Categoria: EDUCAÇÃO

  • Educação comportamental dos adolescentes

    Educação comportamental dos adolescentes

    1 – Transmita carinho a seus filhos. 2 – Ensine-o a expressar seus sentimentos. 3 – Ajude seu filho a se abrir. 4 – Ensine seu filho a ser bem-humorado. 5 – Reforce a solidariedade. 6 – Estimule a criatividade de seus filhos. 7 – A importância da disciplina familiar.

    1 – Transmita carinho a seus filhos

            Desenvolver um bom relacionamento com seu filho adolescente é fundamental para a educação comportamental dele. Não basta querer aos filhos, mas é preciso que eles sintam isso! Abrace-o, beije-o à vontade. As crianças que desde pequenas recebem muito carinho de seus pais ganham segurança, desenvolvem uma mentalidade sã e enfrentam melhor as situações mais exigentes. Crianças que receberam poucas manifestações de carinho desenvolvem ansiedade e se sentem mais facilmente deslocadas em outros ambientes. Mas tenha presente que educar com carinho inclui saber exigir. Portanto, carinho e firmeza com os filhos é o caminho para uma educação assertiva.

    2 – Ensine-o a expressar seus sentimentos

        Os seres humanos se emocionam e necessitam transmitir suas emoções. Sentir tristeza ou alegria é algo que não deve ser dissimulado, pelo menos no ambiente familiar. Transmita a seus filhos suas emoções e facilite que eles façam o mesmo. A manifestação dos sentimentos deve ser proporcional àquilo que o desencadeou: nem muita vibração por algo pequeno ou irrelevante, nem frieza diante de algo relevante. Saber expressar os sentimentos é uma arte.

        Os adolescentes necessitam aprender a analisar o que sentem em determinados momentos, e como conduzir-se diante de sua própria afetividade. Os sentimentos não devem ser reitores das ações (esse papel cabe à inteligência e vontade), mas podem ajudar muito na consecução delas: quem faz algo com entusiasmo, faz melhor! Porém, não se deve fazer as coisas apenas quando se sente gosto ou prazer. É importante que os filhos vençam os sentimentos negativos diante do cumprimento de um dever (estudar, ajudar nos encargos do lar, dedicar mais tempo à leitura do que redes sociais, ensinar matemática ao irmão mais novo, manter ordenados os objetos pessoais, etc.). Ao agir assim adquirem um caráter reto e forte, tornam-se responsáveis e fortalecem a vontade para enfrentar atitudes de preguiça e comodismo reclamadas por tais sentimentos.

        Ao avaliar as causas ou origens dos sentimentos, os adolescentes passam a ter um conhecimento mais profundo da própria maneira de ser e dos hábitos adquiridos (bons ou maus). Essa reflexão, própria da consciência moral ou juízo prático, os levará a colocar os meios necessários para corrigir o que percebem ser um desvio de conduta. Assim, passarão a amar e querer o que é correto, e não o que é mais cômodo.

    3 – Ajude seu filho a se abrir

        Não espere que seus filhos se dirijam a você para contar tudo o que os preocupa ou acontece, pois é provável que não farão isso. A experiência de vida e o conhecimento acerca de cada filho permitirá que você conclua o resto ao fixar-se no modo como se expressam. Faça perguntas descontraídas, conte algo para eles, faça-os falar dos seus gostos. Se perceber que há “jacutinga nesse mato”, você poderá atuar a tempo, sem esperar que algum problema ganhe transcendência.

        Acostumar um filho a ter tudo de imediato e sem esforço é condená-lo a uma vida falsa e ao enfraquecimento do caráter e da vontade. Quando, um dia, ele perceber que sem sacrifício não se alcança ideais valiosos, e porque se sentirá fraco para enfrentar os desafios da vida, irá culpá-los por nunca terem recebido um “não” de vocês, pais.

        Os filhos necessitam sacrificar-se para ter as coisas; não devem ter tudo o que querem ou tudo que gostam, ainda que você possa comprar. E dependendo da idade deles (15, 16, 17 anos) devem ter a preocupação de ajudar economicamente nas despesas da casa, seja dando aulas particulares, fazendo “bicos” nas férias ou fins de semana…

    4 – Ensine seu filho a ser bem-humorado

        A melhor maneira de superar os estados de apatia é movendo-se, e o melhor modo de superar o mau-humor é o sorrir. Sorrir, ainda que não se tenha vontade, não é hipocrisia, mas esforço para tornar agradável a vida dos demais, e isso é uma grande virtude. O sorriso faz bem a todos: a quem ri e aos que estão ao seu redor. Quem aprende a rir de si mesmo, aprende a tirar importância dos problemas e a não ser tão afetado por eles. O sentido de humor é importante na família: o riso e o humor familiar reforçam as relações, aumentam a confiança e a comunicação entre todos (pais que vivem reclamando azedam o caráter dos filhos).

        Reforce o otimismo de seus filhos não à custa de especular sobre possibilidade de motivações extrínsecas (ter objetos), mas ao fomentar motivações transcendentes: colocar suas qualidades − que recebeu gratuitamente de Deus − ao serviço dos demais.

    5 – Reforce a solidariedade

        Mostre sua satisfação ao observar que seu filho teve uma atitude compreensiva em relação a outra pessoa; e manifeste sua desaprovação se ele foi insensível, indelicado. A solidariedade é a capacidade de compreender o sofrimento dos demais, e agir para minimizar essas dores. Para que os filhos abandonem hábitos egoístas (meu tempo, meus jogos, minhas coisas), devem aprender a doar ao visitar crianças em orfanatos ou comunidades pobres, e levar brinquedos que já não utilizam, mas que estejam em boas condições; podem levar, junto com outros amigos, uns doces aos anciãos de um asilo, e lá cantar ou tocar violão… A generosidade é virtude que torna feliz as pessoas, e o egoísmo é causa de tristezas. Filhos solidários aprendem a não reclamar diante das pequenas carências ou incomodidades.

    6 – Estimule a criatividade de seus filhos

        A criatividade atua como uma válvula de escape ao permitir que a pessoa coloque à prova suas capacidades. A criatividade nos faz estrear a resolução de problemas novos, permite a adaptação às mudanças e a reagir com mais sucesso diante dos problemas. Convide seus filhos a criar e elogie suas criações. Saiba que a criatividade deve estar dentro deles, e não em atitude de passividade diante de telas digitais. A criatividade deve ser estimulada desde a infância: a criança deve crie seus próprios brinquedos e jogos com embalagens simples e outros objetos caseiros: isso é mais útil do que ganhar carros ou bonecos que fazem tudo ao apertar um botão.

    7 – A importância da disciplina familiar

        O lar deve ser disciplinado, com horário certo para cada refeição, dormir e acordar. Com isso, aproveita-se melhor o tempo e se pode organizar para ler livros de literatura, estudar, ouvir música e enriquecer-se culturalmente antes de dormir. As refeições devem ser na mesa e com a televisão desligada, e não no sofá ou sala de estar. Ao menos em uma das refeições – almoço ou jantar – é importante que todos estejam presentes, e nesses trinta minutos de grata convivência, a conversa girará em torno dos pequenos fatos do dia a dia, favorecendo o diálogo familiar e o amor mútuo.

        Procure que em sua casa haja um local onde se possa estar tranquilo. Muitos vivem em cidades ruidosas, e a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou que 20% dos problemas psiquiátricos ocorrem pelo excesso de barulho, que provoca insônia, irritabilidade, depressão, ansiedade, estresse, esgotamento, dores de cabeça.

        Não permita que sua casa se converta em uma prolongação da rua, nem que os aparelhos sonoros ocupem o protagonismo no lar, porque, além de afetar a saúde, impedem que haja maior trato mútuo entre pais e filhos, torna preguiçosa a mente de todos (ficar diante de telas não passa de uma atividade sensorial que discorre apenas no plano da visão, tal como água sobre a pedra); porém, a leitura de um bom livro instiga a imaginação e força o raciocínio ao transformar o que se leu em imagem mental, em conhecimento que não será esquecido. Leia o boletim Menos telas digitais e mais livros

    Sugerimos a leitura dos seguintes boletins: Como falar com seu filho adolescente e Ensinar o adolescente a trabalhar bem

    Texto elaborado por Ari Esteves, inspirado no artigo “Educar Adolescentes”, da Revista  Hacer Familia, no  63, de Ediciones Palabra, Madrid, Espanha. Desenho de Aguida Medeiros (@aguidamedeiro)

  • Investir em virtudes

    Investir em virtudes

    1 – O bem como aspiração da vontade e dos sentimentos. 2 – As tendências instintivas devem ser avaliadas pela inteligência. 3 – As virtudes regulam as tendências naturais. 4 – Ganha-se uma virtude repetindo pequenos atos. 5 – A influência das paixões sobre a inteligência e vontade. 6 – Luta esportiva para conseguir uma virtude

    1 – O bem como aspiração da vontade e dos sentimentos

        A pessoa virtuosa pensa e age bem: sua inteligência procura conhecer a verdade, e sua vontade quer essa verdade como um bem. O bem é objeto de aspiração não apenas da vontade, mas também dos sentimentos e paixões, que possuem tendências que se dirigem àquilo que sentem como um bem. Se a vontade tende ao bem conhecido pela razão (bem racional), e cada paixão ou instinto tende ao bem que o atrai (comida, descanso, música, leitura, etc), é bom ter presente que cada tendência instintiva pode não ser boa para a pessoa como um todo, e por isso os bens instintivos devem ser analisados pela inteligência. A inteligência tem várias concepções de bem, e cada instinto apenas uma.

    2 – As tendências instintivas devem ser avaliadas pela inteligência

        O bem das paixões ou afetividade não é racional, mas uma tendência que antes mesmo da pessoa pensar ou analisar se convém ou não tal afeto, já se sente inclinado a ele. Por exemplo, as tendências de descansar, comer ou beber podem desviar a pessoa de fazer algo que seria necessário realizar antes mesmo de aceitar a sugestão desses sentimentos.

       Portanto, os sentimentos ocorrem antes mesmo de serem analisemos. Por isso, imediatamente após um sentimento ou tendência, é necessário avaliar com a inteligência para saber se o bem instintivo proposto é conveniente ou não, porque podem afastar de compromissos mais importantes.

       A tendência instintiva de gostar de doces deve ser analisada pela inteligência ou juízo prático. Por quê? Porque a inteligência tem diversas concepções de bens, e cada paixão tem apenas uma concepção do que é melhor: para a tendência de comer só interessa esse bem; porém, a razão que analisa integralmente as necessidades da pessoa, examinará outros bens e concluirá que a saúde é um bem maior do que o gosto por doces, e assinalará ao diabético que não coma doces.

    3 – As virtudes regulam as tendências naturais

        As virtudes são assumidas como critérios racionais de regulação das tendências naturais, já que estas não devem ser satisfeitas de qualquer modo, pois poderiam deixar de ser um bem verdadeiro: comer é uma boa tendência, mas será necessário saber o que comer e quando comer, e quem possui a virtude da temperança conseguirá regular tal tendência.

        A boa eleição tem três atos: pensar bem, decidir e agir, porque é um hábito que depende de uma escolha ou eleição feita pela vontade, que deve seguir os juízos da inteligência prática (consciência), e não apenas ao que agrada aos sentidos. As virtudes ajudam a pessoa a pensar e fazer a boa escolha, e quando se ganha o hábito virtuoso, essa eleição é imediata, pois a pessoa quer e percebe imediatamente o que é bom, quase sem necessitar passar por todo processo de pensar, escolher e agir. A virtude não é um automatismo, mas uma decisão ou escolha.

    4 – Ganha-se uma virtude repetindo pequenos atos

        A boa eleição é um ato da vontade ajudada pela virtude. Toda eleição é motivada por uma intenção e eleição dos meios para alcançar o bem escolhido: quem tem a intenção de não engordar deve eleger os meios: não comer o terceiro pastel, não repetir o prato, não comer fora de hora… Não basta saber a teoria sobre determinada virtude, mas é preciso realizar pequenas e constantes ações em direção a ela. Um ato isolado como o de acordar no horário, mesmo que seja bom, não torna a pessoal pontual e laboriosa; o que a faz ganhar a virtude é acordar todos os dias no horário.

       Para se ganhar o hábito virtuoso de ser pontual, responsável, torna-se necessário acordar todos os dias no horário pré-estabelecido, e essa repetição de acordar no horário, sem conceder nenhum minuto a mais à preguiça, chama-se “minuto heroico”, e faz a pessoa ganhar também a virtude da fortaleza para vencer a preguiça.

       Cada pessoa necessita exercitar-se habitualmente nas virtudes que carece, com os atos correspondentes: atos de sinceridade, de paciência, de fortaleza, de bom humor… Obras é que são amores, e não apenas a boa vontade que não se concretiza em ações.

    5 – A influência das paixões sobre a inteligência e vontade

        Se faltam virtudes, a razão ou inteligência pode se deixar influenciar por sentimentos e paixões e não os avaliar bem, e a vontade, enfraquecida por uma inteligência que pensou de forma errada, não terá forças para corrigir tais desvios. Quando se está fortemente influenciado por algum gosto ou prazer sensível, a inteligência vê-se abafada, anulada, e a vontade se torna fraca para superar tal tendência. Daí vem a importância de adquirir virtudes, que fortalecem o hábito de pensar (inteligência) e de querer atuar bem por meio da vontade.

        Quando se diz que a virtude é um termo médio entre dois extremos, quer significar que ela não está nem na ausência, nem no excesso. Por exemplo, a fortaleza encontra-se no ponto médio entre a covardia (ausência de fortaleza) e o excesso (temeridade), que também é um defeito da fortaleza: atravessar uma pista de velocidade e com intenso tráfico de veículos não é fortaleza, mas temeridade, imprudência, desprezo por um bem maior que é a vida: se não há prudência não há virtude.

        Todas as virtudes estão conectadas. As quatro principais virtudes são: prudência, justiça, fortaleza e temperança, e em torno de cada uma delas giram todas as demais virtudes: sensatez, bom conselho, entre outras, são virtudes anexas à prudência; piedade, gratidão, veracidade, obediência e amizade são anexas da justiça; sobriedade, castidade, modéstia, humildade, entre outras, são anexas da temperança; paciência, magnanimidade, longanimidade, entre outras, são anexas da fortaleza. Sem a virtude da fortaleza, por exemplo, é difícil ser justo: Pilatos queria ser justo e não condenar Jesus Cristo, pois não via nele culpa alguma, mas por não ser forte e temer o povo, foi injusto ao entregar Cristo para ser flagelado e morto.

    6 – Luta esportiva para conseguir uma virtude

        Se cada um lutar para conseguir a virtude oposta ao vício ou defeito que o domina − e animar a outros a fazer o mesmo, seja um filho ou amigo −, se tornará uma pessoa melhor e melhorará também seu ambiente familiar, profissional e social.

        A luta por conquistar uma virtude não é triste, mas alegre, tal como a do esportista que procura a cada dia melhorar um pouco mais seus índices. O esportista nunca pensa em abandonar a luta, jogar a toalha: um dia perde e no outro vence, e assim vai melhorando.

       Mas é bom ter presente para si − e dizer a cada um −, que não se alcança uma virtude em duas semanas, mas em três meses, e à base de repetir pacientemente pequenos atos contrários ao defeito que pretende erradicar. Assim, se alguém falhar na luta um dia ou outro, não desanimará, pois terá presente que a conquista de uma virtude levará algum tempo. E assim, com paciência, se conquista a alma.

    Texto produzido por Ari Esteves para o Boletim Pedagogia do Comportamento (staging.ariesteves.com.br/). Imagem de Pixabay.

  • Ensinar a pensar

    Ensinar a pensar

    1. Descobrir a verdade. 2. Ensinar o adolescente a pensar. 3. Estimular as crianças a pensar. 4. Explicar as razões para agir bem. 5. Os livros oferecem muito mais. 6. Aprender a tomar decisões. Aproveitar melhor o tempo

        A compreensão da realidade, ensina Aldrete Ramos, nunca como atualmente esteve tão repleta de relativismos. A conduta humana se desvinculou de seu fim último e o impulso dos atos humanos é hoje, para a grande maioria, a busca de prazer e de bens utilitários. Os sentidos humanos, saturados pelo bombardeamento de imagens, faz a pessoa se distrair e afastar-se de seu núcleo vital ou de si própria. Com isso, naufraga no vazio existencial e na busca do supérfluo ao não procurar repostas às interrogações humanas que dão sentido à própria existência: quem sou, para onde devo apontar, a que perfeição humana e espiritual devo aspirar? Tais questionamentos, que passam a ocorrer a partir dos quinze anos, necessitam do silêncio interior e do hábito de pensar, que deve ser estimulado desde criança.

    1 – Descobrir a verdade

        A formação de um hábito intelectual não pode ser alcançada nem muito cedo, nem muito tarde, nem de maneira inconsistente (sem sequência em seu grau de dificuldade). O cérebro, conforme vai amadurecendo, precisa de estimulação para organizar-se gradualmente. Se não for estimulado desde cedo, a recuperação dessa função, que não se desenvolveu suficientemente nos momentos oportunos, exigirá depois uma atividade terapêutica. Por isso, o ótimo desenvolvimento de uma faculdade deve estar sempre contemplado dentro do projeto de desenvolvimento integral da pessoa.

        Aldrete Ramos afirma que a descoberta da verdade sobre o próprio ser de cada pessoa e a busca da felicidade não é uma questão de sorte, saúde ou riqueza. Conhecer a verdade sobre as questões que nos envolvem e sobre o que ocorre em nosso meio é necessário para pensar e agir bem; é encontrar o caminho que conduz à plenitude humana, e isto não é fruto nem da erudição nem da ciência, mas do hábito de querer o bem e fugir do mal, e isso exige o pensar. A razão e a vontade nos distinguem dos animais, mas entre ser racional, que é característica humana, e saber raciocinar é coisa distinta e que deve ser desenvolvida.

        Ajudar a descobrir a verdade para viver em harmonia com ela, é ajudar a adquirir o hábito de uma autêntica atitude contemplativa, que ao mesmo tempo desenvolve no homem uma sábia compreensão da realidade, e o dirige a questionar-se sobre as questões mais transcendentes.

        A genuína alegria só se extrai da Fonte perene onde tem sua origem a contemplação da verdade que se esconde nos mistérios do divino e do humano; verdade elevada pouco a pouco e saboreada no profundo gozo espiritual da razão, quando esta se desprende dos apetites sensíveis que se desvinculam da racionalidade. O prazer que a verdade oferece à inteligência humana é capaz de elevar a sensibilidade a um deleite ou agrado maior que o desfrute pontual desvinculado da razão e da verdade acerca da natureza humana.

    2 – Ensinar o adolescente a pensar

        Pais e professores precisam criar em torno dos adolescentes um ambiente de coerência, onde o estudo e o aprofundamento permanentemente das questões vitais devem estar presentes. Evadir-se disso é fugir de dar respostas e deixar os jovens ao acaso das diferentes ideologias, privando-os do direito à verdade:

    1. Ajudar o adolescente a formar critérios por meio de uma doutrina sadia que permita viver de acordo a autêntica dignidade humana, e que dê unidade ao conjunto de verdades de diferentes níveis: técnicos, científico, artístico, moral, social e religioso;
    2. Fomentar a capacidade de julgar os problemas políticos, econômicos e sociais desde uma perspectiva moral que permita distinguir erros e verdades, para livrar-se de manipulações ideológicas;
    3. Ensinar a analisar com profundidade e a argumentar com razões morais, religiosas ou naturais, sobre questões vitais às quais se baseiam a felicidade natural e definitiva do ser humano;
    4. Ter unidade de vida de modo a que não ocorra um divórcio entre princípios e vida prática, diária. Trata-se de aplicar critérios verdadeiros às situações reais e vivê-los, a fim de fugir da duplicidade de caráter que leva a pensar de um modo e agir de outro;
    5. Transformar os desejos em ações que influam positivamente no próprio ambiente, com o fim de melhorá-lo: quem possui uma verdade para o bem de todos, deve comunicá-la.

    3 – Estimular as crianças a pensar

        Como ocorre em todo aprendizado, quanto antes for adquirido o hábito de reflexão, mais firme e permanente será a disposição para decidir e agir bem. Por isso, convém incentivar a criança desde muito pequena a refletir, ao perguntar a ela com frequência: − “Interessante! Por que fez dessa forma?”, para que reflita sobre o motivo que a levou a agir bem e o fixe de modo permanente. E quando se comporta mal, ao se deixar conduzir pelas tendências instintivas ou afetos, é bom animá-la a que da próxima vez, antes de fazer algo, pense na maneira mais correta de agir e tente levá-la à prática.

        Estimular a criança a utilizar mais a inteligência começa por incentivá-la a aprender a descansar criativamente com leituras, quebra-cabeças, xadrez, dama, lego, vídeos culturais previamente programados. Viciar as crianças a descansarem diante de telas digitais é o caminho mais rápido para tornar preguiçosa a mente delas.

    4 – Explicar as razões para agir bem

        Para despertar o processo reflexivo em crianças, convém explicar as razões pelas quais devem agir bem. Essas razões devem ser de curto prazo, pois as crianças vivem o presente e o futuro imediato com intensidade. As razões de longo prazo também devem ser explicadas a elas, a fim de que as aprendam para um futuro remoto (por exemplo, não fumar quando crescer, não ver pornografia, saber escolher as amizades…), e assim se sentirão felizes e seguras no presente ao saber como contornar um problema que terão que enfrentar; e poderão informar àqueles que convivem com elas, para não se iniciarem naquilo que elas compreenderam ser um mal.

    5 – Os livros oferecem muito mais

        O tempo dedicado à leitura de um bom livro fixa-se na inteligência e educa a sensibilidade, mais do que as longas horas vendo discorrer diante dos olhos sucessivas imagens, tal como água sobre pedra, que nada deixa. Jogos eletrônicos, horas e horas de desenhos, fotos e vídeos em redes sociais fazem parte da cultura da imagem, que se dirige apenas ao desenvolvimento de sensações e impressões superficiais e passageiras, e que logo serão esquecidas, diminuindo a capacidade reflexiva.

        A experiência que habitualmente realizo em sala de aula é a de ler uma poesia (por exemplo, O diálogo das rosas, de José Gilberto Gaspar), ou o trecho de um livro (por exemplo, o diálogo entre o príncipe e a raposa, no livro O pequeno Príncipe, de Saint Exupéry). Após uma ou duas semanas pergunto aos alunos se têm lembranças dessas leituras. A resposta é unânime: todos se recordam e são capazes de repeti-las. Então, pergunto se eles se lembram das imagens que no dia anterior viram no celular. A resposta também é unânime: não se recordam de nada. Então explico que aquelas leituras fixaram-se porque penetraram na inteligência deles, e servirão de experiências vitais; já as imagens digitais apenas deslizaram diante do olhos deles, sem tempo para racionalizá-las ou interpretá-las, e nada acrescentaram.

        A leitura de bons livros leva a raciocinar e a criar as próprias experiências com base nos relatos, a formar imagens ao remover a imaginação e a memória, a construir ideias sobre a vida e as pessoas, o que leva ao autoconhecimento, além de transmitir critérios que orientam a conduta para o bem.

    6 – Aprender a tomar decisões

        A família é a escola de virtudes, e onde as crianças aprendem as primeiras noções acerca do bem e do mal, e os valores sobre os quais podem alicerçar uma vida reta e sã. A meta é que cada filho aprenda a tomar decisões de forma adequada à sua idade e saiba administrar a sua liberdade, porque está movido por hábitos que lhe facilitam o autodomínio, a temperança no comer e beber e a ter horários para brincar, estudar e ajudar nas tarefas da casa. Também deve dominar a curiosidade e não entrar em sites que destroem a vida moral e criam vícios difíceis de arrancar.

    7 – Aproveitar melhor o tempo

        Explicar às crianças sobre a importância de valorizar e utilizar melhor o tempo, não gastando-o em redes sociais, videogames, jogos online, que nada acrescentam. Os filhos necessitam de conselhos para desprenderem-se do ambiente digital, que pouco oferecem à inteligência, quando mal utilizados.

        Os mesmos conselhos que orientam o comportamento dos filhos em espaços como o da família, rua, escola, festas, etc. (boas maneiras, recato ou pudor, respeito a si e ao próximo, controlar a curiosidade, evitar a ociosidade, etc.), devem ser utilizados nos espaços digitais.

        Evidentemente desenvolver a inteligência dos filhos é um objetivo fundamental. Porém, não aguardar que eles cheguem aos quinze anos para ensiná-los a pensar. O que se pretende é coroar um empenho que foi se desenvolvendo desde que ele nasceu. O pensamento como atividade contemplativa e reflexiva é a culminação do processo educativo.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base nas obras “Para Educar Mejor”, de Maria Teresa Aldetre de Ramos, Colección Hacer Familia, Editorial Palabra, Espanha; e “Maturidade psicológica e felicidade”, de Fernando Sarráis, Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009.

  • Ensinar a servir

    Ensinar a servir

    1 – Adolescentes precisam de argumentos convincentes. 2 – A idade dos ideais. 3 – Posturas ante a vida. 4 – Motivações dos adolescentes. 5 – Colaborar nas necessidades sociais. 6 – Revelar ao adolescente o sentido do amor humano.

    1 – Adolescentes precisam de argumentos convincentes

         Os pais por vezes estão imersos em grandes correrias familiares, profissionais e sociais e não percebem o quanto o ambiente age de modo negativo sobre os filhos. Ao não lerem, nem estudarem os assuntos atuais e polêmicos, não podem oferecer argumentos convincentes aos filhos. Muitos pais desconhecem o modo atual de dizer as coisas e o tom de voz a ser utilizado, já que não se pode falar de qualquer maneira com um adolescente: uma ordem dada de modo atravessado soa-lhes como provocação; uma resposta fraca e incompleta oferecida a eles, os fará buscar as razões com os amigos, por vezes bastante mal informados. É a idade! Também não se pode impor uma proibição sem oferecer com ela argumentos convincentes. Quando os motivos oferecidos a eles satisfazem a inteligência, já não é preciso temer que o ambiente os afete de modo danoso, porque saberão se impor, inclusive ajudarão os amigos e colegas aos esclarecer-lhes as verdadeiras razões do comportamento humano.

    2 – A idade dos ideais

         O adolescente com sua imaginação faz vasta sondagem sobre o futuro, examina e experimenta mil possibilidades; esquadrinha desejos, debate com os amigos e calibra a autenticidade dos valores que lhe inculcaram os adultos. Este novo período predispõe o adolescente para captar as razões das regras morais, os fundamentos dos valores que os animaram a assumir, incluído o religioso que antes era sustentado pelo emotivo, mas que agora necessita se fundamentar em razões mais profundas.

         A mediocridade é desprezada pelo adolescente, inclusive tem desapreço por si mesmo quando se vê medíocre. Por amar a coerência, manifesta rechaço por meio da gozação àqueles adultos com duas caras ou despersonalizados. Sua preocupação pelo futuro − rumos da pátria, destino do mundo, combate às injustiças, defesa dos mais fracos, desejos de realizar algo grandioso − pode desaparecer se vive imerso em ambiente egoísta e fechado em si mesmo, e tenderá a se refugiar no mundo aburguesado dos adultos que o cercam. Sonha em ser defensor ou libertador, mas se encontra em seu entorno um ambiente frívolo, facilmente abandonará as armas para viver na mediocridade, em mimetismo com um ambiente sem ideal. Se ele não encontra um meio de colaborar para o bem comum, a justiça e a paz, tudo ficará em meras utopias. Só o poder iluminador dos valores vividos em plenitude pela sua família e por ele tornará capaz de mover o adolescente a uma vida de generoso serviço aos demais.

    3 – Posturas ante a vida

         No período mais intelectual que é o da adolescência, o objetivo educativo que se propõe deve apoiar a predisposição natural do jovem por conhecer a essência e o fim de cada ser: sentido da vida humana, família, trabalho, liberdade, profissão… Nesse período o adolescente se vê na necessidade de ter uma postura ante a vida, de adotar sua própria escala de valores ou de aceitar a que propuseram seus pais em períodos anteriores.

         Aos seis anos inicia-se o desenvolvimento do pensamento lógico, a associação de ideias, e as razões que gradualmente vão se tornando mais abstratas até se transformar em pensamento analítico, com enfoque no mais imediato. Com isso, a educação da inteligência avança e se adapta à verdade.

         No período intelectual (15 a 18 anos), o adolescente necessita desenvolver o que se chama pensamento ontológico, que é aquele que investiga a natureza da realidade e da existência. O ontológico, do ponto de vista filosófico, aborda questões relacionadas ao ser. Não é casual que há séculos os jovens nestas idades se propõem sempre as mesmas questões; como não é casual que os primeiros princípios da filosofia devem ser ensinados na época do ensino médio.

    4 – Motivações dos adolescentes

         Com frequência o adolescente cai na tentação de ficar na eficácia externa, e se esquece da alegria que representa trabalhar por convicção, por valores transcendentes (que ultrapassam a si mesmo). Níveis de motivações que podem mover um adolescente:

    1. Motivação extrínseca (exterior): comer, vestir-se, ter muitas coisas materiais, se divertir. Este nível de motivação é primário, egoísta, transitório, e não suficiente para alcançar a verdadeira felicidade, que está no amor (o egoísmo encerra a pessoa na infelicidade, na inveja);

    2. Motivação intrínseca (interior): inclui o desejo de saber mais para apossar-se do mundo da cultura, da ciência ou da arte. Esta motivação é mais perfeita e duradora que a anterior, mas pode levar facilmente ao orgulho, ao envaidecimento diante das qualidades pessoais ao mostrar a sua própria valia e obter reconhecimento, sem perceber que suas habilidades foram dadas gratuitamente por Deus;

    3. Motivação transcendente: ultrapassa a própria pessoa, que quer doar-se aos demais. Esta motivação aperfeiçoa e fortalece a vontade porque a faz vivenciar o verdadeiro amor, que é doar-se àquilo onde vale a pena gastar a vida. Nesta motivação estão os sonhos dos jovens que querem mudar o mundo para melhor. Os motivos transcendentes plenificam com a verdadeira alegria. A felicidade que proporciona o ato virtuoso não se pode comparar jamais com a satisfação puramente sensível do “ter”, e nem sequer pelo prazer que proporciona o “saber fazer” ou o desfrutar do saber. Somente quem trabalha por convicções assentadas no amor, que é o mais alto valor, poderá realizar-se a si mesmo e conquistar a verdadeira felicidade ao dar um fim útil à própria liberdade.

         Uma menina de treze anos que tinha como encargo limpar a cozinha às tardes, comentava desanimada com sua preceptora que detestava fazer isso, e que preferia limpar a casa inteira a ter que limpar a cozinha. Porém, a mãe não cedia e a menina não entendia isso. A preceptora animou a menina a buscar motivos que a ajudassem a decidir-se pela cozinha, ao tentar fazer sua mãe contente, mas sem querer que a mãe cedesse ou trocasse seu encargo. Pediu que a menina refletisse que, além de deixar a mãe feliz, tivesse a certeza de que estaria se preparando para fazer coisas mais difíceis que certamente a vida lhe reservaria, e que oferecesse esse sacrifício por tantas pessoas que sofrem provas difíceis, doenças incuráveis… Tais argumentos foram decisivos e a menina percebeu que estava sendo egoísta e que faltava a ela a virtude da fortaleza para enfrentar situações que não a agradavam.

         Sempre será um motivo persuasivo o imperativo de fortalecer o próprio caráter, de crescer na humildade, de oferecer a Deus sacrifícios por amor aos demais, de participar no bem comum da família e da sociedade em que se vive… São motivos transcendentes que proporcionam grande alegria e ajudam a crescer em liberdade e maturidade.

    5 – Colaborar nas necessidades sociais

          Na vida de infância e na pré-adolescência prevalece fortemente o vivencial e o emotivo. Já os adolescentes para reafirmar sua autonomia e estrear a intimidade recém-descoberta, necessitam de esclarecimentos lógicos, breves, concretos e convincentes, ou seja: sem longos discursos, que detestam. Mover o adolescente para uma vida de serviço generoso será um desafio se na infância e na pré-adolescência isso não se concretizou.

       Os adolescentes são capazes de decidir seu destino, arriscando-se por algo que vale a pena! Animá-los a participar de tarefas que sejam ajuda aos demais, é um grande bem que se pode fazer a eles. As oportunidades que os pais têm para que os filhos sejam fortes e possam enfrentar a vida, está nas ações para o bem do próximo: visitar e prestar ajuda em asilos, orfanatos, comunidades carentes, enfermarias, etc.

         Os adolescentes que despertam para as necessidades sociais dificilmente se deixarão arrastar por frivolidades e caprichos, porque descobriram o valor de sua própria existência e não irão desperdiçá-la em planos mesquinhos. Criar oportunidades para os adolescentes participarem do bem comum se concretiza inicialmente nas pequenas ações frente às necessidades do meio em que vivem. Se fogem disso, ao abandonar seus bons desejos, perceberão um dia que poderiam ter mudado para melhor muitas situações injustas.

         No período da adolescência a inteligência reclama razões práticas aplicadas às realidades concretas e cotidianas que impulsionem a agir. Quantos pais de família se perguntam, angustiados, pelo método adequado para tirar seus filhos de uma vida cômoda, egoísta, a fim de que se abram às necessidades do próximo.

         Certo garoto semanalmente ia com seus amigos a uma ONG para ajudar os idosos lá internados. O ambiente que presenciaram inicialmente era triste. Porém, com o passar do tempo tudo foi se transformando: limparam, consertaram, semearam flores e árvores, pintaram a cozinha, ensinaram alguns idosos a jogar dominó e xadrez, e outros a ler e escrever; ajudaram a escrever cartas ou simplesmente os escutavam e os consolavam. Os garotos logo se deram conta de que a maior transformação ocorrida não foi a do local físico, mas a da alma deles, que se curou da vida frívola em que viviam.

         Quando a personalidade se fundamenta no amor, na preocupação pelos demais; quando se ensina a desprezar o supérfluo e a renunciar a uma vida cômoda, estéril, e a aproveitar melhor o tempo; quando se incentiva a ter motivos transcendentes e a não temer o esforço exigido pelos ideais mais altos, a opção por servir aos demais será uma consequência natural, como também a verdadeira felicidade que isso traz.

    6 – Revelar ao adolescente o sentido do amor humano

         O amor humano, como força que se orienta à vida, se abre ante nossos olhos como um mistério que revela e esconde ao mesmo tempo a profundidade e a riqueza do encontro entre duas pessoas. Pode-se dizer que o amor humano recria a vida por seu próprio dinamismo, em uma chamada superior que reclama a fecundidade e a fidelidade definitiva. Por isso, o verdadeiro amor só pode crescer no calor da família, e se mostra ao adolescente quando a união entre seu pai e sua mãe vai mais além do corporal e alcança o espírito, a alma, revelando toda a profundidade e a dignidade do encontro amoroso. Isso explica que o amor dos pais participa do mistério do amor divino, e flui em uma nova vida na qual se dilatam os corações de seus pais em um amor que se torna cada dia maior, não somente pelo prazer que o fecunda, mas pela vontade de amar e de doar-se a vida inteira.

         A grandeza do fiel amor conjugal ilumina a inteligência dos filhos para a compreensão do sentido verdadeiro da sexualidade humana. Trata-se de uma vocação à qual se orienta a existência e à qual se realiza um projeto definitivo, porque nele se descobre a missão pela qual vale a pena o sacrifício e a entrega, como um pacto formal do amor verdadeiro.

         Muitos jovens estão entediados por viver uma vida sem verdadeiros valores. Agem apenas em busca do prazer e com isso alteram o sentido da sexualidade e do amor, na etapa da vida em que a consciência reclama razões sólidas que permitam encontrar um modo de colocar as qualidades pessoais ao serviço dos demais. Preferem que o instinto rompa qualquer ideal de serviço que os faria verdadeiramente felizes.

         A sexualidade humana começa a ser despertada na adolescência. Mas é preciso ensinar a cada jovem que ela deve ocupar o quinto ou sexto lugar em sua vida, pois antes disso estão outros ideais: o estudo, aprender línguas ou um instrumento musical, direcionar-se para uma profissão, apoiar ONGs que cuidam de pessoas necessitadas, mergulhar nos clássicos da literatura para conhecer as profundezas da alma humana, penetrar no conhecimento da fé em Deus para tornar vida essa vivência e para ter respostas para si e para ajudar os amigos… O namoro não é um mero passatempo, pois quando é utilizado nesse sentido acaba sendo utilizado de má maneira. O namoro é o momento para conhecer melhor a pessoa com quem se pretende montar um projeto familiar. Porém, antes disso, é necessário solidificar a formação humana e espiritual para crescer em maturidade e fortalecer a personalidade.

         Na verdade, não se deveria falar de “educação sexual”, mas de “educação da afetividade”. A falsa “Educação sexual” desumaniza o amor e o substitui pelo comércio genital, pela busca de sensações que desembocam no prazer momentâneo. Pretende-se atar os jovens a uma corrente de sensações físicas, que inclui, além do sexo, o luxo, a velocidade, o conforto, o álcool, os tranquilizantes ou os excitantes, as grifes, as modas, a fim de manter neles um falso sentido de felicidade (artificial e passageiro).

         Na etapa vital da criança (0 a 6 anos) é preciso iniciar com clareza, e de acordo com a incipiente curiosidade infantil, que ainda não tem caráter libidinoso, as conversas sobre o verdadeiro sentido da sexualidade humana. Para isso, sugerimos ler o boletim Filhos: informação sexual, no site staging.ariesteves.com.br/boletins. A criança, desde muito pequena vai necessitando de informações à medida de sua capacidade de compreensão, e os pais não devem ter medo de dar essa necessária informação. Não se trata de falar a uma criança de 4 ou 5 anos do mesmo modo com que se deve falar a um adolescente, como bem explica o boletim acima citado. Quando chegar à adolescência, torna-se necessário oferecer razões mais profundas e definitivas a respeito da sexualidade humana.

    Texto adaptado e completado por Ari Esteves com base na obra “Para Educar Mejor”, de Maria Teresa Aldetre de Ramos, Colección Hacer Familia, Editorial Palabra, Espanha. Imagem de Katrin Bolovtsova.

  • Ensinar a querer

    Ensinar a querer

    1 – A educação integral da pessoa humana. 2 – Fortalecer o caráter. 3 – Desenvolver a sensibilidades dos 6 aos 11 anos. 4 – A dor e sofrimento educam. 5 – Desprender-se do supérfluo. 6 – A importância da família. 7 – Ensinar a viver o amor

    1 – A educação integral da pessoa humana

         A pessoa humana deve ser educada em sua totalidade, e não apenas no aspecto profissional, artístico, científico ou esportivo. Falar da educação do coração é falar da totalidade do homem (inteligência, vontade e afetos). No período de 6 a 11 anos há uma predisposição natural para deixar-se educar o coração, mais que em outras idades, sendo que esse ensinamento é base para o desenvolvimento posterior de capacidades diferentes para a realização de outras tarefas e compreensão de outras realidades: saber viver o sentido do amor, da família, do trabalho e da sexualidade (temas não abordados – ou mal abordados – nas escolas, mas vitais para a verdadeira felicidade da pessoa, e que competem aos pais como primeiros e principais educadores dos filhos). 

         Durante o processo educativo os pais devem ensinar aos filhos a querer, a servir e a pensar (estes dois últimos aspectos serão abordados nos próximos boletins). Ensinar a querer é ensinar a viver com fortaleza e com alegria as inevitáveis contrariedades da vida; é cultivar a finura e a sensibilidade ante a grandeza e a beleza; é deixar o coração se comover ante a dor alheia para que a vontade responda com generosidade, a fim de remediar as necessidades dos demais (ensinar o coração a condoer-se); é fazer notar que o trabalho ou tarefa é um serviço aos demais… A indiferença é hoje uma doença progressiva em nossa sociedade, que se constata na passividade e na apatia frente às dores dos demais: viver fechado no mundo pessoal leva ao egoísmo e este conduz à tristeza e ao embotamento da alma.

         Entre 6 e 11 anos a criança pode viver verdades e valores não como hábitos irrefletidos, mas por meio de sua vontade, quando educada, pois nela reside o querer livre e consciente. É o momento de iniciar a conscientização dos filhos de que não basta pensar no modo como ganharão dinheiro com a profissão que um dia escolherão, mas em ter uma vontade forte para que queiram o bem e não cedam ao mais fácil ou cômodo, nem temam assumir ideais grandes que exijam esforço para serem conquistados.

         Educar o coração e os afetos se consegue com uma vontade forte, que saiba querer. Para ensinar a colocar o coração naquilo que vale a pena, a criança precisa ser orientada, pois sua tendência é ir ao mais fácil e prazenteiro, é sentir-se bem mesmo fazendo o que não é bom (deixar seus brinquedos e roupas desordenadas, não ajudar nas tarefas do lar, comer a qualquer hora, não ter disciplina…).

         Se pode considerar o coração como o princípio não apenas localizado no órgão corporal do lado esquerdo do peito, mas em toda a sensibilidade da pessoa, que se vê afetada integralmente pelas realidades que a circundam. Na educação do coração é primordial compreender o sentido da dor, da contrariedade, do cansaço e da morte, que e o fim de todos.

    2 – Fortalecer o caráter

         Podemos afirmar que o caráter é para o coração o que os músculos são para o corpo. É óbvio que músculos flácidos não resistem a pesos, e se rompem. Assim se passa com o coração quando a vontade e fraca e o caráter é débil: se rompe ante as penas ou dificuldades. Muitas neuroses ou doenças de origem emocional procedem da falta de fortaleza ou debilidade de caráter. Dar ao filho tudo o que pede e evitar dizer um “não” a ele, e poupá-lo das exigências normais da vida é torná-lo débil de caráter, é despersonalizá-lo, é impedir que cresçam em espírito de serviço. Uma parte importante da educação para a dor e para o espírito de serviço apoia-se na virtude da fortaleza.

         Na estrutura da personalidade humana somente é possível educar para o serviço se, depois do autodomínio, sabemos forjar um coração forte, ordenado e que saiba amar. Compreender, perdoar, desculpar e corrigir os filhos a sós e com carinho, não impede a clareza da mensagem e o emprego de energia almofadada quando necessário, pois tais normas marcam definitivamente a etapa dos 6 aos 11 anos.

         O carinho que educa é oferecido sempre num marco de exigência e de serviço ao outro, e tem algo de divino que se manifesta no olhar, no gesto, na atitude festiva (o amor converte a vida em festa); na compreensão das fraquezas e defeitos, mas animando a corrigir-se; em saber prestigiar sem adular; é carinho ofertado a todos, mas que se manifesta como exclusivo para cada um.

    3 – Desenvolver a sensibilidades dos 6 aos 11 anos

         Não basta querer aos filhos: o ambiente de carinho que deve rodeá-los não elimina a exigência e a correção, quando necessárias. Não basta também que sejam instruídos em muitos saberes técnicos ou culturais: é preciso formar seu caráter. Aprender a querer está em pequenos detalhes como ter sempre as mãos limpas para não deixar marcas nos estofados, paredes e portas; é esforçar-se para deixar cada coisa em seu lugar e cuidar de não estragá-las com modos bruscos ou maus tratos; é ter detalhes de cortesia e bons modos com pessoas que não são da família; é jogar ou brincar sabendo sacrificar o resultado para conservar a unidade entre as pessoas; é evitar discussões e tentar compreender a razão dos outros; é ser agradecido, principalmente com Deus pelos dons recebidos…

         A sabedoria popular chama de “dureza de coração” ou “frialdade de sentimentos” a quem não manifesta um coração grande, magnânimo. A atmosfera que o lar deposita no coração da criança tem importância decisiva na formação da consciência dela. Frente a postura de dureza de coração cabe verificar o sentido que os pais dão à dor, pois a insensibilidade vai endurecendo o coração e perde-se o sentido purificador da solidariedade.

    4 – A dor e sofrimento educam

          A dor pode ser transformada em atitude de amor e de serviço. Aprende-se a sofrer, a amar, a servir e, concomitantemente, a ser feliz no lar, e desde o período de 6 a 11 anos, pois nele a criança desenvolve maior ressonância sensível.

         Todos estão de acordo com a definição não científica, mas de grande sentido comum, que com o coração sofremos e nos alegramos. Parece que a afetividade humana se reflete no coração, mais que em outras partes, e de modo diferente em cada pessoa. É fácil observar como duas pessoas são afetadas de maneira distinta diante do mesmo fato; nem sequer se pode dizer que a intensidade de um sofrimento pode ser causada pela privação ou importância de um bem. Em certa escola, um grupo de quatro meninas, entre seis e sete anos, perdeu o pai no período de poucos meses de diferença, sendo que as reações foram desiguais: uma delas se afetou de tal maneira que durante quase seis meses não pôde voltar ao colégio, pois tinha febre e vômitos causados pelo estado emocional; outra voltou a chupar o dedo como costume que há mais de dois anos tinha abandonado; outra aproveitou sua situação para chamar a atenção ao falar continuamente dos detalhes que rodearam o acontecimento; outra se tornou retraída, desajeitada e nervosa, surgindo dermatite em sua pele.

         Os acontecimentos, ainda que semelhantes, são rodeados de circunstâncias diversas que provocam dor cuja intensidade e resultado depende de cada pessoa. A dor é a resposta diante da perda de um bem devido à nossa natureza, mas cada ser humano sofre de maneira diferente. Se ante um pequeno acidente os pais reagem com serenidade, solucionando com naturalidade os problemas, as crianças compreendem que aquilo não tem grande importância. A fortaleza e a serenidade são ingredientes indispensáveis a pais e filhos para aprender a enfrentar e suportar a dor.

         A dor, a contrariedade e o cansaço assumidos na realização dos deveres se identificam com o amor e o espírito de serviço, e estes tornam possível aceitar aqueles, sem se deixar enganar ao substituí-los por compensações absurdas. Quando a dor é rechaçada, adotando-se ante ela uma postura insensível, procurando o analgésico ou deixando-se levar pelo desespero ou pela fuga, se rompe a unidade e a harmonia interior da pessoa, provocando um novo sofrimento. Nos pequenos casos apresentados a seguir nota-se o desejo desordenado de compensação ou fuga.

         Um menino de dez anos, depois de permanecer alguns meses na cama, engessado por todas as partes, o que provocou nele grandes feridas na pele, depois de curado se empenhava para que seus pais satisfizessem seus caprichos mais absurdos: ouvir música a todo volume até à meia noite, e se alguém se queixasse do incômodo o garoto exagerava com o que ele havia passado; exigia de seus pais gastos desproporcionados às suas possibilidades, argumentando que nada se comparava aos sacrifícios que ele havia sofrido; resistia a qualquer exigência, aludindo à injusta situação que viveu, considerando cruéis e culpando a todos os que não sofreram o que ele teve que aguentar, e a todos os que não estivessem dispostos a compensar o que ele havia sugerido.

         Uma menina de sete anos, cujo pai abandonou a família, viu sua mãe que, dedicada a resolver a situação econômica do lar, descuidou de preencher de sentido o sofrimento que causou na filha a fuga paterna. Enquanto isso, a menina encontrou na casa da avó um refúgio gratificante, pois esta, com pena da menina, a satisfazia com mimos e presentes. Com isso, a menina se tornou grosseira e desrespeitosa para com a mãe, e queria estar sempre na casa da avó. A mãe achava que essa reação da filha era consequência “normal” do que havia sofrido, e com falsa compaixão, sem perceber acabou mantendo o ressentimento da filha contra ela. A mãe deveria ensinar a menina a sofrer e a dar sentido à dor provocada pela injustiça que sofreu, e que já não seria possível remediar, pois assim a teria feito crescer em maturidade e misericórdia, que é uma meta alta que deve aspirar o coração humano. Fugir é ocupar-se de qualquer coisa que impeça estar consigo mesmo para não aceitar a dor.

         Existem fugas tão bobas que vão desde comer chocolates a toda hora, comer por comer, buscar uma diversão atrás da outra, ouvir rádio ou ver televisão indiscriminadamente, etc. Aceitar a dor, a contrariedade, o cansaço, a doença, a morte é aceitar a vida. Não há ninguém que possa mudar tais realidades: “da morte ninguém escapa, nem o pobre, nem o rei, nem o Papa”, disse Santa Terezinha. Falsificar a dor é colocar a pessoa a caminho de perder a saúde mental. Em troca, aceitá-la é dar sentido àquilo que é difícil, é transformá-la em amor purificador e redentor, e esse amor engrandece a alma e a salva.

    5 – Desprender-se do supérfluo

         Há sofrimentos não necessários, mas provocados pela frustração de muitos desejos inúteis que se despertam num coração desavisado e que se vê bombardeado de múltiplos estímulos sensíveis: muitos sofrimentos são evitáveis ao educar o coração para se desprender do supérfluo.

         Hoje é necessário ensinar as crianças a manter o coração desprendido de tantos bens supérfluos que são apresentados a todo momento e de forma atraente. A cada cinco minutos a publicidade digital descarrega inúmeras ofertas com o recado de que são “indispensáveis” para a nossa vida. As crianças são vítimas de modismos e grifes, e devem ser alertadas por seus pais sobre esse assédio consumista. Que aprendam a ser criativas ao inventar suas brincadeiras com embalagens e outros objetos simples, por exemplo. A imaginação da criança é mais rica que os produtos comerciais! O botão deve estar dentro das crianças, e não em aparelhos elétricos ou digitais.

    6 – A importância da família

         O homem tem por natureza uma estrutura familiar, e em seu âmbito psíquico-afetivo existe uma necessária ressonância que procede desse recinto vital que é o seu lar. A segurança emocional da pessoa procede principalmente da estabilidade da família. A unidade dos pais se projeta na identidade de cada filho. Pode-se dizer que uma criança tem tudo − mesmo que careça de muitas coisas materiais −, quando em seu lar exista uma unidade familiar fundamentada no carinho entre marido e mulher.

         Sem um lar verdadeiro, o homem se despersonaliza e se perde ao buscar sua identidade entre a massa. Chama a atenção ver como a moda é adotada de maneira mais intensa em jovens com famílias desestruturadas. Adolescentes que provém de famílias unidas, onde reina o carinho, manifestam uma personalidade mais definida e se apegam muito menos às imposições dos modismos e das grifes.

         Filhos que desde pequenos desempenharam tarefas no lar para o bem de toda a família, são impulsionados por motivos de amor porque percebem que servir é mais que um dever: é atitude de amor aos demais. Tal comportamento se manifesta também entre seus amigos da equipe esportiva, nas excursões, no ambiente escolar e de vizinhança, pois seu ânimo e alegria são evidentes e contagiosos.

         No lar se aprende a viver esses valores que dão calor à vida cotidiana e deixam marca na alma infantil. A fé, ilustrada com as narrativas bíblicas, transmite uma imagem luminosa que se imprime na alma da criança. Logo virá a etapa seguinte, onde o estudo dos temas relacionados à fé reforça na razão as convicções que agora se semeiam no coração. A força e o dramatismo da leitura de bons contos transmitem valores que despertam nas crianças desejos de heroísmo, de grandeza, de generosidade, de desprendimento, de magnanimidade, de ternura, de sacrifício…

    7 – Ensinar a viver o amor

         O amor e a dor se unem somente nas fronteiras da misericórdia. Seria absurdo pensar que a educação somente pode ocorrer no marco perfeito da família ideal. É preciso educar de modo a contar com a deterioração mais ou menos grande da saúde das pessoas com o passar do tempo: amar ao fraco é padecer com paciência a sua dor. Diante da deterioração do corpo de quem se ama, se buscam os mil meios para que seja curado, e não se despreza a pessoa pelas feridas que sofre, sejam físicas ou espirituais.

         Todo ser humano, por pior que seja sua conduta moral, terá capacidade de erguer sua vida, se sabe prender-se na mão que vem do alto e das mãos que o amor humano alarga como um ponto entre a miséria e grandeza. Este caminho somente decorre entre o oceano da misericórdia divina e o Céu da esperança. O homem tem que ser completo não apenas momento presente, mas em todas suas possibilidades de transcendência eterna. Não se deve centrar a atenção no pior momento da vida de alguém, como se não houvesse uma história na qual se pudessem destacar coisas boas entesouradas, ou como se não existisse um futuro com mil possibilidades para refazer-se.

         A misericórdia é tecida com fortaleza e paciência, com exigência e suavidade. Amar com um amor misericordioso é compadecer-se das misérias alheias, compreendendo e desculpando, sem se tornar cúmplice ou vítima em atitude doentia. O amor sabe suportar a dor presente e olhar o futuro com esperança e serenidade; o amor nos torna bons, nos impulsiona e eleva, nos purifica e renova.

         Quem na adolescência não aprende a lutar contra o egoísmo, dificilmente aprenderá a servir e a amar, pois a lógica consequência de um coração sensível ante a dor e a necessidade dos demais é o serviço.   Ensinar a viver o amor que se transforma em misericórdia é ensinar a esperar com otimismo; é buscar os remédios possíveis, humanos e sobrenaturais, para resgatar e elevar aquele que caiu.

         Mesmo antes da puberdade o coração deve ser exercitado na compreensão, no perdão e na alegria. Com a puberdade chega um novo período em que a solidariedade humana deve arraigar sobre o terreno bem preparado de um coração magnânimo, forte, e que seja capaz de vencer seu próprio egoísmo. Ninguém é capaz de servir se não foi treinado na fortaleza para resistir com paciência a dor e a contrariedade, encontrando nelas um sentido. Este período deve ser aproveitado para fazer a criança ver as necessidades e carências dos que a rodeiam; carências e necessidades que ela deve procurar remediar, umas vezes por estrita justiça e outras por caridade. A criança deverá encontrar neste período motivos sensíveis que a levem a servir.

         Ao final da etapa de 6 a 12 anos convirá insistir na ideia do dever como um requisito da justiça. No período sensitivo de 0 a 6 anos, os pais transmitiram suas atitudes e o sentido que dão à própria vida. Agora, antes da puberdade, a criança irá descobrir com mais força as vivências paternas, e saberá qual é a atitude que deve adotar ante as exigências de sua própria dignidade, ante a vida humana, ante a dor e a contrariedade, ante trabalho e o cansaço, ante o amor e a sexualidade humana, ante o mal e a injustiça, ante a doença e a morte.

         Se os pais vivem se queixando do trabalho, se realizam mal e às pressas suas tarefas, se buscam fugas ou compensações, se seus juízos são implacáveis para com as demais pessoas, se não sabem compreender e perdoar, se não sabem ver um aspecto positivo em situações mais duras, então não haverá teoria suficiente para educar o coração. Pais sensatos criam oportunidades para que seus filhos aprendam a servir, a fim de que gradualmente estes aumentem a capacidade de esforço e passem a agir aceitando livremente a responsabilidade, reconhecida como um dever de justiça ou de misericórdia. Ao chegar o período da juventude, quando foram bem aproveitadas a inclinação natural à justiça na adolescência, os jovens saberão lutar contra seu próprio egoísmo e realizarão grandes ideias de serviço aos demais.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base no livro “Para Educar Mejor”, de Maria Teresa Aldetre de Ramos, Colección Hacer Familia, Editorial Palabra, Espanha.

  • Para educar melhor

    Para educar melhor

    1 – Educar hoje: a presença ativa dos pais. 2 – Educar o coração, a vontade e a inteligência. 3 – Autodomínio e autonomia. 4 – A criança necessita de normas para se autodeterminar. 5 – Crianças caprichosas e tirânicas. 6 – A indisciplina torna a criança agressiva. 7 – O perigo das etiquetas negativas na criança.

    1 – Educar hoje: a presença ativa dos pais

         Atualmente é um desafio para a criança organizar ou harmonizar a quantidade de informações e estímulos sensoriais que recebe como matéria com a qual deve construir suas experiências. Por isso, hoje é mais urgente a presença ativa dos pais como árbitros insubstituíveis no complicado tráfico do mundo da imagem, que influencia a estrutura da personalidade nascente dos filhos.

         É impensável para pais que queiram educar hoje, deixar que os múltiplos produtos da tecnologia atuem ao acaso e sejam os protagonistas da educação de seus filhos, com tudo o que isto significa. Deixar as crianças em mãos de tabletes e celulares é abandoná-las a uma vida complexa, dispersiva, que as tornará incapazes de governar-se pela própria cabeça, desde a adolescência.

         Dar a cada filho a oportunidade de ser protagonista de sua própria história é favorecer um processo educativo consciente e responsável. Os pais precisam enfrentar a tarefa educativa com mentalidade profissional ao estabelecer um projeto com objetivos ordenados, coerentes e de acordo com as reais necessidades da natureza humana. É necessário oferecer aos filhos a oportunidade de estruturar harmoniosamente sua personalidade, e isso significa que os pais têm que dar oportunidade para que suas crianças cresçam em liberdade e na aceitação gradual de suas responsabilidades.

         A estrutura da personalidade se organiza mediante um processo crescente de responsabilização, no qual cada período é base para o seguinte. Educar a criança primeiramente em seus apetites vitais (comer, dormir, brincar, banhar-se, guardar seus objetos…), ajudando-a a autodominar-se ao criar situações ordenadas que deem oportunidades de crescer em autonomia, com o fim de adquirir hábitos de ordem e disciplina que permitam atuar bem com certa facilidade.

    2 – Educar o coração, a vontade e a inteligência

         Desde a primeira adolescência é preciso educar o coração da criança, que é ensinar a querer. Para isso, é necessário oferecer um ambiente de exigência e carinho, de sobriedade e fortaleza, cujo resultado será a aquisição de atitudes de solidariedade, de compreensão e misericórdia para com os que padecem necessidades espirituais ou físicas, tendo iniciativas para mitigar suas dores.

         Em seguida, é necessário educar a vontade, cujo objetivo é ensinar a servir, dando motivos valiosos que impulsionem a vontade a realizar o bem devido em justiça. O resultado será a compreensão de que além de diretos, temos obrigação de servir, que é a verdadeira forma de amar e de participar no bem comum da família e do ambiente social em que se participa.

         Por último, educar a inteligência, ensinando a pensar. Para isso, criar um ambiente que permita a criança conviver com a verdade, cujo resultado será adquirir postura definida perante a vida por meio de valores que norteiem a conduta. Educar o coração, a vontade e a inteligência já foi objeto de boletins anteriores (ver lista) e ainda serão temas para ouros.

         A vida da criança desde seu nascimento é um desafio que vai crescendo como oportunidade para o desenvolvimento dela. Desde o momento de seu nascimento, a criança estabelece uma relação vital com o meio que a rodeia. Isso quer dizer que toda sua percepção está relacionada com a sua própria vida, e não com o artificialismo das telas digitais. A criança recém-nascida responde somente aos estímulos referentes à luz, ruído, frio, umidade, calor corporal, dor física e alimento. Quando a criança durante os primeiros meses de vida se sente segura, acolhida e alimentada de forma ordenada e em ambiente sem estridências (sem a distração e o barulho da tv), estão se estabelecendo os alicerces de uma vida emocionalmente sadia.

    3 – Autodomínio e autonomia

         É uma necessidade para a criança fazer aquilo que consegue realizar, ultrapassar uma dificuldade que possa ser superada; e por fim, fazer aquilo que é um dever. O autodomínio na etapa vital da criança está relacionado diretamente com o que ela é capaz de realizar. Por esse motivo a maturidade da psicomotricidade e da linguagem desempenham um papel muito importante. A etapa vital da criança, durante os primeiros três anos de sua vida, supõe desenvolver uma série de habilidades e destrezas que requerem oportunidades disciplinadas, ordenadas no tempo, repetidas, projetadas dentro de um processo, integradas em sequência de dificuldade sempre crescente e possível de realizar:

         1a sequência: caminhar de mãos dadas; caminhar só, vacilantemente; caminhar só, com firmeza; caminhar e chutar uma bola de modo desequilibrado; caminhar e chutar uma bola de forma dirigida; correr; correr e chutar a bola; etc.

         2a sequência: mover a cabeça ao ritmo de uma canção; mover a cabeça e bater palmas no ritmo; mover a cabeça, bater palmas e mover o tronco ao ritmo; mover a cabeça, palmas, tronco e pés ao ritmo; mover a cabeça, palmas, tronco e pés ao ritmo de uma canção e mudando de lugar; etc…

         Estes exemplos, desenvolvidos na vida ordinária da criança, devem ser aplicados à linguagem, visão, movimento, equilíbrio, coordenação no tempo e no espaço, etc., em sequências de crescente dificuldade: comer, vestir-se, despir-se, limpar-se, classificar, ordenar, manipular, expressar, etc. Tais ações representam para as crianças uma oportunidade natural de desenvolvimento, sempre e quando se apresentem como atividades de forma ordenada e habitual; hábitos espontâneos na infância.

              A oportunidade natural que tem a criança de obter segurança em si própria, e ampliar sua autonomia, é por meio do domínio e da perícia que vai adquirindo sobre os objetos que a rodeiam. Com muita sabedoria afirmou a este respeito o professor Víctor García Hoz: “Toda substituição inecessária provoca uma limitação no desenvolvimento de quem a recebe”. Se a criança pode dormir sozinha, por que fazer depender de uma cadeira de balanço? Se pode segurar sozinha a mamadeira, por que alguém haverá que segurá-la? Se pode subir sozinha na cadeira ou no banco do automóvel, por que fazê-lo por ela? Deixar que a criança faça o que consegue é permitir que ela desenvolva sua autonomia.

            O autodomínio é a primeira manifestação da liberdade humana e o fundamento para crescer em responsabilidade. Ao não se ter aproveitado o período sensitivo de 0 a 6 anos, que permitiria à criança conseguir mais facilmente conquistar determinado hábitos bons, tornará mais árdua a tarefa no período seguinte. Os pais que falharam precisam reconhecer ante a criança o seu engano e, com carinho e exigência, restabelecer a ordem fora de seu período sensitivo para chegar a formar os bons hábitos correspondentes, que darão facilidade e satisfação para agir bem.

    4 – A criança necessita de normas para se autodeterminar

            A criança experimenta em seu interior uma imperiosa necessidade de normas, e deixá-la na falsa liberdade de viver conforme seus caprichos é como abandoná-la em uma imensa planície sem sinalização alguma que permita a encontrar o caminho certo. A criança necessita de um norte; necessita saber para onde seguir e quais são os pontos de referências que confirmam estar na rota certa. Disse Otto Durr em seu livro Educação na liberdade (Rialp, Madri 1971, p. 36): “A criança pequena exercita suas potências em uma viva e amorosa co-realização. A imitação e a habituação vão atadas à regra e à ordem, sem as quais a vontade infantil fica sem direção nem meta, limitando o processo de independência do ser humano”.

         Quando a criança apresenta patente resistência à obediência, por volta dos três anos, já se faz necessária a primeira argumentação dos bons motivos que devem orientá-la para se autodeterminar. A nascente vontade infantil deve ser sabiamente respeitada, mas não abandonada, e isso equivale ajudar a criança a descobrir os valores que servirão de motor de sua conduta.

         A criança deseja ser boa, ainda que às vezes afirme ou aja ao contrário. Fracassar na tentativa de ser bom, sobretudo no período da infância, produz na criança um sentimento de profunda insatisfação e sofrimento. Mesmo a criança com quem se estabeleceu uma relação consequente, apresenta o fenômeno chamado “da primeira idade da obstinação”: a criança que até então se mostrava submissa é agora capaz de resistir usando toda sua força, desafia a autoridade e se torna rebelde. “O eu próprio começa a ser descoberto ante o eu alheio”. Jaspers distingue quatro formas conscientes de descobrir o eu: 1) “Eu faço”, sensação de atividade; 2) “Eu sou”, consciência de simplicidade; 3) “Eu me identifico com minha história”; 4) “Eu sou diferente dos demais”. Nesse período de autoafirmação da personalidade é fundamental que os pais demonstrem claramente a aceitação da criança, sem deixar de rechaçar as condutas inadequadas: “Eu o amo, por isso desejo que você seja melhor”; “Se você for bom vai se sentir muito contente, e eu desejo que você seja bom porque quero que seja feliz”.

         A criança se sente bem quando se porta bem, e se sente mal quando se porta mal: essa vivência é universal porque a consciência do bem e do mal está impressa na natureza humana. A criança vai construindo sua própria história, e sua própria aceitação procederá de que seja boa ou que tenha esperança profunda de vir a sê-lo. Adquirir o hábito de realizar com perfeição o que deve ser feito em cada momento traz satisfação e faz adquirir virtudes.

         Com naturalidade a criança capta os valores mais transcendentes. Disse André Pietre em seu livro Carta aos Revolucionários bem pensantes (Rialp, Madri 1977, p. 15): “Quando uma mãe diz a seu filho: Não faça isto, é feio”, disse em cinco palavras o que o autor quis expressar em seu livro de cem páginas. O bem, a verdade, a beleza, a vida, a morte, o feio e o mau, se inserem na realidade da criança desde o incipiente descobrimento que ela vai fazendo de si. O contato com a realidade moral e o apreço por si, dependerá em grande parte da aprovação de sua própria consciência.

         Há pais que pretendem simplificar a consciência de seus filhos ao afirmar que não há nada de mau no comportamento deles, e esquecem que esse piloto interior, chamado “consciência”, se apresenta nesta etapa vital com uma pureza e autenticidade que, se não se cuida, deteriora-se para sempre, e deixa na alma da criança uma obscura perplexidade que a impedirá mais adiante de saber quem ela é, colocando em perigo o equilíbrio de sua vida psíquica.

    5 – Crianças caprichosas e tirânicas

            Em toda existência humana se apresenta uma “angústia vital” que faz crescer e amadurecer. Retirar da criança a oportunidade de ultrapassar por si mesma os pequenos apuros que surgem diante dela, é enfraquecer sua natureza. Quando uma criança é substituída de modo desordenado pelos pais e avós, que não permitem que ela passe nenhum tipo de desconforto, que coma no momento que desejar, que faça o que quiser, que não tenha regras nem horários, que vai dormir só quando está exausta e acorda na hora que quiser, essa criança converteu seu reinado em perfeita tirania, mesmo que apenas engatinhe. Os pais apenas dizem que é uma criança difícil, e os avós afirmam que nasceu para mandar porque sabe impor seus caprichos com atitudes de agressividade: chuta, morde, joga o que tem nas mãos e com seus berros vai tornando a vida de sua mãe muito difícil; e quando lhe oferecem algo para comer, não aceita, e depois a qualquer hora pede comida. Os pais, erradamente, se esmeram em deixá-la contente, entendendo por isso que se trata de deixar o filho fazer o que quiser, como quiser e quando quiser. Uma criança com esse comportamento ao entrar no jardim da infância, sua professora logo se dará conta de que com ela já não há muito o que fazer.

         Orientar a vida dos filhos para sua plena realização é ajudá-los a ser eles mesmos, não substituindo-os sem necessidade e mediante um processo de responsabilização gradual e crescente. Por isso, as crianças caprichosas reclamam em seu interior que necessitam ser exigidas; se não o forem, carregarão esse fracasso nas costas sem saber o motivo que as tornou profundamente insatisfeitas. Porém, não deixarão de intuir que seus pais são cumplices dessa situação, e se voltarão contra eles como pequenos tiranos. Este fracasso é uma moeda de duas caras: em uma há o grito da própria consciência que não consegue declarar sua reprovação porque se acomodou; em outra, a incapacidade de poder agir bem por falta de hábitos, frustrando o desenvolvimento natural do autodomínio.

    6 – A indisciplina torna a criança agressiva

         Quem viveu em uma situação de dispersão e indisciplina, manifesta sua frustração em atitudes de agressividade e ressentimento. Esse estado interior, ao não poder ser assumido e entendido a partir da própria consciência, conduz a uma atitude de fuga que pode ser resumida na seguinte frase: faço apenas o que gosto. Os pais não compreendem o que acontece no interior da criança quando a deixam agir conforme seus caprichos, e costumam dar mais importância a um problema de linguagem ou de motricidade do que ajudá-la a aprender a autodominar-se. Com isso, reforçam a conduta irreverente da criança, não permitindo que ela comece a distinguir entre o bem e o mal.

         A criança desde os três anos, ou antes, busca o olhar de aprovação ou reprovação de seus pais antes de jogar o prato no chão ou riscar a parede; se o fez, se mostra na defensiva e experimenta em seu interior algo que a incomoda, e necessita que seja reafirmado pelos pais o que para ela se apresenta com uma mera intuição (que agiu erradamente). O que está mal incomoda, o que está bem gratifica: isto é, fazer o bem constrói e realiza o homem, e o mal o descontrói.

         Cada pessoa é um projeto de vida único, irrepetível, que se abre pela liberdade à grandeza. Mas também pode fracassar na realização de seu projeto, seja porque não foi informado sobre a verdade e o bem, ou por não ter fortalecido a sua vontade na prática habitual de seus deveres ordinários, ou por ter sido abandonado nas mãos do capricho e da inconstância.

    7 – O perigo das etiquetas negativas na criança

         O outro extremo, igualmente prejudicial é o da criança rechaçada e etiquetada como “terrível”, “insuportável”, “teimosa”, “má”, etc. É dramático pensar que, apenas descobertas as primeiras luzes de sua consciência, a criança passa a se resignar com a ideia de não ser boa, e experimenta a realidade de seu fracasso. Dar a oportunidade de melhorar é propor como identidade o bem e a felicidade, é lançar-se com a criança numa aventura cheia de carinho, onde o terreno estará semeado de otimismo para que ela possa descobrir que a vida é como um esporte no qual às vezes se perde uma jogada, mas ainda restam muitas possibilidades de ganhar o jogo. Com ânimo esportivo se recomeça sempre que necessário, e a luta aponta sempre para o triunfo. Devemos ter muito em conta que a riqueza da vida da criança não se satisfaz de qualquer maneira: o que para muitos pais parece ser uma etapa intranscendente, sem valor, é o alicerce de uma vida que deve alcançar a plenitude.

         Somente quando a criança se descobre e se aceita, com a responsabilidade de terminar de se construir, então se pode dizer que ela estreia a sua liberdade. Quando um pai e uma mãe dizem à filha ou ao filho que ele é um tesouro, que não poderiam viver sem ele, que ele é mais luminoso que o sol, isso que parece tão pouco plenifica a alma infantil e a desperta para a profunda consciência de ser amada, mesmo em sua fragilidade (sente-se amada pelo que é e não pelo que possui).

         O mais natural e imediato ao homem é a família como âmbito onde vem a nascer, crescer e desenvolver bons hábitos e valores. Na família, em palavras de Oliveros F. Otero, “se descobre como pessoa e aprende a ser pessoa”. Isso somente se torna realidade se a criança é tratada como pessoa, se é descoberta em seu mistério individual de ser única e irrepetível. Quando a criança é aceita e amada, está sendo ajudada a descobrir a grandeza de sua alma, então ela se aceita a si própria. Há temas que só se aprendem na família, porque somente nela o que parece ter pouca importância revela a transcendência do amor. Mas o amor sempre está precedido da contemplação, do olhar penetrante do coração, como uma espécie de intuição que descobre o mistério.

    Texto de Maria Teresa Aldetre de Ramos, adaptado por Ari Esteves com base no livro Para Educar Mejor, coleção Hacer Familia, Editorial Palabra, Espanha. Desenho de Aguida Medeiros (@medeiro).

  • Educar para a maturidade psicológica

    Educar para a maturidade psicológica

    1. Maturidade psicológica. 2 – Para conhecer-se melhor. 3 – Ajudar as crianças no amadurecimento psicológico. 4 – Motivar a vontade. 5 – Educar a afetividade. 6 – Quem educa deve ter maturidade psicológica.

    1 – Maturidade psicológica

         A maturidade psicológica está, em primeiro lugar, em obter o máximo desenvolvimento das faculdades psíquicas (inteligência, vontade, afetividade, tendências, imaginação, memória, percepção). Em segundo lugar, consiste em obter ordem ou equilíbrio entre todas essas faculdades (harmonia da alma). Essa harmonia se parece com a da orquestra, onde os músicos tocam em sintonia com as ordens do regente. No caso do ser humano, o regente é a mente (inteligência e vontade): a inteligência procura a verdade de cada ação, e a vontade decide executar e controlar as forças sensíveis (a afetividade) para que se movam na mesma direção determinada pela inteligência e querida pela vontade.

         As ações internas são os atos do pensamento, da imaginação, da memória, da percepção e da afetividade que, juntamente com a vontade, constituem as funções psíquicas humanas que se desenvolvem com o uso, e quanto mais desenvolvidas, mais a pessoa se torna dona de si ao deixar-se dirigir pela razão e pela vontade. Em contrapartida, quando são pessoas dirigidas principalmente pela afetividade passam a produzir alterações psicológicas ou conflitos sociais, pois os sentimentos são instáveis e cambiantes.
         As faculdades psíquicas buscam o que as satisfaz (comer, beber, dormir, descansar, desfrutar, amar, sentir, entender). Para haver harmonia a busca deve ser hierárquica, onde as faculdades superiores (inteligência e vontade) controlam as inferiores (sentimentos, emoções, paixões), e os objetos superiores (amar, entender, querer) têm prioridade sobre as inferiores (comer, beber, dormir, sentir, descansar, imaginar, relembrar…). Todas são necessárias, mas as superiores têm uma relação maior com a felicidade, que é o objetivo último de cada homem: não basta a cada pessoa comer, beber, dormir, pois há ideais a concretizar ao serviço dos demais, dentro das capacidades que cada um recebeu de Deus.

         A educação da maturidade psicológica prioriza a educação da razão e da vontade. A educação da razão está em desenvolver o hábito de refletir antes de agir para buscar a verdade em cada ação; e corresponde à vontade a decisão de aderir ou não ao que a inteligência mostrou. O hábito de reflexão oferta mais opções para agir racionalmente, sempre em busca da melhor opção que corresponda ao bem e à verdade: agir racionalmente é a qualidade mais elevada e própria do ser humano (conduzir-se pelos instintos ou paixões até os animais o fazem).

    2 – Para conhecer-se melhor

         É preciso analisar as causas que levam a agir bem ou mal, para ter um conhecimento mais profundo da própria maneira de ser e dos hábitos adquiridos (bons ou maus). Essa reflexão faz a pessoa descobrir a causa de sua felicidade ou infelicidade, a fim de incentivar uns ou colocar os meios necessários para corrigir outros. Agir assim permite tomar decisões acertadas para perseverar no bem ou mudar em vista de se alcançar a excelência pessoal. A consciência moral, graças à formação recebida e o conhecimento das ações acertadas e das que foram corrigidas, e a análise dos sentimentos associados a essas ações, faz a pessoa acumular experiência de vida.

         Como ocorre com todo aprendizado, quanto antes se adquirir o hábito de reflexão, mais firme e permanente será a disposição para decidir bem e agir. Por isso, convém incentivar as crianças desde muito pequenas a refletir, ao perguntar a elas com frequência “Interessante! Por que fez assim?”, para que reflitam no motivo que as levou a agir bem. E quando se comportam mal, ao se deixarem levar pelas tendências ou afetos, é bom animá-las a que da próxima vez, antes de fazer algo, pensem na maneira mais correta de agir, e tentem levar à prática.

         Para estimular o processo reflexivo nas crianças, convém explicar as razões pelas quais devem agir bem. Essas razões devem ser de curto prazo, pois as crianças vivem o presente e o futuro imediato com intensidade. As razões de longo prazo, ou de futuro, também devem ser conhecidas por elas, a fim de que as aprendam para um futuro remoto (por exemplo, não fumar quando crescer, não ver pornografia, saber escolher as amizades…), porque se sentirão felizes e seguras no presente ao saber como contornar um problema que terão que enfrentar, e até para ajudar as pessoas que se iniciam naquilo que elas entendem ser um mal ou anti-valor.

    3 – Ajudar as crianças no amadurecimento psicológico

         Em geral, custa às crianças fazer o que é correto porque o incorreto costuma ser mais fácil: deixar as roupas largadas em qualquer lugar custa menos esforço do que colocá-las em cada gaveta; abrir a geladeira ao sentir fome é mais fácil do que esperar pela hora da refeição; ver desenhos é mais prazeroso que estudar ou ajudar a limpar a casa. Convém animá-las a pensar que agir corretamente poderá ser desagradável no imediato, mas será mais gratificante ao fortalecer, também no imediato, a vontade delas, porque não se deixaram levar por caprichos ou tendências desordenadas, e a médio e longo prazo as farão ganhar para a vida inteira os bons hábitos da ordem e do domínio próprio.

         A imaturidade psicológica, ou a falta de amadurecimento para a idade que possui, torna as crianças dependentes, afetivas de modo desordenado (hipersensíveis), impacientes ou sem capacidade para saber esperar e suportar até as pequenas contrariedades; também as conduz pelo imediatismo dos sentimentos, que as impulsiona apenas a buscar sensações agradáveis e fugir das desagradáveis, mesmo que estas sejam deveres a cumprir.

    4 – Motivar a vontade

         Educar a vontade a fim de que esta tenha força para dominar a afetividade, se consegue ao motivar-se para a realizar aquilo que a razão considerou como um bem, ainda que custoso de fazer. O que dificulta esse aprendizado é a afetividade, que por vezes tem mais força do que a vontade, principalmente na infância e juventude.

         O empenho para ajudar as pessoas a fazer algo que custa esforço chama-se motivar, e isso pode parecer quase impossível durante a infância. Porém, basta pensar nos sacrifícios que as crianças e jovens fazem para se destacar em algum esporte, concurso ou jogos competitivos, para perceber que estão aptas também para assumirem responsabilidades apropriadas à idade que possuem.

         A motivação para a vontade realizar sacrifícios ou esforços com o objetivo conseguir algo, mesmo que seja passageiro e com pouca repercussão no desenvolvimento da maturidade psicológica (decorar a letra de uma música, fazer com paciência uma dobradura, aprender um jogo de mesa), será sempre útil como treinamento para desenvolver a força de vontade, que depois será utilizada para o aperfeiçoamento psicológico na superação de inseguranças (preparar-se para um concurso), certos temores (falar em público), vencer traços negativos do caráter (vergonha, timidez, etc.) e outras emoções que bloqueiam ou paralisam o funcionamento racional e próprio de uma pessoa madura.

         Quanto maior for a força da vontade, maior é a facilidade para agir racional e livremente. Alguém com a vontade débil passa a ser impulsionada pelo motor afetivo (sentimentos, emoções, estados de ânimo), deixando de ser racional e, portanto, torna-se menos livre. As crianças pequenas são psicológica e biologicamente imaturas e funcionam impulsionadas por seus afetos. Por isso, quando um adolescente ou um adulto age a partir de suas vivências afetivas, costuma-se dizer que é infantil ou imaturo.

    5 – Educar a afetividade

         O desenvolvimento da vontade para alcançar o autodomínio supõe vencer as tendências afetivas ao aceitar passar mal a curto prazo e fazer o que custa esforço. Quem age assim sentirá a alegria do dever cumprido, sempre mais profunda e duradoura que a afetiva, que é momentânea e deixa em seguida o sabor amargo da infidelidade e da comodidade, quando não da covardia.

         Já foi dito que a afetividade tende a agir para se sentir bem ou não se sentir mal, de modo imediato. Assim, educar a afetividade consiste em conseguir que ela seja uma aliada da inteligência e da vontade, ao segui-las para realizar o bem, não porque seja o mais agradável de se fazer. Com o tempo, a afetividade quando se une à razão e à vontade, também consegue se sentir bem de modo imediato e mais profundo.

         Influentes psicólogos chamam de neuroticismo ao traço dominante nas pessoas imaturas e propensas a se mover por emoções e sentimentos de caráter negativo, que nelas são mais habituais e intensos que os positivos. Por isso, tais pessoas são reativas aos estímulos do ambiente em que vivem, tal como marionetes emocionais movidas pelos fios comandados por uma mão externa que são as circunstâncias variáveis, tornando-as impulsivas, dependentes, emocionalmente instáveis, ilógicas e pouco senhoras de si mesmas, e necessitadas de uma educação que fortaleça a vontade para controlar e dominar a afetividade, a fim de que possam agir pela razão, pois cabe a esta a ação de julgar sobre o bem e o mal das ações externas e as funções psíquicas ou internas.

         Ultimamente, o mundo esportivo monopoliza a atenção dos meios de comunicação, e alguns educadores passaram a dar mais importância ao desenvolvimento das habilidades físicas dos jovens, e pouca atenção ao desenvolvimento psicológico deles. O que vemos muitas vezes é que bons esportistas logo se perdem porque sua formação psicológica é fraca e se deixam arrastar por algum vício que rapidamente destrói a sua carreira. O esporte é um grande meio para fortalecer a vontade, pois exige grandes e contínuos esforços. Porém, não se deve limitar o esforço da vontade apenas para a realização de desafios físicos, mas também para exercitar a coordenação das ações psicológicas, que é característica da maturidade.

    6 – Quem educa deve ter maturidade psicológica

          A tarefa de coordenar as funções psíquicas pela continua educação da inteligência e o fortalecimento da vontade, deve ser permanente, positiva e alegre. Não se pode desanimar, mas começar e recomeçar a luta diariamente. Na época atual, uma dificuldade adicional para a educação da maturidade psicológica é a escassez de pessoas que saibam formar a personalidade dos jovens. O bom formador deve ser uma pessoa madura para saber ensinar, com exemplos práticos, o caminho da maturidade e de como superar os obstáculos mais frequentes para progredir nessa estrada, pois já o percorreu: diz o refrão “ninguém ensina o que não sabe”, ou seja, ninguém é bom guia em território que não o tenha percorrido muitas vezes. Por outro lado, um bom formador da personalidade deve ter a motivação suficiente para essa tarefa, e estar convencido da importância da formação interior para alcançar uma vida verdadeiramente feliz, de serviço aos demais, e não de egoísmos.

    Texto adaptado por Ari Esteves da obra “Maturidade psicológica e felicidade”, de Fernando Sarráis, Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009. Imagem de Yan Krukau.

  • Maturidade psicológica

    Maturidade psicológica

    1 – Harmonia entre a cabeça e o coração. 2 – Os fenômenos psíquicos podem alterar o funcionamento do corpo. 3 – O desconhecimento da interioridade pessoal. 4 – A importância exagerada do êxito social. 5 – Aperfeiçoar as capacidades superiores. 6 – Para dominar a afetividade. 7 – As crianças e a manifestação dos sentimentos.

    1 – Harmonia entre a cabeça e o coração

         A maturidade psicológica revela-se no comportamento harmonioso entre cabeça (razão e vontade) e coração (afetividade). Esse equilíbrio é hierárquico porque uma das partes (inteligência e vontade) está acima da outra (afetividade) ao ter capacidade para analisar, decidir e executar. Essa superioridade é a que distingue o homem dos demais animais. O fracasso em obter esse equilíbrio hierárquico é a base da imaturidade psicológica.
         No ser humano se integram elementos biológicos, psicológicos e espirituais, que precisam de tempo para alcançar a plenitude. No desenvolvimento fisiológico ou corporal, as forças mais importantes são determinadas pela genética (aspectos primários), enquanto as influências do ambiente são secundárias (aspectos secundários). Porém, no desenvolvimento psicológico o aspecto secundário é o temperamento, de base genética, e o aspecto primário, que são as forças do ambiente e da educação, é que atua fortemente na formação da personalidade.

    2 – Os fenômenos psíquicos podem alterar o funcionamento do corpo

         Cada órgão do corpo humano se integra a um sistema (digestivo, cardiovascular, respiratório…). No plano psicológico, a mente, que se comunica com o corpo por meio do sistema nervoso, é formada por várias faculdades (vontade, inteligência, memória, imaginação, percepção e afetividade) que se inter-relacionam. Os estados psíquicos podem alterar o funcionamento do corpo, e o funcionamento do corpo também pode alterar os estados psíquicos. Os fenômenos psíquicos ativam o sistema nervoso e estes produzem modificações no funcionamento do corpo (sudorese, taquicardia, palidez, enrubescimento, tremor…); e as funções fisiológicas que alteram as substâncias químicas do corpo podem modificar o funcionamento do sistema psíquico (depressão, desânimo…).

         Atualmente, devido ao predomínio de correntes hedonistas e materialistas, há forte influência dos aspectos corporais sobre o psicológico, o que explica a importância que se dá à forma física e às sensações corporais para o bem-estar psicológico (inclusive ao vício das drogas). Supõe-se que a felicidade humana consiste em sentir-se bem fisicamente e experimentar prazer. Ao se considerar o corpo como protagonista principal da felicidade, valoriza-se a beleza externa, a saúde corporal, a plenitude física obtida com o esporte. Porém, a hipertrofia ou aumento de um sistema atrofia outro. A valorização ou agigantamento do corporal fez descuidar o saudável desenvolvimento psicológico, e isso se nota no aumento de pessoas imaturas, propensas a enfermidades mentais e a ter mais conflitos sociais que dificultam a convivência pacífica no âmbito familiar, laboral e social.

    3 – O desconhecimento da interioridade pessoal

         À medida em que cresce o número de indivíduos obcecados pela perfeição corporal, descuida-se o desenvolvimento da interioridade pessoal, e esse desequilíbrio faz aumentar o número dos que carecem de dois elementos importantes da felicidade: 1) a capacidade de entrar em si mesmo (introspecção) para autoconhecer-se e avaliar o equilíbrio e desequilíbrio interiores; 2) a capacidade de dominar as funções psíquicas (percepção, imaginação, memória, pensamento e afetividade), cuja inabilidade leva à busca de estímulos externos para os sentidos, sensações e afetos.
         Há pessoas que sabem definir o quer vestir, comer, como se divertir, que esporte praticar… Porém, não sabem refletir sobre as características psicológicas que possui ou que gostaria de desenvolver, a fim de fomentar uma personalidade rica, sadia. Sabem avaliar a beleza corporal externa, que é facilmente modificável com uma boa roupa, penteado e perfume, mas não têm a mesma clareza sobre em que consiste a beleza interior e o que significa ser uma pessoa de caráter, autêntica (não falsa), com autodomínio, reta (não subornável), entre outras qualidades, pois tais aspectos ao valerem muito mais também exigem maior esforço para se conseguir.

         Nota-se hoje um empenho maior em ensinar conhecimentos úteis para triunfar na vida social, e pouco se faz na transmissão de aprendizados necessários para crescer nos aspectos interiores para ser feliz. Parece não haver consciência de que o êxito social tem relação direta com a maturidade psicológica, e que esta não é mero fruto da passagem do tempo ou da recepção passiva das influências do ambiente, mas é consequência do esforço, da luta pessoal em forjar o próprio caráter. Chegar à maturidade psicológica é tarefa que se inicia nos anos de infância e juventude; e será mais hercúlea e até impossível de se conseguir na idade adulta, tal como ocorre com certos aprendizados que se não forem alcançados na infância tornam-se difíceis ou até impossíveis de se atingir na idade adulta (andar de bicicleta ou patins, aprender matemática…).

    4 – A importância exagerada do êxito social

         A sociedade atual exagera a importância do êxito exterior e subestima a do êxito nas qualidades interiores como caminho para a felicidade. Por falta de profundidade interior, há quem necessite da aprovação externa para ser feliz porque se convenceu de que só o será quando for socialmente reconhecido seja pela fama, poder ou dinheiro. Essa atitude se reflete também na educação das crianças ao se dar especial importância a que tirem boas notas, saibam vários idiomas e tenham professores particulares para reforço escolar. Com isso, se convive pouco com os filhos e não se percebe suas carências caracterológicas e temperamentais para serem corrigidas, mas não deixam de ser animados a escolher determinada profissão porque se pensa que serão felizes se ganharem muito dinheiro. Trata-se de uma visão estreita, já que no futuro eles poderão ter uma gorda conta bancária, mas se não tiverem qualidades interiores (maturidade psicológica), não serão estáveis e profundos nas relações familiares, profissionais e sociais, e essas dificuldades de convivência os tornarão infelizes.

         Os programas educativos atuais não transmitem às criança e aos jovens atitudes positivas frente às situações normais da vida, com o fim de solucionar os problemas e não fugir deles: ou seja, para que saibam superar o medo ao sacrifício por alcançar um ideal, para vencer os estados de timidez e insegurança, para que não sejam egoístas, hipersensíveis e fracos de caráter. Por isso, muitos adolescentes são emocionalmente instáveis, influenciáveis (manipuláveis), dependentes de que façam as coisas por eles, impulsivos, inconstantes, características da imaturidade que atuam sobre o comportamento e desencadeiam modos superficiais de ser: imaturos, acomodados, frívolos…

    5 – Aperfeiçoar as capacidades superiores

         Saber como funcionamos por dentro é necessário, pois temos que conviver conosco a vida inteira. Além disso, para se acertar no modo de tratar os outros (esposa, filhos, amigos, colegas de trabalho) é necessário primeiramente saber como lidar consigo, a fim de limar as arestas e potencializar as qualidades para melhor servir aos demais.

         Cada ação humana livre produz efeito no mundo exterior e deixa marca no mundo interior do agente, formando o caráter: se a ação é boa faz melhorar o mundo e quem a pratica; se é má prejudica a ambos. Obter o máximo aperfeiçoamento das capacidades superiores e harmonizá-las com a afetividade equivale a obter maturidade psicológica pessoal. É importante ter uma educação que mostre, por um lado, o que é bom e o que mal; e por outro, a necessidade de pensar sobre qual é a melhor atitude a adotar e a melhor maneira de agir.

         O pensamento é a função pela qual a inteligência humana chega à verdade, o que faz do homem um ser racional, que é a primeira e essencial qualidade da natureza humana. A vontade deve estar estreitamente unida à inteligência, pois a força da vontade ao querer o bem impulsiona o pensamento para realizar retamente seus julgamentos: a vontade é a capacidade humana que faz o homem ser livre, o que é outra de suas qualidades essenciais.

    6 – Para dominar a afetividade

         A educação da maturidade psicológica também foi chamada de educação da afetividade, porque desenvolve o hábito de controlar os sentimentos, emoções e paixões por meio da vontade. A afetividade descontrolada impede a maturidade psicológica ao afetar a razão e a vontade. Motivada pelos estímulos biológicos e do ambiente, a afetividade move o sujeito a agir de imediato para se sentir fisicamente bem e evitar sentir-se mal, mesmo que seu comportamento não seja racional, e os meios para alcançá-lo sejam julgados pela razão como nocivos à pessoa e rejeitados pela vontade. A pessoa madura é a que conseguiu harmonia entre cabeça e coração, e faz da afetividade a melhor aliada da razão e da vontade ao levá-la na mesma direção destas.

         Educar a afetividade não supõe anular essa é importante faculdade psicológica, pois sem ela a vida perderia seu atrativo, como ocorre com as pessoas deprimidas, nas quais a afetividade está muito encolhida ou é negativa. Tampouco significa diminuir a sua importância ao fomentar uma visão desfavorável sobre ela. A afetividade é um motor potente do homem, e muitas vezes mais pujante que a vontade. O perigo ocorre quando a afetividade e a vontade buscam objetivos distintos, e o conflito entre ambas faz gerar o sentimento de angústia que leva a enfermidades psíquicas. Outro perigo é permitir que a afetividade exerça habitualmente o comando sobre a razão e a vontade, como ocorre nas crianças e nas pessoas imaturas. Quando se consegue que os dois motores do funcionamento humano (razão e afetos) atuem em uníssono, a capacidade de realizar tarefas importantes se multiplica e a situação interna da pessoa é de segurança e alegria, evidenciando-se nisso sua maturidade psicológica.

         A tarefa de harmonizar a cabeça (inteligência e vontade) e o coração (sentimentos, emoções, paixões) é uma obra de arte psicológica que se parece com a de dominar um instrumento musical, pois ambas requerem horas de prática durante toda a vida. No âmbito musical surgem dois elementos: o instrumento e o artista que deve conhecer e dominar sua técnica. No caso do funcionamento psicológico, um dos elementos é a afetividade com sua multiforme variedade de afetos, e o outro é a razão e a vontade, que funcionam unidas e que devem conhecer e dominar a afetividade.

         Para ter domínio afetivo é preciso que cada indivíduo aprenda a entrar em si (introspecção) a fim de analisar se o sentimento, positivo ou negativo, está de acordo com a razão. Essa tarefa requer tempo e prática, como é exigido para se conhecer bem uma pessoa. A razão é encarregada de avaliar a proporção e a adequação do sentimento em relação ao estímulo que o desencadeou, ou a influência que ele exerce sobre as demais funções psíquicas, em especial a memória, imaginação, a percepção de si e do mundo, e a influência desse afeto sobre a fisiologia corporal (conduta externa verbal, gestual e motora).

         Depois de fazer esses julgamentos, e em função do seu resultado, a pessoa, por meio do querer da vontade, atua para dirigir os afetos e conseguir que sejam proporcionais e adequados aos estímulos que os desencadearam, e para permitir ou impedir sua influência sobre as demais funções psíquicas, ou sobre o funcionamento corporal e o da conduta externa. Conseguir controlar a afetividade, tal como qualquer aprendizagem, requer tempo, prática e paciência.

    7 – As crianças e a manifestação dos sentimentos

         Os pais devem ajudar a criança a realizar juízos sobre seus afetos, animando-a a perceber se o que sente está em proporção com a realidade: perder uma partida de futebol não é o fim do mundo, ou se o seu sentimento de medo está adequado ou não (há medos bobos), ou para que não seja indiferente aos sofrimentos dos demais. Com a ajuda dos pais e educadores a criança começa a ter harmonia hierárquica entre razão e coração como sinal de maturidade psicológica proporcional à idade que possui. No próximo boletim abordaremos a educação para a maturidade psicológica.

    Texto adaptado por Ari Esteves da obra “Maturidade psicológica e felicidade”, de Fernando Sarráis, Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009. Imagem de Aguida Medeiros (@aguidamedeiro).

  • Bases para a personalidade da criança

    Bases para a personalidade da criança

    1 – Alicerce da personalidade. 2 – Autoestima. 3 – Força de vontade. 4 – A criança e a tolerância à frustração. 5 – Senso de realidade. 6Altruísmo. 7 – Os pais e o desenvolvimento da consciência moral da criança

    1 – Alicerce da personalidade

         “Personalidade é um modo estável de se relacionar consigo próprio, com os demais e com o mundo”, diz George Kelly, citado por Francisco Insa. Durante a infância o papel dos pais e educadores é ajudar a criança a desenvolver vários aspectos do temperamento e caráter que serão o alicerce da sua personalidade.

         Para se sentir acolhida desde os primeiros meses de vida, a criança precisa perceber que é amada e ter rostos alegres ao seu redor. Neste sentido, a mãe desempenha um papel importante: sua presença conforta e sua ausência, ou descaso, causa medo e insegurança, que poderá levar a criança à indiferença e a ter um caráter distante e frio com os pais.

    2 – Autoestima

         Para ter autoestima a criança necessita ser valorizada, sendo que isso é compatível com a correção de suas atitudes quando necessário. Aceitar o modo de ser da criança não significa que ela possa fazer o que quiser: é preciso corrigir com carinho e respeito seus defeitos de temperamento e caráter.

         A criança não é um adulto em miniatura e seu aprendizado é mais lento. Não se pode ser desqualificá-la com apodos negativos (preguiçosa, burra, bagunceira, mentirosa…), porque ela internalizará tais etiquetas e passará a se conformar com seus fracassos. Essa compreensão evita os estereótipos que humilham a criança. Elogiar mais e criticar menos: pais resmungões criam na criança a sensação de impotência. Surpreenda seu filho ou filha todos os dias ao parabenizá-lo pelo que realizou bem, pois o subconsciente da criança registrará o agrado e incentivará a repetir a ação. A consideração e o apreço fazem a criança sentir que possui qualidades. Acreditem nos filhos: o otimismo dos pais transmite confiança neles, e a simpatia torna atrativa a figura do educador!

    3 – Força de vontade

         Também é importante que a criança desenvolva a força de vontade, que a levará a perseguir com afinco algo que custe esforço realizar: manter um horário diário de estudo, por exemplo. A criança se move inicialmente pelo imediato, sejam caprichos ou impulsos primários, porque deseja a todo custo se sentir fisicamente bem ou deixar de se sentir mal, mesmo que seja necessário fazer coisas menos boas (fugir do esforço de guardar seus brinquedos) ou deixar de fazer coisas boas. Será preciso explicar a ela que a satisfação de um capricho, por exemplo, ficar passivamente vendo desenhos o dia todo, não a tornará tão feliz quanto montar com paciência e esforço um quebra-cabeça ou construir um belo castelo com lego, ou ter ordenado suas roupas e brinquedos, porque qualquer destas ações a levará exclamar com alegria: − Eu que fiz isso!, como quem afirma ter sido capaz de realizar algo que valeu a pena. A criança compreende que a fuga do bem custoso deixa o mau sabor do fracasso, que além de ser fonte de tristeza, cria o vício da preguiça que a tornará molengona.

    4 – A criança e a tolerância à frustração

         A tolerância à frustração também é um aspecto relevante a ser desenvolvido na criança, pois a levará a não desmoronar diante dos pequenos e inevitáveis fracassos que terá que suportar, seja na infância ou na adolescência. Ela aprenderá a ser resiliente ao tentar uma e outra vez melhorar o resultado de uma meta não alcançada, e isso requer que os pais estejam ao seu lado para a consolar e animar afetuosamente a recomeçar, mas sabendo se retirar discretamente e a tempo de que a criança perceba que foi ela mesma quem conseguiu o feito. Um outro aspecto que a criança necessita aprender é receber um “não” a uma pretensão (não lhe compraram a barra de chocolate), sem achar que o mundo desabou sobre a cabeça dela. Trata-se de uma luta que os pais precisam enfrentar ao não temer o show de um berreiro no shopping ou supermercado, pois será o modo de ensinar a criança a ter capacidade de se adaptar positivamente frente a situações adversas.

         Para que a criança desenvolva tolerância à frustração é necessário que tenha frustrações: crescer entre as almofadas e algodões da superproteção materna ou paterna, despersonaliza e a torna frágil frente aos inevitáveis reveses que a vida traz, já na infância e adolescência. A frustração pode começar desde o berço ao não ser atendida naquilo que pode esperar, pois as mães sabem quando um choro é motivado por alguma necessidade física (alimentação, asseio, frio ou calor, doença…) ou por um capricho que pode aguardar, como pegar no colo ou não acender a luz ao atendê-la de madrugada, a fim de que comece a aprender a esperar e que o silêncio da noite é para dormir (se os pais acenderem a luz ela não distinguirá o dia da noite).

         Há pais que passaram por dificuldades na infância e não desejam que seus filhos tenham essas experiências, poupando-os de todos os sofrimentos. É uma boa preocupação desejar que eles não provem certas situações como a separação dos pais, a falta de carinho, violências sofridas… Mas é preciso pensar que muitas dificuldades que os pais passaram, principalmente a carência de bens materiais pela falta de dinheiro, lhes fortaleceu a vontade, fez crescer o espírito de sacrifício, deu-lhes critérios de vida como a consciência de poupança e o sentido de desprendimento e o de não criar falsas necessidades; também os fez compreender que as coisas se adquirem com esforço, sendo necessário saber esperar, etc. Por isso, dar tudo de mão beijada (principalmente dinheiro e excesso de objetos) priva os filhos dos valores que a virtude da pobreza ou desprendimento aporta à construção da personalidade, e torna-os moles e frágeis de caráter.

    5 – Senso de realidade

         Outra característica para se fomentar na criança é o senso de realidade. É normal na infância uma certa dose de pensamento mágico, uma certa confusão entre sonho, desejo e realidade até na resolução dos pequenos problemas. Entre os dois e três anos de idade é característica a aparição do chamado amigo imaginário, sendo preciso respeitar e não ficar incomodado por isso, consciente de que o pensamento mágico tem a função positiva de ajudar a criança a resolver certos medos e conflitos, e a desenvolver a criatividade. Porém, é preciso incentivar a criança, à medida que entra na pré-adolescência, para que vá se apoiando cada vez mais na realidade, principalmente porque os videogames e as telas digitais criam um mundo fictício e, no mundo real, as soluções não vêm ao apertar botões: se quebrou o vaso de flores não há varinha mágica que o conserte, mas a criança terá que gastar um bom tempo fixando as partes com a cola adequada.

    6 – Altruísmo

         À medida que o campo de relacionamento da criança se amplia, é o momento de fomentar nela o altruísmo, que permitirá superar o típico egoísmo infantil (que é diferente do egoísmo de um adulto, pois este tem conotação moral).  A criança se lança instintivamente à maior fatia de bolo e comerá tudo que aguentar, sem pensar que na mesa há outros que também desejam comê-lo. Pouco a pouco, de maneira espontânea ou porque seus pais a fizeram olhar ao redor, saberá sacrificar seu próprio gosto em benefício dos demais. O ambiente familiar tem um papel chave, especialmente quando há vários irmãos, para ajudar a criança a renunciar seu próprio gosto pelo bem dos outros e para a formação de uma hierarquia de valor baseada no amor, que é base para uma rica vida espiritual, social e religiosa.

         O altruísmo também é fomentado ao ter a criança tarefas ou encargos domésticos apropriados à idade que possui, a fim de colaborar com a ordem, beleza do lar e bem-estar de todos. É injusto pensar que a criança é incapaz de ser solidária e não tenha espírito de serviço para contribuir com seu esforço na construção de um lar alegre e feliz. Negar à criança tais atribuições é fomentar nela o espírito de mera hospedagem e a errônea ideia de que tenha apenas direitos e não obrigações, transformando-a em senhor feudal, cujos pais são meros servos. Evidentemente essa não é a via para a construção de uma personalidade rica e sadia.

    7 – Os pais e o desenvolvimento da consciência moral da criança

         Cabe aos pais apoiar o desenvolvimento da consciência moral da criança, à medida que ela começa a ganhar compreensão de si, da responsabilidade por seus atos e das necessidades dos outros (inicia por volta dos seis anos). Essa consciência será auxiliada pelas normas praticadas em casa desde os primeiros anos da vida da criança, onde o exemplo, as orientações e indicações dos pais se internalizaram e passaram a fazer parte da vida da criança como luzes ou faróis que sinalizavam o caminho. Aos seis anos surge o sentido moral e a criança começa a distinguir o bem do mal, não mais em função do que ensinaram seus pais, mas ouvindo a sua própria consciência, ao fazer um juízo crítico tanto do quem vem de fora quanto do que se passa em seu mundo interior. Para a melhor formação da consciência da criança, os pais devem continuar ajudando-a distinguir entre o bem do mal, dando razões esclarecedoras; evidentemente isso também exigirá que os pais melhorem continuamente a própria formação para educar bem.

    Texto de Ari Esteves com base no livro “A formação da afetividade”, de Francisco Insa, Editora Cultor de Livros, 2021, São Paulo, SP. Imagem de Aguida Medeiros (@aguidamedeiro).

  • O papel da afetividade humana

    O papel da afetividade humana

    1 – A função da afetividade humana. 2 – Diferença entre sentimentos, emoções e paixões. 3 – Os afetos não devem comandar as decisões. 4 – A virtude da prudência. 5 – A educação da afetividade. 6 – Querer agir bem por amor.

    1 – A função da afetividade humana

              Há quem tem dificuldade para lidar e nomear seus sentimentos, emoções e paixões, e se surpreende com seus estados de ânimo e reações, a ponto de desejar saber o que lhe acontece e por que se sente desta ou daquela maneira.

              A afetividade surge na pessoa como uma reação em forma de sentimento, emoção ou paixão ao se relacionar com o mundo, consigo mesma ou com os demais. Diante de qualquer acontecimento significativo, todos notamos uma sensação interior que pode ser agradável ou desagradável, e por isso dizemos que tal coisa nos afetou, e nos sentimos confortáveis ou desconfortáveis diante de fatos positivos ou negativos.

              A afetividade tem uma função importante ao informar que algo é agradável ou desagradável, o que leva a pessoa a procurar ou a evitar esse algo. Seria o equivalente à sensação de prazer ou dor física em relação ao corpo. A afetividade reflete a unidade entre o corpo, mente e espírito porque as emoções, sentimentos e paixões provocam com frequência reações psicossomáticas: taquicardia, sudorese, palidez, enrubescimento, desconforto estomacal, dor de cabeça ou nas costas, etc.

    2 – Diferença entre sentimentos, emoções e paixões

              As emoções costumam surgir rapidamente e com grande intensidade, mas duram pouco: a repentina alegria perante uma boa notícia, a indignação automática diante de um insulto, a emoção que um filme ou a leitura de um romance pode causar…

              Os sentimentos são estáveis e menos intensos que as emoções e paixões, e perduram por mais tempo porque não são uma reação pontual, mas um estado duradouro, tal como o amor, a misericórdia, a compaixão ou o ódio, a inveja, os ciúmes (há sentimentos bons e maus).

              As paixões têm características comuns aos dois anteriores: são intensas e duradouras. Sua principal característica é a de arrastar para a ação de modo mais ou menos veemente e irresistível, em função da personalidade do sujeito: um apaixonado pelo futebol passa a semana toda pendente da partida do seu time e não deixa de assisti-la por nada neste mundo. As paixões se derivam de dois apetites: concupiscível e irascível. Se algo é bom ou prazeroso (um bom filme, uma boa refeição ou um plano de passeio, etc.) é desejado pelo apetite concupiscível: se se consegue realizar a ação vem o deleite; mas se algo é mau, o apetite concupiscível inclina a pessoa a fugir dele: se a fuga não for possível (fugir de uma doença) vem a dor, tristeza, angústia ou aborrecimento. Já o apetite irascível (de ira) faz a pessoa se sentir forte e com esperança de vencer um obstáculo que lhe custa, pois julga que poderá ultrapassá-lo: preparar-se com audácia e determinação para enfrentar um concurso ou o vestibular de uma instituição pública: se alcança o objetivo vem o deleite; se não há esperança de conquistá-lo virá o desespero, a raiva ou a vingança.

              A afetividade é algo que se sente ou se padece. Em princípio, o sujeito não é responsável por ter paixões (a menos que se coloque em ocasião de ser provocado). Normalmente é algo que vem de fora e a pessoa até preferiria não a experimentar, mas acaba sofrendo-a ou padecendo-a. Entretanto, mesmo vindo de fora, está ao alcance de cada um esforçar-se por moderar e não dar tanta atenção a essas sensações interiores. Para isso, deverá fomentar reações positivas e contrárias para arrefecer as negativas: alguém que recebe um insulto poderá ficar remoendo e dando voltas e mais voltas a ele na cabeça, de modo a ficar cada vez mais raivoso. Para serenar e não se deixar arrastar pela paixão da ira poderá tentar justificar que o outro reagiu sem pensar e não pretendia ofender, ou porque sofria alguma contrariedade intensa, ou porque todos podem errar e o perdão é uma atitude que se pode oferecer a um ofensor.

    3 – Os afetos não devem comandar as decisões

              Se os afetos e sentimentos se fazem sentir, isso não significa que devam ser os reitores das ações, pois a pessoa tem sempre a última palavra sobre o que deve ou não fazer. Ou seja, não podemos ser escravos dos nossos sentimentos. Mas, se a vontade for débil ou até mesmo enferma, como ocorre com quem padece de algum vício ou compulsão, será mais difícil manter a afetividade sob controle.

              A afetividade opera no curto prazo e tem um papel muito importante na vida ao indicar o que é agradável ou desagradável, o que é causa de prazer ou de temor, e leva a pessoa a agir em consequência. Contudo, a afetividade deve ser analisada de forma crítica, pois ela possui limitações: as emoções, afetos e paixões são muito individualistas e cada uma puxa a sardinha para a sua brasa (a paixão da gula pouco se importa com a diabete ou colesterol do sujeito). No caso do medo, a afetividade leva a fugir pelo caminho mais rápido se algo pode causar um mal ou desconforto. Porém, fugir nem sempre é a melhor atitude, pois há circunstâncias em que está em jogo um bem maior que obriga a enfrentar os temores com valentia e audácia.

              A afetividade é como uma criança pequena que se deixa levar pelo que agrada e foge do que desagrada: come um pacote de doce porque lhe apetece, sem se preocupar se fará mal, mas não come salada. A mãe terá que explicar a ela que alguns alimentos agradam ao paladar, mas não fazem bem à saúde; outros, mesmo sendo desagradáveis são necessários para que ela fique forte e saudável.

              A linguagem dos afetos é a percepção do que é agradável ou desagradável, e não do que é bom ou mau do ponto de vista moral, pois essa análise cabe à inteligência ou consciência prática. A instância superior da consciência, encarregada de analisar a dimensão moral das ações, indicará se a tendência afetiva deve ser seguida, porque está conduzida pela virtude e nos ajudará a fazer melhor o que deve ser feito ou, ao contrário, não deve ser seguida por se apresentar de forma desordenada, por exemplo, porque está motivada pela vingança, gula ou luxúria.

    4 – A virtude da prudência

              A afetividade por ser irracional necessita de um regente de orquestra que ponha ordem em tantas inclinações por vezes contraditórias. Esse papel cabe à virtude da prudência, que orienta cada afeto ou sentimento para ser uma força interior que apoie as ações retas: é melhor professor aquele que põe sentimentos no que faz; um jovem apaixonado por aviões que pretende ser aviador, enfrentará melhor as dificuldades para tirar o brevê, que lhe permitirá pilotar, mesmo que tenha que fazer o ensino médio pela manhã, trabalhar durante a tarde em alguma empresa para obter o dinheiro com o qual pagará o curso de aviador que terá de fazê-lo de noite (sem a força que lhe dá os sentimentos talvez desistisse logo).

              A virtude da prudência precisa de um norte, de uma direção ou meta para onde canalizar as energias dos afetos. Essa meta é a que cada um livremente escolhe dar à sua vida. Os afetos são bons e fazem parte da natureza humana e por isso estão incluídos na satisfação que Deus teve ao lançar seu primeiro olhar à sua Criação recém-terminada: “Contemplou toda a sua obra, e viu que era tudo muito bom” (Gen. 1,31). Não apenas bom, mas muito bom, como que se regozijando pela obra saída de suas mãos. Somente Deus poderia ter feito algo assim. Porém, às vezes, a afetividade leva a pessoa a se equivocar, pois todos carregamos dentro um princípio inato de desordem (pecado original) que pode obscurecer a inteligência e enfraquecer a vontade para que esta ceda diante de um bem parcial e imediato que falsamente se apresenta como um bem absoluto. Como foi mencionado, administrar sentimentos e paixões não é tarefa fácil, pois cada tendência puxa para o seu lado, esgarçando ou dividindo a pessoa. Daí a necessidade de educar a afetividade por meio de virtudes, pois estas tornam agradável a busca do bem, e assim fica mais fácil reconduzir sentimentos desordenados.

    5 – A educação da afetividade

              Cabe a cada um educar a própria afetividade para que a aparição e a intensidade das emoções, sentimentos e paixões estejam de acordo com o que é o correto, razoável e verdadeiro, e ter apreço pelo que é bom e aversão pelo que é mau. O gosto pelo que é agradável não pode arrastar a vontade a procurá-lo desordenadamente, a ponto de a pessoa abandonar suas responsabilidades; nem poderá rechaçar o dever que não é agradável, quando isso for uma desordem.

              Cada pessoa percebe dentro de si uma batalha interior que pode levá-la a não fazer o bem que gostaria, e a ceder ao mal que não queria realizar. A afetividade humana quando desordenada pode inclinar a pessoa a decidir por coisas que não convêm racionalmente: descarregar a ira sobre alguém, comer com gula um doce que não poderia, tomar bebida alcoólica imoderadamente, buscar relações sexuais fora do casamento, roubar para se enriquecer… As virtudes, que são hábitos operativos bons, fortalecem a pessoa para corrigir as tendências desordenadas da afetividade. A formação da afetividade dá à pessoa algo como uma segunda natureza que a faz atrair-se e deleitar-se com o bem, mesmo que seja árduo, ou que tenha que prescindir de planos bons, mas incompatíveis com a orientação que deu à própria vida.

              É necessário educar a razão ou inteligência não apenas com a informação do que é bom ou mau, mas ao mostrar o motivo das ações, o seu porquê. Com isso, a vontade terá forças para resistir as atrações desornadas da afetividade para perseverar na busca do bem. Evita-se, assim, três patologias: o sentimentalismo (agir só em função do que se sente), o voluntarismo (prevalência da vontade sobre a razão e os sentimentos) e o intelectualismo (dar primazia à inteligência, sacrificando a vontade e os afetos). Qualquer dessas patologias indica um domínio excessivo sobre a pessoa.

    6 – Querer agir bem por amor

              O sentido do dever, necessário para dar um norte às ações, não deve ser anulado. Porém, não devemos funcionar apenas pelo sentido do dever a cumprir, pois isso é insuficiente e se torna exaustivo. Devemos agir bem porque queremos, por amor, pois isso é que dá sabor e sentido à vida. Uma afetividade bem formada faz desejar e buscar o que é bom. A pessoa aprende desse modo a escutar a sua afetividade e a segui-la por decisão própria (racionalmente), e sem se deixar arrastar por ela, tal como o guarda de trânsito controla o fluxo de carros em um cruzamento: se ouve uma ambulância, faz parar todos os carros para dar prioridade a ela; se depara com um motorista imprudente, fá-lo parar e não permite que prossiga para não causar acidentes. Outra imagem interessante é a do cavaleiro que com sua inteligência e vontade dirige os impetuosos cavalos − imagem dos sentimentos, emoções e paixões −, dando a eles a direção que convém: cabeça e coração, inteligência e afetos não devem entrar em conflito, mas caminhar em harmonia.

              Vale a pena assistir o desenho “Divertida Mente”, da Disney, 2015, porque mostra como funcionam em nossa cabeça as emoções básicas que tendem a influenciar o comportamento: alegria, tristeza, medo, nojo e raiva. Essas emoções estão em contínuo diálogo entre si, nem sempre de forma pacífica básicas.

    Texto adaptado por Ari Esteves, com base no livro “A formação da afetividade” (capítulo O que é a afetividade) de Francisco Insa, Editora Cultor de Livros, 2021, São Paulo, SP.