Categoria: CULTURA

  • Não dê celular ao seu filho

    Não dê celular ao seu filho

    1 – As telas impedem apreciar o mundo ao redor. 2 – Imprudência dos pais que colocam telas digitais para os filhos. 3 – A criança necessita da realidade ao seu entorno. 4 – Ensinar a desejar o desejável

    1 – As telas impedem apreciar o mundo ao redor

        Crianças nascidas a partir de 2010 pertencem à chamada Geração Glass (vidro em inglês, em referência às telas), porque nasceram em meios às imagens e podem passar horas e horas diárias diante de tabletes, smartphones, computadores, laptops. Vários estudos informam que crianças expostas por longas horas às telas digitais têm seu cérebro estimulado por altas doses de dopamina, que é um neurotransmissor relacionado ao prazer, à satisfação. A dopamina pode ocorrer dentro da normalidade, por exemplo, ao assistir a um bom filme, fazer uma boa refeição, praticar esporte; ou pode ser estimulada em altas dosagens provocadas pelos vícios, tal como o da bebida, drogas, pornografia, e agora também o das telas.

        A realidade normal, o convívio com os pais e irmãos, o estudo, a leitura de contos, as brincadeiras sozinhas ou com os amigos, um passeio na natureza, se tornam tediosos e desestimulante porque trazem menor nível de prazer para crianças acostumadas às telas. Habituadas a ver e a fazer apenas o que é agradável à sensibilidade, não conseguem controlar seus impulsos e dizer “não” a si mesmas, nem a ouvir um “não”: o resultado é a falta de autodomínio, o encerrar-se em si mesmas, ter atitudes de desobediências, fugir das responsabilidades. Há relatos de crianças que reagem com extrema rebeldia e agressividade ao ser retiradas delas as telas. Um adolescente, em verdadeira crise de abstinência porque o proibiram de utilizar o celular, chegou a bater a cabeça contra a parede para machucar a si, e logicamente a seus pais com tal atitude. É fácil antever nessas crianças o menor desempenho em matemática, linguagem, física, química. Soma-se a isso o risco a que estão expostas pelas muitas horas na internet: pornografia, pedofilia… Quando um adolescente envereda pelos sites pornográficos, obceca-se por isso e perde o interesse por estudar, conviver com as pessoas, sonhar com algum projeto, etc.

    2 – Imprudência dos pais que colocam telas digitais para os filhos

        Não se trata de ser contra a tecnologia, mas de saber utilizá-la. O excesso de informações, sons, cores e estímulos deixam saturada a sensibilidade e o cérebro da criança, que não consegue ordenar tantos temas desencontrados. A quantidade de imagens e de situações apresentadas durante um minuto na televisão não permite que a sensibilidade (sentimentos, emoções, paixões) tenha tempo de se manifestar corretamente, gerando com isso atitudes de indiferença diante de situações que reclamariam, por exemplo, um sentimento de dor ou de misericórdia, porque foram abafados pelas sucessivas imagens. Existe um período crítico em que as crianças precisam ter um nível de estímulo proporcional à capacidade cognitiva, e não uma enxurrada de estímulos que prejudica a atenção devido à entrada de tantas informações desencontradas, que mais do que estimular a inteligência, anula a capacidade de pensar e relacionar, e tudo fica reduzido ao periférico.

        Há pais que colocam telas diante dos filhos pequenos para ter tempo de descansar, cuidar da casa, trabalhar; ou porque são levados a isso pelos produtores de programas que afirmam ser importante para aumentar os neurotransmissores ou o nível de inteligência dos filhos; para que os filhos não sejam analfabetos digitais; ou para controlar onde eles estão (isso só fisicamente, pois a cabeça e o coração poderão estar em locais indesejados). O que se constata é que o excesso de telas torna as crianças passivas e com preguiça mental para criar seus jogos, estar sozinhas com seus próprios pensamentos; perdem habilidade para o que exige esforço racional como montar lego, encaixar cubos, xadrez, jogos de memória, quebra-cabeças. O gosto por estudar e o interesse pelas realidades ao seu entorno também vão por água abaixo. Essa inabilidade chega ao extremo de não saberem prestar atenção em alguém que pretenda manter uma conversação com elas. Afirmar que se tornam mais inteligentes e que são crianças multitarefas é uma balela que várias pesquisas de institutos norte-americanos vêm provando ao contrário (ler o livro Educar na realidade, de Catherine L’Ecuyer, Editora Fons Sapientiae). Quanto a serem analfabetos digitais, não se deve ter receio disso, pois quando os filhos crescerem e chegarem ao mercado de trabalho, toda a tecnologia de hoje será obsoleta e digna de exposição em museus.

        Inteligente não é quem recebe um monte de informações, mas quem sabe selecioná-las e conectá-las entre si com objetivos concretos. A farta exposição às telas tem aumentado o índice de hiperatividade e desatenção das crianças, cuja memória também deixa de apoiar a cognição porque se tornou um armário entupido de bugiganga. Além do analfabetismo funcional, temos agora crianças com déficit de inteligência porque utilizam mal a capacidade de pensar, desestimulada pela sucessão de imagens e estímulos visuais que apagam o encantamento e a curiosidade natural pela realidade, e o gosto por descobrir o ser das coisas.

    3 – A criança necessita da realidade ao seu entorno

        Sem a interface humana ou diálogo com um adulto, fica difícil para a criança criar vínculos afetivos profundos com seus pais, compreender a importância dos valores ou modelos de conduta que estão por detrás de certas realidades, captar critérios diretamente explicados a ela para que possa distinguir entre o certo e o errado. A criança necessita de um interlocutor que a olhe nos olhos e fale com ela para transmitir acolhimento, segurança e que a anime a fazer suas próprias experiências. Essa relação dialogal ensina a criança a gesticular, a manifestar seus pensamentos e sentimentos, a dar entonação normal a uma conversa, o que não ocorre com as crianças a quem lhes falta a interação humana, substituída pelas imagens com suas habituais cenas exageradas e situações limites para estimular nelas sentimentos de alegria, tristeza ou medo, com o fim de captar a atenção delas. Com isso, se tornam crianças desfocadas da realidade e de si mesmas, e não aprendem a interagir ou expressar-se sem imitar os modos exagerados dos personagens das telas.

        São os pais, e não as telas, que ensinam as crianças a serem temperadas e a terem valores firmes para saber agir em busca do que é bom, a fim de não ficarem à mercê do que lhes é imposto pelas telas. Uma criança não tem o senso crítico desenvolvido, e necessita da carinhosa, paciente e insistente vigilância dos pais, que em curto espaço de tempo conseguem que seus filhos aprendam a distinguir entre conteúdos bons e ruins, para fazerem boas escolhas por si mesmos, já que muitas vezes os pais não estarão ao lado para ajudar na eleição.

        Os pais devem ser os intérpretes da realidade para seus filhos pequenos, ajudando-os a conhecer gradativamente as coisas ao seu redor. Se as telas são a interface entre a criança e o seu mundo, uma enxurrada de situações passará a acomodar-se dentro dela, sem distinguir entre o bom e o ruim, pois seus pais deixaram de ser seus intérpretes. A criança exposta ao excesso de telas age por motivações externas, dependente das iniciativas que lhe são impostas desde fora, e passa a viver à base de recompensa, tem medo ou ansiedade das coisas que são custosas, já que habituou-se a apertar botões de aparelhos eletrônicos para ter tudo facilmente. Torna-se uma criança não motivada para sair de si mesma e retornar à realidade e ser generosas para não brigar com o irmão, para visitar uma pessoa doente, para ajudar em alguma tarefa do lar.

        Crianças que agem por motivações interiores são capazes de criar o seu mundo a partir de dentro, de sua imaginação e das realidades que observou pausadamente e as incorporou dentro de si. Deve haver um tempo de maturação, de desenvolvimento daquilo que dever ser absorvido na biografia da criança. Se não há memória de vivências não haverá experiências. As brincadeiras são uma ferramenta importante para o aprendizado: o silêncio e a conversa consigo mesma para dar sentido aos potes de embalagens plásticas oferecidos a ela para brincar, a compreensão das regras dos diferentes jogos, o controlar seus impulsos para respeitar os parceiros de brincadeiras, são realidades que as crianças desvinculadas de telas digitais possuem. Porque passaram a explorar o mundo ao seu redor, elas sabem explicar melhor suas vivências, calmamente apreendidas; e quando não compreenderam algo, tiveram tempo de recorrer aos pais: a lagarta que se transformou em borboleta, a árvore que começou a transformar suas flores em frutos, os diferentes insetos que surgiram no jardim num dia de chuva ou aqueles que perambulam pelas paredes e vasos da casa… Mais facilmente essas crianças estarão dispostas a outras motivações interiores, tal como saber perdoar, privar-se de uma coisa para dar a alguém, preparar uma brincadeira para tornar felizes os irmãos e os amigos, perguntar para entender um assunto, ajudar os pais na arrumação da casa…

    4 – Ensinar a desejar o desejável

        Platão diz que o objetivo da educação é ensinar a desejar o desejável, e o que é o desejável senão o bom, belo e verdadeiro? Ir ao encontro do que é belo e verdadeiro exige um querer racional, sendo necessário ajudar as crianças nessa tarefa, pois dada a inexperiência de vida, elas tenderão a procurar apenas o agradável aos sentidos. Cabe aos pais fomentar o gosto por realidades superiores: Deus, leitura de contos (ler para elas se forem muito pequenas), passeio pelo campo e parques sem medo de que se machuquem, brincadeiras que incentivem a criatividade; visitas culturais a museus e exposições, tornando essa atividade uma espécie de jogo onde a criança deverá encontrar as obras que viu antes no site da exposição.

    Texto produzido por Ari Esteves com base em live do Canal Youtube de Sâmia Marsili. Imagem de Kaku Nguyen.

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  • Para dar certo na vida

    Para dar certo na vida

    1 – É tarefa de cada um construir-se. 2 – As virtudes são essenciais para a construção pessoal. 3 – O crescimento humano exige respostas de amor. 4 – A importância das virtudes sociais. 5 – Alguns caminhos para motivar-se

    1 – É tarefa de cada um construir-se

        Para dar certo na vida não bastam os conhecimentos técnicos, científicos e culturais, pois há quem os possui e são infelizes, inclusive há os que não lutam contra seus defeitos e acabam sendo pessoas de difícil convivência no âmbito familiar, profissional ou social. Isso ocorre normalmente porque seus afetos (ou o conjunto de suas emoções, sentimentos e paixões) não estão sob o domínio da inteligência e da vontade que, por meio das virtudes humanas, ordenam a afetividade.

        É experiência comum que ninguém nasce pronto, sendo necessário construir-se ao buscar a perfeição humana ao longo da vida, principalmente fortalecendo as qualidades pessoais e eliminando os defeitos, a fim de chegar à expressão ideal de si mesmo para ser feliz e tornar felizes as pessoas com as quais se convive.

        A formação humana não se cinge apenas ao aspecto profissional, mas deve abarcar a pessoa por completo − inteligência, vontade e afetos –, e isso se consegue por meio de virtudes que contribuam para a configuração do caráter e o aperfeiçoamento do temperamento. O hábito de refletir sobre o que está certo ou de errado nas próprias ações, ideias, aspirações, desejos e sentimentos, é tarefa diária que pode feita durante alguns minutos no final de cada dia, com o intuito de tirar alguns propósitos – três ou quatro – simples e concretos para levá-los à prática no dia seguinte. Por meio desse exame vai ocorrendo uma conaturalidade com o bem, de modo que cabeça (inteligência e vontade) e coração (sentimentos, emoções e paixões) quase que de forma instintiva contribuam para orientar as inclinações e sentimentos de acordo com a verdade, a fim de que a pessoa passe a querer e a desejar até sensivelmente o que é bom.

    2 – As virtudes são essenciais para a construção pessoal

        Para conquistar as virtudes é preciso estar motivado por valores ou convicções que fortaleçam a vontade em direção ao bem. Nascem as virtudes de um querer livre, racional e pela prática habitual de atos contrários aos defeitos (não basta apenas um ato virtuoso para se criar um hábito estável). Por isso, se diz que as virtudes são racionais e conduzem progressivamente a uma maturidade maior, expressada por meio de uma afetividade equilibrada, relações humanas profundas e justas, um agir que busca sempre o moralmente bom… A pessoa virtuosa deseja agir bem, e se sente mal se não se comporta dessa maneira.

    3 – O crescimento humano exige respostas de amor

        “O que nos pode tornar felizes, senão a experiência do amor dado e recebido?”, disse Francisco, na audiência de 14-07-17. O crescimento humano acontece quando há respostas livres de amor e não pelo simples cumprimento de obrigações ou regras, pois estas engessam a pessoa. O amor dá forma de ser a cada virtude porque leva a lutar contra as imperfeições próprias e compreender os defeitos alheios, amando as pessoas não pelos resultados que se possam obter delas, mas pela dignidade que possuem por serem pessoas, e ajudando-as a serem melhores. Pode-se afirmar que todo desejo de melhora e toda tarefa formativa deve conduzir a um crescimento no amor e no serviço aos outros.

        Aprofundar na compreensão de quem somos, cultivar convicções firmes, ter a valentia de não se deixar levar pelo que faz a maioria, e saber explicar o motivo pelo qual se atua de um determinado modo, indica que não se vive de maneira frívola e negligente. Esse comportamento exerce um grande atrativo desde fora, principalmente se está unido ao modo de falar, à discrição ou pudor na maneira de se vestir e mover-se, no jeito de sorrir e de olhar… Todos esses aspectos externos denotam um rico mundo interior e a personalidade de quem os possui.

    4 – A importância das virtudes sociais

        As atividades solidárias ajudam a crescer no amor e sair do egoísta círculo do eu para dirigir o pensamento e as ações aos demais. Pode-se afirmar que parte da formação humana consiste em desenvolver as virtudes sociais, que são caminho para a fraternidade e a amizade. A magnanimidade, a preocupação pelos mais necessitados, o espírito de serviço, a dedicação de tempo aos outros e a escuta atenta são virtudes que fazem respeitar os modos de ser e de fazer diferente dos próprios, ensinam a proteger a liberdade das pessoas, tornam delicado o trato mútuo e fazem mais justas e humanas as relações entre os homens. Tais virtudes, unidas ao esforço pessoal por melhorar, transformam o ambiente familiar em remanso de paz e trazem solidariedade às relações profissionais e sociais.

        “Esse ambiente de amizade, que cada um está chamado a levar consigo, é o fruto da soma de muitos esforços por tornar a vida agradável para os outros. Ganhar mais afabilidade, alegria, paciência, otimismo, delicadeza e todas as virtudes que tornam a convivência amável é importante para que as pessoas possam se sentir acolhidas e felizes: uma palavra amena multiplica os amigos e acalma os inimigos, uma língua afável profere saudações (Eclo 6,5). A luta para melhorar o próprio caráter é condição necessária para que surjam mais facilmente relações de amizade. Por outro lado, certas maneiras de se expressar podem atrapalhar ou dificultar a criação de um ambiente de amizade. Por exemplo, ser categórico demais ao expressar a própria opinião, dando a impressão de que achamos que nossas colocações são as definitivas, ou não se interessar ativamente pelo que os outros dizem, são maneiras de agir que nos fecham em nós mesmos. Em algumas ocasiões, esses comportamentos manifestam uma incapacidade de distinguir o que é opinável daquilo que não é, ou a dificuldade para relativizar questões em que as soluções não são necessariamente únicas” Carta de Mons. Fernando Ocariz, de 01-11-2019

        As virtudes sociais ajudam a distinguir entre o essencial e o transitório ou passível de mudança nas relações entre as pessoas. Essas qualidades são necessárias para a paz social, pois tornam madura e solidária a personalidade de cada um, que passa a atuar com flexibilidade ao distinguir em cada momento entre o que não é essencial e o que o é, e neste último caso, sabendo manter uma delicada e respeitosa firmeza diante do que entende ser um valor permanente.

    5 – Alguns caminhos para motivar-se

        Há caminhos que ajudam a compreender a importância do aperfeiçoamento humano e a ajuda aos demais: a contemplação e o encantamento que oferece a arte e a beleza da natureza; o refletir sobre os clássicos da literatura e considerar a mensagem de fundo dos bons filmes; a vida de oração que leva a meditar no silêncio sobre si próprio e no bem que se pode fazer aos que mais necessitam; o estudo e aprofundamento acerca do comportamento humano que oferecem os bons manuais de antropologia… Esses aspectos, necessários para elevar a sensibilidade humana até o autenticamente bom e belo, são meios que fazem o espírito descobrir dimensões mais profundas da realidade, modelam a personalidade, iluminam a consciência e permitem dar respostas coerentes com as próprias convicções.

    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Imagem de Anna Shvets.

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  • Elegância e bom gosto

    Elegância e bom gosto

    1 – A beleza salvará o mundo. 2 – Bom gosto não é questão de dinheiro. 3 – Casa simples, limpa e ordenada. 4 – Elegância no vestir-se. 5 – O modo de se vestir reflete a personalidade. 6 – As roupas devem adequar-se a cada situação. 7 – A moda é para vestir e não despir

    1 – A beleza salvará o mundo

         Dostoievski disse que a beleza salvará o mundo, mas para os utilitaristas buscar o belo não parece ser útil, pois o importante para eles é a funcionalidade das coisas. Como prova de que a beleza anda de mãos dadas com o bem e a verdade, vale a pena assistir o vídeo “Por que a beleza importa?”, de Roger Scruton, no Youtube, onde o narrador mostra vários edifícios europeus abandonados devido à feiura deles, apesar de terem sido pensados para serem funcionais. O mal não é belo, mas incoerente. A natureza humana necessita do belo, que é um valor que traz harmonia e dignidade à pessoa e ao seu entorno.

    2 – Bom gosto não é questão de dinheiro

         Bom gosto e elegância não são qualidades arbitrárias ou de ostentação, mas de simplicidade e humildade ao admitir que em tudo deve haver harmonia, equilíbrio e proporção. Elegância e bom gosto não dependem de ser rico ou pobre, mas de saber escolher, pois há ambientes luxuosos e decorados com péssimo gosto, onde vários estilos se misturam e se chocam; e há ambientes simples, mas decorados com objetos bem escolhidos em brechós, e que imprimem um toque de harmonia e elegância ao local.

    3 – Casa simples, limpa e ordenada

         O bom gosto está nos pequenos detalhes que tornam amável a vida de família; está no cuidado com as pequenas coisas, está no afã de servir aos demais. Se cada membro da família − dos adultos às crianças − colabora para que o lar esteja limpo, ordenado e decorado com simplicidade e bom gosto, torna-se uma maravilha retornar para casa no final de cada dia. Faz parte do bom gosto cuidar dos pormenores da casa: consertar o quanto antes a fiação elétrica exposta, a torneira pingando, as tomadas soltas; trocar a vidraça quebrada; recuperar ou substituir os móveis com defeitos, manter nos armários os objetos que se usam no dia a dia; decorar o ambiente com vasos, flores e quadros… Na periferia das grandes cidades é possível ver desde fora casas simples com paredes externas rebocadas, sem umidade e pintadas; janelas com seus caixilhos de madeira também pintados, vasos de flores que ornamentam a entrada e demonstram que naquele lar há bom gosto e respeito pelos seus moradores… Aliás, tal visual incentiva a que os vizinhos façam o mesmo, pois a beleza é contagiante, difusiva.

    4 – Elegância no vestir-se

         Elegância e bom gosto devem estar presentes também no vestir-se, e para isso não é preciso gastar mais dinheiro, mas saber combinar as cores e os padrões dos tecidos (listrado, estampado ou liso). Revela elegância e harmonia utilizar uma das peças de cor escura (a calça, por exemplo), com outra (a camisa) de cor clara (ou vice e versa), sendo que ambas devem combinar os tons. Se a camisa é listrada ou com estampas, não utilizar uma jaqueta ou blazer também listrado, pois o visual com tantos riscos chega a embaralhar a vista e causará tontura ou labirintite a quem vê (o ideal será que uma das peças seja de estampa lisa). Uma roupa de tom azul dificilmente combinará com a de tom marrom; nem a de tom cinza combinará com o amarelo ou cenoura… A mesma roupa não deve ser utilizada por dois dias seguidos. Em geral, camisas, meias e peças de baixo devem ser usadas apenas uma vez por dia, e ser deixadas para lavar: utilizar por dias seguidos a mesma camisa encarde o colarinho e obriga a lavar com mais intensidade, desgastando rapidamente o tecido.

        Para aprender a combinar as cores, uma sugestão é observar as vitrines das lojas de roupas dos shoppings, onde o bom gosto de muitos vitrinistas sabe adequar os tons das indumentárias de seus manequins (bem, nem sempre…). Outra sugestão é pesquisar na internet sites como o www.vivadecora.com.br/pro/mistura-de-cores/, ou outros, que ajudam a combinar as cores não apenas das roupas, mas para qualquer ambiente da casa ou oficina.

    5 – O modo de se vestir reflete a personalidade

         A roupa revela aos demais o que somos e como somos; transmite o que queremos comunicar. Embora afirme-se que as aparências enganam, em muitas ocasiões elas transmitem verdades: podem revelar a profissão, idade, pulcritude, bom gosto, sensibilidade… Pode-se até fazer uma sutil alteração no conhecido refrão “Dize-me com quem andas, e te direi quem és”, para “Dize-me como andas e te direi quem és”. Há um equilíbrio profundo entre as roupas que se utiliza e a personalidade, pois a imagem externa de uma pessoa espelha a riqueza ou pobreza de seu interior: a mulher que deseja ser fatal procura mostrar “as armas da mulher”, e não se vestirá como a que quer ser apreciada pelo seu recato, elegância, distinção, cultura ou competência profissional. A anciã não se vestirá como uma jovem.

        Cada pessoa veste-se de acordo com seus ideais e aspirações. Um guarda-roupa revela se a pessoa sabe combinar as cores, se é dominada pela tendência do momento, ou se busca o equilíbrio entre beleza e funcionalidade. Para enfrentar o mercado de trabalho, as mulheres não necessitam masculinizar-se, pois o mundo laboral necessita de sua feminilidade, de sua atenção aos detalhes, dos modos empáticos e delicados de agir.

    6 – As roupas devem adequar-se a cada situação

         A roupa apropriada para cada ocasião torna atraente a pessoa, que se apresenta como alguém que respeita a si e aos demais, o que dá mais peso e credibilidade à sua personalidade, e ao que faz. A roupa tem uma dimensão social, e deve respeitar os valores que cada situação exige: ir ao casamento do amigo com agasalho esportivo ou com calça Jean revela que não se dá à ocasião a importância que ela tem, seja para o amigo ou para os demais convidados que se vestem elegantemente.

        Saber qual é a roupa apropriada para cada ocasião − passeio, trabalho, cerimônia social ou religiosa, esporte – demonstra sensibilidade. No lar, o estilo casual simples e elegante repercute na pessoa e no ambiente familiar (evitar andar de calção e sem camisa); no esporte, ao não usar roupas extravagantes para chamar a atenção e mostrar os detalhes anatômicos do corpo, indica que a pessoa é rica interiormente e não necessita evidenciar-se (ler o boletim Educar para o pudor). Na atividade profissional, a roupa revela bom gosto, respeito a si, ao ambiente, aos colegas de trabalho e aos clientes: trabalhar de jeans na área de apoio às redes de computadores está bem, mas não seria o ideal atender de jeans os clientes de uma agência bancária.

    7 – A moda é para vestir e não despir

         A moda não pode ser frívola, feita apenas para ser vista, porque trata-se de uma realidade cultural, moral e artística que reflete a história do momento e a personalidade dos que a criam e a dos que a adotam. A moda deve embelezar o corpo, mas sendo capaz de expressar a grandeza da alma: a dimensão e finalidade da moda pode ser lida em “La moda. ¿La conoces en toda su dimensión? (A moda: conhece-a em toda sua dimensão?), de Encarnita Ortega.

         Diz Sofia Carluccio, conhecida desenhista de moda no Uruguai, que alguns procuram conceber ou utilizar modelos chamativos, buscando atrair a atenção ao apelar para o recurso fácil do provocante. “Uma coisa que vejo muito claramente é que a moda é para vestir e não para despir: isso é como um “leit motiv”. Diz ela que na hora de desenhar não procura simplesmente que as pessoas estejam na moda, mas que combinem modéstia com elegância através de pequenos detalhes e acessórios. Cada peça de roupa é pensada até os mínimos detalhes.

    Texto elaborado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Sugestão de leitura: “La moda: entre a ética y la estética”, de Ana Sanches de la Nieta Hernández, traduzido por Manuel Alves de Sá, Diel Editora, Lisboa, Portugal. Imagem de hissetmehurriyeti.

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  • O cinema e seu valor formativo

    O cinema e seu valor formativo

    1 – O cinema como meio educativo. 2 – Pais em sintonia com o mundo subjetivo dos filhos. 3 – Contar com as emoções no processo educativo. 4 – As cenas de um filme podem motivar um jovem.

    1 – O cinema como meio educativo

         Em nossa época, onde impera a cultura da emoção e da imagem, o cinema é um grande recurso para a educação dos sentimentos. Suas cenas, que muitas vezes tocam os afetos ao abordar aspectos essenciais da vida humana, ajudam a refletir como cada um conduz a própria vida. A afetividade, onde residem sentimentos, emoções e paixões, não deve ser ignorada no processo educativo de adolescentes e jovens. Cabe aos pais e educadores contemplá-la e utilizá-la como porta de entrada para a compreensão da alma juvenil e seu universo atual, valendo-se do cinema como metodologia simples e acessível.

         Os sentimentos estabelecem uma ponte entre o que se conhece intelectualmente e o que a vontade decide executar. Por vezes, não basta concluir que algo deva ser executado para que a vontade queira fazê-lo ou colocar a mão na massa. Para essa realização cumpre papel importante a motivação dos sentimentos. Isso não significa que devemos fazer as coisas apenas quando os sentimentos nos motivam, pois às vezes é necessário agir contra eles. Por exemplo, quando Madre Tereza de Calcutá recolhia da sarjeta um moribundo cheio de pústulas e malcheiroso, talvez seus sentimentos fossem de repelência, mas ela o acolhia e levava-o para tratá-lo em sua casa de caridade. Porém, os sentimentos cumprem um papel muito importante, principalmente na vida dos jovens: imaginemos um rapaz que se emociona ao ver deslizar pelos céus um avião, e decide ser aviador. Tendo as condições físicas e intelectuais para essa profissão, porá os meios para continuar seus estudos no ensino médio, encontrará um trabalho durante o período da tarde para pagar a escola de aviador, que cursará à noite, a fim de tirar o brevê de piloto. O sacrifício desse jovem faz é grande, e haverá dias em que sua vontade será a de não ir à escola de pilotagem. Porém, seu forte sentimento, que se reacende cada vez que se imagina pilotando um avião, o faz superar a má vontade e ir à escola.

         Não seríamos humanos se desprezássemos o papel facilitador dos sentimentos para que o querer da vontade execute algo. Como diz Pablo Blasco, no artigo abaixo citado, “os sentimentos revestem o conhecimento [intelectual, por suposto] com uma roupagem pessoal que facilita o querer – a execução –, porque são bases da motivação. Uma coisa são as ideias e os conceitos, outra é como as ideias me atingem, e qual é o sabor que elas têm para o meu paladar afetivo. É no âmbito afetivo onde o personalismo se impõe como condição eficaz de aprendizado e de assimilação de atitudes”. Um mesmo fato atinge de modo diferente a cada pessoa, e isso é motivado pelos sentimentos.

         Os sentimentos não podem modificar os conceitos matemáticos, mas podem promover atitudes, estimular alguém a estudar essa ciência pela paixão que sente por ela; também podem encorajar condutas éticas não motivadas pela leitura de livros de moral, mas ao ver a cena de um filme em que a personagem não aceita, por exemplo, ser subornada para trair alguém. Nesse sentido, ensina Pablo Blasco, os sentimentos são como o tempero que facilita a ingestão do alimento, conferindo a ele um toque especial e personalíssimo que faz do comer algo que vai muito além da simples nutrição.

    2 – Pais em sintonia com o mundo subjetivo dos filhos

         A educação da afetividade requer um toque de arte por parte do educador, que deve entrar em sintonia com o mundo subjetivo do educando, e adaptar-se às necessidades e ao paladar deste, como um tempero que conquiste e estimule a vontade para realizar algo. Nesse sentido o cinema, ao provocar a afetividade, dará um toque especial ou sabor aos conhecimentos e conceitos, tornando mais acessível a sua busca (ou até repelindo-os). As cenas levam à reflexão quando são verdadeiramente questionadoras. Pablo Blasco comenta que no filme “O resgate do soldado Ryan”, com Tom Hanks, vê-se a passagem em que o capitão está morrendo e o soldado Ryan inclina-se sobre ele, e ouve do oficial estas palavras: “James, faça por merecer”. Quarenta anos depois, James Ryan visita o cemitério onde está enterrado o capitão, e acompanhado da esposa, filhos e netos, olha para o túmulo e diz: “Todos os dias penso no que você me disse naquele dia, na ponte. Procurei viver a minha vida do melhor modo possível. Espero que, pelo menos diante dos seus olhos, eu tenha ganhado o que todos vocês fizeram por mim”, e em seguida, dirige o olhar à esposa e indaga: “Diga que a minha vida prestou para algo, que tive uma vida digna”. Esse é o currículo de James Ryan: ter formado uma família, educado seus filhos e levado uma vida honesta e sacrificada. O capitão, que na vida civil era professor, educou Ryan com o exemplo de sua vida e com a frase “faça por merecer”. Quem assiste essa cena é levado a se perguntar se o sentido que está dando à sua vida é magnânimo ou mesquinho.

         Nem tudo se aprende por argumentação e raciocínio lógico, mas também pela percepção dos sentimentos, que alavancam o processo de educar. Afirma Pablo Blasco que nas culturas antigas o meio principal para a educação moral era contar histórias por meio de artes como teatro, literatura e ópera, que possuem o papel de suprir as experiências que nem todos podem vivenciar durante a vida. Ao fornecer essas experiências – “escarmentar em cabeça alheia”, diz o ditado popular –, por meio de cenas, o cinema permite penetrar até o nível moral e pessoal. Ao ter por trás um excelente roteiro, os bons filmes se distanciam infinitamente das epidérmicas e velozes imagens que se consomem diariamente nas redes sociais, e que só trazem a dissipação do espírito e impedem a reflexão sobre si mesmo para agir como um sujeito moral.

         Um bom filme pode oferecer a quem o assiste a experiência fecunda de eleger para suas ações o ato virtuoso. Tanto o cinema como a literatura podem unir imaginação, sentimentos e ideias à realidade de uma experiência como se fosse vivida pessoalmente, que é modo excelente para a compreensão profunda da qualidade do agir virtuoso. “Sem a arte narrativa –e aí se enquadra o cinema– o ser humano teria que contar tão só com suas próprias experiências, o que significa que se veria obrigado a aprender tudo desde o princípio. Sem conhecer a Odisseia, o homem não saberia nada da fidelidade de Penélope; sem Shakespeare ignoraria as dúvidas de Hamlet, o amor de Romeu por Julieta. Sem Dom Quixote, teríamos que descobrir por conta própria a diferença entre ver o mundo como é e vê-lo como deveria ser” (Krzysztof Zanussi, filósofo e cineasta polonês).

         Assistir a um filme bem selecionado deixa de ser apenas um simples passatempo ou divertimento, porque as cenas vitais provocam sentimentos – alegria, entusiasmo, aprovação, rechaço, condenação –, que podem configurar condutas. Pablo Blasco afirma que “a tragédia grega provocava a catarse, entendida em duplo sentido: primeiro, imediato, como a liberação dos sentimentos, como uma limpeza orgânica, como um purgante; o segundo, muito importante, é que mediante a catarse colocam-se no seu lugar todos esses sentimentos acumulados – emoções – que não poucas vezes se armazenam de modo desordenado”.

    3 – Contar com as emoções no processo educativo

         As emoções podem ser contempladas no processo educativo. Não basta vê-las passivamente, mas é preciso dar vazão e permitir que as emoções possam cumprir o seu papel no desejo de aprender e de motivar o estudante. Assim, será mais fácil envolver a racionalidade e fundamentar conceitos. O educador que permite, no espaço formativo, o fluir das emoções através da discussão, da partilha de sentimentos, abre caminho para uma verdadeira reconstrução da afetividade. Esse processo requer tato, habilidade; requer evitar precipitações para promover um aprendizado que respeite o ritmo quase fisiológico da emotividade. Não se pode obrigar ninguém a sentir o que não sente. Pode-se simplesmente mostrar. O tempo e a reflexão sobre as emoções se encarregarão de aprimorar o paladar afetivo.

         A educação através da estética não é superficial. Ao atingir as emoções e a sensibilidade, não se deseja ancorar na emotividade os valores e modelos de conduta, mas suscitar uma reflexão sobre esses mesmos valores e atitudes. Ensina Pablo Blasco que se pode conquistar uma habilidade técnica sem nada sentir e sem refletir muito sobre ela. Porém, é mais difícil adquirir valores, progredir nas virtudes e incorporar condutas sem um processo prévio de reflexão. O desencadear da reflexão é facilitado pela estética, pela arte do cinema – “a beleza salvará o mundo”, disse Dostoievski –, que sensibiliza e incentiva para aprendizados racionais de modo personalizado e por meio de cenas que ofertem uma representação do mundo concreta, dinâmica, sensitiva e emotiva. Tais cenas conduzirão à fundamentação racional, buscada com entusiasmo e emoção, e como porta de entrada para que o jovem faça posteriores construções.

         Pablo diz que as respostas racionais representadas pelo “estou de acordo” ou “discordo” serão substituídas por respostas emotivas suscitadas pela imagem: “gosto” ou “não gosto”, onde existe uma aceitação ou rejeição visceral, de impacto, sem participação do racional. Com isto não se pretende, em absoluto, dispensar a necessidade do raciocínio e conceitos para a construção do aprendizado. Apenas afirma-se que dificilmente um jovem aceitará raciocínios lógicos se a emoção não lhe facilita o caminho. Ao passar antes pelas emoções, porque é assim que hoje os jovens estão habituados a proceder, abre-se a porta de entrada para posteriores construções lógicas. Santo Agostinho diz que “Naquilo que se ama, ou não se sente a dificuldade ou se ama a própria dificuldade”. Ou seja, quando se põe o coração – leia-se sentimentos – os trabalhos nunca serão tão penosos, e torna-se mais fácil suportar a carga e manter a alegria durante o esforço.

         Diz Pablo Blasco, que “o cinema pode exprimir o que a racionalidade levaria muito tempo para explicitar e acabaria resultando até enfadonho. Um comentário de uma conhecida professora e mãe de família, a respeito do filme King Kong: – Esse é o homem que toda mulher gostaria de ter ao lado!Mas como um homem?! – exclamo eu – estamos falando de um gorila! E ela continua sorrindo: – Engano seu, meu caro: ele luta por ela, defende-a, se bate, e se deixa ferir… E aprende dela a delicadeza, os modos, a poesia. E quer somente a ela. As outras mulheres que lhe apresentam ele as descarta. Surpreso pelo comentário, lembrei-me do pensamento de um filósofo que diz: Nada imuniza tanto o homem [que pertence] do universo das mulheres, como o amor apaixonado por uma delas. E, em outra ocasião, quando comenta a mulher muda o ambiente e o homem tal como o clima trabalha os vegetais sem fazer aparentemente nada, formando-o à sua imagem e semelhança”.

    4 – As cenas de um filme podem motivar um jovem

         A educação pelo cinema arranca desejos profundos do jovem, e motiva-o para grandes sonhos e novos desafios. No filme “O Último Samurai”, durante um congresso, Pablo Blasco teve a experiência, após apresentar as cenas em que homens medievais valentes, e em atitude de serviço (servir parece ser a missão deles), enfrentavam as modernas metralhadoras com coragem e espada. Sim, caiam mortos, mas arrancando do inimigo o reconhecimento, a veneração e até a vitória moral. Diz Pablo que “Esse é o modo de promover novos Samurais, mesmo com tecnologia moderna, entre os jovens soldados que ficam atônitos vendo a valentia daqueles no combate”. Quando acabou a conferência, um jovem veio à frente, segurou o braço do conferencista e disse com os olhos brilhando: “Professor, eu quero ser um Samurai!”.

          A um pai ou educador que pergunta “E se o jovem não concluir o que eu gostaria que ele concluísse?”, cabe afirmar que devem levantar a lebre. “Não adianta – diz Pablo – colocar rolha num vulcão, porque antes ou depois explodirá. O que melhor se pode fazer é promover a reflexão para que o jovem se vá construindo. Algo muito próximo ao que o macaco Rafiki fez com Simba, no filme O Rei Leão, onde Simba, na boa vida, não queria assumir a realidade de que se tornara um leão adulto. O macaco interroga-o e pergunta: – Quem é você? Tal pergunta faz virar ao avesso o confortável Hakuna Matata, em que Simba vivia, para trazê-lo à realidade” E conclui, Pablo: “Não são as respostas as que devem vir prontas, fabricadas, mas sim as perguntas, a modo de provocações que o professor, o pai, ou formador devem continuar, e serenamente dirigir ao seu interlocutor. A ficha tem de cair por si só – para utilizar uma linguagem corrente. E, nesta empreitada de provocar reflexões, o cinema é um prato cheio, uma oportunidade excelente”.

    Sugerimos visitar o site https://pablogonzalezblasco.com.br/category/filmes/, onde há comentários de vários filmes que poderão ser assistidos e comentados em família.

    Texto de Ari Esteves, adaptado da entrevista do médico e humanista Pablo González Blasco, à Revista “Ser família”, edição 3, 2007.

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  • Penetrar no tema das obras literárias

    Penetrar no tema das obras literárias

    1 – Não ficar só nos argumentos das histórias 2 – A literatura como modelo de valores 3 – Ler para as crianças os tradicionais contos infantis

    1 – Não ficar só nos argumentos das histórias

        As obras de qualidade nos permitem sair do plano da vida cotidiana e imergir na trama de outras vidas. Mas para isso é preciso penetrar no tema mais profundo de cada obra, e não ficar apenas no argumento ou desenrolar da história, que é o mais óbvio e superficial. Penetrar no tema é discernir o caráter benéfico ou nefasto de certas atitudes. Em Pinóquio, por exemplo, o tema é o poder deformante da mentira, tanto para a alma como para o corpo.

        Para descobrir essa trama é necessário ler a obra por dentro, como se fôssemos o próprio autor durante sua criação: é a chamada leitura genética, criativa. Quem leu MacBeth, de Shakespeare, perceberá a trágica ambição de um nobre escocês que assassina o rei para ocupar o lugar dele, o que o levou à destruição de si mesmo, porque sua consciência passou a acusá-lo a todo instante, fazendo-o perder a paz do espírito. O tema é a entrega desse nobre à ambição de poder, que o fez mergulhar vertiginosamente em sua ambição, a ponto de cometer um homicídio. Meditando no tema da obra MacBeth, concluímos que todos podemos nos ver caindo não em um homicídio, mas na paixão do orgulho, da vaidade, da cupidez ou ânsia pelo dinheiro ao preço da corrupção, no desejo de poder ou status social por egoísmo e não para servir aos demais… Essa obra faz notar ao que se reduz aquele que se entrega a uma paixão desregrada, onde qualquer meio é utilizado para se alcançar o fim desejado.

        No livro “O Pequeno príncipe”, de Saint Exupéry, o pequeno nobre insiste para que o piloto lhe faça o desenho de um cordeiro. O que queria o menino: um desenho ou travar amizade com o piloto? Quem leu “Pinóquio”, de Carlo Collodi, riu com o nariz do moleque que crescia ao mentir, mas poderá ter ficado apenas no argumento da história, sem, contudo, penetrar no tema da obra, que trata do poder deformante da mentira, que desfigura não só o rosto, mas também a alma.

    2 – A literatura como modelo de valores

        Ter modelos é algo muito humano, mas a questão está em acertar e não errar na escolha. Um modo de ensinar valores ou modelos de conduta aos filhos são as narrativas (romances, novelas, contos, biografias, bons filmes), pois têm influência enorme na vida humana. Basta ler a “Odisseia”, de Homero, para ver a fidelidade entre Ulisses e Penélope; ou entre Romeu e Julieta, de Shakespeare. Contar histórias é melhor que discursos teóricos, seja para configuração moral da vida de uma pessoa ou de um povo.

        Os pais devem viver e ensinar os valores que acreditam. Valores são modelos de conduta que adotamos para orientar a nossa vida. Educar em boa parte é transmitir os valores que se acreditam e que filhos devem assumir por vontade própria, sem necessidade de vigilâncias. A pergunta sobre os valores ou modelos que escolhemos tem sentido porque direcionamos a nossa vida por eles. Há quem age por valores de utilidade primária (comer, beber, se divertir); outros pela beleza física, fama, poder, dinheiro, pátria, cultura, destreza técnica, família, religião etc. Examinar os valores que regem a própria vida e os que se querem para os filhos é necessário para não construir sobre bases falsas e origem de fracassos.

        Aprecia-se não valores teóricos, mas imitáveis e assumidos por pessoas que se quer como modelos. Mesmo em tempos de crise de valores encontramos pessoas que personificam um ideal de excelência humana na própria família e nas relações profissionais ou sociais. Essas pessoas são modelos porque a história delas está assentada em fatos edificantes: um casal que completa 30, 40 ou 50 anos de casamento é um valor de fidelidade e de verdadeiro amor que deve ser imitado e ensinado; o amigo que não aceita subornos ou pais que levam adiante e com sacrifícios um lar com vários filhos são exemplos de valores.

    3 – Ler para as crianças os tradicionais contos infantis

        As crianças gostam imensamente de ouvir histórias. Pais, irmãos mais velhos, avós, podem ler para elas, enriquecendo, assim, a inteligência, a memória e a imaginação delas com conteúdos mais ricos do que os games ou horas consumidas passivamente diante de telas digitais, que apresentam imagens prontas e não forçam a imaginação para criá-las. A iniciativa de ler para as crianças pode ser estendida também aos pirralhos da vizinhança ou de uma comunidade pobre, a fim de que desde cedo elas passem a interessar-se pela leitura, o que as fará não se viciarem em celulares ou telas digitais.

        Os tradicionais contos infantis ajudam a materializar o significado do bem e do mal nos personagens das histórias, o que facilita às crianças a compreensão de certos comportamentos, mais do que mil discursos teóricos.

        Sugestão de contos que farão as crianças aguardarem ansiosamente o horário da leitura: O Patinho feio, A lebre e a tartaruga, Pinóquio, A galinha dos ovos de ouro, A princesa e a ervilha, Alice no país das maravilhas, A pequena Sereia, Rapunzel, O gato das botas, A Bela adormecida, Branca de Neve e os sete anões, Chapeuzinho vermelho, Cinderela, O pássaro que enganou o gato, Os três porquinhos, Ali babá e os 40 ladrões, O pequeno Polegar… Ver outras sugestões de contos ou livros para crianças, adolescentes e jovens: clique aqui

        Na escolha dos contos, optar pelas histórias tradicionais e não por aquelas que foram descaracterizadas ao serem recontadas com a finalidade de introduzir nas crianças a preocupação antecipada pelos dramas ecológicos, de meio ambiente, entre outros. As crianças merecem viajar pelo mundo das fadas, reis, rainhas, duendes e bruxas… Mais adiante, quando crescerem, elas terão tempo para conhecer as dores e mazelas humanas. O que não se pode é roubar delas a infância feliz e despreocupada, antecipando temas para os quais ainda não estão preparadas para vivenciar.

    Texto produzido por Ari Esteves com base na obra “Como formarse em ética a traves de la literatura”, de Alfonso López Quintás, Ediciones Rialp, Madrid, 1994; e pelo boletim “A escolha de valores ou modelos de conduta” em  https://staging.ariesteves.com.br/2020/09/a-escolha-de-valores-e-modelos/. Imagem de Dziana Hasanbekava.

  • O silêncio para pensar

    O silêncio para pensar

    1 – O ativismo impede o enriquecimento interior 2 – O culto ao corpo esvazia a alma
    3 – Conhecer-se para interpretar-se

    1 – O ativismo impede o enriquecimento interior

        O homem moderno foge do silêncio, tão necessário para enriquecer o próprio mundo interior. O atual ativismo valoriza apenas a produtividade, a capacidade de gerir várias coisas ao mesmo tempo. Além disso, a televisão, o rádio no carro, as redes sociais, vídeos e noticiários roubam o pouco tempo para pensar e conhecer-se para melhor servir aos demais, pois é aqui onde reside o verdadeiro amor.

        É possível transformar o trabalho e a diversão em fuga de si mesmo, e esse desencontro leva à despersonalização. Consumir, comprar, passear, esporte em excesso e muitas notícias desencontradas preenchem o tempo e impedem o pensamento e a experiência que enriquece a alma. Não basta somar um aglomerado de vivências confusas colhidas em curiosear redes sociais e noticiários. Para ter uma leitura verdadeira de si e da realidade é necessário frear o alvoroço que torna os fatos inconexos, fragmentários e ininteligíveis. Sem o silêncio reflexivo, o centro do homem não se situa dentro de dele, mas fora, na agitação, e acaba-se tendo como opinião própria a dos noticiários, e as necessidades pessoais serão as determinadas pelos anúncios publicitários. Quem não é protagonista de sua própria vida será conduzido por outros: a euforia, as paixões descontroladas, depressões e tristezas serão os inquilinos dessa pensão sem dono.

        O silêncio enriquecedor é um convite à reflexão que faz ter presente o caráter instrumental e limitado das coisas. Quem busca a felicidade em objetos ou em mil atividades é porque renunciou encontrá-la dentro de si e, assim, não será feliz porque a felicidade é um bem espiritual, interior, e não se alcança na correria de quem imita o coelho atrás da cenoura amarrada em uma vareta a dois palmos de seus olhos. Os objetos podem fazer feliz por um momento, mas logo se percebe que são insuficientes, pois há no homem um anseio mais profundo de felicidade que não está no exterior dele.

    2 – O culto ao corpo esvazia a alma

        Os armários se diferenciam pelo que guardam dentro: objetos de valor ou tranqueiras. Assim também os homens não se esgotam nos aspectos físicos exteriores, e são identificados pelo seu mundo interior (sua alma ou almário): sábio ou ignorante, culto ou inculto, cheio de luzes ou de sombras, coerente ou ilógico, verdadeiro ou equivocado, profundo ou frívolo…

        A preocupação de muitas e de muitos é com o bonito ou feio, e isso os faz gastar tempo excessivo no culto exterior do corpo: a foto que irá publicar nas redes sociais, malhação em academias, medicina estética e alimentação sofisticada, muito esporte, roupas esportivas caras e extravagantes… É preciso cuidar do corpo, da aparência, mas dedicar mais tempo a isso do que à inteligência, à vontade (que nos diferenciam dos animais) e à educação dos afetos (sentimentos, emoções e paixões), empobrece o mundo interior, que sendo mais complexo e rico necessita de mais tempo para ser instruído a fim de oferecer muito mais do que os aspectos corporais exteriores.

    3 – Conhecer-se para interpretar-se

        A capacidade de refletir faz a pessoa tomar distância de si para ver-se como objeto de estudo: “Quem sou e qual o sentido da minha vida?” são perguntas não para se problematizar, mas para evitar viver uma vida desde fora, anódina. O princípio socrático “Conhece-te a ti mesmo”, convida à reflexão dos motivos que nos levam a agir. Esse conhecimento, que é uma apreensão de si, nos leva a saber se estamos no caminho da verdade e do bem, que é a senda para a felicidade. Todo conhecimento é uma conquista, e entender-se a si mesmo permite diagnosticar as possibilidades e limites próprios para estabelecer metas reais, além de corrigir os desvios de conduta. O homem não é feliz se não tiver algo a conquistar, se não possuir um projeto de vida ao serviço dos demais, e para o qual se sente com forças de realizar. Desejar a solidão não é fugir das pessoas ou rechaçá-las, mas encontrá-las de um modo mais profundo e enriquecedor.

        Há em cada pessoa fatores intelectuais, volitivos, afetivos e temperamentais que devem estar integrados e unificados para não se fragmentarem e conflitarem-se. Para isso, é preciso ilustrar-se não apenas com o conhecimento profissional, pois as profissões atuais são excessivamente especializadas e muito pouco integradoras, e só permitem apreciações parciais vida. O rechaço de uma interpretação integradora da pessoa leva ao desprestígio da religião, filosofia e arte diante das ciências experimentais.

        Todo autoconhecimento se dirige à posse de si mesmo. Mas o homem não pode resolver-se sem se conhecer, e sem a ajuda de Deus e do conselho prudente. Para conhecer-se é necessário ser humilde e sincero ao valorar as qualidades pessoais, e saber a ciência certa para determinada tarefa. Conhecer-se para dirigir-se, dominar-se. Ser homem é ser uno, é saber integrar inteligência, vontade e afetos em uma unidade de alma e, para isso, ajuda imprescindível é a leitura das grandes obras literárias, biografias; livros de antropologia e de religião…

    Texto adaptado por Ari Esteves com base nos ensinamentos de Ricardo Yepes e Javier Aranguren, no livro “Fundamentos de Antropologia – Um ideal da excelência humana”, editado pelo Instituto Raimundo Lúlio, São Paulo. Imagem de Cottonbro Studio.

  • Uso da internet por crianças e adolescentes

    Uso da internet por crianças e adolescentes

    1 – O desafio da internet para os pais. 2 – Os valores ou modelos de conduta evitam o mau uso da rede. 3 – Educar para o autodomínio ou temperança. 4 – Educar na liberdade

    1 – O desafio da internet para os pais

        A internet representa um dos avanços mais transformadores dos últimos tempos, seja do ponto de vista econômico, social, científico e cultural. Muitas vantagens e desvantagens decorrem dela. O uso da internet alcançou grande difusão na atualidade, e tenderá a aumentar devido sua utilidade para o estudo, trabalho, informação, mensagens, inclusive a seleção de conteúdo para fugir do monopólio dos grupos de comunicação que impõem muitos programas indesejados, etc. Concebida para ser livre e aberta, a rede varre todo tipo de conteúdo, e poucos estão sob o controle das autoridades, o que favorece informações falsas ou não confiáveis, contato com pessoas não recomendáveis, manipulação de comportamentos, etc.

        Para os pais, a internet se tornou um desafio pelo excesso de informações, imagens, jogos, software, redes sociais, fácil acesso à pornografia, à violência de alguns videogames e outros aplicativos que vêm causando danos sérios às crianças. Pela inexperiência e falta de maturidade humana e moral própria da idade, as crianças estão expostas a influxos negativos de diversos modos na internet, muitas vezes sem que seus pais se deem conta, como bem revelou o estudo “Child internet risk perception”, da International Crime Analysis Association, e o “Your family and cyberspace”, da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, publicado em 22 de junho de 2000.

    2 – Os valores ou modelos de conduta evitam o mau uso da rede

        Educar para o bom uso da rede é ajudar a criança a interiorizar e viver valores ou modelos de conduta que servem de guias e força interior para não se deixar arrastar por desejos e impulsos instintivos. Com explicações adequadas, feitas com carinho e olhando nos olhos da criança, ela compreende que passar horas diante da TV, tabletes ou celulares, vicia e torna a inteligência preguiçosa, fraca para pensar e para ter criatividade e inventar brincadeiras por conta própria, ou para utilizar melhor o tempo com jogos de mesa, quebra-cabeça, lego, leitura de contos, xadrez… A criança habituada desde pequena a viver uma disciplina com diferentes horários (dormir, acordar, brincar, refeições, estudar ou fazer recortes, cumprir tarefas no lar) facilmente opta por jogos e brincadeiras ao ar livre e compreende que as precauções são uma ajuda, pois quem habitua-se a navegar sem rumo pela internet é porque adquiriu o vício da preguiça, com a consequente perda de tempo, dependência, ociosidade, fuga dos deveres, desinteresse pelo que custa esforço (estudar, cumprir encargos no lar, realizar algum projeto…).

        Ao apresentar às crianças de modo atrativo que certas atitudes são valiosas e outras degradantes, elas se entusiasmam pelo comportamento reto e nobre (os contos ou narrativas literárias ajudam a materializar o bem e o mal que podem existir nas ações pessoais). Quando as crianças assumem o comportamento reto, mesmo na ausência dos pais agem bem, porque aprenderam a amar o que é reto e a vontade se tornou a reitora de suas ações, e não os sentimentos e desejos. Educar desse modo ajuda os filhos a construírem uma personalidade rica e segura.

    3 – Educar para o autodomínio ou temperança

        A educação para o autodomínio ou virtude da temperança ordena as inclinações dos sentidos e dá senhorio e força para utilizar bem a internet e as novas tecnologias. A educação da vontade, por meio das virtudes, é crucial para esse bom uso. A vontade se inclina para os motivos ou valores interiorizados pela inteligência. Para isso, cada filho precisa compreender que suas decisões livres deixam marcas na personalidade, e que para construir-se é necessário conhecer o certo e o errado antes de agir; que deve refletir sobre o que quer para sua vida e o que apenas faz parte de um gosto ou desejo momentâneo. Os adolescentes, quando se lhes explica, aprendem a distinguir entre o querer, que é inclinação livre da vontade, e o gostar ou desejar, que é inclinação dos sentidos e instintos para o apetecível, e que por não serem racionais são inclinações que devem ser examinadas pela inteligência antes de serem seguidas: ações más repetidas geram vícios; ações boas repetidas geram virtudes.

        É necessário colocar limites no uso dos aparelhos eletrônicos, tendo regras claras em casa: não usar celulares durante as refeições, pois a família que faz poucas refeições conjuntamente ou que nesses momentos tem pouco diálogo porque assiste televisão ou consulta o celular, caminha para a desunião. Outras regras úteis: deixar a porta aberta quando se está usando a internet, não permitir o uso de telas ao ir dormir, combinar entre todos (inclusive com as crianças) para manter um horário fixo para o uso da TV, não passar informações pessoais pela rede, não contatar desconhecidos e informar os pais se algo estranho ocorre, não abrir arquivos digitais enviados por estranhos… É conveniente que os computadores e os pontos de rede estejam em local de passagem ou bastante frequentado no lar (sala de estar, corredor, etc.), e nunca no quarto das crianças ou dos adultos (que devem dar exemplo). Quando se trata de crianças, é um dever dos pais protegê-las por meio de um sistema de filtros, tal como se instalam filtros para evitar o uso de água contaminada. Há filtros de internet para celulares, tabletes, Youtube, etc. Pedir ajuda a Deus para que os filhos sejam temperados e responsáveis, tendo o exemplo dos pais nesse campo.

    4 – Educar na liberdade

        Os pais devem se tornar amigos dos filhos, harmonizando autoridade, requerida pela própria educação, com amizade, que exige colocar-se no mesmo nível dos filhos. Depois, construir a confiança através do diálogo, tendo presente que qualquer jovem, mesmo os mais rebeldes, desejam sempre essa aproximação e amizade com os pais. O segredo está na confiança, em saber educar num clima de familiaridade, sem nunca dar a impressão de desconfiar dos filhos, mas, ao contrário, dar a eles liberdade e ensinar administrá-la com responsabilidade pessoal. É preferível que os pais se deixem enganar uma vez ou outra, porque a confiança que se deposita em cada filho faz com que este se envergonhe de havê-la traído, e se corrige. Um filho ao qual os pais não lhe dão liberdade, porque desconfiam dele, se sentirá impulsionado a refinar seu modo de enganar. O filho deve encontrar sempre em seus pais um olhar de amor incondicional ao perceber neles a felicidade de o terem como filho.

        Ensinar cada filho a ter moderação no uso da tecnologia requer que o casal tenha uma visão comum sobre como ajudá-lo a viver a temperança. O primeiro passo é que os pais deem exemplo de vida nesse aspecto, pois os filhos reparam nos esforços que ambos fazem para viver a temperança e o autocontrole: diz o ditado que mais do que falar, é preciso fazer. Pai e mãe devem pensar juntos sobre o modo como cada filho emprega as horas do dia, a fim de ajudá-lo a planejar outras opções de lazer: passeio junto com a família é ocasiões para se ter conversas significativas com os filhos, excursões, atividades em casa (jogos de mesa, leitura, xadrez, vídeos programados); divertir-se com o esporte, visitas culturais a exposições e museus. Estimule os filhos a terem amigos reais e não virtuais, e mostre que o uso excessivo da tecnologia dificultará a capacidade de ter empatia com os outros e de criar relações sadias.

        Mesmo com tais medidas, em famílias com mais de um filho pode acontecer que um deles faça mal uso da rede, não sendo educativo que os “justos paguem pelos pecadores”, ao submeter a restrições os filhos que se comportam bem. É preciso enfrentar o problema energicamente se necessário com o filho que age mal, evitando que se crie na família um clima generalizado de desconfiança ou de falta de liberdade. Costuma não ser acertado obrigar todos os filhos a prescindirem por completo da internet, pois seria um fracasso à tarefa educativa de ensinar o uso reto e prudente das novas tecnologias, que já formam parte do mundo atual e são manejadas pelas crianças na escola.

        O que se chama de “conflito de gerações” é muito antigo, pois em todas as épocas se apresentou como coisa natural que jovens e adultos vejam as coisas de modo diferente. O que seria surpreendente é que um adolescente pensasse da mesma maneira que uma pessoa madura. Todos tivemos impulsos de rebeldia para com os mais velhos quando começamos a formar critérios e ter mais autonomia. Porém, com o passar dos anos passamos a compreende que os nossos pais tinham razão e que agiam assim por amor a nós. Por isso, compete em primeiro lugar aos pais — que já passaram por esse transe — facilitar o entendimento ao ter flexibilidade e espírito jovem para evitar possíveis conflitos com um amor mais inteligente.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base em artigos, aulas, palestras. Imagem de Kampus Production.

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  • Lazer criativo

    Lazer criativo

    1 – Trabalho e descanso são inseparáveis. 2 – A importância do lúdico. 3 – O dom do bom-humor. 4 – O descanso familiar. 5 – Modos enriquecedores de descansar. 6 – Evitar certos tipos de descanso.

    1 – Trabalho e descanso são inseparáveis

        Quem trabalha necessita descansar para repor forças. Porém, descansar não é ficar sem fazer nada, mas mudar de atividade. Os clássicos chamam o tempo dedicado ao descanso de ócio, onde os prazeres da apreciação e da contemplação permitem saborear os bens que os avatares do cotidiano escondem. O ócio vai em busca da contemplação do belo. O ser humano sempre aspira à beleza, à bondade e à verdade. O belo e o verdadeiro são encontrados na natureza e nas diferentes manifestações da arte; a bondade é encontrada em Deus e em pessoas (a natureza tem terremotos, tsunamis, cobras venenosas e feras que nos podem matar…).

        Dostoievski disse que a beleza salvará o mundo, mas para os utilitaristas buscar o belo não parece ser útil, pois o importante para eles é a funcionalidade das coisas. Como prova de que a beleza anda de mãos dadas com o bem e a verdade, vale a pena assistir o vídeo “Por que a beleza importa?”, de Roger Scruton, no Youtube, onde o narrador mostra vários edifícios europeus abandonados devido à feiura deles, apesar de terem sido pensados para serem funcionais. O mal não é belo, mas incoerente. A natureza humana necessita do belo, e para contemplar a beleza se carece do ócio bom.

    2 – A importância do lúdico

        Ao ócio hoje se pode chamar de ações lúdicas. Não se trata de um mero “entreter-se brincando” ou “divertir-se, quando não há nada que fazer”, mas algo mais rico: alcançar certa plenitude. As ações lúdicas contêm seu fim nelas mesmas, ou seja, não buscam outro objetivo que elas próprias: cantar, dançar, andar pelos caminhos e apreciar uma paisagem não servem para outras coisas senão para elas mesmas, e são realizadas simplesmente porque agradam. Ou seja, não são funcionais; apenas servem para serem apreciadas. As ações técnicas ou laborais têm em previsão alguma finalidade e estão concatenadas para a produção de um bem ou serviço. Já o esporte, um bom filme ou livro de literatura não fazem parte de uma cadeia produtiva, e por isso a arte é um pouco desprezada, e os artista em geral são pobres, pois as pessoas primeiramente dedicam seu dinheiro às necessidades primárias.

        O lúdico renova porque faz esquecer por momentos os deveres que absorvem, tal como o sono faz desconectar por algum tempo das responsabilidades, e ao distender renova as forças. O homem é feliz enquanto joga. Ao entrar num jogo, numa festa, ao ver um filme, se é “transportado” das preocupações habituais, que são esquecidas por algum momento. Uma partida de damas é uma felicidade e, enquanto se joga, o tempo se detém e se é feliz por estar em casa. O jogo exige certa perspicácia, certo desentranhar de capacidades ocultas que a rotina do dia a dia não cobra. O jogo traz o inesperado, que exige raciocínio rápido e faz com que se supere e se coloque novas destrezas em ação, sem outro fim que o desafio do próprio jogo. As crianças são felizes porque gostam de jogar, e estão sempre brincando (brincar é o trabalho delas, lógico, além de outros afazeres no lar, aos quais cumprem como um jogo a realizar!).

    3 – O dom do bom-humor

        As ações lúdicas estão ligadas ao riso, à alegria, à brincadeira, ao fácil, ao gostoso, ao cômico. Rir é sinal de felicidade. A extraordinária e singular capacidade humana de levar as coisas na brincadeira indica que se ingressou na região do lúdico. Na vida humana nem tudo é seriedade, nem pode sê-lo: é necessário rir. Quem está sempre sério termina sendo ridículo. É preciso saber rir, o que não significa ser debochado, desrespeitoso com a dor ou preocupação dos demais. Quem é permanentemente sério se torna ridículo. Já a brincadeira e a ironia boa relativizam as dores, suavizam a seriedade, aparam as arestas do dia tal como a almofada evita o choque entre dois objetos duros que poderiam se partir, amenizam o esforço do sobreviver cotidiano: rir de um problema, rir do próprio gesto mal-humorado tem um efeito liberador.

        A faina cotidiana – trabalho, estudo, encargos – e o sobreviver diário numa cidade grande podem quebrar aquele que não tem espírito esportivo para rir do ônibus que não parou no ponto, do carro que espirrou água suja em sua calça, da condução apertada, do transpirar ao se deslocar sob o sol (estou perdendo peso, diz o homem de bom humor; fico “p” da vida, diz o iracundo). Há pessoas que têm a extraordinária capacidade de levar as coisas com bom humor, de tirar importância do difícil, árduo, da notícia ruim. Esses não vivem alardeando o que fazem, mesmo quando isso lhes custa esforço. São heroicos, exemplares, e sem que eles mesmos o percebam, atraem as amizades e a confiança dos demais.

        Temos que aprender a rir dos problemas e de nós próprios: olhar no espelho e dizer para si: − Cara, como tu fica feio com o rosto severo, carrancudo! Certa pessoa ao se ver tão mal-humorada, tirou uma foto de sua cara a fim de rir do ridículo em que se encontrava. A felicidade tem caráter festivo, e não se pode viver mais que de modo festivo. Se fosse impossível celebrar festas, o homem não poderia ser plenamente feliz. O homem para ser feliz precisa brincar, descontrair-se. As crianças são mais felizes que os adultos porque brincam, porque não se inquietam com o que acontecerá amanhã: mergulham nos jogos e vivem com intensidade o momento, pois já estão aonde queriam chegar.

    4 – O descanso familiar

        Cada cônjuge tem o dever de se preocupar com o descanso do outro; em encontrar um momento semanal para o casal estar a sós e conversar: jantar fora, dançar, ir ao cinema ou a uma audição musical… E ambos – marido e esposa – devem planejar o descanso das crianças nos fins de semana, a fim de que aproveitem bem o tempo com jogos de inteligência, esporte, passeio no parque. Assim, os filhos não ficarão dependentes e passivos com celulares, tabletes ou TV. É bom que a família saia junta aos domingos ao menos meio período e, uma vez por mês, que passe o dia fora. Os fins de semana, feriados e férias são oportunidades de descansar de forma criativa e de fomentar o diálogo familiar.

        O descanso é um bem necessário, mas quando surge razão maior que o justifique, é preciso desprender-se dele sem fazer guerra ou cara feia. Em numerosas ocasiões um pai terá que jogar bola com o filho e prescindir de sua corrida; outras vezes terá que visitar um parente enfermo. Cristo ia descansar sentado na beira do poço, quando chegou a samaritana, uma alma que estava necessitada dEle, e então deixou o descanso, a fome e a sede para fazer aquela mulher recuperar os dons divinos.

    5 – Modos enriquecedores de descansar

        Para descansar não é preciso recorrer a meios extraordinários, mas mudar de atividade e agir com simplicidade. Gabriel Celaya, poeta, escreveu: “Quando o amigo chega, a casa está vazia, mas minha amada tira presunto, anchovas, queijo, azeitonas, duas garrafas de branco, e eu assisto ao milagre – sei que tudo é fiado –, e não quero pensar se poderemos pagá-lo. E quando bebemos e conversamos, e o amigo é feliz, crê que somos felizes, e o somos talvez burlando assim a morte: o que transcende não é a felicidade?”.

        Descansa-se com jogos de sala em família, em passeio pelo campo ou parque, em visitas a museus ou exposições artísticas, pois enriquecem a sensibilidade. O descanso é também um período para cuidar da formação intelectual através da literatura e de filmes com bons roteiros. A arte – um bom romance, por exemplo – tem o dom de nos transportar para dentro de nós, o que não é pouca coisa numa sociedade que busca o barulho e o fugir do silêncio para não se enfrentar com a própria consciência. Ao adentrarmo-nos em nós mesmos, nessa viagem passamos a nos conhecer melhor: “Sem a arte narrativa –e aí se enquadra o cinema– o ser humano teria que contar tão só com suas próprias experiências, o que significa que se veria obrigado a aprender tudo desde o princípio. Sem conhecer a Odisseia, o homem não saberia nada da fidelidade de Penélope; sem Shakespeare ignoraria as dúvidas de Hamlet, o amor de Romeu por Julieta. Sem Dom Quixote, teríamos que descobrir por conta própria a diferença entre ver o mundo como é e vê-lo como deveria ser” (Krzysztof Zanussi, filósofo e cineasta polonês).

        O descanso pode ser incluído nos aspectos positivos do 5º Mandamento: cuidar da saúde (o aspecto negativo ou de não fazer é não matar nem se matar). Na Sagrada Escritura, livro Gênesis, está escrito que Javé viu que tudo o que tinha feito era bom, e que descansou no sétimo dia. Tais palavras revelam que o descanso forma parte dos desígnios divinos. O livro Êxodo, também do Antigo Testamento, diz: “Seis dias trabalhas e farás as suas obras, mas o sétimo dia é de descanso, pois em seis dias fez Javé os céus e a terra, e o mar e quanto neles se contêm, e no sétimo dia descansou”. O descanso está intimamente unido ao culto divino, à contemplação de Deus e de suas obras e ao nosso aperfeiçoamento sobrenatural e humano.

        Aos domingos a alma necessita prestar culto a Deus, indo à Missa ou ao culto, e se abster de trabalhar ou de qualquer atividade que impeça esse culto. No Antigo Testamento há uma passagem onde um dos líderes do povo judeu pede a todos, depois do culto, que vão para casa e tomem cidra e doces manjares. O descanso da mente e do corpo é algo devido à natureza humana para o desenvolvimento de uma vida sadia.

    6 – Evitar certos tipos de descanso

        Hoje, por falta de valores verdadeiros sobre a vida do homem, muitos têm como meta buscar uma vida fácil e divertida – a boa vida –, e colocam o lazer como finalidade, e não como um momento para mudar de ocupação e represar forças para melhor servir aos demais nos afazeres habituais. Hedonista, a atual sociedade busca o prazer e está disposta a pagar o que for por ele, pois a diversão para muita gente se converteu em meta da existência, e o trabalho é apenas uma cruz suportável para fazer frente às despesas com os divertimentos. Há verdadeiros alardes de luxo em equipamentos esportivos de alto custo, hobbies dispendiosos, locais de descanso frívolos e caros… Essa ostentação e destempero revelam como muitos desaprenderam a se divertir. Por falta criatividade ou de imaginação, o descano para outros se reduz em largar-se durante horas e horas diante de uma tela de 40 polegadas, com muita cerveja e pizzas, e ali morgar todo um fim de semana.

        O ambiente das praias deteriorou-se porque se perdeu o sentido do íntimo, do pudor, e houve um acomodamento social nesse sentido. As festas de formaturas ou acadêmicas são ocasiões de excesso de álcool, drogas, sexo, gastos desnecessários… Se requer muita prudência e fortaleza para evitar que uma filha ou filho vá com os colegas passar as férias escolares em resorts, pois é sabido que nas madrugadas de muitos desses locais há o trânsito de jovens de um quarto a outro. Os pais têm medo de dizer “não” a esse tipo de divertimento, pois temem enfrentar a resistência dos filhos, mas depois se arrependem disso. Para descansar não é necessário assistir o triste espetáculo de filmes, novelas ou programas de TV que arrepiam e envilecem a alma ao explorar a intimidade ou misérias alheias. Nas baladas de hoje o som é alto e impede o diálogo, mas parece que isso não importa, pois já não há o que dizer por falta de leitura e da experiência pessoal da contemplação.

        Urge dar testemunho de sobriedade e espírito de desprendimento no modo de descansar. A virtude está em não se sentir pressionado a fazer viagens caras, em frequentar locais badalados e de alto custo… Quem não se deixa levar por modismos dá exemplo de temperança e sobriedade, virtudes que carece a sociedade atual.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base nos ensinamentos de Ricardo Yepes e Javier Aranguren, no livro “Fundamentos de Antropologia – Um ideal da excelência humana”, cap 8: “A felicidade e o sentido da vida”, editado pelo Instituto Raimundo Lúlio, São Paulo. Imagem de Kampus Production.

  • Quando o mundo nos fala

    Quando o mundo nos fala

    1 – Há muitas maneiras de olhar para uma mesma realidade. 2 – Pensar bem antes de clicar o play de uma imagem. 3 – O olhar egoísta torna a alma insensível. 4 – A temperança faz contemplar o mundo com um novo olhar

    1 – Há muitas maneiras de olhar para uma mesma realidade

        Há diversas maneiras de olhar para a mesma realidade: um fotógrafo ou pintor olhará para uma mesa repleta de alimentos de modo diferente do olhar ansioso do glutão. Em nosso dia a dia, olhamos para um outdoor da cidade de modo diferente daquele que contemplamos um nascer ou pôr de sol. As diferentes formas de olhar não ocorrem apenas pelas circunstâncias do momento, mas têm a ver com o modo de nos relacionarmos com o mundo.

        Olhar para a realidade de uma maneira nova é não se fixar em um aspecto ou na utilidade do que temos diante dos olhos. Chama-se olhar contemplativo aquele que não procura apropriar-se de modo egoísta daquilo que vê, mas que se mantém em prudente distância para descobrir o algo divino que ali se esconde.

        A virtude da temperança modera o desejo de açambarcar as realidades para usufruir delas de modo possessivo. A palavra latina temperare significa “misturar as coisas em sua dose certa”. A pessoa temperada não se deixa absorver pelo imediato, mas vai além, pois sua atitude aberta, atenta e silenciosa a predispõe para ir ao núcleo das coisas, e aprender do mundo que a rodeia.

    2 – Pensar bem antes de clicar o play de uma imagem

        Ser temperado no desejo de conhecer permite o olhar contemplativo que atinge o núcleo das realidades que permeiam o mundo. O olhar intemperado e de insaciável curiosidade que borboleteia de uma coisa para outra, tal como quem procura imagens nas redes sociais, se detém apenas no periférico do mundo, pois só deseja buscar o prazer da percepção sensível ou o gosto fugaz do consumo de novas informações: é a “concupiscência dos olhos”, de que fala João em seu Evangelho. Tomás de Aquino diferencia a curiosidade da estudiosidade, sendo que esta última encontra a dose justa (temperada) do desejo de conhecer, removendo os obstáculos que impedem chegar à raiz ou profundidade dos elementos contemplados, sem se importar com o esforço e fadiga que o processo de aprendizagem acarreta.

        Muitos cedem à curiosidade porque preferem ficar na periferia de sua existência ou das coisas que observa. É conhecida por todos a frase de Cristo de que o olho é a luz do corpo, o que permite dizer que o olhar contemplativo ilumina a mente e o coração, o que fez Ele observar que os lírios do campo se vestiam melhor do que o Rei Salomão! O olhar fugaz cega cada vez mais para ver com profundidade a si próprio. Navegar à toa pelas redes sociais e internet traz experiências insensatas que confundem a mente e o coração, impedindo a pessoa de habitar em si mesma. O mundo da distração impede o esforço de ir à interioridade pessoal, onde se encontra Aquele que pode saciar a sede de cada pessoa. Agostinho, Bispo de Hipona, no Século IV, expressou esta experiência assim: “Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas. Estavas comigo, mas eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem”.

        O olhar que penetra até o núcleo das realidades é sereno e detém-se sem pressa na contemplação das realidades, e antes de clicar o play de uma imagem, indaga-se se isso é verdadeiramente relevante. O sábio prescinde do que faz mal à alma, e do que impede o desenvolvimento do pensamento, e assim livra-se de muitas escravidões.

    3 – O olhar egoísta torna a alma insensível

        O olhar possessivo da pessoa intemperada filtra tudo pelo interesse imediato e egoísta, e só tem um ponto de mira, sendo que tudo o mais se torna opaco como a visão de um animal que procura apenas saciar seu apetite. Quem age assim vê o mundo pelo benefício imediato que pode receber dele.

        A intemperança é destruidora e torna a pessoa insensível para perceber as nuances dos acontecimentos e das pessoas que a cercam, o que torna suas decisões arriscadas pela falta de um autêntico conhecimento da realidade: o guloso, preso pelos prazeres do paladar, não percebe a criatividade e beleza de uma mesa artisticamente bem-posta; e ao não desfrutar do estético, pouco poderá ter uma conversa enriquecedora com alguém.

        O olhar interesseiro não percebe as necessidades dos demais, e influi negativamente nas relações com os outros, pois tende a considerar as pessoas do ponto de vista do benefício que podem trazer ou do favor que poderá obter. A cegueira do espírito que faz não perceber a singularidade e a riqueza da personalidade do outro, provém de uma consciência distorcida pela intemperança, que conduz o coração a buscar torcidos interesses: quem manipula o próximo não é capaz de amar verdadeiramente.

    4 – A temperança faz contemplar o mundo com um novo olhar

        A temperança faz contemplar o mundo com um novo olhar, que descobre maravilhas insuspeitadas. A moderação purifica o coração e cria uma relação serena que desenvolve a sincera atitude de não se deixar arrastar pela utilidade e benefício que as pessoas ou realidades podem oferecer. O primeiro efeito da temperança é trazer tranquilidade à alma, fruto de uma ordem interior. O olhar desprendido e limpo percebe os verdadeiros tesouros, faz crescer a sensibilidade para notar os detalhes preciosos e diversos que as realidades e as pessoas possuem, tal como o olhar não utilitário, mas contemplativo dos artistas e poetas.

        A temperança concentra as forças em projetos e ideais que valem à pena. Não olhar desnecessariamente para o celular, nem curiosear na internet durante o trabalho ou estudo, pode parecer coisa de pouco valor, mas trata-se de pequenas renúncias decisivas para concentrar as potências interiores naquilo que vale a pena: quem diz “não” àquilo que dispersa a mente, diz “sim” ao que realmente importa. Este esforço desenvolve a interioridade e contribui para fugir do superficial e perdas de tempo, e a “A vida recupera então os matizes que a intemperança descolore. Ficamos em condições de nos preocuparmos com os outros, de compartilhar com todos as coisas pessoais, de nos dedicarmos a tarefas grandes”, dizia Josemaria Escrivá (Amigos de Deus, n. 84).

        O olhar desprendido, sereno e transparente faz descobrir a beleza de tudo o que existe. A temperança faz desfrutar mais das realidades espirituais e das sensíveis ou materiais. Livrar-se da busca ansiosa do prazer e da autoafirmação, permite descobrir a beleza até nas coisas mais delicadas e discretas como a de uma pequenina flor que desabrocha entre as pregas do cimento de uma via, ou da simplicidade das pombas que sempre cedem passagens aos homens que seguem pela calçada. “Alguém disse, não sem razão, que somente o que tem um coração limpo é capaz de rir de verdade. Não é menos certo que somente pode perceber a beleza do mundo aquele que o contempla com um olhar limpo” (Pieper, As virtudes fundamentais, Cultor de Livros, São Paulo). A pessoa temperada aprofunda mais na verdade das coisas, pois o mundo lhe fala de Deus. Quem embarcar nesta aventura poderá repetir aquela exclamação de São Josemaria: “Meu Deus! Encontro graça e beleza em tudo o que vejo” (Forja n.415).

    Texto extraído, adaptado e completado por Ari Esteves com base no artigo “Y entonces, el mundo te habla”, de Maria Schoerghuber, em www.opusdei.org.es. Imagem de MIkhalL Nllov).

  • Inteligência ou depósito de futilidades

    Inteligência ou depósito de futilidades

    1 – Os olhos e os ouvidos são os porteiros da alma. 2 – Para ser mais profundo, selecionar os assuntos na internet. 3 – A mente preguiçosa foge dos livros. 4 – Nem tudo que gostamos deve ser feito. 5 – Saber distinguir o que é brilho falso

    1 – Os olhos e os ouvidos são os porteiros da alma

        Os sentidos externos (olhos, ouvidos…) são como que os porteiros da alma que permitem a entrada daquilo que nutre a inteligência, a vontade, a memória e a imaginação. Deixar os olhos e os ouvidos vagarem por qualquer lugar transforma a cabeça em depósito de futilidades, de quinquilharias.

        As horas e horas consumidas na internet e em redes sociais, sem critério algum e apenas para se distrair, fazem desperdiçar um tempo valioso que poderia ser utilizado para desenvolver as próprias qualidades ou talentos pessoais, a fim de melhor servir aos demais. As mil imagens que passam diante dos olhos, feito água sobre pedra, e a enxurrada de informações desencontradas, nada oferecem de substancioso e deixam um acúmulo de conhecimentos inúteis que servem apenas para tornar a mente preguiçosa e arredia a qualquer esforço para se aprofundar em assuntos que valem a pena.

    2 – Para ser mais profundo, selecionar os assuntos na internet

        Somos seres limitados, sem tempo para fazer tudo o que gostaríamos. Por isso, temos que selecionar aquilo que vale a pena, seja no campo profissional, cultural ou de entretenimento.

        Quem se aprofunda em um assunto que aprecia, ou para o qual se sente preparado, seja no campo artístico, literário ou cultural, saberá contemplar a beleza e a verdade com mais profundidade e poderá servir melhor aos demais com seus conhecimentos. Mas esse aprofundamento exigirá selecionar as buscas na internet, dando prioridade a palestras, vídeos e textos que abordem o assunto de preferência.

        O homem moderno se mexe muito, mas anda na superfície de si. Sabe da vida de artistas e esportistas, mas desconhece a si próprio. Tudo se resume em curiosidades. O excesso de imagens que consome diariamente dá a ele a ilusão de que conhece tudo, mas não sabe processar tantas informações desencontradas. Vazio de ideias próprias, seu conhecimento é periférico e só tem a espessura das telas, e se apaga com ela com um clique: sua opinião é a das mídias, pois vive do consumismo de informações e imagens.

        Ao temer refletir sobre si, o homem moderno foge do silêncio, pois este facilita o encontro consigo, e por isso almoça vendo telas, no carro liga o som em volume alto, nos transpores coletivos desperdiça um tempo para leituras com músicas no celular, ao chegar em casa se lança afoito ao controle da TV para ouvir vários noticiários. Nos fins de semana não aproveita o tempo para ler as boas obras literárias e fazer visitas culturais aos diferentes museus da cidade, pois prefere as baladas, festas, toneladas de vídeos e games para não estar em silêncio consigo. O barulho em torno de sua vida é ensurdecedor e impede a reflexão e a fala, mas isso não importa porque tem pouco a dizer. Sente tédio do domingo à tarde porque é obrigado a frear sua correria e encontrar-se consigo.

    3 – A mente preguiçosa foge dos livros

        A dispersão em mil imagens, torna fraca a capacidade de manter a atenção em algo que exija esforço, pois a mente se tornou preguiçosa e passiva, e assim, não enfrenta também as boas obras literárias. Quem gasta seis ou sete horas na semana em redes sociais, caso empregasse esse tempo para ler um bom livro, como “A morte de Ivan Ilyich”, de Tolstói, ou o “Pequeno Príncipe”, de Saint Exupéry, jamais esqueceria essas leituras, que são curtas. Porém, as horas gastas atrás de curiosidades na internet não serão recordadas no dia seguinte.

        Os grandes mestres da literatura penetram com profundidade na alma humana, e seus personagens fornecem janelas que permitem a compreensão de si e dos demais. Um verdadeiro leitor não gasta seu tempo limitado rolando telas de celulares e tabletes a procura de frivolidades, nem “lendo mil livros medíocres que embotam seu senso crítico e ferem sua sensibilidade literária” (Nicolás Gómez Dávila).

        Quem ouve uma aula ou palestra, lê um livro ou executa alguma tarefa, deve ter presente o sábio conselho “faz o que deves e está no que fazes“. Quando há luta pessoal para não dar rédeas soltas a caprichos e curiosidades, a fim de colocar os olhos, ouvidos, memória e imaginação naquilo que realiza (Tereza de Jesus dizia que a imaginação é a louca da casa), ganha rapidez de compreensão, fortalece a vontade e cresce na virtude da temperança, que sendo espírito senhoril, coloca freios na afetividade quando esta tenta desviar-se do cumprimento dos deveres.

    4 – Nem tudo que gostamos deve ser feito

        As sensações e caprichos que o corpo reclama não devem ficar à rédea solta, pois nem tudo que gostamos deve ser feito. É mais cômodo deixar-se arrastar pelos impulsos chamados primários ou naturais (comer, beber, descansar), do que enfrentar as responsabilidades. Mas ao ceder, vem a tristeza de não haver cumprido com o dever, e isso enfraquece a vontade, torna frívolo e superficial o caráter e alimenta os vícios da preguiça e comodidade, difíceis de arrancar quando se incrustam na alma.

        A temperança, tal como o sal, dá sabor à vida porque torna a pessoa dona de si, ao lhe dar força de vontade para não gastar as horas com imagens e curiosidades vãs. A temperança não supõe limitação à liberdade, mas grandeza de alma, porque privação e escravidão se encontram na intemperança de se deixar arrastar pelo falso brilho e chacoalhar de latas que embotam a alma dos que navegam sem rumo pelas redes sociais e internet.

    5 – Saber distinguir o que é brilho falso

        Muitas coisas nas redes sociais e internet brilham como lantejoulas baratas. Para encontrar o ouro é preciso peneirar o cascalho ou arrancar a ganga. Quem não faz seleção do que vê, torna sua mente uma loja de briquebraque, de quinquilharias. Quem seleciona o que vale a pena, mesmo que custe esforço e desagrade no momento, percebe que o sacrifício foi apenas aparente, e que ao exigir-se ficou livre daqueles mil fiozinhos que prendem ou atam o coração e tornam a vida estéril. Daí a importância de buscar o que vale a pena, a fim de preparar-se melhor profissionalmente e participar com criatividade e preparo do debate cultural.

        O ser humano se interessa por conhecer aquilo que ama, seja uma pessoa, uma profissão, um esporte, um hobby, um campo de conhecimento cultural ou artístico (literatura, pintura, teatro, escultura, música). Diz Fernando Sarráis, em seu livro “Maturidade psicológica”, que quando se ama algo bom, busca-se conhecer aquilo que é amado, e o amor aumenta mais o desejo desse conhecimento.

        Podemos concluir das palavras acima que, se uma pessoa não sabe o que buscar na internet e redes sociais, com o fim de se aprofundar em algo para melhor utilizar seus dons e servir aos demais, não ama senão à própria preguiça ou comodidade, sendo esta a razão pela qual não se interessa por conhecer algo com maior fundura.

    Texto de Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/.
    Imagem de Aguida Medeiros (@aguidamedeiro).