Categoria: VIRTUDES

  • Uso da internet por crianças e adolescentes

    Uso da internet por crianças e adolescentes

    1 – O desafio da internet para os pais. 2 – Os valores ou modelos de conduta evitam o mau uso da rede. 3 – Educar para o autodomínio ou temperança. 4 – Educar na liberdade

    1 – O desafio da internet para os pais

        A internet representa um dos avanços mais transformadores dos últimos tempos, seja do ponto de vista econômico, social, científico e cultural. Muitas vantagens e desvantagens decorrem dela. O uso da internet alcançou grande difusão na atualidade, e tenderá a aumentar devido sua utilidade para o estudo, trabalho, informação, mensagens, inclusive a seleção de conteúdo para fugir do monopólio dos grupos de comunicação que impõem muitos programas indesejados, etc. Concebida para ser livre e aberta, a rede varre todo tipo de conteúdo, e poucos estão sob o controle das autoridades, o que favorece informações falsas ou não confiáveis, contato com pessoas não recomendáveis, manipulação de comportamentos, etc.

        Para os pais, a internet se tornou um desafio pelo excesso de informações, imagens, jogos, software, redes sociais, fácil acesso à pornografia, à violência de alguns videogames e outros aplicativos que vêm causando danos sérios às crianças. Pela inexperiência e falta de maturidade humana e moral própria da idade, as crianças estão expostas a influxos negativos de diversos modos na internet, muitas vezes sem que seus pais se deem conta, como bem revelou o estudo “Child internet risk perception”, da International Crime Analysis Association, e o “Your family and cyberspace”, da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, publicado em 22 de junho de 2000.

    2 – Os valores ou modelos de conduta evitam o mau uso da rede

        Educar para o bom uso da rede é ajudar a criança a interiorizar e viver valores ou modelos de conduta que servem de guias e força interior para não se deixar arrastar por desejos e impulsos instintivos. Com explicações adequadas, feitas com carinho e olhando nos olhos da criança, ela compreende que passar horas diante da TV, tabletes ou celulares, vicia e torna a inteligência preguiçosa, fraca para pensar e para ter criatividade e inventar brincadeiras por conta própria, ou para utilizar melhor o tempo com jogos de mesa, quebra-cabeça, lego, leitura de contos, xadrez… A criança habituada desde pequena a viver uma disciplina com diferentes horários (dormir, acordar, brincar, refeições, estudar ou fazer recortes, cumprir tarefas no lar) facilmente opta por jogos e brincadeiras ao ar livre e compreende que as precauções são uma ajuda, pois quem habitua-se a navegar sem rumo pela internet é porque adquiriu o vício da preguiça, com a consequente perda de tempo, dependência, ociosidade, fuga dos deveres, desinteresse pelo que custa esforço (estudar, cumprir encargos no lar, realizar algum projeto…).

        Ao apresentar às crianças de modo atrativo que certas atitudes são valiosas e outras degradantes, elas se entusiasmam pelo comportamento reto e nobre (os contos ou narrativas literárias ajudam a materializar o bem e o mal que podem existir nas ações pessoais). Quando as crianças assumem o comportamento reto, mesmo na ausência dos pais agem bem, porque aprenderam a amar o que é reto e a vontade se tornou a reitora de suas ações, e não os sentimentos e desejos. Educar desse modo ajuda os filhos a construírem uma personalidade rica e segura.

    3 – Educar para o autodomínio ou temperança

        A educação para o autodomínio ou virtude da temperança ordena as inclinações dos sentidos e dá senhorio e força para utilizar bem a internet e as novas tecnologias. A educação da vontade, por meio das virtudes, é crucial para esse bom uso. A vontade se inclina para os motivos ou valores interiorizados pela inteligência. Para isso, cada filho precisa compreender que suas decisões livres deixam marcas na personalidade, e que para construir-se é necessário conhecer o certo e o errado antes de agir; que deve refletir sobre o que quer para sua vida e o que apenas faz parte de um gosto ou desejo momentâneo. Os adolescentes, quando se lhes explica, aprendem a distinguir entre o querer, que é inclinação livre da vontade, e o gostar ou desejar, que é inclinação dos sentidos e instintos para o apetecível, e que por não serem racionais são inclinações que devem ser examinadas pela inteligência antes de serem seguidas: ações más repetidas geram vícios; ações boas repetidas geram virtudes.

        É necessário colocar limites no uso dos aparelhos eletrônicos, tendo regras claras em casa: não usar celulares durante as refeições, pois a família que faz poucas refeições conjuntamente ou que nesses momentos tem pouco diálogo porque assiste televisão ou consulta o celular, caminha para a desunião. Outras regras úteis: deixar a porta aberta quando se está usando a internet, não permitir o uso de telas ao ir dormir, combinar entre todos (inclusive com as crianças) para manter um horário fixo para o uso da TV, não passar informações pessoais pela rede, não contatar desconhecidos e informar os pais se algo estranho ocorre, não abrir arquivos digitais enviados por estranhos… É conveniente que os computadores e os pontos de rede estejam em local de passagem ou bastante frequentado no lar (sala de estar, corredor, etc.), e nunca no quarto das crianças ou dos adultos (que devem dar exemplo). Quando se trata de crianças, é um dever dos pais protegê-las por meio de um sistema de filtros, tal como se instalam filtros para evitar o uso de água contaminada. Há filtros de internet para celulares, tabletes, Youtube, etc. Pedir ajuda a Deus para que os filhos sejam temperados e responsáveis, tendo o exemplo dos pais nesse campo.

    4 – Educar na liberdade

        Os pais devem se tornar amigos dos filhos, harmonizando autoridade, requerida pela própria educação, com amizade, que exige colocar-se no mesmo nível dos filhos. Depois, construir a confiança através do diálogo, tendo presente que qualquer jovem, mesmo os mais rebeldes, desejam sempre essa aproximação e amizade com os pais. O segredo está na confiança, em saber educar num clima de familiaridade, sem nunca dar a impressão de desconfiar dos filhos, mas, ao contrário, dar a eles liberdade e ensinar administrá-la com responsabilidade pessoal. É preferível que os pais se deixem enganar uma vez ou outra, porque a confiança que se deposita em cada filho faz com que este se envergonhe de havê-la traído, e se corrige. Um filho ao qual os pais não lhe dão liberdade, porque desconfiam dele, se sentirá impulsionado a refinar seu modo de enganar. O filho deve encontrar sempre em seus pais um olhar de amor incondicional ao perceber neles a felicidade de o terem como filho.

        Ensinar cada filho a ter moderação no uso da tecnologia requer que o casal tenha uma visão comum sobre como ajudá-lo a viver a temperança. O primeiro passo é que os pais deem exemplo de vida nesse aspecto, pois os filhos reparam nos esforços que ambos fazem para viver a temperança e o autocontrole: diz o ditado que mais do que falar, é preciso fazer. Pai e mãe devem pensar juntos sobre o modo como cada filho emprega as horas do dia, a fim de ajudá-lo a planejar outras opções de lazer: passeio junto com a família é ocasiões para se ter conversas significativas com os filhos, excursões, atividades em casa (jogos de mesa, leitura, xadrez, vídeos programados); divertir-se com o esporte, visitas culturais a exposições e museus. Estimule os filhos a terem amigos reais e não virtuais, e mostre que o uso excessivo da tecnologia dificultará a capacidade de ter empatia com os outros e de criar relações sadias.

        Mesmo com tais medidas, em famílias com mais de um filho pode acontecer que um deles faça mal uso da rede, não sendo educativo que os “justos paguem pelos pecadores”, ao submeter a restrições os filhos que se comportam bem. É preciso enfrentar o problema energicamente se necessário com o filho que age mal, evitando que se crie na família um clima generalizado de desconfiança ou de falta de liberdade. Costuma não ser acertado obrigar todos os filhos a prescindirem por completo da internet, pois seria um fracasso à tarefa educativa de ensinar o uso reto e prudente das novas tecnologias, que já formam parte do mundo atual e são manejadas pelas crianças na escola.

        O que se chama de “conflito de gerações” é muito antigo, pois em todas as épocas se apresentou como coisa natural que jovens e adultos vejam as coisas de modo diferente. O que seria surpreendente é que um adolescente pensasse da mesma maneira que uma pessoa madura. Todos tivemos impulsos de rebeldia para com os mais velhos quando começamos a formar critérios e ter mais autonomia. Porém, com o passar dos anos passamos a compreende que os nossos pais tinham razão e que agiam assim por amor a nós. Por isso, compete em primeiro lugar aos pais — que já passaram por esse transe — facilitar o entendimento ao ter flexibilidade e espírito jovem para evitar possíveis conflitos com um amor mais inteligente.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base em artigos, aulas, palestras. Imagem de Kampus Production.

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  • Formar os jovens na castidade

    Formar os jovens na castidade

    1 – A educação da sexualidade e a cultura atual 2 – A importância da educação da sensibilidade 3 – Colaborar com os pais na educação afetivo-sexual dos filhos 4 – Aspectos importantes para a formação dos filhos na castidade 5 – Abordar com os filhos a temática afetivo-sexual o quanto antes

    1 – A educação da sexualidade e a cultura atual

        Desde a juventude é importante compreender o verdadeiro significado da sexualidade humana, que está profundamente ligada ao amor verdadeiro e a um harmonioso projeto de vida que vale a pena ser vivido. Cabe aos pais, no ambiente familiar, ajudar os filhos nessa compreensão, desde quando são pequenos, com informações adaptadas à idade de cada um. Quando ainda crianças, deve-se reforçar a proteção e criar espaços seguros visando uma formação preventiva. Na adolescência e juventude, é necessário penetrar paulatinamente na temática, tendo em conta os diferentes âmbitos onde se desenvolve a vida deles, e as informações que já possuem (o melhor é antecipar-se gradativamente nessas informações). Os pais, em colaboração com outros educadores, precisam estar pendentes das amizades, escola, hobbies, esporte, diversões que praticam e ambiente social que frequentam, pois influenciam fortemente na formação moral dos jovens.

        Há na cultura atual alguns aspectos positivos que colaboram na tarefa de educar na castidade: o reconhecimento da igual dignidade do homem e da mulher, maior sensibilidade sobre o protagonismo educativo por parte dos pais, consciência crescente de proteger os menores de idade e de lutar contra todo abuso sexual.

        Porém, como manifestação negativa, há na atualidade o fácil acesso à pornografia, a separação da sexualidade da verdadeira antropologia humana e sua desvinculação do casamento, a despersonalização dos atos sexuais, a introdução de temas como o da homossexualidade e o da ideologia de gênero. Em alguns lugares obrigou-se as escolas a tratarem da educação sexual de modo confuso e deformante para a consciência, e como tentativa de substituir os pais nessa tarefa. Soma-se a isso, que algumas famílias não compreendem ainda a importância e alcance do problema, e como o ambiente influencia desfavoravelmente seus filhos; outras, não têm interesse em ajudar os filhos a viver a sexualidade de forma humana. Porém, grande parte dos pais deseja educar bem os filhos nesse aspecto, mas não sabe como proceder, ou não possui informações sobre o tema. Tais contextos desinformativos conduzem os jovens a experiências afetivo-sexuais que os afetam danosa e profundamente.

    2 – A importância da educação da sensibilidade

        A formação na castidade exige prevenir, chegar o quanto antes, e saber abordar os temas com profundidade. A castidade está diretamente relacionada com o projeto de Deus para a criatura humana, sendo afirmação do amor e caminho de felicidade. A formação dos jovens em virtudes como a temperança, generosidade, pudor, laboriosidade, entre outras, incide diretamente na castidade, porque forjam uma personalidade equilibrada, madura e autenticamente humana.

        A sexualidade abarca a pessoa em sua unidade de corpo (sentimentos, emoções, paixões), alma (inteligência e vontade) e espírito (a consciência do eu), e nisso se encontra a sua perfeição moral. A educação da sensibilidade, dentro de uma correta visão antropológica, potencializa a capacidade de desfrutar dos verdadeiros bens e facilita a criação de um projeto de vida pelo qual vale a pena dedicar-se, porque põe-se ao serviço dos demais as qualidades e talentos pessoais, e isso libera do egoísmo que é fonte de tristezas. Dentro da perspectiva desse projeto, a educação da sexualidade não é o principal tema, pois há muitos outros que vêm antes dele: família, estudo, profissão, amizades, conhecimento das capacidades ou aptidões pessoais para melhor servir… Quando os jovens se abrem a perspectivas profissionais, culturais, de amizades, esportivas, espirituais e sociais (incluindo obras de ajuda e solidariedade para com os que sofrem), a esfera afetivo-sexual se vê enquadrada como apenas um dos pontos a se ter em conta, mas longe de ser a mais importante, a fim de não criar obsessões ou moralismos ineficazes.

    3 – Colaborar com os pais na educação afetivo-sexual dos filhos

        Os pais são os primeiros e principais educadores da ordem afetivo-sexual de seus filhos, porque ao doarem e acolherem a vida deles em clima de amor e dedicação, ganham uma autoridade e confiança únicas que ninguém pode sucedê-los. Qualquer outro educador é secundário em relação aos pais, e nunca poderá substituí-los no papel que lhes cabe, mas poderá ajudar, apoiar, facilitar os conhecimentos necessários para uma boa educação, já que muitos pais carecem de formação e necessitam que os auxiliem a prepararem-se a fim de educar com competência. Para isso, além de muitas outras iniciativas, pode-se promover ou indicar lives, cursos e palestras sobre orientação e reforço familiar, educação comportamental dos filhos, recomendar bons livros e sites sobre esses temas… Importante também é ajudar os pais a terem informações seguras sobre as novidades tecnológicas que os adolescente e jovens têm acesso, programas que assistem nas diferentes mídias, games, influência de movimentos artísticos, modismos, informações sobre festas ou baladas…

        A tecnologia digital pode ser bem ou mal utilizada. O mau uso dela vem afetando a capacidade dos jovens para compreender, viver e crescer na castidade. Ao que diz respeito à sexualidade, o modo como os jovens utilizam a tecnologia requer prudência e cuidado por parte dos pais, pois a pornografia e sua capacidade viciante ou de adição, com o consequente dano humano e espiritual que produz, está facilmente disponível.

        Os pais devem ajudar − e podem ser ajudados − a formar os filhos no autocontrole, maturidade e responsabilidade necessárias para utilizar bem a tecnologia digital. Toda tarefa educativa requer o bom exemplo dos pais e um plano para orientar o comportamento e o desenvolvimento de bons hábitos nas crianças e adolescentes, a fim de ir proporcionando mais liberdade à medida que cresçam em idade e maturidade, com a explicação cada vez mais profundada dos princípios e valores que os filhos devem interiorizar para orientar-se em suas eleições pessoais.

    4 – Aspectos importantes para a formação dos filhos na castidade

        O acesso das crianças aos temas de sexualidade é cada vez mais precoce, o que exige dos pais não uma atitude passiva, mas de protagonismo, de antecipação. Isso começa pelo diálogo pessoal entre pais e filhos, por meio de uma formação individual adaptada à idade de cada filho, o quanto antes e dentro do ambiente familiar. Os pais devem falar pessoalmente com cada filho (o pai com o filho, a mãe com a filha) sobre a sexualidade dentro dos planos de Deus para cada pessoa. Seguem alguns aspectos para formar os filhos na castidade:

    1. Toda criança é pessoa única e irrepetível e deve receber uma formação individualizada. Os pais, por conhecerem, compreenderem e amarem cada afilho em sua irrepetibilidade, estão na melhor posição para decidir o momento oportuno de dar as diferentes informações, de acordo com o crescimento físico e mental de cada filho.
    2. A dimensão moral, que sempre deve formar parte dessas explicações, é o cultivo da liberdade através de propostas, motivações, aplicações práticas, estímulos, prêmios, exemplos, modelos, símbolos, exortações, revisões do modo de atuar e diálogos que ajudem a desenvolver princípios interiores estáveis que movem a agir em direção ao bem.
    3. A educação sexual se oferece por meio de informação, mas não se pode esquecer que crianças e adolescentes não alcançaram a maturidade plena, e a informação deve chegar de modo adequado e no momento apropriado a cada etapa de vida deles.
    4. Educar para a castidade, e as oportunas informações sobre a sexualidade, devem ser oferecidas no contexto da educação para o amor.

    5 – Abordar com os filhos a temática afetivo-sexual o quanto antes

        Na educação para a castidade convém estudar o modo de dá-la e quem poderá ajudar melhor nessa formação, tendo em vista cada etapa da vida do educando. Uma importante leitura é a do documento “Sexualidade humana: verdade e significado”, pontos 77 a 108, do Pontifício Conselho para a Família, que aborda como atuar nas principais fases do desenvolvimento das crianças: anos da inocência, puberdade, adolescência e projeto de vida para os jovens.

        Muitos pais afirmam que a difusão de mensagens, imagens e costumes que não correspondem ao verdadeiro significado da sexualidade, tornam importante abordar este tema quando os filhos ainda são pequenos, e em conversas regulares e adequadas a cada idade: é melhor um ano antes que cinco minutos depois! Dentro de um contexto de confiança, se pode conversar pouco a pouco sobre a sexualidade, e assim evita-se o risco de que outras pessoas ou fontes, talvez não bem orientadas, sejam as que lhes introduzam e ensinem esses temas. Para isso, sugerimos também a leitura do boletim “Filhos: informação sexual”, que aborda como tratar do tema nas diferentes idades: https://staging.ariesteves.com.br/2021/10/filhos-informacao-sexual/

        Texto adaptado por Ari Esteves com base nos seguintes documentos: Amoris laetitia; Sexualidade humana: verdade e significado, do Pontifício Conselho para a Família; Familiaris consortio; Homem e mulher os criou. Para uma via de diálogo sobre a questão do gender na educação, da Congregação para a Educação Católica.

  • Castidade: virtude do coração que sabe amar

    Castidade: virtude do coração que sabe amar

    1 – A castidade é uma afirmação do amor. 2 – As virtudes educam os afetos. 3 – A inclinação dos afetos deve harmonizar-se ao bem integral da pessoa. 4 – Meios para viver a castidade.

    1 – A castidade é uma afirmação do amor

        “Eu quis amar, mas tive medo. E quis salvar o meu coração”, diz a canção de Tom Jobim. Muitos têm medo de amar verdadeiramente, porque amar exige entregar-se à pessoa amada com um coração que não busca outras compensações.

        Uma das virtudes do coração que sabe amar é a castidade ou pureza de coração. Diante de tantas situações que pervertem o coração, compreende-se com clareza cada vez maior que essa virtude é uma afirmação do amor, que ao negar-se ou dizer não a atitudes ou atos que lhe são contrários, afirma o amor verdadeiro, que é indiviso.

        A pessoa casta é capaz de se conectar afetivamente e desfrutar de tudo o que é belo, nobre, genuinamente alegre. O seu olhar não é egoísta, dirigido a tomar posse do outro, mas contemplativo e agradecido ao não permitir que a relação que o une a cada pessoa ou coisa seja despersonalizada pelo mero desejo de possuir. Quem não é casto tem um olhar baixo, incapaz de desfrutar das pequenas coisas da vida e das relações de pura amizade e fragmenta seu coração, deixando-o sem rumo e embrutecido para tudo que é nobre e delicado, que lhe parecerá insípido porque necessita de emoções fortes para reagir ou experimentar algo agradável.

        Quem vive a castidade como afirmação do amor não precisa de um esforço extraordinário da vontade para rejeitar um impulso sexual desordenado, como o de buscar sites pornográficos ou imagens sensuais, pois seu mundo interior é tecido de realidades valiosas e de relações verdadeiras que o fazem opor-se a este impulso. Durante o período de namoro, a pessoa casta sabe que este é um tempo que deve durar no máximo dois anos ou dois anos e meio, o suficiente para conhecer a personalidade da outra pessoa, seu caráter, virtudes e defeitos, a fim de avaliar se estará apta para viver um projeto de vida comum e para sempre, aberto aos filhos para intensificar a confiança e o amor mútuo do casal. Antecipar os atos próprios da vida conjugal durante o namoro é desvalorizar o que se tem de mais íntimo, além de adulterar e despersonalizar a relação de amor.

        A virtude não é uma espécie de suplemento de força para a vontade resistir e respeitar as normas morais; não é a capacidade de ignorar a afetividade ao opor-se sistematicamente ao que sente como desordenado. Evidentemente tem presente que na formação da virtude é necessário alguma vez dizer não à inclinação afetiva, mas sabe que o objetivo da castidade não é esse não, mas um sim ou afirmação à realização do amor pleno.

    2 – As virtudes educam os afetos

        Mais do que a capacidade de opor-se a uma inclinação desordenada, a virtude constitui a formação ou educação da própria inclinação para que a pessoa desfrute do bem verdadeiro ao permitir que cresça nela uma conaturalidade afetiva ou espécie de cumplicidade para com o bem, sempre querido pela vontade e desejado pelos sentimentos. É precisamente neste sentido que a temperança ordena a tendência natural ao prazer. Se o prazer fosse mau, ordená-lo significaria anulá-lo. O prazer é bom e a natureza humana tende a ele. Porém, pode não ser bom em todos os casos, sendo necessário ordenar a inclinação ao prazer para convertê-lo em aliado do bem. Quem não consegue essa ordenação dentro de si terá um inimigo que poderá destruí-lo da mesma forma que a água, sendo boa para matar a sede, pode provocar enchentes incontroláveis e destruidoras.

    3 – A inclinação dos afetos deve harmonizar-se ao bem integral da pessoa

        Ordenar a tendência ao prazer não é fazer desaparecer essa inclinação, ignorá-la ou reprimi-la, mas integrá-la ao bem ao dar unidade aos desejos de modo que se harmonizem progressivamente com o bem integral da pessoa: corpo, alma e espírito. As tendências humanas são atraídas pelo prazer que causam; são modos de perceber o bem e de apresentá-lo como algo conveniente e que satisfaz. No entanto, isso pode não ocorrer: um doce pode atrair por ser agradável ao paladar, mas não será conveniente comê-lo se a pessoa for diabética. Cada tendência tem o seu único ponto de vista, e avalia a realidade apenas por essa perspectiva. Já a razão ou inteligência é a única faculdade que pode integrar todos os pontos de vista: no caso do doce, a inteligência não ficará apenas no que é agradável ao paladar, mas terá a saúde corporal como um bem maior e o julgará inconveniente para o diabético.

        Ao se permitir que uma tendência se imponha à razão, esta fica confundida e a afetividade passará a dirigir a pessoa. Daí a importância da virtude da temperança, que orienta as tendências para que sejam apoio e não obstáculos ao juízo da razão. A gula, por exemplo, revela que não se compreendeu o significado da necessidade de comer, que não se assimilou que o prazer de comer deve contribuir para o bem integral da pessoa, e não para a sua destruição porque essa tendência passou a buscar apenas o seu bem, e não o de toda a pessoa. O mesmo ocorre com o prazer sensual, que não pode ser um fim buscado em si e fora do contexto do amor verdadeiro, que é dentro do matrimônio, a fim de não perverter essa inclinação, que deve estar integrada ao conjunto da pessoa – corpo, alma e espírito –, ao reafirmar o amor entre os que se amam verdadeiramente e para sempre. A relação sexual humana não é puramente física, mas afeta o espírito.

        Quando Jesus Cristo diz “Felizes os limpos de coração porque verão a Deus” (Mt 5, 8), indica que os que têm o coração obcecado por paixões não conseguem ver além da sua obsessão. A virtude entendida como a criação de um mundo interior belo e equilibrado, faz desfrutar com a realização do bem. A castidade não deve ser vista como um negar-se aos atos desordenados que atraem aos instintos, mas como a criação de um mundo interior pleno de realidades valiosas, sobrenaturais e humanas, como é o amor, seja a Deus, à pessoa com quem se tem o coração comprometido, e às demais pessoas que esperam o nosso amor verdadeiro. Essa virtude cresce não só quando é necessário vencer uma inclinação torcida da sexualidade, mas quando se reafirma o amor.

    4 – Meios para viver a castidade

        O coração que sabe amar conjuga harmoniosamente todas as virtudes, vibra com coisas valiosas e não com coisas insubstanciais, e sabe dar a vida por algo maior do que ele, e não se deixa dominar pelo efêmero e superficial. Quem ama deve crescer em diferentes virtudes para que seus desejos, interesses e aspirações sejam capazes de perceber o verdadeiro valor das coisas.

        Como criar um mundo interior limpo, casto? Em primeiro lugar ao evitar tudo o que possa perturbar o coração, como guardar a vista e a imaginação para que não turvem a alma; ao colocar freios à curiosidade; ao evitar o ócio e o navegar sem objetivo nas redes sociais: quem se deixa levar por qualquer vento aportará em lugar que não deveria ter chegado.

        Convém também crescer em fortaleza, porque essa virtude faz manter o rumo em meio às ondas das inclinações torcidas. A constância − virtude anexa à fortaleza − no trabalho e no cumprimento dos deveres diários fortalece o coração. A sinceridade conosco próprios e com Deus sobre o que nos acontece por dentro oxigena o coração e o impede de se intoxicar com afetos desordenados.

        Um meio indispensável para não deixar o coração viciar-se na impureza ou na busca do prazer sensual é pedir ajuda a Deus, pois necessitamos contar com a força dEle, já que somos fracos. As boas amizades ou relações humanas nobres e o aproveitamento do tempo cumprem também o papel de ajudar a viver a castidade, enquanto o isolar-se ou fechar-se em si é fonte de quedas. A solidariedade ou a dedicação e ajuda aos demais mantém o coração saudável, pois retira-o do egoísmo.

        Os interesses culturais de valor, especialmente a boa literatura, cinema, música, etc., aumentam a sensibilidade estética, e a beleza anda de mãos dadas com o bem e a verdade. Quem habitua-se unicamente a ver filmes violentos e de alta intensidade, leituras insubstanciais e planos de lazer cada vez mais exagerados, afeiçoa-se em viver apenas de emoções fortes, e necessita de um esforço cada vez maior para dominar suas emoções na esfera sexual e, caso o consiga, terá esse domínio como repressão ou negação, e não como um bem a ser buscado. É muito mais rico e eficaz criar um clima interior limpo, luminoso e afirmativo, porque o coração humano foi feito para desfrutar da beleza de Deus, já nesta vida e depois por toda a eternidade, e das coisas boas que Ele criou e pôs à disposição dos homens aqui nesta terra.

    Texto adaptado e acrescentado por Ari Esteves, com base no artigo “Muito humanos, muito divinos (n.13): com todo o coração”, de Julio Diéguez, em www.opusdei.org/pt-br/. Imagem de Hasel Photos.

  • Fortalecer a vontade da criança

    Fortalecer a vontade da criança

    1 – Cada criança deve ganhar o hábito de cumprir suas tarefas. 2 – Motivar a criança para realizar tarefas que não gosta. 3 – Inimigos da força de vontade das crianças.

    1 – Cada criança deve ganhar o hábito de cumprir suas tarefas

        Fazer com que a criança saiba controlar seus sentimentos e não se deixe levar apenas pelo prazenteiro, mas tenha capacidade de enfrentar e concluir acabadamente o que lhe cabe, não é tarefa fácil. Mas isso é possível se os pais o quanto antes ajudá-la a ganhar força por meio de pequenos hábitos diários. A partir de um ano e meio até aos seis ou sete anos, a criança pode crescer muito na disposição de enfrentar suas pequenas responsabilidades, tais como levar ao cesto de lixo a fralda suja, já com um ano e oito meses, como já demonstra uma mãe em vídeo na internet. Até aos seis anos a criança pode incumbir-se de tarefas como manter arrumados seus brinquedos, colocar a roupa limpa na gaveta e a suja no cesto de lavar, levar o lixo para fora, regar as plantas, pôr a mesa para as refeições, colocar a comida do pet, enxugar o box após banhar-se, entre outras. Essas tarefas fortalecem a disposição da criança e a faz crescer em espírito de serviço e de resiliência. Ao tornar-se disciplinada nos horários de acordar e dormir, brincar, lavar-se e fazer as refeições, a criança também ganha força e disposição para enfrentar as tarefas escolares, dedicar-se a jogos de inteligência, leituras, saberá conviver com outras crianças e não se isolar em telas de celulares ou tabletes, que é deixar-se levar pelo mais cômodo.

        A inteligência, com sua capacidade de fazer juízos, e a vontade, que é a capacidade de conduzir-se pelo livre arbítrio ou querer livre, são qualidades próprias da natureza humana que começam a ser desenvolvidas a partir dos seis ou sete anos. Antes disso, as crianças não sabem ajuizar suas ações, nem possuem um querer racional, livre. Ao não ter a capacidade de ajuizar suas ações, elas facilmente são arrastadas pelo gosto e podem passar horas e horas diante da televisão ou celulares, abrir a geladeira a qualquer hora ou deixar tudo bagunçado. Se os pais não as orientarem e exigirem delas, adquirirão vícios difíceis de desarraigar e terão uma vontade fraca já aos seis anos.

    2 – Motivar a criança para realizar tarefas que não gosta

        As crianças podem controlar seus impulsos e desejos desde muito cedo, quando orientadas a agir assim. Aprendem não apenas a realizar o que gostam, que é sempre ir ao mais fácil e agradável, mas a cumprir as pequenas tarefas que são atribuídas a elas, mesmo que não sejam do seu maior gosto. Para isso, necessitam ganhar bons hábitos que as fazem perder o medo de se esforçarem.

        Quando a criança manifesta falta de gosto para realizar alguma tarefa, é preciso motivá-la com carinho e firmeza para que o faça, mesmo que ela não sinta prazer nisso. Pode-se pedir a ela que o faça para agradar aos pais – isso a tornará feliz −, e explicar que manter a casa em ordem é tarefa de todos, inclusive dela; também se pode dizer que ao realizar seus encargos ela crescerá em fortaleza e ganhará o hábito da ordem… Os pais podem dizer que também diariamente cumprem encargos que não são tão agradáveis, mas necessários: levantar-se de madrugada para atender o bebê e lavar a fralda dele cheia de cocô, acordar cedo e ir para o trabalho quando faz frio ou chove, arrumar a casa todos os dias, no trabalho profissional também devem realizar tarefas nem sempre agradáveis, etc…

        Para motivar as crianças a cumprirem seus deveres, outro caminho é fazê-las compreender a importância de valores como o da fortaleza, veracidade, solidariedade, espírito de serviço, ordem… Para educar em valores, que são conceitos não palpáveis, os pais podem se valer dos contos e fábulas infantis, que oferecem às crianças conceitos concretos ao materializar em personagens os vícios como o da preguiça na cigarra ou no Pinóquio, o egoísmo de um velho avaro, a gula de uma menina, entre outros; ou de virtudes como a laboriosidade da formiga, o espírito de equipe dos castores e de serviço das abelhas, a fortaleza de um guerreiro…

    3 – Inimigos da força de vontade das crianças

        Exigir que as crianças controlem seus gostos e instintos custa esforço aos pais e professores. Porém, a perseverança em exigir delas com carinho e firmeza as fará crescer em força de vontade para cumprir o que deve ser feito, e quando ganharem as virtudes correspondentes pela repetição das boas ações, passarão a agir com alegria. Essa vitória não se consegue do dia para a noite, mas com paciência e ao encarar o desafio com o mesmo espírito com que um esportista busca melhorar seus índices: nunca desiste e torna a começar e a recomeçar a cada dia.

        Famílias que poupam os filhos de se esforçarem, porque imaginam para eles uma vida melhor, com menos exigências e mais conforto, acabam superprotegendo-os e enfraquecendo neles a resiliência ou a capacidade de superar as dificuldades que qualquer projeto que vale a pena exige, além de os tornarem fracos de caráter e dependentes de que outras pessoas resolvam seus problemas.

        Para ajudar a criança a ter as rédeas de seus sentimentos e paixões é preciso que ela desenvolva bons hábitos e compreenda o que faz e porque faz, mas sem grandes discursos e através do exemplo e do incentivo para viver os valores que a família julga importantes no seu dia a dia. Deve ser reconhecido o esforço da criança quando terminou o dever escolar e os encargos do lar antes de sair para brincar, de ter reconhecida sua fortaleza ao não se queixar de um desconforto, por não ter dado show no supermercado ao se lhe negar o doce que desejava, porque deixou no lugar a roupa e o material escolar, por viver de modo resoluto a disciplina ou os horários da família, por ter sido solidária com os irmãos ou amigos que precisavam de ajuda escolar…

    Texto produzido por Ari Esteves. Imagem de Ksenla Chernaya.

  • Amar é querer o bem do outro, enquanto outro

    Amar é querer o bem do outro, enquanto outro

    1 – Amar não é realização egocêntrica. 2 – Os três elementos do amor. 3 – Amar é querer. 4 – Amar é querer o bem. 5 – Querer o bem do outro, enquanto outro.

    1 – Amar não é realização egocêntrica

        “Enganar-se a respeito do amor é a perda mais terrível; é um dano eterno, para o qual não há compensação nem no tempo nem na eternidade!”, são palavras de Kierkegaard, escritas há mais de um século e meio, que continuam atuais. Já não sabemos o que significa amar e reduzimos essa palavra a um simples estímulo para o prazer, consumo de bens ou a autorrealização egocêntrica, espécie de “egoísmo a dois”. O amor consiste, embora não exclusivamente, num ato da vontade, firme e estável, que imprime uma fecunda tensão à pessoa inteira e permite descobrir e realizar o bem do ser amado.

        Aristóteles disse que amar é “querer o bem do outro enquanto outro”. Por vezes, os pais dão às crianças um tablete ou celular, ainda quando são pequenas, não pensando no bem dos filhos, mas no sossego que terão, apesar de viciarem as crianças com o excesso de estímulos visuais, que as tornam passivas, sem iniciativas, preguiçosas e com perda da percepção da realidade.

    2 – Os três elementos do amor

        Segundo Aristóteles, são três os elementos que compõem a realidade do amor: a) querer; b) o bem; c) do outro enquanto outro. Fica claro para o filósofo que a coluna vertebral da ação amorosa está na vontade, no querer próprio do livre-arbítrio. Mas o amor não se esgota nisso, pois em sentido profundo é a pessoa toda que ama, desde os atos mais transcendentes, como a oração e o sacrifício pelo ser amado, como pelo conjunto progressivo do que virá a ser a vida conjugal e familiar, que passa pelos sentimentos e afetos que exteriorizam o carinho, até as questões aparentemente mais ínfimas, como o empenho de cada cônjuge por se mostrar elegante e atrativo ao outro; o esforço por sorrir e ser amável; a carícia ou o olhar de carinhoso, mesmo nos momentos de cansaço, nervosismo ou de desalento; ou ainda nos pequenos detalhes que tornam mais saborosos e entranháveis o retorno ao lar após um dia trabalho. Nesses pequenos detalhes se manifesta o amor que ilumina a vida cotidiana.

        Amamos com tudo o que somos, sentimos e fazemos. Neste sentido, amar consiste em derramar o próprio ser por inteiro na promoção do ente querido. Mas a amplitude do amor é vasta e infinita suas ações, que vai desde a palavra ou o silêncio compreensivo, o trabalho intenso, a generosa disponibilidade para os filhos e amigos quando se anda escassos de tempo, o cuidado com a aparência própria e da casa onde se vive. São minúcias imperceptíveis e indispensáveis que se transformam em amor pleno, sincero e provado, e realizadas pela vontade ou um querer que busca de maneira nobre, franca e resoluta o bem da pessoa a quem se estima. O grau de amor que se coloca em cada afazer é que dará o maior ou menor valor às ações.

    3 – Amar é querer

        Amar é querer, sendo esse querer um ato da vontade e não dos sentimentos. Por isso, o amor não se esgota nas disjuntivas do “gosto” ou “não gosto”, “agrada-me” ou “desagrada-me”; nem se identifica com o puro e simples “atrai-me”, “interessa-me”, “apaixona-me” com que tantos − jovens e não tão jovens − justificam o seu comportamento. Essa simples atração dos sentimentos também a possuem os animais, sendo que o próprio do homem é o querer do livre-arbítrio. Os animais se movem por atração-repulsão instintiva, e buscam o seu bem estreito e exclusivo de uma maneira automática. Gostam daquilo que os beneficia a eles ou à sua espécie, e rejeitam aquilo que lhes é danoso. Tomás de Aquino descrevia assim essa realidade: “mais do que mover-se [os animais], são movidos” pelo objeto externo que os atrai ou repele; mais do que agir por iniciativa própria, são “levados a agir”.

        O homem transcende as simples necessidades biológicas, sendo capaz de realizar ações que não se explicam de maneira nenhuma pelo mero impulso da sua conservação física: pode pôr entre parênteses os seus instintos ou tendências físicas ou apetitivas, e querer realizar uma ação boa em si mesma por mais que ela não o atraia pessoalmente, por mais que não lhe agrade nem desperte o seu interesse e até desagrade e repugne; ou, em sentido contrário, pode não querer uma ação, nem levá-la a cabo mesmo que esteja “morrendo” de desejo de realizá-la, ao perceber que esse ato não contribui para o bem dos outros.

        Uma das realidades que manifesta de maneira mais clara a superioridade do homem sobre o animal – e que o distancia deste, segundo Pascal – é que, deixando de lado os seus gostos e apetites, quando as circunstâncias o exigem, o ser humano é capaz de conjugar em primeira pessoa o eu quero ou, se for o caso, o eu não quero, dotado às vezes de muito maior importância antropológica e ética. É o que diz também Julián Marías: “Quando nego que o amor seja um sentimento – identificá-los parece-me um grave erro, e talvez o mais difundido –, não nego a enorme importância que têm os sentimentos, incluídos os amorosos, que acompanham o amor e formam como que o séquito da sua realidade central; esta, porém, pertence a níveis mais profundos da pessoa: os da vontade (La educación sentimental, Alianza Editorial, Madrid, 1992, pág. 26).

        Josemaria Escrivá comentou amplamente essa realidade. Num dos seus textos mais significativos, depois de deixar claro que o amor “não se confunde com uma atitude sentimental”, pergunta-se diretamente em que consiste o amor humano. E responde: “A Sagrada Escritura fala-nos de dilectio – dileção –, para que se compreenda bem que não se refere apenas ao afeto sensível. Exprime antes uma determinação firme da vontade. Dilectio deriva de electio, escolha. Eu acrescentaria que amar, em linguagem cristã, significa querer querer…” (em Amigos de Deus, Quadrante, São Paulo).

        Portanto, distinguem-se três degraus para alcançar a substância mais pura do amor: negar que se trata de um simples sentimento, de um afeto sensível, embora não se deva excluir essa presença, se houver; depois, ressaltar o caráter ativo que qualifica o amor como determinação firme da vontade; por fim, potenciar a índole ativa por meio da “maior prerrogativa do ser humano do ponto de vista operativo”: a reflexividade da vontade, capaz de libertar energias volitivas quase que infinitas.

        É pela vontade, pelo querer, que se superam os meros desejos, paixões ou afetos, e por onde o homem ultrapassa infinitamente o animal. Amar é um ato refinadamente humano, talvez o mais humano de todos. É um ato livre, portanto inteligente, sapientíssimo, decidido, audaz e vibrante, fonte de iniciativas criadoras, e por isso libertador e surpreendente, e por vezes esmagador e custoso, mas sempre desprendido, generoso, altruísta, liberal… Agostinho, Bispo de Hipona, disse “Naquele que se ama, ou não se sente a dificuldade ou se ama a mesma dificuldade (De bono viduitatis,21,26)

    4 – Amar é querer o bem

        O segundo elemento que define o amor é “querer o bem”, e ninguém duvida de que uma mãe ou um pai de família normais queiram o melhor para os seus filhos. No entanto, quando esses pais tentam determinar concretamente o que convém a um filho, em circunstâncias particulares, a questão já se torna mais complexa: que é realmente o bem para esse filho, aqui e agora? Em primeiro lugar, esse bem deve ser um bem para o beneficiado, e não um autoengano mais ou menos consciente e bastante difundido como um bem para o benfeitor. Pai e mãe que dão um prêmio a um filho, devem examinar se mais do que favorecê-lo, querem ficar “em paz” ao evitar o desconforto de um confronto com ele. Em segundo lugar, quando se ama alguém, é necessário que o bem oferecido seja um bem real, objetivo; algo que torne o beneficiário melhor, que faça do ser amado uma pessoa mais cabal, mais plena e perfeita; algo que o aproxime de uma maneira ou de outra do seu destino último, que é amar os outros e a Deus.

        Deve-se procurar que a pessoa amada aprenda a amar de maneira mais sincera, profunda, intensa e eficaz, por meio das intervenções e dádivas recebidas. Entre essas dádivas, ocupa um lugar principal o esforço mental de quem doa por conhecer a fundo a pessoa que recebe a doação, a fim de descobrir o que mais convém a ela. Quando se ama de verdade a outra pessoa, procura-se por todos os meios que esta saiba ou aprenda também a amar mais e melhor aos demais (é um círculo virtuoso). No fundo, amar equivale a ensinar amar e facilitar o amor: amamos e fazemo-nos amar.

        O melhor modo do marido amar a esposa (e vice-versa) é ser muito amável com ela, no sentido mais certeiro e penetrante da palavra; é facilitar ao cônjuge a tarefa de amar; é tornar-lhe simples e agradável o amor pelo outro e receber dele, sem entraves, o seu carinho; é não levantar barreiras que impeçam a entrega ao outro. Na hora da reconciliação, depois de um pequeno desentendimento, não se enquistar na própria posição, mas sair abertamente ao encontro do outro, e se tornar acessível e bem-disposto para que volte a depositar o afeto que havia retirado por se sentir ofendido, e corresponder com a mesma delicadeza àquele que se adiantou em pedir perdão. O mesmo acontece na convivência diária com os outros membros da família, amigos e conhecidos: facilitar o amor ao mostrar-se franco, próximo e disponível; estar pendente do outro e não se fazer áspero, esquivo, distante por encerra-se nos próprios problemas e ocupações ou entrincheirar-se no orgulho.

        O filósofo Jean Guitton afirma que “O que o amor tem de admirável é que o serviço que prestamos a nós mesmos ao amar, também o prestamos ao outro amando-o; mais ainda, prestamo-lo pela segunda vez deixando-nos amar” (Ensayo sobre el amor humano, Ed. Sudamericana, Buenos Aires, 1968).

        Ser amável, facilitar o amor, como modo sublime e supremo de amar, é sem dúvida uma conclusão reveladora. Pode-se afirmar sem receio de ser considerado ingênuo que o fim de toda a educação consiste em ensinar a pessoa do educando a amar, em fazer dele alguém interessado mais no bem dos outros do que no seu próprio. Em todas as tarefas educativas, de orientação familiar ou profissional, ao se tomar  uma decisão mais ou menos complexa, o educador deve formular-se a pergunta: “Isto que vou sugerir ou proibir ao meu filho ou ao meu aluno, o modo como pretendo fazê-lo, o grau de liberdade que lhe concederei para divergir da minha opinião ou, pelo menos, para manifestar a sua, tudo isso o ajudará a amar mais e melhor os outros, ou, pelo contrário, o levará a encerrar-se em si mesmo, no seu «bem» míope e egoísta?”

        A resposta à pergunta acima nunca será encontrada sem um esforço perspicaz e comprometido de todas as capacidades pessoais do educador, do conhecimento teórico que possui, e sem recorrer apenas à experiência de vida, a fim de acertar na decisão. Pode acontecer que certos pais tenham sérias dúvidas sobre a conveniência ou não de enviar a filha adolescente à Inglaterra ou aos Estados Unidos para aperfeiçoar-se na língua inglesa. Se por um lado há hoje em dia a necessidade de conhecer esse idioma, por outro ficam os perigos da solidão, da desadaptação e da desorientação que uma estadia fora de casa pode provocar, sobretudo quando se é muito jovem.

        Diante dos aspectos negativos da viagem poderia surgir o argumento positivo de que contribuiria para o amadurecimento da jovem. Porém, a questão decisiva é outra, e a pergunta chave é: “se na situação anímica e de maturidade em que se encontra minha filha, a estadia no estrangeiro por um certo tempo poderá ajudá-la a amadurecer, a crescer em capacidade de amar, ou, pelo contrário, poderá introduzir no seu desenvolvimento uma deformação que atrase por muitos anos o seu crescimento como pessoa?”. Está é pergunta que os pais devem responder antes de tomar qualquer decisão. Podem, para isso, lançar mão de todos os recursos de sua inteligência e pedir conselho a pessoas sensatas e bem-informadas sobre o tema.

    5 – Querer o bem do outro, enquanto outro

        O outro enquanto outro é a chave do amor genuíno. Amar, na concepção mais nobre e certeira do termo, é procurar o bem do outro, e não o bem de quem oferece a dádiva: é para o outro, e não pelos benefícios mais ou menos materiais que a amizade pode proporcionar a quem doa, que poderia ser a de melhorar nas avaliações de desempenho na empresa, de facilitar a introdução em certo âmbito social, nem a de conseguir um bom trabalho para si ou outra pessoa… Também não há de ser pela satisfação que o relacionamento com os autênticos amigos traz. Nem sequer por tornar melhor a pessoa do que doa, ao dar maior consistência às suas virtudes. Apesar de que o bem e a felicidade não devem ser rejeitados àquele que doa, pois isso seria inumano, o fim primordial do amor é procurar o bem do outro, enquanto outro.

        Trata-se de amar o “outro” unicamente por ser “outro”, porque é pessoa e só por esse motivo torna-se merecedor de amor; e acima de tudo porque Deus o ama e quer manter com ele um colóquio de afeto apaixonado por toda a eternidade, entregando-lhe, justamente através de um amor recíproco e inteligente, o mais imenso dos bens: Ele mesmo. E quem somos para pôr em dúvida os planos do próprio Deus?

    Texto extraído e adaptado por Ari Esteves com base na obra “O que significa amar?”, de Tomás Melendo, Quadrante, São Paulo, 2006, tradução: Henrique Elfes. Imagem de Lurill Lalmin.

  • A vida como tarefa a realizar

    A vida como tarefa a realizar

    1 – Ser feliz é anseio de toda pessoa. 2 – Perda do sentido da vida. 3 – Ter um ideal é motor para as ações. 4 – Para gestar um ideal de serviço ao próximo. 5 – Cada um é ator de sua própria história

    1 – Ser feliz é anseio de toda pessoa

        Ser feliz é o anseio de toda pessoa. O que torna uma vida feliz? A felicidade não é um bem solitário, mas tem em vista o bem de outras pessoas. Yepes, em seu livro Fundamentos de Antropologia, diz que a vida humana não se constrói solitariamente: se não há um alguém, um destinatário a quem oferecer os esforços, a vida fica aborrecida, sem sentido. O esforço pessoal deve ser um dom ou benefício aos demais. Quem não tem alguém para compartilhar, sente-se só. Entregar-se aos demais é o modo mais intenso de amar, e ajuda a encarar com mais fortaleza as dificuldades, já que o bem almejado não é somente para si, mas tem um beneficiário. A felicidade está em saber amar, em tornar feliz a pessoa amada: ser feliz é destinar-se à pessoa amada. Se ficar truncada a capacidade de amar, a vida humana perde sentido. O engano da vida fácil ou a falta de capacidade para o sacrifício torna ausente qualquer motivação e faz perder o sentido da existência pessoal: se não há um projeto de serviço aos demais não se pode ser feliz, pois a trilha do egoísmo conduz à tristeza.

        “O que se necessita para conseguir a felicidade não é uma vida cômoda, mas um coração apaixonado”, disse Escrivá de Balaguer. O que preenche o coração humano não são coisas, mas o amor às pessoas, sendo a primeira delas Deus e, por Ele, as demais, iniciando pelas mais próximas. O grau de felicidade de alguém está na sua capacidade de amar: trabalhar na enfermaria de um hospital, montar redes de internet para facilitar a vida dos demais, administrar uma empresa, estudar medicina ou preparar aulas são tarefas em benefício dos demais, e os esforços não teriam sentido se não houvesse a quem dedicá-los. Por isso, se diz que o mais profundo e elevado do homem está em seu interior, e que a felicidade afeta a pessoa em seu espírito, sem confundir-se com sentimentos que passam, nem com o prazer pontual que acaba ou com a posse de objetos que se estragam ou se tornam obsoletos. Há pessoas que não encontram sentido na vida e se enganam enchendo-a de prazeres que rapidamente necessitam ser substituídos.

    2 – Perda do sentido da vida

        Há uma forte crise de projetos vitais, e muitos não sabem por onde seguir por falta convicções ou verdades e valores a que se inspirar. Quem não encontra razão para viver não se lança e fica desmotivado, e o coração se empequenece por falta de ideais, ou porque os projetos são exíguos e não vale a pena se arriscar por eles, ou porque se teme o esforço de de realizar algo que vale a pena. A falta de um projeto de serviço aos demais, o engano da vida fácil, torna insípida a existência. Há pessoas que por falta de um projeto se enganam e passam a trabalhar e a viver apenas para usufruir de pequenos prazeres pontuais: academia, passeios, vídeos, comidas, muito esporte, baladas, novo aparelho eletrônico, viagens… Com isso, transformam em finalidades de sua existência o que deveria ser apenas um meio para descansar e retornar ao projeto maior com ânimo renovado. Outros, ainda, trabalham apenas para si e sua família, e fecham os olhos às necessidades materiais, espirituais, culturais e profissionais que carecem tantas pessoas ao seu redor. É preciso motivar com palavras, exemplo e ações propositivas aqueles que se tornaram indiferentes aos que sofrem.

    3 – Ter um ideal é motor para as ações

        Qual é a missão que me cabe, sem a qual a minha história perde sentido? É conhecida a história de um homem que perguntou a vários operários sobre o que faziam: um deles disse que carregava tijolos, outro que levantava uma parede e o terceiro afirmou que construía uma catedral que atravessaria os séculos e onde as pessoas poderiam encontrar a Deus. Essa ideia finalística é importante: não dou apenas aulas de física, ou faço a limpeza do prédio, cozinho ou opero computadores: com a minha atividade facilito a vida das pessoas para que estas possam, por sua vez, colaborar com sua atuação para tornar melhor a vida das pessoas deste nosso mundo. A minha motivação, o meu esforço, as minhas qualidades são um dom, um benefício para os colocar ao serviço dos demais.

        Quando um ideal se apodera de alguém, vem a ser o motor de suas ações, pois a ele se voltam a inteligência, a vontade e os sentimentos. Para isso, é necessária a experiência do silêncio e da reflexão, que criam o ambiente adequado para amadurecer o pensamento e desenvolver um projeto para o qual vale a pena gastar-se. Quem é profundo e não fica apenas nas impressões superficiais das mil imagens e notícias das telas digitais, quem penetra no fundo das questões sabe por onde orientar sua vida. É preciso ter a capacidade de acolher a verdade até ficar fecundado por ela, gerando, assim, ações que podem transformar o mundo. Todos os grandes projetos ou realizações em prol da humanidade, seja no plano moral, artístico e científico, foram gestados na vida espiritual e na solidão de grandes homens: Pasteur, Dante, Cervantes, Jérôme Legeune, Dostoievski, Shakespeare, Ampére, Thomas Edison…

    4 – Para gestar um ideal de serviço ao próximo

        A palavra maturidade significa estar no ponto, sazonado, e por extensão faz referência à plenitude do ser. Costuma-se distinguir três campos fundamentais da maturidade: maturidade intelectual, que não estaciona nas curiosidades superficiais, mas aprofunda-se nas questões importantes por meio da leitura e da reflexão, a fim de atuar de modo correto sobre a realidade; maturidade sentimental para canalizar a própria sensibilidade e fazê-la reagir positivamente diante das necessidades que se apresentam, sem abater-se pelas dificuldades que o empreendimento exigirá; e maturidade social, que leva a ver a sociedade não como oportunidades de network, mas como possibilidade de ajudar ou aliviar as necessidades dos que sofrem.

        Não faltarão dificuldades para se colocar em prática um projeto pessoal de serviço aos demais: a escassez de tempo, a tendência humana de ter uma vida egoísta e centrada em si, medo ao sacrifício para colocar em prática um projeto… A fé em Deus, o espírito de sacrifício e a maturidade pessoal são elementos necessários para seguir adiante e não se deixar abater pelas dificuldades ou pessimismos. Buscar conselho possibilita não errar o caminho e dá segurança ao agir, pois sozinho é mais fácil naufragar diante de momentos difíceis. Estudar, ler, ouvir para melhor compreensão da realidade que se pretende melhorar; depois, unir amigos para essa causa, dando a eles oportunidades de colaborar e preocupar-se pelos outros, ajudando-os a fugir da vida egoísta a que tantos se enclausuram.

    5 – Cada um é ator de sua própria história

        Um ideal valoriza os talentos, as habilidades e as tendências inatas. Carlyle disse que “o viver é uma conjugação ininterrupta do verbo fazer”. Por isso, cada um deve examinar suas possibilidades, gostos e tendências para aproveitá-las na busca de um afazer que torne melhor a vida das pessoas e o mundo que o cerca.

        Cada pessoa é o ator principal de sua história, sem dublê ou intérprete. Todos recebemos gratuitamente capacidades e competências que devemos agradecer a Deus e tirar partido delas para servir aos demais. O Papa Francisco ao falar aos jovens – todos podem ser jovens de espírito! − disse: “Peço-lhes que sejam construtores do futuro, que se metam no trabalho por um mundo melhor. Queridos jovens, por favor, não balconeen a vida, metam-se nela como fez Jesus” (discurso a jovens em 27-07-2013). Balconear é observar os acontecimentos de longe, comodamente, sendo que o equivalente no Brasil seria “assistir o jogo da arquibancada e não entrar em campo”.

        O boletim A escolha de princípios ajudará a buscar um ideal pelo qual vale a pena dedicar a vida.

    Texto produzido por Ari Esteves, inspirado nos ensinamentos de Ricardo Yepes e Javier Aranguren Echevarria, no livro “Fundamentos de Antropologia – Um ideal de excelência humana”, editado pela Livraria e Instituto Raimundo Lúlio, São Paulo. Imagem de Fauxels.

  • Os defeitos das crianças – Parte 4

    Os defeitos das crianças – Parte 4

    1 – A criança tímida ou fechada. 2 – A criança molengona. 3 – Criança que diz palavrões. 4 – Criança desembaraçada que diz inconveniências

    1 – A criança tímida ou fechada

         Quando se fixa o olhar em uma criança tímida, ela fica corada, perturbada, e não sabe onde se meter. Mesmo que tenha o coração cheio de coisas para contar, as palavras lhe faltam, a garganta se comprime e então baixa a cabeça, balbucia algumas palavras ininteligíveis e se cala. Ao não conseguir exteriorizar o que pensa, a criança tímida sofre bastante com isso. Não tem confiança em si. Imagina brincadeiras maravilhosas onde ela será a chefe e sairá vitoriosa. Porém, quando chegam os amiguinhos já não consegue se sobressair e mostra-se desajeitada. Logo estará sozinha em um canto, ocupada em qualquer jogo solitário, triste consigo e com os amigos, a quem não tardará a acusá-los de serem maus.

         É muito cômodo dizer que a timidez se deve ao temperamento, mas talvez deva ser atribuída ao ambiente familiar porque os pais e os irmãos mais velhos são fechados ou excessivamente passivos. Outro caso é o da família que se fecha em si mesma e não abre suas portas aos amigos, e retem a criança em seu âmbito, sem prepará-la para as relações da vida escolar e social. Em famílias fechadas, a criança é desinibida apenas com a mãe, pai e avós, mas ao não conviver com outras pessoas fica travada na escola diante de colegas de sua idade e professoras. Deve-se dar às crianças a oportunidade de conviverem com outras pessoas desde cedo. Há também uma situação inversa, que é a da mãe dinâmica e operativa que paralisa a ação do filho ou filha porque seu ritmo de vida é excessivamente rápido e a criança não chega aos seus calcanhares, refugiando-se numa timidez inconsciente.

         Nos casos acima descritos torna-se necessário uma conversa em família para diagnosticar o que pode melhorar no ambiente da casa, a fim de proporcionar a cada membro possibilidades de desenvolvimento.  Algumas vezes ocorre que a família troca o local de residência, ou vai a uma colônia de férias ou porque mudou o ambiente da casa devido a chegada de um irmãozinho, e a criança tem dificuldade de adaptação. Deve-se preparar e encorajar a criança antecipadamente para aceitar uma mudança.

         Há crianças que só se sentem confortáveis com outras menores do que ela. Em tais casos, deve-se proporcionar um ambiente com crianças da mesma idade e dar tempo para a criação das novas amizades, sem fazer discursos sobre a necessidade de ter amigos.  Os tímidos muitas vezes são crianças inteligentes, observadoras. É preciso diminuir as oportunidades de isolamento, e proporcionar os meios para se exteriorizarem, tal como o garoto tímido que passou a fazer parte de um grupo de crianças que faziam ginásticas, e retornava para casa descontraído, confiante, pois o dispêndio de energias físicas tornava-o mais equilibrado, conseguia dominar melhor seus gestos e sentir-se menos desajeitado.

         Uma menina gostava de se exprimir através do desenho e encontrou nele mais uma ocasião para conviver com as amigas de sua idade. Ao admirar seus desenhos, pouco a pouco ela foi adquirindo confiança em si. O que não se pode fazer é chamar a atenção para a timidez da criança, principalmente diante de outros, pois isso reforça mais a atitude reservada. Quanto se chama a atenção da criança para as suas singularidades, mais ela se convencerá de que toda a gente tem os olhos fixos nela para a metê-la em ridículo. O que temos de fazer é esquecer suas maneiras acanhadas, e fomentar pouco a pouco oportunidades de desinibição.

         Dizer a uma criança que é tímida ou menos inteligente do que outra, ou comparar qualquer imperfeição, enraíza nela a convicção de sua inferioridade. Em determinada família, uma menina de sete anos, um pouco medrosa, era sempre convidada a se espelhar no irmão de seis anos, tido como desembaraçado, atirado. Com isso, a criança, que tinha muitas outras virtudes, sentia não ter a confiança da mãe, que apenas focava-se no irmão, que era o que menos necessitava de apoio.

         É preciso ajudar a criança tímidas a encontrar o seu lugar. Em famílias onde são sempre as mesmas crianças que se antecipam a contar as coisas, acabam sendo as que mais recebem a atenção de todos, pois se exprimem de maneira divertida; e sobra para o tímido só um interesse de fachada, que o faz pensar que não conta para nada. É importante que o tímido se sinta útil, acolhido, amado e que tenha o seu lugar com responsabilidades no lar para que triunfem nelas. Uma menina de seis anos tem receio das refeições com pessoas estranhas em casa, pois ao falar algo sem maior sentido ralham com ela. A mãe, então, mudou a estratégia e encarregou-a de passar o pão, e estar atenta para que não nada falte aos convidados. Ao desempenhar bem esse papel, saiu de si ao deixar de se pôr em evidência.

         Há o costume de dizer que a timidez é uma atitude de orgulho, de não querer ficar mal diante dos demais. Trata-se de um juízo apressado que desconhece as desvantagens que a timidez traz ao desenvolvimento harmonioso da personalidade, e que faz sofrer muito o tímido. Todos recebemos talentos de Deus, e seria uma pena não incentivar os filhos tímidos a servir-se das qualidades ocultas que possui, a fim de fazê-las render e dar segurança à criança. Ter fé nas possibilidades dos filhos para que eles se desenvolvam.

    2 – A criança molengona

        Há crianças que andam devagar, vestem-se, deitam-se e se despertam vagarosamente. É preciso compreender esse ritmo lento, que as fazem levar mais tempo para sentir, perceber e compreender. Costumam ser inteligentes e profundas. Convém respeitar-lhes a cadência e não perder a paciência, mas ajudá-las com calma e respeito a que consigam dominar melhor seus movimentos, pondo um pouco mais de ritmo. Outras crianças são excessivamente minuciosas, meticulosas, e por isso demoram mais tempo que o necessário para fazer as coisas, pois têm falta de confiança em si mesmas e querem as coisas mais perfeitas que o necessário, a fim de receberam a aprovação dos adultos. Neste caso, é preciso ajudá-las a compreender que o perfeccionismo pode se tornar algo mau e levar a manias do tipo “quem mexeu no meu lápis, pois estava com a ponta virada para este lado da mesa?”; e depois, porque não se deve perder mais tempo que o necessário para cada coisa.

         Outras crianças revelam muito pouco interesse por atividades importantes, e não têm verdadeiro entusiasmo por ajudar nas tarefas do lar, nem se deixam arrebatar pela leitura de contos ou jogos que puxem mais pela cabeça. Então, é preciso encontrar uma maneira de as contagiar, de acender nelas uma chama interior que as motive ao mostrar o valor que tem colaborar para que o lar seja acolhedor, ordenado e grato a todos, dever esse que cabe a cada membro da família, inclusive aos filhos. Quanto ao hábito da leitura, sugerimos aos pais munirem-se de bons argumentos para ajudar a criança a descobrir um mudo novo, cheio de aventuras e mistério, que os bons contos possuem (para isso, sugerimos a leitura do boletim Menos telas digitais e mais livros”).

         Outros meios que podem ajudar a criança a se entusiasmar por algo e passar a ser mais ativa são os trabalhos manuais, jogos, exercícios físicos. Foi um sucesso a iniciativa de uma família que sugeriu à criança, que parecia ter pouca iniciativa, para que criasse uma horta na varanda do apartamento, feita com garras plásticas cortadas ao meio e fixadas numa tábua encostada na parede, deixando a parte do gargalo com pequenas pedras para escoar a água e reter a terra. A criança buscou as sementes, leu sobre o assunto na internet e ficou maravilhada ao ver sua horta crescer e a família utilizar as verduras nas refeições.

         As crianças com ritmo lento têm necessidade de que as ajudem de modo discreto para não as humilhar. Muitas não se acostumam com a vida tumultuosa e apressada que os dias atuais impõem. Depositar confiança nelas, compreender seu ritmo e sem prejudicá-las, levá-las a que ajam em melhor compasso com alegria e otimismo ao transformar o esforço por ser mais ativa em mais um jogo ou brincadeira, e proporcionar a elas responsabilidades que possam dar conta.

    3 – Criança que diz palavrões

         Algumas crianças dão a impressão de sentir prazer em repetir palavras grosseiras que chamam a atenção sobre elas e não deixam de espantar as pessoas que as rodeiam. Quando são muito pequenas, podem repetir palavras que não compreendem o significado, mas repetem-nas porque parecem curiosas e as pessoas riem. Bem, em primeiro lugar não dar demasiada importância e não levar isso a sério demais. Algumas medidas devem ser tomadas: não rir e, sem desmaios, mostrar certo desagrado, pois o subconsciente da criança a lembrará que sua ação não agradou e não animará a repetir o feito (o subconsciente leva a repetir ações cujo resultado trazem agrado à própria sensibilidade).

         Mostrar-se severo quando a palavra grosseira foi dirigida a outra pessoa com a intenção de a magoar ou ferir. Neste caso, o que está em causa é a maldade. Não é raro que as crianças repitam essas palavras para se afirmar ou para fazer rir. Trata-se de combater o aspecto da grosseria com calma, mas decididamente. Aproveitar para dizer que o que foi dito é uma descortesia e não tem graça alguma. Depois, é preciso proibir com firmeza a que não repitam o dito, mas sem levar para o lado do trágico. O essencial é que os adultos não se ponham a rir. As grosserias podem vir à boca em momentos de cólera da criança, mas nesse caso o que está em causa é a cólera, e não uma espontaneidade descontrola e inoportuna. No caso de dizer asneiras porque está encolerizada, a melhor tática consiste em isolar a criança e dizer a ela para voltar ao convívio dos demais quando estiver calma.

    4 – Criança desembaraçada que diz inconveniências

         Se a família admira os gestos e as palavras da criança muito desembaraçada, pode estar tornando-a vaidosa e o centro das atenções ao incitá-la a pavonear-se, facilitando a que chegue dizer indelicadezas ou palavras que possam magoar ou deixar mal as pessoas. A criança que não ter freios na língua e se põe a dizer de bate-pronto tudo o que vê ou que lhe passa pela cabeça, e cuja espontaneidade é descontrola e inoportuna, precisa ser corrigida com frequência para não se tornar desagradável às pessoas. Isso pode ser feito com exemplos, e fazê-la compreender que as pessoas possuem sensibilidades diferentes, e que é preciso respeitar isso. Os pais devem ajudar a criança a ser discreta, delicada, compreensiva e a não comentar diretamente com as pessoas algo que a estranhe (pode perguntar a sós aos pais). Deforma-se o caráter e o temperamento da criança que diz sempre o que pensa para produzir impressão sobre as pessoas, sem medir consequências, tornando-a escrava das impressões imediatas.

    Texto extraído, adaptado e completado por Ari Esteves com base no livro “Os defeitos das crianças”, de J. Vimort, Editorial Aster, Lisboa, Portugal.

  • Os defeitos das crianças – Parte 3

    Os defeitos das crianças – Parte 3

    1Criança que se queixa demais. 2 – Criança que anda sempre no “mundo da lua”. 3 – Pais que oferecem presente de grego

    1Criança que se queixa demais

         Talvez haja complacência ou concordância dos pais diante da criança que, escandalizada, veio se queixar de um irmão ou companheiro ao não saber o que pensar acerca da atitude que presenciou, e vêm contá-la para que seja ajudada no julgamento. Neste caso, será bom escutar e depois dizer à criança o que está bem ou mal na ação em si, pois é uma ocasião de ajudar a formação da consciência dela. Porém, deve-se ter o cuidado de não julgar a intenção e nem criticar a outra criança, tendo sempre uma expressão de indulgência e de desculpa para com ela. Não se deve punir uma criança que foi delatada para que seu acusador não ganhe o estranho gosto ou poder de conseguir que os outros sejam castigados. É preciso afastar o vício da queixa e da denúncia e, em outro momento, se for o caso, conversar a sós com a criança denunciada.

         A criança pode ficar chocada com o que viu ou ouviu na escola. Para isso, o princípio é o mesmo: escutar e julgar o fato em si, sem fazer juízo acerca da intenção da outra criança, que pode ter agido por falta de conhecimento ou outra deficiência. Ocorre também o caso do filho mais velho encarregado de cuidar do irmão menor que aborda as dificuldades que encontrou. Neste caso, em vez de agirem os pais, devem instruir o mais velho para que resolva ele mesmo a questão com o pequeno, caso torne a ocorrer. Não aceitar queixas e demonstrar desagrado contra elas ao perceber uma ponta de maldade no desejo de que o outro seja punido. Pode-se pedir ao delator que ajude o irmão a agir de modo correto. Seja como for, nunca se deve castigar ou passar uma descompostura com base no que disseram. Nas discussões entre crianças, como foi dito, se uma delas vem se queixar, os pais devem abster-se de intervir e sugerir que elas mesmas resolvam a questão.

         Quando a criança conta o que a outra fez de mal, no fundo deseja que o adulto resolva a questão. Não se deve aceitar tal encargo e arranjar as coisas de maneira que a própria criança se desvencilhe ou se defenda. Isso nem sempre é possível, mas é preciso ter esse cuidado, pois se a criança se habituar a contar qualquer coisa de ruim que testemunhou na escola – visão sempre parcial −, deve a família encerrar logo assunto e não alimentar falatórios. Com isso, o filho ou filha aprenderá a não mexericar e a não falar mal dos outros. É muito mais interessante que o filho aborde assuntos normais e seja ouvido com atenção.

         Todos sentimos respeito pelos nossos amigos, e gostamos de contar as coisas boas que fizeram, e não as que lhe saíram mal, para não difamá-los. Às vezes são os próprios pais que levam os filhos a fazerem queixas ao dizer a eles: − “Se alguém aborrecer você na sala de aula, vá contar à professora”, ou pior: − “Não leve desaforo para casa”, incentivando a criança a não perdoar ou a responder mal a todos, inclusive aos professores. A maneira da criança não fazer queixas é perceber o que de bom os outros fazem, ou tentar ela mesma resolver suas questões conflituosas.

    2 – Criança que anda sempre no “mundo da lua”

         Crianças habitualmente distraídas preocupam seus pais, a ponto de se perguntarem sobre o que a vida reservará a elas se continuarem avoadas. Se são verdadeiramente distraídas, não é culpa delas e não se pode viver a censurá-las ou tratá-las com aspereza, como se quisessem ser distraídas. Deve-se ajudá-las a colocar a cabeça e os sentidos naquilo que fazem.

         Muitas crianças habituaram-se a viver imersas na velocidade das telas digitais, e passam a ver o mundo real como lento, aborrecido e entediante. “Andar na lua” ou em seus sonhos e pensamentos é para elas um refúgio. É preciso ajudá-las a se interessar pelas coisas normais da vida, começando pelo lar ao atribuir a elas tarefas que possam desempenhar, afirmando que é para o benefício de todos. As crianças gostam de ajudar, mas por serem lentas e inicialmente não fazem as coisas com perfeição, e podem não chegar a fazê-las se os pais não têm paciência de ensiná-las uma e outra vez, ficam sem encargos domésticos e, ao se sentirem inúteis e isoladas, refugiam-se em suas coisas ou no mundo da lua.

         Outros modos de trazer a criança de volta a terra, é dedicar tempo para dialogar com ela, ajudá-la a perceber as coisas interessantes que ocorrem no seu entorno, interessar-se pelo que gosta ou faz, depositar confiança em que desempenhará bem determinada tarefa e incentivar a que brinquem com outras crianças, e não isoladamente. Depois, evitar de perguntar a ela quando estiver distraída sobre o que está pensando, pois será indiscreto e de resposta embaraçosa, já que a criança não saberá explicar com exatidão em que parte ou cratera da lua estava: o diálogo para mantê-las com os pés e a cabeça na terra deve iniciar antes de que partam de “viagem”.

         É na vida de todos os dias que se deve estabelecer a ligação entre a criança e o mundo que a cerca, sendo os pais esse elo. Ajudá-la a perceber a beleza de uma flor, a arte têxtil da aranha, o paciente broto da erva que se alça da terra, a dura vida do caramujo que tem a sina de andar com sua casa nas costas, a pombinha na calçada que sempre sede passagem aos homens…. Com isso, ajudará o filho ou filha a não fugir da vida e a encontrar o seu lugar ao não ser vítima do celular, games, programas de televisão ou de outras mídias que o retiram da existência real e o transportam para um mundo inexistente imposto a ele. Os pais devem estimular a criança a utilizar mais a inteligência ao incentivá-la a aprender a descansar criativamente com leituras, quebra-cabeças, xadrez, dama, lego, vídeos culturais previamente programados. Abandonar a criança diante de telas digitais é o caminho mais rápido para tornar preguiçosa a mente dela.

         Outra janela para afastar a criança das telas digitais é a natureza, que deve ser aproveitada pelos pais. Ao correr, pular, pesquisar, subir em árvores, ocultar-se entre arbustos, a criança interage com a natureza e ganha perspicácia. Dar alimentos a aves e peixes e rir das formigas que carregam fardos maiores do que elas próprias, são atitudes contemplativas. A criança aprenderá a ser paciente e a não exigir tudo prontamente ao fixar os olhos no lento arrastar-se do caracol, pois perceberá que tudo na natureza tem seu tempo, tal como o broto da flor que se alça lenta e timidamente da terra. A criança deve deitar-se na grama com seus pais e sentir cócegas sem medo de alergia, e olhar para o céu para encontrar os incríveis desenhos que as nuvens elaboram.

    3 – Pais que oferecem presente de grego

         A criança é inexperiente e se constrói a partir da sabedoria de seus pais. Mas é uma pena presenciar pais que agem contrariamente ao que o filho precisa, pois ofertam dádivas que são um prejuízo para ele, tal como a cidade de Tróia que recebeu de presente dos gregos um grande cavalo de madeira ocultando soldados que de noite abriram os portões da cidade para ser invadida pelo exército de Ulisses. Ao invés de ajudar a criança a viver com intensidade as experiências do lar, das brincadeiras com objetos simples, artificializam a vida dela ao presenteá-la com celular ou tablete desde as primeiras idades. Diante de tal atitude pode-se concluir que a oferenda é para eles mesmos, pais, que querem manter a criança entretida (alheada) em telas, a fim de terem um falso sossego, pois em breve terão diante de si um pré-adolescente passivo, inadaptado, pouco criativo, com mente preguiçosa e indolente para estudar e ajudar aos demais. Os pais também necessitam abandonar as telas e frear suas correrias para “gastar” tempo com a família, dialogar e fazerem planos juntos, sejam passeios, encargos no lar, jogos em que toda a família participa. Muitas vezes as crianças “andam na lua” para suprir a falta de atenção dos pais.

        Continuaremos com o tema “Os defeitos das crianças”, tratando no próximo boletim da criança tímida ou fechada e da molengona.

    Texto extraído, adaptado e completado por Ari Esteves com base no livro “Os defeitos das crianças”, de J. Vimort, Editorial Aster, Lisboa, Portugal.

  • Os defeitos das crianças – Parte 2

    Os defeitos das crianças – Parte 2

    1 – A criança e a mentira. 2 – A criança colérica. 3 – A criança orgulhosa

    1 – A criança e a mentira

        Para as crianças triunfarem sobre seus defeitos, necessitam ser ajudadas com calma, paciência e muito amor. Uma mãe ficou desnorteada porque seu filho mentiu ao dizer a ela que havia andado de barco no dia anterior. O que ocorreu foi que a criança viu em um filme outros pirralhos passearem de barco a vela, e como para ela sonho e realidade por vezes se confundem, e também para gabar-se a fim de se impor um pouco diante dos olhos dos outros, fez tal afirmação à mãe. Mais do que propalar que o filho é mentiroso, a mãe poderia dizer a ele que percebeu o gosto dele por andar de barco, e que procurará fazer isso no próximo passeio familiar. A afirmação da criança foi uma manifestação de orgulho? Não, mas talvez amor-próprio porque é preciso ter algum para crescer no mundo sem se sentir esmagado por ele, e para alimentar grandes desejos. Muitas crianças que atravessam o período da mentira, o fazem por alimentar grandes desejos e têm vontade de que as tomem como pessoas importantes e mais crescidas do que efetivamente o são. É uma crise normal que deve logo deve desaparecer.

        Outras vezes a criança mente porque receia as consequências dos seus atos, e ao negar obstinadamente o faz como se estivesse dizendo que não queria fazer o que fez. Ao invés de perguntar abruptamente se foi ela, a criança, que queimou a ponta da toalha, poderia perguntar onde foi que ela encontrou fósforos: − “Na gaveta”, teria respondido, como que assumindo o fato da toalha chamuscada. Se a criança for tímida ou sensível, e teme muito um castigo, ou porque sente muita vergonha, será preciso compreender que às vezes sua saída será uma mentirota. Cabe, então, aos pais ajudá-la e encorajá-la a que tenham confiança neles, e que pode dizer com tranquilidade as coisas que saíram erradas. Para dar essa confiança, os pais não devem levar as coisas para o lado trágico, pois quanto mais dramatizarem, mais esmagam a criança sob a vergonha. A melhor maneira de desencorajar a mentira da criança é demonstrar plena confiança nela, e mesmo que por vezes possam ser enganados, jamais devem dar mostrar de que desconfiam da criança, pois só assim a criança sentirá remorsos de ter mentido para aqueles que a amam tanto. Pelo fato de uma criança mentir algumas vezes, não desconfiar sistematicamente dela, nem dizer isso a outras pessoas, pois seria julgá-la ou considerá-la mentirosa, abandonando-a no seu defeito e diminuindo a sua imagem ou boa fama diante dos outros, o que seria injusto. A criança confessa espontaneamente seu erro quando há um ambiente de amor, de calma, de confiança. Por isso, não procurar que ela confesse um erro diante de pessoas estranhas.

        É claro que, com delicadeza, se pode estimular que a criança confesse a mentira, sabendo que ela já sente remorso pelo que fez de errado. Pode-se repor a verdade com um sorriso, sem gritar para não dramatizar e tornar a situação violenta demais. A criança deve ter a possibilidade de reparar o que fez: se quebrou o vaso deve limpar o chão e colar as partes quebradas ou comprar outro com o dinheiro do seu mealheiro. Pode se mostrar mais ou menos contrariado, mas nunca com cara de tragédia. Crianças que procuram autenticamente enganar, a atitude dos pais deve ser como a de Cristo: mostrar se amável e compreensivo, dispostos a desculpar e perdoar, mas ao mesmo tempo ser exigentes, firmes, para que a criança perceba que os pais têm grande paixão pela verdade, e por isso procuram dar exemplo.

    2 – A criança colérica

        Gritos, pontapés nos móveis, injurias, quebrar objetos, rostos fechados e contrariados. O que na verdade está ocorrendo é que a criança está tendo uma crise de cólera, e não se deve provocá-la ainda mais ao forçá-la a se submeter, porque ela julga ter razão. Se o que se pretende é o bem da criança deve-se arranjar uma maneira de obter a colaboração dela. Para isso, os pais não devem se enervar ou dramatizar o incidente e nem responder cólera com cólera, rir ou debochar, pois seria humilhante para a criança. O bom senso aconselha manter-se sereno e firme, pois isso acalma e desarma a criança, e evita dizer algo que possa magoá-la. É melhor esperar que passe o surto de raiva e, horas depois, ou talvez no dia seguinte, quando a criança já estiver calma, conversar com ela sobre o modo errado com que agiu no supermercado, porque não quiseram comprar a barra de chocolate que ela pediu. Pedir para não repetir mais a falta de respeito que teve. Até pode, nesse momento, dizer qual a medida corretiva que passarão a ter diante de tais comportamentos: por exemplo, não irá à casa dos primos no fim de semana; ou não assistirá desenhos naquele dia.

        Uma criança pode se exaltar porque se viu frustrada em algo, ou porque foi contrariada em ponto essencial para ela: pretendia sair na rua para brincar, mas lhe foi pedido que não fosse. Pode-se desviar o interesse para outro sentido ao concluir o que havia de legítimo e bom no desejo da criança, e propor algo que corresponda à sua aspiração: se queria correr na rua, pode-se indicar que o faça no pátio; se queria desenhar ou pintar na mesa da cozinha, que o faça no quintal ou na varanda.

        Algumas crianças têm dificuldades de se dominar e acabam por explodir quando seus instintos são contrariados. Realmente, os pais têm diante de si a tarefa de ajudá-la a não ser marionetes de seus sentimentos e paixões, ao não entregar-se irracionalmente a eles. Para isso, deverão observar as reações da criança ao perder uma partida de futebol ou outro jogo para os amigos. Fazê-la cair em si ao perceber que a amizade é um bem maior que deve ser preservado, e que perder uma partida não é o fim do mundo. Muitas vezes será necessário aplicar uma medida corretiva na criança colérica, vítima de seus instintos, de suas zangas, a ponto de se encerrar numa cara enfezada que parece não ter fim. É preciso intervir para libertar e ajudá-la a dominar tanta impetuosidade: pode-se isolar a criança e dizer que volte para junto dos demais quando estiver mais calma. Porém, o essencial é que os pais não se exaltem: o rosto sereno e a atitude calma e firme dos pais desarmam a cólera da criança.

    3 – A criança orgulhosa

        O orgulho não parece ser um defeito verdadeiramente profundo nas crianças. Por vezes, se tem por orgulho aquilo que não o é: se a criança mostra um desenho e afirma que está bonito porque ela o fez, talvez haja um pouco de vaidade e não de orgulho, pois ela tem necessidade de ser apreciada pelo adulto, e quer avaliar a sua obra. Pertence aos pais o dever de apreciar os progressos que a criança faz, pois para progredir ela necessita ter autoestima e confiança em si mesma. Ao afirmar que ela progrediu, mas que pode fazer melhor, já a coloca longe de fomentar uma atitude de orgulho, ao mesmo tempo que a deixa contente com o progresso realizado. A menina que diz − “Veja como sou bonita”, a mãe pode dizer: – “Sim, você tem um vestido bonito”; ou: − Sim, hoje seu cabelo está arrumado, mas nem sempre”. Com isso, desvia um pouco a atenção da criança sobre si mesma.

        Em geral, as crianças que garganteiam seus feitos e que são vaidosas, muitas vezes têm falta de confiança em si mesmas, ou complexo de inferioridade que as fazem andar sempre à procura de saber o quanto valem, a fim de crescer diante dos próprios olhos. O remédio será demonstrar amor por elas, e não pelas suas qualidades. Sentir-se amadas e não levar a sério as gabarolices que dizem; ensiná-las a ver que somos amados por Deus porque somos seus filhos, e não porque podemos fazer ou ter isso ou aquilo; e se podemos fazer isso ou aquilo, é porque Ele nos deu gratuitamente essas qualidades, que devemos agradecer.

        A criança precisa ser ajudada a reconhecer seus erros e a descobrir as suas fraquezas: – “Hoje você não fez o seu trabalho escolar”. Ao dizer isso com calma, bondade e um sorriso, transmite o recado de que se confia que ela o fará. Pode-se acrescentar que compreende que não fez a lição, mas que conseguirá fazer se estiver um pouco mais atenta aos seus horários. O orgulho é uma espécie de mentira, mas se os pais fizerem a criança perceber com coragem seus pontos fracos, ajudando-a a corrigir-se e a sair de si, o orgulho, que é culto a si mesmo, se esvai porque ela aprenderá a ser humilde e a admirar as qualidades dos outros, e não a invejá-las. Quando uma pessoa se compara com outra e procura afirmar-se à custa de rebaixá-la, segue a trilha do orgulho, sendo necessário trabalhar com muito cuidado para extirpar essa erva daninha.

        Pais e educadores muitas vezes são os primeiros a comparar a criança com um irmão ou um amigo, e isso não é nada bom, pois ao invés de buscar o bem da criança, procura-se o bem de si próprio ao diminui-la. No caso de crianças com tendência à comparação, como forma de se sobressair, pode-se restabelecer sempre a estima do outro fazendo ela perceber as qualidades que possui a outra criança, e criar entre elas um clima de amizade, de comunidade.

        Ninguém tem o direito de humilhar a criança, pois isso não é um princípio de educação. Humilhar é desencorajar e matar qualquer coisa no interior da criança. Nunca se deve contar em público algo que a criança fez de errado. Sendo a humildade a verdade, cada pessoa deve reconhecer sem vergonha ou tristeza suas próprias fraquezas e lutar para corrigi-las; e amar os outros como eles são, ajudando-os a que melhorem ao corrigir com oportunidade, carinho e respeito. Os pais também devem reconhecer seus erros e corrigir-se, e pedir desculpas aos filhos quando foram injustos com eles. Ao aplicar alguma medida corretiva nos filhos, devem fazê-lo com o fim de ajudar a criança, e não como reação do amor-próprio ferido.

        Continuaremos com o tema “Os defeitos das crianças”, tratando no próximo boletim das que se queixam demais, e das que parecem estar sempre com a cabeça no mundo da lua.

    Texto extraído e adaptado por Ari Esteves com base no livro “Os defeitos das crianças”, de J. Vimort, Editorial Aster, Lisboa, Portugal. Imagem de Ketut Sublyanto).

  • Os defeitos das crianças – Parte 1

    Os defeitos das crianças – Parte 1

    1 – Ninguém é perfeito, nem os filhos. 2 – O orgulho e o egoísmo. 3 – A preguiça. 4 – Pequenos furtos. 5 – A mentira

    1 – Ninguém é perfeito, nem os filhos

        Os pais se lamentam muito quando descobrem os defeitos dos filhos. Deveriam alegrar-se, pois com isso terão um norte para conduzir sua educação. Além disso, como ninguém é perfeito, isso inclui também as crianças, que padecem dos mesmos defeitos de todos os filhos de Eva. Quais os defeitos que aborrecem mais os pais? Bem, a lista pode ser grande: a criança não fica quieta, não cede e enfrenta os pais; é egoísta, impulsiva e foge das tarefas? Então, se poderia concluir que debaixo dessas atitudes – que certamente devem ser corrigidas − se esconde um temperamento forte, uma personalidade muito vincada que pode chegar a fazer maravilhas, quando bem orientada. A criança é fechada, não diz nada e não se sabe o que pensar dela? Talvez seja uma criança excessivamente sentimental, pouco segura de si mesma. É tímida e não sabe dizer tudo o que tem no coração? Talvez tenha baixa autoestima porque não consegue fazer as coisas que sonha realizar.

        A mentira e os pequenos furtos são os defeitos que mais torturam os pais, a ponto de afirmarem que estariam dispostos a aceitar tudo, menos algum desses defeitos. Sofre-se menos ao pensar que essas fazes, caso ocorram, são sempre curtas, e não possuem a mesma intenção de um adulto que age da mesma maneira. Entretanto, é preciso ter a coragem e a paciência para ajudar a criança a superar qualquer desses comportamentos, identificando o motivo que a leva agir assim.

    2 – O orgulho e o egoísmo

        Na realidade, os piores e mais preocupantes defeitos, tanto nos pirralhos como nos adultos, são o orgulho e o egoísmo, que podem existir em crianças que nunca mentiram, nem surrupiaram trocados para o doce. O egoísmo natural da criança, que a leva a só pensar em si, em suas coisas, em seus pequenos planos, e não presta atenção e nem ajuda os outros, não é o mesmo egoísmo de um adulto, e ocorre porque elas têm dificuldades de compreender a alteridade, de interpretar os sentimentos alheios, e necessitam ser estimuladas a isso, como também devem ser estimuladas a serem solidárias e a doarem os brinquedos em bom estado que já não utilizam mais. Quando os pais as fazem compreender a dor dos demais, elas aprendem a ter coração e a compartilhar com os que sofrem.

        O orgulho se mostra na criança que faz tudo para ser mais notada, que está sempre pronta para diminuir o que os outros fazem melhor do que ela, ou quando se engana e não reconhece o próprio erro, que atribui como causa os outros. A primeira virtude não é a honestidade, nem a veracidade em crianças que não mentem, nem a sensatez das que estão sempre quietas: a primeira virtude é a caridade, o amor, a capacidade de se dar a Deus e aos demais. Se estes pensamentos estiverem mais presentes, os pais poderão olhar de maneira diferente para os defeitos dos filhos.

    3 – A preguiça

        É preciso aprender a olhar para os filhos como Deus nos olha: primeiro, pensar que os filhos necessitam dos pais para aprender a ser melhor. Um filho preguiçoso irrita seus pais, mas a preguiça da criança é facilmente superada por meio de pequenas tarefas atribuídas a ela no lar, com as quais, ao cumpri-las, irá fortalecendo a vontade para ir contra os sentimentos, que tendem a dominar e levar as crianças apenas ao prazenteiro. O que não pode ser é que os pais transformem o defeito do filho em tendência ao criarem apodos que repetem com frequência à criança: “você é preguiçoso”, “não tem jeito de melhorar”, “onde já se viu tal coisa”… A mãe que todas as manhãs repete a mesma lengalenga ao dizer à filha que é uma molengona, porque leva uma hora para se aprontar, cataloga a criança e a faz se fixar no defeito a ponto de vê-lo como impossível de desarraigar.

        Se os pais olharem para as qualidades da criança, para aquilo que ela realiza melhor, e não apenas para a preguiça dela, a partir dessa visão positiva poderá ajudá-la a se esforçar porque transmitem à criança confiança em si mesma. Há crianças que com pertinácia e paciência se põem a fazer um modelo reduzido, que montam ou desmontam peças com habilidade e atenção, revelam qualidades que os pais devem elogiar. Em vez de repetir a todo momento que a criança molengona − pior é quando dizem isso diante de pessoas estranhas −, deveriam afirmar o que ela realiza bem. Caso seja difícil para a criança fazer um esforço grande contra a preguiça, pode-se “comer o pudim quente pelas beiradas” ao ajudá-la a começar a colocar em ordem seus brinquedos, jogos ou cadernos. Com isso, ela fortalecerá a vontade para realizar ações mais custosas, como estudar, dormir e levantar no horário, ser disciplinada…

        Comparar uma criança com outras da sua idade, seja um irmão, parente ou amigos, só serve para paralisá-la e fazê-la fechar-se em si mesma. Ao invés disso, dar a ela responsabilidades de acordo com a capacidade que possui, e deixe-a ter iniciativas para realizá-las, pois assim irá vencendo indiretamente a preguiça. Certa família deu à criança um espaço para cultivar verduras em garras pets, e a criança reagiu muito positivamente e fez um verdadeiro canteiro, e se sentia feliz quando serviam suas verduras na mesa. Inclusive a criança, que era tida como passiva e preguiçosa, foi buscar informações com o vendedor de sementes, conseguiu revistas sobre jardinagem, entre outras iniciativas. É preciso ver os filhos como Deus os olha: com um olhar de amizade, carregado de compreensão e de confiança; um olhar que implica em progresso na alegria e no amor.

    4 – Pequenos furtos

        Uma criança que faz pequenos furtos está muito longe de ter as mesmas intenções de um adulto que faz o mesmo, pois são dois mundos muito diferentes. Mas isso não significa que não se deve repreender seriamente a criança, e até colocar alguma medida corretiva. Mas é necessário proceder de maneira diferente da que seria com um adulto. Surrupiar bolos ou doces é puro caso de gulodice, e não um verdadeiro furto. Mas, mesmo não sendo algo grave, é preciso intervir imediatamente, com decisão, desde a primeira vez, ao dizer para não repetir mais isso, que os bolos são para todos, e que se quiser terá que pedir para receber ou não. Se a criança reincidir se pode privá-la, por exemplo, da sobremesa. Ou pode-se dar a ela um saquinho de bombons e ensiná-la a controlar-se para não comer tudo de uma vez, além de oferecer o doce aos outros.

        É preciso compreender e agir com paciência quando ocorre furto no porta-moedas, ou porque tirou um pacote de bombons da mercearia, ou uma caneta do amigo. É raro que a criança furte por ser ladra, ou desonesta porque sofre de alguma deformação que a leve a esse vício. Em vez de pensar no pior, procure encarar outras hipóteses. A maior parte das vezes, a criança não tem noção de propriedade e apanha o que vê pela frente para ter uma satisfação que não conseguiria tê-la de outra maneira, ou porque não dispõe de dinheiro algum no bolso. Por estar convencida de que os pais gostam menos dela do que do irmãozinho, ou porque se sente uma inútil na escola ou em casa, e que ninguém deposita confiança nela, então surge a necessidade de ter o seu mundo com suas coisas um pouco secretas. Assim, o furto é uma compensação para obter uma satisfação. É preciso procurar compreender o que não anda bem por trás do surrupio e encontrar o remédio. Amar essa criança, falar com ela, depositar confiança nela, atribuir responsabilidades, arranjar as coisas de maneira que ela se apaixone por trabalhos manuais e encargos domésticos; que faça a coleção de selos ou de figurinhas, que pratique esportes, passeie na praça. Claro que isso levará algum tempo e precisará que os pais atravessem maus momentos e procurarem a causa para atacar o mal pela raiz.

        Não encarar a situação pelo lado trágico. Pequenos furtos não significam que tudo esteja perdido. O que mais importa é não dizer à criança que irá para prisão, que é a vergonha da família, que é uma ladra… Não desanimar, pois é menos grave que ser egoísta, que revelar falta de bondade de coração. Falar abertamente e com muita calma com o filho, e mostrar que agiu mal. Não colocar na criança a ideia de que é desonesta, mas vincar que cada um tem direito ao que possui porque trabalhou para consegui-lo; e que ela, a criança, deve aprender a obter o que deseja pelas vias normais: porque ganhou, porque comprou. Dependendo do objeto, animar a fazer seus próprios brinquedos, ou saber prescindir das coisas sem invejar ninguém (tem mais quem precisa de menos). Indicar a maneira correta de se comportar no futuro, dar um pouco dinheiro e perceber como o gasta, e dizer que tem confiança nela. Não fechar os armários à chave, mas evitar deixar o dinheiro à vista. Não se pode dizer essas coisas a pessoas de fora, a não ser ao outro cônjuge para que ambos trabalharem em conjunto, pois a criança tem direito a uma boa reputação.

        Como aplicar uma medida corretiva? Também não se deve ser excessivamente indulgente e desculpar tudo. Deve-se castigar rapidamente e não voltar a falar mais no assunto: é caso encerrado. O melhor castigo, e o mais natural, é a reparação: entregar ao dono da mercearia o preço de um saco de bombons furtado, e melhor ainda é que a criança pague com as economias tiradas do cofrinho dela. Em geral, se for muito humilhante obrigar a ir ter pessoalmente com o dono da mercearia, então se poderá indicar a ela para dar o dinheiro a uma família necessitada, ou comprar uns doces e levar para essa família. O essencial é que os pais dominem o desgosto, depois de aplicar com calma a medida corretiva. Em seguida, pôr-se a pensar em outras medidas, tal como ensinar a criança a se compadecer pelos que sofrem, a ser solidária e ir com ela a um orfanato para que doe algum brinquedo que esteja em boas condições e que não utiliza mais, ou visitar um asilo ou casa de repouso de idosos, animando-a a levar alguns doces que comprou com o dinheiro da mesada e, se necessário, completado com a contribuição dos pais.

    5 – A mentira

        Meu filho mente! Para a criança, sonho e a realidade se confundem porque querem se gabar um pouco para ficar bem diante dos outros. Certos pais achavam que o filho exagerava em tudo. Então, resolveram estabelecer um jogo com a criança, que facilmente saia da realidade ao narrar seus feitos na escola. O jogo consistia no seguinte: propuseram à criança que à noite, durante o jantar, cada um diria uma verdade que ocorreu durante o dia, e também contaria uma história inventada. Assim, na tertúlia após o jantar, o pai contava como foi o seu dia de trabalho, e depois narrava uma história inventada; e o mesmo fazia a mãe. Ao chegar a vez da criança, ela misturava a história real com a inventada. Quando isso ocorria, os pais a interrogavam: − “Espere, isso que você está dizendo não pertence à história inventada?”. A criança refletia um pouco e se corrigia. Com isso, os pais, sem mencionar a palavra “mentira”, foram corrigindo a criança ao ensiná-la a separar os fatos reais daqueles que eram fruto da imaginação.

        No próximo boletim (Os defeitos das crianças – Parte 2) abordaremos os seguintes temas: “A mentira e a criança”, “A criança colérica” e a “Criança orgulhosa”.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base no livro “Os defeitos das crianças”, de J. Vimort, Editorial Aster, Lisboa, Portugal.