem de Anna Nekrashevich.

  • Educar para a solidariedade

    Educar para a solidariedade

    1 – Ensinar a compreender e ajudar aos que sofrem. 2 – A solidariedade é causa de alegria. 3 – Ações solidárias começam na família. 4 – Promover ações solidárias no entorno social

    1 – Ensinar a compreender e ajudar aos que sofrem

        Na encíclica “Fratelli tutti” (todos irmãos), o Papa Francisco lembra a passagem evangélica do Bom Samaritano, e diz: “existem simplesmente dois tipos de pessoas: aquelas que cuidam do sofrimento e aquelas que passam ao largo; aquelas que se debruçam sobre o caído e o reconhecem necessitado de ajuda e aquelas que olham distraídas e aceleram o passo. De fato, caem as nossas múltiplas máscaras, os nossos rótulos e os nossos disfarces: é a hora da verdade. Debruçamo-nos para tocar e cuidar das feridas dos outros? Abaixamo-nos para levar às costas o outro? Este é o desafio atual, de que não devemos ter medo” (FT, 70).

        A solidariedade é a capacidade de compreender o sofrimento dos demais, e faz agir para minimizar essas dores ou dificuldades. Há comportamentos que revelam solidariedade ao dar o próprio tempo aos demais. Quando os filhos abandonam hábitos egoístas (meu tempo, meus jogos, minhas coisas, meus planos, meu esporte, meu, meu, meu…) e aprendem a colaborar, serão mais felizes.

        Os pais devem mostrar satisfação ao observar que o filho teve uma atitude compreensiva em relação a outra pessoa, como também devem manifestar desaprovação se ele foi insensível. Se um filho se concentra apenas em assuntos pessoais e não se envolve em tarefas que não revertam em vantagens apenas para si, seja no lar ou fora dele, nunca aprenderá a trabalhar bem, pois o trabalho é sempre um serviço prestado aos outros e não um modo de ser servido.

    2 – A solidariedade é causa de alegria

        A generosidade é virtude que torna feliz a pessoa; o egoísmo é vício causador de tristeza. A solidariedade, fruto da virtude da generosidade, torna magnânimo o coração e dá aos que a possuem a alegria do amor, que sempre exige sair de si para doar-se aos demais. Os filhos que percebem as necessidades dos outros, tanto na vida familiar quanto na social, aprendem a não reclamar das pequenas carências ou incomodidades, e sabem reconhecer e agradecer o esforço dos pais para levar adiante o lar.

        Muitas pessoas só vivem para satisfazer seus caprichos e prazeres, e por isso sofrem inutilmente ao ver frustrado o desejo de ter algum bem supérfluo! Um coração não solidário é fortemente atraído pela publicidade digital que a cada cinco minutos, e de forma atraente à sensibilidade, faz inúmeras ofertas tidas como “indispensáveis” para a vida. Educar o coração para a solidariedade é ter um modo de vida sóbrio, desprendido, e pensar nos demais. Os pais devem ensinar desde cedo as crianças a fugirem do assédio consumista, dos modismos e grifes.

    3 – Ações solidárias começam na família

        Não deve ser necessário à mãe pedir ao adolescente para limpar o quintal, recolher a sujeira que o cachorro deixou ou manter em ordem o quarto e objetos pessoais. Um filho sensível, consciente de suas obrigações − porque lhe foi ensinado desde criança a ser solidário − faz tudo isso sem que lhe peçam, pois se sente movido pelo amor que deve se manifestar primeiramente em obras de serviço aos seus pais e irmãos. Porém, como nem sempre essa sensibilidade está à flor da pele, é necessário que os pais incentivem os filhos, desde pequenos, a empreenderem ações de serviço dentro da família: manter suas roupas e brinquedos em ordem, dispor a mesa para as refeições, cuidar de um irmão enfermo ou ajudá-lo nas disciplinas escolares, levar o lixo para fora, fazer compras, limpar a casa… Muitas mães postaram no Youtube diversos serviços domésticos que podem ser atribuídos aos filhos, nas diferentes faixas etárias (confira em staging.ariesteves.com.br/tarefas-para-criancas/). Essas tarefas ajudarão a incutir nas crianças o espírito de serviço e de prontidão, que as tornará solidárias e participantes na construção de um lar alegre, limpo, ordenado, onde todos contribuem par isso. Filhos sem tarefas familiares se sentem meros hospedes com a falsa ideia de serem sujeitos apenas de direitos e não de obrigações, o que os torna senhores feudais tendo servos os pais.

    4 – Promover ações solidárias no entorno social

        A sociedade atual, sacudida e desagregada por tensões e conflitos, e por inúmeros individualismos e egoísmos, pode ser modificada se os filhos crescerem não só no sentido de justiça, mas no de amor e solicitude desinteressada pelos demais, especialmente pelos mais carentes. Para isso, podem ser estimulados a promover obras de solidariedade na sociedade em que vivem. Por exemplo, junto com um amigo pode visitar a casa de repouso de idosos do bairro ou um orfanato, e levar doces ou tocar algum instrumento musical para alegrar por alguns momentos os que ali vivem; podem também promover na escola ou no bairro campanhas de doação de alimentos para famílias carentes. Ao filho ou filha de 4 a 6 anos, o pai pode animar a doar brinquedos que estejam em boas condições e não são mais utilizados, indo visitar com a criança alguma família carente do bairro, a fim de ofertar os brinquedos. Tais ações, além de evitar a indiferença e o egoísmo de pensar em si mesmos, construirá na alma dos filhos o desejo futuro de se empenharem na solução de tantos problemas sociais.

    Texto de Ari Esteves. Imagem de Klrill Ozerov.

  • Quando o mundo nos fala

    Quando o mundo nos fala

    1 – Há muitas maneiras de olhar para uma mesma realidade. 2 – Pensar bem antes de clicar o play de uma imagem. 3 – O olhar egoísta torna a alma insensível. 4 – A temperança faz contemplar o mundo com um novo olhar

    1 – Há muitas maneiras de olhar para uma mesma realidade

        Há diversas maneiras de olhar para a mesma realidade: um fotógrafo ou pintor olhará para uma mesa repleta de alimentos de modo diferente do olhar ansioso do glutão. Em nosso dia a dia, olhamos para um outdoor da cidade de modo diferente daquele que contemplamos um nascer ou pôr de sol. As diferentes formas de olhar não ocorrem apenas pelas circunstâncias do momento, mas têm a ver com o modo de nos relacionarmos com o mundo.

        Olhar para a realidade de uma maneira nova é não se fixar em um aspecto ou na utilidade do que temos diante dos olhos. Chama-se olhar contemplativo aquele que não procura apropriar-se de modo egoísta daquilo que vê, mas que se mantém em prudente distância para descobrir o algo divino que ali se esconde.

        A virtude da temperança modera o desejo de açambarcar as realidades para usufruir delas de modo possessivo. A palavra latina temperare significa “misturar as coisas em sua dose certa”. A pessoa temperada não se deixa absorver pelo imediato, mas vai além, pois sua atitude aberta, atenta e silenciosa a predispõe para ir ao núcleo das coisas, e aprender do mundo que a rodeia.

    2 – Pensar bem antes de clicar o play de uma imagem

        Ser temperado no desejo de conhecer permite o olhar contemplativo que atinge o núcleo das realidades que permeiam o mundo. O olhar intemperado e de insaciável curiosidade que borboleteia de uma coisa para outra, tal como quem procura imagens nas redes sociais, se detém apenas no periférico do mundo, pois só deseja buscar o prazer da percepção sensível ou o gosto fugaz do consumo de novas informações: é a “concupiscência dos olhos”, de que fala João em seu Evangelho. Tomás de Aquino diferencia a curiosidade da estudiosidade, sendo que esta última encontra a dose justa (temperada) do desejo de conhecer, removendo os obstáculos que impedem chegar à raiz ou profundidade dos elementos contemplados, sem se importar com o esforço e fadiga que o processo de aprendizagem acarreta.

        Muitos cedem à curiosidade porque preferem ficar na periferia de sua existência ou das coisas que observa. É conhecida por todos a frase de Cristo de que o olho é a luz do corpo, o que permite dizer que o olhar contemplativo ilumina a mente e o coração, o que fez Ele observar que os lírios do campo se vestiam melhor do que o Rei Salomão! O olhar fugaz cega cada vez mais para ver com profundidade a si próprio. Navegar à toa pelas redes sociais e internet traz experiências insensatas que confundem a mente e o coração, impedindo a pessoa de habitar em si mesma. O mundo da distração impede o esforço de ir à interioridade pessoal, onde se encontra Aquele que pode saciar a sede de cada pessoa. Agostinho, Bispo de Hipona, no Século IV, expressou esta experiência assim: “Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas. Estavas comigo, mas eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem”.

        O olhar que penetra até o núcleo das realidades é sereno e detém-se sem pressa na contemplação das realidades, e antes de clicar o play de uma imagem, indaga-se se isso é verdadeiramente relevante. O sábio prescinde do que faz mal à alma, e do que impede o desenvolvimento do pensamento, e assim livra-se de muitas escravidões.

    3 – O olhar egoísta torna a alma insensível

        O olhar possessivo da pessoa intemperada filtra tudo pelo interesse imediato e egoísta, e só tem um ponto de mira, sendo que tudo o mais se torna opaco como a visão de um animal que procura apenas saciar seu apetite. Quem age assim vê o mundo pelo benefício imediato que pode receber dele.

        A intemperança é destruidora e torna a pessoa insensível para perceber as nuances dos acontecimentos e das pessoas que a cercam, o que torna suas decisões arriscadas pela falta de um autêntico conhecimento da realidade: o guloso, preso pelos prazeres do paladar, não percebe a criatividade e beleza de uma mesa artisticamente bem-posta; e ao não desfrutar do estético, pouco poderá ter uma conversa enriquecedora com alguém.

        O olhar interesseiro não percebe as necessidades dos demais, e influi negativamente nas relações com os outros, pois tende a considerar as pessoas do ponto de vista do benefício que podem trazer ou do favor que poderá obter. A cegueira do espírito que faz não perceber a singularidade e a riqueza da personalidade do outro, provém de uma consciência distorcida pela intemperança, que conduz o coração a buscar torcidos interesses: quem manipula o próximo não é capaz de amar verdadeiramente.

    4 – A temperança faz contemplar o mundo com um novo olhar

        A temperança faz contemplar o mundo com um novo olhar, que descobre maravilhas insuspeitadas. A moderação purifica o coração e cria uma relação serena que desenvolve a sincera atitude de não se deixar arrastar pela utilidade e benefício que as pessoas ou realidades podem oferecer. O primeiro efeito da temperança é trazer tranquilidade à alma, fruto de uma ordem interior. O olhar desprendido e limpo percebe os verdadeiros tesouros, faz crescer a sensibilidade para notar os detalhes preciosos e diversos que as realidades e as pessoas possuem, tal como o olhar não utilitário, mas contemplativo dos artistas e poetas.

        A temperança concentra as forças em projetos e ideais que valem à pena. Não olhar desnecessariamente para o celular, nem curiosear na internet durante o trabalho ou estudo, pode parecer coisa de pouco valor, mas trata-se de pequenas renúncias decisivas para concentrar as potências interiores naquilo que vale a pena: quem diz “não” àquilo que dispersa a mente, diz “sim” ao que realmente importa. Este esforço desenvolve a interioridade e contribui para fugir do superficial e perdas de tempo, e a “A vida recupera então os matizes que a intemperança descolore. Ficamos em condições de nos preocuparmos com os outros, de compartilhar com todos as coisas pessoais, de nos dedicarmos a tarefas grandes”, dizia Josemaria Escrivá (Amigos de Deus, n. 84).

        O olhar desprendido, sereno e transparente faz descobrir a beleza de tudo o que existe. A temperança faz desfrutar mais das realidades espirituais e das sensíveis ou materiais. Livrar-se da busca ansiosa do prazer e da autoafirmação, permite descobrir a beleza até nas coisas mais delicadas e discretas como a de uma pequenina flor que desabrocha entre as pregas do cimento de uma via, ou da simplicidade das pombas que sempre cedem passagens aos homens que seguem pela calçada. “Alguém disse, não sem razão, que somente o que tem um coração limpo é capaz de rir de verdade. Não é menos certo que somente pode perceber a beleza do mundo aquele que o contempla com um olhar limpo” (Pieper, As virtudes fundamentais, Cultor de Livros, São Paulo). A pessoa temperada aprofunda mais na verdade das coisas, pois o mundo lhe fala de Deus. Quem embarcar nesta aventura poderá repetir aquela exclamação de São Josemaria: “Meu Deus! Encontro graça e beleza em tudo o que vejo” (Forja n.415).

    Texto extraído, adaptado e completado por Ari Esteves com base no artigo “Y entonces, el mundo te habla”, de Maria Schoerghuber, em www.opusdei.org.es. Imagem de MIkhalL Nllov).

  • Imaturidade

    Imaturidade

    1 – Motores da conduta: vontade e sentimentos. 2 – Adultos infantilizados. 3 – Características da imaturidade. 4 – Características positivas da personalidade. 5 – Graus mais leves de imaturidade. 6 – O que torna negativa a imaturidade. 7 – Para crescer em maturidade

    1 – Motores da conduta: vontade e sentimentos

         No ser humano existem dois motores que determinam a conduta: a vontade, que segue as indicações da inteligência, e a afetividade, que é movida pela força irracional das emoções e sentimentos provocados por estímulos externos e internos. A maturidade psicológica consiste no domínio habitual da força da afetividade pela força da vontade. Nas pessoas imaturas, a memória, imaginação e pensamento, assim como a conduta, funcionam por impulsos dos estados afetivos, ou seja, emoções e sentimentos que são muito intensos e de predomínio negativo: ansiedade, temor, ira, tristeza e reagem a estímulos internos e externos.

         Uma das consequências mais importantes da imaturidade é a influência intensa que a afetividade exerce sobre a inteligência, o que faz com que essas pessoas distorçam a percepção da realidade física, pessoal e social, tendo importantes dificuldades de adaptação social. A maturidade tende com o tempo a provocar patologias de maior ou de menor intensidade.

    2 – Adultos infantilizados

         Quando se diz que uma pessoa adulta é como uma criança, ou que é um pouco infantil, se quer significar que é imatura. Também se costuma dizer que uma criança é muito madura para significar que é senhora de si, e que isso não se baseia na mera biologia, mas no comportamento dela. Considera-se maduro quem se comporta de acordo com a razão, que é a faculdade que julga se o comportamento é adequado ou não: não agir com maturidade revela que a pessoa foi movida não pela inteligência, mas pela afetividade.

         As crianças agem principalmente movidas pela afetividade, sendo que seus pais são para elas a razão e a vontade ao indicar-lhes o que devem ou não fazer. Para que as crianças se comportem como os pais querem, devem gerar nelas emoções e sentimentos mediante estímulos e medidas disciplinares, até que desenvolvam suficientemente própria razão e vontade (por volta dos seis ou sete anos). Embora dominadas pela afetividade, as crianças não são chamadas de imaturas, mas apenas de crianças. Porém, quando um adulto se comporta como criança, impulsionado principalmente pela afetividade, não o chamamos de criança, mas de imaturo, ainda que às vezes dizemos que se comporta como uma criança ou é infantil.

    3 – Características da imaturidade

         A imaturidade apresenta algumas características: sentimento de inferioridade ou diminuição da autoestima, sensação de insegurança, baixo autoconhecimento devido a uma fraca capacidade de introspecção, impulsividade, dependência emocional do ambiente devido ao baixo autocontrole. Além disso, como derivadas da fraca autoestima e insegurança, as pessoas imaturas têm escassa confiança em si mesmas e por isso vivem em permanente ansiedade ou temor.

         Derivadas das características acima mencionadas, os adultos imaturos apresentam também outras características visíveis da personalidade: intensa timidez, introversão, instabilidade emocional, excessiva preocupação, hipersensibilidade e susceptibilidade emocional, desconfiança, baixa tolerância à frustração e reações desproporcionadas perante ela, tendência a refugiar-se na fantasia, lançar a culpa nos outros, fugir das responsabilidades por medo de fracassar, excessiva necessidade de apoio e afeto dos outros. Essas pessoas correm o risco maior de serem infelizes e podem apresentar problemas psiquiátricos. A infelicidade dessas pessoas se expressa em forma de sentimentos de insatisfação e frustração, constante irritabilidade e propensão à violência verbal, e o recurso frequente ao álcool, cigarro, estimulantes, analgésicos, tranquilizantes e até drogas.

    4 – Características positivas da personalidade

         Toda pessoa possui características positivas em sua personalidade, que derivam da interação da predisposição genética e hábitos adquiridos pela repetição de atos positivos. Algumas dessas características são: bom sentido artístico ou musical, habilidade manual, grande energia física, sociabilidade, caráter divertido ou afetuoso. Porém, nas pessoas imaturas as características negativas são mais frequentes que as positivas, e a intensidade dependerá do grau de imaturidade.

    5 – Graus mais leves de imaturidade

         Há pessoas com graus leves de imaturidade que em situações externas favoráveis apresentam funcionamento psíquico e comportamento externo maduros, mais como um verniz ou fachada de normalidade, pois em situações mais difíceis elas fazem notar o seu núcleo de imaturidade em forma de condutas inadequadas. Em outros casos, o núcleo da imaturidade está oculto durante os anos de juventude, graças a um grande esforço de vontade que controla a força dos afetos negativos, mas, ao chegar por volta dos 40 anos, e com a diminuição da resistência psicológica e o declínio da força de vontade, pode-se apresentar manifestações de imaturidade, que aumentam ou se mantém no tempo com intensidade incômoda para os próprios sujeitos e as pessoas que os cercam.

    6 – O que torna negativa a imaturidade

         A imaturidade psicológica é o predomínio da afetividade sobre a vontade. Mas sendo que os conceitos de vontade e afetividade são positivos, o que torna negativa a imaturidade são dois motivos: o predomínio do inferior (afetividade) sobre o superior (razões e vontade), e um possível caráter negativo de sua afetividade, fazendo que o imaturo apresente frequentes e intensos afetos negativos, que dominam seu funcionamento psíquico e o comportamento habitual.

    7 – Para crescer em maturidade

         O ser humano possui capacidade de ter afetos positivos e negativos. Os negativos são mais frequentes e passivos, isto é, a pessoa os sofre por influência das condições biológicas ou externas (ambientais). Os positivos, ao contrário, são ativos no sentido de que dependem do esforço do sujeito para adquiri-los e mantê-los. Esse esforço é o meio imprescindível para progredir no caminho da maturidade psicológica. As pessoas imaturas não se esforçam o suficiente e por isso não conseguem o domínio voluntário da sua afetividade, razão pela qual a sua vida psicológica acaba sendo dominada por afetos negativos de grande intensidade.

         Tudo o que o ser humano possui tem uma finalidade, um sentido, e os afetos positivos e negativos não são uma exceção. Mas estes últimos, se não forem mantidos sob o domínio da razão e da vontade, a fim de que sejam adequados em intensidade diante dos estímulos que os produzem, podem deteriorar ou bloquear o funcionamento psíquico apropriado e chegar a produzir enfermidades físicas e psíquicas. Podem também ser a origem de comportamentos inadequados e perigosos para o próprio sujeito e para as pessoas ao seu redor.

    Texto extraído e adaptado por Ari Esteves com base no livro “Maturidade psicológica & Felicidade”, de Fernando Sarráis, Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2020. Imagem de Aguida Medeiros (@aguidamedeiro).

  • Os ideais e o adolescente

    Os ideais e o adolescente

    1 – Ter ideais. 2 – O ideal se conquista com esforço. 3 – Ausência de ideais. 4 – Como encontrar o próprio ideal. 5 – O futuro não depende da sorte

    1 – Ter ideais

        Ter ambições elevadas, sonhos altos de transcender a si para se pôr ao serviço dos demais, cabe no coração dos adolescentes. Aos quinze anos, muitos jovens, ao se sentir emulados, se espelharam em pessoas a quem admiravam pelo seu saber artístico, técnico ou científico, e seguiram seus passos.

        Louis Pasteur, cientista francês, cujas descobertas tiveram enorme importância na história da química e da medicina, ao tomar posse na Academia Francesa, disse: “Feliz de quem traz em si um deus interior, um ideal de arte, ideal de ciência…”. Ter um ideal, já na adolescência, é a indicação de uma meta a ser alcançada e dos meios para consegui-la. Quem tem uma direção, organiza-se para colocar em andamento o seu projeto, canaliza seus sentimentos e a determinação da vontade para esse alvo.

        Quando um ideal se apodera de alguém, vem a ser o princípio diretor das ideias, dos desejos, afetos e ações. Aspirar a algo valioso é condição necessária para dar sentido à própria existência e orientar as energias.

    2 – O ideal se conquista com esforço

        Para viver um ideal é relevante a educação nas virtudes para não ceder ao mais fácil. Formar nas virtudes requer salientar a importância da exigência pessoal, do empenho no trabalho e no estudo, no espírito de serviço aos demais, na temperança, pois esses bens estão acima dos desejos materiais e facilitam a compreensão das realidades do espírito, onde reside o verdadeiro ideal, aquela aspiração que ajudará outras pessoas.

        Quem deseja algo com entusiasmo, com sentimentos, mais facilmente enfrentará as dificuldades. É preciso armar-se de coragem para contribuir com o melhor de si ao serviço dos demais, que é o verdadeiro sentido do amor. Para isso, e preciso corrigir os traços do temperamento que se opõem à entrega de um ideal, às inclinações pessoais que não permitem tirar todo rendimento das qualidades pessoais. Ficar na base da montanha é mais cômodo que subir ao cume para divisar lonjuras. Preferir uma vida tranquila, sem dor ou embaraços deixa, por fim, um sabor amargo.

        Daniel O´Connell, líder irlandês que no início do século XIX lutou pelos direitos dos trabalhadores, quando ainda era adolescente dizia que “Ainda que a natureza não me tenha dado talentos de primeiríssima ordem, jamais me contentarei em ser medíocre na minha profissão”. Thomas Edison, americano criador de vários dispositivos de comunicação e de sistemas de energia elétrica, utilizados até hoje, e especialmente conhecido como o criador da lâmpada incandescente, disse aos seus interlocutores, que o julgavam ser um gênio: “Que balela! Afirmo que o segredo do gênio é o trabalho… O gênio se compõe de 1% de inspiração e de 99% de transpiração”.

    3 – Ausência de ideais

        Sempre encontraremos pessoas indiferentes à vida que poderemos ajudar com a nossa palavra. A ausência de convicções causa muito mal, e faz perder o tempo ao esperar por algo que nunca irá se concretizar. Não é racional andar à toa, levar a vida na flauta, sem indagar-se sobre qual é a missão que lhe está destinada, qual a contribuição pessoal para melhorar a vida de tantas pessoas que sofrem. A indiferença nesse ponto leva ao endurecimento do coração, que é a antecipação do fracasso. Quem vive satisfeito na mediocridade, na vida cômoda e egoísta, tenderá a ceder cada vez mais nesses aspectos.

        Evidentemente há aqueles que, influenciados pelos aspectos exteriores da pessoa, sonham com ideais de fama, desejo de ter influência nas mídias ou possuir muito dinheiro, mesmo que interiormente sejam vazios de valores humanos. Porém, é fato mais que comprovado por inúmeros testemunhos dos que buscaram falsos ideais, que tarde demais constataram que só se é feliz no amor, na doação, pois o egoísmo, o estar obcecado por si mesmo, conduz à tristeza. Seria bem oportuna a leitura do boletim “As motivações humanas: o que o leva a agir?”.

        No inferno de Dante as almas covardes sofrem tormentos especiais. O poeta ouve os gritos de cólera e os uivos de dor dessas almas, e pergunta ao seu cicerone: − Quem são essas almas que parecem tão profundamente mergulhadas no luto? O mestre responde: − Tal estado miserável é o das almas tristes que viveram sem infâmia e sem louvor; o céu as rejeita para que lhe não alterem a beleza. Nenhuma lembrança deles subsiste no mundo; a justiça e a misericórdia os desprezam. Não discorramos sobre eles: veja e segue”.

    4 – Como encontrar o próprio ideal

        Examinar as possibilidades pessoais. Blackie dizia que a energia moral se adquire pelo exercício dos livros e discursos, e podemos entender por isso a busca por palestras, aulas, lives, vídeos selecionados com bons conteúdos, testes para identificar as aptidões pessoais, etc. Essa busca será a sinaleira que facilitará o encontro de uma tarefa útil, que depois deverá ser empreendida pelos pés e pelo esforço da vontade. A vontade é a faculdade que age de acordo com as leis da razão, e ajudará na busca por encontrar o melhor modo de prestar um serviço útil a si e a todos. A vontade crescerá mediante o esforço de enfrentar a volubilidade de ânimo, a indolência, a apatia natural para certos esforços ou estudos. Porém, os sentimentos também podem ajudar, pois quem realiza algo com sentimentos e paixão, consegue fazer melhor, pois enfrentará com mais forças as dificuldades para atingir a meta que busca.

        Bernardo de Claraval dividia os homens em duas grandes categorias: os que querem saber só para saber, que acendem suas luzes à noite e as apagam ao primeiro clarão do dia, e se empalidecem sobre os livros para devassar os segredos da natureza ou assimilar o pensamento dos autores; e há os que trabalham para um fim mais nobre e cultivam a inteligência a fim de a consagrar ao serviço do bem. A sabedoria está em tirar proveito da instrução para transformar a própria vida em serviço aos demais: é nessa decisão de entrega, de doação de si, onde reside o verdadeiro amor e, consequentemente, a felicidade.

        Muitos dons que os adolescentes possuem são desperdiçados bobamente porque lhes falta o essencial: uma vontade forte, um caráter resoluto, um querer com tenacidade. Há uma curiosa lenda que fala de um menino que numa noite de verão contemplava as águas de um poço, e ficou maravilhado ao ver flutuar nelas infinitas estrelas. No dia seguinte, ao voltar à beira do poço não viu mais os astros e retornou triste para casa dizendo a todos que eles se tinham afogado. Hoje, a estrela de muitos adolescentes não consegue brilhar porque a inteligência deles se tornou preguiçosa, e o esforço de perseguir algum ideal que vale a pena sucumbiu diante das telas de games e celulares.

    5 – O futuro não depende da sorte

        O futuro não depende da sorte ou do acaso, mas do empenho que se coloca no momento presente. Cada pessoa é responsável pelo seu porvir, que se conquista com o que realiza agora. Já dizia Carlyle que “O viver é uma conjugação ininterrupta do verbo fazer”. Cada um deve examinar suas forças, suas qualidades, tendências e gostos para aproveitá-los na busca de um afazer que torne melhor o mundo em que vive. Para essa reflexão se pode buscar ajuda dos pais, professores ou amigos prudentes e com experiência de vida, mas a decisão será sempre pessoal.

        Enamorar-se da beleza, da verdade e do bem, faz aproveitar melhor o tempo e as horas de trabalho e de descanso, e organiza as potências espirituais e morais. A razão se torna soberana e os sentimentos e paixões se inclinam a ela. O ideal regula e ordena as ações, realça, embeleza e transforma as miudezas da vida. O ideal valoriza os talentos e habilidades e tendências inatas, desenvolve as qualidades intelectuais e as morais.

    Texto extraído e adaptado por Ari Esteves, com base na obra “Rumo à cultura”, de L. Riboulet, Editora Globo, Porto Alegre, 1960. Imagem de Pixabay.

  • Harmonia entre vontade e sentimentos

    Harmonia entre vontade e sentimentos

     1 – É imaturo quem se deixa guiar pela afetividade. 2 – O conhecimento superficial de si. 3 – Autocontrole: domínio da vontade sobre os afetos. 4 – A vontade fortalecida coloca os afetos nos eixos

    1 – É imaturo quem se deixa guiar pela afetividade

          Quando não se chega a alcançar a maturidade, a pessoa se deixa influenciar pela afetividade (sentimentos, emoções, paixões), que passa a orientar as ações, e não a decisão da vontade. Com isso, a pessoa consegue se sentir bem a curto prazo, pois faz o que lhe apetece afetivamente no momento. Isso produz prazer imediato aos sentidos (sensorial), mas logo vem a decepção ou chateação pelo dever não cumprido. Por vezes, para neutralizar esse sentimento de mal-estar, o imaturo volta a fazer coisas que lhe permitam sentir-se bem de imediato, e assim acaba caindo em círculo vicioso.

           O domínio da vontade sobre a afetividade também favorece o controle sobre as demais funções psíquicas: percepção, memória, imaginação e pensamento. No início, o exercício desse controle supõe tensão e cansaço, que a curto prazo pode ser desagradável; porém, a médio e a longo prazo, a vontade fortalecida conseguirá que a memória e a imaginação se concentrem naquilo que se está fazendo, e isso produzirá maior eficácia nas ações.

         A afetividade busca desfrutar a curto prazo daquilo que mais agrada, e por isso deve ser comandada pela razão e vontade, que buscam analisar, por meio da inteligência, os demais aspectos da realidade, o que não acontece com a sensibilidade, que busca só o que a agrada de imediato. Por exemplo, a paixão ou instinto de comer só busca a sua satisfação e pode levar o diabético a ingerir um pudim de limão; porém, a razão ao examinar outros aspectos, terá presente que a saúde é um bem maior do que o gosto instintivo, e indicará para a pessoa não comer o doce, a fim de evitar a alta dosagem de açúcar no sangue. As batalhas entre a afetividade e a vontade, quando ocorrerem, travam-se em muitos aspectos da vida psíquica. Os sentidos (ouvido, paladar, tato…) ao evitar o desagradável e buscar o agradável, excitante e divertido, o faz mesmo que isso não seja oportuno: leva a comer e a beber o que deveria ser evitado ou por em quantidades demasiadas; leva a ouvir o que agrada, mesmo que distraia das obrigações ou incomode aos demais, etc.

           A afetividade não deve ser reprimida ou anulada, mas submetida ao âmbito da inteligência, que é a capacidade reitora da pessoa humana: é a imagem do cavaleiro conduzindo o cavalo, e não ao contrário. No início será necessário enfrentar o choque entre a vontade e a afetividade: fazer o que não a agrada aos sentidos, ou não fazer o que os agrada, se isso representa uma desordem. Esse choque interno é acompanhado de algum desgosto que pode inclinar a balança para o lado da afetividade, já que para se livrar desse sentimento de desagrado a via mais rápida – e não a mais correta – será ceder em favor dos afetos e emoções, que impulsionam a escolher o que agrada de imediato.

    2 – O conhecimento superficial de si

           A maioria das pessoas tem um conhecimento superficial de si e acerca dos demais. A sociedade atual é qualificada de audiovisual e hedonista porque busca prioritariamente as sensações produzidas pelos sentidos, ao mesmo tempo que valoriza desmedidamente o corpo e a aparência física, ensina Fernando Sarráis1. Pessoas fascinadas pela maneira superficial de viver, pouco se interessam pela raiz de suas vivências interiores ou psicológicas, e por isso não são capazes de construir-se de uma maneira propriamente humana, madura, nem sabem valorizar seus aspectos interiores que, por serem mais ricos, podem oferecer muito mais: como utilizar bem um aparelho ao não saber como funciona? Ao conhecer o seu funcionamento, se desfruta mais com o seu uso.

           Perceber o que se sente em determinado momento é fácil, mas chegar a conhecer os motivos que levam a tais sentimentos não é tão fácil, pois exige conhecer o modo de ser psicológico, que tem várias camadas que podem encobrir as deficiências da personalidade. Deter-se apenas na análise superficial do comportamento é fácil, mas parcial: ter como causa de uma irritação o insulto recebido é fácil, porém, deve-se ir mais a fundo para saber se a afronta sofrida não terá como causa porque se é uma pessoa não grata por ser egoísta ou orgulhosa. O mesmo pode acontecer a quem se sente inferiorizado, pois a necessidade de ser valorizada pelos demais a faz ser muito suscetível a ponto de reagir de modo desproporcional diante de uma mínima desfeita.

           Todas as pessoas têm aspectos positivos e negativos, sejam de temperamento ou de caráter, e o desejo de melhorar, de transformar o negativo em positivo, torna a pessoa otimista, pronta para uma luta alegre e esportiva. Quem não teme identificar seus próprios defeitos, erros ou limitações é realista e chega a se conhecer com profundidade (a ausência de medo não distorce sua autoavaliação). O conhecimento realista de si vem acompanhado de um conhecimento realista do mundo, o que ajuda acertar na escolha dos meios necessários para alcançar as metas pessoais.

          Para conhecer-se com profundidade, um fator importante é gostar de si mesmo, e sentir-se valorizado não pela admiração que os demais tenham por si, mas pela própria dignidade da pessoa humana, que se fundamenta em ter sua alma criada por Deus, e pelo amor que Ele tem por cada filho seu. Ter um sadio amor a si leva a agradecer as próprias qualidades, recebidas gratuitamente de Deus, e a conhecer e a lutar contra os defeitos ou imperfeições do caráter ou do temperamento, sem nunca se sentir inferiorizado (a falta de amor a si leva a sentimentos de inferioridade). A estima de si é forte motivação para o autoconhecimento, que leva a se sentir seguro na luta por melhorar, porque se sabe aonde ir e aonde se quer chegar. O sadio amor a si impede conviver com as próprias falhas comportamentais, tal como não se quer conviver com bactérias nocivas dentro de si. Para conseguir que a afetividade não seja influenciada por sentimentos negativos que abafem a vontade, também é importante ter uma visão positiva de si, e saber rir das circunstâncias adversas, vendo nelas oportunidades de superação pessoal, pois tal atitude exerce influência favorável ao funcionamento da vontade.

    3 – Autocontrole: domínio da vontade sobre os afetos

          Em nossa época há grande interesse em conseguir uma boa aparência física, e se dá menos importância para conhecer o funcionamento dos aspectos psicológicos, a fim de que sejam maduros e sadios, razão essa de ocorrer tantas enfermidades psíquicas nas diferentes idades, inclusive na infância. Na sociedade atual, o sofrimento ou esforço não é malvisto para melhorar a performance esportiva, acadêmica ou profissional, porque é o preço a pagar pelo êxito no mundo exterior; mas não se vê com bons olhos o esforço interior para ser audaz, sincero, laborioso, casto, temperado, fiel. Porém, o desenvolvimento psicológico supõe esse esforço interior como condição para desenvolver as virtudes, necessárias para se conseguir o equilíbrio entre cabeça e coração (entre vontade e afetos): o mundo interior sendo mais rico que os aspectos exteriores, podem oferecer muito mais!

          Autocontrole é o domínio que a vontade exerce sobre as funções psíquicas e afetivas que influenciam o comportamento. Para consegui-lo é necessário um desenvolvimento suficiente da força de vontade, a que chamamos de virtude da fortaleza, que é conseguida pelo habitual treinamento de fazer o que deve ser feito, sendo isso determinado pela inteligência ou razão (no caso das crianças, pela inteligência de seus educadores). Querer fazer o que se deve ser feito é ato da vontade, e não dos sentimentos: querer é um ato da vontade ou do livre-arbítrio, e gostar é uma inclinação dos sentimentos (portanto, irracional). Por vezes, podemos não gostar do que deve ser feito, mas esse querer, sendo um ato da vontade, e esta é movida pelo amor (o amor é ato próprio da vontade), dá forças a ela para superar a falta de gosto dos sentimentos: uma mãe que levanta de madrugada para atender ao filho, o faz por amor − por um querer da vontade −, já que o gosto de seus sentimentos seria para continuar na cama.    

          No processo de aprendizado do autocontrole, também chamado de educação da afetividade, podem ocorrer três etapas:

        1ª) As crianças pequenas, porque nelas a afetividade é dominante, devem ser orientadas pelos pais.

        2ª) A etapa do equilíbrio entre afetividade e vontade na adolescência, porque essas duas potências interiores podem conflitar-se e fazer levar a uma vida dupla: agir com lógica e liberdade como se fosse adulto, ou agir sem lógica feito criança movida pelos sentimentos e emoções.

        3ª) Etapa das pessoas adultas e maduras, onde a afetividade e a vontade têm poucos conflitos, porque com frequência se age na direção do que é bom e correto. É a etapa da razão que move a vontade, e esta arrasta a afetividade atrás de si para apoiar a decisão.

    4 – A vontade fortalecida coloca os afetos nos eixos

           Nos momentos de conflito, e para superar a falta de gosto decorrente do enfrentamento entre a afetividade e a vontade, é necessário ter uma vontade forte para querer seguir o que a razão indica, e não o que determinam os afetos. Fortalece-se a vontade por meio de pequenos exercícios diários de domínio próprio: viver a ordem e a pontualidade para não ceder à comodidade da desordem, ao não abrir a geladeira fora de hora (controle dos instintos), ao colocar esforço para manter a atenção naquilo que se faz, ao cumprir uma disciplina diária (horário de dormir, de acordar e de refeições; pontualidade no trabalho, etc.). Esses pequenos vencimentos fazem não ceder imediatamente aos caprichos e comodidades, e com isso a força dos afetos diminuirá ou será canalizada para apoiar a vontade naquilo que é correto fazer.

    1Texto extraído e adaptado da obra “Maturidade Psicológica & Felicidade”, de Fernando Sarráis, Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2020, por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Desenho de Aguida Medeiros (@aguidamedeiro)

  • A fortaleza transforma os obstáculos em oportunidades

    A fortaleza transforma os obstáculos em oportunidades

    1 – Somos colocados à prova. 2 – A fortaleza robustece as convicções. 3 – O forte é paciente. 4- Dar um motivo maior aos nossos esforços. 5 – Ter um modelo de fortaleza.

    1 – Somos colocados à prova

        Em nosso dia a dia há momentos de descontração e de contrariedades, e estes sempre nos põem à prova. É preciso aprender a encaixar tanto esses momentos difíceis, quanto aqueles dias em nada saiu como o planejado. A virtude da fortaleza tem a ver com isso, porque transforma os obstáculos em oportunidades e experiências vividas. Com isso, tornamos a orientar nossas ações uma e outra vez na direção correta, e sem sofrer rachaduras irreparáveis, pois tudo na vida passa e as circunstâncias externas sempre podem mudar.

        Há coisas não necessárias para ser felizes, e que às vezes se apresentam como imprescindíveis. Isso pode suceder com certas comodidades que hoje são quase moeda corrente, mas também com outras necessidades que podemos criar, sem nos darmos conta. Desejamos ser suficientemente livres para que as circunstâncias externas não tomem decisões por nós: um incomodo não deve nos roubar o sorriso, o cansaço não deve nos vencer tão rapidamente a ponto, por exemplo, de chegar cansado do trabalho e não dar atenção à criança que deseja contar algo, não renunciar um gosto pessoal em favor de outra pessoa… A fortaleza nos faz menos dependentes de tudo que não seja o amor de Deus, de modo que estejamos contentes entre todo tipo de pessoas, em qualquer lugar, e dedicando-nos a qualquer tarefa.

        Basta um olhar realista ao mundo para reconhecer a necessidade da fortaleza. Notamos que as circunstâncias, positivas ou adversas, nos influenciam. Damo-nos conta da necessidade de sobrelevar certos períodos difíceis sem abater-nos, nem perder a serenidade. Além disso, sabemos por experiência própria que as coisas valiosas requerem esforço e paciência: desde levar adiante uns estudos ou vencer um defeito do próprio caráter, até cultivar relações profundas com outras pessoas ou crescer na amizade com Deus.

    2 – A fortaleza robustece as convicções

        Não devemos ficar com uma visão estreita da fortaleza, como se ela fosse apenas um fatigoso esforço que nos leva a ir contra a corrente. A fortaleza não consiste num exercício acinzentado da vontade por superar-se, não se queixar, resistir diante do que não queremos ou não entendemos. Ver a fortaleza dessa maneira esgota qualquer pessoa. Ser forte consiste mais em robustecer nossas convicções, em renovar sempre o amor que nos move, em fazer brilhar com maior força em nós os bens autênticos. Então iremos eleger cada vez com mais facilidade e gosto aquilo que verdadeiramente queremos.

        Quem carece de fortaleza talvez não seja capaz de evitar um comentário brusco, nem consiga sorrir quando se encontra cansado. Nessas situações, a fadiga é o motivo que pesa mais nas reações ou decisões, e que faz a pessoa perder de vista outras razões pelas quais vale a pena se esforçar.

        “O que se necessita para conseguir a felicidade, não é uma vida cômoda, mas um coração enamorado” (Sulco 79). O caminho de qualquer homem é exigente porque requer um amor cada vez mais profundo, e como diz uma tradicional canção “coração que não quer sofrer dores, passa a vida inteira livre de amores”.

    3 – O forte é paciente

        O forte não se desespera porque sabe esperar. Não perder a serenidade diante de um fracasso, nem se intranquilizar quando os frutos dos esforços tardam a chegar, é obra da paciência, que é virtude anexa da fortaleza. Ser paciente não é consequência de um otimismo simplório, nem resignação, mas fortaleza pura, pois quem sabe suportar uma contradição permanente, tal como uma doença incurável, é mais forte do que aquele que pode enfrentar uma situação que tenha esperança de vencer. A fortaleza é a atitude do homem livre que ama não só por momentos ou temporadas, mas luta com os olhos postos no fim último que o aguarda.

    4- Dar um motivo maior aos nossos esforços

        Quem faz crescer em si a virtude da fortaleza não só é capaz de se sobrepor ao cansaço, como o faz porque percebe que isso causa um bem a si e aos demais. Terá mais facilidade para sobrepor-se e enfrentar suas fraquezas, quem descobre um valor transcendente ou caminho para amar mais a Deu: ao dar um fim mais alto à ação de levantar-se na hora fixa, ou de evitar uma queixa, ou dedicar tempo a alguém quando espontaneamente não o faria, será mais fácil de realizar ao se ter em vista um bem mais alto.

        Cada sacrifico livremente assumido, cada contradição acolhida sem rebeldia, cada vencimento feito por amor, reafirma na pessoa a convicção de que a felicidade se encontra em Deus, mais que em qualquer outra realidade. A luta cotidiana se converte, então, em conquista progressiva do bem verdadeiro, em caminho de esperança. Nas decisões pessoais, buscar habitualmente o bem autêntico dá ânimo para não se conformar com o imediato ou com o efêmero.

        Ser forte é a atitude própria de quem percebe o valor real das coisas. Ver no processo de vencer-se em pequenas coisas não apenas o desafio de sobrepor-se a si mesmo, mas um modo de ser mais livres ao vencer sentimentos (não racionais) que impedem o livre-arbítrio de fazer o bem que custa realizar, mas que a consciência pede para realizar.

        A alegria e a paz dependem mais do que verdadeiramente é querido pela vontade, do que pelas circunstâncias de cada momento, sejam elas externas ou internas. A luta por crescer na virtude da fortaleza leva a enfrentar o medo ao esforço a ser empregado na realização de um bem. O forte sabe perseverar no bem, mesmo que isso não seja o “mais gostoso”.

    5 – Ter um modelo de fortaleza

        Podemos adotar como modelo de fortaleza uma pessoa que conhecemos e que soube exigir-se, seja o pai, a mãe, avós, um amigo, ou algum personagem cuja biografia nos encantou. Porém, quem mais encarnou essa virtude foi Jesus Cristo, que vem sendo modelo de fortaleza para cristãos ou não, pois ele soube relacionar-se com a adversidade e a dor sem construir muros ao seu redor, nem se cobriu com uma armadura para evitar as feridas. Isso é interessante, pois o recurso a muros e armaduras impede o contato e o diálogo com a realidade, e cria uma rigidez que impossibilita mover-se com soltura. Amar o mundo significa ter a capacidade de poder relacionar-se com ele, seja em sua riqueza ou em seus imperfeitos, causados pelas ações humanas. Pedir emprestada a fortaleza de Cristo nos torna mais sensíveis, profundos e metidos em cheio na realidade, sem temores.

    Texto traduzido e adaptado por Ari Esteves, com base no artigo “Te seguiré adonde vayas”, em https://opusdei.org/es/article/muy-humanos-muy-divinos-x-te-seguire-adonde-vayas/. Imagem de Ahha Pbkkoba.

  • Educação comportamental dos adolescentes

    Educação comportamental dos adolescentes

    1 – Transmita carinho a seus filhos. 2 – Ensine-o a expressar seus sentimentos. 3 – Ajude seu filho a se abrir. 4 – Ensine seu filho a ser bem-humorado. 5 – Reforce a solidariedade. 6 – Estimule a criatividade de seus filhos. 7 – A importância da disciplina familiar.

    1 – Transmita carinho a seus filhos

            Desenvolver um bom relacionamento com seu filho adolescente é fundamental para a educação comportamental dele. Não basta querer aos filhos, mas é preciso que eles sintam isso! Abrace-o, beije-o à vontade. As crianças que desde pequenas recebem muito carinho de seus pais ganham segurança, desenvolvem uma mentalidade sã e enfrentam melhor as situações mais exigentes. Crianças que receberam poucas manifestações de carinho desenvolvem ansiedade e se sentem mais facilmente deslocadas em outros ambientes. Mas tenha presente que educar com carinho inclui saber exigir. Portanto, carinho e firmeza com os filhos é o caminho para uma educação assertiva.

    2 – Ensine-o a expressar seus sentimentos

        Os seres humanos se emocionam e necessitam transmitir suas emoções. Sentir tristeza ou alegria é algo que não deve ser dissimulado, pelo menos no ambiente familiar. Transmita a seus filhos suas emoções e facilite que eles façam o mesmo. A manifestação dos sentimentos deve ser proporcional àquilo que o desencadeou: nem muita vibração por algo pequeno ou irrelevante, nem frieza diante de algo relevante. Saber expressar os sentimentos é uma arte.

        Os adolescentes necessitam aprender a analisar o que sentem em determinados momentos, e como conduzir-se diante de sua própria afetividade. Os sentimentos não devem ser reitores das ações (esse papel cabe à inteligência e vontade), mas podem ajudar muito na consecução delas: quem faz algo com entusiasmo, faz melhor! Porém, não se deve fazer as coisas apenas quando se sente gosto ou prazer. É importante que os filhos vençam os sentimentos negativos diante do cumprimento de um dever (estudar, ajudar nos encargos do lar, dedicar mais tempo à leitura do que redes sociais, ensinar matemática ao irmão mais novo, manter ordenados os objetos pessoais, etc.). Ao agir assim adquirem um caráter reto e forte, tornam-se responsáveis e fortalecem a vontade para enfrentar atitudes de preguiça e comodismo reclamadas por tais sentimentos.

        Ao avaliar as causas ou origens dos sentimentos, os adolescentes passam a ter um conhecimento mais profundo da própria maneira de ser e dos hábitos adquiridos (bons ou maus). Essa reflexão, própria da consciência moral ou juízo prático, os levará a colocar os meios necessários para corrigir o que percebem ser um desvio de conduta. Assim, passarão a amar e querer o que é correto, e não o que é mais cômodo.

    3 – Ajude seu filho a se abrir

        Não espere que seus filhos se dirijam a você para contar tudo o que os preocupa ou acontece, pois é provável que não farão isso. A experiência de vida e o conhecimento acerca de cada filho permitirá que você conclua o resto ao fixar-se no modo como se expressam. Faça perguntas descontraídas, conte algo para eles, faça-os falar dos seus gostos. Se perceber que há “jacutinga nesse mato”, você poderá atuar a tempo, sem esperar que algum problema ganhe transcendência.

        Acostumar um filho a ter tudo de imediato e sem esforço é condená-lo a uma vida falsa e ao enfraquecimento do caráter e da vontade. Quando, um dia, ele perceber que sem sacrifício não se alcança ideais valiosos, e porque se sentirá fraco para enfrentar os desafios da vida, irá culpá-los por nunca terem recebido um “não” de vocês, pais.

        Os filhos necessitam sacrificar-se para ter as coisas; não devem ter tudo o que querem ou tudo que gostam, ainda que você possa comprar. E dependendo da idade deles (15, 16, 17 anos) devem ter a preocupação de ajudar economicamente nas despesas da casa, seja dando aulas particulares, fazendo “bicos” nas férias ou fins de semana…

    4 – Ensine seu filho a ser bem-humorado

        A melhor maneira de superar os estados de apatia é movendo-se, e o melhor modo de superar o mau-humor é o sorrir. Sorrir, ainda que não se tenha vontade, não é hipocrisia, mas esforço para tornar agradável a vida dos demais, e isso é uma grande virtude. O sorriso faz bem a todos: a quem ri e aos que estão ao seu redor. Quem aprende a rir de si mesmo, aprende a tirar importância dos problemas e a não ser tão afetado por eles. O sentido de humor é importante na família: o riso e o humor familiar reforçam as relações, aumentam a confiança e a comunicação entre todos (pais que vivem reclamando azedam o caráter dos filhos).

        Reforce o otimismo de seus filhos não à custa de especular sobre possibilidade de motivações extrínsecas (ter objetos), mas ao fomentar motivações transcendentes: colocar suas qualidades − que recebeu gratuitamente de Deus − ao serviço dos demais.

    5 – Reforce a solidariedade

        Mostre sua satisfação ao observar que seu filho teve uma atitude compreensiva em relação a outra pessoa; e manifeste sua desaprovação se ele foi insensível, indelicado. A solidariedade é a capacidade de compreender o sofrimento dos demais, e agir para minimizar essas dores. Para que os filhos abandonem hábitos egoístas (meu tempo, meus jogos, minhas coisas), devem aprender a doar ao visitar crianças em orfanatos ou comunidades pobres, e levar brinquedos que já não utilizam, mas que estejam em boas condições; podem levar, junto com outros amigos, uns doces aos anciãos de um asilo, e lá cantar ou tocar violão… A generosidade é virtude que torna feliz as pessoas, e o egoísmo é causa de tristezas. Filhos solidários aprendem a não reclamar diante das pequenas carências ou incomodidades.

    6 – Estimule a criatividade de seus filhos

        A criatividade atua como uma válvula de escape ao permitir que a pessoa coloque à prova suas capacidades. A criatividade nos faz estrear a resolução de problemas novos, permite a adaptação às mudanças e a reagir com mais sucesso diante dos problemas. Convide seus filhos a criar e elogie suas criações. Saiba que a criatividade deve estar dentro deles, e não em atitude de passividade diante de telas digitais. A criatividade deve ser estimulada desde a infância: a criança deve crie seus próprios brinquedos e jogos com embalagens simples e outros objetos caseiros: isso é mais útil do que ganhar carros ou bonecos que fazem tudo ao apertar um botão.

    7 – A importância da disciplina familiar

        O lar deve ser disciplinado, com horário certo para cada refeição, dormir e acordar. Com isso, aproveita-se melhor o tempo e se pode organizar para ler livros de literatura, estudar, ouvir música e enriquecer-se culturalmente antes de dormir. As refeições devem ser na mesa e com a televisão desligada, e não no sofá ou sala de estar. Ao menos em uma das refeições – almoço ou jantar – é importante que todos estejam presentes, e nesses trinta minutos de grata convivência, a conversa girará em torno dos pequenos fatos do dia a dia, favorecendo o diálogo familiar e o amor mútuo.

        Procure que em sua casa haja um local onde se possa estar tranquilo. Muitos vivem em cidades ruidosas, e a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou que 20% dos problemas psiquiátricos ocorrem pelo excesso de barulho, que provoca insônia, irritabilidade, depressão, ansiedade, estresse, esgotamento, dores de cabeça.

        Não permita que sua casa se converta em uma prolongação da rua, nem que os aparelhos sonoros ocupem o protagonismo no lar, porque, além de afetar a saúde, impedem que haja maior trato mútuo entre pais e filhos, torna preguiçosa a mente de todos (ficar diante de telas não passa de uma atividade sensorial que discorre apenas no plano da visão, tal como água sobre a pedra); porém, a leitura de um bom livro instiga a imaginação e força o raciocínio ao transformar o que se leu em imagem mental, em conhecimento que não será esquecido. Leia o boletim Menos telas digitais e mais livros

    Sugerimos a leitura dos seguintes boletins: Como falar com seu filho adolescente e Ensinar o adolescente a trabalhar bem

    Texto elaborado por Ari Esteves, inspirado no artigo “Educar Adolescentes”, da Revista  Hacer Familia, no  63, de Ediciones Palabra, Madrid, Espanha. Desenho de Aguida Medeiros (@aguidamedeiro)

  • Investir em virtudes

    Investir em virtudes

    1 – O bem como aspiração da vontade e dos sentimentos. 2 – As tendências instintivas devem ser avaliadas pela inteligência. 3 – As virtudes regulam as tendências naturais. 4 – Ganha-se uma virtude repetindo pequenos atos. 5 – A influência das paixões sobre a inteligência e vontade. 6 – Luta esportiva para conseguir uma virtude

    1 – O bem como aspiração da vontade e dos sentimentos

        A pessoa virtuosa pensa e age bem: sua inteligência procura conhecer a verdade, e sua vontade quer essa verdade como um bem. O bem é objeto de aspiração não apenas da vontade, mas também dos sentimentos e paixões, que possuem tendências que se dirigem àquilo que sentem como um bem. Se a vontade tende ao bem conhecido pela razão (bem racional), e cada paixão ou instinto tende ao bem que o atrai (comida, descanso, música, leitura, etc), é bom ter presente que cada tendência instintiva pode não ser boa para a pessoa como um todo, e por isso os bens instintivos devem ser analisados pela inteligência. A inteligência tem várias concepções de bem, e cada instinto apenas uma.

    2 – As tendências instintivas devem ser avaliadas pela inteligência

        O bem das paixões ou afetividade não é racional, mas uma tendência que antes mesmo da pessoa pensar ou analisar se convém ou não tal afeto, já se sente inclinado a ele. Por exemplo, as tendências de descansar, comer ou beber podem desviar a pessoa de fazer algo que seria necessário realizar antes mesmo de aceitar a sugestão desses sentimentos.

       Portanto, os sentimentos ocorrem antes mesmo de serem analisemos. Por isso, imediatamente após um sentimento ou tendência, é necessário avaliar com a inteligência para saber se o bem instintivo proposto é conveniente ou não, porque podem afastar de compromissos mais importantes.

       A tendência instintiva de gostar de doces deve ser analisada pela inteligência ou juízo prático. Por quê? Porque a inteligência tem diversas concepções de bens, e cada paixão tem apenas uma concepção do que é melhor: para a tendência de comer só interessa esse bem; porém, a razão que analisa integralmente as necessidades da pessoa, examinará outros bens e concluirá que a saúde é um bem maior do que o gosto por doces, e assinalará ao diabético que não coma doces.

    3 – As virtudes regulam as tendências naturais

        As virtudes são assumidas como critérios racionais de regulação das tendências naturais, já que estas não devem ser satisfeitas de qualquer modo, pois poderiam deixar de ser um bem verdadeiro: comer é uma boa tendência, mas será necessário saber o que comer e quando comer, e quem possui a virtude da temperança conseguirá regular tal tendência.

        A boa eleição tem três atos: pensar bem, decidir e agir, porque é um hábito que depende de uma escolha ou eleição feita pela vontade, que deve seguir os juízos da inteligência prática (consciência), e não apenas ao que agrada aos sentidos. As virtudes ajudam a pessoa a pensar e fazer a boa escolha, e quando se ganha o hábito virtuoso, essa eleição é imediata, pois a pessoa quer e percebe imediatamente o que é bom, quase sem necessitar passar por todo processo de pensar, escolher e agir. A virtude não é um automatismo, mas uma decisão ou escolha.

    4 – Ganha-se uma virtude repetindo pequenos atos

        A boa eleição é um ato da vontade ajudada pela virtude. Toda eleição é motivada por uma intenção e eleição dos meios para alcançar o bem escolhido: quem tem a intenção de não engordar deve eleger os meios: não comer o terceiro pastel, não repetir o prato, não comer fora de hora… Não basta saber a teoria sobre determinada virtude, mas é preciso realizar pequenas e constantes ações em direção a ela. Um ato isolado como o de acordar no horário, mesmo que seja bom, não torna a pessoal pontual e laboriosa; o que a faz ganhar a virtude é acordar todos os dias no horário.

       Para se ganhar o hábito virtuoso de ser pontual, responsável, torna-se necessário acordar todos os dias no horário pré-estabelecido, e essa repetição de acordar no horário, sem conceder nenhum minuto a mais à preguiça, chama-se “minuto heroico”, e faz a pessoa ganhar também a virtude da fortaleza para vencer a preguiça.

       Cada pessoa necessita exercitar-se habitualmente nas virtudes que carece, com os atos correspondentes: atos de sinceridade, de paciência, de fortaleza, de bom humor… Obras é que são amores, e não apenas a boa vontade que não se concretiza em ações.

    5 – A influência das paixões sobre a inteligência e vontade

        Se faltam virtudes, a razão ou inteligência pode se deixar influenciar por sentimentos e paixões e não os avaliar bem, e a vontade, enfraquecida por uma inteligência que pensou de forma errada, não terá forças para corrigir tais desvios. Quando se está fortemente influenciado por algum gosto ou prazer sensível, a inteligência vê-se abafada, anulada, e a vontade se torna fraca para superar tal tendência. Daí vem a importância de adquirir virtudes, que fortalecem o hábito de pensar (inteligência) e de querer atuar bem por meio da vontade.

        Quando se diz que a virtude é um termo médio entre dois extremos, quer significar que ela não está nem na ausência, nem no excesso. Por exemplo, a fortaleza encontra-se no ponto médio entre a covardia (ausência de fortaleza) e o excesso (temeridade), que também é um defeito da fortaleza: atravessar uma pista de velocidade e com intenso tráfico de veículos não é fortaleza, mas temeridade, imprudência, desprezo por um bem maior que é a vida: se não há prudência não há virtude.

        Todas as virtudes estão conectadas. As quatro principais virtudes são: prudência, justiça, fortaleza e temperança, e em torno de cada uma delas giram todas as demais virtudes: sensatez, bom conselho, entre outras, são virtudes anexas à prudência; piedade, gratidão, veracidade, obediência e amizade são anexas da justiça; sobriedade, castidade, modéstia, humildade, entre outras, são anexas da temperança; paciência, magnanimidade, longanimidade, entre outras, são anexas da fortaleza. Sem a virtude da fortaleza, por exemplo, é difícil ser justo: Pilatos queria ser justo e não condenar Jesus Cristo, pois não via nele culpa alguma, mas por não ser forte e temer o povo, foi injusto ao entregar Cristo para ser flagelado e morto.

    6 – Luta esportiva para conseguir uma virtude

        Se cada um lutar para conseguir a virtude oposta ao vício ou defeito que o domina − e animar a outros a fazer o mesmo, seja um filho ou amigo −, se tornará uma pessoa melhor e melhorará também seu ambiente familiar, profissional e social.

        A luta por conquistar uma virtude não é triste, mas alegre, tal como a do esportista que procura a cada dia melhorar um pouco mais seus índices. O esportista nunca pensa em abandonar a luta, jogar a toalha: um dia perde e no outro vence, e assim vai melhorando.

       Mas é bom ter presente para si − e dizer a cada um −, que não se alcança uma virtude em duas semanas, mas em três meses, e à base de repetir pacientemente pequenos atos contrários ao defeito que pretende erradicar. Assim, se alguém falhar na luta um dia ou outro, não desanimará, pois terá presente que a conquista de uma virtude levará algum tempo. E assim, com paciência, se conquista a alma.

    Texto produzido por Ari Esteves para o Boletim Pedagogia do Comportamento (staging.ariesteves.com.br/). Imagem de Pixabay.

  • Ensinar a pensar

    Ensinar a pensar

    1. Descobrir a verdade. 2. Ensinar o adolescente a pensar. 3. Estimular as crianças a pensar. 4. Explicar as razões para agir bem. 5. Os livros oferecem muito mais. 6. Aprender a tomar decisões. Aproveitar melhor o tempo

        A compreensão da realidade, ensina Aldrete Ramos, nunca como atualmente esteve tão repleta de relativismos. A conduta humana se desvinculou de seu fim último e o impulso dos atos humanos é hoje, para a grande maioria, a busca de prazer e de bens utilitários. Os sentidos humanos, saturados pelo bombardeamento de imagens, faz a pessoa se distrair e afastar-se de seu núcleo vital ou de si própria. Com isso, naufraga no vazio existencial e na busca do supérfluo ao não procurar repostas às interrogações humanas que dão sentido à própria existência: quem sou, para onde devo apontar, a que perfeição humana e espiritual devo aspirar? Tais questionamentos, que passam a ocorrer a partir dos quinze anos, necessitam do silêncio interior e do hábito de pensar, que deve ser estimulado desde criança.

    1 – Descobrir a verdade

        A formação de um hábito intelectual não pode ser alcançada nem muito cedo, nem muito tarde, nem de maneira inconsistente (sem sequência em seu grau de dificuldade). O cérebro, conforme vai amadurecendo, precisa de estimulação para organizar-se gradualmente. Se não for estimulado desde cedo, a recuperação dessa função, que não se desenvolveu suficientemente nos momentos oportunos, exigirá depois uma atividade terapêutica. Por isso, o ótimo desenvolvimento de uma faculdade deve estar sempre contemplado dentro do projeto de desenvolvimento integral da pessoa.

        Aldrete Ramos afirma que a descoberta da verdade sobre o próprio ser de cada pessoa e a busca da felicidade não é uma questão de sorte, saúde ou riqueza. Conhecer a verdade sobre as questões que nos envolvem e sobre o que ocorre em nosso meio é necessário para pensar e agir bem; é encontrar o caminho que conduz à plenitude humana, e isto não é fruto nem da erudição nem da ciência, mas do hábito de querer o bem e fugir do mal, e isso exige o pensar. A razão e a vontade nos distinguem dos animais, mas entre ser racional, que é característica humana, e saber raciocinar é coisa distinta e que deve ser desenvolvida.

        Ajudar a descobrir a verdade para viver em harmonia com ela, é ajudar a adquirir o hábito de uma autêntica atitude contemplativa, que ao mesmo tempo desenvolve no homem uma sábia compreensão da realidade, e o dirige a questionar-se sobre as questões mais transcendentes.

        A genuína alegria só se extrai da Fonte perene onde tem sua origem a contemplação da verdade que se esconde nos mistérios do divino e do humano; verdade elevada pouco a pouco e saboreada no profundo gozo espiritual da razão, quando esta se desprende dos apetites sensíveis que se desvinculam da racionalidade. O prazer que a verdade oferece à inteligência humana é capaz de elevar a sensibilidade a um deleite ou agrado maior que o desfrute pontual desvinculado da razão e da verdade acerca da natureza humana.

    2 – Ensinar o adolescente a pensar

        Pais e professores precisam criar em torno dos adolescentes um ambiente de coerência, onde o estudo e o aprofundamento permanentemente das questões vitais devem estar presentes. Evadir-se disso é fugir de dar respostas e deixar os jovens ao acaso das diferentes ideologias, privando-os do direito à verdade:

    1. Ajudar o adolescente a formar critérios por meio de uma doutrina sadia que permita viver de acordo a autêntica dignidade humana, e que dê unidade ao conjunto de verdades de diferentes níveis: técnicos, científico, artístico, moral, social e religioso;
    2. Fomentar a capacidade de julgar os problemas políticos, econômicos e sociais desde uma perspectiva moral que permita distinguir erros e verdades, para livrar-se de manipulações ideológicas;
    3. Ensinar a analisar com profundidade e a argumentar com razões morais, religiosas ou naturais, sobre questões vitais às quais se baseiam a felicidade natural e definitiva do ser humano;
    4. Ter unidade de vida de modo a que não ocorra um divórcio entre princípios e vida prática, diária. Trata-se de aplicar critérios verdadeiros às situações reais e vivê-los, a fim de fugir da duplicidade de caráter que leva a pensar de um modo e agir de outro;
    5. Transformar os desejos em ações que influam positivamente no próprio ambiente, com o fim de melhorá-lo: quem possui uma verdade para o bem de todos, deve comunicá-la.

    3 – Estimular as crianças a pensar

        Como ocorre em todo aprendizado, quanto antes for adquirido o hábito de reflexão, mais firme e permanente será a disposição para decidir e agir bem. Por isso, convém incentivar a criança desde muito pequena a refletir, ao perguntar a ela com frequência: − “Interessante! Por que fez dessa forma?”, para que reflita sobre o motivo que a levou a agir bem e o fixe de modo permanente. E quando se comporta mal, ao se deixar conduzir pelas tendências instintivas ou afetos, é bom animá-la a que da próxima vez, antes de fazer algo, pense na maneira mais correta de agir e tente levá-la à prática.

        Estimular a criança a utilizar mais a inteligência começa por incentivá-la a aprender a descansar criativamente com leituras, quebra-cabeças, xadrez, dama, lego, vídeos culturais previamente programados. Viciar as crianças a descansarem diante de telas digitais é o caminho mais rápido para tornar preguiçosa a mente delas.

    4 – Explicar as razões para agir bem

        Para despertar o processo reflexivo em crianças, convém explicar as razões pelas quais devem agir bem. Essas razões devem ser de curto prazo, pois as crianças vivem o presente e o futuro imediato com intensidade. As razões de longo prazo também devem ser explicadas a elas, a fim de que as aprendam para um futuro remoto (por exemplo, não fumar quando crescer, não ver pornografia, saber escolher as amizades…), e assim se sentirão felizes e seguras no presente ao saber como contornar um problema que terão que enfrentar; e poderão informar àqueles que convivem com elas, para não se iniciarem naquilo que elas compreenderam ser um mal.

    5 – Os livros oferecem muito mais

        O tempo dedicado à leitura de um bom livro fixa-se na inteligência e educa a sensibilidade, mais do que as longas horas vendo discorrer diante dos olhos sucessivas imagens, tal como água sobre pedra, que nada deixa. Jogos eletrônicos, horas e horas de desenhos, fotos e vídeos em redes sociais fazem parte da cultura da imagem, que se dirige apenas ao desenvolvimento de sensações e impressões superficiais e passageiras, e que logo serão esquecidas, diminuindo a capacidade reflexiva.

        A experiência que habitualmente realizo em sala de aula é a de ler uma poesia (por exemplo, O diálogo das rosas, de José Gilberto Gaspar), ou o trecho de um livro (por exemplo, o diálogo entre o príncipe e a raposa, no livro O pequeno Príncipe, de Saint Exupéry). Após uma ou duas semanas pergunto aos alunos se têm lembranças dessas leituras. A resposta é unânime: todos se recordam e são capazes de repeti-las. Então, pergunto se eles se lembram das imagens que no dia anterior viram no celular. A resposta também é unânime: não se recordam de nada. Então explico que aquelas leituras fixaram-se porque penetraram na inteligência deles, e servirão de experiências vitais; já as imagens digitais apenas deslizaram diante do olhos deles, sem tempo para racionalizá-las ou interpretá-las, e nada acrescentaram.

        A leitura de bons livros leva a raciocinar e a criar as próprias experiências com base nos relatos, a formar imagens ao remover a imaginação e a memória, a construir ideias sobre a vida e as pessoas, o que leva ao autoconhecimento, além de transmitir critérios que orientam a conduta para o bem.

    6 – Aprender a tomar decisões

        A família é a escola de virtudes, e onde as crianças aprendem as primeiras noções acerca do bem e do mal, e os valores sobre os quais podem alicerçar uma vida reta e sã. A meta é que cada filho aprenda a tomar decisões de forma adequada à sua idade e saiba administrar a sua liberdade, porque está movido por hábitos que lhe facilitam o autodomínio, a temperança no comer e beber e a ter horários para brincar, estudar e ajudar nas tarefas da casa. Também deve dominar a curiosidade e não entrar em sites que destroem a vida moral e criam vícios difíceis de arrancar.

    7 – Aproveitar melhor o tempo

        Explicar às crianças sobre a importância de valorizar e utilizar melhor o tempo, não gastando-o em redes sociais, videogames, jogos online, que nada acrescentam. Os filhos necessitam de conselhos para desprenderem-se do ambiente digital, que pouco oferecem à inteligência, quando mal utilizados.

        Os mesmos conselhos que orientam o comportamento dos filhos em espaços como o da família, rua, escola, festas, etc. (boas maneiras, recato ou pudor, respeito a si e ao próximo, controlar a curiosidade, evitar a ociosidade, etc.), devem ser utilizados nos espaços digitais.

        Evidentemente desenvolver a inteligência dos filhos é um objetivo fundamental. Porém, não aguardar que eles cheguem aos quinze anos para ensiná-los a pensar. O que se pretende é coroar um empenho que foi se desenvolvendo desde que ele nasceu. O pensamento como atividade contemplativa e reflexiva é a culminação do processo educativo.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base nas obras “Para Educar Mejor”, de Maria Teresa Aldetre de Ramos, Colección Hacer Familia, Editorial Palabra, Espanha; e “Maturidade psicológica e felicidade”, de Fernando Sarráis, Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009.