Categoria: VIRTUDES

  • Caráter dos filhos: missão dos pais

    Caráter dos filhos: missão dos pais

    1 – Caráter, o que é? 2 – É fácil perceber a ausência de caráter. 3 – Ensinar as crianças a ter caráter.

    1 – Caráter, o que é?

        O caráter, palavra latina que significa marca, impressão ou símbolo da alma, é uma qualidade que reside na pessoa como um todo (inteligência, vontade e afetos), e se constrói ao longo do tempo pelas influências recebidas no ambiente familiar, na escola, na rua, com os amigos, pelos meios de comunicação e leituras realizadas, etc. Essa vivência desenvolve conceitos (e preconceitos) que atuam sobre as decisões e ações pessoais. Já o temperamento é a parte fixa, o modo de ser da pessoa – seu jeitão −, recebido como herança genética ou constituição corporal: colérico, sanguíneo, melancólico ou fleumático. Tanto o temperamento quanto o caráter devem ser corrigidos, ao se perceber neles vícios ou defeitos.

        O caráter necessita que se reconheçam as verdades, custe o que custar. É fácil compreender que há verdades no campo das ciências exatas (química, física, matemática), e todos são unânimes em aceitá-las, pois a existência delas não depende de opiniões. Porém, o certo e o errado, o bem e o mal existem também para as decisões morais ou comportamentais dos homens, e essas verdades não dependem da opinião pessoal para aceitá-las ou não: roubar, mentir, trabalhar desonestamente, desrespeitar os pais, não cumprir com a palavra dada, são princípios imutáveis da conduta humana. Em qualquer época a fortaleza foi admirada e a covardia condenada; a solidariedade foi louvada e a avareza rechaçada.

        O alicerce do caráter são as virtudes, que se desenvolvem por meio da prática constante de ações que vão se sedimentando na inteligência, na vontade e nos afetos. As principais virtudes são: Prudência, como capacidade de julgamento criterioso, consciente (radica na inteligência); Justiça, que envolve a responsabilidade de dar a cada um o que lhe pertence (radica na vontade); Fortaleza para fazer o que deve ser feito e Temperança para o domínio de si e autodisciplina (essas duas virtudes radicam na sensibilidade).

    2 – É fácil perceber a ausência de caráter

        Não confundir caráter com habilidades intelectuais, artísticas ou técnicas, pois se pode ter alguma dessas qualidades e possuir um mau caráter ao ser pessimista, indeciso, desordenado; ou inseguro, suscetível e dependente de estados de ânimo; ou não saber relacionar-se com os demais. É tão comum taxar as pessoas pelos seus defeitos de caráter: esquentado, mentiroso, frívolo, indeciso, confuso. Talvez esses até gastem tempo e dinheiro para melhorar suas habilidades profissionais ou artísticas, mas pouco se esforçam para melhorar o caráter.

        Se é difícil definir o caráter, mais fácil é perceber a ausência dele, porque existe um ideal de comportamento que nos faz reconhecer se uma pessoa tem bom ou mau caráter. Defeitos como a gula, preguiça, sensualidade, inveja, ódio, sempre revelaram falhas de personalidade. Já a vida de uma pessoa que não se deixou aliciar por lucros indevidos; ou que se manteve forte e não traiu a confiança da esposa, filhos ou amigos; ou que deu a vida por um ideal nobre, sempre edificou a todos e revelou a riqueza desse caráter.

    3 – Ensinar as crianças a ter caráter

        As crianças vêm ao mundo carentes de virtudes: imponderadas e de raciocínios imprecisos que as tornam impulsivas, inconstantes e irresponsáveis; procuram impor suas vontades e manipular com o choro ou insistência os que estão ao seu redor; egocêntricas e centradas no próprio eu, tornam-se egoístas e pouco preocupadas com os demais; comodistas, tendem a fugir do esforço e a satisfazer imediatamente suas paixões e apetites (são hedonistas). Cabe aos pais ajudá-las a ter autocontrole e a ser generosas, solidárias e prestativas (ter bom caráter!).

        Crianças são adultos potenciais. Os pais devem vê-las por cima do muro do dia a dia, e projetá-las em atuação na vida social, com caráter. Desde a infância elas necessitam aprender a não mentir, a ser leais aos compromissos que assumiram, a manter a palavra dada, a não falar mal dos companheiros, a ser honestas e admitir os erros, a ter coragem para enfrentar a lição de casa e os encargos do lar, a não serem lamurientas e enjoadas. Para fracassar nessa tarefa, basta aos pais se omitirem e deixar vingar os maus hábitos nos filhos, tal como crescem as ervas daninhas em terreno baldio. Esse comodismo os fará presenciar um grande desastre, pois aos 13, 18 e 25 anos, os filhos apresentam os mesmos defeitos da infância.

        Pessoas de caráter não nasceram assim, mas se construíram: 1°) Pelo exemplo, pois as crianças são muito observadoras e não escapa ao olhar delas o modo como seus pais se conduzem: se virtuosos, irão adquirir um profundo respeito por eles e repetirão suas atitudes e valores; 2°) Pelas palavras dirigidas a elas de forma positiva e reiterada – apesar das resistências iniciais dos filhos –, a fim de desenvolverem bons hábitos; 3°) Porque ouviram incansáveis explicações de seus pais para cumprirem seus deveres, e com isso ganharam critérios de conduta.

        Honra e integridade são duas palavras que as crianças devem ouvir com frequência, pois crescerão dando importância a elas. Honra pessoal é uma das lições mais úteis que os pais devem ensinar às crianças (uma pessoa mentirosa perde sua honra, sua credibilidade). Integridade significa ser inteiro, feito de uma peça só, e não ter dupla personalidade: se o filho prometeu chegar em casa às 21 horas, deve cumprir com a palavra dada!

    Texto produzido por Ari Esteves staging.ariesteves.com.br/

  • Hábitos dos filhos, responsabilidade dos pais

    Hábitos dos filhos, responsabilidade dos pais

    1 – Crianças diante de telas digitais se tornam preguiçosas. 2 – A criança necessita ser exigida. 3 – Não realizar as tarefas que os filhos podem fazer.   

    1 – Crianças diante de telas digitais se tornam preguiçosas

         “É de pequenino que se torce o pepino”, diz o ditado popular. Quando a árvore ainda em crescimento começa a entortar o caule, une-se o frágil tronco a uma estaca-guia para que cresça ereto. Para as crianças, a estaca-guia são os pais: se estes permitem a prática repetida de más ações, os filhos ganham hábitos ruins ou vícios; se incentivarem a prática der boas ações, os filhos se tornam virtuosos.

         Pais que deixam os filhos ociosos e inertes diante das telas midiáticas, os tornam passivos e preguiçosos. Ao tolerar que os filhos passem horas hipnotizados pela TV, perdem a autoridade de pais, e são substituídos por alguma celebridade, cuja vida pode não ser exemplar.

    2 – A criança necessita ser exigida   

    Se as crianças não são exigidas para que arrumem suas bagunças, crescerão desordenadas e acostumadas a que os outros façam as coisas por elas; se não forem incentivadas a ler ou ouvir histórias lidas pelos pais, não se tornarão leitoras. Para não serem presas das telas midiáticas necessitam da sadia e paciente sugestão para lerem livros. Para serem educadas e corteses devem ser corrigidas a dizer “por favor”, “obrigado”, “me desculpe”, e a cumprimentar os mais velhos. Para não serem preguiçosas e bagunçadas, necessitam de paciente e contínuas cobranças para fazer a cama diariamente, colocar suas roupas nas gavetas e a enxugar o banheiro. As crianças devem ser exigidas a comer na hora certa e aquilo que se põe na mesa, pois só assim abandonarão os caprichos e não se deixarão conduzir pelos instintos. Devem respeitar o direito dos pais e irmãos e esforçar-se para distinguir o certo do errado, sendo aplicadas medidas corretivas de forma rápida e justa ao se comportarem mal, e elogiadas quando agiram bem.

         Os pais devem encorajar as crianças a perseverarem no cumprimento das tarefas chatas, a não serem lamurientas e a não fugirem do esforço a realizar. Para que sejam solidárias e preocupadas com os demais, devem cumprir os encargos que no lar foram atribuídos a elas, com a finalidade de manter a casa limpa e ordenada para o conforto e bem-estar de todos. Se obrigadas a refazerem a lição de casa ou a tarefa do lar mal feita, as crianças aprendem a se empenharem desde o início para realizar bem suas responsabilidades. No site staging.ariesteves.com.br/ há vários vídeos curtos que mostram tarefas que mães atribuíram às suas crianças.

    3 – Não realizar as tarefas que os filhos podem fazer

         Pai e mãe não devem substituir os filhos nos assuntos que cabem a eles resolver, mas mostrar como se faz e exigir que ponham mãos à obra.

         Quando a criança deixa as meias e os tênis jogados no meio da sala, os pais devem visualizar dois problemas: 1) a bagunça em si; 2) o vício do desleixo. Se a mãe recolhe os tênis e as meias, resolve apenas o primeiro problema, mas deixa latente o segundo − muito mais grave −, com sua consequente falta de consideração e agradecimento pelo esforço de todos em manter a casa em ordem.

         Se os pais não afrouxarem nem desistirem de sua missão de educadores, as crianças adquirem autoconfiança e aprendem a colocar suas habilidades em jogo para enfrentar seus próprios desafios. Com isso, crescem em espírito de serviço e ajuda aos demais, e exigem-se de si mesmas para fazer as coisas bem feitas desde o início, levando com responsabilidade e sentido profissional suas tarefas, tanto as escolares como as demais que a vida colocar em suas mãos. Ou seja, constroem um caráter firme e decidido.

    Texto produzido por Ari Esteves staging.ariesteves.com.br/

  • Ordem e aproveitamento do tempo

    Ordem e aproveitamento do tempo

    1 – A virtude da ordem multiplica o tempo. 2 – Critérios para hierarquizar as tarefas. 3 – O cumprimento dos deveres fortalece a vontade e o caráter.

    1 – A virtude da ordem multiplica o tempo

       A ordem dá harmonia e paz à vida porque leva a cumprir o que deve ser feito em cada momento; além disso, multiplica o tempo porque evita desperdiçá-lo em afazeres desnecessários ou menos importantes. Ordem − do grego “orthos”, reto, correto − é a disposição conveniente dos meios para se atingir um fim. Várias coisas entre si têm em vista a ordem que possuem em relação a um fim: tijolos, areia, telhas, ferros e encanamentos organizados em um pátio têm a finalidade de edificar uma casa.

    2 – Critérios para hierarquizar as tarefas

    Para que a ordem ocorra é necessário definir diariamente as prioridades, diferenciando as tarefas mais importantes das mais urgentes: é urgente atender ao telefone que esbraveja; é importante iniciar imediatamente a preparação para um exame que ocorrerá daqui a um mês. Ao definir as tarefas diárias é preciso estar atento para não se deixar levar pela comodidade ou lei do menor esforço, que ronda a todos os filhos de Eva e induz a iniciar as tarefas pelas mais agradáveis. Quem não estabelece prioridades se dispersa em afazeres menos importantes, e deixa de atender suas principais responsabilidades. A repetição dessas falhas cria o vício da preguiça que debilita o caráter, enfraquece a vontade e liquefaz qualquer ideal ou projeto de vida que exija esforço. 

    Hierarquizar os afazeres é atribuir valor a cada um com base em finalidades, pois dificilmente todos os afazeres terão o mesmo grau de importância. Essa estimativa é realizada pela virtude da prudência, que evita a ineficácia da desordem ao julgar o que é mais importante entre os inúmeros afazeres a serem realizados a cada dia. Assim, caso sobrem tarefas para o dia seguinte, devido ao acúmulo delas, certamente terão sido as menos importantes ou as que poderiam esperar até o dia seguinte.

    Para hierarquizar os afazeres com base em finalidades é necessário distinguir o valor moral de cada assunto. Por exemplo, uma pessoa que goste de sua atividade profissional poderá se ver na disjuntiva de continuar ou não na empresa além do horário previsto, sem um motivo importante ou extraordinário que o exija. Então, neste caso, o moralmente correto será encerrar o expediente e sair pontualmente para retornar ao lar a fim de conviver com o outro cônjuge e com os filhos, pois o fim do trabalho não se encerra nele mesmo, mas é meio para um fim mais alto.

    3 – O cumprimento dos deveres fortalece a vontade e o caráter

    As prioridades devem ser estabelecidas no início do dia por meio de um exame breve, de 3 a 4 minutos. Para executar as tarefas previamente definidas pela prudência e o juízo, entram também em jogo as da fortaleza e da laboriosidade, que levam a trabalhar com intensidade e a fugir das “paradinhas” desnecessárias e a evitar curiosidades ou perdas de tempo em mídias sociais, etc.

      O cumprimento responsável dos deveres é excelente exercício para o fortalecimento da vontade e enriquecimento do caráter. Quando alguém ganha um valor – por exemplo, a virtude da ordem –, não adquiriu apenas um hábito bom e isolado, pois, dada a unidade da pessoa humana, ao melhorar em um aspecto aperfeiçoam-se ao mesmo tempo todos os demais.

    Texto produzido por Ari Esteves staging.ariesteves.com.br/. Imagem de Darya Sannikova.

  • A conquista das virtudes requer esforço

    A conquista das virtudes requer esforço

    1 – A tarefa de buscar o aperfeiçoamento pessoal. 2 – Como ganhar virtudes?

    1 – A tarefa de buscar o aperfeiçoamento pessoal

        Cada pessoa tem a tarefa iniludível − e intransferível − de aperfeiçoar a si própria, de construir a sua biografia mediante as escolhas que faz. Seu auto aperfeiçoamento está no bom uso da liberdade e nas boas escolhas, pois estas criam hábitos ou costumes que predispõem para agir de uma determinada maneira. Compete a cada um a tarefa de se examinar e detectar o seu calcanhar de Aquiles, ou o defeito dominante, e pôr mãos à obra para erradicá-lo por meio de uma luta alegre e esportiva, feita de pequenos vencimentos diários, começando e recomeçando a lutar após cada derrota.

        Quem não procura ser melhor e deixa-se vencer pelo mais cômodo, ganha os hábitos ou os vícios correspondentes às suas más escolhas. Se não rechaçamos os nossos defeitos, os bons ideais se transformam em pó. As virtudes são necessárias para as metas altas que alguém se propõe a realizar. Alcançar um ideal ou o projeto vital, dependerá da conquista das virtudes correspondentes.

    2 – Como ganhar virtudes?

        Para superar os obstáculos internos e externos que dificultam o aperfeiçoamento pessoal, é necessário fortalecer a capacidade humana por meio de virtudes, palavra originada de vis (força, em latim), que ao serem adquiridas facilitam a ação. A virtude permite aspirar bens árduos ao dar à vontade a força que antes não tinha para manter a excelência de seus objetivos. As virtudes se entrelaçam e, quando melhoramos em um aspecto, melhoramos em todos os outros pelo princípio de unidade da pessoa humana.

        Tal como o esportista ganha força e facilidade em agir pelo treinamento diário, as virtudes são ganhas mediante o exercício constante de pequenas ações, como por exemplo: acordar no horário, não adiar ou marretar as tarefas, manter a ordem nos objetos pessoais, aproveitar bem as horas de cada dia, ser paciente, ter espírito de serviço, saber ouvir os demais, ter bom humor, ser temperado no comer e beber… 

    Texto produzido por Ari Esteves staging.ariesteves.com.br/

  • Virtudes e defeitos

    Virtudes e defeitos

    1 – Detectar os defeitos pessoais e lutar com espírito esportista. 2 – Os nossos hábitos nos configuram.

    1 – Detectar os defeitos pessoais e lutar com espírito esportista

        Não podemos conviver com defeitos de temperamento e de caráter como quem cultiva vírus e bactérias dentro de si. Todos temos que reconhecer com humildade os próprios defeitos e lutar contra eles com espírito alegre e esportista. O esportista busca melhorar continuamente seus índices, começando e recomeçando a cada dia. Por meio do exame de consciência, se alguém percebe que é tímido, deve superar a vergonha de se expor procurando fazer atos contrários à timidez: por exemplo, ao necessitar saber onde fica determinada rua, terá constrangimento de interromper a conversa do grupo de pessoas à porta de um bar, mas deverá enfrentar-se e chamar para si a atenção dos prosadores e perguntar pela tal rua (a princípio isso poderá custar, mas o único modo de vencer a timidez é expondo-se). Quem é egoísta necessita desprender-se de suas coisas ou do seu tempo em favor dos demais; o impaciente cabe-lhe exercitar-se no autocontrole e saber esperar; o pessimista deve policiar-se para evitar comentários negativos; o mal-humorado deve esforçar-se por sorrir.

    2 – Os nossos hábitos nos configuram

        O homem não faz nada deliberadamente sem que ao fazê-lo não seja afetado por suas próprias ações. Os hábitos modificam o sujeito que os adquire, porque ficam nele de modo estável e configuram o seu modo de ser: quem pratica atos desonestos torna-se um injusto, quem não se deixa vencer pela preguiça converte-se em laborioso, quem fala mal dos outros se transforma em um detrator, quem não mente torna-se veraz. Dependendo da maneira habitual de atuar, a pessoa ou melhora ou piora, pois acaba sendo moldada pelas suas ações positivas (virtudes) ou negativas (vícios).

        Os hábitos bons chamam-se virtudes; hábitos ruins, vícios. Hábito é uma tendência adquirida pela repetição de atos que reforçam a conduta e facilitam a ação, configurando o modo de ser da pessoa. A repetição deliberada de atos se transforma em costume, e o costume é como que uma segunda natureza, pois o sujeito passa a se mover de acordo com as tendências adquiridas. Há várias classes de hábitos: técnicos ou de destreza no manejo de instrumentos (fabricar objetos), hábitos intelectuais (conhecer outro idioma), hábitos do caráter ou referentes à conduta (ser agradecido, veraz).

    Texto produzido por Ari Esteves (staging.ariesteves.com.br/)
     

  • A escolha de valores ou modelos de conduta

    A escolha de valores ou modelos de conduta

    1 – Quais os valores que regem a minha vida? 2 – Necessitamos de valores possíveis de imitar. 3 – Podemos acertar ou errar na escolha dos modelos. 4 – Os livros de literatura transmitem valores.

    1 – Quais os valores que regem a minha vida?

        Antes de agir necessitamos aplicar alguns critérios prévios chamados “valores” ou referências para pautar a ação em direção à verdade e ao bem, fim natural da pessoa. A educação em boa parte consiste em transmitir modelos e valores, a fim de que cada pessoa saiba fazer boas escolhas por si mesma.

        Examinar sobre os valores que regem a própria vida é medida de prudência para não construir sobre o erro, que seria fatal e origem de fracassos. Quem se preocupa com a saúde examina o grau de colesterol ou de calorias antes de consumir determinado alimento, pois tem como valor o cuidado com sua saúde. Há quem age pautado por valores de utilidade, beleza, fama, poder, dinheiro, pátria, sabedoria, destreza técnica, solidariedade, família, religião etc. A pergunta sobre os valores ou modelos que escolhemos tem sentido porque “diz-me com quem andas e te direi quem és”.

    2 – Necessitamos de valores possíveis de imitar

        Não desejamos valores teóricos, mas aqueles que vemos representados em modelos a serem imitados. Precisamos de alguém com quem possamos nos identificar, porque vive ou viveu uma vida cheia de significados pelos quais vale a pena se arriscar e deixar de lado a comodidade para sair da arquibancada e vir à arena lutar! A vida de quem encarna os valores que admiramos não pode ser inexequível, mas imitável no quotidiano, sendo por isso eleito como modelo. Em tempos de crises de valores podemos encontrar gente que personifica um ideal de excelência humana na própria família, na profissão ou nas relações sociais. Essas pessoas são modelos porque a história ou existência delas está lastreada em fatos edificantes.

    3 – Podemos acertar ou errar na escolha dos modelos

        Ter modelos é algo muito humano, mas a questão está em acertar ou errar na escolha. Muitos escolhem modelos de conduta determinado pelos modismos que visam a fama, o sucesso profissional a qualquer preço, a busca contínua de satisfações sensitivas, a beleza corporal… A personalidade madura escolhe por convicção e não pela moda, e preza mais os valores interiores ligados ao caráter e à personalidade, do que à beleza física externa. Quem só escolhe exemplos de sucesso (os best-sellers de ocasião), se deixa envolver pela massificação, que é deixar os outros decidirem por si.

    4 – Os livros de literatura transmitem valores

            É interessante notar que as narrativas têm influência enorme na vida humana, pois geram condutas. Contar histórias tem alcance maior do que discursos teóricos na configuração da vida de uma pessoa ou de um povo. A transmissão oral de contos feita pelos pais às crianças, a leitura de romances épicos, drama, e mesmo os bons filmes, são veículos de transmissão de valores ou modelos de condutas. Porém, temos que estar atentos porque em nossos dias os grandes narradores são o cinema, a TV e a publicidade, que podem nos manipular por meio de narrativas que apresentam modelos de conduta familiar, profissional, social ou de lazer que não condizem com a verdade sobre o homem.

    Texto produzido por Ari Esteves (staging.ariesteves.com.br/), inspirado no livro “Fundamentos de Antropologia”, de Ricardo Yepes e Javier Aranguren, Instituto Raimundo Lúlio.
     

  • Por que exigir dos filhos?

    Por que exigir dos filhos?

    1 – Os animais também oferecem alimento e abrigo. 2 – Por que exigir? 3 – Não ter medo de exigir. 4 – Exigir que ajudem nas tarefas do lar.

    1 – Os animais também oferecem alimento e abrigo

        Trata-se de um grave erro antropológico desconhecer o princípio inato de desordem que todos carregamos dentro. As reações histéricas dos pais diante dos erros dos filhos revelam desconhecimento dessa desordem ou despreparo para corrigi-las.

        Sendo débil a condição da criatura humana, seu processo educativo é longo (12 a 13 anos), pois compreende a educação do comportamento e a aquisição dos valores pelos quais deverá pautar a vida para ser feliz. Nesse período é radical a dependência dos pais. Preparar uma criança para a vida não é só dar a ela alimento e abrigo, porque isso também fazem os animais. Oferecer aos filhos meramente a sobrevivência física seria exilá-los do mundo dos homens, que é mais rico que o dos animais. Desde muito cedo as crianças carecem aprender critérios comportamentais, distinguir o que é bom ou vicioso para o ideal humano, ser apresentadas às diferentes manifestações culturais e artísticas… E tudo isso porque devem nortear sua conduta por critérios racionais, e não por impulsos natos ou instintivos, que nos homens não são seguros como nos animais.

    2 – Por que exigir?

        Quando se nota que um comportamento deve ser retificado − em nós ou nas crianças −, é preciso agir prontamente. É ilusório acreditar que melhoramos com o tempo, pois não somos como o bom vinho que chega à perfeição com o decorrer dos anos. Ao não corrigir, o problema continuará latente e aumentará tornando mais difícil a sua remoção. Quando não se luta para erradicar um defeito, ele progride em proporção geométrica à passagem do tempo.

        Deixar um filho nas garras de uma desordem interior é desumano. Ao perceber nele predisposição à preguiça não achar divertido esse vício, que tenderá a aumentar e demolirá todos os ideais que exijam esforços. Se a filha tem conversas frívolas sobre suas relações com rapazes, é preciso alertá-la de imediato. Explosões de raiva nos jogos, crueldade com os animais, rebeldias, brigas entre irmãos, desobediências, fuga do estudo, desordens nos brinquedos e roupas, ou atrasar-se para as refeições, tudo isso exige a atuação paciente e perseverante dos pais.

        Os pais não devem esperar que a criança se torne ingovernável para iniciar o processo de educação do comportamento. Não se pode deixar que a desobediência se transforme em caso grave, como o da criança de 9 anos que se enfureceu com sua mãe porque não a deixou brincar na rua (chovia) e lançou sobre ela uma pedra que a feriu; ou o caso do médico que recebeu um telefonema desesperado de um pai porque o filho adolescente ameaçava a mãe com uma faca junto ao pescoço dela.

    3 – Não ter medo de exigir

        Os pais têm o direito e o dever de polir os filhos com bons hábitos desde a primeira infância. Assim o fazem ao fortalecer neles os pontos fracos do caráter; ao corrigir as características temperamentais destoantes, como as explosões raivosas ao perder um jogo ou rebeldias para não cumprir os encargos familiares; ao moderar as inclinações instintivas dominantes que levam a atuar de modo intemperado nas comidas e opções de lazer.

        Diz o sábio que “é melhor prevenir do que remediar”, porque é mais fácil evitar que um comportamento inadequado se fixe do que desarraigar um que já deitou raízes. Os filhos devem saber que sempre será aplicada uma punição ao desobedecerem ou faltarem o respeito para com os pais. As vias de fato são mais eloquentes do que as palavras, e fazem os filhos policiarem melhor seus atos.

        É triste ver que o tempo passa e muitas crianças continuam preguiçosas, desordenadas, birrentas e comilonas, porque seus pais não atuam sobre essas desordens. O ambiente em que vivemos é de relaxamento, de falta de exigência, excesso de comodidades e apelo ao prazer a qualquer preço. Não sendo a vida tão suave como nos apresentam as publicidades midiáticas, o aperfeiçoamento pessoal se torna um imperativo constante e laborioso.

        Para educar é preciso distinguir e priorizar o mais importante, e abrir mão do que não o é: se a menina deseja ir à festa com o vestido vermelho, não decretar que vá com o azul; se faltam cinco minutos para acabar o desenho animado, e há tempo suficiente para se aprontar, não force o garoto a desligar a TV: diga apenas que a apague em cinco minutos e se apronte para sair. Ou seja, não vale a pena se desgastar pelo que não é significativo, mas só pelo que é relevante, como exigir que guardem no cabide suas roupas, que mantenham ordenado o quarto, que estudem no horário combinado e colaborem nas demais tarefas do lar. Exigir dos filhos é um santo e poderoso remédio.

    4 – Exigir que ajudem nas tarefas do lar

        Permitir que os filhos se tornem senhoritos ou pequenos imperadores porque não são exigidos para ajudar, para doarem-se e se desprenderem de suas coisas e de seu tempo, é a pior conduta que tomam seus pais. Filhos que recebem tudo de mão beijada, e pouco se requer para que se empenhem em servir, se acostumam a que os demais façam tudo por eles. Com isso, se tornam fracos de caráter e moles como churros, sendo incapazes de enfrentar os problemas por conta própria (com churros não se faz alavanca). Exigir que a filha não tenha caprichos de dondoca e coma o que for colocado na mesa; ou que o filho se rale para lavar o quintal, são medidas terapêuticas para a saúde espiritual deles. Quando os hábitos bons deitam raízes na alma não há quem os desarraigue.

    Texto produzido por Ari Esteves (staging.ariesteves.com.br/)

  • O sentimentalismo é um mal

    O sentimentalismo é um mal

         1 – O que é o sentimentalismo. 2 – Os efeitos nocivos do sentimentalismo. 3 – A educação dos sentimentos começa na infância.

    1 – O que é o sentimentalismo

        O sentimentalismo é a predisposição ou atitude de permitir que as ações sejam comandadas pelo mundo dos sentimentos, emoções e paixões, e não pela razão, que é a capacidade reitora da pessoa humana. Por que não se deixar comandar pelos sentimentos? Aristóteles dizia que os sentimentos são como o gato: pode-se amestrá-lo, mas não confiar plenamente nele, pois pode atacar. Platão afirmava que os sentimentos são grandes companheiros do homem, mas se parecem com crianças pequenas e irresponsáveis, porque ainda não possuem a razão desenvolvida.

        Por vezes é necessário agir contra os sentimentos: por exemplo, sentir repulsa diante de alguém que exala mal cheiro, porque está sujo e coberto de pústulas, não é motivo para não atender tal pessoa. Importa superar esse sentimento ao pensar no bem dessa pessoa, e atuar por amor a ela, levando-a a um hospital. As mães levantam de madrugada para atender o bebê que chora, mesmo que os sentimentos pedem para que fique na cama.

    2 – Os efeitos nocivos do sentimentalismo

        Os sentimentos fazem parte da natureza humana e possuem enorme valor, porque podem reforçar as decisões ao apoiá-las e ajudar alcançar as metas desejadas: um profissional que coloca sentimentos naquilo que faz, fará melhor; quem persegue um grande ideal enfrentará melhor as dificuldades quando está animado pelos seus sentimentos.

        Porém, ao condicionar seu comportamento por afeições ou desafeições, agrados ou desagrados, gostar ou não gostar, e não pelo prudente exame ou juízo de cada situação, a vida do emotivista muda de direção com frequência, pois os chips sentimentais não são equânimes, mas cambiantes, o que torna seu caráter inconstante, inseguro e superficial, e sua vida será um eterno começar sem nunca acabar.

        Quem se deixa levar apenas pelos sentimentos, soma desenganos e decepções em seus projetos de vida, porque não sabe avaliar com inteligência a realidade: se pretende montar uma família, e o faz apenas por motivos sentimentais, deixará de aproveitar o tempo de namoro, que é um tempo para avaliar racionalmente a outra pessoa em todos os aspectos (caráter, temperamento, disposições), poderá ter desenganos e decepções durante a vida em comum.

        Ao não saber distinguir o valor hierárquico de cada realidade (tarefa que pertence à inteligência), o sentimental pode colocar demasiado afeto em realidades que merecem menos sentimentos: seu gosto pelo trabalho pode levá-lo a não encerrar o expediente e retornar para casa, a fim de ajudar nas tarefas domésticas e dedicar mais tempo à família; pode não perceber a diferença entre amar uma pessoa ou um animal, colocando ambos no mesmo patamar.

    3 – A educação dos sentimentos começa na infância

        Para que os sentimentos sejam um apoio, devem ser revestidos de virtudes, que é dotá-los de racionalidade (ler o boletim Educação da afetividade). A educação dos sentimentos começa desde a infância, quando os pais percebem desajustes nos afetos das crianças e adolescentes: reagir mal ao perder em um jogo; animosidade duradoura porque não lhe permitiram fazer o que gostaria; colocar mais afeição em seus interesses e menos em ajudar os pais e irmãos… As crianças aprendem a ser solidárias e saírem de si mesmas ao colaborar para o bem-estar de todos, encarregando-se de tarefas domésticas; ao aprender a ter compaixão pelas crianças doentes; ao doar a crianças pobres os brinquedos em bom estado que já não utilizam; diante de notícias tristes, aprender a condoer-se pelo sofrimento dos demais…

    Texto produzido por Ari Esteves (staging.ariesteves.com.br/). Imagem de Olya Prutskova.

  • A fraqueza da vontade

    A fraqueza da vontade

    1 – Fortalecer vontade. 2 – A vontade débil foge das metas altas. 3 – Raciocínios falsos a que conduzem a vontade débil. 4 – A vontade se fortalece com a verdade.

    1 – Fortalecer vontade

        É necessária, desde a adolescência, uma formação que dê solidez à vontade para que esta não fique ao sabor de sentimentos contrários. Quem se propõe uma meta que vale a pena, e não teme enfrentar os obstáculos até chegar a ela, enrijece a vontade à medida que realiza os atos para alcançar seu alvo. Uma pessoa não se constrói ao esperar algo da vida, mas em propor-se metas altas e correr atrás delas. Quem culpa as dificuldades externas e reclama da vida, o faz para se eximir da própria responsabilidade.

        Os pais temerosos de exigir que os filhos cumpram as próprias obrigações, trabalham pelo enfraquecimento da vontade deles. As tarefas formativas devem ser atraentes não porque sejam divertidas ou prazenteiras, mas porque revelam o modo autêntico e atrativo da realização do bem. Quem se realiza ao fazer o bem é feliz, mais do que aquele que necessita de muitos objetos para ser feliz: tem mais aquele que precisa de menos

    2 – A vontade débil foge das metas altas

        A vontade se debilita quando só se busca o prazenteiro e o divertido, que vão se fazendo cada vez mais necessários e exigidos como um direito. Se a vida não respeita esse “direito” surgem queixas e lamentações. Há quem deseja atuar bem e se propõe fins mais elevados. Mas, ao perceber que para atingi-los nem tudo é prazeroso, perde o entusiasmo inicial e abandona o projeto julgando-o ilusório ou difícil de chegar. Isso significa que possui uma vontade débil, fraca.

        Se “vida feliz” é sinônimo de “vida prazenteira”, então a vontade débil só vai atrás de escopos fáceis de se buscar. Se os objetivos são facilmente substituíveis significa que não possuem grande valor. Toda questão está no valor dado ao pretendido: se é considerado decisivo para a vida, deve-se estar disposto a qualquer esforço para torná-lo realidade. Os pais, para educarem a vontade dos filhos, podem exemplificar com a própria vida ao narrar conquistas que lhes exigiram uma vontade forte, quando seus sentimentos eram contrários.

        Papo bom de abordar com cada adolescente, a sós, numa caminhada de sábado à tarde, lógico, saboreando um sorvete, é sobre o valor das metas e o sacrifício em buscá-las, a fim de que enfrente questões como a do estudo para se pôr ao serviço dos demais com competência; a solidariedade e preocupação pelos outros − especialmente pelos que sofrem −, para o afastar do egoísmo de se encerrar nas coisas pessoais, que são sempre causa de tristezas.

    3 – Raciocínios falsos a que conduzem a vontade débil

        A vontade débil também se deixa levar pela força contrária dos sentimentos e paixões. Por exemplo, todos estamos inclinados à verdade porque ela nos atrai (ninguém gosta de ser enganado, nem pelos próprios sentimentos). Mas também nos atraem outras realidades como, por exemplo, que os demais tenham uma boa imagem de nós, que obtenhamos vantagens econômicas ou de outro tipo. Se o juízo de valor sobre essas tendências estiver assentado nas bases falsas do orgulho, vaidade e cupidez, essas tendências poderão apresentar como valiosa a mentira a fim de conseguir passar uma boa imagem de si ou para obter certos ganhos. E com isso, tanto a inteligência quanto a vontade serão enganadas.

        A razão prática é a que dirige o nosso comportamento e pode contribuir para uma vida plena. Se essa razão está influenciada pelas paixões (comodismo, preguiça, entre outras) e não pela inteligência especulativa apoiada na verdade, torna-se difícil acertar no juízo sobre a conveniência de certos comportamentos. As paixões se ordenam com virtudes para que possibilitem a razão julgar corretamente e a vontade decidir sem a pressão contrária de inclinações torcidas. 

        Aqui está também um tema interessante para conversar com os filhos: o erro não é o melhor caminho, mesmo que pareça prometer um bem maior, mas falso ao oferecer uma “felicidade” apoiada na mentira. A mentira é um erro prático, não teórico, porque quem mente sabe que não deve mentir (juízo de consciência), mas mente porque lhe parece conveniente mentir (juízo de eleição).

    4 – A vontade se fortalece com a verdade

        A liberdade radica na vontade, mas a causa da liberdade está na razão, dizia Tomás de Aquino. Nossas ações livres são decididas pela vontade, mas esta segue o juízo da razão: elegemos com o querer da vontade aquilo que o juízo da inteligência mostrou ser o melhor. Os atos humanos se distinguem dos atos dos animais porque são voluntários e dirigidos pela inteligência e vontade.

        É preciso ensinar aos filhos, calma e pacientemente, que a conduta deles deve ser guiada pela inteligência bem formada, e não pelos instintos e sentimentos (estes, quando bem educados, são um apoio para a vontade arrostar as dificuldades). Recentemente um casal amigo − Matheus e Larissa − falaram aos filhos de três, cinco e sete anos que iriam levá-los para tomar vacina. De pronto as crianças rechaçaram tal plano porque, diziam, iria doer, etc. Então, o casal explicou o que aconteceria se eles ficassem doentes: internação (possivelmente longe dos pais, dependendo da doença), fraquezas, febres, dificuldades para caminhar, remédios e, às vezes, até muitas injeções. Então, os pais perguntaram: − “O que vocês escolhem?”. Claro, com a inteligência esclarecida a vontade pode decidir livre e corretamente. Em uníssono responderam: − “Queremos tomar a vacina!”.

        A verdade é sempre o apoio mais sólido para se construir a felicidade humana, porque ao oferecer à razão bases corretas para a apreciação do autêntico valor das coisas, produz juízos acertados. A vontade, apoiada na razão ou juízo prático esclarecido pela verdade, ao decidir livremente pelo bem, conduz à pratica dos atos necessários para chegar ao que se tem em mente. Por sua vez, a prática desses atos formam as virtudes correspondentes e colocam ordem nos afetos e nas inclinações.

        Eis um círculo virtuoso: juízos acertados fazem a vontade eleger o melhor e encaminhar aos atos correspondentes; os atos criarão hábitos bons ou virtudes que colocarão ordem nos sentimentos e inclinações pessoais.

    Texto produzido por Ari Esteves, com base na obra “Formar personas libres”, de Julio Diegues, Editora Ética e Politica, Roma, 2019.

  • O autodomínio e sua educação

    O autodomínio e sua educação

    1 – Iniciar a educação do autodomínio a partir dos dois anos de idade. 2 – Normalizar os sentimentos dos filhos. 3 – Os pais como educadores dos sentimentos dos filhos. 4 – Era uma vez um menino cheio de dengos.

    1 – Iniciar a educação do autodomínio a partir dos dois anos de idade

         Para não acontecer isso de que “é de pequenino que se torce o pepino”, a educação para o autodomínio deve começar quando os filhos ainda são pequenos. A partir dos dois ou dois anos e meio, as crianças compreendem e já obedecem em pequenos aspectos de ordem nos brinquedos e roupas, no horário de dormir e asseio pessoal. Ao adquirir esses bons hábitos desde a infância − excelente caminho para o autodomínio −, aprendem a dominar e a vencer a lei da preguiça que habita em todos os filhos de Eva.

    2 – Normalizar os sentimentos dos filhos

         Aos pais corresponde, antes de tudo, capacitar os filhos para serem donos de si mesmos. Isso é base de uma personalidade que sabe dominar as crises temperamentais, os impulsos afetivos e manter equilíbrio no uso dos bens materiais. Precisam ajudá-los a colocar ordem na sensibilidade e na afetividade, nos gostos e desejos, nas tendências mais íntimas do eu. Se falharem nisso, os filhos sofrerão consequências graves na maturidade, no domínio do próprio temperamento, e terão desajustes na convivência com os demais.

         Mais do que iniciar pela educação da inteligência com muitos cursos e vídeos, os pais devem começar pela educação dos sentimentos e seus afetos, que é fundamento para o autodomínio. Se não educarem na austeridade nada conseguirão, como estimular a criação de hábitos que contradigam as desordens da preguiça; da intemperança no comer, beber e se divertir (passar muitas horas na internet). Ao exigir, por exemplo, ordem nos objetos pessoais, pontualidade nos horários de refeições e de dormir, cumprimento dos encargos familiares, a ter horário de brincar e estudar, etc, os filhos aprendem a se dominar com as correspondentes virtudes ou bons hábitos que vão adquirindo, e passam a compreender que a vida não é um mero satisfazer prazeres e caprichos.

         Depois, é preciso ajudar as crianças a compreenderem que não devem atribuir demasiado sentimento ao que merece menos, como perder um jogo, nem demonstrar excessiva vibração por coisas banais ou suportar pequenas contrariedades como se o mundo fosse desabar na cabeça delas; e necessitam saber esperar por algo sem maus modos. Estimular as crianças a colocarem mais sentimentos ao que merece mais, e que por vezes elas colocam menos: ajudar os pais, irmãos e amigos em suas necessidades; ter espírito de serviço no lar; não ser indiferente com a dor dos outros diante de notícias trágicas; compadecer-se dos que passam necessidades; doar alimentos e brinquedos a crianças pobres, etc.

    3 – Os pais como educadores dos sentimentos dos filhos

         Os pais são os primeiros e mais eficientes educadores da afetividade, temperamento e caráter dos filhos. Essa eficiência radica-se na natural confiança que os filhos têm pelos pais, e porque os pais, por estarem sempre presentes, oferecem uma educação personalizada e baseada no carinho e na exigência.

         Para educar, os pais não devem confiar apenas no bom senso: urge que leiam boas obras sobre a educação comportamental dos filhos. A título de sugestão, deixamos em nosso site uma lista dessas obras.

    4 – Era uma vez um menino cheio de dengos

        Era uma vez um menino cheio de caprichos e dengos: “Não gosto”, “Não quero’, “Não vou comer essa porcaria” eram frases frequentes em sua prosopopeia. Não havia argumento que o demovesse de sua enjoadice. Então, de comum acordo, os pais adotaram uma atitude mais firme: serviram só arroz, feijão e bife. E lá veio ele com a suas frescuras: “Não vou comer essa droga”, “Não quero, não quero”. Então os pais retiraram o prato e o colocaram na geladeira. No jantar serviram o mesmo prato e, lógico, ele reclamou, esperneou e foi dormir com o estômago roncando. No café da manhã do dia seguinte apresentaram a mesma gororoba e, como a fome é o melhor condimento, a fera atacou-a com veemência e papou tudo. E assim, mantendo-se firme no plano estabelecido, foram acabando com as manias e dengos do pirralho. Anos depois, esse menino, já personagem ilustre da nossa sociedade atual, tinha um profundo agradecimento pelos seus pais, que fizeram com que ele não se tornasse um banana incapaz de fazer algo razoável que viesse a contrariar o seu gosto. Essa história é real e foi relatada pelo meu amigo Francisco Faus em seu livro Autodomínio – Elogio da temperança, e que conhece o personagem central desta história, hoje um preclaro bispo!

    Texto produzido por Ari Esteves (staging.ariesteves.com.br/)