1 – Não basta dar alimento e abrigo aos filhos. 2 – A ordem e as rotinas. 3 – Crescer em espírito de serviço. 4 – Para chegar a ser um adolescente organizado. 5 – Importância da cultura familiar. 6 – Programar o encontro com o belo.
1 – Não basta dar alimento e abrigo aos filhos
Para uma família educar não basta dar alimento, abrigo, segurança e deixar o tempo passar, como se isso suprisse todas as necessidades da alma humana. Um lar formador disciplina em três aspectos práticos que envolvem todos os membros, inclusive as crianças: ordem, por meio de rotinas; espírito de serviço ou preocupação pelos demais através da realização de encargos ou tarefas no lar; e fomenta o crescimento humano e espiritual ao programar encontros com a verdade e o esteticamente belo.
2 – A ordem e as rotinas
A ordem se manifesta nas rotinas familiares a que todos devem respeitar: horário de dormir e de acordar, horário das refeições, horário de iniciar e findar o trabalho profissional; horário de estudar, ler ou descansar… A sabedoria esconde-se atrás das rotinas, que não são algo meramente externo, pragmático, cuja eficiência organizativa visa transformar cada pessoa em robô. A rotina é o caminho para chegar à disciplina interior, para controlar a tendência dos afetos quando estes buscam apenas o prazeroso. A falta de rotina conduz cada um a agir como bem entender: a chegar do trabalho ou da escola na hora que quiser, a fazer as refeições em qualquer local (diante da televisão ou no sofá), a deixar os objetos pessoais em locais diferentes de cada vez, a isolar-se para cuidar apenas dos próprios interesses.
A virtude da ordem tem quatro pilares: ordem material ao manter organizados os objetos da casa e os de uso pessoal; ordem temporal, que leva a cumprir cada tarefa ou encargo no momento previsto; ordem afetiva ou dos sentimentos ao fazer o que deve ser feito e não o que mais agrada; ordem mental ao priorizar o importante e fomentar a capacidade de se auto-organizar.
3 – Crescer em espírito de serviço
Os encargos são aquelas tarefas atribuídas a cada um − inclusive às crianças − a fim de colaborar com o bem-estar de todos na casa. Cada encargo é parte de um trabalho maior a ser alcançado entre todos. Se os filhos não possuírem encargos se habituarão a ter todo tempo unicamente para as coisas pessoais, e se tornarão egoístas, preguiçosos e sem se importar com os demais.
Tanto as rotinas como os encargos se inserem dentro da virtude da ordem, e trazem imensos benefícios a todos os membros da família, e também às crianças: é fonte de estabilidade e segurança ao dar certeza sobre o que fazer em cada momento, faz crescer o sentido de responsabilidade, promove a disciplina interior ao deixar uma atividade e iniciar outra, controla os afetos que tendem apenas ao prazeroso, facilita a obediência, cria no lar um ambiente sereno onde a televisão e outras mídias se mantém desligadas e só serão utilizadas em horários pré-determinados, permitindo que as pessoas tenham tempo para pensar, ler, dialogar ou concentrar-se em suas tarefas…
Até aos cinco anos, a criança deve crescer na dimensão material e temporal da ordem, que dará a ela mais estabilidade comportamental, disciplina, atenção e equilíbrio emocional para controlar seus impulsos (ordem afetiva). É evidente que a criança não deve ser um mini executivo com a agenda lotada e olhos pregados no relógio. Mas se não sabe que fazer em cada momento, torna-se confusa e desordenada.
Para as crianças, as rotinas são criadas com paciência, insistindo durante algum tempo até que as façam sozinhas, e parabenizando-as pelo esforço cada vez que alcançam uma etapa. A rotina de limpar o pó dos livros − ou do espelho, etc. − tem que ser pacientemente explicada, a fim de que a criança não fique confusa e desista ao não se sentir preparada. Não ter pressa ao ensinar é o segredo, já que não se trata de buscar a eficiência material de limpar os livros. A limpeza de uma estante de livros poderá demorar uma semana. O importante é fazer lentamente os movimentos com a mão que tira o pó, depois colocar calmamente o livro na prateleira e retirar o seguinte.
A criança pequena não distingue a sucessão temporal, mas apenas o momento presente: não tem noção de ter o dia vinte e quatro horas, de ter a semana sete dias e o mês trinta. Por isso, ela não sabe o que vem em seguida: se é hora de pintar, lanchar ou de tomar banho. O mesmo acontece a um adulto colocado em ambiente desconhecido: se desorienta e não sabe o que fazer.
É preciso mostrar à criança a sequência das atividades ao colocar uma cartela com desenhos coloridos que indiquem o que vem depois. No Colégio Porto Real, Rio de Janeiro, em cada sala de aula há uma pequena cartela com as quinze atividades que as crianças devem desenvolver ao longo do dia. A encarregada da sala vai deslocando a bolinha para a próxima atividade a ser realizada. Sem isso, elas ficam sem saber se devem ir para o lanche, pátio ou sala. Somente por volta dos sete ou oito anos é que saberá se organizar sozinha (ordem mental).
Não se deve impedir que as crianças desde pequenas tenham encargos, nem substitui-las no que conseguem fazer, mesmo que no início não cumpram com perfeição e exijam paciente e bem-humorado treinamento. Não é suficiente que ela fique metida apenas em suas coisas. A criança executa seu encargo com a alegria de estar praticando um jogo. Ao fazer isso, cresce em autodomínio, independência, preocupação pelos demais e ganha espírito de equipe ou de cooperação, que são hábitos ou virtudes portadoras de felicidade, já que o egoísmo é sempre causa de isolamento e tristeza. A criança a partir de um ano e meio pode jogar na lixeira a fralda suja, colocar seus brinquedos em cada caixa, deixar a roupa na gaveta, dormir e comer no horário.
Isso não quer dizer que as crianças só devam fazer o quem gostam, pois assim jamais cresceriam em espírito de serviço e força de vontade, e ficariam sempre pendentes dos sentimentos e gostos. Fazer tarefas que não nos agradam faz parte da vida. Porém, ao atribuir uma tarefa à criança, levar em conta o caráter e o temperamento dela: tarefas movimentadas podem corresponder àquela mais inquieta, enquanto à mais calma conferir as que exijam maior atenção e cuidado. A idade é outro fator para distribuir encargos, pois sempre haverá escala de dificuldade entre eles. É interessante fazer a distinção entre idade mental e real, pois algumas crianças estão mais capacitadas que outras para efetuar determinadas tarefas, independentemente da idade real. Não incumbir tarefa que seja fácil nem difícil de executar, pois ambas desestimulariam a criança.
4 – Para chegar a ser um adolescente organizado
A criança acostumada a realizar suas tarefas desde pequena, logo se tornará um adolescente organizado e com força de vontade para enfrentar dificuldades. E porque foi estimulada a fazer o que devia, aprendeu a vencer os estados de ânimo: ao arrumar o quarto, roupas e brinquedos, quando não sentia gosto em fazer, fortaleceu sua vontade para enfrentar agora tarefas mais exigentes, como a de ter hábito diário de estudo. Se os pais cedem, os filhos serão arrastados pela preguiça ou comodismo. Permitir que os filhos adiem as tarefas é autorizá-los a que sejam preguiçosos e irresponsáveis. Devem primeiro cumprir o que os pais pedem, e só depois serem autorizados a fazer o que querem:− “Não poderá ir brincar enquanto não recolher os pratos e arrumar a mesa do jantar”. Caso contrário, será desordenado, acomodado e habituado a fazer apenas o que gosta, tal como inundar-se de imagens digitais, que tornam a mente preguiçosa para a leitura de livros, e viverá centrado apenas em si e em suas coisas.
Há pais que impedem seus filhos de crescerem psicologicamente, pois preferem vê-los como eternas crianças. Tal atitude, egoísta e injusta, não os prepara para uma adolescência virtuosa porque não os fazem crescer em autonomia, mantendo-os sempre necessitados de que façam as coisas por eles. O paternalismo ou a superproteção enfraquece a vontade e o caráter dos filhos, pois os substituem nos esforços que deveriam fazer. As crianças não devem ser vistas apenas como necessitadas de ajuda e portadoras unicamente de direitos, mas possuidoras também de deveres para com os pais, irmãos e demais pessoas que se relacionam com a família. Ao contribuir para com o bem-estar de todos na casa, elas crescem humana e espiritualmente: enxugar banheiro, colocar pratos e talheres na mesa, ordenar seu quarto e objetos pessoais, varrer, ajudar os irmãos, ser educadas com os que não são da família…
5 – Importância da cultura familiar
A família é o primeiro âmbito de promoção da cultura e o ambiente mais próximo da pessoa, sendo também o que mais pode ajudar seus integrantes a desenvolver a sensibilidade para a verdade, o bem e o belo. Gustave Thibon dizia que “uma das principais funções da família é criar um ambiente em que a instrução tende a converter-se em cultura e a cultura converter-se em sabedoria no sentido de saborear”.
É triste comprovar que muitos pais não sabem programar os fins de semana, e desaproveitam esse precioso tempo para enriquecerem culturalmente a si e aos filhos. A falta de interesse e esforço dos pais pela própria formação cultural e humana decepciona os filhos, que logo se lamentarão de não apreciarem a música clássica, de serem indiferentes à pintura, escultura, poesia, teatro e literatura, porque seus pais agiram preguiçosamente nesse campo. Há uma relação muito grande entre pais que cultivam sua sensibilidade estética e filhos que também a cultivam. Se os pais não desejam que as filhas pequenas imitem as danças sensuais que veem na TV e cantem letras ofensivas − mesmo que no momento não compreendam o que dizem −, precisam criar no lar uma atmosfera de cultura ao colocar as crianças frente ao que é estética e moralmente mais belo.
As tertúlias ou bate-papos familiares durante as refeições ou momentos de lazer, ilustram as crianças sobre a profissão do pai e da mãe, seus gostos artísticos, seus hobbies. Muitas crianças não sabem como é o trabalho do pai e da mãe porque estes dialogam pouco com elas sobre isso (pensam erradamente que elas não compreenderão). As vivências e experiências narradas enriquecerão as crianças, que se sentirão valorizadas pelos pais. A transmissão do patrimônio cultural da família pode ser feito com fotografias, objetos de decoração que são lembranças de pessoas ou momentos do passado, vídeos e gravações de viagens, tradições e costumes da família.
Os pais não são os únicos responsáveis pela cultura familiar: filhos mais velhos, tias, tios e avós podem colaborar nessa promoção ao falar de seus estudos, hobbies. Convidar amigos para contar alguma experiência interessante: viagem, esporte, artes, colecionismo.
Visitar livrarias e feiras de livros com as crianças, inscrevê-las em bibliotecas públicas, ir a exposição de quadros ou esculturas, participar de audições musicais de diferentes gêneros a fim de que possam comparar o que é esteticamente mais belo, levá-las ao teatro infantil, à leitura de poesias e contação de histórias; programar nos fins de semana sessões de vídeos culturais, históricos, geográficos. E incentivar sempre as crianças a relatarem as impressões sobre o que presenciaram.
Com o espírito elevado pelas boas leituras, a TV, tabletes, celulares e mídias sociais perderão o atrativo, pois se descobriu a maneira mais intensa e rica de aproveitar o tempo. As cinco ou seis horas que muitos adolescentes gastam atualmente com games, vídeos e mídias sociais, e que mal se recordam no dia seguinte do que ficou dessas horas que escoaram sem deixar rastro, tal como água sobre pedra, é um alerta para que os pais incentivem o gosto pelos livros, pois uma boa leitura nunca se esquece e faz ganhar capacidade de expressão, autoconhecimento, criatividade e experiência de vida.
6 – Programar o encontro com o belo
A arte, atividade humana criadora de beleza, é regida pelo sentido da estética e não pelo de utilidade, que é próprio da ciência e da técnica. A beleza tem algo de divino e inspira o coração e a mente das crianças. O teatro, a pintura, a escultura, a poesia e a arte narrativa (conto, romance, novela) tornam rico o espírito humano, que passará a produzir do que se alimenta. As crianças precisam ser introduzidas pelos pais no mundo da cultura, a fim de descobrir a beleza estética encontrada nas diversas manifestações artísticas. Helena Lubienska, discípula de Maria Montessori, relata que a Divina Comédia, de Dante Alighieri, foi lida com avidez em sala por meninos de sete a doze anos. Ela se surpreendeu com a atenção que colocavam na narrativa e a facilidade com que decoravam trechos da obra; e por fim, apresentaram uma peça teatral baseada nesse texto.
O tempo dedicado à leitura de um bom livro oferece muito mais à inteligência e à sensibilidade do que as longas horas deglutindo sucessivos desenhos, jogos eletrônicos e fotos em redes sociais. A cultura das imagens se dirige ao desenvolvimento de sensações e impressões superficiais e passageiras, diminuindo a capacidade reflexiva. A leitura de bons livros leva a raciocinar, a criar as próprias imagens ao remover a imaginação e a memória, a construir ideias sobre a vida e as pessoas, o que leva ao autoconhecimento, além de transmitir critérios que orientam a conduta para o bem.
Texto de Ari Esteves. Imagem de Ron Lach.









