1. Na educação do comportamento, um ano representa muito. 2 – Evitar maus hábitos de 1 a 6 anos. 3 – O hábito da ordem para crianças de até cinco anos. 4 – As três dimensões educativas. 5 – A importância de atribuir tarefas às crianças. 6 – Animar a criança a cumprir seus encargos.
1. Na educação do comportamento, um ano representa muito
Costumamos dizer que ”o ano voou”, que “o Natal chega cada vez mais rápido”, “que já estamos às portas de uma outra Copa do Mundo!”. Agora, em termos de educação, pensemos no que representam um, dois ou três anos na vida de uma criança de 1 a 6 anos! Se foram bem-aproveitados, os pais terão poucos problemas com a chegada da pré-adolescência (7 a 12 anos) e da adolescência dos filhos (13 a 18 anos). Pais que fomentam hábitos de ordem material e temporal ao filho de 1 a 6 anos, evitarão que este seja um pré ou adolescente com vícios difíceis de desarraigar
Muitos pais olham para seus filhos com ternura e graça, e não conseguem imaginá-los como adolescentes, desejando que permaneçam eternamente crianças. Mas é necessário fazer esse exercício para atuar com eficiência e não dormir em louros, pois o tempo escoa como água entre os dedos. Se a criança entre 1 e 6 anos habituou-se a organizar seus brinquedos e roupas, se aprendeu a ser agradecida e solidárias com os demais, se cumpre as pequenas tarefas que lhe foram atribuídas, se foi incentivada em suas qualidades e corrigida em seus pequenos defeitos, já na pré-adolescência será notório o resultado da boa educação recebida desde o nascimento.
2 – Evitar maus hábitos de 1 a 6 anos
A criança que não estiver sendo educada desde um ano de idade na ordem material, que é a primeira a ser desenvolvida, chegará aos 6 ou 7 anos enfraquecida nas dimensões psicológica e espiritual, pois as paixões e sentimentos, que asseguram a passagem entre a vida sensível e a vida do espírito, se estiverem impregnadas pelos maus hábitos conduzirão a criança à preguiça, à fuga dos deveres, ao egoísmo, à intemperança e desobediência, afetando, assim, sua dimensão espiritual, que é a consciência do eu aos 7 anos, e onde residem o sentido de responsabilidade e o amor materializado no serviço aos demais. Desajustada nas três dimensões de sua educação (física, psicológica e espiritual) − que não se encaixarão −, ela passará a ter atitudes erradas devido à grande influência dos hábitos ruins sobre a seus sentimentos e afetos. As crises impróprias da pré-adolescência e adolescência, manifestadas em desobediências, egoísmos, intemperanças, preguiças, medo de assumir responsabilidades (estudar, por exemplo), ocorrem muitas vezes pela falta de educação nas três dimensões mencionadas, desde as primeiras idades.
3 – O hábito da ordem para crianças de até cinco anos
A criança que ganhou hábitos de ordem material desde o nascimento, a partir dos 7 anos passará a ter também ordem na cabeça e saberá organizar e distribuir seu tempo para atender as tarefas familiares, escolares e sociais.
Até cinco anos de idade a educação corporal é vivida intensamente através da ordem material e da ordem temporal. Esses dois âmbitos facilitarão a ordem dos afetos (autodomínio e controle dos sentimentos, emoções e paixões).
Ordem material: guardar brinquedos e roupas, sendo que para os brinquedos os pais devem providenciar caixas com desenhos que indiquem o tipo de peças que deverá ser depositada em cada uma, sem misturar com outras, e mostrar onde cada caixa ficará. Quanto às roupas, o armário ou gaveta deve estar à altura da criança. Há várias tarefas materiais que a criança poderá fazer nas primeiras idades (leia o boletim “Construir a autonomia da criança”). Assim, com bons hábitos adquiridos, mesmo na casa dos avós a criança desejará saber onde deixar suas coisas, e na escola não largará o seu material em qualquer lugar.
Ordem temporal: permite a criança desenvolver rotinas ao ter horário de acordar, mamar, brincar, banhar-se e dormir. Com as rotinas, que não devem ser interrompidas nos fins de semana, a criança se sentirá segura; e a falta delas a tornará inconstante e hiperativa ao largar uma coisa e começar outra desordenadamente, e terá dificuldades para se concentrar. Cada hábito tem um “o que fazer” e um “quando fazer”, sem protelar (leia o boletim “A rotina na vida das crianças”).
Ordem afetiva: a criança deve ser ensinada a moderar sua impulsividade quando perder a partida de um jogo, a preocupar-se pelos outros e a doar seu tempo; a respeitar e ser gentil com os pais, avós, tios, vizinhos, professores e amigos da família; a não mexer em tudo e nem fazer só o que deseja, seja na igreja (– Silêncio, aqui mora Deus!) ou em outro lugar (cabeleireiro, consultório médico, lojas). Ao viver tais aspectos, a criança estará ordenando seus afetos (sentimentos, emoções e paixões).
Ordem mental: desde as primeiras idades a criança necessita aprender que no modo de agir existe um certo e um errado, um bem e um mal, um pode ou não pode, sempre com uma explicação adaptada à sua capacidade de compreensão, e sem gritarias e autoritarismos. Mesmo que até 5 anos de idade não compreenda mais profundamente os motivos, perceberá que há um bem que sempre deve vencer, seja nas atitudes dela, nos desenhos, filmes, contos lidos para elas e no exemplo dos pais.
4 – As três dimensões educativas
Educar significa ajudar a crescer, a desenvolver as capacidades para empregá-las bem. “O cérebro não é um vaso por encher, mas uma lâmpada por acender”, disse Plutarco. A criança pequena é uma entusiasta de todas as coisas, mas necessita das luzes proporcionadas pela educação, a fim de ir se enriquecendo humana e espiritualmente à medida que cresce.
A educação deve atingir o corpo, a alma e o espírito. Essa ordem primeira (corporal) fortalecerá a educação da segunda ordem, a da alma ou mental (inteligência e vontade), que ocorrerá a partir dos 6 ou 7 anos, quando, então, a criança passará também para a terceira ordem, que é a espiritual e onde reside a consciência do eu (− Eu não sou as minhas pernas ou braços; o meu “eu” é quem comanda as minhas pernas e braços, perceberá um dia a criança). O amor, o sentido de responsabilidade e o querer livre (– Quero ajudar a minha a mãe a manter a casa em ordem!) fazem parte da dimensão espiritual da pessoa humana.
As crises da pré-adolescência e adolescência, manifestadas em desobediências, egoísmos, intemperanças, preguiças, medo de assumir responsabilidades (estudar, por exemplo), ocorrem muitas vezes pela falta de educação nas três dimensões mencionadas, desde as primeiras idades. Ver boletim “Como falar com seu filho adolescente“
5 – A importância de atribuir tarefas às crianças
Os encargos, que podem ser muito variados, são aquelas tarefas atribuídas a cada membro da família que, por sua consciência de grupo, são aceitas livremente e como contribuição ao bem-estar geral. O encargo é parte de um trabalho maior que deve ser alcançado em conjunto com demais, e que dependerá dos costumes de cada lar, da idade e do caráter de cada membro da família, e da capacidade de cada um.
As crianças crescem em solidariedade e preocupação pelos demais quando ganham espírito de equipe ou de cooperação, e realizam não apenas tarefas para si mesmas, mas de interesse de todos. Não é suficiente que a criança gaste tempo só para si ao ficar metida apenas em suas coisas. Os pequenos serviços prestados aos demais familiares fomentará nela o desprendimento próprio e a generosidade de ajudar, que são virtudes portadoras de felicidade, já que o egoísmo é sempre causa de isolamento e tristeza.
No âmbito familiar, o mais conveniente – e a meta a ser atingida – é que a ajuda prestada por cada membro seja ditada pelo amor e sentido de responsabilidade, e não porque será cobrada pela execução da tarefa.
Não se deve impedir nem substituir a criança pequena de cumprir qualquer encargo que tenha capacidade de fazê-lo, mesmo que no começo não o faça com perfeição e exija paciente e bem-humorado treinamento. Ao realizar uma tarefa, a criança a executará com a alegria de estar praticando um jogo. E ao se sentir apta para a incumbência a ela delegada, ganhará autodomínio, independência, generosidade, espírito de serviço, preocupação pelos demais…
Ao atribuir uma tarefa à criança, levar em conta o caráter e o temperamento dela: as tarefas mais movimentadas deverão corresponder à criança irrequieta, enquanto à mais calma conferir tarefas que exijam maior atenção e cuidado. A idade é outro fator para distribuir um encargo, pois sempre haverá uma escala de dificuldade nas diferentes tarefas. Não se pode outorgar tarefa que seja fácil demais para a criança executar, nem difícil demais, pois ambas a desestimulariam. É interessante fazer a distinção entre idade mental e real, pois algumas crianças estão mais capacitadas que outras para efetuar determinadas tarefas, independentemente da idade.
6 – Animar a criança a cumprir seus encargos
A criança sente que o mundo está cheio de curiosidades que rapidamente serão trocadas por outras. Se não há nada que a motive, logo ficará cansada ou entediada, seja com os brinquedos que usou, e que depois já não os quer recolher, ou outras pequenas tarefas que realize. Como ajudá-la a colaborar? O elogio dos pais pode incentivá-la, mas é melhor que vá aprendendo a fazer as coisas não por obrigação, mas por querer ajudar, a fim de ir desenvolvendo o sentido de responsabilidade.
Se a criança não se dispõe a fazer uma tarefa que seja capaz de cumprir, isso entra no terreno da educação por meio do encargo. Deve-se estimulá-la a fazer o que consegue realizar para aprender a vencer os estados de ânimo. Ao estudar, mesmo que não sinta ânimo para isso, fortalecerá a vontade e ganhará o hábito do estudo. Se ceder, logo será arrastada pela preguiça ou comodismo.
Para a criança se convencer da importância de cumprir um encargo familiar, dependerá do modo como será solicitado. Não se pode pretender que ela se disponha a fazer algo por conta própria se a autoridade dos pais for violenta, porque assim, na melhor das hipóteses, obedecerá por medo e não por desejar ser solidária e contribuir para o bem de todos.
Para um encargo ser educativo, é preciso explicar à criança que sua execução será uma contribuição para a casa, que necessita da cooperação de todos. Por isso, as tarefas devem ser comunicadas de forma positiva, onde gesto e palavra formam um todo. A proposição suave, seguida de palavras positivas, é mais eficaz: será melhor pedir para “deixar o quarto arrumado pela manhã”, pois transmite voto de confiança de que será feito, do que dizer para “não deixar o quarto sujo e desordenado pela manhã”, porque se afirma que a criança é suja e bagunceira.
Quando um encargo foi assimilado e transformado em hábito, poderá ser acrescentado outro. É possível que a própria criança indique a tarefa que seja mais conveniente para ela, o que aprimora seu espírito de iniciativa. Logicamente ao avançar em idade será necessário atribuir outras incumbências.
Como motivar o cumprimento de uma atribuição? Um outro caminho pode ser o Conselho de Família, onde pais e filhos têm voz e voto, apresentam propostas, e se distribuem os encargos, inclusive para os pais. Nessas reuniões um dos filhos pode atuar como secretário e anotará as tarefas que a família deverá cumprir, e as que correspondem a cada membro.
Quando o Conselho se reunir para verificar o cumprimento das tarefas, os pais devem estar atentos para que essas reuniões não se convertam em acusações. Há temperamentos que não reagem bem ao ver que suas deficiências são criticadas pelos demais. Para isso, algumas semanas antes da reunião mensal, se os pais percebem que algum resultado não foi bom, talvez seja melhor conversar individualmente com o filho que descumpriu com seu dever, até que ele se corrija, a fim de não receber críticas no dia da reunião, que se restringirá à troca de experiências, relato de dificuldades, alteração de algum aspecto do encargo, atribuição de outras tarefas, etc.
Há famílias que adotam um sistema divertido de “multas” se o encargo não foi cumprido: são deduzidas das mesadas algum valor que será depositado num cofrinho. Com o dinheiro arrecadado compra-se um bolo ou doces e o levam a um orfanato ou asilo. Estar atento para que o Conselho, em tal caso, não caia em camaradagens entre pais e filhos que possam conduzir a uma perda de respeito, nem torne ingrata uma ação de amor como a de levar algum agrado a quem está carente de carinho. É interessante que os filhos poupem algum dinheiro para fazer esse ato de caridade, sem necessidade de “multas”.
O sistema de Conselho Familiar para determinados lares pode não ser o mais adequado. Trata-se, então, de encontrar o modelo mais conveniente para um tipo de reunião periódica de avaliação, mais ou menos informal, seja com entrevistas pessoais com cada membro da família, ou unindo diferentes técnicas. O que interessa é que os encargos ganhem vida e importância, e todos se ocupem do bem-comum.
Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, com base em artigos da revista “Nuestro Tiempo”, no 180, Universidade de Navarra Pamplona (Espanha): “Actividades en el hogar”, pgs. 722-734; “Los consejos de família”, pgs. 718-721, “La obediência en el niño”, pgs. 722-734; e o boletim “Ser ou ter: a educação da personalidade”, postado no site staging.ariesteves.com.br/.









