1 – Amar não é realização egocêntrica. 2 – Os três elementos do amor. 3 – Amar é querer. 4 – Amar é querer o bem. 5 – Querer o bem do outro, enquanto outro.
1 – Amar não é realização egocêntrica
“Enganar-se a respeito do amor é a perda mais terrível; é um dano eterno, para o qual não há compensação nem no tempo nem na eternidade!”, são palavras de Kierkegaard, escritas há mais de um século e meio, que continuam atuais. Já não sabemos o que significa amar e reduzimos essa palavra a um simples estímulo para o prazer, consumo de bens ou a autorrealização egocêntrica, espécie de “egoísmo a dois”. O amor consiste, embora não exclusivamente, num ato da vontade, firme e estável, que imprime uma fecunda tensão à pessoa inteira e permite descobrir e realizar o bem do ser amado.
Aristóteles disse que amar é “querer o bem do outro enquanto outro”. Por vezes, os pais dão às crianças um tablete ou celular, ainda quando são pequenas, não pensando no bem dos filhos, mas no sossego que terão, apesar de viciarem as crianças com o excesso de estímulos visuais, que as tornam passivas, sem iniciativas, preguiçosas e com perda da percepção da realidade.
2 – Os três elementos do amor
Segundo Aristóteles, são três os elementos que compõem a realidade do amor: a) querer; b) o bem; c) do outro enquanto outro. Fica claro para o filósofo que a coluna vertebral da ação amorosa está na vontade, no querer próprio do livre-arbítrio. Mas o amor não se esgota nisso, pois em sentido profundo é a pessoa toda que ama, desde os atos mais transcendentes, como a oração e o sacrifício pelo ser amado, como pelo conjunto progressivo do que virá a ser a vida conjugal e familiar, que passa pelos sentimentos e afetos que exteriorizam o carinho, até as questões aparentemente mais ínfimas, como o empenho de cada cônjuge por se mostrar elegante e atrativo ao outro; o esforço por sorrir e ser amável; a carícia ou o olhar de carinhoso, mesmo nos momentos de cansaço, nervosismo ou de desalento; ou ainda nos pequenos detalhes que tornam mais saborosos e entranháveis o retorno ao lar após um dia trabalho. Nesses pequenos detalhes se manifesta o amor que ilumina a vida cotidiana.
Amamos com tudo o que somos, sentimos e fazemos. Neste sentido, amar consiste em derramar o próprio ser por inteiro na promoção do ente querido. Mas a amplitude do amor é vasta e infinita suas ações, que vai desde a palavra ou o silêncio compreensivo, o trabalho intenso, a generosa disponibilidade para os filhos e amigos quando se anda escassos de tempo, o cuidado com a aparência própria e da casa onde se vive. São minúcias imperceptíveis e indispensáveis que se transformam em amor pleno, sincero e provado, e realizadas pela vontade ou um querer que busca de maneira nobre, franca e resoluta o bem da pessoa a quem se estima. O grau de amor que se coloca em cada afazer é que dará o maior ou menor valor às ações.
3 – Amar é querer
Amar é querer, sendo esse querer um ato da vontade e não dos sentimentos. Por isso, o amor não se esgota nas disjuntivas do “gosto” ou “não gosto”, “agrada-me” ou “desagrada-me”; nem se identifica com o puro e simples “atrai-me”, “interessa-me”, “apaixona-me” com que tantos − jovens e não tão jovens − justificam o seu comportamento. Essa simples atração dos sentimentos também a possuem os animais, sendo que o próprio do homem é o querer do livre-arbítrio. Os animais se movem por atração-repulsão instintiva, e buscam o seu bem estreito e exclusivo de uma maneira automática. Gostam daquilo que os beneficia a eles ou à sua espécie, e rejeitam aquilo que lhes é danoso. Tomás de Aquino descrevia assim essa realidade: “mais do que mover-se [os animais], são movidos” pelo objeto externo que os atrai ou repele; mais do que agir por iniciativa própria, são “levados a agir”.
O homem transcende as simples necessidades biológicas, sendo capaz de realizar ações que não se explicam de maneira nenhuma pelo mero impulso da sua conservação física: pode pôr entre parênteses os seus instintos ou tendências físicas ou apetitivas, e querer realizar uma ação boa em si mesma por mais que ela não o atraia pessoalmente, por mais que não lhe agrade nem desperte o seu interesse e até desagrade e repugne; ou, em sentido contrário, pode não querer uma ação, nem levá-la a cabo mesmo que esteja “morrendo” de desejo de realizá-la, ao perceber que esse ato não contribui para o bem dos outros.
Uma das realidades que manifesta de maneira mais clara a superioridade do homem sobre o animal – e que o distancia deste, segundo Pascal – é que, deixando de lado os seus gostos e apetites, quando as circunstâncias o exigem, o ser humano é capaz de conjugar em primeira pessoa o eu quero ou, se for o caso, o eu não quero, dotado às vezes de muito maior importância antropológica e ética. É o que diz também Julián Marías: “Quando nego que o amor seja um sentimento – identificá-los parece-me um grave erro, e talvez o mais difundido –, não nego a enorme importância que têm os sentimentos, incluídos os amorosos, que acompanham o amor e formam como que o séquito da sua realidade central; esta, porém, pertence a níveis mais profundos da pessoa: os da vontade (La educación sentimental, Alianza Editorial, Madrid, 1992, pág. 26).
Josemaria Escrivá comentou amplamente essa realidade. Num dos seus textos mais significativos, depois de deixar claro que o amor “não se confunde com uma atitude sentimental”, pergunta-se diretamente em que consiste o amor humano. E responde: “A Sagrada Escritura fala-nos de dilectio – dileção –, para que se compreenda bem que não se refere apenas ao afeto sensível. Exprime antes uma determinação firme da vontade. Dilectio deriva de electio, escolha. Eu acrescentaria que amar, em linguagem cristã, significa querer querer…” (em Amigos de Deus, Quadrante, São Paulo).
Portanto, distinguem-se três degraus para alcançar a substância mais pura do amor: negar que se trata de um simples sentimento, de um afeto sensível, embora não se deva excluir essa presença, se houver; depois, ressaltar o caráter ativo que qualifica o amor como determinação firme da vontade; por fim, potenciar a índole ativa por meio da “maior prerrogativa do ser humano do ponto de vista operativo”: a reflexividade da vontade, capaz de libertar energias volitivas quase que infinitas.
É pela vontade, pelo querer, que se superam os meros desejos, paixões ou afetos, e por onde o homem ultrapassa infinitamente o animal. Amar é um ato refinadamente humano, talvez o mais humano de todos. É um ato livre, portanto inteligente, sapientíssimo, decidido, audaz e vibrante, fonte de iniciativas criadoras, e por isso libertador e surpreendente, e por vezes esmagador e custoso, mas sempre desprendido, generoso, altruísta, liberal… Agostinho, Bispo de Hipona, disse “Naquele que se ama, ou não se sente a dificuldade ou se ama a mesma dificuldade (De bono viduitatis,21,26)
4 – Amar é querer o bem
O segundo elemento que define o amor é “querer o bem”, e ninguém duvida de que uma mãe ou um pai de família normais queiram o melhor para os seus filhos. No entanto, quando esses pais tentam determinar concretamente o que convém a um filho, em circunstâncias particulares, a questão já se torna mais complexa: que é realmente o bem para esse filho, aqui e agora? Em primeiro lugar, esse bem deve ser um bem para o beneficiado, e não um autoengano mais ou menos consciente e bastante difundido como um bem para o benfeitor. Pai e mãe que dão um prêmio a um filho, devem examinar se mais do que favorecê-lo, querem ficar “em paz” ao evitar o desconforto de um confronto com ele. Em segundo lugar, quando se ama alguém, é necessário que o bem oferecido seja um bem real, objetivo; algo que torne o beneficiário melhor, que faça do ser amado uma pessoa mais cabal, mais plena e perfeita; algo que o aproxime de uma maneira ou de outra do seu destino último, que é amar os outros e a Deus.
Deve-se procurar que a pessoa amada aprenda a amar de maneira mais sincera, profunda, intensa e eficaz, por meio das intervenções e dádivas recebidas. Entre essas dádivas, ocupa um lugar principal o esforço mental de quem doa por conhecer a fundo a pessoa que recebe a doação, a fim de descobrir o que mais convém a ela. Quando se ama de verdade a outra pessoa, procura-se por todos os meios que esta saiba ou aprenda também a amar mais e melhor aos demais (é um círculo virtuoso). No fundo, amar equivale a ensinar amar e facilitar o amor: amamos e fazemo-nos amar.
O melhor modo do marido amar a esposa (e vice-versa) é ser muito amável com ela, no sentido mais certeiro e penetrante da palavra; é facilitar ao cônjuge a tarefa de amar; é tornar-lhe simples e agradável o amor pelo outro e receber dele, sem entraves, o seu carinho; é não levantar barreiras que impeçam a entrega ao outro. Na hora da reconciliação, depois de um pequeno desentendimento, não se enquistar na própria posição, mas sair abertamente ao encontro do outro, e se tornar acessível e bem-disposto para que volte a depositar o afeto que havia retirado por se sentir ofendido, e corresponder com a mesma delicadeza àquele que se adiantou em pedir perdão. O mesmo acontece na convivência diária com os outros membros da família, amigos e conhecidos: facilitar o amor ao mostrar-se franco, próximo e disponível; estar pendente do outro e não se fazer áspero, esquivo, distante por encerra-se nos próprios problemas e ocupações ou entrincheirar-se no orgulho.
O filósofo Jean Guitton afirma que “O que o amor tem de admirável é que o serviço que prestamos a nós mesmos ao amar, também o prestamos ao outro amando-o; mais ainda, prestamo-lo pela segunda vez deixando-nos amar” (Ensayo sobre el amor humano, Ed. Sudamericana, Buenos Aires, 1968).
Ser amável, facilitar o amor, como modo sublime e supremo de amar, é sem dúvida uma conclusão reveladora. Pode-se afirmar sem receio de ser considerado ingênuo que o fim de toda a educação consiste em ensinar a pessoa do educando a amar, em fazer dele alguém interessado mais no bem dos outros do que no seu próprio. Em todas as tarefas educativas, de orientação familiar ou profissional, ao se tomar uma decisão mais ou menos complexa, o educador deve formular-se a pergunta: “Isto que vou sugerir ou proibir ao meu filho ou ao meu aluno, o modo como pretendo fazê-lo, o grau de liberdade que lhe concederei para divergir da minha opinião ou, pelo menos, para manifestar a sua, tudo isso o ajudará a amar mais e melhor os outros, ou, pelo contrário, o levará a encerrar-se em si mesmo, no seu «bem» míope e egoísta?”
A resposta à pergunta acima nunca será encontrada sem um esforço perspicaz e comprometido de todas as capacidades pessoais do educador, do conhecimento teórico que possui, e sem recorrer apenas à experiência de vida, a fim de acertar na decisão. Pode acontecer que certos pais tenham sérias dúvidas sobre a conveniência ou não de enviar a filha adolescente à Inglaterra ou aos Estados Unidos para aperfeiçoar-se na língua inglesa. Se por um lado há hoje em dia a necessidade de conhecer esse idioma, por outro ficam os perigos da solidão, da desadaptação e da desorientação que uma estadia fora de casa pode provocar, sobretudo quando se é muito jovem.
Diante dos aspectos negativos da viagem poderia surgir o argumento positivo de que contribuiria para o amadurecimento da jovem. Porém, a questão decisiva é outra, e a pergunta chave é: “se na situação anímica e de maturidade em que se encontra minha filha, a estadia no estrangeiro por um certo tempo poderá ajudá-la a amadurecer, a crescer em capacidade de amar, ou, pelo contrário, poderá introduzir no seu desenvolvimento uma deformação que atrase por muitos anos o seu crescimento como pessoa?”. Está é pergunta que os pais devem responder antes de tomar qualquer decisão. Podem, para isso, lançar mão de todos os recursos de sua inteligência e pedir conselho a pessoas sensatas e bem-informadas sobre o tema.
5 – Querer o bem do outro, enquanto outro
O outro enquanto outro é a chave do amor genuíno. Amar, na concepção mais nobre e certeira do termo, é procurar o bem do outro, e não o bem de quem oferece a dádiva: é para o outro, e não pelos benefícios mais ou menos materiais que a amizade pode proporcionar a quem doa, que poderia ser a de melhorar nas avaliações de desempenho na empresa, de facilitar a introdução em certo âmbito social, nem a de conseguir um bom trabalho para si ou outra pessoa… Também não há de ser pela satisfação que o relacionamento com os autênticos amigos traz. Nem sequer por tornar melhor a pessoa do que doa, ao dar maior consistência às suas virtudes. Apesar de que o bem e a felicidade não devem ser rejeitados àquele que doa, pois isso seria inumano, o fim primordial do amor é procurar o bem do outro, enquanto outro.
Trata-se de amar o “outro” unicamente por ser “outro”, porque é pessoa e só por esse motivo torna-se merecedor de amor; e acima de tudo porque Deus o ama e quer manter com ele um colóquio de afeto apaixonado por toda a eternidade, entregando-lhe, justamente através de um amor recíproco e inteligente, o mais imenso dos bens: Ele mesmo. E quem somos para pôr em dúvida os planos do próprio Deus?
Texto extraído e adaptado por Ari Esteves com base na obra “O que significa amar?”, de Tomás Melendo, Quadrante, São Paulo, 2006, tradução: Henrique Elfes. Imagem de Lurill Lalmin.