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  • Harmonia entre vontade e sentimentos

    Harmonia entre vontade e sentimentos

     1 – É imaturo quem se deixa guiar pela afetividade. 2 – O conhecimento superficial de si. 3 – Autocontrole: domínio da vontade sobre os afetos. 4 – A vontade fortalecida coloca os afetos nos eixos

    1 – É imaturo quem se deixa guiar pela afetividade

          Quando não se chega a alcançar a maturidade, a pessoa se deixa influenciar pela afetividade (sentimentos, emoções, paixões), que passa a orientar as ações, e não a decisão da vontade. Com isso, a pessoa consegue se sentir bem a curto prazo, pois faz o que lhe apetece afetivamente no momento. Isso produz prazer imediato aos sentidos (sensorial), mas logo vem a decepção ou chateação pelo dever não cumprido. Por vezes, para neutralizar esse sentimento de mal-estar, o imaturo volta a fazer coisas que lhe permitam sentir-se bem de imediato, e assim acaba caindo em círculo vicioso.

           O domínio da vontade sobre a afetividade também favorece o controle sobre as demais funções psíquicas: percepção, memória, imaginação e pensamento. No início, o exercício desse controle supõe tensão e cansaço, que a curto prazo pode ser desagradável; porém, a médio e a longo prazo, a vontade fortalecida conseguirá que a memória e a imaginação se concentrem naquilo que se está fazendo, e isso produzirá maior eficácia nas ações.

         A afetividade busca desfrutar a curto prazo daquilo que mais agrada, e por isso deve ser comandada pela razão e vontade, que buscam analisar, por meio da inteligência, os demais aspectos da realidade, o que não acontece com a sensibilidade, que busca só o que a agrada de imediato. Por exemplo, a paixão ou instinto de comer só busca a sua satisfação e pode levar o diabético a ingerir um pudim de limão; porém, a razão ao examinar outros aspectos, terá presente que a saúde é um bem maior do que o gosto instintivo, e indicará para a pessoa não comer o doce, a fim de evitar a alta dosagem de açúcar no sangue. As batalhas entre a afetividade e a vontade, quando ocorrerem, travam-se em muitos aspectos da vida psíquica. Os sentidos (ouvido, paladar, tato…) ao evitar o desagradável e buscar o agradável, excitante e divertido, o faz mesmo que isso não seja oportuno: leva a comer e a beber o que deveria ser evitado ou por em quantidades demasiadas; leva a ouvir o que agrada, mesmo que distraia das obrigações ou incomode aos demais, etc.

           A afetividade não deve ser reprimida ou anulada, mas submetida ao âmbito da inteligência, que é a capacidade reitora da pessoa humana: é a imagem do cavaleiro conduzindo o cavalo, e não ao contrário. No início será necessário enfrentar o choque entre a vontade e a afetividade: fazer o que não a agrada aos sentidos, ou não fazer o que os agrada, se isso representa uma desordem. Esse choque interno é acompanhado de algum desgosto que pode inclinar a balança para o lado da afetividade, já que para se livrar desse sentimento de desagrado a via mais rápida – e não a mais correta – será ceder em favor dos afetos e emoções, que impulsionam a escolher o que agrada de imediato.

    2 – O conhecimento superficial de si

           A maioria das pessoas tem um conhecimento superficial de si e acerca dos demais. A sociedade atual é qualificada de audiovisual e hedonista porque busca prioritariamente as sensações produzidas pelos sentidos, ao mesmo tempo que valoriza desmedidamente o corpo e a aparência física, ensina Fernando Sarráis1. Pessoas fascinadas pela maneira superficial de viver, pouco se interessam pela raiz de suas vivências interiores ou psicológicas, e por isso não são capazes de construir-se de uma maneira propriamente humana, madura, nem sabem valorizar seus aspectos interiores que, por serem mais ricos, podem oferecer muito mais: como utilizar bem um aparelho ao não saber como funciona? Ao conhecer o seu funcionamento, se desfruta mais com o seu uso.

           Perceber o que se sente em determinado momento é fácil, mas chegar a conhecer os motivos que levam a tais sentimentos não é tão fácil, pois exige conhecer o modo de ser psicológico, que tem várias camadas que podem encobrir as deficiências da personalidade. Deter-se apenas na análise superficial do comportamento é fácil, mas parcial: ter como causa de uma irritação o insulto recebido é fácil, porém, deve-se ir mais a fundo para saber se a afronta sofrida não terá como causa porque se é uma pessoa não grata por ser egoísta ou orgulhosa. O mesmo pode acontecer a quem se sente inferiorizado, pois a necessidade de ser valorizada pelos demais a faz ser muito suscetível a ponto de reagir de modo desproporcional diante de uma mínima desfeita.

           Todas as pessoas têm aspectos positivos e negativos, sejam de temperamento ou de caráter, e o desejo de melhorar, de transformar o negativo em positivo, torna a pessoa otimista, pronta para uma luta alegre e esportiva. Quem não teme identificar seus próprios defeitos, erros ou limitações é realista e chega a se conhecer com profundidade (a ausência de medo não distorce sua autoavaliação). O conhecimento realista de si vem acompanhado de um conhecimento realista do mundo, o que ajuda acertar na escolha dos meios necessários para alcançar as metas pessoais.

          Para conhecer-se com profundidade, um fator importante é gostar de si mesmo, e sentir-se valorizado não pela admiração que os demais tenham por si, mas pela própria dignidade da pessoa humana, que se fundamenta em ter sua alma criada por Deus, e pelo amor que Ele tem por cada filho seu. Ter um sadio amor a si leva a agradecer as próprias qualidades, recebidas gratuitamente de Deus, e a conhecer e a lutar contra os defeitos ou imperfeições do caráter ou do temperamento, sem nunca se sentir inferiorizado (a falta de amor a si leva a sentimentos de inferioridade). A estima de si é forte motivação para o autoconhecimento, que leva a se sentir seguro na luta por melhorar, porque se sabe aonde ir e aonde se quer chegar. O sadio amor a si impede conviver com as próprias falhas comportamentais, tal como não se quer conviver com bactérias nocivas dentro de si. Para conseguir que a afetividade não seja influenciada por sentimentos negativos que abafem a vontade, também é importante ter uma visão positiva de si, e saber rir das circunstâncias adversas, vendo nelas oportunidades de superação pessoal, pois tal atitude exerce influência favorável ao funcionamento da vontade.

    3 – Autocontrole: domínio da vontade sobre os afetos

          Em nossa época há grande interesse em conseguir uma boa aparência física, e se dá menos importância para conhecer o funcionamento dos aspectos psicológicos, a fim de que sejam maduros e sadios, razão essa de ocorrer tantas enfermidades psíquicas nas diferentes idades, inclusive na infância. Na sociedade atual, o sofrimento ou esforço não é malvisto para melhorar a performance esportiva, acadêmica ou profissional, porque é o preço a pagar pelo êxito no mundo exterior; mas não se vê com bons olhos o esforço interior para ser audaz, sincero, laborioso, casto, temperado, fiel. Porém, o desenvolvimento psicológico supõe esse esforço interior como condição para desenvolver as virtudes, necessárias para se conseguir o equilíbrio entre cabeça e coração (entre vontade e afetos): o mundo interior sendo mais rico que os aspectos exteriores, podem oferecer muito mais!

          Autocontrole é o domínio que a vontade exerce sobre as funções psíquicas e afetivas que influenciam o comportamento. Para consegui-lo é necessário um desenvolvimento suficiente da força de vontade, a que chamamos de virtude da fortaleza, que é conseguida pelo habitual treinamento de fazer o que deve ser feito, sendo isso determinado pela inteligência ou razão (no caso das crianças, pela inteligência de seus educadores). Querer fazer o que se deve ser feito é ato da vontade, e não dos sentimentos: querer é um ato da vontade ou do livre-arbítrio, e gostar é uma inclinação dos sentimentos (portanto, irracional). Por vezes, podemos não gostar do que deve ser feito, mas esse querer, sendo um ato da vontade, e esta é movida pelo amor (o amor é ato próprio da vontade), dá forças a ela para superar a falta de gosto dos sentimentos: uma mãe que levanta de madrugada para atender ao filho, o faz por amor − por um querer da vontade −, já que o gosto de seus sentimentos seria para continuar na cama.    

          No processo de aprendizado do autocontrole, também chamado de educação da afetividade, podem ocorrer três etapas:

        1ª) As crianças pequenas, porque nelas a afetividade é dominante, devem ser orientadas pelos pais.

        2ª) A etapa do equilíbrio entre afetividade e vontade na adolescência, porque essas duas potências interiores podem conflitar-se e fazer levar a uma vida dupla: agir com lógica e liberdade como se fosse adulto, ou agir sem lógica feito criança movida pelos sentimentos e emoções.

        3ª) Etapa das pessoas adultas e maduras, onde a afetividade e a vontade têm poucos conflitos, porque com frequência se age na direção do que é bom e correto. É a etapa da razão que move a vontade, e esta arrasta a afetividade atrás de si para apoiar a decisão.

    4 – A vontade fortalecida coloca os afetos nos eixos

           Nos momentos de conflito, e para superar a falta de gosto decorrente do enfrentamento entre a afetividade e a vontade, é necessário ter uma vontade forte para querer seguir o que a razão indica, e não o que determinam os afetos. Fortalece-se a vontade por meio de pequenos exercícios diários de domínio próprio: viver a ordem e a pontualidade para não ceder à comodidade da desordem, ao não abrir a geladeira fora de hora (controle dos instintos), ao colocar esforço para manter a atenção naquilo que se faz, ao cumprir uma disciplina diária (horário de dormir, de acordar e de refeições; pontualidade no trabalho, etc.). Esses pequenos vencimentos fazem não ceder imediatamente aos caprichos e comodidades, e com isso a força dos afetos diminuirá ou será canalizada para apoiar a vontade naquilo que é correto fazer.

    1Texto extraído e adaptado da obra “Maturidade Psicológica & Felicidade”, de Fernando Sarráis, Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2020, por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Desenho de Aguida Medeiros (@aguidamedeiro)

  • Inteligência ou depósito de futilidades

    Inteligência ou depósito de futilidades

    1 – Os olhos e os ouvidos são os porteiros da alma. 2 – Para ser mais profundo, selecionar os assuntos na internet. 3 – A mente preguiçosa foge dos livros. 4 – Nem tudo que gostamos deve ser feito. 5 – Saber distinguir o que é brilho falso

    1 – Os olhos e os ouvidos são os porteiros da alma

        Os sentidos externos (olhos, ouvidos…) são como que os porteiros da alma que permitem a entrada daquilo que nutre a inteligência, a vontade, a memória e a imaginação. Deixar os olhos e os ouvidos vagarem por qualquer lugar transforma a cabeça em depósito de futilidades, de quinquilharias.

        As horas e horas consumidas na internet e em redes sociais, sem critério algum e apenas para se distrair, fazem desperdiçar um tempo valioso que poderia ser utilizado para desenvolver as próprias qualidades ou talentos pessoais, a fim de melhor servir aos demais. As mil imagens que passam diante dos olhos, feito água sobre pedra, e a enxurrada de informações desencontradas, nada oferecem de substancioso e deixam um acúmulo de conhecimentos inúteis que servem apenas para tornar a mente preguiçosa e arredia a qualquer esforço para se aprofundar em assuntos que valem a pena.

    2 – Para ser mais profundo, selecionar os assuntos na internet

        Somos seres limitados, sem tempo para fazer tudo o que gostaríamos. Por isso, temos que selecionar aquilo que vale a pena, seja no campo profissional, cultural ou de entretenimento.

        Quem se aprofunda em um assunto que aprecia, ou para o qual se sente preparado, seja no campo artístico, literário ou cultural, saberá contemplar a beleza e a verdade com mais profundidade e poderá servir melhor aos demais com seus conhecimentos. Mas esse aprofundamento exigirá selecionar as buscas na internet, dando prioridade a palestras, vídeos e textos que abordem o assunto de preferência.

        O homem moderno se mexe muito, mas anda na superfície de si. Sabe da vida de artistas e esportistas, mas desconhece a si próprio. Tudo se resume em curiosidades. O excesso de imagens que consome diariamente dá a ele a ilusão de que conhece tudo, mas não sabe processar tantas informações desencontradas. Vazio de ideias próprias, seu conhecimento é periférico e só tem a espessura das telas, e se apaga com ela com um clique: sua opinião é a das mídias, pois vive do consumismo de informações e imagens.

        Ao temer refletir sobre si, o homem moderno foge do silêncio, pois este facilita o encontro consigo, e por isso almoça vendo telas, no carro liga o som em volume alto, nos transpores coletivos desperdiça um tempo para leituras com músicas no celular, ao chegar em casa se lança afoito ao controle da TV para ouvir vários noticiários. Nos fins de semana não aproveita o tempo para ler as boas obras literárias e fazer visitas culturais aos diferentes museus da cidade, pois prefere as baladas, festas, toneladas de vídeos e games para não estar em silêncio consigo. O barulho em torno de sua vida é ensurdecedor e impede a reflexão e a fala, mas isso não importa porque tem pouco a dizer. Sente tédio do domingo à tarde porque é obrigado a frear sua correria e encontrar-se consigo.

    3 – A mente preguiçosa foge dos livros

        A dispersão em mil imagens, torna fraca a capacidade de manter a atenção em algo que exija esforço, pois a mente se tornou preguiçosa e passiva, e assim, não enfrenta também as boas obras literárias. Quem gasta seis ou sete horas na semana em redes sociais, caso empregasse esse tempo para ler um bom livro, como “A morte de Ivan Ilyich”, de Tolstói, ou o “Pequeno Príncipe”, de Saint Exupéry, jamais esqueceria essas leituras, que são curtas. Porém, as horas gastas atrás de curiosidades na internet não serão recordadas no dia seguinte.

        Os grandes mestres da literatura penetram com profundidade na alma humana, e seus personagens fornecem janelas que permitem a compreensão de si e dos demais. Um verdadeiro leitor não gasta seu tempo limitado rolando telas de celulares e tabletes a procura de frivolidades, nem “lendo mil livros medíocres que embotam seu senso crítico e ferem sua sensibilidade literária” (Nicolás Gómez Dávila).

        Quem ouve uma aula ou palestra, lê um livro ou executa alguma tarefa, deve ter presente o sábio conselho “faz o que deves e está no que fazes“. Quando há luta pessoal para não dar rédeas soltas a caprichos e curiosidades, a fim de colocar os olhos, ouvidos, memória e imaginação naquilo que realiza (Tereza de Jesus dizia que a imaginação é a louca da casa), ganha rapidez de compreensão, fortalece a vontade e cresce na virtude da temperança, que sendo espírito senhoril, coloca freios na afetividade quando esta tenta desviar-se do cumprimento dos deveres.

    4 – Nem tudo que gostamos deve ser feito

        As sensações e caprichos que o corpo reclama não devem ficar à rédea solta, pois nem tudo que gostamos deve ser feito. É mais cômodo deixar-se arrastar pelos impulsos chamados primários ou naturais (comer, beber, descansar), do que enfrentar as responsabilidades. Mas ao ceder, vem a tristeza de não haver cumprido com o dever, e isso enfraquece a vontade, torna frívolo e superficial o caráter e alimenta os vícios da preguiça e comodidade, difíceis de arrancar quando se incrustam na alma.

        A temperança, tal como o sal, dá sabor à vida porque torna a pessoa dona de si, ao lhe dar força de vontade para não gastar as horas com imagens e curiosidades vãs. A temperança não supõe limitação à liberdade, mas grandeza de alma, porque privação e escravidão se encontram na intemperança de se deixar arrastar pelo falso brilho e chacoalhar de latas que embotam a alma dos que navegam sem rumo pelas redes sociais e internet.

    5 – Saber distinguir o que é brilho falso

        Muitas coisas nas redes sociais e internet brilham como lantejoulas baratas. Para encontrar o ouro é preciso peneirar o cascalho ou arrancar a ganga. Quem não faz seleção do que vê, torna sua mente uma loja de briquebraque, de quinquilharias. Quem seleciona o que vale a pena, mesmo que custe esforço e desagrade no momento, percebe que o sacrifício foi apenas aparente, e que ao exigir-se ficou livre daqueles mil fiozinhos que prendem ou atam o coração e tornam a vida estéril. Daí a importância de buscar o que vale a pena, a fim de preparar-se melhor profissionalmente e participar com criatividade e preparo do debate cultural.

        O ser humano se interessa por conhecer aquilo que ama, seja uma pessoa, uma profissão, um esporte, um hobby, um campo de conhecimento cultural ou artístico (literatura, pintura, teatro, escultura, música). Diz Fernando Sarráis, em seu livro “Maturidade psicológica”, que quando se ama algo bom, busca-se conhecer aquilo que é amado, e o amor aumenta mais o desejo desse conhecimento.

        Podemos concluir das palavras acima que, se uma pessoa não sabe o que buscar na internet e redes sociais, com o fim de se aprofundar em algo para melhor utilizar seus dons e servir aos demais, não ama senão à própria preguiça ou comodidade, sendo esta a razão pela qual não se interessa por conhecer algo com maior fundura.

    Texto de Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/.
    Imagem de Aguida Medeiros (@aguidamedeiro).

  • A fortaleza transforma os obstáculos em oportunidades

    A fortaleza transforma os obstáculos em oportunidades

    1 – Somos colocados à prova. 2 – A fortaleza robustece as convicções. 3 – O forte é paciente. 4- Dar um motivo maior aos nossos esforços. 5 – Ter um modelo de fortaleza.

    1 – Somos colocados à prova

        Em nosso dia a dia há momentos de descontração e de contrariedades, e estes sempre nos põem à prova. É preciso aprender a encaixar tanto esses momentos difíceis, quanto aqueles dias em nada saiu como o planejado. A virtude da fortaleza tem a ver com isso, porque transforma os obstáculos em oportunidades e experiências vividas. Com isso, tornamos a orientar nossas ações uma e outra vez na direção correta, e sem sofrer rachaduras irreparáveis, pois tudo na vida passa e as circunstâncias externas sempre podem mudar.

        Há coisas não necessárias para ser felizes, e que às vezes se apresentam como imprescindíveis. Isso pode suceder com certas comodidades que hoje são quase moeda corrente, mas também com outras necessidades que podemos criar, sem nos darmos conta. Desejamos ser suficientemente livres para que as circunstâncias externas não tomem decisões por nós: um incomodo não deve nos roubar o sorriso, o cansaço não deve nos vencer tão rapidamente a ponto, por exemplo, de chegar cansado do trabalho e não dar atenção à criança que deseja contar algo, não renunciar um gosto pessoal em favor de outra pessoa… A fortaleza nos faz menos dependentes de tudo que não seja o amor de Deus, de modo que estejamos contentes entre todo tipo de pessoas, em qualquer lugar, e dedicando-nos a qualquer tarefa.

        Basta um olhar realista ao mundo para reconhecer a necessidade da fortaleza. Notamos que as circunstâncias, positivas ou adversas, nos influenciam. Damo-nos conta da necessidade de sobrelevar certos períodos difíceis sem abater-nos, nem perder a serenidade. Além disso, sabemos por experiência própria que as coisas valiosas requerem esforço e paciência: desde levar adiante uns estudos ou vencer um defeito do próprio caráter, até cultivar relações profundas com outras pessoas ou crescer na amizade com Deus.

    2 – A fortaleza robustece as convicções

        Não devemos ficar com uma visão estreita da fortaleza, como se ela fosse apenas um fatigoso esforço que nos leva a ir contra a corrente. A fortaleza não consiste num exercício acinzentado da vontade por superar-se, não se queixar, resistir diante do que não queremos ou não entendemos. Ver a fortaleza dessa maneira esgota qualquer pessoa. Ser forte consiste mais em robustecer nossas convicções, em renovar sempre o amor que nos move, em fazer brilhar com maior força em nós os bens autênticos. Então iremos eleger cada vez com mais facilidade e gosto aquilo que verdadeiramente queremos.

        Quem carece de fortaleza talvez não seja capaz de evitar um comentário brusco, nem consiga sorrir quando se encontra cansado. Nessas situações, a fadiga é o motivo que pesa mais nas reações ou decisões, e que faz a pessoa perder de vista outras razões pelas quais vale a pena se esforçar.

        “O que se necessita para conseguir a felicidade, não é uma vida cômoda, mas um coração enamorado” (Sulco 79). O caminho de qualquer homem é exigente porque requer um amor cada vez mais profundo, e como diz uma tradicional canção “coração que não quer sofrer dores, passa a vida inteira livre de amores”.

    3 – O forte é paciente

        O forte não se desespera porque sabe esperar. Não perder a serenidade diante de um fracasso, nem se intranquilizar quando os frutos dos esforços tardam a chegar, é obra da paciência, que é virtude anexa da fortaleza. Ser paciente não é consequência de um otimismo simplório, nem resignação, mas fortaleza pura, pois quem sabe suportar uma contradição permanente, tal como uma doença incurável, é mais forte do que aquele que pode enfrentar uma situação que tenha esperança de vencer. A fortaleza é a atitude do homem livre que ama não só por momentos ou temporadas, mas luta com os olhos postos no fim último que o aguarda.

    4- Dar um motivo maior aos nossos esforços

        Quem faz crescer em si a virtude da fortaleza não só é capaz de se sobrepor ao cansaço, como o faz porque percebe que isso causa um bem a si e aos demais. Terá mais facilidade para sobrepor-se e enfrentar suas fraquezas, quem descobre um valor transcendente ou caminho para amar mais a Deu: ao dar um fim mais alto à ação de levantar-se na hora fixa, ou de evitar uma queixa, ou dedicar tempo a alguém quando espontaneamente não o faria, será mais fácil de realizar ao se ter em vista um bem mais alto.

        Cada sacrifico livremente assumido, cada contradição acolhida sem rebeldia, cada vencimento feito por amor, reafirma na pessoa a convicção de que a felicidade se encontra em Deus, mais que em qualquer outra realidade. A luta cotidiana se converte, então, em conquista progressiva do bem verdadeiro, em caminho de esperança. Nas decisões pessoais, buscar habitualmente o bem autêntico dá ânimo para não se conformar com o imediato ou com o efêmero.

        Ser forte é a atitude própria de quem percebe o valor real das coisas. Ver no processo de vencer-se em pequenas coisas não apenas o desafio de sobrepor-se a si mesmo, mas um modo de ser mais livres ao vencer sentimentos (não racionais) que impedem o livre-arbítrio de fazer o bem que custa realizar, mas que a consciência pede para realizar.

        A alegria e a paz dependem mais do que verdadeiramente é querido pela vontade, do que pelas circunstâncias de cada momento, sejam elas externas ou internas. A luta por crescer na virtude da fortaleza leva a enfrentar o medo ao esforço a ser empregado na realização de um bem. O forte sabe perseverar no bem, mesmo que isso não seja o “mais gostoso”.

    5 – Ter um modelo de fortaleza

        Podemos adotar como modelo de fortaleza uma pessoa que conhecemos e que soube exigir-se, seja o pai, a mãe, avós, um amigo, ou algum personagem cuja biografia nos encantou. Porém, quem mais encarnou essa virtude foi Jesus Cristo, que vem sendo modelo de fortaleza para cristãos ou não, pois ele soube relacionar-se com a adversidade e a dor sem construir muros ao seu redor, nem se cobriu com uma armadura para evitar as feridas. Isso é interessante, pois o recurso a muros e armaduras impede o contato e o diálogo com a realidade, e cria uma rigidez que impossibilita mover-se com soltura. Amar o mundo significa ter a capacidade de poder relacionar-se com ele, seja em sua riqueza ou em seus imperfeitos, causados pelas ações humanas. Pedir emprestada a fortaleza de Cristo nos torna mais sensíveis, profundos e metidos em cheio na realidade, sem temores.

    Texto traduzido e adaptado por Ari Esteves, com base no artigo “Te seguiré adonde vayas”, em https://opusdei.org/es/article/muy-humanos-muy-divinos-x-te-seguire-adonde-vayas/. Imagem de Ahha Pbkkoba.

  • Educação comportamental dos adolescentes

    Educação comportamental dos adolescentes

    1 – Transmita carinho a seus filhos. 2 – Ensine-o a expressar seus sentimentos. 3 – Ajude seu filho a se abrir. 4 – Ensine seu filho a ser bem-humorado. 5 – Reforce a solidariedade. 6 – Estimule a criatividade de seus filhos. 7 – A importância da disciplina familiar.

    1 – Transmita carinho a seus filhos

            Desenvolver um bom relacionamento com seu filho adolescente é fundamental para a educação comportamental dele. Não basta querer aos filhos, mas é preciso que eles sintam isso! Abrace-o, beije-o à vontade. As crianças que desde pequenas recebem muito carinho de seus pais ganham segurança, desenvolvem uma mentalidade sã e enfrentam melhor as situações mais exigentes. Crianças que receberam poucas manifestações de carinho desenvolvem ansiedade e se sentem mais facilmente deslocadas em outros ambientes. Mas tenha presente que educar com carinho inclui saber exigir. Portanto, carinho e firmeza com os filhos é o caminho para uma educação assertiva.

    2 – Ensine-o a expressar seus sentimentos

        Os seres humanos se emocionam e necessitam transmitir suas emoções. Sentir tristeza ou alegria é algo que não deve ser dissimulado, pelo menos no ambiente familiar. Transmita a seus filhos suas emoções e facilite que eles façam o mesmo. A manifestação dos sentimentos deve ser proporcional àquilo que o desencadeou: nem muita vibração por algo pequeno ou irrelevante, nem frieza diante de algo relevante. Saber expressar os sentimentos é uma arte.

        Os adolescentes necessitam aprender a analisar o que sentem em determinados momentos, e como conduzir-se diante de sua própria afetividade. Os sentimentos não devem ser reitores das ações (esse papel cabe à inteligência e vontade), mas podem ajudar muito na consecução delas: quem faz algo com entusiasmo, faz melhor! Porém, não se deve fazer as coisas apenas quando se sente gosto ou prazer. É importante que os filhos vençam os sentimentos negativos diante do cumprimento de um dever (estudar, ajudar nos encargos do lar, dedicar mais tempo à leitura do que redes sociais, ensinar matemática ao irmão mais novo, manter ordenados os objetos pessoais, etc.). Ao agir assim adquirem um caráter reto e forte, tornam-se responsáveis e fortalecem a vontade para enfrentar atitudes de preguiça e comodismo reclamadas por tais sentimentos.

        Ao avaliar as causas ou origens dos sentimentos, os adolescentes passam a ter um conhecimento mais profundo da própria maneira de ser e dos hábitos adquiridos (bons ou maus). Essa reflexão, própria da consciência moral ou juízo prático, os levará a colocar os meios necessários para corrigir o que percebem ser um desvio de conduta. Assim, passarão a amar e querer o que é correto, e não o que é mais cômodo.

    3 – Ajude seu filho a se abrir

        Não espere que seus filhos se dirijam a você para contar tudo o que os preocupa ou acontece, pois é provável que não farão isso. A experiência de vida e o conhecimento acerca de cada filho permitirá que você conclua o resto ao fixar-se no modo como se expressam. Faça perguntas descontraídas, conte algo para eles, faça-os falar dos seus gostos. Se perceber que há “jacutinga nesse mato”, você poderá atuar a tempo, sem esperar que algum problema ganhe transcendência.

        Acostumar um filho a ter tudo de imediato e sem esforço é condená-lo a uma vida falsa e ao enfraquecimento do caráter e da vontade. Quando, um dia, ele perceber que sem sacrifício não se alcança ideais valiosos, e porque se sentirá fraco para enfrentar os desafios da vida, irá culpá-los por nunca terem recebido um “não” de vocês, pais.

        Os filhos necessitam sacrificar-se para ter as coisas; não devem ter tudo o que querem ou tudo que gostam, ainda que você possa comprar. E dependendo da idade deles (15, 16, 17 anos) devem ter a preocupação de ajudar economicamente nas despesas da casa, seja dando aulas particulares, fazendo “bicos” nas férias ou fins de semana…

    4 – Ensine seu filho a ser bem-humorado

        A melhor maneira de superar os estados de apatia é movendo-se, e o melhor modo de superar o mau-humor é o sorrir. Sorrir, ainda que não se tenha vontade, não é hipocrisia, mas esforço para tornar agradável a vida dos demais, e isso é uma grande virtude. O sorriso faz bem a todos: a quem ri e aos que estão ao seu redor. Quem aprende a rir de si mesmo, aprende a tirar importância dos problemas e a não ser tão afetado por eles. O sentido de humor é importante na família: o riso e o humor familiar reforçam as relações, aumentam a confiança e a comunicação entre todos (pais que vivem reclamando azedam o caráter dos filhos).

        Reforce o otimismo de seus filhos não à custa de especular sobre possibilidade de motivações extrínsecas (ter objetos), mas ao fomentar motivações transcendentes: colocar suas qualidades − que recebeu gratuitamente de Deus − ao serviço dos demais.

    5 – Reforce a solidariedade

        Mostre sua satisfação ao observar que seu filho teve uma atitude compreensiva em relação a outra pessoa; e manifeste sua desaprovação se ele foi insensível, indelicado. A solidariedade é a capacidade de compreender o sofrimento dos demais, e agir para minimizar essas dores. Para que os filhos abandonem hábitos egoístas (meu tempo, meus jogos, minhas coisas), devem aprender a doar ao visitar crianças em orfanatos ou comunidades pobres, e levar brinquedos que já não utilizam, mas que estejam em boas condições; podem levar, junto com outros amigos, uns doces aos anciãos de um asilo, e lá cantar ou tocar violão… A generosidade é virtude que torna feliz as pessoas, e o egoísmo é causa de tristezas. Filhos solidários aprendem a não reclamar diante das pequenas carências ou incomodidades.

    6 – Estimule a criatividade de seus filhos

        A criatividade atua como uma válvula de escape ao permitir que a pessoa coloque à prova suas capacidades. A criatividade nos faz estrear a resolução de problemas novos, permite a adaptação às mudanças e a reagir com mais sucesso diante dos problemas. Convide seus filhos a criar e elogie suas criações. Saiba que a criatividade deve estar dentro deles, e não em atitude de passividade diante de telas digitais. A criatividade deve ser estimulada desde a infância: a criança deve crie seus próprios brinquedos e jogos com embalagens simples e outros objetos caseiros: isso é mais útil do que ganhar carros ou bonecos que fazem tudo ao apertar um botão.

    7 – A importância da disciplina familiar

        O lar deve ser disciplinado, com horário certo para cada refeição, dormir e acordar. Com isso, aproveita-se melhor o tempo e se pode organizar para ler livros de literatura, estudar, ouvir música e enriquecer-se culturalmente antes de dormir. As refeições devem ser na mesa e com a televisão desligada, e não no sofá ou sala de estar. Ao menos em uma das refeições – almoço ou jantar – é importante que todos estejam presentes, e nesses trinta minutos de grata convivência, a conversa girará em torno dos pequenos fatos do dia a dia, favorecendo o diálogo familiar e o amor mútuo.

        Procure que em sua casa haja um local onde se possa estar tranquilo. Muitos vivem em cidades ruidosas, e a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou que 20% dos problemas psiquiátricos ocorrem pelo excesso de barulho, que provoca insônia, irritabilidade, depressão, ansiedade, estresse, esgotamento, dores de cabeça.

        Não permita que sua casa se converta em uma prolongação da rua, nem que os aparelhos sonoros ocupem o protagonismo no lar, porque, além de afetar a saúde, impedem que haja maior trato mútuo entre pais e filhos, torna preguiçosa a mente de todos (ficar diante de telas não passa de uma atividade sensorial que discorre apenas no plano da visão, tal como água sobre a pedra); porém, a leitura de um bom livro instiga a imaginação e força o raciocínio ao transformar o que se leu em imagem mental, em conhecimento que não será esquecido. Leia o boletim Menos telas digitais e mais livros

    Sugerimos a leitura dos seguintes boletins: Como falar com seu filho adolescente e Ensinar o adolescente a trabalhar bem

    Texto elaborado por Ari Esteves, inspirado no artigo “Educar Adolescentes”, da Revista  Hacer Familia, no  63, de Ediciones Palabra, Madrid, Espanha. Desenho de Aguida Medeiros (@aguidamedeiro)

  • Investir em virtudes

    Investir em virtudes

    1 – O bem como aspiração da vontade e dos sentimentos. 2 – As tendências instintivas devem ser avaliadas pela inteligência. 3 – As virtudes regulam as tendências naturais. 4 – Ganha-se uma virtude repetindo pequenos atos. 5 – A influência das paixões sobre a inteligência e vontade. 6 – Luta esportiva para conseguir uma virtude

    1 – O bem como aspiração da vontade e dos sentimentos

        A pessoa virtuosa pensa e age bem: sua inteligência procura conhecer a verdade, e sua vontade quer essa verdade como um bem. O bem é objeto de aspiração não apenas da vontade, mas também dos sentimentos e paixões, que possuem tendências que se dirigem àquilo que sentem como um bem. Se a vontade tende ao bem conhecido pela razão (bem racional), e cada paixão ou instinto tende ao bem que o atrai (comida, descanso, música, leitura, etc), é bom ter presente que cada tendência instintiva pode não ser boa para a pessoa como um todo, e por isso os bens instintivos devem ser analisados pela inteligência. A inteligência tem várias concepções de bem, e cada instinto apenas uma.

    2 – As tendências instintivas devem ser avaliadas pela inteligência

        O bem das paixões ou afetividade não é racional, mas uma tendência que antes mesmo da pessoa pensar ou analisar se convém ou não tal afeto, já se sente inclinado a ele. Por exemplo, as tendências de descansar, comer ou beber podem desviar a pessoa de fazer algo que seria necessário realizar antes mesmo de aceitar a sugestão desses sentimentos.

       Portanto, os sentimentos ocorrem antes mesmo de serem analisemos. Por isso, imediatamente após um sentimento ou tendência, é necessário avaliar com a inteligência para saber se o bem instintivo proposto é conveniente ou não, porque podem afastar de compromissos mais importantes.

       A tendência instintiva de gostar de doces deve ser analisada pela inteligência ou juízo prático. Por quê? Porque a inteligência tem diversas concepções de bens, e cada paixão tem apenas uma concepção do que é melhor: para a tendência de comer só interessa esse bem; porém, a razão que analisa integralmente as necessidades da pessoa, examinará outros bens e concluirá que a saúde é um bem maior do que o gosto por doces, e assinalará ao diabético que não coma doces.

    3 – As virtudes regulam as tendências naturais

        As virtudes são assumidas como critérios racionais de regulação das tendências naturais, já que estas não devem ser satisfeitas de qualquer modo, pois poderiam deixar de ser um bem verdadeiro: comer é uma boa tendência, mas será necessário saber o que comer e quando comer, e quem possui a virtude da temperança conseguirá regular tal tendência.

        A boa eleição tem três atos: pensar bem, decidir e agir, porque é um hábito que depende de uma escolha ou eleição feita pela vontade, que deve seguir os juízos da inteligência prática (consciência), e não apenas ao que agrada aos sentidos. As virtudes ajudam a pessoa a pensar e fazer a boa escolha, e quando se ganha o hábito virtuoso, essa eleição é imediata, pois a pessoa quer e percebe imediatamente o que é bom, quase sem necessitar passar por todo processo de pensar, escolher e agir. A virtude não é um automatismo, mas uma decisão ou escolha.

    4 – Ganha-se uma virtude repetindo pequenos atos

        A boa eleição é um ato da vontade ajudada pela virtude. Toda eleição é motivada por uma intenção e eleição dos meios para alcançar o bem escolhido: quem tem a intenção de não engordar deve eleger os meios: não comer o terceiro pastel, não repetir o prato, não comer fora de hora… Não basta saber a teoria sobre determinada virtude, mas é preciso realizar pequenas e constantes ações em direção a ela. Um ato isolado como o de acordar no horário, mesmo que seja bom, não torna a pessoal pontual e laboriosa; o que a faz ganhar a virtude é acordar todos os dias no horário.

       Para se ganhar o hábito virtuoso de ser pontual, responsável, torna-se necessário acordar todos os dias no horário pré-estabelecido, e essa repetição de acordar no horário, sem conceder nenhum minuto a mais à preguiça, chama-se “minuto heroico”, e faz a pessoa ganhar também a virtude da fortaleza para vencer a preguiça.

       Cada pessoa necessita exercitar-se habitualmente nas virtudes que carece, com os atos correspondentes: atos de sinceridade, de paciência, de fortaleza, de bom humor… Obras é que são amores, e não apenas a boa vontade que não se concretiza em ações.

    5 – A influência das paixões sobre a inteligência e vontade

        Se faltam virtudes, a razão ou inteligência pode se deixar influenciar por sentimentos e paixões e não os avaliar bem, e a vontade, enfraquecida por uma inteligência que pensou de forma errada, não terá forças para corrigir tais desvios. Quando se está fortemente influenciado por algum gosto ou prazer sensível, a inteligência vê-se abafada, anulada, e a vontade se torna fraca para superar tal tendência. Daí vem a importância de adquirir virtudes, que fortalecem o hábito de pensar (inteligência) e de querer atuar bem por meio da vontade.

        Quando se diz que a virtude é um termo médio entre dois extremos, quer significar que ela não está nem na ausência, nem no excesso. Por exemplo, a fortaleza encontra-se no ponto médio entre a covardia (ausência de fortaleza) e o excesso (temeridade), que também é um defeito da fortaleza: atravessar uma pista de velocidade e com intenso tráfico de veículos não é fortaleza, mas temeridade, imprudência, desprezo por um bem maior que é a vida: se não há prudência não há virtude.

        Todas as virtudes estão conectadas. As quatro principais virtudes são: prudência, justiça, fortaleza e temperança, e em torno de cada uma delas giram todas as demais virtudes: sensatez, bom conselho, entre outras, são virtudes anexas à prudência; piedade, gratidão, veracidade, obediência e amizade são anexas da justiça; sobriedade, castidade, modéstia, humildade, entre outras, são anexas da temperança; paciência, magnanimidade, longanimidade, entre outras, são anexas da fortaleza. Sem a virtude da fortaleza, por exemplo, é difícil ser justo: Pilatos queria ser justo e não condenar Jesus Cristo, pois não via nele culpa alguma, mas por não ser forte e temer o povo, foi injusto ao entregar Cristo para ser flagelado e morto.

    6 – Luta esportiva para conseguir uma virtude

        Se cada um lutar para conseguir a virtude oposta ao vício ou defeito que o domina − e animar a outros a fazer o mesmo, seja um filho ou amigo −, se tornará uma pessoa melhor e melhorará também seu ambiente familiar, profissional e social.

        A luta por conquistar uma virtude não é triste, mas alegre, tal como a do esportista que procura a cada dia melhorar um pouco mais seus índices. O esportista nunca pensa em abandonar a luta, jogar a toalha: um dia perde e no outro vence, e assim vai melhorando.

       Mas é bom ter presente para si − e dizer a cada um −, que não se alcança uma virtude em duas semanas, mas em três meses, e à base de repetir pacientemente pequenos atos contrários ao defeito que pretende erradicar. Assim, se alguém falhar na luta um dia ou outro, não desanimará, pois terá presente que a conquista de uma virtude levará algum tempo. E assim, com paciência, se conquista a alma.

    Texto produzido por Ari Esteves para o Boletim Pedagogia do Comportamento (staging.ariesteves.com.br/). Imagem de Pixabay.

  • Ensinar a pensar

    Ensinar a pensar

    1. Descobrir a verdade. 2. Ensinar o adolescente a pensar. 3. Estimular as crianças a pensar. 4. Explicar as razões para agir bem. 5. Os livros oferecem muito mais. 6. Aprender a tomar decisões. Aproveitar melhor o tempo

        A compreensão da realidade, ensina Aldrete Ramos, nunca como atualmente esteve tão repleta de relativismos. A conduta humana se desvinculou de seu fim último e o impulso dos atos humanos é hoje, para a grande maioria, a busca de prazer e de bens utilitários. Os sentidos humanos, saturados pelo bombardeamento de imagens, faz a pessoa se distrair e afastar-se de seu núcleo vital ou de si própria. Com isso, naufraga no vazio existencial e na busca do supérfluo ao não procurar repostas às interrogações humanas que dão sentido à própria existência: quem sou, para onde devo apontar, a que perfeição humana e espiritual devo aspirar? Tais questionamentos, que passam a ocorrer a partir dos quinze anos, necessitam do silêncio interior e do hábito de pensar, que deve ser estimulado desde criança.

    1 – Descobrir a verdade

        A formação de um hábito intelectual não pode ser alcançada nem muito cedo, nem muito tarde, nem de maneira inconsistente (sem sequência em seu grau de dificuldade). O cérebro, conforme vai amadurecendo, precisa de estimulação para organizar-se gradualmente. Se não for estimulado desde cedo, a recuperação dessa função, que não se desenvolveu suficientemente nos momentos oportunos, exigirá depois uma atividade terapêutica. Por isso, o ótimo desenvolvimento de uma faculdade deve estar sempre contemplado dentro do projeto de desenvolvimento integral da pessoa.

        Aldrete Ramos afirma que a descoberta da verdade sobre o próprio ser de cada pessoa e a busca da felicidade não é uma questão de sorte, saúde ou riqueza. Conhecer a verdade sobre as questões que nos envolvem e sobre o que ocorre em nosso meio é necessário para pensar e agir bem; é encontrar o caminho que conduz à plenitude humana, e isto não é fruto nem da erudição nem da ciência, mas do hábito de querer o bem e fugir do mal, e isso exige o pensar. A razão e a vontade nos distinguem dos animais, mas entre ser racional, que é característica humana, e saber raciocinar é coisa distinta e que deve ser desenvolvida.

        Ajudar a descobrir a verdade para viver em harmonia com ela, é ajudar a adquirir o hábito de uma autêntica atitude contemplativa, que ao mesmo tempo desenvolve no homem uma sábia compreensão da realidade, e o dirige a questionar-se sobre as questões mais transcendentes.

        A genuína alegria só se extrai da Fonte perene onde tem sua origem a contemplação da verdade que se esconde nos mistérios do divino e do humano; verdade elevada pouco a pouco e saboreada no profundo gozo espiritual da razão, quando esta se desprende dos apetites sensíveis que se desvinculam da racionalidade. O prazer que a verdade oferece à inteligência humana é capaz de elevar a sensibilidade a um deleite ou agrado maior que o desfrute pontual desvinculado da razão e da verdade acerca da natureza humana.

    2 – Ensinar o adolescente a pensar

        Pais e professores precisam criar em torno dos adolescentes um ambiente de coerência, onde o estudo e o aprofundamento permanentemente das questões vitais devem estar presentes. Evadir-se disso é fugir de dar respostas e deixar os jovens ao acaso das diferentes ideologias, privando-os do direito à verdade:

    1. Ajudar o adolescente a formar critérios por meio de uma doutrina sadia que permita viver de acordo a autêntica dignidade humana, e que dê unidade ao conjunto de verdades de diferentes níveis: técnicos, científico, artístico, moral, social e religioso;
    2. Fomentar a capacidade de julgar os problemas políticos, econômicos e sociais desde uma perspectiva moral que permita distinguir erros e verdades, para livrar-se de manipulações ideológicas;
    3. Ensinar a analisar com profundidade e a argumentar com razões morais, religiosas ou naturais, sobre questões vitais às quais se baseiam a felicidade natural e definitiva do ser humano;
    4. Ter unidade de vida de modo a que não ocorra um divórcio entre princípios e vida prática, diária. Trata-se de aplicar critérios verdadeiros às situações reais e vivê-los, a fim de fugir da duplicidade de caráter que leva a pensar de um modo e agir de outro;
    5. Transformar os desejos em ações que influam positivamente no próprio ambiente, com o fim de melhorá-lo: quem possui uma verdade para o bem de todos, deve comunicá-la.

    3 – Estimular as crianças a pensar

        Como ocorre em todo aprendizado, quanto antes for adquirido o hábito de reflexão, mais firme e permanente será a disposição para decidir e agir bem. Por isso, convém incentivar a criança desde muito pequena a refletir, ao perguntar a ela com frequência: − “Interessante! Por que fez dessa forma?”, para que reflita sobre o motivo que a levou a agir bem e o fixe de modo permanente. E quando se comporta mal, ao se deixar conduzir pelas tendências instintivas ou afetos, é bom animá-la a que da próxima vez, antes de fazer algo, pense na maneira mais correta de agir e tente levá-la à prática.

        Estimular a criança a utilizar mais a inteligência começa por incentivá-la a aprender a descansar criativamente com leituras, quebra-cabeças, xadrez, dama, lego, vídeos culturais previamente programados. Viciar as crianças a descansarem diante de telas digitais é o caminho mais rápido para tornar preguiçosa a mente delas.

    4 – Explicar as razões para agir bem

        Para despertar o processo reflexivo em crianças, convém explicar as razões pelas quais devem agir bem. Essas razões devem ser de curto prazo, pois as crianças vivem o presente e o futuro imediato com intensidade. As razões de longo prazo também devem ser explicadas a elas, a fim de que as aprendam para um futuro remoto (por exemplo, não fumar quando crescer, não ver pornografia, saber escolher as amizades…), e assim se sentirão felizes e seguras no presente ao saber como contornar um problema que terão que enfrentar; e poderão informar àqueles que convivem com elas, para não se iniciarem naquilo que elas compreenderam ser um mal.

    5 – Os livros oferecem muito mais

        O tempo dedicado à leitura de um bom livro fixa-se na inteligência e educa a sensibilidade, mais do que as longas horas vendo discorrer diante dos olhos sucessivas imagens, tal como água sobre pedra, que nada deixa. Jogos eletrônicos, horas e horas de desenhos, fotos e vídeos em redes sociais fazem parte da cultura da imagem, que se dirige apenas ao desenvolvimento de sensações e impressões superficiais e passageiras, e que logo serão esquecidas, diminuindo a capacidade reflexiva.

        A experiência que habitualmente realizo em sala de aula é a de ler uma poesia (por exemplo, O diálogo das rosas, de José Gilberto Gaspar), ou o trecho de um livro (por exemplo, o diálogo entre o príncipe e a raposa, no livro O pequeno Príncipe, de Saint Exupéry). Após uma ou duas semanas pergunto aos alunos se têm lembranças dessas leituras. A resposta é unânime: todos se recordam e são capazes de repeti-las. Então, pergunto se eles se lembram das imagens que no dia anterior viram no celular. A resposta também é unânime: não se recordam de nada. Então explico que aquelas leituras fixaram-se porque penetraram na inteligência deles, e servirão de experiências vitais; já as imagens digitais apenas deslizaram diante do olhos deles, sem tempo para racionalizá-las ou interpretá-las, e nada acrescentaram.

        A leitura de bons livros leva a raciocinar e a criar as próprias experiências com base nos relatos, a formar imagens ao remover a imaginação e a memória, a construir ideias sobre a vida e as pessoas, o que leva ao autoconhecimento, além de transmitir critérios que orientam a conduta para o bem.

    6 – Aprender a tomar decisões

        A família é a escola de virtudes, e onde as crianças aprendem as primeiras noções acerca do bem e do mal, e os valores sobre os quais podem alicerçar uma vida reta e sã. A meta é que cada filho aprenda a tomar decisões de forma adequada à sua idade e saiba administrar a sua liberdade, porque está movido por hábitos que lhe facilitam o autodomínio, a temperança no comer e beber e a ter horários para brincar, estudar e ajudar nas tarefas da casa. Também deve dominar a curiosidade e não entrar em sites que destroem a vida moral e criam vícios difíceis de arrancar.

    7 – Aproveitar melhor o tempo

        Explicar às crianças sobre a importância de valorizar e utilizar melhor o tempo, não gastando-o em redes sociais, videogames, jogos online, que nada acrescentam. Os filhos necessitam de conselhos para desprenderem-se do ambiente digital, que pouco oferecem à inteligência, quando mal utilizados.

        Os mesmos conselhos que orientam o comportamento dos filhos em espaços como o da família, rua, escola, festas, etc. (boas maneiras, recato ou pudor, respeito a si e ao próximo, controlar a curiosidade, evitar a ociosidade, etc.), devem ser utilizados nos espaços digitais.

        Evidentemente desenvolver a inteligência dos filhos é um objetivo fundamental. Porém, não aguardar que eles cheguem aos quinze anos para ensiná-los a pensar. O que se pretende é coroar um empenho que foi se desenvolvendo desde que ele nasceu. O pensamento como atividade contemplativa e reflexiva é a culminação do processo educativo.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base nas obras “Para Educar Mejor”, de Maria Teresa Aldetre de Ramos, Colección Hacer Familia, Editorial Palabra, Espanha; e “Maturidade psicológica e felicidade”, de Fernando Sarráis, Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009.

  • Ensinar a servir

    Ensinar a servir

    1 – Adolescentes precisam de argumentos convincentes. 2 – A idade dos ideais. 3 – Posturas ante a vida. 4 – Motivações dos adolescentes. 5 – Colaborar nas necessidades sociais. 6 – Revelar ao adolescente o sentido do amor humano.

    1 – Adolescentes precisam de argumentos convincentes

         Os pais por vezes estão imersos em grandes correrias familiares, profissionais e sociais e não percebem o quanto o ambiente age de modo negativo sobre os filhos. Ao não lerem, nem estudarem os assuntos atuais e polêmicos, não podem oferecer argumentos convincentes aos filhos. Muitos pais desconhecem o modo atual de dizer as coisas e o tom de voz a ser utilizado, já que não se pode falar de qualquer maneira com um adolescente: uma ordem dada de modo atravessado soa-lhes como provocação; uma resposta fraca e incompleta oferecida a eles, os fará buscar as razões com os amigos, por vezes bastante mal informados. É a idade! Também não se pode impor uma proibição sem oferecer com ela argumentos convincentes. Quando os motivos oferecidos a eles satisfazem a inteligência, já não é preciso temer que o ambiente os afete de modo danoso, porque saberão se impor, inclusive ajudarão os amigos e colegas aos esclarecer-lhes as verdadeiras razões do comportamento humano.

    2 – A idade dos ideais

         O adolescente com sua imaginação faz vasta sondagem sobre o futuro, examina e experimenta mil possibilidades; esquadrinha desejos, debate com os amigos e calibra a autenticidade dos valores que lhe inculcaram os adultos. Este novo período predispõe o adolescente para captar as razões das regras morais, os fundamentos dos valores que os animaram a assumir, incluído o religioso que antes era sustentado pelo emotivo, mas que agora necessita se fundamentar em razões mais profundas.

         A mediocridade é desprezada pelo adolescente, inclusive tem desapreço por si mesmo quando se vê medíocre. Por amar a coerência, manifesta rechaço por meio da gozação àqueles adultos com duas caras ou despersonalizados. Sua preocupação pelo futuro − rumos da pátria, destino do mundo, combate às injustiças, defesa dos mais fracos, desejos de realizar algo grandioso − pode desaparecer se vive imerso em ambiente egoísta e fechado em si mesmo, e tenderá a se refugiar no mundo aburguesado dos adultos que o cercam. Sonha em ser defensor ou libertador, mas se encontra em seu entorno um ambiente frívolo, facilmente abandonará as armas para viver na mediocridade, em mimetismo com um ambiente sem ideal. Se ele não encontra um meio de colaborar para o bem comum, a justiça e a paz, tudo ficará em meras utopias. Só o poder iluminador dos valores vividos em plenitude pela sua família e por ele tornará capaz de mover o adolescente a uma vida de generoso serviço aos demais.

    3 – Posturas ante a vida

         No período mais intelectual que é o da adolescência, o objetivo educativo que se propõe deve apoiar a predisposição natural do jovem por conhecer a essência e o fim de cada ser: sentido da vida humana, família, trabalho, liberdade, profissão… Nesse período o adolescente se vê na necessidade de ter uma postura ante a vida, de adotar sua própria escala de valores ou de aceitar a que propuseram seus pais em períodos anteriores.

         Aos seis anos inicia-se o desenvolvimento do pensamento lógico, a associação de ideias, e as razões que gradualmente vão se tornando mais abstratas até se transformar em pensamento analítico, com enfoque no mais imediato. Com isso, a educação da inteligência avança e se adapta à verdade.

         No período intelectual (15 a 18 anos), o adolescente necessita desenvolver o que se chama pensamento ontológico, que é aquele que investiga a natureza da realidade e da existência. O ontológico, do ponto de vista filosófico, aborda questões relacionadas ao ser. Não é casual que há séculos os jovens nestas idades se propõem sempre as mesmas questões; como não é casual que os primeiros princípios da filosofia devem ser ensinados na época do ensino médio.

    4 – Motivações dos adolescentes

         Com frequência o adolescente cai na tentação de ficar na eficácia externa, e se esquece da alegria que representa trabalhar por convicção, por valores transcendentes (que ultrapassam a si mesmo). Níveis de motivações que podem mover um adolescente:

    1. Motivação extrínseca (exterior): comer, vestir-se, ter muitas coisas materiais, se divertir. Este nível de motivação é primário, egoísta, transitório, e não suficiente para alcançar a verdadeira felicidade, que está no amor (o egoísmo encerra a pessoa na infelicidade, na inveja);

    2. Motivação intrínseca (interior): inclui o desejo de saber mais para apossar-se do mundo da cultura, da ciência ou da arte. Esta motivação é mais perfeita e duradora que a anterior, mas pode levar facilmente ao orgulho, ao envaidecimento diante das qualidades pessoais ao mostrar a sua própria valia e obter reconhecimento, sem perceber que suas habilidades foram dadas gratuitamente por Deus;

    3. Motivação transcendente: ultrapassa a própria pessoa, que quer doar-se aos demais. Esta motivação aperfeiçoa e fortalece a vontade porque a faz vivenciar o verdadeiro amor, que é doar-se àquilo onde vale a pena gastar a vida. Nesta motivação estão os sonhos dos jovens que querem mudar o mundo para melhor. Os motivos transcendentes plenificam com a verdadeira alegria. A felicidade que proporciona o ato virtuoso não se pode comparar jamais com a satisfação puramente sensível do “ter”, e nem sequer pelo prazer que proporciona o “saber fazer” ou o desfrutar do saber. Somente quem trabalha por convicções assentadas no amor, que é o mais alto valor, poderá realizar-se a si mesmo e conquistar a verdadeira felicidade ao dar um fim útil à própria liberdade.

         Uma menina de treze anos que tinha como encargo limpar a cozinha às tardes, comentava desanimada com sua preceptora que detestava fazer isso, e que preferia limpar a casa inteira a ter que limpar a cozinha. Porém, a mãe não cedia e a menina não entendia isso. A preceptora animou a menina a buscar motivos que a ajudassem a decidir-se pela cozinha, ao tentar fazer sua mãe contente, mas sem querer que a mãe cedesse ou trocasse seu encargo. Pediu que a menina refletisse que, além de deixar a mãe feliz, tivesse a certeza de que estaria se preparando para fazer coisas mais difíceis que certamente a vida lhe reservaria, e que oferecesse esse sacrifício por tantas pessoas que sofrem provas difíceis, doenças incuráveis… Tais argumentos foram decisivos e a menina percebeu que estava sendo egoísta e que faltava a ela a virtude da fortaleza para enfrentar situações que não a agradavam.

         Sempre será um motivo persuasivo o imperativo de fortalecer o próprio caráter, de crescer na humildade, de oferecer a Deus sacrifícios por amor aos demais, de participar no bem comum da família e da sociedade em que se vive… São motivos transcendentes que proporcionam grande alegria e ajudam a crescer em liberdade e maturidade.

    5 – Colaborar nas necessidades sociais

          Na vida de infância e na pré-adolescência prevalece fortemente o vivencial e o emotivo. Já os adolescentes para reafirmar sua autonomia e estrear a intimidade recém-descoberta, necessitam de esclarecimentos lógicos, breves, concretos e convincentes, ou seja: sem longos discursos, que detestam. Mover o adolescente para uma vida de serviço generoso será um desafio se na infância e na pré-adolescência isso não se concretizou.

       Os adolescentes são capazes de decidir seu destino, arriscando-se por algo que vale a pena! Animá-los a participar de tarefas que sejam ajuda aos demais, é um grande bem que se pode fazer a eles. As oportunidades que os pais têm para que os filhos sejam fortes e possam enfrentar a vida, está nas ações para o bem do próximo: visitar e prestar ajuda em asilos, orfanatos, comunidades carentes, enfermarias, etc.

         Os adolescentes que despertam para as necessidades sociais dificilmente se deixarão arrastar por frivolidades e caprichos, porque descobriram o valor de sua própria existência e não irão desperdiçá-la em planos mesquinhos. Criar oportunidades para os adolescentes participarem do bem comum se concretiza inicialmente nas pequenas ações frente às necessidades do meio em que vivem. Se fogem disso, ao abandonar seus bons desejos, perceberão um dia que poderiam ter mudado para melhor muitas situações injustas.

         No período da adolescência a inteligência reclama razões práticas aplicadas às realidades concretas e cotidianas que impulsionem a agir. Quantos pais de família se perguntam, angustiados, pelo método adequado para tirar seus filhos de uma vida cômoda, egoísta, a fim de que se abram às necessidades do próximo.

         Certo garoto semanalmente ia com seus amigos a uma ONG para ajudar os idosos lá internados. O ambiente que presenciaram inicialmente era triste. Porém, com o passar do tempo tudo foi se transformando: limparam, consertaram, semearam flores e árvores, pintaram a cozinha, ensinaram alguns idosos a jogar dominó e xadrez, e outros a ler e escrever; ajudaram a escrever cartas ou simplesmente os escutavam e os consolavam. Os garotos logo se deram conta de que a maior transformação ocorrida não foi a do local físico, mas a da alma deles, que se curou da vida frívola em que viviam.

         Quando a personalidade se fundamenta no amor, na preocupação pelos demais; quando se ensina a desprezar o supérfluo e a renunciar a uma vida cômoda, estéril, e a aproveitar melhor o tempo; quando se incentiva a ter motivos transcendentes e a não temer o esforço exigido pelos ideais mais altos, a opção por servir aos demais será uma consequência natural, como também a verdadeira felicidade que isso traz.

    6 – Revelar ao adolescente o sentido do amor humano

         O amor humano, como força que se orienta à vida, se abre ante nossos olhos como um mistério que revela e esconde ao mesmo tempo a profundidade e a riqueza do encontro entre duas pessoas. Pode-se dizer que o amor humano recria a vida por seu próprio dinamismo, em uma chamada superior que reclama a fecundidade e a fidelidade definitiva. Por isso, o verdadeiro amor só pode crescer no calor da família, e se mostra ao adolescente quando a união entre seu pai e sua mãe vai mais além do corporal e alcança o espírito, a alma, revelando toda a profundidade e a dignidade do encontro amoroso. Isso explica que o amor dos pais participa do mistério do amor divino, e flui em uma nova vida na qual se dilatam os corações de seus pais em um amor que se torna cada dia maior, não somente pelo prazer que o fecunda, mas pela vontade de amar e de doar-se a vida inteira.

         A grandeza do fiel amor conjugal ilumina a inteligência dos filhos para a compreensão do sentido verdadeiro da sexualidade humana. Trata-se de uma vocação à qual se orienta a existência e à qual se realiza um projeto definitivo, porque nele se descobre a missão pela qual vale a pena o sacrifício e a entrega, como um pacto formal do amor verdadeiro.

         Muitos jovens estão entediados por viver uma vida sem verdadeiros valores. Agem apenas em busca do prazer e com isso alteram o sentido da sexualidade e do amor, na etapa da vida em que a consciência reclama razões sólidas que permitam encontrar um modo de colocar as qualidades pessoais ao serviço dos demais. Preferem que o instinto rompa qualquer ideal de serviço que os faria verdadeiramente felizes.

         A sexualidade humana começa a ser despertada na adolescência. Mas é preciso ensinar a cada jovem que ela deve ocupar o quinto ou sexto lugar em sua vida, pois antes disso estão outros ideais: o estudo, aprender línguas ou um instrumento musical, direcionar-se para uma profissão, apoiar ONGs que cuidam de pessoas necessitadas, mergulhar nos clássicos da literatura para conhecer as profundezas da alma humana, penetrar no conhecimento da fé em Deus para tornar vida essa vivência e para ter respostas para si e para ajudar os amigos… O namoro não é um mero passatempo, pois quando é utilizado nesse sentido acaba sendo utilizado de má maneira. O namoro é o momento para conhecer melhor a pessoa com quem se pretende montar um projeto familiar. Porém, antes disso, é necessário solidificar a formação humana e espiritual para crescer em maturidade e fortalecer a personalidade.

         Na verdade, não se deveria falar de “educação sexual”, mas de “educação da afetividade”. A falsa “Educação sexual” desumaniza o amor e o substitui pelo comércio genital, pela busca de sensações que desembocam no prazer momentâneo. Pretende-se atar os jovens a uma corrente de sensações físicas, que inclui, além do sexo, o luxo, a velocidade, o conforto, o álcool, os tranquilizantes ou os excitantes, as grifes, as modas, a fim de manter neles um falso sentido de felicidade (artificial e passageiro).

         Na etapa vital da criança (0 a 6 anos) é preciso iniciar com clareza, e de acordo com a incipiente curiosidade infantil, que ainda não tem caráter libidinoso, as conversas sobre o verdadeiro sentido da sexualidade humana. Para isso, sugerimos ler o boletim Filhos: informação sexual, no site staging.ariesteves.com.br/boletins. A criança, desde muito pequena vai necessitando de informações à medida de sua capacidade de compreensão, e os pais não devem ter medo de dar essa necessária informação. Não se trata de falar a uma criança de 4 ou 5 anos do mesmo modo com que se deve falar a um adolescente, como bem explica o boletim acima citado. Quando chegar à adolescência, torna-se necessário oferecer razões mais profundas e definitivas a respeito da sexualidade humana.

    Texto adaptado e completado por Ari Esteves com base na obra “Para Educar Mejor”, de Maria Teresa Aldetre de Ramos, Colección Hacer Familia, Editorial Palabra, Espanha. Imagem de Katrin Bolovtsova.

  • Ensinar a querer

    Ensinar a querer

    1 – A educação integral da pessoa humana. 2 – Fortalecer o caráter. 3 – Desenvolver a sensibilidades dos 6 aos 11 anos. 4 – A dor e sofrimento educam. 5 – Desprender-se do supérfluo. 6 – A importância da família. 7 – Ensinar a viver o amor

    1 – A educação integral da pessoa humana

         A pessoa humana deve ser educada em sua totalidade, e não apenas no aspecto profissional, artístico, científico ou esportivo. Falar da educação do coração é falar da totalidade do homem (inteligência, vontade e afetos). No período de 6 a 11 anos há uma predisposição natural para deixar-se educar o coração, mais que em outras idades, sendo que esse ensinamento é base para o desenvolvimento posterior de capacidades diferentes para a realização de outras tarefas e compreensão de outras realidades: saber viver o sentido do amor, da família, do trabalho e da sexualidade (temas não abordados – ou mal abordados – nas escolas, mas vitais para a verdadeira felicidade da pessoa, e que competem aos pais como primeiros e principais educadores dos filhos). 

         Durante o processo educativo os pais devem ensinar aos filhos a querer, a servir e a pensar (estes dois últimos aspectos serão abordados nos próximos boletins). Ensinar a querer é ensinar a viver com fortaleza e com alegria as inevitáveis contrariedades da vida; é cultivar a finura e a sensibilidade ante a grandeza e a beleza; é deixar o coração se comover ante a dor alheia para que a vontade responda com generosidade, a fim de remediar as necessidades dos demais (ensinar o coração a condoer-se); é fazer notar que o trabalho ou tarefa é um serviço aos demais… A indiferença é hoje uma doença progressiva em nossa sociedade, que se constata na passividade e na apatia frente às dores dos demais: viver fechado no mundo pessoal leva ao egoísmo e este conduz à tristeza e ao embotamento da alma.

         Entre 6 e 11 anos a criança pode viver verdades e valores não como hábitos irrefletidos, mas por meio de sua vontade, quando educada, pois nela reside o querer livre e consciente. É o momento de iniciar a conscientização dos filhos de que não basta pensar no modo como ganharão dinheiro com a profissão que um dia escolherão, mas em ter uma vontade forte para que queiram o bem e não cedam ao mais fácil ou cômodo, nem temam assumir ideais grandes que exijam esforço para serem conquistados.

         Educar o coração e os afetos se consegue com uma vontade forte, que saiba querer. Para ensinar a colocar o coração naquilo que vale a pena, a criança precisa ser orientada, pois sua tendência é ir ao mais fácil e prazenteiro, é sentir-se bem mesmo fazendo o que não é bom (deixar seus brinquedos e roupas desordenadas, não ajudar nas tarefas do lar, comer a qualquer hora, não ter disciplina…).

         Se pode considerar o coração como o princípio não apenas localizado no órgão corporal do lado esquerdo do peito, mas em toda a sensibilidade da pessoa, que se vê afetada integralmente pelas realidades que a circundam. Na educação do coração é primordial compreender o sentido da dor, da contrariedade, do cansaço e da morte, que e o fim de todos.

    2 – Fortalecer o caráter

         Podemos afirmar que o caráter é para o coração o que os músculos são para o corpo. É óbvio que músculos flácidos não resistem a pesos, e se rompem. Assim se passa com o coração quando a vontade e fraca e o caráter é débil: se rompe ante as penas ou dificuldades. Muitas neuroses ou doenças de origem emocional procedem da falta de fortaleza ou debilidade de caráter. Dar ao filho tudo o que pede e evitar dizer um “não” a ele, e poupá-lo das exigências normais da vida é torná-lo débil de caráter, é despersonalizá-lo, é impedir que cresçam em espírito de serviço. Uma parte importante da educação para a dor e para o espírito de serviço apoia-se na virtude da fortaleza.

         Na estrutura da personalidade humana somente é possível educar para o serviço se, depois do autodomínio, sabemos forjar um coração forte, ordenado e que saiba amar. Compreender, perdoar, desculpar e corrigir os filhos a sós e com carinho, não impede a clareza da mensagem e o emprego de energia almofadada quando necessário, pois tais normas marcam definitivamente a etapa dos 6 aos 11 anos.

         O carinho que educa é oferecido sempre num marco de exigência e de serviço ao outro, e tem algo de divino que se manifesta no olhar, no gesto, na atitude festiva (o amor converte a vida em festa); na compreensão das fraquezas e defeitos, mas animando a corrigir-se; em saber prestigiar sem adular; é carinho ofertado a todos, mas que se manifesta como exclusivo para cada um.

    3 – Desenvolver a sensibilidades dos 6 aos 11 anos

         Não basta querer aos filhos: o ambiente de carinho que deve rodeá-los não elimina a exigência e a correção, quando necessárias. Não basta também que sejam instruídos em muitos saberes técnicos ou culturais: é preciso formar seu caráter. Aprender a querer está em pequenos detalhes como ter sempre as mãos limpas para não deixar marcas nos estofados, paredes e portas; é esforçar-se para deixar cada coisa em seu lugar e cuidar de não estragá-las com modos bruscos ou maus tratos; é ter detalhes de cortesia e bons modos com pessoas que não são da família; é jogar ou brincar sabendo sacrificar o resultado para conservar a unidade entre as pessoas; é evitar discussões e tentar compreender a razão dos outros; é ser agradecido, principalmente com Deus pelos dons recebidos…

         A sabedoria popular chama de “dureza de coração” ou “frialdade de sentimentos” a quem não manifesta um coração grande, magnânimo. A atmosfera que o lar deposita no coração da criança tem importância decisiva na formação da consciência dela. Frente a postura de dureza de coração cabe verificar o sentido que os pais dão à dor, pois a insensibilidade vai endurecendo o coração e perde-se o sentido purificador da solidariedade.

    4 – A dor e sofrimento educam

          A dor pode ser transformada em atitude de amor e de serviço. Aprende-se a sofrer, a amar, a servir e, concomitantemente, a ser feliz no lar, e desde o período de 6 a 11 anos, pois nele a criança desenvolve maior ressonância sensível.

         Todos estão de acordo com a definição não científica, mas de grande sentido comum, que com o coração sofremos e nos alegramos. Parece que a afetividade humana se reflete no coração, mais que em outras partes, e de modo diferente em cada pessoa. É fácil observar como duas pessoas são afetadas de maneira distinta diante do mesmo fato; nem sequer se pode dizer que a intensidade de um sofrimento pode ser causada pela privação ou importância de um bem. Em certa escola, um grupo de quatro meninas, entre seis e sete anos, perdeu o pai no período de poucos meses de diferença, sendo que as reações foram desiguais: uma delas se afetou de tal maneira que durante quase seis meses não pôde voltar ao colégio, pois tinha febre e vômitos causados pelo estado emocional; outra voltou a chupar o dedo como costume que há mais de dois anos tinha abandonado; outra aproveitou sua situação para chamar a atenção ao falar continuamente dos detalhes que rodearam o acontecimento; outra se tornou retraída, desajeitada e nervosa, surgindo dermatite em sua pele.

         Os acontecimentos, ainda que semelhantes, são rodeados de circunstâncias diversas que provocam dor cuja intensidade e resultado depende de cada pessoa. A dor é a resposta diante da perda de um bem devido à nossa natureza, mas cada ser humano sofre de maneira diferente. Se ante um pequeno acidente os pais reagem com serenidade, solucionando com naturalidade os problemas, as crianças compreendem que aquilo não tem grande importância. A fortaleza e a serenidade são ingredientes indispensáveis a pais e filhos para aprender a enfrentar e suportar a dor.

         A dor, a contrariedade e o cansaço assumidos na realização dos deveres se identificam com o amor e o espírito de serviço, e estes tornam possível aceitar aqueles, sem se deixar enganar ao substituí-los por compensações absurdas. Quando a dor é rechaçada, adotando-se ante ela uma postura insensível, procurando o analgésico ou deixando-se levar pelo desespero ou pela fuga, se rompe a unidade e a harmonia interior da pessoa, provocando um novo sofrimento. Nos pequenos casos apresentados a seguir nota-se o desejo desordenado de compensação ou fuga.

         Um menino de dez anos, depois de permanecer alguns meses na cama, engessado por todas as partes, o que provocou nele grandes feridas na pele, depois de curado se empenhava para que seus pais satisfizessem seus caprichos mais absurdos: ouvir música a todo volume até à meia noite, e se alguém se queixasse do incômodo o garoto exagerava com o que ele havia passado; exigia de seus pais gastos desproporcionados às suas possibilidades, argumentando que nada se comparava aos sacrifícios que ele havia sofrido; resistia a qualquer exigência, aludindo à injusta situação que viveu, considerando cruéis e culpando a todos os que não sofreram o que ele teve que aguentar, e a todos os que não estivessem dispostos a compensar o que ele havia sugerido.

         Uma menina de sete anos, cujo pai abandonou a família, viu sua mãe que, dedicada a resolver a situação econômica do lar, descuidou de preencher de sentido o sofrimento que causou na filha a fuga paterna. Enquanto isso, a menina encontrou na casa da avó um refúgio gratificante, pois esta, com pena da menina, a satisfazia com mimos e presentes. Com isso, a menina se tornou grosseira e desrespeitosa para com a mãe, e queria estar sempre na casa da avó. A mãe achava que essa reação da filha era consequência “normal” do que havia sofrido, e com falsa compaixão, sem perceber acabou mantendo o ressentimento da filha contra ela. A mãe deveria ensinar a menina a sofrer e a dar sentido à dor provocada pela injustiça que sofreu, e que já não seria possível remediar, pois assim a teria feito crescer em maturidade e misericórdia, que é uma meta alta que deve aspirar o coração humano. Fugir é ocupar-se de qualquer coisa que impeça estar consigo mesmo para não aceitar a dor.

         Existem fugas tão bobas que vão desde comer chocolates a toda hora, comer por comer, buscar uma diversão atrás da outra, ouvir rádio ou ver televisão indiscriminadamente, etc. Aceitar a dor, a contrariedade, o cansaço, a doença, a morte é aceitar a vida. Não há ninguém que possa mudar tais realidades: “da morte ninguém escapa, nem o pobre, nem o rei, nem o Papa”, disse Santa Terezinha. Falsificar a dor é colocar a pessoa a caminho de perder a saúde mental. Em troca, aceitá-la é dar sentido àquilo que é difícil, é transformá-la em amor purificador e redentor, e esse amor engrandece a alma e a salva.

    5 – Desprender-se do supérfluo

         Há sofrimentos não necessários, mas provocados pela frustração de muitos desejos inúteis que se despertam num coração desavisado e que se vê bombardeado de múltiplos estímulos sensíveis: muitos sofrimentos são evitáveis ao educar o coração para se desprender do supérfluo.

         Hoje é necessário ensinar as crianças a manter o coração desprendido de tantos bens supérfluos que são apresentados a todo momento e de forma atraente. A cada cinco minutos a publicidade digital descarrega inúmeras ofertas com o recado de que são “indispensáveis” para a nossa vida. As crianças são vítimas de modismos e grifes, e devem ser alertadas por seus pais sobre esse assédio consumista. Que aprendam a ser criativas ao inventar suas brincadeiras com embalagens e outros objetos simples, por exemplo. A imaginação da criança é mais rica que os produtos comerciais! O botão deve estar dentro das crianças, e não em aparelhos elétricos ou digitais.

    6 – A importância da família

         O homem tem por natureza uma estrutura familiar, e em seu âmbito psíquico-afetivo existe uma necessária ressonância que procede desse recinto vital que é o seu lar. A segurança emocional da pessoa procede principalmente da estabilidade da família. A unidade dos pais se projeta na identidade de cada filho. Pode-se dizer que uma criança tem tudo − mesmo que careça de muitas coisas materiais −, quando em seu lar exista uma unidade familiar fundamentada no carinho entre marido e mulher.

         Sem um lar verdadeiro, o homem se despersonaliza e se perde ao buscar sua identidade entre a massa. Chama a atenção ver como a moda é adotada de maneira mais intensa em jovens com famílias desestruturadas. Adolescentes que provém de famílias unidas, onde reina o carinho, manifestam uma personalidade mais definida e se apegam muito menos às imposições dos modismos e das grifes.

         Filhos que desde pequenos desempenharam tarefas no lar para o bem de toda a família, são impulsionados por motivos de amor porque percebem que servir é mais que um dever: é atitude de amor aos demais. Tal comportamento se manifesta também entre seus amigos da equipe esportiva, nas excursões, no ambiente escolar e de vizinhança, pois seu ânimo e alegria são evidentes e contagiosos.

         No lar se aprende a viver esses valores que dão calor à vida cotidiana e deixam marca na alma infantil. A fé, ilustrada com as narrativas bíblicas, transmite uma imagem luminosa que se imprime na alma da criança. Logo virá a etapa seguinte, onde o estudo dos temas relacionados à fé reforça na razão as convicções que agora se semeiam no coração. A força e o dramatismo da leitura de bons contos transmitem valores que despertam nas crianças desejos de heroísmo, de grandeza, de generosidade, de desprendimento, de magnanimidade, de ternura, de sacrifício…

    7 – Ensinar a viver o amor

         O amor e a dor se unem somente nas fronteiras da misericórdia. Seria absurdo pensar que a educação somente pode ocorrer no marco perfeito da família ideal. É preciso educar de modo a contar com a deterioração mais ou menos grande da saúde das pessoas com o passar do tempo: amar ao fraco é padecer com paciência a sua dor. Diante da deterioração do corpo de quem se ama, se buscam os mil meios para que seja curado, e não se despreza a pessoa pelas feridas que sofre, sejam físicas ou espirituais.

         Todo ser humano, por pior que seja sua conduta moral, terá capacidade de erguer sua vida, se sabe prender-se na mão que vem do alto e das mãos que o amor humano alarga como um ponto entre a miséria e grandeza. Este caminho somente decorre entre o oceano da misericórdia divina e o Céu da esperança. O homem tem que ser completo não apenas momento presente, mas em todas suas possibilidades de transcendência eterna. Não se deve centrar a atenção no pior momento da vida de alguém, como se não houvesse uma história na qual se pudessem destacar coisas boas entesouradas, ou como se não existisse um futuro com mil possibilidades para refazer-se.

         A misericórdia é tecida com fortaleza e paciência, com exigência e suavidade. Amar com um amor misericordioso é compadecer-se das misérias alheias, compreendendo e desculpando, sem se tornar cúmplice ou vítima em atitude doentia. O amor sabe suportar a dor presente e olhar o futuro com esperança e serenidade; o amor nos torna bons, nos impulsiona e eleva, nos purifica e renova.

         Quem na adolescência não aprende a lutar contra o egoísmo, dificilmente aprenderá a servir e a amar, pois a lógica consequência de um coração sensível ante a dor e a necessidade dos demais é o serviço.   Ensinar a viver o amor que se transforma em misericórdia é ensinar a esperar com otimismo; é buscar os remédios possíveis, humanos e sobrenaturais, para resgatar e elevar aquele que caiu.

         Mesmo antes da puberdade o coração deve ser exercitado na compreensão, no perdão e na alegria. Com a puberdade chega um novo período em que a solidariedade humana deve arraigar sobre o terreno bem preparado de um coração magnânimo, forte, e que seja capaz de vencer seu próprio egoísmo. Ninguém é capaz de servir se não foi treinado na fortaleza para resistir com paciência a dor e a contrariedade, encontrando nelas um sentido. Este período deve ser aproveitado para fazer a criança ver as necessidades e carências dos que a rodeiam; carências e necessidades que ela deve procurar remediar, umas vezes por estrita justiça e outras por caridade. A criança deverá encontrar neste período motivos sensíveis que a levem a servir.

         Ao final da etapa de 6 a 12 anos convirá insistir na ideia do dever como um requisito da justiça. No período sensitivo de 0 a 6 anos, os pais transmitiram suas atitudes e o sentido que dão à própria vida. Agora, antes da puberdade, a criança irá descobrir com mais força as vivências paternas, e saberá qual é a atitude que deve adotar ante as exigências de sua própria dignidade, ante a vida humana, ante a dor e a contrariedade, ante trabalho e o cansaço, ante o amor e a sexualidade humana, ante o mal e a injustiça, ante a doença e a morte.

         Se os pais vivem se queixando do trabalho, se realizam mal e às pressas suas tarefas, se buscam fugas ou compensações, se seus juízos são implacáveis para com as demais pessoas, se não sabem compreender e perdoar, se não sabem ver um aspecto positivo em situações mais duras, então não haverá teoria suficiente para educar o coração. Pais sensatos criam oportunidades para que seus filhos aprendam a servir, a fim de que gradualmente estes aumentem a capacidade de esforço e passem a agir aceitando livremente a responsabilidade, reconhecida como um dever de justiça ou de misericórdia. Ao chegar o período da juventude, quando foram bem aproveitadas a inclinação natural à justiça na adolescência, os jovens saberão lutar contra seu próprio egoísmo e realizarão grandes ideias de serviço aos demais.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base no livro “Para Educar Mejor”, de Maria Teresa Aldetre de Ramos, Colección Hacer Familia, Editorial Palabra, Espanha.

  • Para educar melhor

    Para educar melhor

    1 – Educar hoje: a presença ativa dos pais. 2 – Educar o coração, a vontade e a inteligência. 3 – Autodomínio e autonomia. 4 – A criança necessita de normas para se autodeterminar. 5 – Crianças caprichosas e tirânicas. 6 – A indisciplina torna a criança agressiva. 7 – O perigo das etiquetas negativas na criança.

    1 – Educar hoje: a presença ativa dos pais

         Atualmente é um desafio para a criança organizar ou harmonizar a quantidade de informações e estímulos sensoriais que recebe como matéria com a qual deve construir suas experiências. Por isso, hoje é mais urgente a presença ativa dos pais como árbitros insubstituíveis no complicado tráfico do mundo da imagem, que influencia a estrutura da personalidade nascente dos filhos.

         É impensável para pais que queiram educar hoje, deixar que os múltiplos produtos da tecnologia atuem ao acaso e sejam os protagonistas da educação de seus filhos, com tudo o que isto significa. Deixar as crianças em mãos de tabletes e celulares é abandoná-las a uma vida complexa, dispersiva, que as tornará incapazes de governar-se pela própria cabeça, desde a adolescência.

         Dar a cada filho a oportunidade de ser protagonista de sua própria história é favorecer um processo educativo consciente e responsável. Os pais precisam enfrentar a tarefa educativa com mentalidade profissional ao estabelecer um projeto com objetivos ordenados, coerentes e de acordo com as reais necessidades da natureza humana. É necessário oferecer aos filhos a oportunidade de estruturar harmoniosamente sua personalidade, e isso significa que os pais têm que dar oportunidade para que suas crianças cresçam em liberdade e na aceitação gradual de suas responsabilidades.

         A estrutura da personalidade se organiza mediante um processo crescente de responsabilização, no qual cada período é base para o seguinte. Educar a criança primeiramente em seus apetites vitais (comer, dormir, brincar, banhar-se, guardar seus objetos…), ajudando-a a autodominar-se ao criar situações ordenadas que deem oportunidades de crescer em autonomia, com o fim de adquirir hábitos de ordem e disciplina que permitam atuar bem com certa facilidade.

    2 – Educar o coração, a vontade e a inteligência

         Desde a primeira adolescência é preciso educar o coração da criança, que é ensinar a querer. Para isso, é necessário oferecer um ambiente de exigência e carinho, de sobriedade e fortaleza, cujo resultado será a aquisição de atitudes de solidariedade, de compreensão e misericórdia para com os que padecem necessidades espirituais ou físicas, tendo iniciativas para mitigar suas dores.

         Em seguida, é necessário educar a vontade, cujo objetivo é ensinar a servir, dando motivos valiosos que impulsionem a vontade a realizar o bem devido em justiça. O resultado será a compreensão de que além de diretos, temos obrigação de servir, que é a verdadeira forma de amar e de participar no bem comum da família e do ambiente social em que se participa.

         Por último, educar a inteligência, ensinando a pensar. Para isso, criar um ambiente que permita a criança conviver com a verdade, cujo resultado será adquirir postura definida perante a vida por meio de valores que norteiem a conduta. Educar o coração, a vontade e a inteligência já foi objeto de boletins anteriores (ver lista) e ainda serão temas para ouros.

         A vida da criança desde seu nascimento é um desafio que vai crescendo como oportunidade para o desenvolvimento dela. Desde o momento de seu nascimento, a criança estabelece uma relação vital com o meio que a rodeia. Isso quer dizer que toda sua percepção está relacionada com a sua própria vida, e não com o artificialismo das telas digitais. A criança recém-nascida responde somente aos estímulos referentes à luz, ruído, frio, umidade, calor corporal, dor física e alimento. Quando a criança durante os primeiros meses de vida se sente segura, acolhida e alimentada de forma ordenada e em ambiente sem estridências (sem a distração e o barulho da tv), estão se estabelecendo os alicerces de uma vida emocionalmente sadia.

    3 – Autodomínio e autonomia

         É uma necessidade para a criança fazer aquilo que consegue realizar, ultrapassar uma dificuldade que possa ser superada; e por fim, fazer aquilo que é um dever. O autodomínio na etapa vital da criança está relacionado diretamente com o que ela é capaz de realizar. Por esse motivo a maturidade da psicomotricidade e da linguagem desempenham um papel muito importante. A etapa vital da criança, durante os primeiros três anos de sua vida, supõe desenvolver uma série de habilidades e destrezas que requerem oportunidades disciplinadas, ordenadas no tempo, repetidas, projetadas dentro de um processo, integradas em sequência de dificuldade sempre crescente e possível de realizar:

         1a sequência: caminhar de mãos dadas; caminhar só, vacilantemente; caminhar só, com firmeza; caminhar e chutar uma bola de modo desequilibrado; caminhar e chutar uma bola de forma dirigida; correr; correr e chutar a bola; etc.

         2a sequência: mover a cabeça ao ritmo de uma canção; mover a cabeça e bater palmas no ritmo; mover a cabeça, bater palmas e mover o tronco ao ritmo; mover a cabeça, palmas, tronco e pés ao ritmo; mover a cabeça, palmas, tronco e pés ao ritmo de uma canção e mudando de lugar; etc…

         Estes exemplos, desenvolvidos na vida ordinária da criança, devem ser aplicados à linguagem, visão, movimento, equilíbrio, coordenação no tempo e no espaço, etc., em sequências de crescente dificuldade: comer, vestir-se, despir-se, limpar-se, classificar, ordenar, manipular, expressar, etc. Tais ações representam para as crianças uma oportunidade natural de desenvolvimento, sempre e quando se apresentem como atividades de forma ordenada e habitual; hábitos espontâneos na infância.

              A oportunidade natural que tem a criança de obter segurança em si própria, e ampliar sua autonomia, é por meio do domínio e da perícia que vai adquirindo sobre os objetos que a rodeiam. Com muita sabedoria afirmou a este respeito o professor Víctor García Hoz: “Toda substituição inecessária provoca uma limitação no desenvolvimento de quem a recebe”. Se a criança pode dormir sozinha, por que fazer depender de uma cadeira de balanço? Se pode segurar sozinha a mamadeira, por que alguém haverá que segurá-la? Se pode subir sozinha na cadeira ou no banco do automóvel, por que fazê-lo por ela? Deixar que a criança faça o que consegue é permitir que ela desenvolva sua autonomia.

            O autodomínio é a primeira manifestação da liberdade humana e o fundamento para crescer em responsabilidade. Ao não se ter aproveitado o período sensitivo de 0 a 6 anos, que permitiria à criança conseguir mais facilmente conquistar determinado hábitos bons, tornará mais árdua a tarefa no período seguinte. Os pais que falharam precisam reconhecer ante a criança o seu engano e, com carinho e exigência, restabelecer a ordem fora de seu período sensitivo para chegar a formar os bons hábitos correspondentes, que darão facilidade e satisfação para agir bem.

    4 – A criança necessita de normas para se autodeterminar

            A criança experimenta em seu interior uma imperiosa necessidade de normas, e deixá-la na falsa liberdade de viver conforme seus caprichos é como abandoná-la em uma imensa planície sem sinalização alguma que permita a encontrar o caminho certo. A criança necessita de um norte; necessita saber para onde seguir e quais são os pontos de referências que confirmam estar na rota certa. Disse Otto Durr em seu livro Educação na liberdade (Rialp, Madri 1971, p. 36): “A criança pequena exercita suas potências em uma viva e amorosa co-realização. A imitação e a habituação vão atadas à regra e à ordem, sem as quais a vontade infantil fica sem direção nem meta, limitando o processo de independência do ser humano”.

         Quando a criança apresenta patente resistência à obediência, por volta dos três anos, já se faz necessária a primeira argumentação dos bons motivos que devem orientá-la para se autodeterminar. A nascente vontade infantil deve ser sabiamente respeitada, mas não abandonada, e isso equivale ajudar a criança a descobrir os valores que servirão de motor de sua conduta.

         A criança deseja ser boa, ainda que às vezes afirme ou aja ao contrário. Fracassar na tentativa de ser bom, sobretudo no período da infância, produz na criança um sentimento de profunda insatisfação e sofrimento. Mesmo a criança com quem se estabeleceu uma relação consequente, apresenta o fenômeno chamado “da primeira idade da obstinação”: a criança que até então se mostrava submissa é agora capaz de resistir usando toda sua força, desafia a autoridade e se torna rebelde. “O eu próprio começa a ser descoberto ante o eu alheio”. Jaspers distingue quatro formas conscientes de descobrir o eu: 1) “Eu faço”, sensação de atividade; 2) “Eu sou”, consciência de simplicidade; 3) “Eu me identifico com minha história”; 4) “Eu sou diferente dos demais”. Nesse período de autoafirmação da personalidade é fundamental que os pais demonstrem claramente a aceitação da criança, sem deixar de rechaçar as condutas inadequadas: “Eu o amo, por isso desejo que você seja melhor”; “Se você for bom vai se sentir muito contente, e eu desejo que você seja bom porque quero que seja feliz”.

         A criança se sente bem quando se porta bem, e se sente mal quando se porta mal: essa vivência é universal porque a consciência do bem e do mal está impressa na natureza humana. A criança vai construindo sua própria história, e sua própria aceitação procederá de que seja boa ou que tenha esperança profunda de vir a sê-lo. Adquirir o hábito de realizar com perfeição o que deve ser feito em cada momento traz satisfação e faz adquirir virtudes.

         Com naturalidade a criança capta os valores mais transcendentes. Disse André Pietre em seu livro Carta aos Revolucionários bem pensantes (Rialp, Madri 1977, p. 15): “Quando uma mãe diz a seu filho: Não faça isto, é feio”, disse em cinco palavras o que o autor quis expressar em seu livro de cem páginas. O bem, a verdade, a beleza, a vida, a morte, o feio e o mau, se inserem na realidade da criança desde o incipiente descobrimento que ela vai fazendo de si. O contato com a realidade moral e o apreço por si, dependerá em grande parte da aprovação de sua própria consciência.

         Há pais que pretendem simplificar a consciência de seus filhos ao afirmar que não há nada de mau no comportamento deles, e esquecem que esse piloto interior, chamado “consciência”, se apresenta nesta etapa vital com uma pureza e autenticidade que, se não se cuida, deteriora-se para sempre, e deixa na alma da criança uma obscura perplexidade que a impedirá mais adiante de saber quem ela é, colocando em perigo o equilíbrio de sua vida psíquica.

    5 – Crianças caprichosas e tirânicas

            Em toda existência humana se apresenta uma “angústia vital” que faz crescer e amadurecer. Retirar da criança a oportunidade de ultrapassar por si mesma os pequenos apuros que surgem diante dela, é enfraquecer sua natureza. Quando uma criança é substituída de modo desordenado pelos pais e avós, que não permitem que ela passe nenhum tipo de desconforto, que coma no momento que desejar, que faça o que quiser, que não tenha regras nem horários, que vai dormir só quando está exausta e acorda na hora que quiser, essa criança converteu seu reinado em perfeita tirania, mesmo que apenas engatinhe. Os pais apenas dizem que é uma criança difícil, e os avós afirmam que nasceu para mandar porque sabe impor seus caprichos com atitudes de agressividade: chuta, morde, joga o que tem nas mãos e com seus berros vai tornando a vida de sua mãe muito difícil; e quando lhe oferecem algo para comer, não aceita, e depois a qualquer hora pede comida. Os pais, erradamente, se esmeram em deixá-la contente, entendendo por isso que se trata de deixar o filho fazer o que quiser, como quiser e quando quiser. Uma criança com esse comportamento ao entrar no jardim da infância, sua professora logo se dará conta de que com ela já não há muito o que fazer.

         Orientar a vida dos filhos para sua plena realização é ajudá-los a ser eles mesmos, não substituindo-os sem necessidade e mediante um processo de responsabilização gradual e crescente. Por isso, as crianças caprichosas reclamam em seu interior que necessitam ser exigidas; se não o forem, carregarão esse fracasso nas costas sem saber o motivo que as tornou profundamente insatisfeitas. Porém, não deixarão de intuir que seus pais são cumplices dessa situação, e se voltarão contra eles como pequenos tiranos. Este fracasso é uma moeda de duas caras: em uma há o grito da própria consciência que não consegue declarar sua reprovação porque se acomodou; em outra, a incapacidade de poder agir bem por falta de hábitos, frustrando o desenvolvimento natural do autodomínio.

    6 – A indisciplina torna a criança agressiva

         Quem viveu em uma situação de dispersão e indisciplina, manifesta sua frustração em atitudes de agressividade e ressentimento. Esse estado interior, ao não poder ser assumido e entendido a partir da própria consciência, conduz a uma atitude de fuga que pode ser resumida na seguinte frase: faço apenas o que gosto. Os pais não compreendem o que acontece no interior da criança quando a deixam agir conforme seus caprichos, e costumam dar mais importância a um problema de linguagem ou de motricidade do que ajudá-la a aprender a autodominar-se. Com isso, reforçam a conduta irreverente da criança, não permitindo que ela comece a distinguir entre o bem e o mal.

         A criança desde os três anos, ou antes, busca o olhar de aprovação ou reprovação de seus pais antes de jogar o prato no chão ou riscar a parede; se o fez, se mostra na defensiva e experimenta em seu interior algo que a incomoda, e necessita que seja reafirmado pelos pais o que para ela se apresenta com uma mera intuição (que agiu erradamente). O que está mal incomoda, o que está bem gratifica: isto é, fazer o bem constrói e realiza o homem, e o mal o descontrói.

         Cada pessoa é um projeto de vida único, irrepetível, que se abre pela liberdade à grandeza. Mas também pode fracassar na realização de seu projeto, seja porque não foi informado sobre a verdade e o bem, ou por não ter fortalecido a sua vontade na prática habitual de seus deveres ordinários, ou por ter sido abandonado nas mãos do capricho e da inconstância.

    7 – O perigo das etiquetas negativas na criança

         O outro extremo, igualmente prejudicial é o da criança rechaçada e etiquetada como “terrível”, “insuportável”, “teimosa”, “má”, etc. É dramático pensar que, apenas descobertas as primeiras luzes de sua consciência, a criança passa a se resignar com a ideia de não ser boa, e experimenta a realidade de seu fracasso. Dar a oportunidade de melhorar é propor como identidade o bem e a felicidade, é lançar-se com a criança numa aventura cheia de carinho, onde o terreno estará semeado de otimismo para que ela possa descobrir que a vida é como um esporte no qual às vezes se perde uma jogada, mas ainda restam muitas possibilidades de ganhar o jogo. Com ânimo esportivo se recomeça sempre que necessário, e a luta aponta sempre para o triunfo. Devemos ter muito em conta que a riqueza da vida da criança não se satisfaz de qualquer maneira: o que para muitos pais parece ser uma etapa intranscendente, sem valor, é o alicerce de uma vida que deve alcançar a plenitude.

         Somente quando a criança se descobre e se aceita, com a responsabilidade de terminar de se construir, então se pode dizer que ela estreia a sua liberdade. Quando um pai e uma mãe dizem à filha ou ao filho que ele é um tesouro, que não poderiam viver sem ele, que ele é mais luminoso que o sol, isso que parece tão pouco plenifica a alma infantil e a desperta para a profunda consciência de ser amada, mesmo em sua fragilidade (sente-se amada pelo que é e não pelo que possui).

         O mais natural e imediato ao homem é a família como âmbito onde vem a nascer, crescer e desenvolver bons hábitos e valores. Na família, em palavras de Oliveros F. Otero, “se descobre como pessoa e aprende a ser pessoa”. Isso somente se torna realidade se a criança é tratada como pessoa, se é descoberta em seu mistério individual de ser única e irrepetível. Quando a criança é aceita e amada, está sendo ajudada a descobrir a grandeza de sua alma, então ela se aceita a si própria. Há temas que só se aprendem na família, porque somente nela o que parece ter pouca importância revela a transcendência do amor. Mas o amor sempre está precedido da contemplação, do olhar penetrante do coração, como uma espécie de intuição que descobre o mistério.

    Texto de Maria Teresa Aldetre de Ramos, adaptado por Ari Esteves com base no livro Para Educar Mejor, coleção Hacer Familia, Editorial Palabra, Espanha. Desenho de Aguida Medeiros (@medeiro).

  • Educar para a maturidade psicológica

    Educar para a maturidade psicológica

    1. Maturidade psicológica. 2 – Para conhecer-se melhor. 3 – Ajudar as crianças no amadurecimento psicológico. 4 – Motivar a vontade. 5 – Educar a afetividade. 6 – Quem educa deve ter maturidade psicológica.

    1 – Maturidade psicológica

         A maturidade psicológica está, em primeiro lugar, em obter o máximo desenvolvimento das faculdades psíquicas (inteligência, vontade, afetividade, tendências, imaginação, memória, percepção). Em segundo lugar, consiste em obter ordem ou equilíbrio entre todas essas faculdades (harmonia da alma). Essa harmonia se parece com a da orquestra, onde os músicos tocam em sintonia com as ordens do regente. No caso do ser humano, o regente é a mente (inteligência e vontade): a inteligência procura a verdade de cada ação, e a vontade decide executar e controlar as forças sensíveis (a afetividade) para que se movam na mesma direção determinada pela inteligência e querida pela vontade.

         As ações internas são os atos do pensamento, da imaginação, da memória, da percepção e da afetividade que, juntamente com a vontade, constituem as funções psíquicas humanas que se desenvolvem com o uso, e quanto mais desenvolvidas, mais a pessoa se torna dona de si ao deixar-se dirigir pela razão e pela vontade. Em contrapartida, quando são pessoas dirigidas principalmente pela afetividade passam a produzir alterações psicológicas ou conflitos sociais, pois os sentimentos são instáveis e cambiantes.
         As faculdades psíquicas buscam o que as satisfaz (comer, beber, dormir, descansar, desfrutar, amar, sentir, entender). Para haver harmonia a busca deve ser hierárquica, onde as faculdades superiores (inteligência e vontade) controlam as inferiores (sentimentos, emoções, paixões), e os objetos superiores (amar, entender, querer) têm prioridade sobre as inferiores (comer, beber, dormir, sentir, descansar, imaginar, relembrar…). Todas são necessárias, mas as superiores têm uma relação maior com a felicidade, que é o objetivo último de cada homem: não basta a cada pessoa comer, beber, dormir, pois há ideais a concretizar ao serviço dos demais, dentro das capacidades que cada um recebeu de Deus.

         A educação da maturidade psicológica prioriza a educação da razão e da vontade. A educação da razão está em desenvolver o hábito de refletir antes de agir para buscar a verdade em cada ação; e corresponde à vontade a decisão de aderir ou não ao que a inteligência mostrou. O hábito de reflexão oferta mais opções para agir racionalmente, sempre em busca da melhor opção que corresponda ao bem e à verdade: agir racionalmente é a qualidade mais elevada e própria do ser humano (conduzir-se pelos instintos ou paixões até os animais o fazem).

    2 – Para conhecer-se melhor

         É preciso analisar as causas que levam a agir bem ou mal, para ter um conhecimento mais profundo da própria maneira de ser e dos hábitos adquiridos (bons ou maus). Essa reflexão faz a pessoa descobrir a causa de sua felicidade ou infelicidade, a fim de incentivar uns ou colocar os meios necessários para corrigir outros. Agir assim permite tomar decisões acertadas para perseverar no bem ou mudar em vista de se alcançar a excelência pessoal. A consciência moral, graças à formação recebida e o conhecimento das ações acertadas e das que foram corrigidas, e a análise dos sentimentos associados a essas ações, faz a pessoa acumular experiência de vida.

         Como ocorre com todo aprendizado, quanto antes se adquirir o hábito de reflexão, mais firme e permanente será a disposição para decidir bem e agir. Por isso, convém incentivar as crianças desde muito pequenas a refletir, ao perguntar a elas com frequência “Interessante! Por que fez assim?”, para que reflitam no motivo que as levou a agir bem. E quando se comportam mal, ao se deixarem levar pelas tendências ou afetos, é bom animá-las a que da próxima vez, antes de fazer algo, pensem na maneira mais correta de agir, e tentem levar à prática.

         Para estimular o processo reflexivo nas crianças, convém explicar as razões pelas quais devem agir bem. Essas razões devem ser de curto prazo, pois as crianças vivem o presente e o futuro imediato com intensidade. As razões de longo prazo, ou de futuro, também devem ser conhecidas por elas, a fim de que as aprendam para um futuro remoto (por exemplo, não fumar quando crescer, não ver pornografia, saber escolher as amizades…), porque se sentirão felizes e seguras no presente ao saber como contornar um problema que terão que enfrentar, e até para ajudar as pessoas que se iniciam naquilo que elas entendem ser um mal ou anti-valor.

    3 – Ajudar as crianças no amadurecimento psicológico

         Em geral, custa às crianças fazer o que é correto porque o incorreto costuma ser mais fácil: deixar as roupas largadas em qualquer lugar custa menos esforço do que colocá-las em cada gaveta; abrir a geladeira ao sentir fome é mais fácil do que esperar pela hora da refeição; ver desenhos é mais prazeroso que estudar ou ajudar a limpar a casa. Convém animá-las a pensar que agir corretamente poderá ser desagradável no imediato, mas será mais gratificante ao fortalecer, também no imediato, a vontade delas, porque não se deixaram levar por caprichos ou tendências desordenadas, e a médio e longo prazo as farão ganhar para a vida inteira os bons hábitos da ordem e do domínio próprio.

         A imaturidade psicológica, ou a falta de amadurecimento para a idade que possui, torna as crianças dependentes, afetivas de modo desordenado (hipersensíveis), impacientes ou sem capacidade para saber esperar e suportar até as pequenas contrariedades; também as conduz pelo imediatismo dos sentimentos, que as impulsiona apenas a buscar sensações agradáveis e fugir das desagradáveis, mesmo que estas sejam deveres a cumprir.

    4 – Motivar a vontade

         Educar a vontade a fim de que esta tenha força para dominar a afetividade, se consegue ao motivar-se para a realizar aquilo que a razão considerou como um bem, ainda que custoso de fazer. O que dificulta esse aprendizado é a afetividade, que por vezes tem mais força do que a vontade, principalmente na infância e juventude.

         O empenho para ajudar as pessoas a fazer algo que custa esforço chama-se motivar, e isso pode parecer quase impossível durante a infância. Porém, basta pensar nos sacrifícios que as crianças e jovens fazem para se destacar em algum esporte, concurso ou jogos competitivos, para perceber que estão aptas também para assumirem responsabilidades apropriadas à idade que possuem.

         A motivação para a vontade realizar sacrifícios ou esforços com o objetivo conseguir algo, mesmo que seja passageiro e com pouca repercussão no desenvolvimento da maturidade psicológica (decorar a letra de uma música, fazer com paciência uma dobradura, aprender um jogo de mesa), será sempre útil como treinamento para desenvolver a força de vontade, que depois será utilizada para o aperfeiçoamento psicológico na superação de inseguranças (preparar-se para um concurso), certos temores (falar em público), vencer traços negativos do caráter (vergonha, timidez, etc.) e outras emoções que bloqueiam ou paralisam o funcionamento racional e próprio de uma pessoa madura.

         Quanto maior for a força da vontade, maior é a facilidade para agir racional e livremente. Alguém com a vontade débil passa a ser impulsionada pelo motor afetivo (sentimentos, emoções, estados de ânimo), deixando de ser racional e, portanto, torna-se menos livre. As crianças pequenas são psicológica e biologicamente imaturas e funcionam impulsionadas por seus afetos. Por isso, quando um adolescente ou um adulto age a partir de suas vivências afetivas, costuma-se dizer que é infantil ou imaturo.

    5 – Educar a afetividade

         O desenvolvimento da vontade para alcançar o autodomínio supõe vencer as tendências afetivas ao aceitar passar mal a curto prazo e fazer o que custa esforço. Quem age assim sentirá a alegria do dever cumprido, sempre mais profunda e duradoura que a afetiva, que é momentânea e deixa em seguida o sabor amargo da infidelidade e da comodidade, quando não da covardia.

         Já foi dito que a afetividade tende a agir para se sentir bem ou não se sentir mal, de modo imediato. Assim, educar a afetividade consiste em conseguir que ela seja uma aliada da inteligência e da vontade, ao segui-las para realizar o bem, não porque seja o mais agradável de se fazer. Com o tempo, a afetividade quando se une à razão e à vontade, também consegue se sentir bem de modo imediato e mais profundo.

         Influentes psicólogos chamam de neuroticismo ao traço dominante nas pessoas imaturas e propensas a se mover por emoções e sentimentos de caráter negativo, que nelas são mais habituais e intensos que os positivos. Por isso, tais pessoas são reativas aos estímulos do ambiente em que vivem, tal como marionetes emocionais movidas pelos fios comandados por uma mão externa que são as circunstâncias variáveis, tornando-as impulsivas, dependentes, emocionalmente instáveis, ilógicas e pouco senhoras de si mesmas, e necessitadas de uma educação que fortaleça a vontade para controlar e dominar a afetividade, a fim de que possam agir pela razão, pois cabe a esta a ação de julgar sobre o bem e o mal das ações externas e as funções psíquicas ou internas.

         Ultimamente, o mundo esportivo monopoliza a atenção dos meios de comunicação, e alguns educadores passaram a dar mais importância ao desenvolvimento das habilidades físicas dos jovens, e pouca atenção ao desenvolvimento psicológico deles. O que vemos muitas vezes é que bons esportistas logo se perdem porque sua formação psicológica é fraca e se deixam arrastar por algum vício que rapidamente destrói a sua carreira. O esporte é um grande meio para fortalecer a vontade, pois exige grandes e contínuos esforços. Porém, não se deve limitar o esforço da vontade apenas para a realização de desafios físicos, mas também para exercitar a coordenação das ações psicológicas, que é característica da maturidade.

    6 – Quem educa deve ter maturidade psicológica

          A tarefa de coordenar as funções psíquicas pela continua educação da inteligência e o fortalecimento da vontade, deve ser permanente, positiva e alegre. Não se pode desanimar, mas começar e recomeçar a luta diariamente. Na época atual, uma dificuldade adicional para a educação da maturidade psicológica é a escassez de pessoas que saibam formar a personalidade dos jovens. O bom formador deve ser uma pessoa madura para saber ensinar, com exemplos práticos, o caminho da maturidade e de como superar os obstáculos mais frequentes para progredir nessa estrada, pois já o percorreu: diz o refrão “ninguém ensina o que não sabe”, ou seja, ninguém é bom guia em território que não o tenha percorrido muitas vezes. Por outro lado, um bom formador da personalidade deve ter a motivação suficiente para essa tarefa, e estar convencido da importância da formação interior para alcançar uma vida verdadeiramente feliz, de serviço aos demais, e não de egoísmos.

    Texto adaptado por Ari Esteves da obra “Maturidade psicológica e felicidade”, de Fernando Sarráis, Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009. Imagem de Yan Krukau.