Categoria: VIRTUDES

  • 10 dicas sobre o comportamento das crianças

    10 dicas sobre o comportamento das crianças

         Seguem 10 orientações que ajudarão na educação do comportamento de crianças e adolescentes, colhidas em excelentes obras sobre a educação dos filhos:

    1 – A importância da família. 2 – Reconhecer as qualidades humanas de cada filho. 3 – Detectar os problemas antes que surjam. 4 – Conhecer o temperamento de cada filho. 5 – Diminuir o tempo das telas digitais. 6 – Exigir obediência. 7 – Educar para a autonomia. 8 – Fomentar ideais grandes nos filhos. 9 – A importância da unidade dos pais. 10 – Transmitir aos filhos a fé em Deus

    1 – A importância da família

         A influência da família é a mais profunda na vida de qualquer pessoa, e muito superior à do ambiente, quando se sabe educar. Para os pais, a educação dos filhos deve ser um ideal de vida: se falharem nessa missão não serão felizes, mesmo que tenham sucesso profissional;

    2 – Reconhecer as qualidades humanas de cada filho

         Cada filho deve reconhecer seus talentos pessoais, pois é importante para a autoestima dele. Não o compare com outras crianças, mas faça-o perceber o que de melhor há nele. E para que não se torne soberbo ou vaidoso, faça-o compreender que suas aptidões naturais foram dadas gratuitamente por Deus, a fim de serem colocadas ao serviço dos demais, pois é nisso que reside o amor. Tratar cada filho não como é, mas como poderá chegar a ser: potencialize suas qualidades; acredite e confie nele e surpreenda-o todos os dias ao elogiar o que fez bem, pois o subconsciente da criança registra o agrado e incentiva a que repita a ação. Os pequenos êxitos motivam o esforço, mas não premie com coisas materiais para não transformar a criança em pequeno consumidor;

    3 – Detectar os problemas antes que surjam

         A educação é um processo contínuo, onde todo problema tem conserto, desde que seja estudado e se estabeleça um Plano de Ação. As dificuldades dos adolescentes podem ser detectadas antes de se tornarem problemas, ou seja, na infância. É melhor chegar antes, prevenir-se ao antever que um mau hábito poderá se estabelecer, ou agir logo nos começos quando um mau comportamento já despontou, a fim de que não se cristalize. Algo concreto como não estudar, não viver um horário, não ajudar em casa, más companhias, etc., pode ser corrigido ao ser apresentado um ideal de ordem superior que motive a vontade: mantenha conversas frequentes sobre os porquês acerca dos aspectos concretos a melhorar;

    4 – Conhecer o temperamento de cada filho

         Procure conhecer o temperamento de cada filho para educar de modo personalizado (cada um é diferente e diferentemente deve ser tratado). Faça-o conhecer seus defeitos e ajude-o a ganhar as virtudes apostas às falhas habituais. Leia sobre Os hábitos de ordem nas crianças de 1 a 3 anos, pois essa virtude é a primeira a ser vivida na infância. Tenha paciência com a criança, e anime-a a lutar cada dia com espírito esportivo e alegre (o esportista sempre procura melhorar suas metas, mesmo que falhe um dia ou outro). Não basta que seu filho seja bom estudante, ao exigir que apenas tire boas notas: para que ele dê certo como pessoa necessita de uma formação integral, e esta envolve a educação da vontade e dos afetos (sentimentos, emoções e paixões);

    5 – Diminuir o tempo das telas digitais

         A criança precisa aprender a brincar. Diminua o tempo de desenhos animados e telas, que a tornam passiva e preguiçosa para pensar e imaginar, e com dificuldades em disciplinas que exijam mais raciocínio (matemática, química, física, português…), e substitua-os por jogos de memória, de discorrer, dominó, damas, xadrez, lego, cubos, quebra-cabeça, etc.

         A criança que aprende a jogar saberá estudar e cumprir seus deveres (as regras). Tanto os jogos como o esporte fomentam muitas virtudes e habilidades sociais ao exigir o cumprimento das normas estabelecidas e respeitar os “adversários”. A criança deve saber também brincar sozinha, sem a falsa “companhia” das telas digirais. O silêncio exigido por atividades como parear cartas de figuras iguais, lego, montar quebra-cabeça, entre outras, faz pensar e fixar a atenção, prejudicada hoje pelo excesso de imagens digitais; prepara a criança para resolver sozinha seus pequenos impasses; desperta a interioridade dela e a faz ganhar autonomia. Após brincar, a criança deve aprender a guardar seus objetos e ordená-los em diferentes caixas, e não jogá-los tudo num único baú;

    6 – Exigir obediência

         Exija obediência em poucas coisas, desde que sejam importantes, a fim de não cansar a criança com demasiadas cobranças. Por exemplo, não determine que vá à festa com a roupa verde, se ela quer ir com a azul; mas exija que seja responsável ao cumprir as tarefas que foram atribuídas a ela para o bom andamento do lar;

    7 – Educar para a autonomia

         Não faça de seu filho um eterno dependente de você. Eduque-o desde as primeiras idades para ganhar autonomia ao não substitui-lo naquilo que pode fazer sozinho, a fim de não ficar passivo e sempre à espera de que os outros façam as coisas por ele (enfraquece a personalidade já na adolescência). Leia o boletim Construir a autonomia da criança;

    8 – Fomentar ideais grandes nos filhos

         Os adolescentes têm capacidade de entusiasmar-se por grandes projetos, porque a vontade, importante faculdade humana que move o querer, se sente atraída por razões poderosas e verdadeiras, principalmente as de serviço ou ajuda aos demais. Ensine os filhos a fazerem não apenas o que gostam, mas o que devem, porque isso fortalece a vontade deles para superar a comodidade e enfrentar os obstáculos que surgirem na busca dos ideais que almejam. Leia o boletim Educar em valores;

    9 – A importância da unidade dos pais

         Quando os pais se esforçam por melhorar edificam a personalidade dos filhos, porque o bom exemplo é base da boa educação. Cada cônjuge deve ajudar a que o outro tenha prestígio diante das crianças, para que a ação educativa seja eficaz. Não desautorizar o outro cônjuge diante dos filhos: se tiver algo a discordar, faça-o privadamente. Leia o boletim Educa-se a dois: pai e mãe não devem desautorizar-se;

    10 – Transmitir aos filhos a fé em Deus

         Transmita aos filhos a fé em Deus, que é a luz e a força que os guiará e sustentará ao longo da vida, mesmo quando vocês, pais, já não estiverem presentes. Será a herança que mais agradecerão ter recebido de vocês. Leia o boletim Transmitir a fé aos filhos

    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/

  • Quem sou? Sou as minhas escolhas

    Quem sou? Sou as minhas escolhas

         1 – Não acomodar-se: fomos criados para muito mais. 2 – A vida animal é condicionada pelo instinto, mas a humana não. 3 – O homem busca um fim pessoal e não o da espécie humana. 4 – O homem rompe o determinismo instintivo. 5 – Nascemos para pensar e amar. 6 – Suprimos os instintos pela aprendizagem. 7 – Não se deixar dominar pelos instintos.

    1 – Não acomodar-se: fomos criados para muito mais

         Descobrir a verdade sobre o homem causa admiração, e isso não pode ser feito com olhar único, mas pela contemplação sossegada do seu modo de ser e atuar. A vida humana é futurística: orienta-se para o futuro como antecipação de si mesma. Não nos acostumamos com a realidade presente, que sempre parece insuficiente e estática, e almejamos alcançar outra situação ou modo de ser, pois somos seres perfectíveis. A imaginação é projetiva e lança-se para algo que ainda não existe, mas com possibilidade de vir a ser.

    2 – A vida animal é condicionada pelo instinto, mas a humana não

         A vida dos animais está condicionada pelo instinto, que é a tendência do organismo biológico até seus objetivos mais básicos (comer, beber, abrigar-se, procriar), originando o automatismo da conduta: se o animal sentir fome irá inexoravelmente atrás de comida. O estímulo-reposta dos animais, seja para saciar a fome, buscar segurança ou procriar, é ocasionado pela intervenção da sensibilidade, que desencadeia neles uma conduta imodificável e automática com o fim de preservar a espécie.

         A vida de cada animal já está resolvida e ele não precisa decidir sobre o que fará durante sua existência, pois não busca um fim individual. Sua natureza o fará repetir o que fizeram seus iguais, porque visa somente perpetuar a espécie: o joão-de-barro construirá sua casinha como todos os seus paisanos; os peixes emigrarão por rotas marítimas determinadas pelo instinto; as feras caçarão como sempre fizeram seus ancestrais…

    3 – O homem busca um fim pessoal e não o da espécie humana

         A vida humana não é automática e tem que ser resolvida caso a caso. Não basta ao homem nascer, crescer, reproduzir-se e morrer para alcançar sua realização pessoal. Somos mais complicados que um pássaro ou uma beterraba. Ao possuir inteligência e vontade livre, a criatura humana está acima da ditadura ou determinismo dos instintos e rompe o circuito estímulo-resposta dos animais, a fim de buscar um fim pessoal, e não o da espécie humana. Ser dono de si é ser pessoa, e não apenas um indivíduo da espécie, como os animais em geral.

    4 – O homem rompe o determinismo instintivo

         O êxito da vida humana não está resolvido ou assegurado pelo instinto, já que até para comer o homem decide sobre o que deve ou não ingerir, quando fará sua refeição ou se jejuará, contrariando sua pulsão instintiva (o uso de pratos e talheres mostra o quanto racionalizamos o instinto de comer).

         Ao avaliar suas aptidões e possibilidades, cada pessoa determinará para si o modo de viver e de servir, seja como motorista, mecânico, médico, chefe de cozinha, artesão, desenhista, engenheiro. Mas, sendo livre poderá transformar sua liberdade em libertinagem e escolher ser ladrão, estelionatário, vigarista, vagabundo, mentiroso… O homem é o único animal capaz de fazer fracassar a sua vida voluntariamente ou conduzi-la para melhor.

         Portanto, a finalidade da vida humana é encontrada pela via racional, sendo que os instintos não conduzem a isso, além de que não basta ao homem perseguir apenas suas funções vegetativas (comer, beber, abrigar-se, crescer, etc.). A conduta humana é principiada e dirigida pelo conhecimento intelectual. Ao ser livre e dono de seus fins, o homem busca uma finalidade para a vida e elege os meios que o levarão a conquistá-la.

    5 – Nascemos para pensar e amar

         O homem só pode ser compreendido pela sua condição racional, e a faculdade de pensar é tão radical nele que até a sua biologia é condicionada pela via intelectiva: tem aparelho fonético apto para transmitir seus pensamentos pela palavra; anda ereto e tem as mãos livres para seguir as determinações da inteligência e criar instrumentos, produzir arte, manifestar sentimentos por sinais; seu rosto e seu olhar são expressivos e refletem o estado de sua alma; etc.

         E porque é racional, o ser humano ama. O amor não é um sentimento adocicado, mas exige renúncia e sacrifício. O verdadeiro amor é holocausto e depende do querer da vontade, e não da inconstância dos sentimentos.

         Se a resposta humana não pode ser conduzida pelo automatismo dos instintos − o que nem sempre ocorre, infelizmente −, mas dirigida pela razão, isso implica na necessidade de aprender a ser, tornando a infância humana mais prolongada que a de qualquer outro animal para receber educação.

    6 – Suprimos os instintos pela aprendizagem

         Para aprender a viver o homem precisa raciocinar, e isso torna a aprendizagem mais decisiva que o instinto. E porque possui inteligência e vontade para agir livremente, sua natureza não o dotou de inclinações instintivas plenamente seguras, mas que devem ser analisadas, corrigidas ou substituídas pela aprendizagem: se no inverno muitas aves são obrigadas a partir para lugares quentes, o homem não precisa emigrar nem hibernar como certos animais e árvores, pois veste roupas apropriadas, fabrica aquecedores e mantas para enfrentar o frio. Ou seja, na biológica humana os instintos são supridos pela aprendizagem.

    7 – Não se deixar dominar pelos instintos

         Ao não se comportar segundo a razão, o ser humano corre o risco de tornar desmesurados seus instintos, coisa que não ocorre com os animais. Há homens iracundos, tristes, covardes, invejosos, suscetíveis, que são defeitos da afetividade; ou dominados pela pulsão de comer, beber ou procriar (esta é desviada de seus fins para obter apenas o prazer em diversas formas).

         Ao deixar de ser racional, o homem torna-se pior que os animais. A força de seus instintos, quando desgovernados, tem poder destruidor para si e aos demais. Rimos ao ver um bêbado aos tropeções e a repetir asneiras, mas trata-se de situação dramática a da pessoa que perde o controle de si diante de uma garrafa de bebida alcóolica. Isso se pode dizer de outros descontroles instintivos, como a busca do prazer erótico pelo vício da pornografia, o medo de engordar (anorexia), a gula, etc. No fundo, mais que desvios da afetividade, são desvios da liberdade. Se o homem não controla seu instintos e afetos mediante a razão, auxiliada pelas virtudes humanas, não os controlará de nenhum outro modo.

    Texto produzido por Ari Esteves com base nas obras “Fundamentos de antropologia – Um ideal de excelência humana”, de Ricardo Yepes Stork e Javier Aranguren Echevarría, São Paulo, Instituto Brasileiro de Filosofia Raimundo Lúlio, 2005; e “Mapa do mundo pessoal”, de Julián Marías, Campinas, SP, Editora Auster, 2021.

  • A temperança dá senhorio à conduta

    A temperança dá senhorio à conduta

         1 – A virtude da temperança. 2 – Os sentidos externos são a porta da alma. 3 – As crianças devem ser ensinadas a viver a temperança. 4 – Hábitos que conduzem à temperança. 5 – Ser temperado no uso das tecnologias. 6 – A disciplina ajuda a viver a temperança.

    1 – A virtude da temperança

         Colocar rédeas à sensibilidade (sentimentos, emoções, paixões), ser condutor das próprias ações e senhor de si, são atitudes de quem possui a virtude da temperança. Esse hábito desenvolve aos que o possuem um querer forte que freia os impulsos desordenados das paixões, quando estes buscam o mais fácil e prazenteiro, que depois de satisfeitos deixam um ressaibo de tristeza e derrota. A temperança desperta a capacidade crítica ao facilitar à inteligência a manutenção do foco e o não cegar-se diante das inclinações sensitivas destoantes.

         Pode parecer que a temperança tenha aspecto negativo, limitador das inclinações naturais. Porém, na realidade, é uma virtude positiva, pois ao evitar as desordens dos excessos e caprichos, faz o espírito ascender a patamares elevados, tornando-o mais operativo, forte e dinâmico. A pessoa temperada tem um recato natural que é sempre atraente, porque nota-se em sua conduta o império da inteligência: é modesta, sóbria, comedida, paciente, compreensiva, forte, atenta, responsável… Ao não dar excessivo valor às coisas que poderiam desviar os afetos e arrastar a inteligência com eles, a temperança faz perceber os matizes que a intemperança encobre, e com isso passa-se a saborear bens mais altos, como o estudo, o trabalho, a família, a religião, a arte, os livros…

         Hoje, muitos perderam o sentido de suas vidas por serem incapazes de se esforçar e gastar-se por algo que vale a pena. Os intemperados perdem demasiado tempo e energia em curiosidades que tornam o corpo e a mente desmotivados para empreender metas mais exigentes. Nas banalidades, onde muitos se revolvem e se empobrecem espiritual e intelectualmente, a pessoa temperada vê um peso morto.

         Nosso cérebro é finito e não podemos fazer várias coisas ao mesmo tempo, a menos que alguma dessas ações esteja automatizada. Quem tem a prática de conduzir um automóvel pode pensar em outro assunto enquanto dirige. Mas enquanto a ação de dirigir não está automatizada, não consegue pensar em outras coisas a não ser nos comandos do carro. O hábito moral da temperança dá como que uma segunda natureza, pois com a prática dos bons atos a inteligência ganha o hábito de pensar bem e a vontade de aderir a esse bem com espontaneidade.

    2 – Os sentidos externos são a porta da alma

         Os sentidos externos (olhos, visão, paladar, tato) são os porteiros do nosso mundo interior. Não podemos permitir que esses zeladores transformem as nossas potências interiores (inteligência, vontade e afetividade) em loja de bricabraque ao franquear a entrada de frivolidades que as desviam de realizar suas capacidades. Se a imaginação e a memória se alimentarem com demasiada música, passatempos, excesso de informação, memes, vídeos, imagens, mídias sociais, custará esforço contrariar os próprios sentimentos e instintos para atender os encargos familiares, trabalhos, vida espiritual, estudo, etc. Isso não significa que os momentos de distração e descanso devam ser descartados. Ao contrário, é importante ter horários para atividades menos exigentes, a fim de renovar as forças e retornar às responsabilidades com maior vigor.

    3 – As crianças devem ser ensinadas a viver a temperança

         Desde a idade de zero anos é possível ajudar as crianças a ganharem hábitos de temperança ao favorecer que vivam a ordem material e temporal em diferentes aspectos: dormir e acordar (perceber que o silêncio e o escuro da noite é para dormir e não brincar); com um ano e oito meses podem levar a fralda suja para a lixeira, guardar os brinquedos, colocar as roupas na gaveta. Mais adiante deve habituar-se a não invadir a geladeira para comer fora de hora, a realizar pequenas tarefas no lar, etc. Para não transformar os adolescentes em senhoritos ou imperadores, devem andar curtos de dinheiro e evitar caprichos inúteis. Se são jovens, podem ser impulsionados a trabalhar algumas horas por dia, pelo menos em época de férias, a fim de custear seus gastos pessoais e ajudar nas despesas da casa.

    4 – Hábitos que conduzem à temperança

         Sendo virtude ou qualidade que se estabiliza na alma por meio da repetição de atos bons, a temperança é um hábito que se desenvolve pelo exercício de pequenas e constantes ações que fortalecem e protegem a pessoa do desejo desordenado pelos bens primários ou ligados ao instinto, como a comida, bebida, sexualidade…; defende da inclinação desorbitada da sensibilidade que leva à preguiça e à fuga dos deveres, ao gosto exagerado pelo esporte ou música; salvaguarda a inteligência da busca desequilibrada de um bem intelectual que conduz à desatenção de outras obrigações, dada a dedicação exagerada ao trabalho, estudo, leituras ou curiosidades nas mídias sociais.

         Outras pequenas ações que repetidas no dia a dia conduzem a hábitos de temperança são as seguintes: não deixar para amanhã o que deve ser feito hoje, na rua não varrer com os olhos a tudo que passa, fugir de reclamar de pequenas incomodidades (frio, calor, uma dor de cabeça), nem se entristecer porque algo contrariou um gosto; evitar curiosear notícias fora do horário previsto e deixar de criar falsas necessidades. Nas refeições, fazer o pequeno sacrifício de privar-se de algo, mesmo que seja de uma colherada a menos do que se gosta mais; prescindir do carro e ir a pé ou via transporte púbico (exceto em épocas de pandemia); de vez em quando subir pelas escadas e não pelo elevador, evitar caprichos quando se tem dinheiro no bolso, descansar o tempo exato, ser pontual aos compromissos…

    5 – Ser temperado no uso das tecnologias

         Os aparelhos eletrônicos, as redes sociais e outros aplicativos devem ser usados com temperança, não porque sejam maus, mas porque exigem contínuo aperfeiçoamento ético para serem utilizados, o que evidentemente levará a servir-se deles com moderação ou virtuosamente. É grande o perigo de abusar desses avanços e correr o risco de perder tempo com cliques insubstanciais que só servem para dissipar a alma em mil futilidades e descentrar a cabeça dos assuntos mais importantes, ou até cair na imoralidade. Como foi dito, não se trata de deixar de utilizar esses meios, mas de vigiar para manuseá-los com sobriedade e nas reais necessidades.

         Quando as tecnologias penetram desmedidamente na vida familiar, essa perde a unidade, o calor e a estabilidade, porque as pessoas deixam de se tratar, de conviver entre si para fixar-se em telas ou em pessoas ausentes (a ordem da caridade exige que amemos os que estão mais próximos).

    6 – A disciplina ajuda a viver a temperança

         Já se disse que disciplina é a higiene da vontade. Ser disciplinado depende em primeiro lugar da inteligência para organizar o tempo com base em prioridades, e não pelo que é mais agradável de fazer.
         A intemperança é indisciplinada e leva a realizar coisas diferentes a cada dia, sempre mais fácil do que sujeitar-se a um plano diário de trabalho. As horas de estudo ou de prática de qualquer atividade são cansativas, esgotantes, mas necessárias para tornar-se um expert. A disciplina é o segredo das pessoas bem-sucedidas, sejam esportistas, escritores, artistas, cientistas ou profissionais de diferentes áreas. Os anos de insistência e autocontrole as levaram a renunciar a tantas comodidades para chegar ao alto índice de desempenho em suas atividades habituais.

         A verdadeira espontaneidade se obtém com a disciplina, com a repetição de atos que vão automatizando a conduta e dando liberdade de agir como verdadeiramente se deseja. Quem nunca treinou com raquete de tênis não terá a liberdade de fazer as jogadas que imagina.

         Só quem é disciplinado e distribui de forma organizada a cada dia da semana as diferentes tarefas, consegue ser verdadeiramente espontâneo e fazer as coisas como deseja que saiam. A espontaneidade do intemperado é falsa porque leva-o a mudar de foco quando algo se torna cansativo.


    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/

  • Os filhos e as medidas disciplinares

    Os filhos e as medidas disciplinares

    1 – A importância das medidas disciplinares. 2 – Ter sempre uma medida disciplinar preparada. 3 – Tipos de medidas disciplinares. 4 – Planejar com antecedência a medida corretiva. 5 – Filhos põem à prova a ordem dos pais. 6 – Mais algumas orientações sobre as medidas disciplinares.

    1 – A importância das medidas disciplinares

         As medidas disciplinares não podem ser confundidas com autoritarismos, violências, agressividades, imposições arbitrárias. A criança deve ser tratada com carinho, respeito e ser estimulada, com a paciência e perseverança dos pais, a fazer o que deve ser feito. As medidas disciplinares, como em qualquer sociedade (Estado, empresas e demais instituições, incluindo a família), devem funcionar como indicações que orientam as ações para o bem da pessoa e dos demais (leis de trânsito, por exemplo). Quando há um desrespeito pelo incumprimento dessas orientações, segue-se uma prudente medida de correção a fim de reparar a justiça que foi quebrada.

          Dentro da família, por vezes, não será suficiente que os pais mostrem a importância de se cumprir determinadas condutas, pois a criança, mesmo sabendo o que deveria ser feito, poderá agir de modo contrário por desordem ou anarquia. Se a conversa carinhosa e clara para que se corrija não deu resultado, a criança deve ser informada com antecedência que, se voltar a repetir a ação, qual medida disciplinar será aplicada para que policie seus atos. Isso porque há ações que devem ser corrigidas: se quebrou deve consertar, se sujou deve limpar, se tirou nota baixa na escola deve estudar, se bagunçou deve arrumar, se foi malcriado deve pedir desculpa…

         Os filhos devem concluir que a má conduta não será bem-vinda. Para isso, as vias de fato são mais eloquentes do que as palavras, a fim de que policiem seus atos, tal como para os adultos agem diante de multas de trânsito e juros por atraso de pagamento. Se a mãe disser ao filho que não é hora de assistir desenho, mas de arrumar o quarto e os brinquedos, e este responder que continuará com a TV, ela deve ultimar com calma, sem gritar:  − “Já sabe a regra: ficará sem desenhos hoje e amanhã se não arrumar seus brinquedos agora” ou − “Só descerá para o futebol depois que fizer a lição da escola”. Deixar de exigir o que é correto permite que os filhos se tornem escravos de seus caprichos.

    2 – Ter sempre uma medida disciplinar preparada

         A criança deve concluir que seus pais têm sempre uma medida disciplinar prevista. Por exemplo, há visitas em casa para o jantar, e o pai percebe que a filha de quatro anos está cansada e irritada, e pede a ela que vá dormir. O pai insiste, mas ela desobedece. Por que a menina agiu teimosamente? Porque o pai não tem autoridade e ela sabe que nada acontecerá.

         Antes de impor uma medida corretiva, é importante se assegurar que a criança ouviu e entendeu a indicação, e mesmo assim desobedeceu. A medida deverá ser proporcional à conduta a ser corrigida: nem exagerada nem fraca como ir para o quarto com o notebook. Se a mesma medida deve ser aplicada a dois filhos, é prudente que cumpram em lugares separados.

    3 – Tipos de medidas disciplinares

         A medida disciplinar deve ser a via necessária para reparar um mau comportamento, e não capricho dos pais. Não teria sentido uma disposição que impedisse de fazer algo bom e útil como realizar exercícios físicos, ler, estudar, visitar um amigo doente…
         A determinação deve desagradar, mas com a lógica de reparar uma insubordinação: isolar no quarto ou local chato por um período; retirar temporariamente a atividade prazerosa que leva a descumprir as obrigações: playground do prédio, tv, tablete, desenhos, futebol, games; não sair no fim de semana; retirar por um dia o aparelho de som da filha que insiste em manter o volume alto; se quebrou de propósito o brinquedo do irmão deve pagar pelo conserto com a própria mesada ou dar um dos seus brinquedos. Por vezes a correção deverá prolongar-se no tempo como consequência de um fraco resultado escolar, tal como limitar as saídas durante uma temporada, mas sem perder de vista que o objetivo é facilitar os meios para estudar, já que não teria sentido ficar bestando pela casa.
         Não se deve chegar às vias de fato, como bater ou golpear, pois prejudicam física e psicologicamente a criança, que jamais esquecerá a agressividade para com ela: beliscar, empurrar, gritar, puxar os cabelos… A ação física de segurar suavemente o braço da criança e levá-la até o local da bagunça para arrumar é cabível, mas sem palavras grosseiras, sem aumentar o tom de voz, sem intimidar. Há mães que em último caso aplicam uma leve palmada no bumbum, mas informam com antecedência à criança que farão isso para dar a entender que tal medida não ocorrerá por ira ou descontrole.

    4 – Planejar com antecedência a medida corretiva

         Conduz melhor quem vai adiante e não atrás das peripécias. Não esperar que filho ignore a ordem para depois improvisar o castigo. O garoto de 12 anos tinha a indicação de voltar para casa às 20h, mas chegou às 23h. O pai, enfurecido, gritou e o chamou de vadio e disse que durante quinze dias só sairia para ir ao colégio. Na mesma semana ele suspendeu a medida porque a mãe não aguentava mais a atrapalhação e as reclamações do garoto sem rumo pela casa.

         Os pais devem combinar antes sobre as correções que serão aplicadas aos filhos, a fim de não inventar no momento da ocorrência do fato que a reclama, pois medidas irrefletidas, feitas de bate-pronto, costumam ser injustas, exageradas. Caso um dos cônjuges não concorde com a correção aplicada pelo outro, nunca deve desautorizá-lo diante dos filhos, mas conversar com ele a sós.

         Se o garoto assiste desenho e o pai pede que desligue a TV e se apronte para a escola, é quase certo que a indicação será descumprida se o pimpolho perceber que terá tempo suficiente para vestir-se ao fim da animação. O pai deveria perguntar antes sobre o tempo que faltava e pedir para desligar discorrido esse tempo.

         O filho deve ser informado que a correção será um bem para ele, e o preço que desejou pagar ao assumir as consequências de sua má conduta. Por exemplo, a família está reunida na sala para ler, mas o garoto incomoda a todos com o barulho da corneta de plástico. O pai, que já havia pedido com carinho e respeito para que brincasse em silêncio, diz: − “Havia dito que você ficaria no quarto até o jantar, se não parasse com esse barulho. Portanto, vá”. Mas onde está o bem dessa medida para o garoto? Está em aprender a respeitar os demais ao não ser inconveniente.

    5 – Filhos põem à prova a ordem dos pais

         Para saber se os pais falam a sério, os filhos testam a ordem recebida ao pensar “Se eu protestar eles vão ceder”. A intenção é manipular os pais a fim de que desistam da indicação. Para isso utilizam vários mecanismos: chorar é sempre um êxito, como também repetir nervosamente “não vou, não vou”, “não quero, não quero”, “me dá, me dá”. O show de se jogar no chão e espernear para constranger os pais é sucesso garantido; ou discutir com raciocínios de lógica aparente: “Sempre eu, sempre eu; nunca o meu irmão” ou desafiar com um “duvido!”, “não vou”, “não faço”. Os pais devem manter-se calmos e firmes para que os filhos encontrem neles um muro inalterável chamado “determinação”, pois só assim controlarão seus histerismos. Ceder habilita a criança a não mudar de atitude.
         Se a filha não quer compreender de modo delicado acerca da necessidade de ajudar nas tarefas do lar, e teimar sem razão que não lavará a louça, a mãe, sendo uma autoridade em casa, poderá cominar a medida de deixá-la sem TV ou sem ir à casa da prima no sábado, planos apreciados pela menina. A certeza de que sua determinada mãe cumprirá o prometido a fará abandonar sua caturrice. Os pais quando estão com razão não devem temer zanga de filhos, que duram poucas horas.

         Com a finalidade de desconcertar, a criança diz que não liga para a medida corretiva, a fim de que os pais pensem que nada funciona com ela, durona na queda. Papo furado! Não acreditem nessa postura, pois entre os humanos as crianças são as que mais se importam com a retirada de privilégios. Exemplo: − “Beatriz, se não terminar seus deveres não irá ver televisão hoje”. A filha responde: -“E daí? Tudo bem!”. A mãe, que havia pensado antecipadamente na melhor medida corretiva, disse: − “Ótimo, a escolha foi sua: ficará sem TV hoje”. A filha imediatamente retrucou: − “Mas e a minha novela?” A mãe: − “Você disse que não se importava. A escolha foi sua, querida. Se quer assistir, termine os deveres”. A filha respondeu: − “Tá bom, já faço”. E a mãe elogiou-a: − “Ótimo, meu amor, sua escolha me alegra!”.

    6 – Mais algumas orientações sobre as medidas disciplinares

         Não recorde uma indisciplina

    Aplicada a medida disciplinar encerre o assunto. Dizer “Não me faça mais aquilo do outro dia” revela um pai rancoroso que não sabe esquecer ou perdoar, e que pouco acredita na melhora do filho.

    Não anunciar uma medida que não pode ser exigida

         A mãe, desde o carro e diante da escola, aguarda o filho. Porém, chateia-se pela demora dele, que conversa com amigos junto à porta, e diz: − “Se não vier agora irá a pé para casa”. O garoto responde: − “Tubo bem, vou caminhando…”. Confusa, a mãe não cumpre o indicado porque residem distante. Com isso, ficou desautorizada.

    Substituir a correção que não causou efeito

         A medida corretiva que não produziu efeito deve ser substituída por outra mais adequada. Se os irmãos querem estudar e o caçula faz barulho com a metralhadora de plástico, não terá efeito apenas retirar o brinquedo porque pegaria outro também barulhento, como já ocorrera. Então a mãe dirá: − “Se quiser brincar aqui não faça barulho ou ficará no quarto até a hora do jantar”.

    Aplicar logo a correção

         “O tacho se limpa enquanto está quente”, diz o ditado. Corrigir um fato passado já esquecido surte pouco efeito, além de causar estranheza. Por isso, aplicar o quanto antes a sanção, sem nunca suspendê-la, revela que os pais, sempre carinhosos, agem prontamente e com justiça, além de que sempre falam a sério e não mudam de parecer ao exigir que se cumpra a determinação. Isso não quer dizer que a correção não possa recair sobre algo que o filho planeja fazer no fim de semana; porém, a punição fora determinada no momento da indisciplina.

    Não dar uma ordem e ignorar seu incumprimento

         A filha deixou molhado o chão do banheiro e a mãe pediu várias vezes que fosse secá-lo. Ao ver que a menina permaneceu lendo no sofá, se calou como se nada tivesse acontecido. Com isso, desautorizou-se porque deu a entender que suas indicações não precisam ser atendidas e não possuem valor. Com isso, permitiu que a adolescente se mantivesse na sua preguiça, desobediência e pouco interesse por quem fosse depois banhar-se. A ação assertiva da mãe seria ir até a filha, sentar-se ao lado dela, reiterar a ordem com calma e anunciar uma medida corretiva, caso viesse a desobedecer.
         Se no parque o filho bateu num menino e o pai afirmou que se tornasse a fazê-lo voltaria imediatamente para casa, deverá cumprir a indicação se a má ação venha a ser reiterada, mesmo que o pirralho venha a protestar com berros e esperneio sobre a grama. Com isso, deixará de ser agressivo com outras crianças em seus passeios.

    Fazer vista grossa não educa

         A mãe recebe em casa sua amiga, mas no quarto o filho mantém alto volume o aparelho de som. A visitante exclama: − “Nossa, como você aguenta esse ruído?”. A mãe, desanimada, responde: − “Cansei de pedir para baixar. Não me ouve nunca. É como falar com a parede”. Tal desabafo revelou a pouca autoridade e a fraqueza de quem desistiu de sua missão.

    Correções em forma de pergunta não funcionam

         A autoridade se constrói com carinho e assertividade, que é falar claro e com bons modos. Porém, longe disso estão as indicações em forma de pergunta:

         “Por que se comporta mal comigo?” ou “Por que não liga para o que eu falo?”. São perguntas que ficarão sem respostas porque a criança não sabe explicar o motivo do seu comportamento, e apenas balançará os ombros deixando tudo em águas de bacalhau.

    Indicações em forma de súplica também não funcionam

          Pedir algo em tom de súplica não é boa prática. Se a mãe diz ao filho que vá dormir, pois é a hora, e este responde que não tem sono, e ela apela para a súplica ou compaixão do tipo “Mas é tarde e eu estou cansada. Por favor, vá se deitar”, revela fraqueza e empodera a criança, que desconhece o significado do cansaço de um adulto, o que torna insuficiente essa razão. Importa dizer o verdadeiro motivo de dormir e levantar-se no horário: trata-se de questão de ordem e de disciplina familiar, de respeito ao trabalho da mãe e da funcionária da casa, além de exigir que o filho viva uma rotina a fim de atender suas obrigações.

    Texto produzido por Ari Esteves, inspirado na obra “Carinho e firmeza com os filhos”, de Alexander Lyfor-Pike, Editora Quadrante, 2015, São Paulo.

  • Carinho e firmeza com os filhos – II

    Carinho e firmeza com os filhos – II

    1 – A função educativa da família. 2 – Ver a família como o principal negócio. 3 – Os defeitos progridem com a passagem do tempo. 4 – Por que exigir? 5 – Conquistar virtudes. 6 – Educação da vontade é o mais importante. 7 – Educação assertiva é a melhor. 8 – Mais algumas dicas para exigir com eficácia

    1 – A função educativa da família

          A família é a influência mais profunda e duradoura na vida de qualquer pessoa. Esse influxo será positivo ou negativo, dependendo da maior ou menor preparação dos pais como educadores. Não basta conviver com os filhos; é preciso ter a intenção de educar e estabelecer um projeto educativo que desenvolva as potencialidades de cada um e corrija seus defeitos.

          A Pedagogia Familiar é a nova área de estudos acadêmicos (teóricos e práticos) que se insere na pedagogia diferencial, e que considera a educação da criança em função das diferenças de idade, sexo, temperamento, caráter, ambiente. Sendo a família “o melhor negócio dos pais”, existem hoje escolas de pais como há escolas para dirigentes empresariais. 

          A preocupação educativa deve dominar a vida dos pais, sem regatear esforços para isso. Hoje não basta educar meramente com o sentido comum, improvisações ou com a experiência pessoal, mas é necessário um preparo científico que leve a dar as respostas que os filhos necessitam. Atualmente as crianças crescem e são socializadas em ambiente muito distinto daquele em que foram educados seus pais, quando tinham a mesma idade. Dada a grande quantidade de informação e desinformação que atualmente recebem as crianças, o comportamento delas é diferente, e por isso necessitam de uma orientação mais assertiva. 
          Mesmo que não sejam profissionais da educação, os pais necessitam atuar com mentalidade profissional ao procurar instruir-se continuamente sobre temas de orientação familiar e educação dos filhos, seja por meio de palestras, lives, leitura diária (10 minutos) de artigos e livros, formação de grupos de estudo com casais amigos, entre outras iniciativas.

    2 – Ver a família como o principal negócio

          Preparar os filhos para a vida é o maior investimento que os genitores podem fazer, e a tarefa mais importante a abraçar. Assim, se adiantarão em detectar os problemas para aplicar as soluções pedagógicas mais acertadas. 
          Para que a hipertrofia do trabalho profissional não roube o tempo dedicado à preparação para educar bem os filhos, os pais devem ver a família como o seu melhor negócio e principal âmbito de realização pessoal. É triste o testemunho de homens e mulheres que se realizaram profissionalmente, mas arrependidos viram seus filhos se desencaminharem na vida devido à insuficiente educação do temperamento e caráter que proporcionaram a eles.

    3 – Os defeitos progridem com a passagem do tempo

          É falso o raciocínio de que os filhos aprenderão com o tempo, pois a lei do menor esforço afeta adultos e crianças, sendo um grave erro antropológico não ter presente esse princípio inato de desordem que todos carregamos dentro. Os defeitos progridem com a passagem do tempo, se não há esforço por erradicá-los. Ações reiteradas geram pré-disposições boas ou más (virtudes ou vícios). Se a criança de um ano e oito meses não é exigida para jogar no lixo sua fralda suja, terá para si que é tarefa exclusiva da mãe, que a estará educando erradamente ao não atribuir a ela esse encargo. Ao crescer mais alguns meses, a criança deverá ser estimulada com carinho, insistência e paciência, para guardar seus brinquedos, arrumar suas roupas, dormir e comer no horário. Logo, a partir dos dois anos, deverá ajudar nas tarefas do lar de acordo com suas capacidades. Se isso não acontecer, será um adolescente desordenado, preguiçoso e egoísta ao não partilhar seu t

    4 – Por que exigir?

          Não há educação sem autoridade, sem a diferença clara de papeis: educador e educando. As crianças necessitam de pais no papel de pais, não de cúmplices que cedem a tudo. Ao gerar, os pais contraem uma profunda confiança dos filhos, tão necessária para educá-los. Não ter medo de exigir porque é direito e dever dos pais e não mero capricho; e os filhos não fazem um favor ao obedecer, já que a obediência é condição para deixar-se educar.
          O adulto busca instruir-se por iniciativa própria. Porém, a criança não sabe o que é necessário conhecer, nem o que é certo ou errado, e só busca o que agrada aos seus sentidos: ela não compreende por que não pode ver televisão o dia todo; por que tem que tomar banho, cumprir horários, ordenar seus brinquedos e roupas, agradecer e respeitar aos demais… Essa sabedoria pertence aos pais, que a transmite inicialmente exigindo, até que a criança interiorize o aprendizado e passa a agir por vontade própria.

          Erro comum é exigir que os filhos sejam apenas bons estudantes. A formação acadêmica ou profissional é só um aspecto da educação integral da pessoa humana, que carece também da formação da vontade e dos sentimentos. Há alunos excelentes do ponto de vista escolar, mas não têm autodomínio e são vítimas de seus instintos, sentimentos, paixões e portadores de temperamento e caráter de difícil convivência, seja na vida familiar, profissional ou social.

          As crianças não devem ser vistas apenas como necessitadas de ajuda e portadoras unicamente de direitos, mas possuidoras também de deveres filiais, fraternais e sociais. Devem contribuir para o bem-estar de todos na casa: enxugar banheiro, colocar pratos e talheres na mesa, ordenar seu quarto e objetos pessoais, varrer, ajudar os irmãos, ser educadas com os que não são da família…
          Não esperar que a criança se torne ingovernável para iniciar o processo educativo: há muita sabedoria no dito “é melhor prevenir do que remediar”. Adolescentes que não estudam, não cumprem os encargos familiares, são desordenados, comilões e desobedientes, revelam que seus pais não souberam exigir deles na primeira infância. Erradicar defeitos cristalizados exige luta maior do que preveni-los.
          Permitir que os filhos adiem as tarefas é autorizá-los a que sejam preguiçosos e irresponsáveis. Devem primeiro cumprir o que os pais pedem, e só depois ser autorizados a fazer o que querem: − Não poderá ir brincar enquanto não recolher os pratos e arrumar a mesa do jantar.

    5 – Conquistar virtudes

          Faz parte de um projeto educativo ajudar os filhos a conquistarem as virtudes contrárias aos defeitos que possuem. Para isso, os pais devem distinguir em sua educação o que é mais importante e o que não é: se a menina insistir em ir à festa com o vestido vermelho, não se desgastar para que vá com o verde, pois tanto faz! Porém, não é “tanto faz” que ela deixe de cumprir as tarefas que lhe foram atribuídas no lar, que seja mal-educada, que minta ou que ceda a caprichos (não comer salada).
          Não ficar na periferia de cada filho, mas atentar às reações temperamentais: explosões de raivas nos jogos, preguiças e rebeldias para não cumprir as tarefas, desobediências, malcriações… Não achar engraçada a carinha enfezada, as birras, as teimosias e o jogar as coisas, pois isso incentiva a criança a repetir tais ações. Perceber que o filho sanguíneo é alegre, sociável e comunicativo, mas tende a prometer e não cumprir e ser indisciplinado. O filho melancólico é cauteloso, leal, idealista, sensível, mas seus defeitos podem orbitar no egoísmo, na suscetibilidade e no pessimismo. O filho colérico é enérgico, independente, otimista, líder, e seus defeitos costumam campear na impaciência, na insensibilidade e na agressividade com os demais. O fleumático é um filho calmo, cumpridor dos deveres, diplomata, mas pode ser desmotivado, indeciso e sem autoconfiança. 

    6 – Educação da vontade é o mais importante

          Apenas saber o que deve ser feito é insuficiente, se a vontade não se determinar a realizar. Com a vontade fraca a criança deixará de cumprir suas obrigações. Para fortalecer a vontade não há outro tratamento senão exigir o cumprimento do horário de dormir e acordar, estar pontualmente nas refeições, servir-se sozinha e comer de tudo, não ir à geladeira fora de hora; ter horário para brincar, estudar, banhar-se e vestir-se por conta própria; ordenar os brinquedos e guardar as próprias roupas. Essas ações criam hábitos estáveis que fortalecem a vontade. O filho que se vê substituído nos esforços que deve realizar tem não somente a vontade enfraquecida, mas também o caráter. O paternalismo ou a superproteção ao evitar os esforços que a criança necessita empreender, impede-a de crescer em autonomia, e a habitua a que os outros sempre façam as coisas por ela.

          Há pais que veem seus pequenos como eternas crianças, não preparando-os para a vida fora do lar, o que é uma atitude egoísta e injusta. Presenciei um menino de sete anos pedir ao professor de educação física para lhe amarrar os tênis, porque não sabia fazê-lo; e outro, com a mesma idade, aguardou no refeitório da escola que a mãe lhe cortasse o bife, colocasse o arroz e o feijão no prato − pasmem! −, misturando-os, enquanto ele com os braços estirados junto ao corpo fitava o ritual. Bem diz o ditado que “com churros não se faz alavanca”.

    7 – Educação assertiva é a melhor

          Ser assertivo é ser firme e direto sem constranger. É a capacidade de dizer de maneira clara e objetiva, sem delongas, o que deve ser dito. Assertividade é uma postura decidida, mas não agressiva, que harmoniza firmeza carinhosa com carinho firme (bigorna almofadada). Mensagens assertivas não deixam dúvidas: indicam o que fazer, quando fazer e as consequências se não o fizer. O tom de voz é firme, claro, porém calmo. 
          Frase errada, vaga: − “Venha para a mesa”. Frase assertiva: − “Você tem cinco minutos para guardar isso e vir para a mesa”. Frase errada: − “Quantas vezes tenho que pedir pra você arrumar o seu quarto?”. Frase assertiva: − “Arrume o seu quarto agora mesmo!” ou “Só sairá para brincar depois que tiver feito a lição de casa”.

    8 – Mais algumas dicas para exigir com eficácia

    Utilizar mensagens sem palavras

          O modo de se expressar é tão importante quanto o de falar. A criança não dá importância a uma indicação da mãe feita de costas para ela enquanto lava um prato, como se falasse sozinha. Emoldurar as palavras com expressões corporais: olhar nos olhos da criança ao falar com ela transmite que os pais falam a sério; colocar suavemente as mãos sobre o ombro ou a cabeça dela também.

    Não perca a calma diante de uma falta de respeito

          Se um filho, irritado, diz: − “Não quero escutar você!”. O pai, calma e firmemente, deve dizer: − “Já havia dito que não permito que fale assim comigo. Escolheu ficar em seu quarto até que resolva a me falar com boas maneiras. Vá e fique lá até a hora do jantar!”.

    O que fazer diante de uma mentira?

          Dizer uma mentira não significa ter personalidade mentirosa ou falsa, mas apenas que houve uma falha, como tantas outras. Afirmar “Você é um mentiroso” não ajudará em nada, e fará a criança se sentir etiquetada com a pecha de falsa devido a sua falha e, humilhada, corre-se o risco que assuma a etiqueta. Se os pais se deixarem enganar e olhar nos olhos da criança para transmitir que confiam nela, fará com que o remorso lhe venha à tona ao trair a confiança daqueles que tanto a amam e acreditam nela. 

    Perguntas inseguras transmitem fraqueza dos pais

          − “Quantas vezes tenho que dizer para terminar seus deveres antes de sair?”. Não esperar que o filho responda: − “Tem que dizer 10 vezes”. A reação assertiva seria: − “Você não sairá enquanto não terminar a lição”.
          A criança quebrou o vidro da janela com a bola e o pai, irritado, disse: − “Você sabe quanto custa um vidro novo?”. Não aguardar que o filho diga: − “Pera aí que vou consultar o Google!”. A pergunta foi insegura ao não transmitir a verdadeira mensagem, que poderia ser: − “Seu comportamento irresponsável causou um prejuízo econômico à família. Por favor, recolha a sujeira e tire as medidas para o vidro novo, que você e eu compraremos com a sua mesada (ou com o dinheiro daquele game que você queria e já não ganhará).

          Para aprofundar-se no tema “Carinho e firmeza cos os filhos – II”, leia os seguintes boletins em staging.ariesteves.com.br/, página Boletins: “Carinho e Firmeza com os filhos – I”, “Medidas disciplinares”, “Cinco Técnicas para manejar discussão com crianças” e “Reconhecer as boas condutas dos filhos”.

    Texto produzido por Ari Esteves, inspirado na obra “Carinho e firmeza com os filhos”, de Alexander Lyfor-Pike, Editora Quadrande, 2ª edição, 2015, São Paulo e “La realización personal en el ámbito familiar”, Gerardo Castillo, EUNSA, 2009, Navarra (Espanha).

  • Educação da afetividade

    Educação da afetividade

    1 – Pensar é diferente de sentir. 2 – Conhecer o motivo que causa um sentimento. 3 – A pessoa virtuosa não vive em luta com seus sentimentos. 4 – Sentir alegria diante de uma ação má deforma o caráter. 5 – A educação da afetividade. 6 – O que são as virtudes? 7 – As três dimensões das virtudes. 8 – As virtudes libertam e os vícios escravizam.

    1 – Pensar é diferente de sentir

         Agir é diferente de sentir: pela inteligência e vontade agimos ao decidir, por exemplo, estudar ou visitar um amigo enfermo. Quanto aos sentimentos e paixões não agimos, mas somos surpreendidos por movimentos interiores que não decidimos por eles: raiva, tristeza, inveja, alegria, compaixão, etc.

         Apenas sentir algo não traz valoração moral (certo ou errado, bom ou mau) porque não depende da razão e da vontade. Porém, se a pessoa aceitar ou der cabida ao que sente, a valoração moral dependerá da qualidade do sentimento.

         As paixões e os sentimentos humanos garantem a ligação entre a vida sensível e a vida do espírito. Não se trata somente de conter as más paixões ou bloquear certos comportamentos, mas dar forma ao mundo dos sentimentos para que seus movimentos ajudem a querer fazer o bem de modo rápido e natural.

    2 – Conhecer o motivo que causa um sentimento

         É necessário fazer um juízo preliminar acerca do motivo que causou determinado sentimento, a fim de aceitá-lo ou não. É possível moldar os sentimentos aos poucos para que se ajustem cada vez mais à verdade e ao bem: um acontecimento bom faz surgir a paixão da alegria que sugere a ação de aplaudir, ou ajudar alguém movido pelo sentimento de misericórdia. Se um acontecimento mau causa ira ou tristeza, tendemos a nos afastar dele. Também pode ocorrer que um sentimento mau cause alegria, como ocorre com a inveja que se alegra diante do mal alheio. Fazer um juízo acerca do que se sente é o caminho para acolher o que é bom e rejeitar ou corrigir o que está desordenado, pois alimentar percepções equivocadas deforma a personalidade.

    3 – A pessoa virtuosa não vive em luta com seus sentimentos

         Uma pessoa que procura educar-se para orientar bem a sua afetividade, ao aceitar e amar o que é moralmente bom e recusar o que é mau, evitará a desgastante e desanimadora atitude de estar continuamente em luta contra os sentimentos. O dito popular “o que é bom engorda ou é pecado”, ficará sem sentido porque a consciência de quem se educou para o bem se rejubila com os valores que assumiu como norteadores de sua vida, e se entristece com o que percebe ser um mal.

    4 – Sentir alegria diante de uma ação má deforma o caráter

         Quando os sentimentos encontram satisfação no que é bom e verdadeiro, ocorre uma ressonância interior positiva, que é um sentimento de alegria, gratidão e serenidade. O que não pode surgir é um sentimento de contentamento ao fazer algo mau, ou sentir ira quando uma ocorrência impede a realização de algo moralmente reprovável (ficar chateado porque a internet caiu e não se pode ver um vídeo imoral), pois tais desordens tiram a harmonia da alma e revelam que os sentimentos e o caráter estão deformados. Para corrigir essas desordens são necessárias virtudes.

    5 – A educação da afetividade

         A pessoa deve educar-se para atuar sobre seus sentimentos ao iniciar neles um processo que os leve a agradar-se com o que é bom e desagradar-se perante o que é mau. A afetividade ordenada permite apreciar o bem porque o querer pessoal passa a coincidir com o plano inicial com que o Criador constituiu a natureza humana. Para atuar sobre os sentimentos a pessoa necessita de virtudes, e para isso é preciso compreender os motivos que fazem surgir os sentimentos. Há uma inclinação natural no ser humano para se sentir atraído pelo que considera um bem: o instinto de sobrevivência, a tendência sexual ordenada para o matrimônio, o desejo de conhecimento, a necessidade de trabalhar e de ter amigos, a busca de um sentido para a própria vida e o da transcendência da vida humana, entre outros, são inclinações naturais originadas no interior humano que, se bem dirigidas, vão em direção à felicidade pessoal.

    6 – O que são as virtudes?

         As virtudes não são algo concreto para colher com as mãos, mas para colhê-las com a inteligência e a vontade, que são nossas faculdades espirituais. As virtudes são qualidades que se estabilizam na alma por meio da repetição de atos ou hábitos bons. Mesmo não sendo visíveis como as formas e as cores, essas qualidades são facilmente percebidas na pessoa que as possui. Por exemplo, um matemático tem a ciência ou a virtude intelectual de fazer com facilidade operações e cálculos que não faria uma pessoa sem esse conhecimento. O mesmo ocorre com quem é temperado, pois come e bebe o razoável e sem grande esforço porque a virtude moral da temperança, que se opõe ao vício da gula, lhe facilita essa ação.

    7 – As três dimensões das virtudes

    1. Ao pressupor o conhecimento do bem ou de uma vida reta, as virtudes têm o caráter de regular as reações: quem compreende a importância da virtude, por exemplo, do desprendimento (tem mais quem precisa de menos), saberá conduzir-se com soltura diante das ataduras de tantos bens de consumo que são oferecidos a todo momento, e que podem fazer alguém girar apenas em torno deles, empobrecendo as demais dimensões da vida.
    2. As virtudes possuem também uma dimensão ou natureza afetiva: introduzem-se nas tendências que se dirigem a cada bem concreto modificando-as pouco a pouco para que sua inclinação espontânea se conforme com um estilo de vida reto. Essa ordenação das tendências afetivas se consegue por meio da repetição de atos que sejam ao mesmo tempo livres e conformes ao que é virtuoso, sendo realizados precisamente porque são bons (querer realizá-los tem caráter intelectual). Quem possui o hábito de ser pontual aos compromissos não se deixará vencer pelo comodismo de evitar o esforço para chegar no horário combinado. Os atos que parecem bons (por exemplo, estudar), mas são realizados por temor (estudar por medo do pai) ou por outros motivos alheios ao bem (estudar por vaidade ou orgulho de mostrar as capacidades pessoais), não tornarão virtuosa a pessoa que permite sua afetividade alimentar-se de tendências viciosas.
    3. Geram, as virtudes, uma predisposição para o bem: o virtuoso tem especial facilidade e agudeza para distinguir o bem do mal, inclusive em situações complexas ou imprevistas que se apresentam de supetão, sem que deem tempo para uma avaliação mais demorada: − “É justo pagar o tributo a César?”, pergunta feita de chofre a Cristo para comprometê-Lo. Porém, Ele responde sem hesitar e de bate pronto porque sua alma estava configurada com o bem: − “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.

    8 – As virtudes libertam e os vícios escravizam

         As virtudes ou bons hábitos tornam a pessoa mais livre e flexível ao permitir escolher, entre os diferentes bens que a cercam, aquele que parece ser o melhor: estudar línguas, dedicar-se profundamente a um campo científico, cultivar amizades, amar a literatura e outras manifestações artísticas, dedicar tempo a Deus e à família… Já os vícios geram automatismos e reações rígidas, inflexíveis e difíceis de abandonar: basta ver como o preguiçoso não tem mais opções do que se abandonar à comodidade; ou como o adicto à droga, álcool, pornografia ou games vê-se escravizado e submetido de modo inflexível ao seu vício, e sem ânimo ou forças para se abrir a outras realidades.

    Texto elaborado por Ari Esteves com base nos ensinamentos de Angel Rodríguez Luño, autor do livro “Ética general”, Ediciones Universidad de Navarra (Espanha).

  • A formação integral da pessoa

    A formação integral da pessoa

    1 – Educação integral da pessoa. 2 – O que é afetividade humana? 3 – A afetividade educa-se com virtudes. 4 – As crianças esperam ser educadas pelos seus pais. 5 – Preparar-se bem para melhor educar.

    1 – Educação integral da pessoa

        Educação integral é aquela que atende não apenas a um aspecto − o profissional, por exemplo −, mas tem em vista toda a pessoa: inteligência, vontade e afetos. Crescer em apenas um aspecto suprime a beleza do conjunto, como aconteceria se os membros do corpo não se desenvolvessem harmonicamente: um profissional tecnicamente competente pode ser uma pessoa de péssimo caráter e de difícil convivência.

    2 – O que é afetividade humana?

        A afetividade humana é o conjunto de tendências sensíveis e inatas que ressoam no mundo interior por meio dos sentimentos, emoções, paixões. São reações involuntárias que experimentamos diante das diferentes circunstâncias, e de acordo com a personalidade, pois cada pessoa tem uma forma peculiar de captar a realidade, que sempre a afeta em modos e graus diferentes: perante o mesmo fato as reações pessoais podem ser distintas.

        A afetividade é uma poderosa realidade que dá calor, cor e intensidade ao nosso modo de ser. Um profissional que coloca sentimentos naquilo que faz, faz melhor. Sem paixão seria difícil reunir as forças necessárias para superar os obstáculos em vista da realização de um ideal. Essa força é facilitada pela sensibilidade ou sentimentos humanos, que impulsionam a pessoa a arrostar as dificuldades.

        A dimensão afetiva possui no homem a mesma dignidade de sua dimensão espiritual (inteligência e vontade). Cada esfera é diferente e ambas se completam, dando unidade à personalidade, ao nosso “eu” espiritualizado, que é o que nos torna imortais, livres e capazes de amar. As duas dimensões − afetiva e espiritual − necessitam continuamente ser edificadas pelo nosso “eu”, que é quem julga e decide. Para facilitar essa tarefa a pessoa necessita de formação (para o adulto) ou educação (para a criança). Se essas dimensões não estiverem equilibradas conduzirão a pessoa a cometer muitos erros − alguns irreparáveis –, seja na adolescência, juventude ou idade adulta.

        Tanto a absolutização dos sentimentos quanto a do espiritualismo que desconsidera os sentimentos, são contrários à dignidade humana: não somos só afetividade (sentimentos, emoções, instintos), nem somente espiritualidade (razão e vontade). Separar a inteligência dos afetos desumaniza, pois a natureza humana se consubstancia na união harmoniosa dessas duas dimensões.

    3 – A afetividade educa-se com virtudes

        As tendências informadas pelas virtudes se tornam o melhor apoio para a razão decidir bem. Quem forma seu gosto de acordo com as virtudes, que é formar-se de acordo com a verdade, equilibra as vozes das tendências, que em seu conjunto apontarão para a verdade.

        O mundo afetivo-emocional é muito rico, quando bem orientado. Por vezes, a afetividade nos faz sentir algo bom (alegria, compaixão) ou mau (ciúmes, inveja). Por meio do juízo cada um avaliará a qualidade dos seus sentimentos, aceitando uns e corrigindo outros. Essa tarefa é facilitada pelas virtudes, que fazem sentir alegria diante do que é bom e verdadeiro e tristeza pelo que julga ser um mal, mesmo que agrade aos sentimentos. Se a afetividade oferecer resistência ao ato visto como bom pelo juízo, é o momento de corrigir-se. Porém, o objetivo não é simplesmente vencer ou submeter a afetividade, mas desenvolver o gosto pelo comportamento moralmente bom.

        A pessoa virtuosa nunca levará ocultamente e sem pagar algo do supermercado, porque tal ação, que não é bem-vista pela sua razão, desagrada-a profundamente, o que revela que sua paixão de possuir está sob seu controle. Seria muito pouco para a pessoa virtuosa apenas evitar olhar para o objeto que a atrai, a fim de não se sentir impulsionada a furtá-lo, porque isso teria um aspecto repressivo ou negativo e não uma atitude amada ou querida pela vontade. Se há virtude, aquilo que não concorda com o mundo interior rico e belo da pessoa já não interessa porque não é querido pela vontade. A pessoa bem formada tem a sua afetividade configurada para apreciar o que verdadeiramente convém e afasta-se do que a degrada ou causa mal (isso se chama dimensão cognoscitiva da virtude).

        O esforço alegre e esportivo é necessário para desenvolver as virtudes que ordenam os sentimentos: levantar-se da cama pontualmente para atender as responsabilidades do dia pode custar, mas quem o faz se sente feliz por ter agido bem. Chegará o momento em que essa atitude alegrará mais do que ceder à preguiça, que incomodará e deixará um sabor amargo. O afeto ou sentimento de alegria diante do bem realizado, ou o sabor amargo diante do mal praticado, não é um efeito colateral da virtude, mas um componente essencial dela: a virtude faz desfrutar com o bem.

    4 – As crianças esperam ser educadas pelos seus pais

        Ao não ter ainda capacidade de discernir sobre o bem ou o mal, a criança necessita ser ajudada pelos pais. Ela deseja que o educador tenha a iniciativa de fazê-la adquirir algo que por si só não saberia avaliar a importância. Por isso, ela aceita de bom grado e colabora com a ação educativa que recai sobre ela.

        É tarefa dos pais educar a criança desde que nasce para que tenha autodomínio ou controle de sua afetividade, a fim de não comer fora de hora, controlar impulsos agressivos, deixar uma atividade prazerosa para cumprir um encargo, dormir e acordar no horário, manter em ordem seus brinquedos e roupas. Com entusiasmo e paciência devem os pais aproveitar as pequenas circunstâncias familiares para ir desenvolvendo bons hábitos ou virtudes nos filhos.

        Cada idade da criança e do adolescente oferece um período propício para ganhar hábitos ou virtudes que as conduzirão mais facilmente ao desenvolvimento de suas capacidades intelectuais e ao domínio de sua afetividade: as virtudes da ordem, sinceridade e obediência podem ser conquistadas até os sete anos; dos oito aos doze anos pode-se desenvolver a da fortaleza, perseverança, laboriosidade, paciência, responsabilidade, justiça e generosidade. Leia os nossos boletins que tratam das virtudes por idade.

        Giuseppe Zaniello diz que educação é a ação que se propõe fazer da criança um ser moralmente livre e responsável pelos seus atos. A atividade educativa − diferentemente da formativa − se dirige a pessoas muito jovens, que ainda não adquiriram a capacidade de eleição moral livre, porque ainda não ganharam a forma humana que faz unitários os múltiplos conhecimentos, habilidades e competências. Daí, se conclui que os adultos têm o dever de educar as crianças, e estas, de fato, esperam ser educadas por eles.

        Cada pessoa é responsável por dedicar tempo à sua formação, e essa é a sabedoria que dá frutos valiosos e permanentes. Para Zaniello, formação é a ação que busca aperfeiçoar o adulto em algum aspecto de sua vida. A formação é possível quando uma pessoa, à medida que vai sendo livre e responsável pelos seus atos, decide aperfeiçoar-se em aspectos particulares: caráter e temperamento; vida espiritual e doutrinal-religiosa; atividade profissional, cultural e política; arte, esporte etc.

        A demanda da formação só pode partir do adulto interessado e por ele deve ser buscada, não apenas aceitada como sucede na educação da criança.

    5 – Preparar-se bem para melhor educar

        Em conclusão, podemos deduzir que os pais e educadores devem dar especial atenção à própria formação, pois só educa quem tem bom preparo, que deve ser continuamente buscado com sentido profissional. Os pais não precisam ser profissionais da educação, mas devem buscar sua formação com sentido profissional em palestras, cursos, leituras, lives, pois a família é o seu melhor negócio e principal âmbito de realização pessoal. Mulheres e homens que “deram certo” profissionalmente, mas que se sentem frustrados como cônjuges ou como pais, não se sentem felizes ou realizados (há muitos testemunhos sobre isso).

    Texto produzido por Ari Esteves com base nos ensinamentos, entre outros, de Giuseppe Zaniello, Professor of Special Education. Department of Psychological and Pedagogical Sciences at the University of Palermo, Italy; e de Julio Diéguez, professor de Teologia Moral na Pontifícia Universidade da Santa Cruz (Roma).

  • Ser ou ter: a educação da personalidade

    Ser ou ter: a educação da personalidade

    1 – Ser ou ter: a educação da personalidade. 2 – Identidade pessoal não se confunde com objetos que se possui. 3 – Não somos as nossas aptidões. 4 – Os dons que possuímos recebemos gratuitamente. 5 – A visão utilitarista reduz o conceito de pessoa. 6 – A dignidade humana está em nosso eu. 7 – A criança compreende sua própria dimensão espiritual. 8 – Enriquecer o eu

    1 – Ser ou ter: a educação da personalidade

        Todos necessitamos formar a nossa personalidade, sem confundir o que somos com o que temos. Uma das necessidades mais profundas do homem é a de identidade: carecemos saber quem somos diante dos próprios olhos. No plano mais superficial, essa necessidade de ser, de identidade, tenta ser suprida pela necessidade de ter, pela posse de bens para mostrar uma imagem externa.

    2 – Identidade pessoal não se confunde com objetos que se possui

        A tentativa de suprir a necessidade de ser pela de ter algo, traz decepções, pois sendo a felicidade humana de ordem espiritual, só nos plenificamos no amor. A mera posse de objetos buscada como um fim último instala o desconcerto e o vazio na alma, porque objetos não preenchem a ânsia de felicidade que todos trazemos no coração. Para preencher o vazio que uma posse deixa depois de usufruída, costuma-se ir atrás de outra até que uma pessoa percebe que é querida não pelo que é, mas pelo que possui. Surge, assim, a pior das solidões, como a de “Timon de Atenas”, conto de Shakespeare, ou “A morte de Ivan Ilitch”, de Tolstói, obras que vale a pena ler, pois transmitem valores a serem assumidos na vida.

    3 – Não somos as nossas aptidões

        Outras vezes se confunde o ser com o ter determinadas capacidades intelectuais, competências ou aptidões. E quando se perde essas qualificações por velhice, acidente ou doença, a pessoa julga erradamente que perdeu o seu valor, porque confunde novamente o ser com o ter. É bom que percebamos isso para não instalar uma crise existencial diante de um fracasso ou incapacidade física ou mental.

        Não se pode identificar a pessoa pela soma de suas aptidões, pois a dignidade humana está acima de visões utilitaristas: somos pessoas cuja alma foi criada à imagem de Deus, e Ele nos ama por isso e não por nossas habilidades, que aliás Ele mesmo nos deu. A autoidentificação com o bem que podemos produzir conduz ao orgulho de julgar que as qualidades possuídas não as recebemos de dEle. Sentir-se capaz de fazer isso ou aquilo é bom, se a intenção é servir aos demais por amor, seja como alfaiate, cozinheiro, médico, sapateiro, advogado…

    4 – Os dons que possuímos recebemos gratuitamente

        Para fugir da autossuficiência ou orgulho produzido por aquilo que somos capazes de realizar, é bom ter presente que recebemos gratuitamente de Deus as capacidades que pudemos desenvolver. Apropriar-se delas para a vangloria − glória vã − é um roubo sacrílego. Todos dependemos um do outro, já que não somos autossuficientes (nem os países o são): se tivéssemos que cozinhar ou produzir nossas roupas, muitos morreríamos de fome ou andaríamos andrajosos. Mas necessitamos dos demais não por aquilo que podem produzir, e que carecemos, mas porque temos um coração para amar e ver em cada pessoa um outro eu.

    5 – A visão utilitarista reduz o conceito de pessoa

        A visão estreita e utilitarista que valoriza o ser humano pelas posses ou qualidades pessoais, coloca muitas barreiras aos pobres, aos indefesos e àqueles que têm alguma necessidade especial. Isso é péssimo porque leva a sociedade a valorizar apenas aos que são economicamente ativos, ou pelos bens que se possuem, mesmo que tenham sido adquiridos de forma imoral. 

    6 – A dignidade humana está em nosso eu

        A dignidade do ser humano está acima do que cada possui ou sabe fazer. Nossa alma nos faz ter a consciência de que existe um eu que não se confunde com o pé, mãos, inteligência ou vontade. Esse eu espiritualizado nos torna imortais, livres e capazes de amar, dando unidade à nossa personalidade.

        A grande educadora Helena Lubienska, discípula de Maria Montessori, afirmava que a finalidade da educação é o estabelecimento, na nossa vida, da primazia do espírito. Ela consagrou todo o seu trabalho para definir às crianças o termo espírito. Diz Lubienska que se deve explicar às crianças que é o espírito quem comanda o nosso corpo, e que a alma é aquilo que pensa e aquilo que sente: o corpo é o que você vê, e o espírito é o que diz eu.

    7 – A criança compreende sua própria dimensão espiritual

        Lubienska afirma ela ser primordial que a criança em pé sobre as próprias pernas não se identifique com o seu corpo, mas que tome consciência de que ao dizer eu, estará designando aquilo que governa o seu corpo e a sua alma, seus músculos e pensamentos. A vida da criança é uma conquista e a consciência de si é o seu triunfo: − “Professora, eu disse para as minhas pernas caminharem, e elas caminharam!”, afirmou uma criança à professora Lubienska, que a ouviu com grande emoção, pois era a confirmação de que as crianças são capazes de compreender a sua dimensão espiritual, e desenvolver uma personalidade consciente e responsável.

        É fundamental que a criança desde o começo considere a conquista do seu corpo como um trabalho pessoal, fruto dos esforços de sua alma racional comandada pelo seu eu. Agindo assim fará de seu corpo e de sua mente instrumentos dóceis ao seu espirito ou eu espiritualizado.

    8 – Enriquecer o eu

        O nosso eu precisa ser enriquecido com o conhecimento profundo da fé (alicerce), com a instrução profissional, com a ilustração da cultura, com o estudo dos problemas que afetam a sociedade atual para colaborar nos assuntos relacionados à família, ao casamento, ao conceito de pessoa (o que é ser homem e ser mulher), à sexualidade, entre outros temas. E isso tem uma razão de ser: não podemos dar o que não somos e não podemos ensinar o que não sabemos.

        Como diz Maria Betânia na música Tocando em frente, de Almir Satter, “Cada um carrega o dom de ser capaz e de ser feliz”. A consciência de que Aquele que nos deu poucas ou muitas capacidades nos ama não por isso, mas porque somos seus filhos, feitos à Sua imagem e semelhança, nos dá o dom de ser capaz de amar e de viver e ser feliz.

    Texto produzido por Ari Esteves, com base nas obras “A liberdade interior”, de Jacques Philippe, Edições Shalon, e “A educação do homem consciente”, de Helena Lubienska de Lenval”, Editora Kirion, Campinas, 2018.

  • As motivações humanas: o que o leva a agir?

    As motivações humanas: o que o leva a agir?

    1 – Níveis de motivações. 2 – Motivações Extrínsecas. 3 – Motivações Intrínsecas. 4 – Motivações transcendentes. 5 – Influência das motivações sobre os juízos. 6 – Dois níveis de motivações transcendentes. 7 – Quanto maior a entrega aos demais, maior a felicidade. 8 – Reforçar na família as motivações transcendentes

    1 – Níveis de motivações

        Podemos situar os motivos que levam as pessoas a tomar decisões em três níveis:

    Motivações extrínsecas: materialistas = Ter (comer, vestir, possuir objetos)
    Motivações intrínsecas: subjetivas = Saber (cultura, ciência, arte)
    Motivações transcendentes: os outros = Dar (amizade, lealdade, amor, Deus)

    2 – Motivações Extrínsecas

        Ocorrem quando a decisão traz consigo o esforço para fazer frente às necessidades materiais justas e necessárias para a vida. Mas quando focadas na busca do supérfluo desviam-se do caminho reto. A estimulação que emprega o sistema de prêmios e castigos reforça as motivações extrínsecas ao valorizar as coisas materiais. O consumismo e o materialismo fomentam a ânsia de dar rédeas soltas ao prazer dos sentidos pelo mero fato de satisfazê-los, e se tornam o limite negativo desta motivação, que ao valorizar demasiadamente os aspectos materiais, faz a pessoa circunscrever sua vida e recursos na busca de bens ligados aos instintos: comer, beber, divertir-se… Quem vive nesse nível de vida tão primário desconhece as riquezas ligadas ao intelecto, e pouco tempo e ânimo terá para os bens do espírito e a ajuda aos demais.     

    3 – Motivações Intrínsecas

        Acontecem essas motivações quando a satisfação está na própria realização de uma ação, sem necessidade de receber nada de fora: estudar porque há satisfação em aprender; provar para si que pode ser o melhor profissional em determinada área ou conhecedor profundo de um assunto; praticar um esporte ou hobby pelo agrado em realizá-lo. São ações que apoiam a boa autoestima. O limite negativo dessas motivações ocorre quando os interesses pessoais se posicionam acima das necessidades dos que estão ao redor, que deixam de ser atendidos seja no plano familiar, profissional ou social. O egoísmo e o orgulho são dois perigos que rondam as motivações intrínsecas.

    4 – Motivações transcendentes

        São as mais próprias dos seres humanos, e as que mais felicidade trazem, pois se assentam no amor. São motivações que se sobrepõem às inclinações instintivas ou sentimentais. Diretamente ligadas à vontade guiada pela razão ou inteligência, quando esta não age por interesses pessoais, conduzem a pessoa a atuar não por vantagens, mas para servir aos demais em suas carências. Realiza-se com elas o sentido religioso ou finalístico da própria vida ao colocar em prática os dons recebido de Deus para o bem dos outros.

        São motivações transcendentes as ações que se praticam por amizade, lealdade, amor a Deus e às pessoas. A referência a Deus, fim último de todos os homens, torna essa motivação plenamente transcendente ao hierarquizar todos os motivos de atuação em função de agradar a vontade divina, que é a ação mais acertada da vida humana. O limite negativo da motivação transcendente ocorre ao se retirar Deus como fim último das ações, a fim de praticar atos de solidariedade para buscar o aplauso e o reconhecimento dos homens, em nítida atitude farisaica ou de falta de retidão de intenção.

    5 – Influência das motivações sobre os juízos

        O juízo sobre as ações dos outros pode ser influenciado pelo nível motivacional próprio. É importante ter em conta essa realidade na hora de educar as pessoas. Quem submerge ao forte influxo das motivações extrínsecas terá grande propensão para avaliar tudo em função do valor material ao qual reduz a sua vida: pensará que as pessoas sempre agem por esses motivos, e se alguém afirma que aprecia mais a sabedoria que o dinheiro, julgará que no fundo quer o conhecimento para ganhar mais dinheiro. Ao ver alguém doar seu tempo ou recursos a outro, pensará que o faz para receber algo em troca. Quem circunscreve sua vida ao nível materialista é incapaz de perceber que os outros podem agir movidos pela necessidade dos demais.

        Só a pessoa equilibrada em cada um dos três níveis de motivação está em condição de julgar e entender as atividades dos outros.

    6 – Dois níveis de motivações transcendentes

        A motivação transcendente tem dois níveis: o primeiro é agir por amor aos outros; o segundo é agir por amor a Deus. Esses dois níveis não se excluem, mas se integram: amar aos demais aproxima de Deus; amar a Deus garante e protege o amor aos outros das imposições do egoísmo pessoal. Agir para agradar a Deus como motivação última é a melhor maneira de vencer as inclinações egoístas do próprio eu.

        O comportamento moral se insere nas motivações transcendentes, porque a vontade procura realizar o bem de modo desinteressado. Neste terceiro nível motivacional estão as ações que na família e nas demais instituições reforçam o amor entre os seus membros: a ajuda mútua, a compreensão, o espírito de equipe, a confiança, a colaboração.

    7 – Quanto maior a entrega aos demais, maior a felicidade

        Não existe limite negativo nas ações retas que tenham por fim acudir às necessidades das outras pessoas. Quanto maior for a entrega aos demais, maior será a satisfação ou a felicidade pessoal. O limite dessa entrega se encontra em nós mesmos: não podemos oferecer o que não temos; não podemos ensinar o que não sabemos; não podemos dar o que não somos. Portanto, potencializa-se a entrega aos demais quando se cresce como pessoa livre e responsável, aproveitando bem o tempo para desenvolver as qualidades pessoais. Aquele que perde demasiado tempo consigo, seja curtindo demasiadamente músicas, games ou outros hobbies, nunca saberá como se é feliz ao dedicar tempo aos demais.

    8 – Reforçar na família as motivações transcendentes

        Hoje, para efeitos educativos, e uma vez que o ambiente e os meios de comunicação fundamentam suas intervenções nos níveis 1 e 2, se faz mais necessário reforçar na família as motivações transcendentes, não unicamente porque são as mais próprias dos seres racionais, mas porque com elas se combatem as influências dos modismos consumistas e o afã de gastar demasiado tempo consigo.     

        Os pais devem transmitir uma educação equilibrada ao auxiliar os filhos a identificarem suas motivações nos três níveis, e ajudá-los a compreender que a decisão deles será tanto mais humana quanto mais souberem agir por motivações que os levem a servir com suas qualidades ou dotes pessoais. Para educar na transcendência o exemplo dos pais é fundamental. Se na família há atitudes de solidariedade para com os mais carentes; se a aspiração magnânima de realizar grandes ideais de serviço aos demais está presente, os filhos se moverão dentro dessas motivações.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base na obra “Educar hoje, de Fernando Corominas, Editora Quadrante, São Paulo, 2017.

  • Educar para a temperança

    Educar para a temperança

    1 – Temperança é afirmação. É senhorio da conduta. 2 – Os frutos a temperança. 3 – As marcas e as modas valorizam o ter e não o ser. 4 – A temperança é iniciada na vida familiar. 5 – Sobriedade nos hobbies e divertimentos. 6 – Os pais não devem projetar-se nos filhos.

    1 – Temperança é afirmação. É senhorio da conduta

         Utilizar os bens que possuímos ou o tempo que dispomos é facilitado pela virtude da temperança que, após a avaliação entre o razoável e o caprichoso, feito pela inteligência, dá forças para agir com medida em tudo: trabalho, descanso, música, esportes, refeições… O verdadeiro sentido dessa virtude não está na negação do que atrai ou é gostoso, mas na beleza ou afirmação que torna a pessoa dona de si mesma ao colocar ordem e equilíbrio na sua afetividade (sentimentos, emoções, paixões), afim de que esta não assuma o papel reitor das ações que cabe à inteligência.

         Há pessoas atadas aos seus objetos e rotinas, e quando não podem dispor de sua cadeira favorita, ouvir as notícias antes de sair de casa, ou porque não puderam fazer o plano esportivo para atender a família, se revelam mal-humoradas e egoístas. Quem diz “não” a si para vencer na luta interior contra paixões descentradas, afirma o “eu” e se torna livre dos laços sutis que tolhem a liberdade. Dizer “sim” a tudo que agrada relativiza a vida e transforma a pessoa em marionete de gostos e sentimentos. Quem vive de sensações pontuais ao julgar que isso é a felicidade, será um eterno insatisfeito que irá de um lado para outro em contínua fuga de si mesmo, pois os sentimentos, sendo mutantes, impedem de perseguir ideais valiosos, que normalmente custam esforço. Isso não significa que os sentimentos e os apetites sensitivos sejam maus, pois seria negar a própria natureza humana que se vale deles para realizar com garra e ânimo o bem que se tem em vista.

    2 – Os frutos a temperança

         Quando os pais negam aos filhos algum capricho para educá-los no autodomínio ou na temperança, é comum que estes perguntem “por que não podem fazer tudo o que desejam”, “por que devem comer algo que não gostam”, ou “qual o motivo para não passar horas na internet”. De bate-pronto, e para sair do sufoco, a primeira resposta poderia ser “porque não podemos permitir essa perda de tempo”, ou “porque você ainda tem outros deveres a cumprir”, ou “para que você não se torne um garoto caprichoso que só faz o que gosta e não o que deve”. Porém, a verdadeira resposta seria mostrar que a temperança ou sobriedade é senhorio e afirmação − não negação − que facilitará o império da inteligência sobre as próprias ações, impedindo que o comando seja das paixões e instintos.

         A temperança deve ser proposta como um estilo de vida que exige a valentia de não reclamar do frio ou do calor, dos trabalhos ou incomodidades materiais, dos achaques ou indisposições da saúde, que devem ser resolvidas sem manhas ou choradeiras. A paz e a serenidade são frutos dessa virtude, pois ao colocar ordem no mundo das inclinações apetitivas, vive-se a alegria do dever cumprido, e não a posterior tristeza que traz a comodidade e a preguiça àquele que descumpriu suas obrigações.

         A temperança ou sobriedade não é um fardo, mas galhardia, elegância e soltura. Quem não se serve de todos canapés, acepipes e bebidas que os garçons servem continuamente nas festas, revela-se como alguém atraente e desprendido, não subjugado pelo instinto ou paixão de comer e beber.

    3 – As marcas e as modas valorizam o ter e não o ser

         Há marcas e modas que propõem um estilo de vida para identificar umas pessoas e diferenciar outras. Fazem crer que possuir determinada marca assegura a inserção social e a aceitação em algum grupo: ou seja, não valorizam a pessoa pelo que é, mas pelo que tem. Tal estilo de vida atinge também os adolescentes, pois o consumo entre eles não está determinado pelo desejo de ter, como ocorre com as crianças, mas como maneira de expressar a personalidade ou manifestar a sua posição entre os colegas.

         O consumismo incita as pessoas a não se conformarem com o que possuem, instigando-as a adquirir o último lançamento do mercado; a trocar o computador, o carro e o celular a cada ano; afirma que a pessoa se torna especial se utilizar determinada marca de roupa esportiva ou social. Essas falsas apreciações são facilitadas pela ausência de senso crítico e pelo errado entendimento de que autoestima significa não negar-se nada, nem suportar o menor tipo de privação. Com tudo isso, a paixão de consumir ganha campo aberto para deitar e rolar.

    4 – A temperança é iniciada na vida familiar

         A vida familiar é o grande campo de treinamento para a temperança ou sobriedade; é onde adultos e crianças aprendem a não fazer cara azeda para praticar essa virtude, pois associam-na à alegria de viver sem falsas ataduras e ao serviço aos demais. A família é também o âmbito onde crianças e adolescentes aprendem a economizar e a dispor de pouco dinheiro para gastar, pois só assim compreendem o esforço dos pais para obtê-lo. 

         Os filhos começam a viver a temperança ao verem os pais renunciarem com elegância ao que consideram caprichos. E como não basta o bom exemplo para educar, explicam aos filhos os motivos para não comer ou beber demais; para determinar os tempos de divertimentos; para ter moderação nas relações sociais, esporte e passeios; informam o quanto custam as coisas para que as crianças valorizem o que possuem, e  porque seus pais e avós não tiveram a oportunidade de tê-las; não dão várias camisas de times de futebol para evitar o supérfluo; fomentam a alegria de doar os brinquedos que não utilizam para crianças de creches, orfanatos ou comunidades pobres; fazem perceber que coleções de pares de tênis, roupas, brinquedos e objetos de esporte revelam falta de justiça diante dos mais necessitados. 

         As refeições são o primeiro campo para educar os filhos na virtude da temperança, pois o controle do apetite é caminho para o autodomínio e a edificação de uma personalidade sadia: utilizar os talheres com elegância, aguardar todos se servirem antes de comer, não abarrotar o prato com comida, comer sem reclamar do que não gostou, não deixar no prato algo que se serviu, sair da mesa não saturado e com um pouquinho de fome, não comer fora de hora…

    5 – Sobriedade nos hobbies e divertimentos

         É essencial à sobriedade o uso harmonioso do tempo para atender a tudo: família, trabalho, deveres de cidadãos, amizades, trato com Deus. As crianças precisam ser ensinadas a distribuir o tempo entre as diversas atividades para não adquirirem vícios (ou hábitos ruins) que deformam o caráter: dormir fora de hora; dedicar tempo demais à televisão, videogames e computador; praticar hobbies em excesso; gastar demasiadas horas com trabalhos escolares em prejuízo da caridade ou amor aos demais (por exemplo, desatendendo os pais e os irmãos). 

         Educa-se na temperança em clima de liberdade, porque não se vive essa virtude como algo imposto pelos outros, mas como conduta desejada e amada. Também não se educa com uma atitude protetora que toma o lugar da vontade da criança, ou com modos autoritários que suprimem o crescimento da personalidade e impedem de assumir como próprios os valores das virtudes.

    6 – Os pais não devem projetar-se nos filhos

         Quando os pais impõem a sua personalidade e impedem que os filhos se manifestem como são, transformam estes em pessoas sem caráter. Devem criar oportunidades para os filhos tomarem decisões de acordo com a idade, tendo presente as consequências dos seus atos: se escolheram ir ao shopping e lá chegando se arrependem e pedem para ir ao parque, não se vai e explica-se que essa foi a escolha deles).

         Certo garoto, caprichoso e enjoado, não quis comer o que lhe foi oferecido; e ao perceber que sua mãe não lhe faria um prato diferente, lançou a comida contra a parede, que ficou suja por vários meses a fim de que ele tivesse sempre presente as consequências da sua ação. Com isso, os pais uniram o respeito à liberdade do garoto com a necessária fortaleza para não transigir com o que era um simples capricho: queriam o melhor para o filho e tinham ideias claras sobre o que poderia ser um mal para ele. Substituir as crianças nas ações que elas conseguiriam fazer (vestir-se sozinha, servir-se na mesa, amarrar os sapatos, guardar suas roupas e brinquedos, ter encargos familiares, etc) é outro modo de impedir a autonomia delas.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base em lições de J. De la Veja, J.M. Martín e David Isaac.