1 – A importância das medidas disciplinares. 2 – Ter sempre uma medida disciplinar preparada. 3 – Tipos de medidas disciplinares. 4 – Planejar com antecedência a medida corretiva. 5 – Filhos põem à prova a ordem dos pais. 6 – Mais algumas orientações sobre as medidas disciplinares.
1 – A importância das medidas disciplinares
As medidas disciplinares não podem ser confundidas com autoritarismos, violências, agressividades, imposições arbitrárias. A criança deve ser tratada com carinho, respeito e ser estimulada, com a paciência e perseverança dos pais, a fazer o que deve ser feito. As medidas disciplinares, como em qualquer sociedade (Estado, empresas e demais instituições, incluindo a família), devem funcionar como indicações que orientam as ações para o bem da pessoa e dos demais (leis de trânsito, por exemplo). Quando há um desrespeito pelo incumprimento dessas orientações, segue-se uma prudente medida de correção a fim de reparar a justiça que foi quebrada.
Dentro da família, por vezes, não será suficiente que os pais mostrem a importância de se cumprir determinadas condutas, pois a criança, mesmo sabendo o que deveria ser feito, poderá agir de modo contrário por desordem ou anarquia. Se a conversa carinhosa e clara para que se corrija não deu resultado, a criança deve ser informada com antecedência que, se voltar a repetir a ação, qual medida disciplinar será aplicada para que policie seus atos. Isso porque há ações que devem ser corrigidas: se quebrou deve consertar, se sujou deve limpar, se tirou nota baixa na escola deve estudar, se bagunçou deve arrumar, se foi malcriado deve pedir desculpa…
Os filhos devem concluir que a má conduta não será bem-vinda. Para isso, as vias de fato são mais eloquentes do que as palavras, a fim de que policiem seus atos, tal como para os adultos agem diante de multas de trânsito e juros por atraso de pagamento. Se a mãe disser ao filho que não é hora de assistir desenho, mas de arrumar o quarto e os brinquedos, e este responder que continuará com a TV, ela deve ultimar com calma, sem gritar: − “Já sabe a regra: ficará sem desenhos hoje e amanhã se não arrumar seus brinquedos agora” ou − “Só descerá para o futebol depois que fizer a lição da escola”. Deixar de exigir o que é correto permite que os filhos se tornem escravos de seus caprichos.
2 – Ter sempre uma medida disciplinar preparada
A criança deve concluir que seus pais têm sempre uma medida disciplinar prevista. Por exemplo, há visitas em casa para o jantar, e o pai percebe que a filha de quatro anos está cansada e irritada, e pede a ela que vá dormir. O pai insiste, mas ela desobedece. Por que a menina agiu teimosamente? Porque o pai não tem autoridade e ela sabe que nada acontecerá.
Antes de impor uma medida corretiva, é importante se assegurar que a criança ouviu e entendeu a indicação, e mesmo assim desobedeceu. A medida deverá ser proporcional à conduta a ser corrigida: nem exagerada nem fraca como ir para o quarto com o notebook. Se a mesma medida deve ser aplicada a dois filhos, é prudente que cumpram em lugares separados.
3 – Tipos de medidas disciplinares
A medida disciplinar deve ser a via necessária para reparar um mau comportamento, e não capricho dos pais. Não teria sentido uma disposição que impedisse de fazer algo bom e útil como realizar exercícios físicos, ler, estudar, visitar um amigo doente…
A determinação deve desagradar, mas com a lógica de reparar uma insubordinação: isolar no quarto ou local chato por um período; retirar temporariamente a atividade prazerosa que leva a descumprir as obrigações: playground do prédio, tv, tablete, desenhos, futebol, games; não sair no fim de semana; retirar por um dia o aparelho de som da filha que insiste em manter o volume alto; se quebrou de propósito o brinquedo do irmão deve pagar pelo conserto com a própria mesada ou dar um dos seus brinquedos. Por vezes a correção deverá prolongar-se no tempo como consequência de um fraco resultado escolar, tal como limitar as saídas durante uma temporada, mas sem perder de vista que o objetivo é facilitar os meios para estudar, já que não teria sentido ficar bestando pela casa.
Não se deve chegar às vias de fato, como bater ou golpear, pois prejudicam física e psicologicamente a criança, que jamais esquecerá a agressividade para com ela: beliscar, empurrar, gritar, puxar os cabelos… A ação física de segurar suavemente o braço da criança e levá-la até o local da bagunça para arrumar é cabível, mas sem palavras grosseiras, sem aumentar o tom de voz, sem intimidar. Há mães que em último caso aplicam uma leve palmada no bumbum, mas informam com antecedência à criança que farão isso para dar a entender que tal medida não ocorrerá por ira ou descontrole.
4 – Planejar com antecedência a medida corretiva
Conduz melhor quem vai adiante e não atrás das peripécias. Não esperar que filho ignore a ordem para depois improvisar o castigo. O garoto de 12 anos tinha a indicação de voltar para casa às 20h, mas chegou às 23h. O pai, enfurecido, gritou e o chamou de vadio e disse que durante quinze dias só sairia para ir ao colégio. Na mesma semana ele suspendeu a medida porque a mãe não aguentava mais a atrapalhação e as reclamações do garoto sem rumo pela casa.
Os pais devem combinar antes sobre as correções que serão aplicadas aos filhos, a fim de não inventar no momento da ocorrência do fato que a reclama, pois medidas irrefletidas, feitas de bate-pronto, costumam ser injustas, exageradas. Caso um dos cônjuges não concorde com a correção aplicada pelo outro, nunca deve desautorizá-lo diante dos filhos, mas conversar com ele a sós.
Se o garoto assiste desenho e o pai pede que desligue a TV e se apronte para a escola, é quase certo que a indicação será descumprida se o pimpolho perceber que terá tempo suficiente para vestir-se ao fim da animação. O pai deveria perguntar antes sobre o tempo que faltava e pedir para desligar discorrido esse tempo.
O filho deve ser informado que a correção será um bem para ele, e o preço que desejou pagar ao assumir as consequências de sua má conduta. Por exemplo, a família está reunida na sala para ler, mas o garoto incomoda a todos com o barulho da corneta de plástico. O pai, que já havia pedido com carinho e respeito para que brincasse em silêncio, diz: − “Havia dito que você ficaria no quarto até o jantar, se não parasse com esse barulho. Portanto, vá”. Mas onde está o bem dessa medida para o garoto? Está em aprender a respeitar os demais ao não ser inconveniente.
5 – Filhos põem à prova a ordem dos pais
Para saber se os pais falam a sério, os filhos testam a ordem recebida ao pensar “Se eu protestar eles vão ceder”. A intenção é manipular os pais a fim de que desistam da indicação. Para isso utilizam vários mecanismos: chorar é sempre um êxito, como também repetir nervosamente “não vou, não vou”, “não quero, não quero”, “me dá, me dá”. O show de se jogar no chão e espernear para constranger os pais é sucesso garantido; ou discutir com raciocínios de lógica aparente: “Sempre eu, sempre eu; nunca o meu irmão” ou desafiar com um “duvido!”, “não vou”, “não faço”. Os pais devem manter-se calmos e firmes para que os filhos encontrem neles um muro inalterável chamado “determinação”, pois só assim controlarão seus histerismos. Ceder habilita a criança a não mudar de atitude.
Se a filha não quer compreender de modo delicado acerca da necessidade de ajudar nas tarefas do lar, e teimar sem razão que não lavará a louça, a mãe, sendo uma autoridade em casa, poderá cominar a medida de deixá-la sem TV ou sem ir à casa da prima no sábado, planos apreciados pela menina. A certeza de que sua determinada mãe cumprirá o prometido a fará abandonar sua caturrice. Os pais quando estão com razão não devem temer zanga de filhos, que duram poucas horas.
Com a finalidade de desconcertar, a criança diz que não liga para a medida corretiva, a fim de que os pais pensem que nada funciona com ela, durona na queda. Papo furado! Não acreditem nessa postura, pois entre os humanos as crianças são as que mais se importam com a retirada de privilégios. Exemplo: − “Beatriz, se não terminar seus deveres não irá ver televisão hoje”. A filha responde: -“E daí? Tudo bem!”. A mãe, que havia pensado antecipadamente na melhor medida corretiva, disse: − “Ótimo, a escolha foi sua: ficará sem TV hoje”. A filha imediatamente retrucou: − “Mas e a minha novela?” A mãe: − “Você disse que não se importava. A escolha foi sua, querida. Se quer assistir, termine os deveres”. A filha respondeu: − “Tá bom, já faço”. E a mãe elogiou-a: − “Ótimo, meu amor, sua escolha me alegra!”.
6 – Mais algumas orientações sobre as medidas disciplinares
Não recorde uma indisciplina
Aplicada a medida disciplinar encerre o assunto. Dizer “Não me faça mais aquilo do outro dia” revela um pai rancoroso que não sabe esquecer ou perdoar, e que pouco acredita na melhora do filho.
Não anunciar uma medida que não pode ser exigida
A mãe, desde o carro e diante da escola, aguarda o filho. Porém, chateia-se pela demora dele, que conversa com amigos junto à porta, e diz: − “Se não vier agora irá a pé para casa”. O garoto responde: − “Tubo bem, vou caminhando…”. Confusa, a mãe não cumpre o indicado porque residem distante. Com isso, ficou desautorizada.
Substituir a correção que não causou efeito
A medida corretiva que não produziu efeito deve ser substituída por outra mais adequada. Se os irmãos querem estudar e o caçula faz barulho com a metralhadora de plástico, não terá efeito apenas retirar o brinquedo porque pegaria outro também barulhento, como já ocorrera. Então a mãe dirá: − “Se quiser brincar aqui não faça barulho ou ficará no quarto até a hora do jantar”.
Aplicar logo a correção
“O tacho se limpa enquanto está quente”, diz o ditado. Corrigir um fato passado já esquecido surte pouco efeito, além de causar estranheza. Por isso, aplicar o quanto antes a sanção, sem nunca suspendê-la, revela que os pais, sempre carinhosos, agem prontamente e com justiça, além de que sempre falam a sério e não mudam de parecer ao exigir que se cumpra a determinação. Isso não quer dizer que a correção não possa recair sobre algo que o filho planeja fazer no fim de semana; porém, a punição fora determinada no momento da indisciplina.
Não dar uma ordem e ignorar seu incumprimento
A filha deixou molhado o chão do banheiro e a mãe pediu várias vezes que fosse secá-lo. Ao ver que a menina permaneceu lendo no sofá, se calou como se nada tivesse acontecido. Com isso, desautorizou-se porque deu a entender que suas indicações não precisam ser atendidas e não possuem valor. Com isso, permitiu que a adolescente se mantivesse na sua preguiça, desobediência e pouco interesse por quem fosse depois banhar-se. A ação assertiva da mãe seria ir até a filha, sentar-se ao lado dela, reiterar a ordem com calma e anunciar uma medida corretiva, caso viesse a desobedecer.
Se no parque o filho bateu num menino e o pai afirmou que se tornasse a fazê-lo voltaria imediatamente para casa, deverá cumprir a indicação se a má ação venha a ser reiterada, mesmo que o pirralho venha a protestar com berros e esperneio sobre a grama. Com isso, deixará de ser agressivo com outras crianças em seus passeios.
Fazer vista grossa não educa
A mãe recebe em casa sua amiga, mas no quarto o filho mantém alto volume o aparelho de som. A visitante exclama: − “Nossa, como você aguenta esse ruído?”. A mãe, desanimada, responde: − “Cansei de pedir para baixar. Não me ouve nunca. É como falar com a parede”. Tal desabafo revelou a pouca autoridade e a fraqueza de quem desistiu de sua missão.
Correções em forma de pergunta não funcionam
A autoridade se constrói com carinho e assertividade, que é falar claro e com bons modos. Porém, longe disso estão as indicações em forma de pergunta:
“Por que se comporta mal comigo?” ou “Por que não liga para o que eu falo?”. São perguntas que ficarão sem respostas porque a criança não sabe explicar o motivo do seu comportamento, e apenas balançará os ombros deixando tudo em águas de bacalhau.
Indicações em forma de súplica também não funcionam
Pedir algo em tom de súplica não é boa prática. Se a mãe diz ao filho que vá dormir, pois é a hora, e este responde que não tem sono, e ela apela para a súplica ou compaixão do tipo “Mas é tarde e eu estou cansada. Por favor, vá se deitar”, revela fraqueza e empodera a criança, que desconhece o significado do cansaço de um adulto, o que torna insuficiente essa razão. Importa dizer o verdadeiro motivo de dormir e levantar-se no horário: trata-se de questão de ordem e de disciplina familiar, de respeito ao trabalho da mãe e da funcionária da casa, além de exigir que o filho viva uma rotina a fim de atender suas obrigações.
Texto produzido por Ari Esteves, inspirado na obra “Carinho e firmeza com os filhos”, de Alexander Lyfor-Pike, Editora Quadrante, 2015, São Paulo.