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  • Tempo de educar

    Tempo de educar

    1. Na educação do comportamento, um ano representa muito. 2 – Evitar maus hábitos de 1 a 6 anos. 3 – O hábito da ordem para crianças de até cinco anos. 4 – As três dimensões educativas. 5 – A importância de atribuir tarefas às crianças. 6 – Animar a criança a cumprir seus encargos.

    1. Na educação do comportamento, um ano representa muito

         Costumamos dizer que ”o ano voou”, que “o Natal chega cada vez mais rápido”, “que já estamos às portas de uma outra Copa do Mundo!”. Agora, em termos de educação, pensemos no que representam um, dois ou três anos na vida de uma criança de 1 a 6 anos! Se foram bem-aproveitados, os pais terão poucos problemas com a chegada da pré-adolescência (7 a 12 anos) e da adolescência dos filhos (13 a 18 anos). Pais que fomentam hábitos de ordem material e temporal ao filho de 1 a 6 anos, evitarão que este seja um pré ou adolescente com vícios difíceis de desarraigar

         Muitos pais olham para seus filhos com ternura e graça, e não conseguem imaginá-los como adolescentes, desejando que permaneçam eternamente crianças. Mas é necessário fazer esse exercício para atuar com eficiência e não dormir em louros, pois o tempo escoa como água entre os dedos. Se a criança entre 1 e 6 anos habituou-se a organizar seus brinquedos e roupas, se aprendeu a ser agradecida e solidárias com os demais, se cumpre as pequenas tarefas que lhe foram atribuídas, se foi incentivada em suas qualidades e corrigida em seus pequenos defeitos, já na pré-adolescência será notório o resultado da boa educação recebida desde o nascimento.

    2 – Evitar maus hábitos de 1 a 6 anos

    A criança que não estiver sendo educada desde um ano de idade na ordem material, que é a primeira a ser desenvolvida, chegará aos 6 ou 7 anos enfraquecida nas dimensões psicológica e espiritual, pois as paixões e sentimentos, que asseguram a passagem entre a vida sensível e a vida do espírito, se estiverem impregnadas pelos maus hábitos conduzirão a criança à preguiça, à fuga dos deveres, ao egoísmo, à intemperança e desobediência, afetando, assim, sua dimensão espiritual, que é a consciência do eu aos 7 anos, e onde residem o sentido de responsabilidade e o amor materializado no serviço aos demais. Desajustada nas três dimensões de sua educação (física, psicológica e espiritual) − que não se encaixarão −, ela passará a ter atitudes erradas devido à grande influência dos hábitos ruins sobre a seus sentimentos e afetos. As crises impróprias da pré-adolescência e adolescência, manifestadas em desobediências, egoísmos, intemperanças, preguiças, medo de assumir responsabilidades (estudar, por exemplo), ocorrem muitas vezes pela falta de educação nas três dimensões mencionadas, desde as primeiras idades.

    3 – O hábito da ordem para crianças de até cinco anos

         A criança que ganhou hábitos de ordem material desde o nascimento, a partir dos 7 anos passará a ter também ordem na cabeça e saberá organizar e distribuir seu tempo para atender as tarefas familiares, escolares e sociais.

         Até cinco anos de idade a educação corporal é vivida intensamente através da ordem material e da ordem temporal. Esses dois âmbitos facilitarão a ordem dos afetos (autodomínio e controle dos sentimentos, emoções e paixões).

         Ordem material: guardar brinquedos e roupas, sendo que para os brinquedos os pais devem providenciar caixas com desenhos que indiquem o tipo de peças que deverá ser depositada em cada uma, sem misturar com outras, e mostrar onde cada caixa ficará. Quanto às roupas, o armário ou gaveta deve estar à altura da criança. Há várias tarefas materiais que a criança poderá fazer nas primeiras idades (leia o boletim “Construir a autonomia da criança”). Assim, com bons hábitos adquiridos, mesmo na casa dos avós a criança desejará saber onde deixar suas coisas, e na escola não largará o seu material em qualquer lugar.

         Ordem temporal: permite a criança desenvolver rotinas ao ter horário de acordar, mamar, brincar, banhar-se e dormir. Com as rotinas, que não devem ser interrompidas nos fins de semana, a criança se sentirá segura; e a falta delas a tornará inconstante e hiperativa ao largar uma coisa e começar outra desordenadamente, e terá dificuldades para se concentrar. Cada hábito tem um “o que fazer” e um “quando fazer”, sem protelar (leia o boletim “A rotina na vida das crianças”).

         Ordem afetiva: a criança deve ser ensinada a moderar sua impulsividade quando perder a partida de um jogo, a preocupar-se pelos outros e a doar seu tempo; a respeitar e ser gentil com os pais, avós, tios, vizinhos, professores e amigos da família; a não mexer em tudo e nem fazer só o que deseja, seja na igreja (– Silêncio, aqui mora Deus!) ou em outro lugar (cabeleireiro, consultório médico, lojas). Ao viver tais aspectos, a criança estará ordenando seus afetos (sentimentos, emoções e paixões).

         Ordem mental: desde as primeiras idades a criança necessita aprender que no modo de agir existe um certo e um errado, um bem e um mal, um pode ou não pode, sempre com uma explicação adaptada à sua capacidade de compreensão, e sem gritarias e autoritarismos. Mesmo que até 5 anos de idade não compreenda mais profundamente os motivos, perceberá que há um bem que sempre deve vencer, seja nas atitudes dela, nos desenhos, filmes, contos lidos para elas e no exemplo dos pais.

    4 – As três dimensões educativas

         Educar significa ajudar a crescer, a desenvolver as capacidades para empregá-las bem. “O cérebro não é um vaso por encher, mas uma lâmpada por acender”, disse Plutarco. A criança pequena é uma entusiasta de todas as coisas, mas necessita das luzes proporcionadas pela educação, a fim de ir se enriquecendo humana e espiritualmente à medida que cresce.  

         A educação deve atingir o corpo, a alma e o espírito. Essa ordem primeira (corporal) fortalecerá a educação da segunda ordem, a da alma ou mental (inteligência e vontade), que ocorrerá a partir dos 6 ou 7 anos, quando, então, a criança passará também para a terceira ordem, que é a espiritual e onde reside a consciência do eu (− Eu não sou as minhas pernas ou braços; o meu “eu” é quem comanda as minhas pernas e braços, perceberá um dia a criança). O amor, o sentido de responsabilidade e o querer livre (– Quero ajudar a minha a mãe a manter a casa em ordem!) fazem parte da dimensão espiritual da pessoa humana.

         As crises da pré-adolescência e adolescência, manifestadas em desobediências, egoísmos, intemperanças, preguiças, medo de assumir responsabilidades (estudar, por exemplo), ocorrem muitas vezes pela falta de educação nas três dimensões mencionadas, desde as primeiras idades. Ver boletim “Como falar com seu filho adolescente

    5 – A importância de atribuir tarefas às crianças

         Os encargos, que podem ser muito variados, são aquelas tarefas atribuídas a cada membro da família que, por sua consciência de grupo, são aceitas livremente e como contribuição ao bem-estar geral. O encargo é parte de um trabalho maior que deve ser alcançado em conjunto com demais, e que dependerá dos costumes de cada lar, da idade e do caráter de cada membro da família, e da capacidade de cada um.

         As crianças crescem em solidariedade e preocupação pelos demais quando ganham espírito de equipe ou de cooperação, e realizam não apenas tarefas para si mesmas, mas de interesse de todos. Não é suficiente que a criança gaste tempo só para si ao ficar metida apenas em suas coisas. Os pequenos serviços prestados aos demais familiares fomentará nela o desprendimento próprio e a generosidade de ajudar, que são virtudes portadoras de felicidade, já que o egoísmo é sempre causa de isolamento e tristeza.

         No âmbito familiar, o mais conveniente – e a meta a ser atingida – é que a ajuda prestada por cada membro seja ditada pelo amor e sentido de responsabilidade, e não porque será cobrada pela execução da tarefa.

         Não se deve impedir nem substituir a criança pequena de cumprir qualquer encargo que tenha capacidade de fazê-lo, mesmo que no começo não o faça com perfeição e exija paciente e bem-humorado treinamento. Ao realizar uma tarefa, a criança a executará com a alegria de estar praticando um jogo. E ao se sentir apta para a incumbência a ela delegada, ganhará autodomínio, independência, generosidade, espírito de serviço, preocupação pelos demais…

         Ao atribuir uma tarefa à criança, levar em conta o caráter e o temperamento dela: as tarefas mais movimentadas deverão corresponder à criança irrequieta, enquanto à mais calma conferir tarefas que exijam maior atenção e cuidado. A idade é outro fator para distribuir um encargo, pois sempre haverá uma escala de dificuldade nas diferentes tarefas. Não se pode outorgar tarefa que seja fácil demais para a criança executar, nem difícil demais, pois ambas a desestimulariam. É interessante fazer a distinção entre idade mental e real, pois algumas crianças estão mais capacitadas que outras para efetuar determinadas tarefas, independentemente da idade.

    6 – Animar a criança a cumprir seus encargos

         A criança sente que o mundo está cheio de curiosidades que rapidamente serão trocadas por outras. Se não há nada que a motive, logo ficará cansada ou entediada, seja com os brinquedos que usou, e que depois já não os quer recolher, ou outras pequenas tarefas que realize. Como ajudá-la a colaborar? O elogio dos pais pode incentivá-la, mas é melhor que vá aprendendo a fazer as coisas não por obrigação, mas por querer ajudar, a fim de ir desenvolvendo o sentido de responsabilidade.

         Se a criança não se dispõe a fazer uma tarefa que seja capaz de cumprir, isso entra no terreno da educação por meio do encargo. Deve-se estimulá-la a fazer o que consegue realizar para aprender a vencer os estados de ânimo. Ao estudar, mesmo que não sinta ânimo para isso, fortalecerá a vontade e ganhará o hábito do estudo. Se ceder, logo será arrastada pela preguiça ou comodismo.

         Para a criança se convencer da importância de cumprir um encargo familiar, dependerá do modo como será solicitado. Não se pode pretender que ela se disponha a fazer algo por conta própria se a autoridade dos pais for violenta, porque assim, na melhor das hipóteses, obedecerá por medo e não por desejar ser solidária e contribuir para o bem de todos.

         Para um encargo ser educativo, é preciso explicar à criança que sua execução será uma contribuição para a casa, que necessita da cooperação de todos. Por isso, as tarefas devem ser comunicadas de forma positiva, onde gesto e palavra formam um todo. A proposição suave, seguida de palavras positivas, é mais eficaz: será melhor pedir para “deixar o quarto arrumado pela manhã”, pois transmite voto de confiança de que será feito, do que dizer para “não deixar o quarto sujo e desordenado pela manhã”, porque se afirma que a criança é suja e bagunceira.

         Quando um encargo foi assimilado e transformado em hábito, poderá ser acrescentado outro. É possível que a própria criança indique a tarefa que seja mais conveniente para ela, o que aprimora seu espírito de iniciativa. Logicamente ao avançar em idade será necessário atribuir outras incumbências.

         Como motivar o cumprimento de uma atribuição? Um outro caminho pode ser o Conselho de Família, onde pais e filhos têm voz e voto, apresentam propostas, e se distribuem os encargos, inclusive para os pais. Nessas reuniões um dos filhos pode atuar como secretário e anotará as tarefas que a família deverá cumprir, e as que correspondem a cada membro.

         Quando o Conselho se reunir para verificar o cumprimento das tarefas, os pais devem estar atentos para que essas reuniões não se convertam em acusações. Há temperamentos que não reagem bem ao ver que suas deficiências são criticadas pelos demais. Para isso, algumas semanas antes da reunião mensal, se os pais percebem que algum resultado não foi bom, talvez seja melhor conversar individualmente com o filho que descumpriu com seu dever, até que ele se corrija, a fim de não receber críticas no dia da reunião, que se restringirá à troca de experiências, relato de dificuldades, alteração de algum aspecto do encargo, atribuição de outras tarefas, etc.

         Há famílias que adotam um sistema divertido de “multas” se o encargo não foi cumprido: são deduzidas das mesadas algum valor que será depositado num cofrinho. Com o dinheiro arrecadado compra-se um bolo ou doces e o levam a um orfanato ou asilo. Estar atento para que o Conselho, em tal caso, não caia em camaradagens entre pais e filhos que possam conduzir a uma perda de respeito, nem torne ingrata uma ação de amor como a de levar algum agrado a quem está carente de carinho. É interessante que os filhos poupem algum dinheiro para fazer esse ato de caridade, sem necessidade de “multas”.

         O sistema de Conselho Familiar para determinados lares pode não ser o mais adequado. Trata-se, então, de encontrar o modelo mais conveniente para um tipo de reunião periódica de avaliação, mais ou menos informal, seja com entrevistas pessoais com cada membro da família, ou unindo diferentes técnicas. O que interessa é que os encargos ganhem vida e importância, e todos se ocupem do bem-comum.

    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, com base em artigos da revista “Nuestro Tiempo”, no 180, Universidade de Navarra Pamplona (Espanha): “Actividades en el hogar”, pgs. 722-734; “Los consejos de família”, pgs. 718-721, “La obediência en el niño”, pgs. 722-734; e o boletim “Ser ou ter: a educação da personalidade”, postado no site staging.ariesteves.com.br/.

  • O futuro não depende das crianças, mas dos pais

    O futuro não depende das crianças, mas dos pais

    1 – Educa-se no dia a dia. 2 – O valor das coisas pequenas. 3 – Falsos critérios de avaliação. 4 – A importância da vida familiar. 5 – Pais que educam

    1- Educa-se no dia a dia

         O futuro não depende das crianças, mas dos pais que hoje educam seus filhos. A ocupação habitual dos pais é em grande parte o trabalho pedagógico que realizam por meio dos acontecimentos triviais da vida familiar, e escassamente interessantes para as telas midiáticas. É no minúsculo afazer quotidiano, obscuro, sem brilho, que agora estão sendo forjados com boa têmpera as mulheres e homens que amanhã atuarão na vida social.

    2 –O valor das coisas pequenas

         A eficaz atuação educativa dos pais não depende da magnitude de ações deslumbrantes, aparatosas, mas de pequenas atitudes que ocultam a sua grandeza, como a de exigir disciplina desde o berço (uma criança de peito sabe como manipular os pais); quando dizem “não” à criança que protesta, mas que no seu íntimo sabe que seus pais agem corretamente…

    3 – Falsos critérios de avaliação

         É comum avaliar as ações humanas por critérios errôneos: crê-se mais importante valorizar um trabalho ostentoso, que desperte admiração, do que aplaudir uma ação que parece irrelevante como a de ensinar a criança a ser solidária ao pôr e retirar os talheres da mesa e ajudar o irmão ou amigo com dificuldade em alguma disciplina escolar, a ser ordenada e guardar seus brinquedos e material esportivo, a amar a verdade, a não mentir nem tirar uns trocados da carteira do pai para comprar guloseimas… Porém, são esses os pequenos fios da tessitura de um caráter íntegro que não desviará para si o dinheiro público, nem aceitará subornos.  

    4 – A importância da vida familiar

         A vida familiar preenche a existência de muitos homens e mulheres que têm a tarefa profissional como meio e não como fim, pois acreditam que seu melhor “negócio” é a família. São pais que dedicam algum tempo diário para estudar temas de orientação familiar e educação dos filhos, nem que sejam 10 minutos, a fim de aplicar com paciência e constância esses conhecimentos nas corriqueiras oportunidades educativas oferecidas na vida em família.

         Ao orientar suas vidas pelos valores que acreditam, esses pais ensinam com o exemplo e a palavra, e seus filhos ganham um porte que reflete autodomínio, honestidade, força de vontade, confiança em si mesmos, compreensão, respeito pelos demais, otimismo, competência profissional, solidariedade para compartilhar seu tempo e suas coisas com os que mais necessitam.

    5 – Pais que educam

         As catástrofes espirituais, como corromper-se e corromper, não ocorrem de repente, mas pela omissão continuada das constantes, carinhosas e firmes orientações que os filhos devem receber desde a infância.

          “Quem é fiel no pouco também o é no muito”. Os pais que educam realizam um projeto divino ao corrigir os pequenos desvios de rota que impedem de chegar ao porto de destino. A fidelidade naqueles pontos que, apesar de parecerem insignificantes ocultam a sua grandeza, é o segredo da boa educação.

          Podemos ter certeza de que os notáveis homens da história – Pasteur, Jérôme Legeune, e tantos outros – só chegaram às suas valiosas conquistas porque souberam realizar continuamente tarefas pequenas e obscuras. Assim procedem os pais que realizam algo grandioso na vida de seus filhos.

    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Desenho de Cristiano Chaui.

  • Autodomínio e ordem: bases para outras virtudes

    Autodomínio e ordem: bases para outras virtudes

    1 – A virtude da ordem. 2 – Educar as crianças na virtude da ordem. 3 – A educação da ordem nas diferentes idades. 4 – Virtudes relacionadas com a ordem. 5 – Educação da inteligência, vontade e afetos. 6 – Adolescentes consumistas.

    1 – A virtude da ordem

         São muitas as virtudes para se educar, mas pelo princípio de harmonia da pessoa, quando se melhora em uma delas é a pessoa toda que se aperfeiçoa. E isso acontece também com a virtude da ordem, que é o modo como o homem dispõe com lógica e harmonia as realidades que integram o mundo em que vive.

         A ordem leva a organizar o dia para que os deveres familiares, profissionais e sociais sejam atendidos, e isso dá a paz do dever cumprido: “Quando tiveres ordem, multiplicar-se-á o teu tempo e, portanto, poderás dar mais glória a Deus, trabalhando mais a seu serviço”, diz o livro Caminho.

         A ordem tem a sua raiz no espírito, sendo fruto de uma reflexão que, partindo da consideração das finalidades, avalia os meios à disposição para considerar quais os mais adequados. Daí que a ordem é mais que a mera ordenação das coisas materiais, ou evitar precipitações, mas expressão da harmonia do espírito, e pressupõe uma adequada hierarquia nas aspirações, valores e desejos, e estar orientada ao amor e serviço do próximo.

          A virtude da ordem está na base do autodomínio ou domínio de si, temperança, sobriedade, austeridade, equilíbrio pessoal, fortaleza, serenidade, sentido de economia e poupança, conhecimento próprio, humildade, simplicidade, veracidade, sobriedade, ordem material. As virtudes não são estáticas e devem crescer cada vez mais com o passar dos anos. Quem desde criança aprendeu a viver a ordem material, chegou mais facilmente à ordem do espírito.

    2 – Educar as crianças na virtude da ordem

         Quando a criança é educada na virtude da ordem desde pequena (um ano e oito meses!), sua harmonia, seu espírito de serviço e de cooperação também serão precoces, e o desenvolvimentos de muitas outras qualidades serão enormemente facilitados. Não há ordem quando as crianças dormem à última hora da noite, misturam os brinquedos numa mesma caixa, guardam de qualquer modo o material escolar (lápis sem afiar, por exemplo), colocam a roupa suja no armário junto com as limpas, deixam a mochila em qualquer canto e não têm horários para as diferentes atividades diárias…

         A ordem exige ter um pequeno horário para organizar o dia e facilitar a criação de hábitos: banhar-se, brincar, almoçar, estudar, lanchar, fazer encargos, orar, jantar, dormir. Muitos pais elaboram com a criança um horário e o colocam em lugar visível para que possa ser consultado por ela. Interessa que a criança assuma suas responsabilidades e não fique à espera de que alguém diga o que fazer, feito mera e passiva executora de ordens.

         Exigir da criança, desde o primeiro dia de aula, que tenha um horário de estudo para não se habituar a fazê-lo nas vésperas das provas. Ao estudar desde o início das aulas, mesmo que sejam 15 minutos diários (ou 1/2 hora aos 12 anos), ganhará a virtude da constância e os resultados escolares serão excelentes. Além de ensinar a ser ordenadas, as crianças precisam de que os pais e os adultos da casa sejam modelos a imitar. Com a mesma facilidade para imitar a ordem, imitarão a desordem se notam maus exemplos dos que largam as coisas em qualquer canto. Convidar as crianças para ajudar a ordenar a casa: os livros da biblioteca, o quarto de ferramentas, os armários da cozinha, preparar uma mala para viagem ou excursão… Ensiná-las a manusear livros, álbum de fotografias, ferramentas, modo de atender o telefone, limpar uma vidraça e copos, enxugar o banheiro… Entre 9 ou 10 anos é um bom momento para ensinar os filhos a utilizar uma agenda e anotar as tarefas escolares, encargos, aniversários, compromissos etc. No princípio se pode lembrá-los de anotar na agenda e consultar pela manhã e noite, mas o ideal é que façam isso por conta própria, sem necessidade de avisá-los.

         Ajudar as crianças a terem ordem no espírito e se libertarem do individualismo e egocentrismo ao doar ou emprestar brinquedos, visitar um parente idoso, no final da aula apagar a lousa para os que venham depois… A partir dos 6 anos podem “Colocar-se no lugar do outro” a fim de compreender seus sentimentos e dificuldades. O sentido de amizade e de companheirismo cresce, como também o de justiça e generosidade: ajudar os irmãos e companheiros em suas dificuldades escolares; assumir mais tarefas familiares, cooperar na vida social ao ajudar conseguir brinquedos para um orfanato…

         Cadeias de eventos são ações repetidas por encadeamento lógico, que exigem pouco esforço para serem praticadas ou recordadas, e ajudam a criança a ter rotinas: ao retornar da escola, saudar os pais, pendurar uniforme, colocar a cochila no lugar, lavar as mãos, ir à cozinha e sentar-se para fazer a refeição. Cadeias de eventos também são práticas para os hábitos de higiene, seja na hora de se levantar ou dormir: ir ao banheiro, lavar-se, escovar os dentes, vestir-se; à noite, preparar o material escolar para o dia seguinte. Guardar os brinquedos ao terminar a atividade; deixar de brincar quando a mãe chama para as refeições…

    3 – A educação da ordem nas diferentes idades

         De acordo com a idade de cada filho, exigir determinadas tarefas: ao terminar o dia, deixar a sala ou quarto ordenado; apagar as luzes quando não são necessárias (virtude da pobreza); deixar as roupas penduradas para que não amarrotem; colocar no cesto a roupa suja para lavar (crianças com 1 ano e meio levam suas fraldas sujas até o lixo); A partir dos 6 anos, cuidar dos livros, cadernos e o material escolar (manter apontados os lápis); lavar os tênis e material esportivos depois de ter usado; fechar com cuidados as gavetas e as portas dos armários; deixar cada coisa no seu lugar ao terminar uma tarefa; começar a utilizar agenda para os compromissos familiares, escolares, sociais; respeitar os horários de estudo e de encargos familiares; ter hábitos de higiene.

         Para evitar que os pré-adolescentes e os adolescentes fiquem sem saber o que fazer no fim de semana e percam tempo, no início da semana ajudá-los a planejar o que farão no sábado e domingo: esporte, visitar um amigo, consertar algo que se quebrou na casa, limpar o quintal, programar um vídeo cultural, convidar amigos para almoçar em casa, visitar um museu…

    1 a 3 anos de idade

         A educação da ordem começa com a própria vida da criança, que necessita de ordem e estabilidade no ambiente familiar. Desde que são bebês se pode regularizar os horários de comida, as horas de sono, os passeios, brincadeiras, etc. O período sensitivo da ordem tem sua máxima intensidade entre 1 e 3 anos, porque se aprende rapidamente qual é o lugar de cada coisa.

         É fácil fazer a criança se acostumar a ter seus brinquedos e roupas no mesmo lugar, e ela manterá essa ordem com a satisfação de um jogo a mais. Todas as crianças têm nessas idades o instinto-guia da ordem, e reforçar essa tendência natural ajudará a que adquiram a hábitos de serem organizadas. Esse instinto se nota por várias atitudes: gostar de dormir na mesma cama, sentar-se na mesma cadeira, utilizar o mesmo prato e copo. Ao brincar de esconde-esconde, a criança tem um sentido diferente dos adultos: esconder-se para ela não consiste em desaparecer (ela sente isso como uma desordem), mas estabelecer um lugar onde possa ser encontrada pelos pais, e sentirá alegria ao ser achada ali. Se a mãe se esconder em local diferente do anterior, ela ficará desconcertada. O mesmo ocorrerá ao colocar seus brinquedos em locais diferentes, pois ela não sentirá alegria ao encontrá-los fora do lugar habitual. Se a criança vive em ambiente ordenado, e se é ajudada nesse aspecto, ganhará tal hábito para toda a sua vida.

    3 a 6 anos de idade

         Não cabe falar em valores morais para crianças nessas idades, mas em hábitos bons que se converterão em valores ou virtudes quando elas atingirem o uso da razão, por volta dos 6 ou 7 anos. Mas para isso, devem ter adquirido antes hábitos de ordem. Nos primeiros anos a aprendizagem se realiza por imitação e repetição, sendo que o exemplo dos pais é fundamental. É muito importante ganhar a batalha da ordem antes da entrada da adolescência, para facilitar que sejam ordenadas nessa nova etapa.

         Pôr limites às atividades da criança para que compreenda que seu desejo não é absoluto. Assim, aprenderá a ter autocontrole e vencerá caprichos e formará o caráter. Deve encerrar a brincadeira para respeitar os horários da casa, obedecer e aceitar as regras dos jogos que participa, compartilhar seus brinquedos, dizer a verdade, resolver sozinha seus pequenos impasses.

         Até os 6 anos necessita viver a ordem material ao se acostumar a colocar cada coisa no seu lugar e manter tudo limpo. Deve ser claro o lugar de cada objeto, e para isso pode-se dispor de uma caixa, gaveta ou estante de pouca altura. Incentivar que coloque as roupas no cabide e as pendure num armário ao seu alcance (dar motivos para não deixar as roupas fora de lugar: sujam, amarrotam, fica difícil de encontrá-las…).

         Quem se habituou a viver no caos entre 1 e 5 anos terá dificuldades para ser ordenado. Mas se de 1 a 5 anos habituou-se a organizar os brinquedos e roupas, a partir dos 7 anos terá mais facilidade de passar da ordem material para a ordem na cabeça: organizar e distribuir o tempo nos dias da semana para atender as tarefas familiares, escolares, sociais; saberá prever o necessário para um passeio ou excursão; irá planejar-se para cumprir um encargo ou fazer uma visita cultural no fim de semana.

    6 a 12 anos

         É a maturidade da infância; educação primária. Esta é a idade de ouro da educação das virtudes e dos valores. É um período ótimo para educar certos hábitos intelectuais e de conduta que irão influenciar a vida futura. Se os pais educarem com eficiência entre os 6 e 12 anos, ver-se-ão livres da maior parte dos problemas que surgem nos anos críticos da adolescência (13 aos 18 anos).

         A maior parte dos sentimentos se desenvolve antes dos 8 anos, sendo necessário ajudar a criança a identificá-los, julgá-los e corrigi-los. Por exemplo, invejas, antipatias, insolidariedade, indiferença ante a dor dos demais, preguiça etc., são sentimentos que podem surgir, mas que devem ser retificados. É importante que a criança, com a ajuda dos pais, identifique e corrija tais sentimentos até superá-los.

         Com uso da razão, as crianças não precisam imitar o conceito de ordem dos pais, mas devem desenvolver a sua ordem de acordo com critérios próprios: por tamanho, cor, altura… Peçam que expliquem o sistema de ordenar que adotaram para que notem a importância disso, e racionalizem sobre o lugar mais adequado para cada coisa.

         A partir dos 7 anos compreenderão os motivos dos bons hábitos que adquiriram desde a infância. Para haver virtudes é preciso atuar com consciência e liberdade: − Eu sei o que é ser ordenado e quero isso para mim! É o momento de propor desafios que suponham para eles um pequeno esforço, apoiando-se no sentimento natural de agradar, de ser úteis e se sentir valorizados. Não resolvam tudo para eles: que busquem as respostas às suas curiosidades sobre a rotação da terra, onde fica determinado país, que significa tal palavra, o que são as abelhas operárias… Aliás, aproveitar o interesse por determinados temas e dar livros ou baixar pequenos artigos da internet sobre o assunto, ajudará a que criem hábitos de leitura.

    13 a 18 anos

         Chegou o momento da educação secundária ou ensino médio. Estão agora na plena adolescência, e ocorre uma transição da personalidade com a maturidade afetiva e intelectual. Os hábitos adquiridos anteriormente serão importantes para a formação comportamental destes anos. Os jovens nessas idades buscam um sentido da vida: para que viver? São radicais − oito ou oitenta, como se diz − e inimigos dos meios termos: querem para valer ou não querem. Junto com esse radicalismo, se sentem insatisfeitos quando são incoerentes com os princípios e valores que assumiram. E típico dessas idades a atitude crítica, porque desejam pensar por conta própria e conquistar a sua liberdade. Tudo põe em tela de juízo: aceitarão ou não as ideias alheias, ainda que eles mesmos não estejam seguro do que pensam ou querem.

         Objetivos: conseguir que raciocinem moralmente (certo ou errado, bom ou mau, e não pelos sentimentos), para analisarem com critério os acontecimentos, pessoas ou situações em que estão implicados. Decidir com responsabilidade e por conta própria, cumprir com a palavra dada, perseguir projetos magnânimos de serviço aos demais, são ideais que os pais devem fomentar. Que não tenham medo de se manifestar como são e de lutar contra seus defeitos, nem de reconhecer suas qualidades para terem autoestima e colocá-las ao serviço dos demais. Fomentar a participação social e o afã por influenciar positivamente na sociedade, com espírito de serviço: podem ajudar ONGs a distribuir alimentos, dar aulas para crianças carentes, etc…

    4 – Virtudes relacionadas com a ordem

         Sinceridade: é a ordem interior de dizer e amar verdade, e que faz sentir-se mal com a desordem da mentira. Os filhos entram no período sensitivo dessa virtude a partir dos 3 anos, e vivem isso mais intensamente a partir dos 7 anos. Ajudá-los a formar critério sobre a importância da verdade, pois a mentira deforma o caráter (leiam o Pinóquio, que se via deformado cada vez que mentia). A educação da sinceridade ajudará a que os filhos sejam mais exigentes ao escolher seus amigos, pois a mentira é incômoda e incompatível com a confiança que deve reinar entre amigos.

         Sobriedade: visa ordenar as tendências instintivas para que os bens materiais não ultrapassem seus limites. A sobriedade tem importância grande, pois somos constantemente instigados a ter mais coisas que as necessárias: bastam 5 minutos diante da TV para se ver tentado a comprar algo. Os filhos devem aprender a viver sobriamente, sem lastros de muitas camisas de esporte, vários tênis e chinelos, brinquedos: tem mais quem precisa de menos!

    5 – Educação da inteligência, vontade e afetos

         Ajudar a criança a pensar por conta própria ao fazer perguntas, a fim de que ganhem critérios de conduta e não fiquem passivas e no aguardo de que digam como agir. Em clima de diálogo, os pais devem oferecer pontos de apoio para que ela encontre por si mesma o melhor modo de proceder: − O que você irá fazer agora? (que a criança pense ou vá ao quadro dos horários e diga). Ao vestir a camisa do avesso: − Acha que está bem a camisa assim? Se no meio da semana o garoto combinou com um amigo da escola que iria ao aniversário dele no sábado, e ao chegar esse dia decide ir jogar futebol com os colegas do condomínio, é importante que os pais deem elementos para que compreenda a importância de cumprir com a palavra dada, a fim de ser leal ao amigo a quem se comprometera.

         Uma vontade bem-disposta, motivada, é chave da educação. Não basta que a inteligência indique o que fazer, mas é necessário ter força de vontade para agir de acordo com o decidido. A vontade se fortalece pelo esforço de fazer o que se deve em cada momento. E isso não se consegue com um ato isolado porque para ganhar uma virtude se exige a repetição de atos de modo livre e consciente, estejam ou não os pais presentes. Até os cinco ou seis anos a criança ainda não tem a razão desenvolvida para agir conscientemente, mas fará as coisas por carinho e para agradar os pais, ou pelo gosto de fazer, tal como num jogo e, assim, ganhará o hábito de ser ordenada, que se transformará em virtude quando compreender as razões e agir por vontade própria, a partir dos sete anos.

         Junto com o cultivo da inteligência e da vontade, é necessário ordenar a afetividade para que esta apoie o que foi decidido, mesmo que isso custe sacrifício ou renúncia. Os afetos ou sentimentos são irracionais e não devem ser os reitores da conduta. Mas se estão ordenados pela inteligência, aportam energia para cumprir o dever: faz melhor quem coloca sentimentos naquilo que faz. Mas se os sentimentos são contrários ao dever, então deve-se contrariá-los.

    6 – Adolescentes consumistas

         Assim, crianças hiperprotegidas, a quem seus pais não negam nada e consentem hábitos consumistas e caprichosos, terminam por ser pessoas egocêntricas, escravas de sensações momentâneas, sem recurso para manter a atenção em algo durante muito tempo; são incapazes de comprometer-se, de ajudar, de servir, de amar, de abraçar ideais que custam sacrifícios (por exemplo, entrar numa universidade pública).

         Há pais que não compreendem por que seus filhos são uns molengões, e não percebem que os criaram para serem assim:  permitiram que tivessem televisão no quarto, compraram tudo de marcas caras e da moda, deram demasiadas coisas a eles (computador, celular, equipamentos de música, todo tipo de jogos, roupas esportivas), tudo ganho sem esforço. É fácil explicar o motivo pelo qual seus filhos têm tão pouca vontade e sejam tão influenciados e pouco donos de si mesmos, e mal suportam uma dor de cabeça ou alguma incomodidade. Filhos sempre com dinheiro para comprar as guloseimas e sanduiches que quiseram, que passaram muitas horas diante da TV e ficaram passivos, sem imaginação criadora e sem outras ambições de que ficar frente as telas, e por isso deformaram a consciência para a compreensão da sexualidade, namoro, família, casamento, servir com a profissão…

         É importante analisar como a família vive a temperança, que se dá por meio da ordem e cuidado com as coisas pessoais, não acumular objetos, dar pouco dinheiro para aprender a administrá-lo e a poupar; em ajudar cada filho a refletir o motivo de seus gastos, se compadecerem pelas pessoas necessitadas. Ter paciência e bom humor ao educar. Insistir uma e outra vez. Não jogar a toalha de lado e abandonar o ringue. Às vezes parece que as crianças nunca farão como os pais ensinam. Porém, de um momento para outro, e como num passe de mágica (não foi por mágica, mas fruto da paciência e insistência carinhosa), irão notar que elas começam a agir de acordo com a educação recebida. Com calma, paciência e bom humor se vence a batalha da formação.

         Não se trata de negar sistematicamente tudo o que os filhos desejam, mas trata-se de ajudá-los a distinguir o que é necessário e o que é supérfluo; a criar os próprios brinquedos com embalagens; a não se deixar aliciar por modismos ou marcas… Comprar tudo que agrada pode parecer uma manifestação de liberdade e poder, mas quando se cai na conta, vê-se dominado, escravizado pela tendência de possuir (certa jovem tinha 300 pares de sapatos porque não controlava seu impulso de adquiri-los quando os achava “bonitinhos”).

         As crianças se converteram em importantes consumidores. Um estudo francês diz que 43% das compras familiares são provocadas pela influência das crianças. Por outra parte, a pressão social cria famílias permissivas, com pais que não se atrevem a exigir dos filhos, porque se assentam em bases sentimentais, e para evitar tensões e enfrentamentos com os filhos renunciam educar em valores morais objetivos.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base na da obra “Virtudes Humanas”, de José Antonio Alcázar e Fernando Corominas, Coleción Hacer Família, Ediciones Palabra, Madri, España; e José Luis Illanes, em texto publicado no site https://www.collationes.org

  • Educar em valores

    Educar em valores

    1 – A família é o melhor negócio dos pais. 2 – Educar é transmitir valores. 3 – A boa literatura tem muitos exemplos de valores. 4 – Pensar a longo prazo. 5 – O que serão ao invés de o que farão.

    1 – A família é o melhor negócio dos pais

         A família é o principal negócio dos pais, e o trabalho profissional é um meio. Muitos profissionais testemunharam que o sucesso da carreira não lhes trouxe felicidade, pois seus filhos se perderam em alguma forma de evasão.

         Os pais têm hoje pouco tempo para estar com os filhos, e esse curto período deve ser empregado com qualidade, tendo um projeto educativo para cada filho, pois não basta apenas dar abrigo e alimento e deixar o tempo passar para que melhorem.

         A desinformação, que afeta as crianças desde pequenas, chega por todos os lados: programas de tv, desenhos com conteúdo ideológico, mau exemplo de artistas, influência de crianças que procedem de famílias com valores discutíveis, notícias sobre violência e corrupção… Nos ensinos fundamental, médio e profissional os filhos serão expostos a muitas ideias distorcidas sobre a sexualidade humana, namoro, casamento, família…

         Portanto, os pais não podem dormir sobre louros, pois a crise de valores e o analfabetismo moral acossam por todos os lados e atingem profundamente as crianças, dada a inexperiência delas. Só a família reverterá esse quadro de desorientação, porque é a primeira e principal escola de valores, e o ambiente onde se desenvolvem mais profundamente a personalidade e a liberdade responsável. Cada filho nasce com características positivas e negativas, e a família é a única que pode assumir os aspectos débeis dos filhos e potenciar os positivos, ajudando-os a se desenvolver para servir aos demais com suas qualidades.

    2 – Educar é transmitir valores

         Os pais devem viver e ensinar os valores que acreditam. Valores são modelos de conduta que adotamos para orientar a nossa vida: “são como raios de luz de um mesmo esplendor, o da Verdade que torna livre os homens, e se faz justiça, ou liberdade, ou fidelidade ou honradez, mas que é indivisível, fruto de uma mesma e vital raiz”, ensina Gustavo Villapalos em sua obra “El libro de los valores”. Há quem identifica valores com virtudes.

         Educar em boa parte é transmitir os valores que se acreditam e que filhos devem assumir por vontade própria, sem necessidade de vigilâncias. A pergunta sobre os valores ou modelos que escolhemos tem sentido porque direcionamos a nossa vida por eles. Há quem age por valores de utilidades primárias (comer, beber, se divertir); outros pela beleza física, fama, poder, dinheiro, pátria, cultura, destreza técnica, família, religião etc. Examinar os valores que regem a própria vida e os que se querem para os filhos é necessário para não construir sobre bases falsas e origem de fracassos.

         Na convivência familiar encontram-se as melhores oportunidades de promoção dos valores considerados importantes e decisivos para uma vida reta e feliz. Sendo os pais os melhores e principais educadores (função indelegável), o que fazem ou deixam de fazer na infância influirá no modo como os filhos enfrentarão a vida.

         Apreciam-se não valores teóricos, mas imitáveis e assumidos por pessoas que se quer como modelos. Mesmo em tempos de crise de valores encontramos pessoas que personificam um ideal de excelência humana na própria família e nas relações profissionais ou sociais. Essas pessoas são modelos porque a história delas está assentada em fatos edificantes: um casal que completa 30, 40 ou 50 anos de casamento é um valor de fidelidade e de verdadeiro amor que deve ser imitado e ensinado; o amigo que não aceita subornos ou pais que levam adiante e com sacrifícios um lar com vários filhos são exemplos de valores.

    3 – A boa literatura tem muitos exemplos de valores

         Ter modelos é algo muito humano, mas a questão está em acertar e não errar na escolha. Um modo de ensinar valores aos filhos são as narrativas (romances, novelas, contos, biografias, bons filmes), pois têm influência enorme na vida humana como veículos de transmissão de valores ou modelos de condutas. Basta ler a “Odisseia”, de Homero, para ver a fidelidade entre Ulisses e Penélope; ou entre Romeu e Julieta, de Shakespeare. Contar histórias é melhor que discursos teóricos, seja para configuração moral da vida de uma pessoa ou de um povo.

         Atualmente os pais devem estar atentos, pois os grandes narradores são o cinema, a TV, as mídias, os videogames e a publicidade, que podem manipular por meio de narrativas que apresentam modelos de família, de sucesso profissional ou de lazer que não condizem com o tipo de vida que os pais querem para os seus filhos. Hoje, muitas crianças são influenciadas pela mídia e, mesmo sem ter nada a oferecer, se lançam como youtubers ou sonham em ser estrelas do futebol, atrizes ou atores de novelas, pois acreditam que fama seja sinônimo de felicidade, e não percebem que esse bem espiritual se deve a uma plenitude de vida bem vivida e fundamentada em verdades sobre a natureza humana. Escolher modelos de sucesso a qualquer preço é deixar-se massificar e permitir que outros decidam por si.

    4 – Pensar a longo prazo

         Em lares com crianças parece não haver tempo para pensar sobre qualquer assunto a longo prazo, pois um turbilhão de tarefas acontece diariamente e dificulta a reflexão. Além disso, os pais olham para os filhos pequenos com ternura e graça, e não conseguem imaginá-los 15 ou 20 anos depois, como jovens ou adultos, e quais os problemas que enfrentarão.
         James Stenson, em seu livro “Enquanto ainda é tempo”, e baseando-se em dados estatísticos atuais, pede para olhar um pátio escolar com 500 crianças na hora do intervalo, por exemplo, esse onde seus filhos correm, riem, jogam bola, pulam. As estatísticas atuais aplicadas sobre essas crianças preveem que nos próximos 20 anos ocorrerão os seguintes fatos:

    • 60% abandonarão por completo a prática religiosa e aceitarão qualquer opinião sobre a família, sexualidade, vida humana, e não transmitirão a fé aos filhos que tiverem;
    • 100% estarão expostas à pornografia, que coloca em risco o respeito pelo outro sexo, o conceito de família, a profissão, o casamento;
    • 60 a 70% terão experiências pré-matrimoniais, com as consequências físicas e psicológicas dessas ocorrências;
    • 20 a 40% viverão em concubinato e, sem um compromisso sério, poderão ficar sozinhas e com um filho para criar;
    • 50%, ou seja, a metade dessas 500 crianças, estarão divorciadas por volta dos 35 anos;
    • 100% serão convidadas a experimentar drogas, talvez numa festa, escola ou universidade;
    • 10 a 20% terão graves problemas psicológicos e, desses, um número pequeno cometerá suicídio;
    • 10% enfrentarão sérios problemas de dependência de álcool ou drogas;

         Não basta vigiar os filhos para que não cometam tais ações. Só por meio do diálogo aberto, carinhoso e confiado, será possível ajudá-los a refletir para que queiram por conta própria assumir os valores que conduzem a uma vida reta, limpa.

    5 – O que serão ao invés de o que farão

         É comum pensar unicamente nas notas escolares e na carreira que os filhos irão seguir, porque considera-se apenas o que farão e não no que serão. É importante pensar nas características temperamentais e de caráter que os filhos terão e trabalhar para que isso aconteça:

    • Porte pessoal que refletirá ser uma pessoa segura, com autodomínio, força de vontade, confiança em si mesma, compreensiva, prudente, alegre, otimista, que sabe ouvir os demais;
    • Que terá opinião própria de quem não se deixa conduzir pelo que todos fazem ou pela imposição das mídias;
    • Que aproveitará bem tempo de descanso para crescer humana e espiritualmente por meio de um lazer criativo, e não viciado em maratonas de séries, tabletes, redes sociais;
    • Que colocará esforço para vencer preguiças e comodismos, a fim de trabalhar com competência e levar a sério seu projeto de vida;
    • Que será generoso e compartilhará seu tempo e suas coisas para aliviar os sofrimentos dos demais ao seu redor.

         Após ter uma imagem do tipo de homem ou de mulher que se deseja para cada filho ou filha, trata-se agora de trabalhar no dia a dia da vida familiar para que se torne realidade. Todo esse perfil positivo não será obra do acaso, pura sorte de que os filhos venham a ser assim. Ao contrário, ocorrerá com certeza se hoje os pais educarem em valores e fomentarem o crescimento de virtudes.

    Texto elaborado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, e inspirado nos livros “Fundamentos de Antropologia”, de Ricardo Yepes e Javier Aranguren, Instituto Raimundo Lúlio e “Filhos: quando educá-los”, de James B. Stenson, Editora Quadrante, São Paulo (SP).

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  • O desprendimento dos bens materiais

    O desprendimento dos bens materiais

    1 – Eu não sou os bens que possuo. 2 – É realmente necessário trocar de aparelho? 3 – Na família se aprende a viver a sobriedade. 4 – Como agir diante das carências? 5 – Doar o próprio tempo aos demais.

    1 – Eu não sou os bens que possuo

          Vivemos imersos numa sociedade à deriva, sem bases seguras, que vê como condição necessária da felicidade a posse de bens materiais ao identificar o “ser” com o “ter”. Os bens materiais têm valor relativo, instrumental, e não devem ocupar o primeiro lugar na vida das pessoas para não se converterem em obstáculos. A verdadeira identidade de alguém não está nas coisas que possui, mas no seu caráter e nos valores morais com os quais constrói a sua vida. Os objetos não são maus, se convertidos em instrumentos ao serviço do bem e para o amor ao próximo; porém, pervertem quando erigidos à categoria de ídolos que exigem prostrar-se diante deles e reverenciá-los como seres absolutos.

         O desprendimento está ligado à virtude da sobriedade ou temperança, que põe harmonia e ordem nos desejos. As pessoas sóbrias, além de caminharem com soltura pela vida e perseguirem bens mais elevados, são as mais preparadas para suportar as carências e superar as inevitáveis frustrações que a existência traz. O desprendimento dos objetos não deve ser buscado por motivos econômicos, de poupança, mas por se tratar de um valor espiritual: não se apegar às coisas e ter equilíbrio e sobriedade no uso delas.

        O importante não é a materialidade de ter isso ou aquilo, ou de carecer de algo, mas de se conduzir com soltura sabendo que os bens são apenas meios e não fins, e que há ideais mais elevados do que uma gorda conta bancária. Há pessoas com poucos bens, mas apegadas ao que possuem; há outros com muitas posses colocadas ao serviço dos demais, pois estão desapegados delas.

        A pessoa desprendida foge do supérfluo e adota um estilo de vida sóbrio e temperado que livra o coração das falsas necessidades, que são como laços que atam ou lastros que pesam, escravizam e não deixam a alma aspirar a formas mais ricas de viver do que andar atrás das novidades oferecidas pela mídia (tem mais quem precisa de menos)

         É preciso manter vigilância sobre as necessidades criadas, pois quem se descuida ata-se por milhares de minúsculos fios que suprimem a leveza da liberdade. O consumismo desenfreado busca unicamente o bem-estar material que satisfaz as necessidades primárias. Comprar e possuir pode dar a impressão de liberdade e de poder, mas logo se percebe que o impulso imoderado de adquirir coisas escraviza o coração: “onde está o teu tesouro aí está o teu coração”, diz a Escritura Sagrada. Certa jovem tinha 300 pares de sapatos porque não controlava o impulso de comprar o par que a atraída na vitrine. O desprendimento é antídoto ao consumismo, à desordem da concupiscência dos olhos.

    2 – É realmente necessário trocar de aparelho?

         A indústria eletrônica inova seus produtos a cada mês e cria falsas necessidades ao incentivar a aquisição de aparelhos sofisticados e caros. Antes de trocar o equipamento antigo, perguntar-se sinceramente se é necessária a nova compra, e isso não por motivos econômicos, mas ascéticos, de senhorio diante das coisas que nos cercam.

         Ao ler a grande obra de Balzac, Eugênia Grandet, vê-se que o chefe da família era um avaro que só amava a riqueza, e submeteu os seus aos ditames da pobreza e miserabilidade pela ganância que o dominava. Vale à pena ler essa maravilhosa obra, pois diz o ditado que “é melhor escarmentar-se em cabeça alheia”.

         É triste a história de Judas que, impelido pela sua cupidez, tirava o que era depositado na bolsa comum, e chegou a vender Cristo por 30 moedas de prata. A ganância vem criando muitos corruptos que não se importam prejudicar aqueles de quem retiram. A pessoa que põe a sua segurança nas coisas que possui fica tíbio e propenso a atender unicamente aos seus egoísmos e interesses, e perde de vista a necessidade dos demais, porque “não se pode amar a dois senhores: se odiará um e se afeiçoará ao outro”.

    3 – Na família se aprende a viver a sobriedade

         Para transmitir o espírito de desprendimento no lar, os pais devem começar por si mesmos, dando exemplo de sobriedade ao não criar falsas necessidades, evitar gastos supérfluos ou por capricho, abrir mão dos últimos modelos eletrônicos enquanto não baratearem, dar seu tempo à família e programar passeios e visitas culturais para o descanso de todos, fugir de exclusivismos (minha cadeira, minha poltrona, meu lazer), não perder tempo em celulares e mídias sociais, desapegar-se de si e levar com garbo e paciência os achaques e doenças, viver a sobriedade na bebida e comida, deixar o carro na garagem alguma vez e utilizar transportes públicos…

         O consumismo infantil é realidade atual, pois as crianças se converteram em importantes clientes. Certa pesquisa francesa revelou que 43% das compras familiares são provocadas pela influência das crianças. Com isso, os pais são obrigados a trabalhar mais horas para proporcionar os bens que os filhos desejam e, assim, além de transformá-los em pequenos consumidores, deixam-nos sem o que mais necessitam: a presença dos pais ao seu lado. Certo pai viajava muito pela empresa e tinha por hábito comprar uma camisa de futebol do time mais popular da cidade para onde ia a trabalho, e com isso o filho acumulou mais de 30 camisas de esporte.

         Educar os filhos na sobriedade é tarefa do casal, que implementará no lar diversões sóbrias e de baixo custo, exigirá o cuidado com as roupas e objetos para que possam servir ao irmão mais novo, ensinará a não deixar luzes acesas desnecessariamente e a fechar a torneira enquanto escovam os dentes, manterá os filhos com pouco dinheiro e ensinará a refletir sobre os gastos que fazem, não os vestirá à última moda ou com grifes e materiais esportivos caros, ajudará a compreender o esforço que se faz para ter as coisas necessárias… 

         A imaginação das crianças é poderosa, e as leva a transformar embalagens de produtos domésticos em infinidades de brinquedos: carros, aviões, ônibus com caixa de leite, coleções de potes e latinhas, dragões com o embalagem de ovos, recortes de heróis grudados em garrafas plásticas, jogos com tampas de refrigerantes… Os brinquedos sofisticados e caros suprimem a imaginação e a capacidade de criar, porque o botão não está dentro da criança, mas nos objetos que ganham.

         O excesso de conforto amolece o caráter dos filhos, que ao crescer se tornam molengões. Quem não viu adolescentes que viveram cercados de facilidades, e agora exigem que os pais os levem a todo canto, porque são incapazes de utilizar transportes públicos. Tornam-se pirulões que não sabem o quanto a vida é dura, e viverão grudados nos pais até os 30 anos, pois terão medo de assumir responsabilidades. Certo taxista relatou que atendeu ao chamado de uma senhora para levar o filho dela à escola, e ouviu a seguinte indagação: − Seu carro tem ar-condicionado? Ao saber que estava para ser consertado, disse:  − O meu filho só anda em carro com ar-condicionado.

    4 – Como agir diante das carências?

         Não se trata de instalar no lar a pobreza franciscana, que quebraria o ambiente grato da vida familiar: imaginemos uma casa sem um mínimo de conforto e não decorada de modo simples e com bom gosto  para descansar após um dia de trabalho! Como alguém poderia renovar suas forças para recomeçar a faina do dia seguinte? A penúria e a escassez causada pela imprevidência geram mal-estar e desunião.

         Diante de privações ou dificuldades econômicas deve-se procurar remediar a situação e colocar todos os meios o quanto antes, e confiar na providência de Deus. Se por vezes faltar o necessário, não se entristecer, mas oferecer a Deus a possibilidade de seguir os passos de Jesus Cristo, que prescindiu até do necessário, e não apenas do supérfluo. Os cônjuges não devem se lamentar diante das carências, a fim de evitar tensões no lar, mas reforçar o apoio e a compreensão mútua, pois as dificuldades se superam juntos e são uma escola para os filhos, que um dia reconhecerão a fortaleza e o espírito de sacrifício de seus pais, que souberam passar por períodos difíceis com alegria e bom humor.

    5 – Doar o próprio tempo aos demais

        Viver desprendido não significa ser indiferente diante da carência material ou espiritual de tantas pessoas. Uma boa ocasião para ter o espírito desprendido das coisas é ser generoso com instituições que trabalham para o bem dos outros, não dando só o que sobra, mas poupando para doar. O dever de caridade não é obrigação apenas dos que possuem bens, mas de todos, pois há quem não necessita de objetos materiais, mas de amor, companhia, atenção. Desprender-se do tempo pessoal para realizar obras de amor: visitar parentes idosos ou doentes, ir a asilos e levar uns doces para fazer companhia aos anciões.
         É educativo ir com os filhos a comunidades pobres, orfanatos ou hospitais infantis e incentivá-los a doar às crianças que ali vivem, os brinquedos em perfeito estado que não utilizam mais, pois assim aprenderão a ser solidários e a condoerem-se pela pobreza de tantas crianças.

    Textos elaborado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/

    Pelo Telegram acesse lista com todos os boletins publicados, e link para cada um: https://t.me/pedagogia_do_comportamento

  • Filhos: informação sexual

    Filhos: informação sexual

    Filhos: informação sexual

    1 – A educação sexual deve começar o quanto antes. 2 – Não temer nem adiar a informação sexual. 3 – As ocasiões devem surgir espontaneamente. 4 – A instrução sexual deve ser personalizada. 5 – Como transmitir a informação sexual nas diferentes idades. 6 – O namoro das filhas na adolescência.

    1 – A educação sexual deve começar o quanto antes

         A educação sexual deve começar o quanto antes pela informação sexual, que deve ser abordada somente pelos pais. Não se trata de uma conversa solene, misteriosa, mas de aproveitar as ocasiões adequadas que a vida familiar oferece para ir informando cada filho e cada filha de modo progressivo e personalizado. Essas informações não devem ser transferidas à escola, médicos ou sacerdotes, porque nenhum deles conhecem com profundidade a personalidade e o modo de ser de cada criança, nem possuem a confiança e o afeto que elas têm pelos pais.

         Os pais devem dar a conhecer a origem da vida de modo gradual, ajustando-se à mentalidade e capacidade de compreender de cada filho, e antecipando-se ligeiramente à natural curiosidade deles. Evitar que rodeiem de malícia esta matéria, nobre e querida por Deus, ou que aprendam de modo enviesado por confidência com um amigo ou amiga mal-informado.

         Hoje emprega-se a expressão educação sexual quando o mais adequado seria falar de educação da afetividade, que abrange a instrução sexual e a dos sentimentos. A educação da afetividade é uma educação para o amor, que inclui o amadurecimento dos sentimentos e a reta ordenação dos impulsos biológicos. A informação sexual não pode ser encarada como simples transmissão de uns conhecimentos sobre a sexualidade humana, mas como um fenômeno que se situa em contexto não apenas físico e psíquico, mas também espiritual, ético e religioso.

         Certo pai, depois de dar muitas razões humanas para o filho compreender que não devia valer-se do prazer genital fora do seu reto uso dentro do matrimônio, acrescentou no final da conversa que tais práticas também não eram queridas por Deus, e ouviu do garoto: − Ah, bom! Foi então que o pai compreendeu que deveria ter iniciado por essa razão, já que o “fabricante” desse ser que une alma espiritual e corpo material, sabe muito bem como deve funcionar essa sua criatura em plenitude. Ou seja, é importante instruir as crianças desde pequenas na fé e no Amor a Deus, pois um coração não pode estar vazio de amor para não se deixar levar pelas forças instintivas, e possa lutar com alegria e espírito esportivo.

    2 – Não temer nem adiar a informação sexual

         A educação sexual não consiste apenas em explicar verdades sobre anatomia, fisiologia ou higiene, mas também sobre a formação da afetividade, à criação de hábitos saudáveis e à formação da consciência moral e religiosa da criança e do adolescente. Por isso, essa instrução deve ser personalizada e oferecida por meio de diálogos afetuosos onde, sem medrosos adiamentos, os pais, entre perguntas e respostas, vão esclarecendo os filhos. Essas conversas a sós melhoram o clima de confiança e de amizade entre pais e filhos, impedindo o distanciamento deles quando se despertarem para a vida moral.

         A verdadeira educação sexual tem dupla finalidade: 1) Criar nos filhos a reta consciência sobre os fenômenos sexuais, que devem estar ligados à ideia do amadurecimento da vida humana, ao verdadeiro amor humano, à família e à procriação dentro do plano divino da criação; 2) Ajudar a compreender de modo positivo que a ordem sexual consiste em conduzir os impulsos sexuais de acordo com as normas da vida verdadeiramente humana e não animal.

         Os pais devem dizer a verdade com precisão e delicadeza e não fugir das perguntas dos filhos, nem responder com uma mentira (banir a história das cegonhas). Os filhos têm direito à verdade em tudo e, se os pais descumprem desse dever, as informações chegarão a eles por meios inadequados, levando-os a comportamentos errados perante o sexo, que os marcará negativamente pelo resto da vida.

         É preciso partir da ideia de que o sexo não é uma realidade vergonhosa, mas uma dádiva que Deus uniu ao amor e à fecundidade. Os pais devem vencer o bloqueio que normalmente experimentam diante da curiosidade dos filhos, sobretudo das crianças pequenas, cujas perguntas possuem apenas conteúdo afetivo para se aproximar mais carinhosamente dos pais, e porque querem uma atenção individual.

         A curiosidade da criança em matéria sexual é parte da curiosidade geral de conhecer as coisas. São os adultos que transferem uma carga libidinosa que as crianças não possuem. Deve-se falar com cada filho ou filha individualmente, com simplicidade e de maneira imperturbável, franca, amistosa. Se ficarem encabulados ou perderem a naturalidade, manifestada em olhares ou palavras que deem a entender que “chegou a hora que eu temia”, a criança perceberá algo de errado e perderá a confiança em tratar desse assunto com os pais, o que seria um tremendo prejuízo. Não se deve envergonhar de falar das realidades que Deus criou e viu que eram boas.

    3 – As ocasiões devem surgir espontaneamente

         Falar aos filhos sem constrangimento, com naturalidade, aproveitando as oportunidades oferecidas pelo dia a dia da vida familiar ou por circunstâncias sociais, de modo a tornar simples e natural a educação sexual. Como primeira abordagem pode-se valer do banho nos irmãozinhos menores, a nova gravidez da mãe ou de uma vizinha. São momentos em que a explicação surge com simplicidade e sem necessidade de lançar mão de rodeios ou imagens difíceis de entender. Aproveitar as oportunidades não é forçá-las e muito menos transpor o tom confidencial que deve acompanhar sempre os esclarecimentos necessários.

         As “lições” dos pais ao mostrar o seu próprio corpo chocam profundamente os filhos. Não devem despir-se diante das crianças, nem serem surpreendidos por eles nessa situação. A mesma delicadeza deve haver no vocabulário que empregam. Seria enorme insensatez e grande maldade jogar nas mãos das crianças revistas pornográficas para que “não ganhem complexos”: uma coisa é a naturalidade e outra é a grosseria que chega à falta de educação e de respeito que os pais devem ter para com os filhos.

    4 – A instrução sexual deve ser personalizada

         Em matéria de sexualidade, cada idade da criança apresenta interrogantes diferentes. Mesmo dentro de uma faixa etária há diferenças de filho para filho em virtude do temperamento, tipo de inteligência (lógica, espacial, musical, linguística, intrapessoal…), capacidade perceptiva, informações anteriores que obteve em outros lugares, nível de desenvolvimento (físico, psíquico e social), ambiente que frequenta, etc.

         Na puberdade os pais devem estar atentos aos filhos ao perceber ou intuir os primeiros sintomas da sexualidade, a fim de se antecipar às perguntas e ajudá-los a se soltar e falar à vontade. O clima de naturalidade e de oportunidade facilita que se abram espontaneamente aos pais, e neutralizem a influência nociva dos “ensinamentos” de colegas ou mesmo de parentes mais velhos com livre trânsito na família, mas que se metem onde não são chamados.

         O exemplo constante dos pais e um ambiente de diálogo afetuoso fazem os filhos não se isolarem e aceitarem com agrado os esclarecimentos que recebem, porque sabem proceder de quem os ama de verdade e conhecem seus problemas e dificuldades. É imprescindível que pai e mãe tenham tempo para estar com os filhos, tempo tão importante quanto o de trabalho ou de ocupação nas tarefas domésticas. Precisam detectar os estados de ânimo e a necessidade de orientação que os filhos têm.

         O clima de confiança e intimidade é indispensável à educação sexual, e depende da atenção habitual que os pais dão aos filhos. A sexualidade não deve ocupar o primeiro lugar na cabeça de ninguém, principalmente dos adolescentes. Assim, é necessário conseguir que eles tenham ideais grandes e se preparem para isso com intensidade, e sejam sinceros, alegres e capazes de compreender que há um princípio inato de desordem em todos os seres humanos, e que por isso terão que travar uma luta alegre e positiva para dominar o corpo e vencer não somente as desordens da sensualidade, mas também as da preguiça, do egoísmo, do orgulho, do comodismo…

         Não se pode estabelecer regras fixas para cada faixa etária. Mas é válido dar algumas indicações para cada etapa evolutiva, a fim de que sirvam como referências. Cabe aos pais adaptar este esquema à realidade de cada filho e em função do que já sabem. Se os pais chegaram atrasados e os filhos, sem critérios e por descuido paterno e materno, obtiveram informações distorcidas sobre a sexualidade na internet ou com “amigos”, as informações a seguir podem não ser suficientes, e os pais terão que adotar outras medidas.

    5 – Como transmitir a informação sexual nas diferentes idades

    Primeira infância: 3 a 6 anos

         É a idade em que começam as perguntas, mas sem nenhuma intenção libidinosa. Os pais devem dar respostas imediatas, simples e verdadeiras, ainda que não completas. Nessas idades, as perguntas podem ser disparadas quando menos se espera. Por isso, os pais devem estar preparados para perguntas do tipo “De onde vêm as crianças?”. Responder que os bebês vêm de Deus, e que no início ficam dentro da mãe por nove meses, muito perto do coração dela, como num berço bem aconchegados até o momento de nascerem. A nova gravidez da mãe, tia ou vizinha é sempre uma boa oportunidade para informar às crianças sobre a origem da vida:

         − Você sabe que vai ter um irmãozinho? Agora ele é um menino muito pequeno que está dentro da mamãe, e eu vou alimentando ele com o meu próprio sangue. Assim como você vai crescendo pouco a pouco, também o seu irmãozinho cresce dentro de mim, que vou arranjando lugar para ele ao aumentar o tamanho da minha barriga. Você não fica contente ao pensar que vai ter outro irmão em casa com quem brincar? Seu pai e eu estamos muito felizes porque Deus permitiu que nós colaborássemos com Ele para criar seu irmão. Mas Deus deu a ele a coisa mais importante: a alma, que é o mais valioso que temos, pois sem ela a gente não poderia viver. Um dia essa alma viverá junto de Deus.

          “Como se sabe que é menino ou menina?” é indagação frequente nessa etapa. Nas famílias numerosas a resposta sobre o sexo é fácil, e o momento mais adequado é o do banho do bebê: − Veja, os meninos têm um pintinho e meninas têm um buraquinho ou fenda em lugar do pintinho.

          “O que faz o pai?” é outra questão que mais cedo ou mais tarde as crianças fazem acerca do papel do pai na geração da criança. Pode-se responder assim: − Deus quis que também os pais participassem do nascimento dos filhos. O pai possui uma força que é como uma semente muito pequena que ele deposita na mãe. Essa semente se junta a outra semente que a mãe tem dentro dela, e ali começa a se formar o bebê. O novo bebê é tão filho do pai como da mãe.

    Segunda infância: 6 a 9 anos

         À medida que cresce, a criança desejará saber como é que se juntam as duas sementes, e como é que o pai coloca a sua semente no ventre da mãe. Com naturalidade, deve-se explicar que Deus estabeleceu que os corpos do pai e da mãe se unissem pelo amor, sendo por isso que dormem juntos. A semente do pai, que é líquida, passa através do pintinho ou pênis dele e vai pelo orifício que a mãe tem. É como nas injeções: se introduz a agulha na carne e o remédio passa da seringa para o corpo.

          “Por onde nascem?” é indagação que surge por volta dos 7 anos, quando há um novo nascimento na própria família ou na dos amigos. Como sempre deve-se responder com verdade e naturalidade:

         − As crianças nascem pelo mesmo orifício, chamado vulva, que foi por onde o pai depositou a semente no corpo da mãe. Deus deu ao corpo das mães uma bolsa especial chamada útero, que recebe e alimenta essa semente. O útero tem na parte inferior um orifício formado por tecidos elásticos que se alargam quando chega o momento do bebê nascer. É como a gola da malha olímpica que se alarga quando nela passa a cabeça, e depois volta a encolher-se. O pai não tem essa bolsa nem esse orifício, e por isso um bebê não pode nascer no ventre do pai.

    Pré-puberdade: 9 a 11 ou 12 anos

         As mudanças hormonais que transformam os garotos em homens e as meninas em mulheres, começam a surgir de forma insipiente no período de 9 a 11 ou 12 anos. São mudanças hormonais por enquanto sutis que afetarão o psiquismo dos meninos e das meninas. Os pais devem estar atentos a estes primeiros sinais, para não demorar na instrução sobre as modificações que ocorrerão na puberdade (12 a 14 anos). O período pré-puberal situa-se nas meninas por volta de 11 anos e nos meninos por volta dos 13 anos. Pode variar um pouco conforme os casos, e isso é mais uma razão para que os pais se adiantem na preparação dos filhos, e vez de correr o risco de chegarem tarde demais, e os filhos serem desinformados por outras vias.

    Conversa com a filha na pré-puberdade

         Depois dos 10 anos é conveniente que a mãe fale com as filhas sobre as mudanças hormonais que a menina irá experimentar. É ocasião insubstituível para que mãe e filha se tornem grandes amigas e confidentes, a fim de que a menina sempre aborde com confiança essas questões com a mãe. Uma mãe que se faz inacessível não se torna a confidente da filha, e esta recorrerá às amigas, normalmente mal-informadas.

         Sempre em clima de diálogo, a mãe poderá dizer à filha que o corpo dela deixará de ser criança e se transformará em corpo de mulher: − Seus seios, que um dia alimentarão os seus filhos, aumentarão; em seu ventre aumentará uma bolsa chamada útero. Todo o seu corpo está se preparando para a maternidade. Em breve você será uma mulher. Em seu ventre todos os meses nascerão uns ovinhos muito pequenos que se chamam óvulos, e que ficarão em dois órgãos parecido com duas amêndoas, que são os ovários, situados à direita e esquerda do útero. Cada mês, um desses ovos viaja para o útero a fim de ser fecundado pela semente do pai, e dará lugar a uma nova criança que nascerá em nove meses. Mas se não é fecundado, o óvulo é expelido juntamente com um pouco de sangue e com uma camada superficial da parede do útero. Esse fenômeno pelo qual os ovos desmanchados saem se chama menstruação e dura uns três dias. Isso pode ou não doer um pouquinho; mas esse pequeno incômodo é sinal de que você tem ótima saúde e que futuramente poderá ser uma boa mãe. Dentro de uns meses você perceberá esse sangramento de forma inesperada, talvez na hora de urinar. Não se alarme, e venha falar comigo para eu ensinar a você como fazer uma higiene adequada.

         A mãe também deve prevenir a filha de que juntamente com a menstruação, outros fenômenos de origem psíquica podem ocorrer, como mudanças no estado de ânimo: − Você ficará mais triste ou mais alegre do que antes; poderá ficar mais irritada e sem vontade de falar com ninguém; terá mais facilidade para se emocionar ou chorar. Tudo isso será normal e não deve preocupar. O que você deve fazer é me procurar, porque sou sua mãe, pra gente conversar com muita confiança sobre o que você estará sentindo. Eu explicarei tudo, porque quero que você atravesse essa fase da vida sentindo-se muito acompanhada e segura.

    Conversa com o filho na pré-puberdade

         É o pai que deve falar com o filho, em torno dos 12 anos ou quando muito aos 13 de anos, conforme o grau de desenvolvimento físico do garoto; e sempre em clima de diálogo para deixar o adolescente fazer perguntas. Em resumo, o que poderá ser dito ou respondido pelo pai será o seguinte:

         – Filho, você logo irá crescer bastante, e nessa espichada sentirá bastante fome e comerá muito. Começará aparecer uma sombra de barba e de bigode em forma de penugem, e também pelos nas axilas e em outras partes. Isso significa que você já não é mais uma criança e em breve será um homem. Por isso, as características masculinas começarão a se acentuar em você. Os órgãos que fazem de você um homem irão crescer e com alguma frequência irão dilatar-se e endurecer. Você sentirá um grande ardor em todo o corpo, especialmente na parte genital. Poderá perceber ao acordar que haverá uma mancha no lençol ou no pijama. Já expliquei a você que para uma criança nascer é preciso que a semente feminina − o óvulo − seja fecundado pela semente masculina que se chama sêmen ou esperma. É um líquido produzido pelas glândulas sexuais ou testículos, muito antes da idade em que se pode pensar em casamento e ser pai. Esse líquido, na parte que não for absorvida pelo sangue para robustecer e virilizar o seu corpo, será expedido pela uretra durante o sono, ou ao andar bicicleta, ao sonhar estar cavalgando, etc., fazendo você experimentar uma sensação de prazer. Todos os jovens normais experimentam esses derrames, de vez em quando, de modo involuntário e inconsciente. Chamam-se poluções ou ejaculações, e você não deve falar disso aos companheiros, não por seja feio ou vergonhoso, mas porque os rapazes fariam troça e poderiam abordar esse tema de forma errada, porque querem dar uma de sábios, mas não passam de ignorantes. O que você não deve fazer é provocar essas reações de prazer voluntariamente, porque isso é viciante e causaria muitos prejuízos em você, que em breve explicarei melhor, além de que isso não agrada a Deus, a quem você ama. Saiba que Deus pôs essa sensação de prazer no corpo não para que você a experimente a qualquer momento, mas para constituir uma família com a esposa que você escolher e ter filhos com ela, que também serão filhos de Deus.

    A puberdade e o sexo: 12 a 14 anos

         É a chamada “idade difícil”. Os filhos devem saber que a partir da puberdade já é possível ser pai ou mãe. Pode-se explicar a eles com mais alguns detalhes, e com os nomes precisos, os fenômenos físicos cujas ações essenciais se transmitiram anteriormente na pré-puberdade. Mas o que interessa agora sobretudo é que, sempre em clima de diálogo, fiquem com ideias precisas sobre o sentido do ato sexual:

         − Filho, sobre o alcance do ato sexual entre marido e esposa não há nada de mal, antes pelo contrário, pois isso foi querido por Deus com uma finalidade clara: amarem-se e ajudarem-se  intensamente, e assegurar que a espécie humana se perpetue com a chegada de novos homens e mulheres. O poder de procriar é um dom maravilhoso que Deus dotou a humanidade: quis que os homens e as mulheres O ajudassem na criação de novos seres humanos. Para isso, Deus colocou no ato sexual um grande prazer físico, porque se não houvesse o desejo físico, nem a gratificação do prazer imediato, o casal poderia se retrair e não usar este dom de Deus, ao pensar nas cargas e responsabilidades que a criação e a educação dos filhos trazem consigo. E assim se frustraria o preceito divino de ter muitas pessoas na terra, e a raça humana desapareceria.

         Todas as coisas feitas por Deus são boas, mas o homem pode fazer mau uso delas. Isso acontece também com o sexo, de tal modo que seria uma desordem, e você faria um mal a si mesmo, se usasse do impulso sexual fora do tempo e do modo previsto por Deus. Os seres humanos não são como os animais, que se juntam, macho e fêmea, por uma força instintiva que os domina. Nós temos inteligência e vontade para decidir, e não estamos obrigados a seguir cegamente os impulsos naturais. Trazer um filho ao mundo até os animais o fazem, mas uma criança tem que ser educada e isso exige um ambiente adequado que se chama família. As crianças seriam infelizes se pai e mãe não se amassem e vivessem juntos com ela. Esse foi o plano maravilhoso de Deus: fazer nascer e crescer as crianças num verdadeiro recanto de amor e felicidade, onde os pais procuram colocar todos os meios para fazer feliz um ao outro e amar os filhos que forem chegando. Fora desse plano os filhos não seriam plenamente felizes, como também não torna feliz aquele que faz do sexo um simples instrumento de prazer, desvinculado do verdadeiro amor.

    6 – O namoro das filhas na adolescência

         A partir da puberdade, ou mesmo antes, as moças sentem-se fortemente atraídas pelos rapazes e surge nelas uma vontade de agradá-los e de namorar. A mãe dirá à filha que ela é ainda muito jovem, e as grandes forças do amor que está sentindo a preparam para se tornar uma mulher mais adiante. Porém, neste momento, essas energias ainda não estão amadurecidas, pois não bastam os vigores instintivos ou sentimentais para que acertemos no amor, sendo necessário que a inteligência, por meio da virtude da prudência, avalie todos os aspectos da situação, e o querer da vontade passe a agir depois dessa avaliação profunda: − Deus faz surgir forças de afeto, carinho e desvelo e quer que você aprenda a dominá-las para não ser subjugada por elas. Se você utilizar essas forças antes do casamento, chegará desgastada a ele e com tristes experiências que terão roubado o melhor de você. A amizade é uma coisa boa e bela e você talvez me pergunte se pode ter como amigo um rapaz. Não há mal nisso, mas quando você notar que sente por ele − e ele por você − algo mais do que amizade, será bom reavaliar o trato com ele. Quando ele se aproximar de você e disser que é bonita e tentar beijá-la, isso já é mais do que uma simples amizade. O namoro não está feito para passar o tempo, mas para conhecer a outra parte (caráter, temperamento, ideais, virtudes), com a finalidade de encontrar a pessoa certa para os dois unirem suas vidas em função de um projeto comum, que é um grande ideal: montar uma família e ter filhos. Você neste momento deve se preparar para a vida, crescer em muitos conhecimentos, ler boa literatura porque os bons autores aprofundam no conhecimento da alma humana, deve crescer no amor a Deus para respeitá-Lo e respeitar-se. Antes de pensar em namoro sério, precisa estudar e preparar-se para uma profissão, que será um serviço aos demais, tendo em conta a descoberta e o desenvolvimento de suas qualidades pessoais; e isso requer tempo para leituras profundas, entre outras metas.

         A chave da eficácia dessa conversa está mais uma vez na amizade entre a mãe e a filha, que deve ir crescendo ao lado da autoridade materna. Se a filha se acostumou desde criança a contar à mãe tudo o que sente ou a preocupa, é difícil que não a procure confiadamente para saber como lidar nas novas circunstâncias da puberdade, e para conferir aquilo que ouve das colegas ou o que as vê praticar. Se o diálogo é aberto e frequente, a filha compreenderá as desvantagens de um namoro precoce: − Ficar empatada com um menino muito jovem, que ainda não sabe o quer da vida, e dada a volubilidade própria dessas idades, ele a trocará por outra e deixará feridas no seu coração. Não é preciso antecipar o tempo. Você, ao se transformar numa mulher adulta, saberá encontrar um grande amor e, ao lado desse homem maduro, de princípios que você saberá constatar, e que a compreenderá e a respeitará, amando-a verdadeiramente e sendo capaz de se sacrificar para abraçar os filhos que Deus lhes enviar. Além disso, ele terá que manter financeiramente a família com a profissão que tiver, principalmente nos períodos em que vocês tiverem um novo bebê, porque certamente você terá que diminuir suas atividades profissionais. Veja que você ainda é muito jovem, e o risco de um namoro prolongado (mais de dois anos e meio, por exemplo), facilmente chegará às intimidades próprias de marido e esposa, desgastando as pessoas nele envolvidas para a compreensão de um verdadeiro amor.

    Textos extraídos da obra “Filhos: educação sexual”, de Francisco Sequeira, Editora Quadrante, São Paulo (SP), e adaptado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/

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  • Lazer e tempo livre dos filhos

    Lazer e tempo livre dos filhos

    1 – O lazer é necessário para se trabalhar bem. 2 – Diversão em todas as etapas da vida. 3 – A família ensina a brincar. 4 – Atividades que respeitem o gosto dos filhos. 5 – Ao brincar as crianças aprendem a viver. 6 – Promover Clubes Familiares ou espaços educativos.

    1 – O lazer é necessário para se trabalhar bem

          Um arco em constante tensão se estraga e deixa de cumprir a função de lançar a seta ao alvo. Uma pessoa também não pode levar a vida em constante pressão, e necessita de momentos de distensão. Trabalhar e brincar são atividades diferentes, mas realizadas pela mesma pessoa. O descanso permite retornar às reponsabilidades familiares, profissionais e sociais com energias renovadas.  Em grego, educação (paideia) e jogo (paidiá) são termos do mesmo campo semântico. De fato, aprendendo a jogar se pode adquirir atitudes para enfrentar a vida.

          As obras humanas − seja trabalhar ou brincar − envelhecem, caducam, e são colocadas no arquivo morto da história. O seu valor mais elevado está em que, ao serem realizadas, façam crescer no amor, o que corresponde também crescer em virtudes. A vida só tem sentido pleno quando fazemos as coisas por amor a Deus, em primeiro lugar, e aos demais, porque só as obras de amor ultrapassarão as fronteiras desta vida e acompanharão na eternidade os que as realizam.

        A atual indústria do entretenimento promove diversões viciosas que dificultam ou impedem o crescimento em virtudes, como a temperança ou autodomínio, a laboriosidade, entre outras. A desorientação dos jovens não é diferente da que se verifica em muitos adultos, que também confundem a felicidade, que é resultado de uma vida plena, com uma efêmera sensação de alegria pontual, que logo passa e deixa um sabor amargo.

          Toda pessoa deseja ser feliz. Porém, muitos − jovens e adultos − não perceberam que a felicidade é um bem espiritual e não material, e se propõem diversões superficiais que apenas afagam os instintos e a sensibilidade, sem preencher a alma. Assim, se sentem tristes, embotados e com a sensação de que lhes falta algo, uma vez satisfeitos seus caprichos. Nos clubes, o crescimento em virtudes, o espirito de solidariedade ou de serviço aos demais, ensinam que a diversão deve ter em conta a Deus e o bem do outro.

          Feriados e fins de semana quebram a monotonia do quotidiano e são ocasiões para descansar, desfrutar da vida em família, educar os filhos e viver a fé em Deus. Na tradição judeu-cristã são dias com sentido religioso, associados ao descanso de Deus, uma vez terminada a Criação, quando Ele abençoou e santificou o sétimo dia e nele contemplou sua maravilhosa obra, vendo que tudo era muito bom, especialmente a criação do ser humano. Assim, desde tempos imemoriais os dias de folga têm pleno sentido em Deus.

          É missão dos pais mostrar aos filhos esse caráter de dom que os feriados e domingos possuem. Devem organizar esses períodos sem deixar Deus ausente ou para o final do dia, mas dando prioridade a Ele. Se os filhos percebem que os pais organizam com antecedência o fim de semana, privilegiando os atos de culto a Deus, compreenderão de modo natural que o tempo livre permanece vazio sem a presença divina.

    2 – Diversão em todas as etapas da vida

          Os humanos necessitam de momentos de diversão durante toda a vida, porque podem continuar a crescer como pessoas. O animal também brinca, mas muito menos do que o homem, porque a sua aprendizagem logo se estabiliza. A natureza humana serve-se do divertimento para alegrar, aprender, descansar, motivar, conviver. Nem só as crianças têm necessidade de brincar. O adulto que mantém um espírito jovem, com capacidade de se entusiasmar, de recomeçar, de enfrentar cada novo dia como uma estreia, procura ter momentos de lazer. O idoso, mesmo tendo limitações físicas notáveis, necessita brincar, jogar e sentir que possui ainda forças para enfrentar os desafios da vida. É triste ver jovens ou velhos que carecem da flexibilidade necessária para enfrentar situações novas.

          À medida que o tempo passa, tem cada vez mais importância ao homem encarar a vida com certo sentido lúdico para aplicá-lo às “coisas sérias”, às tarefas habituais, às situações novas que poderiam conduzir ao desânimo ou sentimento de incapacidade. Porque aprendeu a jogar e relativizar os êxitos e os fracassos, a fim de não estragar a diversão, passou a arriscar perante novas situações da vida.

         O lazer é excelente momento para conhecer e moldar a personalidade e o caráter dos filhos: nos passeios, visitas, jogos, excursões e esportes pode-se incentivar a viver muitas virtudes. Com isso, o tempo livre deixa de ser “o tempo para as coisas banais” e transforma-se em tempo qualitativo e performativo.

          Pais que entendem os tempos livres como oportunidades de evasão e perdas de tempo, abrem mão de excelentes oportunidades de crescimento humano e espiritual dos filhos. Também não se trata de ensinar a aproveitar os tempos livres “só para fazer coisas úteis” como estudar, aprender línguas, instrumentos musicais, etc., mas ensinar a desenvolver a unidade de vida, o espírito contemplativo, o amor ao silêncio e à reflexão, o mergulhar a alma na boa literatura, a viver com mais intensidade a vida em família e o trato com os amigos. Tudo isso desenvolve nos filhos uma personalidade firme, o bom uso da própria liberdade e a oportunidade de transcender-se ao exercitar a fé. Só assim aprenderão a conviver com os outros e a aspirar a uma vida plena.

          É necessário orientar crianças, adolescentes e jovens para que valorizem os dias em que as atividades escolares não os obrigam. Assim, donos de si, devem decidir com liberdade e responsabilidade sobre o que desejam fazer. É caminho de excelência humana incentivá-los a utilizar o tempo livre para cultivar o bem (educação da vontade), a verdade (educação da inteligência) e a beleza (educação dos afetos). 

          Descuidar o lazer dos filhos é malograr tudo o que de bom esses momentos podem oferecer; é permitir que sejam vítimas da preguiça ou da comodidade ao se deixar levar por formas passivas e pouco criativas de descanso, como a de passar longo tempo diante da televisão, redes sociais ou games.

          Educar para viver melhor o tempo livre exige que os pais sejam modelos em não “Matar o tempo”, que é atitude egoísta de quem se retrai em suas coisas e não oferece seu tempo a Deus e aos demais. Os filhos devem compreender que descansar não é não fazer nada, mas distrair-se em atividades que exijam menos esforços.

    3 – A família ensina a brincar

          Aprende-se a brincar principalmente na família, que se transforma em palco de criatividade: um cobertor sobre os móveis da sala se transforma em cabana, circo, gruta, quartel. Se para a criança viver é competir e conviver, é difícil compreender como se pode harmonizar ambos os aspectos – competir e conviver – à margem da instituição familiar, que é a primeira célula de socialização da pessoa.

          O grande valor pedagógico de brincar reside em vincular os afetos à ação: poucas coisas unem de modo imediato pais e filhos do que brincarem juntos. Partilhar momentos felizes em família evita futuros passatempos nocivos. Quem não faz memória dos momentos da infância brincando com os pais? E se tiveram a dita de vê-los rezando, podem compreender quão nocivo é o descanso que afasta de Deus!

          Por vezes, os pais temem que os filhos “percam o tempo” durante os dias não letivos, e enche-os de atividades extraescolares: aprender idiomas, um instrumento musical, natação, reforço escolar, etc. Com isso, as crianças perdem a oportunidade do ócio criativo, pois o seu tempo livre se converte em prolongamento dos dias “úteis”, a fim de atender atividades ligadas aos afazeres escolares e organizadas por iniciativa dos pais, dando-lhes a impressão de que viver é só cumprir com obrigações sérias.

          Qualquer atividade deve contribuir para o crescimento integral dos filhos (inteligência, vontade e afetos). Porém, entupi-los de compromissos não significa que irão melhorar como pessoas, porque não terão tempo para refletir sobre si mesmos. Os filhos têm que ter oportunidade de exercitar a liberdade própria, tendo a oportunidade de escolher as atividades que mais apreciam para descansar. Entulhá-los com ocupações que os impeça de descontrair-se livre e criativamente e de conviver com os amigos não é formativo, e corre-se o risco de que cresçam sem saber como descansar, se não há quem os dirija. Logo mais se deixarão guiar pelas imposições da sociedade de consumo.

    4 – Atividades que respeitem o gosto dos filhos

          Educar para o bom aproveitamento dos tempos de lazer implica propor atividades atraentes que respeitem o modo de ser de cada filho, seus interesses, capacidades e gostos, a fim de que descansem, se divirtam e cresçam humana e espiritualmente. Incentivá-los desde pequenos a descobrir por si próprios o melhor modo de empregar o tempo livre requer dos pais imaginação e espírito de sacrifício. Por exemplo, ajudá-los a perceber que as atividades que consomem tempo desproporcionado ou levem a isolar-se, como ocorre com as horas diante da televisão, internet, redes sociais, games, é menos criativa e saudável do que formas de lazer que permitam cultivar relações presenciais de amizade como ocorrem com o esporte, excursões, jogos ao ar livre com amigos, etc.

          Os filhos, como parte do processo normal de amadurecimento e independência, querem estar com os de sua idade fora do lar e sem a intromissão de adultos. É grande desfrute para eles sair com os amigos para ouvir música, adquirir coisas (roupa, material esportivo, acessórios informáticos, etc.), pois são ocasiões de estarem juntos. Isso não significa que os pais deixem perguntar como se divertem e com quem, afim de orientá-los.

    5 – Ao brincar as crianças aprendem a viver

          O que as crianças querem é brincar, pois essa atividade associa-se à felicidade, ao sair fora do tempo e abrir-se à admiração e ao inesperado a que pode levar a imaginação. A brincadeira revela a identidade de cada criança, porque ela se envolve com todo o seu ser naquilo que faz. Brincar é modelo do que será a vida ao assimilar e imitar as atuações dos mais velhos; é jeito de aprender a utilizar as energias e de descobrir as qualidades e as limitações próprias (limitação é diferente de defeitos). Ao brincar, aprende-se a se conhecer e a conhecer os amigos de um modo divertido; exige interpretar os conhecimentos adquiridos nos jogos e a ensaiar suas forças nas competições; brincar leva ao desafio de integrar − com a ajuda dos pais − os diferentes aspectos da personalidade: liderança, sociabilidade, espírito de equipe, reconhecimento das falhas pessoais e compreensão com as falhas dos amigos…

          A brincadeira contém um valor ético e ajuda a ser sujeitos morais: tem regras que devem se assumidas livremente, fixam-se objetivos e aprende-se a relativizar derrotas e vitórias. Por isso, o normal é brincar com outros, “brincar em sociedade”. Este caráter social está tão radicado no ser humano que as crianças ao brincar sozinhas falam consigo e tendem a construir cenários fantásticos, histórias e outras personagens com quem dialogam e se relacionam.

          O interesse dos pais pelo lazer dos filhos pode adotar diferentes formas. Por exemplo, se os filhos convidam os amigos para casa, seja para brincar ou assistir a jogos esportivos, permitirá conhecer a eles e suas famílias, sem dar a errada impressão de que se pretende controlá-los ou que se desconfia deles. Muito interessante é incentivar os filhos que estão na escola fundamental para que convidem de cada vez três ou quatro amigos da turma para lanchar ou brincar em casa. Assim, aos poucos, o filho deixará as “panelinhas” de lado e crescerá em sociabilidade e fortalecerá a amizade com todos, e os pais conhecerão os garotos da turma para orientar os filhos nas escolhas que faz.

    6 – Promover Clubes Familiares ou espaços educativos

          Os pais podem promover, com a ajuda de outras famílias, lugares adequados para os filhos crescerem humana e espiritualmente durante os tempos livres nos fins de semana.

          Grupos de pais vêm criando Clubes Familiares em condomínios residenciais, associações, ONGs, escolas em dias não letivos. Esses clubes ajudam os pais a fortalecerem a amizade com os filhos e as mães com as filhas. A estrutura desses clubes é muito simples: reúnem-se uma vez por semana durante três horas, geralmente no sábado pela manhã ou à tarde, em local que contenha uma quadra esportiva e um espaço coberto. Forma-se um grupo só de meninos ou só de meninas, sempre com idade aproximada, a partir dos quatro anos (esses dois grupos devem funcionar em horários distintos).

        As atividades das meninas são organizadas e conduzidas pelas mães, e as dos meninos pelos pais, pois deve-se ter em conta as características físicas, psicológicas e de interesses de cada sexo, que são diferentes. Fomenta-se alguma prática esportiva na quadra e, na parte coberta, um breve lanche que cada criança traz e que pode compartilhar, uma palestra de 15 minutos sobre alguma virtude (com exemplos práticos) e uma aula de religião (15 minutos). Outras atividades podem ser: montagem de modelos, aquarismo, pintura, jogo tipo de sala em equipe, etc. Uma vez por mês o grupo de meninos com os pais e o de meninas com as mães podem programar um passeio ou visita cultural. Assim, as crianças aprendem a brincar sem perder de vista a sua dignidade de filhos de Deus, ao mesmo tempo que convivem com outras crianças com boa formação humana e espiritual. A experiência dos pais é que as crianças esperam ansiosamente pelo dia do clube.  Vale a pena dar essa alegria a elas.

    Texto adaptado por Ari Esteves para o site https://staging.ariesteves.com.br/, com base nos artigos “Lazer e tempo livre (1): brincar para viver”, de J.M. Martín e J. Verdiá, em https://bityli.com/uLiYPi; e “Lazer e tempo livre (2): feriado e diversão”, de J.M. Martín e M. Díez, em https://bityli.com/ZnCNbz

  • Doenças do comportamento da criança

    Doenças do comportamento da criança

    1 – Três doenças que alteram o comportamento infantil. 2 – Transtorno Atencional com Hipercinesia. 3 – Depressão infantil. 4 – Transtorno por Ansiedade Excessiva em crianças. 5 – Diante de uma anormalidade, agir rápido.

    1 – Três doenças que alteram o comportamento infantil

          A educação afirmativa ou assertiva é aquela onde o carinho e a exigência se unem. Por vezes, essa educação, tão eficaz, pode não alcançar o êxito desejado porque um dos filhos apresenta determinada patologia no comportamento.

          Os tratamentos modernos combinam psicoterapia, medicação e orientação familiar. A resposta da criança à terapia é mais rápida que a de um adulto que apresente algum desses distúrbios: em curto prazo ela se cura, se atendida por um psicoterapeuta infantil bem-preparado.

    2 – Transtorno Atencional com Hipercinesia

          A primeira patologia que impede os resultados das boas técnicas educativas é o Transtorno Atencional com Hipercinesia (do grego “Hiper”, muito + “kínesis”, movimento: muito movimento), antes conhecido como Disfunção Cerebral Mínima.

          Transtorno Atencional: a criança tem dificuldade de manter a atenção concentrada no acompanhamento das aulas, nas tarefas escolares em casa ou em outra atividade que realiza. Os pais veem-se obrigados a repetir as ordens com frequência e têm a impressão de que ela não lhes faz caso. Costumam agir de forma precipitada e interrompem os outros porque não são capazes de aguardar a vez nas conversas, brincadeiras ou tarefas.

          Hipercinesia: o excesso de movimento ou hiperatividade costuma ser acompanhado pelo deficit de atenção (deficit atencional com hiperatividade). Manifesta-se na dificuldade para dedicar-se a uma única tarefa ou ser perseverante no que faz: levanta-se a todo instante de sua carteira na sala; inicia uma lição e não a termina; mesmo tendo bom nível de inteligência tira notas baixas; tem má conduta na sala de aula, com queixas dos professores. A criança hiperativa costuma perder material escolar, brinquedos, roupas, etc., e nas atividades físicas tende a práticas perigosas sem medir os riscos.

          O Transtorno Atencional com Hipercinesia pode manifestar-se na criança associado a outras disfunções de conduta: dizer mentiras, cometer pequenos furtos, mostrar-se briguenta e com poucos amigos, ser desafiadora e contestatária com pessoas que detêm autoridade sobre ela.

    3 – Depressão infantil

          A depressão em crianças é de difícil diagnóstico, porque elas não sabem justificar o motivo de sua tristeza. Esse distúrbio pode ter as seguintes manifestações: passar da passividade aos movimentos excessivos; ser agressiva; dormir mal e com dificuldade para despertar pela manhã, quando isso não ocorria; inapetência ou voracidade diante dos alimentos; choro frequente sem saber explicar o motivo; diminuição do rendimento escolar; deixar de brincar ou diminuir a frequência.

          A terapia combina psicoterapia, medicação e acompanhamento familiar. Ao contrário dos casos de depressão em adultos, a resposta das crianças ao tratamento costuma ser de curto prazo.

    4 – Transtorno por Ansiedade Excessiva em crianças

          A ansiedade é uma reação normal em qualquer pessoa diante de situação que provoca medo, dúvida ou expectativa: horas que antecedem uma entrevista de emprego, resultado de prova ou concurso, nascimento do filho, diagnóstico de possível doença… Em tais casos, a ansiedade prepara a pessoa para o desafio que deverá enfrentar.

          O Transtorno por ansiedade excessiva ultrapassa o limite do razoável, e pode afetar pessoas de qualquer idade. Em geral, as mulheres são um pouco mais vulneráveis à ansiedade que os homens.

          Na criança, a ansiedade passa a ser um distúrbio quando o corriqueiro se torna desproporcional, diminuindo sua qualidade de vida. Deve ser considerado um distúrbio atípico nela, pois lhe é causa de sofrimento, impedindo-a de responder positivamente à educação que recebe.

          Existem dois tipos de transtornos de ansiedade: Angústia por Separação e Transtorno por Ansiedade Excessiva.

          Angústia por Separação: a criança se nega a ficar longe das figuras protetoras (pais, avós, irmão mais velho, empregada) e recusa-se a ir ao colégio ou a cumprir outras obrigações que impliquem separação física. Pode sentir dor de cabeça e de estômago. Geralmente tem pesadelos intensos ou medo de dormir à noite.

          Transtorno por Ansiedade Excessiva: é um distúrbio persistente e de difícil controle para a criança, que vive extremamente preocupada com o seu desempenho na escola, nos esportes e na vida social. Faz constantes perguntas sobre si às pessoas ao seu redor, a fim de se tranquilizar, reafirmar-se e obter a aceitação delas: − Estou bem?Gostou? Preocupa-se excessivamente diante de fatos que não merecem tanta atenção: − Acha que ficou bom? Esse comportamento leva-a à inquietação, fadiga, irritabilidade, dificuldade de concentração, tensão muscular e perturbação do sono.

          As duas patologias melhoram rapidamente com a ajuda de um psicoterapeuta infantil bem-preparado, além do acompanhamento familiar.

    5 – Diante de uma anormalidade, agir rápido

          Os pais não devem se sentir culpados diante de uma anormalidade comportamental da criança, mas precisam agir rápido, caso observem algum sintoma. Além da saúde da criança, a celeridade na ação evitará alteração na dinâmica familiar, uma vez que os filhos saudáveis tendem a imitar as atitudes do irmão que padece um transtorno.

    Texto produzido por Ari Esteves com base no livro “Carinho e firmeza com os filhos”, de Alexander Lyfird-Pike, Editora Quadrante, São Paulo SP

  • Educar para o pudor

    Educar para o pudor

    1 – O pudor é um convite à discrição da intimidade. 2 – Não ser porta-voz da intimidade alheia. 3 – A quem confidenciar o que é íntimo? 4 – Educar para o pudor. 5 – O pudor enobrece a pessoa. 6 – Pudor no modo de vestir. 7 – A mulher e o pudor.

    1 – O pudor é um convite à discrição da intimidade

          O pudor, além de instinto natural manifestado no sentimento que faz a pessoa sentir-se mal diante da exteriorização do que é íntimo, é também um hábito ou virtude moral − portanto radicada na inteligência − de preservar da curiosidade alheia certas partes do corpo, sentimentos, pensamentos. A intimidade é o mais próprio de cada pessoa, e se estende não apenas ao visível, mas também ao mundo interior de cada indivíduo, e que pode ser imprudentemente exteriorizado por meio de palavras ou gestos. Pudor, castidade ou pureza fazem parte de uma virtude maior chamada temperança.

         Pudor é convite à discrição, à negativa de mostrar o que deve permanecer oculto, e inspira o modo de vestir e de falar ao manter silêncio ou reserva quando se advinha o risco da curiosidade malsã. A vigilância facilitada pelo pudor modera a sexualidade ao ajudar a pessoa a se desenvolver em clima que assegure a supremacia da razão sobre os instintos e suas possíveis desordens.

         Quem oferta a sua intimidade aos meios de comunicação, a fim de convertê-la em assunto público, perde-a e ficará na miséria, ao menos moral. O despudor pode estar relacionado à vaidade, ao exibicionismo ou desejo de chamar a atenção, a ponto de traficar o corpo e a própria intimidade, por julgá-los de pouco valor. Quem é interiormente rico não necessita do aplauso alheio para se afirmar.

         A pessoa despudorada tem agravada a sua consciência ao se fazer cumplice dos erros morais provocados em outros. Atitudes excitativas causadas pelo modo de vestir, de se comportar e de falar, dão lugar a pensamentos e práticas imorais realizadas por outros. Ao não aplaudirmos nem darmos audiência a ações que revelam uma pobre compreensão da dignidade humana, ajudaremos aos que comercializam a sua intimidade a que repensem seu comportamento.

    2 – Não ser porta-voz da intimidade alheia

         Antes de expressar algo íntimo, é preciso pensar se convém fazê-lo, e em que grau a própria imagem, e a de outra pessoa, ficará danificada. A frivolidade de expor a intimidade alheia faz cair na difamação, destrói o próprio caráter e atenta contra a dignidade do outro. O comportamento digno é não lançar ao vento o mórbido que se venha saber, por exemplo, acerca das relações imorais de celebridades ou não; a não comentar, nem para se lamentar, da pobreza moral dos reality show e de outros programas levados ao ar por diferentes mídias; a não repassar imagens sensuais veiculadas nas redes sociais, etc. Com isso, não agravaremos a consciência pessoal ao ser cúmplices das desordens morais provocadas em outras pessoas.

    3 – A quem confidenciar o que é íntimo?

         Se há necessidade de compartilhar experiências íntimas ou problemas pessoais, a fim de buscar uma ajuda, o destinatário deve ser uma pessoa e não uma multidão. A confidência não deve dirigir-se a qualquer um, mas a quem mereça confiança e seja capaz de penetrar até a raiz do que será comunicado. Determinadas ações humanas, sentimentos com relação a alguém, conflitos familiares, revelações ou desabafos, é território onde se autoriza a penetrar só as pessoas íntimas que podem compreender e aportar um bom conselho, dada a sua sabedoria, prudência, sentido de responsabilidade e discrição. Ambas as partes, tanto a que se abre quanto a que escuta, se beneficiam e crescem interiormente: a que fala se liberta do que a oprime, e a que ouve sente alegria pela prova de confiança, que a fará crescer em sentido de lealdade e de responsabilidade.

    4 – Educar para o pudor

         O pudor se começa a viver na família. Por ser uma virtude, além de sentimento natural, pode crescer por meio de uma delicada educação. O gosto estético ou a compreensão da beleza é educável e pode melhorar, refinar-se, com a formação da consciência. Educar no pudor as crianças e os adolescentes é despertar neles o respeito a si e aos demais. Dada a inexperiência de vida, é preciso ensinar às crianças sobre o que é íntimo e deve ser cuidado, a fim de que logo reconheçam em si e nos outros.

         É preciso explicar às crianças algumas atitudes para que as vivam: bater à porta antes de entrar no dormitório de outro, não contar coisas íntimas da família aos amiguinhos ou a estranhos, desligar a tv ou mudar de canal diante de uma cena inconveniente, não andar pela casa despidos, ensinar a fazer perguntar íntimas em particular, não bisbilhotar aspectos da intimidade de outras pessoas, explicar o motivo para não frequentar lugares onde se despreza o pudor. A criança deve aprender a vestir-se com recato e ser discreta: uma menina que sai à rua com o corpo exposto além do limite razoável, perderá a sensibilidade e continuará a fazê-lo na adolescência e na juventude. É importante que cada membro da família disponha de seu próprio dormitório ou ao menos de um armário. É necessário cuidar das áreas em que cada um se veste e se despe (isso também deve ser vivido no ambiente escolar).

         Os pais devem dar exemplo em casa: vestir-se com recato e bom gosto, diante dos filhos não dar mostrar de carinhos próprios da intimidade conjugal, não se permitir filmes que instiguem a sensualidade… Um pai que anda pela casa de tronco nu e calção deve pensar se está respeitando as filhas e os filhos, se os estará educando para o despudor, e se deixará neles uma triste imagem paterna.

    5 – O pudor enobrece a pessoa

         A prática do pudor é autodomínio, é colocar limite à exposição do corpo e da interioridade. Isso não é puritanismo, mas dignidade e respeito a si e aos demais, e revela a rica corporeidade e espiritualidade de quem se conduz pela razão. O pudor convida a viver diversos aspectos que enobrecem a pessoa:

    • Ter paciência e moderação nas relações amorosas, exigindo que se cumpram determinadas condições, tendo em vista um compromisso definitivo entre o homem e a mulher;
    • Leva a ocultar os valores sexuais para não os transformar em coisa, nem dar motivo a que os demais vejam a outra pessoa como mero objeto;
    • Evitar conversas e informações sobre o comportamento ou sentimentos pessoais e de outros a quem não tem o direito de saber;
    • Não falar sobre temas escabrosos, entrevistas ou imagens veiculadas por determinados programas de tv ou por outros meios de comunicação que angariam audiência ao revelar a vida íntima de personalidades públicas (são açougueiros de carne humana);
    • Cuidar da linguagem habitual para que não seja vulgar. Pessoas com boa educação se sentem incomodadas diante de falas grosseiras ou que narrem fatos ou anedotas que violentem o pudor.

    6 – Pudor no modo de vestir

         O pudor não está em conflito com a elegância, antes é exigido por ela, pois inspira uma maneira de viver que permite resistir às imposições da moda e da pressão de ideologias materialistas. Cada um veste-se do modo como lhe agrada, o que faz dessa ação um reflexo da pessoa em sua integridade: corpo, sentimentos, inteligência e vontade.

         “Elegante” vem de “eleger”. A pessoa elegante é a que elege bem ao saber que na escolha intervém fatores além da moda e da combinação das cores: o físico da pessoa, o que ele pode provocar e a circunstância de vestir-se para um passeio, trabalho, festa ou esporte. Há pessoas que pela falsa compreensão do que é ser autêntico, não diferenciam as circunstâncias e fazem o ridículo de se vestir inapropriadamente ao não distinguir os momentos: podem ir a um casamento de jeans, ou sair com a namorada de bermuda e camisa de time de futebol, enquanto ela vai elegantemente vestida. Com isso, acabam não respeitando ou não compreendendo a dignidade do outro.

         Seguir a moda facilita a vida, mas sem ser escravo dela, ou de suas imposições muitas vezes imorais. Cabe a cada um ir contra a corrente para mudar certos costumes que atentam contra o pudor. Vestir-se para o esporte não anula as exigências do pudor.

    7 – A mulher e o pudor

         A mulher deve saber valorizar o corpo em unidade com seu espírito. Se a mulher perde o pudor, perde o seu mistério, se coisifica. Existe na mulher algo de misterioso, inexaurível, que ultrapassa a corporeidade e atinge a alma. Dante Alighieri viu a alma no sorriso e nos olhos de Beatriz: “Pois em seus olhos brilhava um rio / tal que pensei com os meus tocar o fundo / da minha glória e do Paraíso”. Os olhos são a janela da alma e refletem a expressão do corpo e da interioridade. O que não é misterioso não é capaz de oferecer um interesse duradouro, mas para consumo imediato. Abdicar o pudor pode sinalizar falta de compreensão sobre o que é o verdadeiro amor.

         Desnudar-se além do conveniente em praias, piscinas e festas é um modo de chamar a atenção para a corporeidade, e revela um corpo sem mistério que perde a riqueza que nasce do espírito, que é onde reside a personalidade humana. A sabedoria do pudor ilumina o semblante e revela que a personalidade tem algo que transcende o corporal porque o supera. A razão humana alcança compreender que na pessoa há algo superior à matéria e criado por Deus. Esse algo é a alma espiritual, que ao ser unida à matéria, eleva-a. Um corpo não constitui o ponto final de nossas percepções, e nos remete para algo que está além dele.

    Texto adaptado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, com base na obra “O pudor”, de Ada Simoncini, Editora Quadrante, São Paulo.

  • Crianças de 4 e 5 anos e a educação familiar

    Crianças de 4 e 5 anos e a educação familiar

    1 – Crianças de 4 e 5 anos e a educação familiar. 2 – Teimosias de filhos não se cura com teimosias de pais. 3 – Pais que mandam muito erram. 4 – Como acabar com chiliques e birras. 5 – A criança precisa aprender a defender-se. 6 – Medos, angústias, obsessões infantis, ciúmes. 7 – Dar responsabilidades é fomentar a autonomia da criança.

    1 – Crianças de 4 e 5 anos e a educação familiar

         Com quatro anos de idade, é notório o resultado da boa ou má educação que a criança recebeu desde o seu nascimento. Agora, novos aprendizados podem ser propostos, sendo necessário também corrigir traços negativos do caráter adquiridos nos primeiros anos: não cumprimentar, brigar com os irmãos ou amiguinhos, teimosias, usar o choro como chantagem, ciúmes, não emprestar, deixar jogados os brinquedos, falta de hábitos de higiene…

         Crianças nessas idades encontram-se numa etapa maravilhosa e muito importante de sua educação, pois começam a estabelecer as bases da personalidade: a comunicação alcança notável avanço (gostam de falar e de dialogar); vivenciam as primeiras ideias que ocuparão os melhores lugares em sua inteligência; mostram-se receptivas a tudo; começam a ganhar hábitos de autonomia; têm desejos de ajudar os pais. É unânime a opinião de que sair com crianças de quatro e cinco anos é uma beleza, pois já não é necessário carregar um arsenal de coisas: papinhas, água, fraldas, talco, pomadas, bonecos… Aceitam qualquer plano com os pais, com quem preferem conviver, mais que a outras pessoas.

         Diante dessas novas realidades é necessário saber educar com amor, exemplo e paciência, que são os pilares básicos da educação, e apoiar-se nos pontos fortes da criança para que ela supere com ânimo e valentia os defeitos da idade. Ter presente que a violência contra a criança leva ao medo, à angústia e à obediência calculada, além de torná-la agressiva com os irmãos e outras crianças. Por medo, poderá ocultar a verdade sobre os fatos e perder a simplicidade. É preciso demonstrar amor e atuar com paciência ao ver na pequena travessura não um problema, mas ótima ocasião para ajudá-la a melhorar. É importante que pai e mãe atuem em concordância, tendo um Plano de Ação bem pensado para aplicar com paciência, porque o que vale a pena não se consegue de um dia para o outro.

    2 – Teimosias de filhos não se cura com teimosias de pais

         Uma criança de quatro ou cinco anos gosta de impor seus desejos: se pede à menina para sair com a calça azul, ela dirá que quer ir com o vestido vermelho. É muito difícil enfrentar a criança teimosa, e contrariá-la continuamente não ajudará a mudar seu caráter. O que fazer? A teimosia da criança não se vence com a teimosia da mãe. É preciso atuar com inteligência ao realizar os objetivos por meio de pequenas aproximações. Se o filho teimar cinco vezes ao dia, contrarie-o uma ou duas vezes, e faça-o obedecer naquilo que é importante. Desta maneira, e pacientemente, chegará a conseguir que ceda no importante e aprenda a obedecer.

    3 – Pais que mandam muito erram

         A personalidade da criança de quatro e cinco anos está em formação. Seu autoconceito necessita adquirir a segurança de pensar e realizar algo por conta própria. Contrariar todas as suas iniciativas a fará sentir-se confusa e apática: – Tudo o quero sempre está errado! Os pais devem diferenciar entre o que é importante que a criança cumpra, ainda que ela não queira (não dizer palavrões, ser ordenada e guardar suas roupas e brinquedos, não brigar ou chutar, ser agradecida, cumprimentar as pessoas…), e aquilo que não é importante, a fim de evitar discussões bobas. Por vezes, o autêntico problema de não obedecer está em que os pais mandam muito, e a criança quer provar sua força ao atuar com independência. Deixe uma margem de criatividade para ela; não digam sempre a última palavra em tudo, a fim de que a criança conclua sobre o que é razoável: se vestiu os sapatos com os pés trocados e pergunta se estão corretos, sorria e não diga nada, mas apenas pergunte: – O que você acha? Assim, ela terá que pensar e expressar uma opinião.

         Aos três ou quatro anos surge o que se costuma chamar a “idade do não”. É um momento incômodo para os pais, mas está dentro do processo evolutivo normal da criança, com a floração mais acentuada da vontade infantil. Nesse período é importante fundamentar bem os motivos para que a criança obedeça, a fim de que perceba o quanto é razoável fazer o que pedem. A desobediência nessas idades não provoca mais danos morais que a irritação de seus pais. O hábito de obedecer será facilitado pela atuação ordenada de seus responsáveis, e não pela imprevisível e inconstante atitude de exigir algo alguns dias e em outros não. Se, por exemplo, indicarem à criança que pendure no cabide o uniforme escolar ao chegar em casa, não devem desistir até que isso passe a ser um hábito (os pais não devem pendurar para não perderem autoridade).

         Os pais têm o direito de ser obedecidos, mas devem elogiar os esforços da criança, que terá mais alegria em obedecer. Há pais que correm o risco de se contentarem apenas com a aparência de obediência, porque não sabem explicar e não se dão conta de que o mero cumprimento de uma ordem não desenvolve a virtude da obediência, que é racional e traz a alegria de se atuar dentro da verdade.

    4 – Como acabar com chiliques e birras

         A criança de quatro anos está vermelha de tanto berrar, e a mãe, à beira de um ataque de nervos, agarra o pirralho e lhe aplica um corretivo. A resposta não se faz esperar: o pequeno bate na mãe. Não se solucionam birras com histerismos maternos. Diante de um ataque de raiva de um filho, deixe-o berrar por um tempo. A seguir, aproxime-se dele e tente dialogar para acalmá-lo; se o consegue, acabou a raiva; se ele continua chorando, não grite e nem brigue para não excitar ainda mais a sua agressividade. Volte a deixá-lo sozinho, a fim de pare por si a birra. Quando, esgotado, se acalmar, abrace-o de modo que note o quanto é querido. Empregue todo o tempo que for necessário para falar com o ele sobre quanto você o ama, pois é o que mais tranquiliza a criança. Uma vez serenado, não deixe de dizer ao filho, com ternura, que fez muito mal com aquela demonstração de raiva, mas que você o perdoa, e pede para que não volte mais a fazer aquilo. O que não convém, quando a criança se tranquilizou, é repreendê-la com modos bruscos por ter se portado mal, pois a birra da mãe dará início a nova sessão de raiva da criança. Será por meio do diálogo tranquilo que a criança se conscientizará de que não agiu bem. Passe um tempinho abraçada ao filho, fazendo-o perceber o quanto é amado, pois isso terá mais efeito do que atuar com gritarias.

    5 – A criança precisa aprender a defender-se

         A criança de quatro anos, como consequência de uma maior abertura aos demais e do afã por afirmar-se, tende a impor-se e, com isso, pode criar atritos com os irmãos e seus primeiros companheiros. Não dê muita importância a essas querelas. O fundamental é que, ao final da discussão, o pequeno faça as pazes com seu “adversário” e saiba, por seus pais, que não está certo brigar. Acostume-o a se defender sem violências. Deixe, com uma discreta vigilância, que ele mesmo resolva os próprios problemas. Não se lancem apavorados para salvar a criança da confusão em que se meteu, a fim de não acostumá-la a que os pais solucionem suas encrencas, o que a faria perder a capacidade de resolver as situações pelas quais toda criança terá que passar. Os atritos irão polir as arestas do temperamento dela, e a fará comportar-se com mais prudência para não desagradar aos demais. Protegê-la não é colocá-la em redoma de vidro para que nada sofra, e anular sua capacidade de reação ante a vida. Ao contrário, significa torná-la forte e segura de si para que desde pequena se acostume a resolver seus problemas.

    6 – Medos, angústias, obsessões infantis, ciúmes

         Certa mãe constatou que até três anos de idade seu filho nunca teve medos, mas a partir dos quatro começou a tê-lo: medo de morrer ou de que irão deixá-lo só. O medo faz parte do processo de maturidade normal da criança, que ao crescer e desenvolver a imaginação, tem mais consciência do que é a escuridão e as consequências de ficar só. Se até esse momento o filho dormia tranquilo, agora necessitará de uma fraca luz acesa ou de que a mãe o acaricie e converse com ele no próprio quarto da criança. O mau seria não superar o medo, convertendo-o em obsessão ou fixação angustiosa. Trate-o com amor e paciência, diga que vai ajudá-lo a perder o medo. Se, por exemplo, a escuridão o assusta, brinque de entrar com ele em locais escuros e fique ali por um tempo. Na escuridão, conte histórias de personagens valentes que de pequenos tinham medo do escuro, mas venceram suas paúras. Isso o ajudará a ter cada vez mais confiança em si e nos pais. Um último conselho: não use os medos da criança como ameaças contra ela.

         A criança ciumenta sofre muito ao se sentir deslocada, destronada. Ela necessita sentir-se querida e se isso não acontece, chama a atenção de mil maneiras, seja com caprichos injustificados ou com agressões para com o seu “rival”. Ignorar o problema não conduz a nada, nem lembrar à criança quinhentas vezes que ela é ciumenta, pois isso consolidará o sentimento, tornando-o frequente. É preciso ter com a criança mais demonstrações de carinho: uma carícia sorridente é mais eloquente que engenhosos discursos. Se os ciúmes se dirigem contra o irmão menor, dá bom resultado pedir a colaboração do filho ciumento nas tarefas de higiene e de vestir o pequeno, e outras serviços que tenham a ver com o bebê, pois o que sofre ciúmes sabe que conquistará mais o coração da mãe com a ajuda que prestada a ela, e isso o deixará muito contente, além de perceber como é desvalido seu irmãozinho.

         Procure não fazer diferenças entre os irmãos. Se há alguma razão forte para trazer algum presente apenas para um deles, explique que faz isso porque ele está doente e sofre ao não poder brincar. No que se refere às demonstrações de carinho, todos seus filhos têm direito ao mesmo: se abraçou um, faça o mesmo com o outro. Mas nem sempre tudo é paritário entre os irmãos: a criança pequena tem que aprender a aceitar sem ciúmes que, por sua idade, não poderá fazer todos os planos de seus irmãos maiores: ir acampar, jogar futebol em outro local mais distante, ir a uma festa, deslocar-se sozinho pela rua, etc. O pequeno tem que aprender a controlar o “eu também quero ir”, e aceitar que não poderá haver igualdade em todas as situações.

         Rir e chorar ao mesmo tempo não é fato que deva causar preocupação. Esse desequilíbrio afetivo é uma fase característica dos quatro anos (aos seis anos já não ocorrerá mudanças bruscas de humor). Controle-se ao perceber que o filho brincava alegremente e de repente passou a berrar porque a irmã pegou seu lápis (para a criança seu lápis não é uma bobagem: é o seu lápis!). Tenha paciência e trate de acalmá-la, pois tal como em segundos passou da felicidade à tristeza, também o fará em sentido contrário.

    7 – Dar responsabilidades é fomentar a autonomia da criança

         Aos quatro ou cinco anos, a criança aprecia assumir responsabilidades porque quer agradar aos pais e ser útil ao imitá-los nos serviços que prestam a todos no lar. É importante pedir-lhes ajuda em pequenas tarefas que possam desempenhar bem, para que desfrutem em servir. Não desperdiçar essa tendência natural de querer ajudar; estimule o sentido de responsabilidade da criança, que terá alegria em responder pelo compromisso a quem a incumbiu, sejam os pais ou um irmão mais velho. Ter responsabilidade aos quatro anos estimula o espírito de serviço e a preocupação pelos demais. Esse hábito se transformará na virtude de desprendimento e eliminará o egoísmo de pensar só em si e nas coisas pessoais, tão comum, infelizmente, em adolescentes que não foram educados com eficiência. Os pais devem agradecer os serviços que as crianças prestaram, mas sem premiá-los com objetos materiais. A satisfação do dever cumprido deve ser suficiente, o que não quer dizer que de vez em quando todos comemorem com sorvetes o esforço das crianças.

         Há pais que não querem se atrasar para sair e substituem a criança em tudo o que ela deve fazer: acordam, banham e vestem a criança; depois passam manteiga no pão, etc. A pontualidade é muito importante, mas não a ponto de converter a criança num bibelô inerte. Não se trata simplesmente de que a criança coloque o sapato sozinha, mas que desenvolva a autonomia e a responsabilidade. Se trata de ajudar a amadurecer. Limitar a autonomia ou a aprendizagem é limitar sua capacidade de se desenvolver, que é mais importante do que chegar no horário seja onde for. Tranquilizem suas pressas e aprendam a ter paciência, pois a criança não é um pequeno adulto que deve agir com a velocidade dos pais. Se querem chegar no horário, iniciem antes o processo de se aprontar. Não se importem em dar o último retoque no vestido ou no penteado da criança. O importante é que ela adquira o hábito de fazer as coisas por si. Elogiem seus êxitos para aumentar a autoestima e a segurança no agir.

         A criança de quatro ou cinco anos começa a estabelecer claramente os limites entre o “seu” e o “meu”, e não quer que troquem seus objetos por outros: sabe o que é dos irmãos e o que pertence aos pais. É bom que que ela estabeleça essas diferenças, pois isso desenvolve a individualidade, o sentido do valor das coisas e o respeito pela propriedade dos outros: saberá não abrir as gavetas dos pais e dos irmãos sem pedir licença (o mesmo devem fazer os pais com as coisas dela). Também deve ser estimulada a emprestar ou dar com alegria, explicando que doar constitui uma mostra de carinho e de generosidade, e que muitas pessoas carecem até do essencial para viver. Assim, desenvolverão o hábito de atuar em favor dos demais.

         O período de quatro e cinco anos de idade é rico em aprendizagem, que se tornará permanente. A fim de ajudar os pais, continuaremos em outros boletins a abordar mais aspectos acerca da tarefa educativa nessas idades.

    Texto adaptado por Ari Esteves, com base no livro “Tus hijos de 4 e 5 años”, de Manoli Manso e Blanca Jordán de Urríes, Colección Hacer Familia, Spanish Edition, Madrid.